segunda-feira, 13 de março de 2017

O Caminho da Beleza 17 - III Domingo da Quaresma

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?

(Ml 2, 10)

III Domingo da Quaresma                 19.03.2017
Ex 17, 3-7                 Rm 5, 1-2.5-8                    Jo 4, 5-42


ESCUTAR

“Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?” (Ex 17, 3).

A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5, 5).

“Dá-me de beber” (Jo 4, 7).


MEDITAR

O que farás, Deus, se eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se eu quebrar?)
Eu sou teu poço (e se eu estagnar?)
Sou teu hábito e teu ofício.
Sem mim perdes o teu sentido.

Sem mim não terás casa, onde
palavras, íntimas e quentes, te abriguem,
Cairá de teus pés cansados
a sandália macia que eu sou.

Teu grande manto te cairá.
Teu olhar, que minha face acolhe,
quente como um travesseiro,
virá de longe me procurar
e ao pôr do sol se aninhará entre
estranhas pedras.

O que farás, Deus? Tenho medo.

(Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas).


ORAR

Nas Escrituras Sagradas, os poços e as fontes são lugares de reencontro e aliança entre os homens e Deus. Em todas as tradições religiosas, as águas são fonte de vida, meios de purificação e o seu aspecto inesgotável responde pela metáfora da abundância. No casamento, o êxtase é comparado ao beber da própria água: “Bebe a água de tua cisterna, bebe abundantemente de teu poço. Seja bendita a tua fonte, exulta com a esposa de tua juventude: cerva querida, gazela formosa, que suas carícias sempre te embriaguem, e constantemente te arrebate seu amor” (Pr 5, 15.18-19). O testemunho de Jesus nas suas andanças é ir ao encontro dos outros com a liberdade que brotava dentro dele como um rio de água viva. Jesus encontra a samaritana que cumpre a obrigação de buscar a água estagnada do poço. Jesus não condena a samaritana e faz com que descubra a alegria acima do prazer, o valor pessoal acima da beleza física e a dignidade acima da capacidade de seduzir. Mas como vivenciar o encontro pessoal com Jesus se nos contentamos com as informações pasteurizadas das redes sociais e não somos mais pessoas originais, mas empreendedores de nós mesmos? Se a nossa espiritualidade está abarrotada com as fáceis palavras dos livros de autoajuda e chamamos de meditação os mantras dos slogans religiosos que consumimos a torto e a direito? Somos a geração que foge dos encontros pessoais e mergulhamos no fast food religioso das palavras de efeito. O encontro com a samaritana desvela o longo processo ao qual devemos nos configurar e pelo qual passa o caminho da fé. A samaritana carrega uma angústia e quanto maior esta angústia maior é a sensação do vazio. Jesus quer aniquilar este vazio e se identifica com ela: está cansado e com sede. O diálogo de Jesus não é para vencer uma disputa, pois Deus não está na derrota do outro. Nesta derrota faz morada apenas o narcisismo de quem se toma com referência última de todas as coisas. Meditemos as palavras de Abbé Pierre: “a fraternidade não é outra coisa do que um deslumbramento partilhado”.


CONTEMPLAR

S. Título, c. 1996 Henning Christoph (1944-), Grimma, Alemanha. A foto está em Voodoo, Secret Power in Africa: Köln, Taschen, 1996, p.99.






segunda-feira, 6 de março de 2017

O Caminho da Beleza 16 - II Domingo da Quaresma

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

II Domingo da Quaresma                   12.03.2017
Gn 12, 1-4                2 Tm 1, 8-10                       Mt 17, 1-9


ESCUTAR

O Senhor disse a Abrão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa de teu pai e vai para a terra que eu vou te mostrar” (Gn 12, 1).

Caríssimo, sofre comigo pelo evangelho, fortificado pelo poder de Deus (2 Tm 1, 8).

“Levantai-vos e não tenhais medo” (Mt 17, 7).


MEDITAR

Tu que iluminas a terra
e seus habitantes com misericórdia,
e que na tua bondade renovas sempre,
a cada dia, a obra da criação...
Deus eterno, na tua grande misericórdia
tem compaixão de nós,
Senhor da nossa força,
rocha do nosso abrigo,
escudo da nossa salvação,
nosso único refúgio.

Bendito és tu, Senhor,
que formas os luminares.

