terça-feira, 19 de junho de 2018

O Caminho da Beleza 31 - Natividade de São João Batista


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

Natividade de São João Batista                   24.06.2018
Is 49, 1-6                 At 13, 22-26                       Lc 1, 57-66.80


ESCUTAR

O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome; fez de minha palavra uma espada afiada (Is 49, 1-2).

“Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede, depois de mim vem aquele do qual nem mereço desamarrar as sandálias” (At 13, 25).

“O que virá a ser este menino?” (Lc 1, 66).


MEDITAR

Seria de volta na Galileia, entre seu próprio povo, que Jesus vestiria totalmente o manto de João e começaria a pregar sobre o Reino de Deus e o julgamento que estava por vir. No entanto, Jesus não simplesmente imitava João. Sua mensagem seria muito mais revolucionária, sua concepção do reino de Deus muito mais radical, e seu senso sobre a própria identidade e missão muito mais perigoso do que qualquer coisa que João Batista pudesse ter concebido. João pode ter batizado com água. Mas Jesus batizaria com o Espírito Santo. O Espírito Santo e o fogo.

(Reza Azlan, 1972-, Irã)


ORAR

            A velha Isabel colocou no mundo o último dos profetas e Maria, uma jovem filha, o Senhor dos anjos. A filha de Aarão colocou no mundo a voz no deserto e a filha do rei Davi a Palavra do Rei celeste. A esposa do sacerdote colocou no mundo o anjo da face de Deus (cf. Is 63, 9) e a filha de Davi o Deus forte da terra. A estéril colocou no mundo aquele que perdoa os pecados e a virgem aquele que os porta (cf. Jo 1, 29). Isabel colocou no mundo aquele que reconcilia os homens pela penitência e Maria aquele que purifica a terra de sua corrupção. A primogênita acendeu um candeeiro na casa de Jacó seu pai, porque este candeeiro é João (cf. Jo 5, 35); a caçula acendeu o sol da justiça para todas as nações (cf. Ml 3,20). Aquele que batiza na água anuncia aquele que batizará no fogo e no Espírito Santo (cf. Mt 3, 11). A luz brilhante anuncia o sol da justiça, aquele que é cheio do Espírito anuncia aquele que dá o Espírito, aquele que viu a pomba e aquele sobre o qual a pomba pousou. A voz anuncia a Palavra.

(Efrém da Síria, 306-373)


CONTEMPLAR


S. Título, s. autoria, acessado em pinterest.com, 2016.






segunda-feira, 11 de junho de 2018

O Caminho da Beleza 30 - XI Domingo do Tempo Comum


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).




XI Domingo do Tempo Comum                   17.06.2018
Ez 17, 22-24                       2 Cor 5, 6-10                      Mc 4, 26-34


ESCUTAR

“Eu sou o Senhor, que abaixo a árvore alta e elevo a árvore baixa; faço secar a árvore verde e brotar a árvore seca. Eu, o Senhor, digo e faço” (Ez 17, 24).

Caminhamos na fé e não na visão clara (2 Cor 5, 7).

O reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece” (Mc 4, 26-34).


MEDITAR

É a chuva que cai pouco a pouco que enche o rio.

(Provérbio ancestral do povo Malinke, Senegal)


ORAR

            Falando à multidão por parábolas, Jesus dizia: “o reino de Deus é como um semeador que lança o grão em seu campo”. O cultivador lançou sua semente na terra. Depois é o fim, sua tarefa está cumprida. Ele não pensa mais em sua terra, ele se dedica a suas tarefas diárias. O trigo cresce sem que ele tenha que intervir, sem que ele cuide dele, sem que ele o perceba. A terra frutifica por ela mesma. Nesta despreocupação do camponês se esconde a lição. O Reino cresce semelhante à colheita periódica. A esperança do camponês jamais é frustrada. Assim a esperança do Reino conduzirá a humanidade até a colheita. Jesus revela a certeza que enche sua alma e que o assegura do sucesso de sua mensagem. Não é preciso apressar a hora decisiva. Tão seguramente ela virá, como livremente, inelutavelmente, Deus a prepara no segredo do seu agir. Jesus poderia repetir sua parábola a seus discípulos Tiago e João, quando eles propuseram fazer descer o fogo do céu sobre os samaritanos não hospitaleiros. Os atos de força não convêm ao estabelecimento do Reino De Deus.

