Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a
muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).
Domingo da Páscoa na
Ressurreição do Senhor
At
10, 34a.37-43 Cl 3, 1-4 Jo 20, 1-9
ESCUTAR
“E Jesus nos mandou pregar
ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e mortos” (At 10,
42).
Pois vós morrestes, e a
vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida,
aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de
glória (Cl 3, 3-4).
Ele viu e acreditou. De
fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia
ressuscitar dos mortos (Jo 20, 8-9).
MEDITAR
Toda história da salvação
poderia ser descrita como um drama de amor, como um imenso Cântico dos
cânticos. Porém é menos a noiva que procura o noivo que o Deus fiel que procura
seu povo adúltero, que procura a humanidade que se desviou dele; ele a procura
para ‘lhe falar ao coração’ e reconduzi-la ao seu primeiro amor. Na Páscoa, as
bodas são consumadas e no Ressuscitado é a humanidade inteira e o cosmos que se
encontram secretamente recriados e transfigurados: o corpo do Ressuscitado é
vida pura e não esta mistura de vida e de morte, esta ‘vida morte’ que chamamos
de vida.
(Atenágoras de Constantinopla)
Se olharmos nossa vida
nesta luz, se nós pensarmos que somos chamados pelo Amor a ser o Templo de
Deus, o Santuário do Espírito e o Corpo de Jesus, teremos, frente a nós mesmos,
uma atitude de respeito que fará de nós o altar, o tabernáculo onde Deus se
revela, onde Deus manifesta Sua vida, transfigurando a nossa para que a nossa
comunique a Sua.
(Maurice Zundel)
ORAR
Em Atos, o discurso de Pedro é pronunciado na casa de
Cornélio, centurião romano e pagão. O Evangelho começara a ultrapassar as
fronteiras de Israel e Pedro, contrariando a sua educação e as suas certezas,
decide batizar um pagão. A última frase de Pedro é vital nesta sua nova
compreensão da realidade espiritual do Evangelho: “Todo aquele que crê em Jesus
recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”. Se, no início, a salvação fora
anunciada a Israel, doravante basta crer em Jesus, o Cristo, para receber o
perdão dos pecados, ou seja, entrar na Aliança com Deus. A liturgia da Igreja,
neste domingo de Páscoa, nos faz ouvir um texto tardio após a Ressurreição do
Cristo, para nos fazer compreender, de uma vez por todas, a razão da vinda do
Cristo entre nós: “Eu nasci, para isso vim ao mundo, para testemunhar a
verdade. Quem está a favor da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37). Todos
podem ouvir e compreender esta Voz. A ressurreição de Jesus não é como o
ressurgimento de Lázaro no mesmo corpo conhecido pelas suas irmãs e vizinhos e
para um resto de vida que teria o seu término. Lázaro, ao ser trazido de volta
à vida, saiu todo atado nas faixas mortuárias. Seu corpo estava ainda
prisioneiro dos grilhões do mundo, pois não era ainda um corpo ressuscitado. Ninguém
viu o Senhor ressuscitando. O que Madalena, Pedro e João viram foram os sinais
e as aparições do Ressuscitado. Não foram os olhos do corpo que O viram, mas os
olhos dos seus corações iluminados pelo amor e pela fé. Maria Madalena
assistirá a primeira aurora desta nova humanidade que as trevas não puderam
impedir. João sabe que as faixas de linho no chão são a prova de que Jesus
está, doravante, livre da morte, pois estas faixas que O imobilizaram
simbolizavam, a passividade da morte. Seu corpo ressuscitado não conhece e nem
experimenta mais nenhum entrave ou limite. Diante destas faixas abandonadas e
inúteis, João “viu e acreditou”. A última frase do Evangelho de hoje é
espantosa: “De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a
qual ele devia ressuscitar dos mortos”. Foi preciso esperar a ressurreição para
que os discípulos compreendessem o mistério do Cristo, suas palavras e suas atitudes.
É a ressurreição do Cristo que ilumina todas as Escrituras e as torna
luminosas. A nossa fé deverá ser alimentada sem nenhuma prova material, além do
testemunho das comunidades cristãs que a sustentaram sempre. O desafio é
encontrar a força, como Pedro e João, de ler em nossas vidas e na vida do mundo
todos os sinais cotidianos da Ressurreição. O Papa Bento XVI nos exorta:
“Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de
‘redenção’ que dá um sentido novo à sua vida” (Spe Salvi, 26). O Espírito nos foi dado para que a cada “primeiro
dia da semana” renovemos a gostosura de amar e ser amado e, fulminados pela
Esperança, possamos correr, com todos nossos irmãos e irmãs, filhos do mesmo
Pai, ao reencontro misterioso do Ressuscitado.
(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo
Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
Anastasis, 2003, Arcabas (Jean-Marie Pirot)
(1926-2018), óleo sobre tela, ouro fino 23 quilates, 1,62 m x 1,35m,
Saint-Pierre-de-Chartreuse, França.