(Formador da Luz, Yoser’or, Judaísmo)


ORAR

Temos que ler os Evangelhos para buscar o esplendor da Vida e a Vida Eterna. Quando o Senhor chama, arranca todas as seguranças e nos tira do conforto em que nos movemos. A fé é uma viagem, uma travessia interminável e nosso vínculo com o Senhor é mantido no meio de uma série de rupturas, pois Ele não nos alimenta de certezas, mas de promessas; não oferece conquistas, mas bênçãos. A realidade apresentada é um caminho que nunca termina. Se Abrão aparece como um nômade desgarrado, Pedro emerge com uma fé sedentária protegida numa tenda. O cristão caminha esperando e espera caminhando, pois somos chamados a partir e a nos comprometer com uma travessia. Só poderemos escutar Jesus seguindo-O. Ele é um mestre itinerante: caminha e aprenderás, caminha e verás, caminha e descobrirás. É no caminho com Ele que nos transfiguramos e vamos além de um bronzeado espiritual. Pedro deseja prolongar a experiência da Luz e não tem pressa para sair. Jesus nos revela que basta um instante para fixar, na eternidade, a face de todo ser humano apesar da banalidade do cotidiano em que vivemos, pois “todo homem é uma história sagrada” (Jean Vanier). Basta do apego a um passado idílico em que nos movemos mais com um instinto de conservação do que de renovação. A misericórdia está acima de tudo e a Igreja de Jesus não recebe um ministério de julgamento e condenação, mas o ministério da reconciliação. Jesus nos apela a não termos medo e o encontro pessoal com Ele nos liberta de todos os medos, apruma as vértebras e nos mantém de pé. É preciso aprender a ouvir o Bem Amado escondido na gruta secreta do nosso coração e pronto para se deixar transfigurar. Basta um olhar de ternura: este é o olhar que nos salva, pois é o olhar do Cristo na face de todos os viventes.


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Folha em Ardósia, Jim Brandenburg (1945-), Minnesota, Estados Unidos. Acessado em http://www.jimbrandenburg.com/



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Caminho da Beleza 15 - I Domingo da Quaresma

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

I Domingo da Quaresma                     05.03.2017
Gn 2, 7-9; 3, 1-7                Rm 5, 12-19                                   Mt 4, 1-11


ESCUTAR

Então, os olhos dos dois se abriram; e, vendo que estavam nus, teceram tangas para si com folhas de figueira (Gn 3, 7).

O dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos (Rm 5, 15).

“Não tentarás o Senhor teu Deus!” (Mt 4, 7).


MEDITAR

A fala é divinamente exata,
Convém ser exato para com ela.
A língua que falsifica a palavra
Vicia o sangue daquele que mente.
(Provérbio do ritual Komo, da tradição Bambara, do Mali, África).

ORAR

As tentações do deserto propõem caminhos alternativos reduzidos a um messianismo triunfalista e terreno. A primeira, é reduzir o homem ao seu estômago; a segunda, é lhe conferir o poder de impressionar para a publicidade, a teatralidade e a ostentação. É a tentação da imagem exacerbada de um milagrismo tosco, de mal gosto, que longe de ser uma expressão de fé é uma caricatura da verdadeira relação com Deus. A terceira, é conferir toda a força e poder às relações políticas e religiosas. O primeiro caminho é o da facilidade; o segundo, o da superficialidade e o terceiro, o da contaminação pelas idolatrias e falsas seguranças. É diabólico organizar a religião para nos acomodar. Não se constrói um mundo mais humano refugiando-se cada um na sua própria religião. A tentação é colocar-se à prova, mas também uma armadilha para nos aprisionar. O deserto (eremos) é o lugar de refúgio e solidão para Jesus e é o Espírito que o conduz para ser tentado. É no deserto que Jesus se derrama em abundância sobre todos. Na tentação do deserto, Satã se apresenta como exegeta para Jesus. Ele interpreta as Escrituras para que Ele se acomode, mas o Espírito sopra uma outra exegese: a Palavra não é dada para se exigir milagres, mas para revelar aos homens o milagre que ele é. Ainda procuramos não tanto Deus quanto os milagres. “Esta geração adultera e perversa procura um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado” (Mt 16, 4). As tentações do Cujo representam entediantes variações sobre pouquíssimos temas muito velhos e aborrecidos. Desde o Gênesis, os homens se omitem em comer o fruto da árvore da Vida que simboliza a aspiração à Vida Eterna. Seu pecado é o da omissão de viver e correr riscos livremente. “Existem três forças, as únicas três forças na terra capaz de vencer e cativar para sempre a consciência desses rebeldes fracos para sua própria felicidade: essas forças são o milagre, o mistério e a autoridade” (Lenda do Grande Inquisidor, Dostoiévski). Entregamos a nossa liberdade a qualquer instituição que nos ofereça segurança e proteção e, como a serpente, decida por nós. E nos tornamos “doidos sem cura” (Guimarães Rosa), mas o Cristo nos liberta desta loucura mundana que nos despersonaliza, pois “o demônio não existe real. Deus é que deixa afinar à vontade o instrumento, até que chegue a hora de se dançar” (Grande Sertão, Veredas).