(Lucien Cerfaux, 1883-1968, Bélgica)


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Em algum lugar do norte, Sebastião Salgado (1944-), Magnum Photos, foto do livro Gênesis, Taschen, 2013.




terça-feira, 5 de junho de 2018

O Caminho da Beleza 29 - X Domingo Tempo Comum


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).




X Domingo do Tempo Comum                     10.06.2018
Gn 3, 9-15               2 Cor 4, 13-5, 1                 Mc 3, 20-35


ESCUTAR

O Senhor Deus chamou Adão, dizendo: “Onde estás?” E ele respondeu: “Ouvi tua voz no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi” (Gn 3, 9-10).

Voltamos nossos olhares para as coisas invisíveis e não para as coisas visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno (2 Cor 4, 18).

Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si (Mc 3, 21).


MEDITAR

O trágico paradoxo do cristianismo está no fato de que saiu vitorioso da época das perseguições para terminar preso dos pequenos burgueses e reduzir-se quase unicamente à falsidade e à hipocrisia.

(Tatiana Goricheva, 1947-, São Petersburgo, Rússia)


ORAR

            Jesus “estava fora de si”. Em certo sentido, eles têm razão. É o Espírito que, uma vez mais, colocou-o “para fora”, tornou-o “desequilibrado”. Não sei se hoje há muitos cristãos que, imitando o modelo de Cristo, mereçam o qualificativo de “loucos” e despertem preocupação nos notáveis. Muitos cristãos, pelo contrário, não estão dispostos de nenhuma maneira a permanecer “fora”. Fora das modas, das ideologias, da competição louca, das operações mais vantajosas, da mentalidade corrente, da vaidade, do protagonismo, das medidas de bom senso. Aceitar o espírito de Cristo significa, necessariamente, estar “fora de si”, fora dos cálculos, das prudências, dos medos, das diplomacias, das hipocrisias, das táticas humanas. A blasfêmia contra o Espírito, um pecado que “nunca será perdoado”, me parece que é precisamente, além da recusa consciente da luz, a recusa da loucura, que é um componente essencial da santidade a que todos somos chamados. A blasfêmia contra o Espírito Santo é a pretensão de seguir a Cristo sem “perder a cabeça” (Cura D’Ars). Blasfêmia contra o Espírito é a presunção de mudar o mundo, de se meter a influir na realidade, com “racionalidade”, sem ser sinal de contradição, sem aparecer (ao menos um pouco) louco. A loucura deveria ser um carisma essencial em uma Igreja que pretenda ser fiel mais ao paradoxo evangélico do que ao tratado de “boas maneiras”. Sem loucura o cristianismo se reduz à ética, ou pior, ao moralismo, a rubricas litúrgicas ou pietistas, a compromissos sociais integrados à cultura dominante. Não foram os grandes pecadores que crucificaram a Cristo, mas sim homens medíocres, burocratas cobertos de oficialidade, funcionários diligentes do aparato, guardiões solícitos e míopes da ortodoxia, que não podiam tolerar que ele permanecesse “fora” da família, “fora” das tradições consolidadas, “fora” das relações de força. Devemos nos convencer que só os loucos nos salvarão. Ou seja, aqueles que destruam as falsas harmonias, que não aceitem as acomodações bem montadas e as partilhas vantajosas, que arrebentem os parâmetros mundanos. O louco por Cristo não está isolado, ele se mescla com as pessoas, frequenta o mercado, se mete por todos os lados. Mas, ao mesmo tempo, resulta inatingível, imprevisível, incontrolável, insólito (e insolente), não programável.

(Alessandro Pronzato, 1932-, Itália)


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S. Título, 1980, hospital psiquiátrico em San Clemente, Itália, Raymond Depardon (1942-), do livro “Manicomio”, Magnum Photos, França.




quarta-feira, 30 de maio de 2018

O Caminho da Beleza 28 - IX Domingo do Tempo Comum


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).




IX Domingo do Tempo Comum                   03.06.2018
Dt 5, 12-15              2 Cor 4, 6-11                      Mc 2, 23-3, 6


ESCUTAR

“Lembra-te de que foste escravo no Egito e que de lá o Senhor teu Deus te fez sair com mão forte e braço estendido (Dt 5, 15).

Trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós (2 Cor 4, 7).

“É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” (Mc 3, 4).


MEDITAR

É sem vida a mão que deveria fazer o bem, tomar do meu pão e reparti-lo com o pobre. Não tem movimento a minha mão, que deveria arrancar-me a trave do olho. A minha mão que deveria estreitar com todas as outras, como elo de uma corrente imensa: infinitas mãos de quem quer avançar pela estrada da justiça e da liberdade. A minha mão que deveria pousar sobre a cabeça dos órfãos para dizer-lhes que ainda têm um pai... Mão que se recusou a abençoar. Mão que bateu e feriu... Senhor, perdoa-nos as mãos que deixamos secar, perdoa-nos as mãos que te impedimos de curar.

(Ettore Masina, 1928-2017, Itália)


ORAR

            Jesus, entrando num dia de shabat na sinagoga para participar na liturgia de seu povo, viu um homem com a mão paralisada. Seu olhar é de uma grande compaixão, bem diferente do de alguns fariseus, que observam as coisas por um olho mau, para ver se Jesus realizará uma cura em dia de shabat, como já havia feito na sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1, 21-26). Jesus, conduzindo esse homem ao meio da multidão, isto é, devolvendo-lhe sua condição de ser humano com a qual se pode entrar em relação, perguntou as pessoas presentes: “É permitido, em dia de shabat, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou matá-la?” A resposta está implícita: é sempre permitido fazer o bem, é mesmo um dever, sobretudo durante o shabat, dia por excelência da condição que a Bíblia chama de shalom, plenitude e abundância de vida! Mas os fariseus se calam, num silêncio que desvela toda sua hipocrisia... Então Jesus lança “sobre eles um olhar de cólera, ferido pelo endurecimento de seus corações”: ele treme da indignação própria de Deus e de seus profetas em face daqueles que são cegos o bastante para preferir a observância morta de uma tradição religiosa ao gesto que pode devolver a saúde a uma pessoa gravemente enferma. Depois, pelo poder de suas palavras, ele cura a mão deste homem. Jesus não profana o shabat, pelo contrário, ele lhe dá o seu valor, ele o revela tal qual Deus o quis: dia de alegria, dia de festa pela vida. Os que transgridem realmente o shabat são os fariseus e os herodianos – os partidários de Herodes Antipas, tetrarca da Galileia – que no dia consagrado a Deus conspiram para matar um homem que faz o bem. É a eles, e a nós quando os imitamos, que são dirigidas essas palavras de julgamento pronunciadas por Jesus um pouco mais adiante: “Vós, verdadeiramente, rejeitastes a ordem de Deus para observar sua tradição... e anulais a palavra de Deus pela tradição que transmitis” (cf. Mc 7, 9.13).

(Enzo Bianchi, 1943-, fundador da comunidade de Bose, Itália)


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Martin Luther King Jr. preso por dois policiais brancos em Montgomery, setembro de 1958, autoria da foto desconhecida, Alabama, Estados Unidos.




quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Caminho da Beleza 27 - Santíssima Trindade


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).




Santíssima Trindade                27.05.2018
Dt 4, 32-34.39-40                        Rm 8, 14-17            Mt 28, 16-20


ESCUTAR

“Existe, porventura, algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha permanecido vivo? (Dt 4, 33).

Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus (Rm 8, 14).

“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20).


MEDITAR

A Trindade Amorosa nos conceda uma noite terna e serena. A Trindade Amorosa nos conduza a um novo amanhecer para acolher e servir a todos. A Trindade Amorosa, ao fim da nossa travessia, nos receba em suas entranhas em comunhão com os justos para a Luz e o repouso eterno. Amém.

(Oração das Completas, Comunidade dos Manos da Terna Solidão, Brasil)