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Poste de Cerca, 2014, Matt Black (1970-), Magnum Photos, Allensworth, Califórnia, Estados Unidos.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Caminho da Beleza 14 - VIII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

VIII Domingo do Tempo Comum                26.02.2017
Is 49, 14-15             1 Cor 4, 1-5             Mt 6, 24-34


ESCUTAR

Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti (Is 49, 15).

Aguardai que o Senhor venha. Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações (1 Cor 4, 5).

“Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus problemas” (Mt 6, 34).


MEDITAR

O homem jovem come a carne, o homem maduro come o coração (Provérbio Massango, Gabão, África).


ORAR

Na liturgia deste domingo são oferecidas três imagens de Deus (mãe, pai e juiz) e uma grande dúvida: “O Senhor abandonou-me, o Senhor se esqueceu de mim”. A resposta é imediata: uma mãe não esquece jamais do seu filho, pois a memória materna é expressa pela comoção, no sobressalto das entranhas, e sempre leva, ainda que adulto e distante, o seu filho no seio e no coração. O Senhor empenha a sua palavra: “Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti”. Somos nós que nos separamos de Deus, pois estamos tão preocupados com nossa estabilidade material que temos dificuldade em nos abandonar à Providência Divina. Servimos mais ao dinheiro do que a Deus e Mamon tem vencido no mundo por meio da nossa idolatria e falsa segurança. Os filhos de Mamon se contentam com os pingos de água benta que são jogados em seus estabelecimentos, criados para a acumulação, e apaziguam as consciências com um cheque oferecido aos que pensam abençoá-los em nome de Deus. O dinheiro se torna um ídolo quando se aninha no coração dos homens e a nossa falta de fé dificulta, arduamente, compreender a Providência de Deus. Jesus nos convida a ter a coragem de arriscar, experimentar, confiar, em suma, crer. Jesus utiliza o verbo douleyein que significa, literalmente, servir como escravo. Somos desafiados a decidir a quem serviremos: à gratuidade de Deus ou à ganância do dinheiro. A primeira, leva-nos ao encontro e ao coração dos outros; a segunda nos conduz à decomposição e à insensibilidade diante da dor das vítimas de Mamon. O papa Francisco escreveu: “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e impiedosa versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem uma meta verdadeiramente humana”. O dinheiro, com sua ambição desenfreada que nos domina, “é o esterco do diabo”, como dizia Basílio de Cesareia. Ele divide e coloca irmão contra irmão, mãe contra filho, filha contra pai e destrói a cada um, sem exceção. O Senhor nos livre desta maldição!


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S. Título, anônimo, Indonésia, acessado em Pinterest, 04.01.2017.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O Caminho da Beleza 13 - VII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

VII Domingo do Tempo Comum                  19.02.2017
Lv 19, 1-2.17-18                 1 Cor 3, 16-23                    Mt 5, 38-48


ESCUTAR

“Não tenhas no coração ódio contra teu irmão. Repreende o teu próximo, para não te tornares culpado de pecado por causa dele” (Lv 19, 17).

Irmãos, acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós? (1 Cor 3, 16).

“Eu, porém, vos digo, amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!” (Mt 5, 44).


MEDITAR

Eu vi meu Senhor com o olho do coração. E perguntei: Quem és Tu? Ele respondeu: Tu.