ORAR

            Não se consente mais pensar em Deus sob este aspecto de um Deus proprietário que quer nos curvar sob seu jugo e nos abater como a submissão de um indigente jogado ao chão... Jesus Cristo nos abre novos horizontes sobre Deus. Jesus nos introduz no coração de Deus. Ele nos abre o coração de Deus. Ele nos faz contemplar Deus numa eterna circulação de amor, fazendo-nos conhecer o Pai, o Filho e o Espírito Santo, mostrando-nos Deus como uma família em que tudo é comum, em que tudo é partilhado, em que tudo é comunicado. É preciso que entremos nesse mistério adorável, porque nele está nosso Deus. Nosso Deus não é outra coisa senão o Amor. Nosso Deus não é outra coisa a não ser uma eterna comunicação; porque em Deus o conhecimento não é um olhar sobre si, é um olhar para o Outro. Deus não se olha, mas o Pai é um olhar eterno para o Filho, como o Filho é um olhar eterno para o Pai, e toda a Luz divina é constantemente trocada, ela jorra dessa troca como a transparência límpida de um dom eternamente realizado. Deus não se apraz a si mesmo. Em Deus, o conhecimento é um élan em direção ao outro. Deus é um despojamento. Ele é um dom. Ele é uma confidência eterna onde o Um circula totalmente no Outro, e este Amor assim totalmente despojado não pode mais bastar a si. É um Amor estendido para um Outro, um Amor que aspira, que sai de Si, e do qual resulta eternamente essa respiração viva, o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, como numa família a criança nasce do pai e da mãe... É este o Deus que se revela em Jesus Cristo: um Deus que nada tem, um Deus que é Deus porque nada tem. Compreendamos isso: na ordem do espírito, na ordem suprema, a possessão é impossível e a grandeza consiste inteiramente no dom de si mesmo. Devemos, portanto, reformar completamente nossas ideias sobre Deus. Deus não é um proprietário, Deus não é um senhor, Deus não é um faraó, Deus não é um déspota, Deus não tira seus filhos da história, de uma história na qual seríamos fantoches. Deus é Amor, nada mais do que o Amor.

(Maurice Zundel, 1897-1975, Suíça)


CONTEMPLAR

Os Três Dançarinos, 2015, coreografia de Didy Veldmann (1967-), Rambert Dance Company, foto de Stephen Wright (1960-), Wallingford, Inglaterra.




terça-feira, 15 de maio de 2018

O Caminho da Beleza 26 - Pentecostes


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).




Pentecostes                       20.05.2018
At 2, 1-11                  1 Cor 12, 3-7.12-13                       Jo 20, 19-23


ESCUTAR

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava (At 2, 4).

A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum (1 Cor 12, 7).

Soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).


MEDITAR

Via em suas mãos um dardo de ouro largo e no fim do ferro me parecia ter um pouco de fogo. Parecia que este me penetrava pelo coração, algumas vezes, e me chegava às entranhas. Ao tirá-lo, parecia que as levava todas consigo e me deixava toda abrasada no grande amor de Deus. Era tão grande a dor, que me fazia dar aqueles gemidos; e tão excessiva é a suavidade que põe esta grandíssima dor que não há que se desejar que me deixe.

(Teresa de Ávila, 1515-1582, Espanha)


ORAR

            Pessoas de todas as línguas, raças, cores e culturas, elas se olham ao cantar juntas as Maravilhas de Deus... e esta sinfonia tocante parecia desvelar a harmonia da criação inteira, restabelecendo igualmente no homem a perfeita coerência entre a língua e o coração. Cristãos, hoje, acolhemos juntos este símbolo da Língua de Fogo que nos é destinado para que nossa língua sirva ao Verbo de Deus e nosso coração ao Espírito de Deus, e que havia, como desejava São Bento para seus discípulos, uma perfeita harmonia entre o nosso coração e o que nossos lábios professam, esta Ligação que une em Deus o Verbo e o Espírito... O que é Pentecostes? É a grande revelação do Espírito, após aquela do Pai na Criação, do Filho quando do Verbo encarnado; e esta revelação do Espírito vai nos desvelar o Pai e o Filho, porque só o Espírito é Revelador de Deus – é justamente por isso que ele permanece escondido, inacessível, como o mistério que lhe é inerente... A língua de fogo que simboliza o Dom e a presença do Espírito vem se colocar sobre cada um dos apóstolos. É um dom pessoal, destinado a todo o homem, que manifesta a sua vocação de estar habitado pelo Espírito de Deus, melhor ainda, de entrar na vocação do Espírito Santo que é a de ser Revelador de Deus. Pentecostes é o homem todo inteiro que se torna revelador de Deus (melhor do que um livro); e os apóstolos entram concretamente neste chamado: eles vão nos transmitir o Cristo, quer dizer o Verbo de Deus, são os intérpretes, os porta-vozes do Verbo. A língua encontra sua razão de ser, que é Dizer ao Pai as palavras do Filho com a profundidade do Espírito. A língua de fogo faz, portanto, do homem um Revelador do Verbo e do Amor que estão em Deus. Mas isso só é possível se o homem se coloca em movimento, como o Espírito... Pentecostes é o homem totalmente inteiro que deve se colocar em movimento; movimento interior em direção ao Verbo que atrai ao Pai; movimento exterior em direção à humanidade... Assim o Espírito nos coloca em movimento em direção ao outro, uma vez que falamos a mesma linguagem, nos encontramos sobre a mesma onda imensa e que não cessaremos jamais de dialogar e nos comunicar... O Espírito nos coloca em movimento em direção ao homem, língua de fogo em marcha em direção a uma outra língua de fogo....amiga, dizendo: “em todo encontro, eu me esforçarei sempre por juntar a ‘pequena chama’ depositada em cada um!”. A Revelação, o movimento de Pentecostes, é esse!