(Al-Hallaj, 888-922, Islamismo)


ORAR

Somos igrejas vivas e por esta razão todo gesto é sagrado; cada passo é o de um templo que se move e somos santuários itinerantes e romeiros. A sabedoria mundana jamais chegará a roçar a sabedoria de Deus e só conseguirá alcançá-la pela loucura, que é a vocação específica do cristão. São Francisco de Assis pregava: “Cristo me chamou idiota e simplório e me disse: Quero que sejas um novo louco no mundo para que, com obras e palavras, pregues a loucura da Cruz”. Não podemos continuar a viver a mesmice de sempre quando somos chamados Templo de Deus e convocados a ser santos como Deus. O alimento que nos é oferecido pode ser tornar indigesto: “Estas palavras são duras, quem poderá escutá-las” (Jo 6, 60). A vocação do cristão é para o extraordinário, para o que vai mais além do possível. Bonhoeffer escreveu: “Onde não existe o extraordinário não há nada de cristão”. O cristão se faz visível na sua liberdade de trocar o certo pelo duvidoso. O melhor critério para verificar o amor cristão não são as manifestações sensíveis dos sentimentos, mas a solicitude para com o bem do outro. Um serviço humilde ao necessitado encerra, quase sempre, mais amor que muitas palavras efusivas. Temos sido forçados a alimentar o consumismo, espiritual e material, como filosofia de vida e provocado em nós uma espiral insaciável de necessidades artificiais que esvaziam o espírito da sensibilidade comunitária. Estimulamos o culto ao dinheiro como o único deus que nos oferece segurança, poder e felicidade. O cristianismo não é uma forma de auto realização. Jesus não era Narciso. Acolher o Evangelho pressupõe que renunciemos a nós mesmos e que nossos corações não se curvem sobre si mesmos. O Evangelho de Jesus Cristo não é concêntrico, mas excêntrico. O Papa Francisco exorta: “A Igreja ‘em saída’ é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido. Muitas vezes, é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho” (EG 46).


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Menina lendo a Ebony Magazine, 1947, Wayne Miller (1918-2013), Magnum Photos, Chicago, Illinois, Estados Unidos.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O Caminho da Beleza 12 - VI Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?

(Ml 2, 10)

VI Domingo do Tempo Comum                   12.02.2017
Eclo 15, 16-21                    1 Cor 2, 6-10                      Mt 5, 17-37


ESCUTAR

Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás (Eclo 15, 16).

“O que Deus preparou para os que amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu” (1 Cor 2, 9).

“Porque eu vos digo, se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus” (Mt 5, 20).


MEDITAR

Sem se deixar abater pela adversidade,
Sem ansiar pela felicidade:
Livre do medo e da ira,
Livre das malhas do desejo.
Eu o chamo de vidente, e iluminado...

...A água flui continuamente para o mar,
Mas o mar jamais se deixa perturbar:
O desejo flui para a mente do vidente,
Mas ele jamais se deixa perturbar.
O vidente conhece a paz:
O homem que estimula sua própria luxúria
Jamais poderá conhecer a paz.
Ele conhece a paz quando esqueceu o desejo.
Ele vive sem anseios:
Livre do ego, livre do orgulho.
...Ele está vivo nessa iluminação:
Brahman e ele são um.

(Krishna, Hinduísmo)


ORAR

O Evangelho é sempre um chamado à liberdade, nunca se apresenta como um imperativo, mas como um convite à dinâmica da bem-aventurança. Sem resignação, a nós é dado o poder de decidir e eleger a nossa travessia para saltarmos fora da vulgaridade de uma existência sem cor e sem sabor. Não decidir é ser morno e isso é uma maldição, pois seremos vomitados por Deus (Ap 3, 16). As palavras de Jesus são como fogo e somos livres para recusá-las, mas não devemos alimentar ilusões que podemos com elas negociar, obter descontos, minimizar e dulcificar. Jesus usava palavras duras para falar de realidades severas. É isso o que o amor faz. O oposto é bajulação (John Piper, pastor batista). A dinâmica do Evangelho é a de compreender, colocar as coisas às claras; praticar os mandamentos sem burlá-los e transmiti-los como são aos outros. Jesus veio dar plenitude à Lei levando-a às últimas consequências. Ele é radical para que sejam evitadas as deformações do legalismo e da casuística. Os cristãos são homens da totalidade e não das minúcias. Jesus denuncia o equívoco do formalismo, pois não Lhe interessa a observância disciplinar para que tudo esteja conforme às regras: “O sábado foi feito para o homem” (Mc 2, 27). Jesus chama o pecado de sopro contaminado porque se aloja no mais íntimo do coração. Nossa entrega aos outros deve ser total, sem ranhuras ou fissuras. Devemos escolher entre a moral corrente dominante ou a ética do Cristo: a de uma sabedoria escondida que nos abre aos desígnios de Deus que nos ama em abundância. Jesus deseja que sejamos plenamente humanos e para tanto devemos eliminar a cobiça e toda a forma de juramento para que não comprometamos Deus com testemunhos vacilantes ao dizermos mas não cumprirmos. Afinal, o Pai não é Aquele que deve suprir a falta de credibilidade enraizada em nós mesmos, mas Aquele que afirma: “seja o vosso ‘sim’ sim, e o vosso ‘não’ não”.