(Père Christian de Chergé, 1970-1996, prior do Mosteiro Notre-Dame de l’Atlas, Tibhirine, Argelia).


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S. Título, 2006, Guy Veloso (1969-), da série “Penitentes”, Belém, Pará, Brasil.  


            

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O Caminho da Beleza 25 - Ascensão do Senhor


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).




Ascensão do Senhor                  13.05.2018
At 1, 1-11                  Ef 1, 17-23               Mc 16, 15-20


ESCUTAR

“Recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós para serdes minhas testemunhas” (At 1, 8).

Que ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá (Ef 1, 18).

“Ide pelo mundo inteiro e anunciai o evangelho a toda criatura!” (Mc 16, 15).


MEDITAR

Trate o mundo como mundo, sem deixar o mundo nos rebaixar ao mundo.

(Chuang-Tzu, 369-286 a. C., China)


ORAR

Como podemos chegar a considerar a fé no céu como uma fuga diante do mundo, como um medo da realidade, quando ela reúne o equilíbrio interior e a liberdade tranquila com relação ao mundo? O homem se define por suas metas. Se elas se limitam às coisas daqui de baixo, ele será inevitavelmente sugado por sua lógica. Ele é então dilacerado por polos opostos: vida ou morte, desejo ou morosidade, ganho ou perda, felicidade ou infelicidade, felicitações ou censura. Submetido às circunstâncias, ele está sempre a procura de si mesmo. Desejando se adaptar às condições exteriores, ele se transforma numa ameba maleável a todas as influências. Fugindo, ele permanece estranho a si mesmo. Ele sucumbe ao poder dos “demônios”. Seu eu se desloca pelo esforço que faz para assegurar a sua felicidade. No matagal das futilidades cotidianas, ele se contorce, se sufoca, sem perspectiva, sem orientação, sem apoio. A Ascensão do Cristo nos permite nos reencontrar a nós, mas um “nós” aberto à grande expansão. Ela nos liberta da escravidão das circunstâncias, da submissão às nossas condições de vida. Ela nos faz descobrir um caminho de natureza interior, mesmo se é preciso apresentá-lo através de imagens espaciais. Jesus nos chamava a nos examinar a nós mesmos com os olhos de Deus, descobrindo que não há nenhum poder capaz de destruir nosso eu, e a adotar uma visão de mundo que não fosse mais um simples depósito de mercadorias ou um asilo de loucos. Por isso, “ele subiu ao céu e está sentado à direita de Deus” (Mc 16, 19)... Sem a perspectiva aberta para o céu, nós estamos submetidos à inevitável tirania da lei das coisas, da economia, do poder. É preciso prosperar, lucrar, aumentar, investir, entrar em concorrência, liquidar, conforme as circunstâncias. É preciso também causar intriga, difamar, espionar, dissimular, para acabar aniquilados como “cadáveres vivos” (Tolstói). Pois o que é um cadáver senão um organismo submetido a leis externas da dissolução e da decomposição? Como ganhar o combate contra os “espíritos maus” senão sabendo de uma vez por todas que nós não somos apenas seres desta terra; que nossa fronte toca o céu? Nosso pequeno eu tem um valor inalienável, junto de Deus e em Deus.

(Eugen Drewermann, 1940-, Alemanha)


CONTEMPLAR

Galáxia Messier 77, Constelação de Cetus, a 45 milhões de anos luz da Terra, 2012, Telescópio Hubble, foto editada por Andre van der Hoeven, Nasa, Estados Unidos.