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S. Título, rio Zanskar no Himalaia, Olivier Föllmi (1958-), do livro Le Fleuve Gelé, 1990, Saint-Julien-en- Genevois, França.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Caminho da Beleza 11 - V Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

V Domingo do Tempo Comum                     05.02.2017
Is 58, 7-10               1 Cor 2, 1-5             Mt 5, 13-16


ESCUTAR

Se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia (Is 58, 10).

A minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria...para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens (1 Cor 2, 5).

Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso pai que está nos céus (Mt 5, 16).


MEDITAR

Ma-tsu, na época, morava no mosteiro e estava sempre absorto em meditação. Seu Mestre, consciente de sua capacidade extraordinária,... perguntou-lhe:
--- Com que objetivo você está sentado em meditação?
--- Quero tornar-me um Buda. --- Mat-su respondeu.
Ouvindo isso, o Mestre pegou uma telha e pôs-se a esfregá-la em uma pedra.
--- O que está fazendo, Mestre? --- Mat-su perguntou.
--- Estou polindo esta telha para fazer um espelho --- replicou Huai-jang.
--- Como você pode fazer um espelho polindo uma telha? --- exclamou Ma-tsu.
--- Como alguém pode se tornar um Buda permanecendo sentado em meditação? --- contrapôs o Mestre.

(Zen-Budismo)


ORAR

O tema da luz é dominante na liturgia de hoje. A luz brilha a partir de gestos concretos como a casa que abriga, a esperança restaurada, a preocupação com a dor alheia e o pão sempre repartido. A luz brilha quando nos abstemos da maledicência, das fraudes e das difamações. A luz só pode ser oferecida aos outros pela modéstia e pela delicadeza. A sabedoria de Deus está na loucura da Cruz e está intimamente ligada ao sal e à luz. O sal que não perde o sabor e evita o apodrecimento é como a loucura dos paradoxos evangélicos e para sermos a luz do mundo não devemos ter a pretensão de brilhar com luz própria, mas desterrar a banalidade e a obscuridade com uma migalha abundante de loucura. A salvação da humanidade está na aparição do Homo Demens, daquele que sai da casca da racionalidade, do cálculo, das prudências táticas, do justo meio e empreende, decididamente, o caminho do exagero, do excesso e da provocação. O cristão é o homo demens, por excelência. O papa Francisco nos convoca a fazer confusão, a sair da acomodação, para nos desinstalarmos e nos colocarmos a caminho. O Cristo anuncia: “Vim para que tenham vida, mas vida em abundância” (Jo 10, 10). O mundo não precisa de beatos de pescoço retorcido, nem de intelectuais refinados, mas de homens e mulheres entusiasmados, cheios de Deus, loucos capazes de realizar gestos insólitos, surpreendentes pela sua ousadia e escandalosos na sua liberdade. As bem-aventuranças são uma desconcertante sinfonia dos loucos e a expressão mais perfeita da loucura evangélica. O cristianismo está doente de rigidez, de compostura, de prumo e de sisudez. “Os seus o ouvem e saem para agarrá-lo. Sim, eles dizem: Ele está fora de si” (Mc 3, 21). Perdemos a alegria, o encantamento e o arrebatamento que nos traz a descoberta do amor fraterno. Todos os que procuram viver do amor cristão ardem entre Deus e o mundo, com Deus para o mundo, como representantes do mundo para Deus, e ardem sempre no interior da Comunhão dos Santos (cf. Balthasar). Não somos embalsamadores de múmias e nem cegos que guiam outros cegos. O Cristo nos chama a estarmos presentes na sociedade pelo testemunho pessoal e pela acolhida das pessoas. O Cristo despreza a presença chamativa dos nossos templos, santuários e catedrais; vira o rosto para os nossos rituais espetaculares que enchem os olhos e amortecem os espíritos; sorri, sem graça, para as concentrações massivas de padres, bispos, cardeais que ostentam o impactante poder, mas estão exilados da realidade das ruas, dos becos e das praças. Jesus vai mais ao fundo da vida onde o sal e a luz jamais se ocultam e nem se dissimulam, pois é a força da vida que brota em nós, em Espírito e em Verdade, que convence e seduz.

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S. Título, anônimo, acessado em pt.pinterest.com