quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Caminho da Beleza 12 - IV Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


IV Domingo do Tempo Comum        

Sf 2, 3; 3, 12-13                 1 Cor 1, 26-31                     Mt 5, 1-12

 

ESCUTAR

“Buscai o Senhor, humildes da terra, que pondes em prática seus preceitos; praticai a justiça, procurai a humildade; talvez achareis um refúgio no dia da cólera do Senhor” (Sf 2, 3).

“Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido, para assim confundir os sábios; Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante, para que ninguém possa gloriar-se diante dele” (1 Cor 1, 27-29).

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 1-12).

 

MEDITAR

Após dois séculos a Igreja perdeu o hábito do debate. Reina um analfabetismo da afetividade, do calor humano, um medo doentio do coração, uma letargia, uma vigilância defensiva da comunicação pessoal. Eu sei bem de que metal é feita a caridade das pessoas da Igreja: é uma caridade sem coração, sem fraternidade e sem humanidade.

(Pe. Valadier)

É preciso nos familiarizar com este maravilhoso paradoxo: Deus é Deus porque ele nada pode possuir. Deus é Deus porque Ele dá tudo e disto resulta que Deus só pode nos tocar pelo seu amor, pois não há nenhum outro modo possível e nós só poderemos atingi-lo pelo nosso amor.

(Maurice Zundel)

 

ORAR

Não podemos continuar considerando as bem-aventuranças como um ideal da vida cristã, pois ideal está mais próximo da filosofia grega do que das Escrituras que nos garantem: “Cristo morreu por nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Cor 15, 3). Temos que ler nas histórias concretas que nos precederam para melhor procurá-Lo e encontrá-Lo nas nossas vidas. Muito mais do que um ideal, as bem aventuranças nos indicam a maneira de agir, em qualquer circunstância para agradar a Deus e não confundi-Lo com os ídolos violentos que os pagãos fabricam (Sl 118, 105). Devemos nos esforçar para amar, para exercer a misericórdia e para ver o outro, seja quem for, como um irmão. Jesus nos deu este exemplo e, com certeza, como Ele, conheceremos a calúnia, o desprezo, a perseguição e a ardente sede de justiça. Seremos tratados como loucos, mas seremos chamados, pelo Cristo, de felizes e bem-aventurados, as palavras-chaves das Beatitudes que são palavras inesgotáveis de ternura e de vida. Em todos os lugares e tempos, desde que o Evangelho foi anunciado, os que encontram apreço e valor aos olhos e coração de Deus são a pobreza, o sofrimento e a fraqueza. O cristão, pela encarnação do Cristo, é um cidadão do mundo e deve se inclinar para descobrir, no tempo em que vive, onde estão os pobres, os que sofrem e os que são fracos para, com eles, indignar-se e clamar pela justiça prometida por Deus. O cristão será confrontado, como o Cristo, com o Palácio e o Templo, responsáveis pela violência destruidora, seja do poder, do preconceito e da discriminação. Para se construir a Paz fundada na justiça – desígnio de Deus – será necessária uma revolução de valores em que a solidariedade com a vida seja o alimento da esperança de um novo mundo e de uma nova humanidade. As bem-aventuranças exigem um compromisso com a paz. Não só em palavras, mas em atos que nada mais são do que palavras encarnadas. Cristãos são os que rompem o conforto medíocre das suas igrejas e lares para entregar a própria vida, uma vida que não lhes pertence porque lhes foi dada por Deus para que honrem a vida, a morte e a ressurreição do seu Filho. Somos chamados a perpetuar em nós a esperança nesta marcha dos bem-aventurados que sonham o sonho impossível de dar uma chance a Paz. Eles sabem que a única coisa que precisam é do Amor que conseguem por semear entre lágrimas os futuros cantos de alegria e de ternura.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller,mts)

 

CONTEMPLAR

Sem título, Nápoles, 1944, Henri Cartier-Bresson (1908-2004), Magnum Photos, França.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O Caminho da Beleza 11 - III Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


III Domingo do Tempo Comum

Is 8, 23b-9, 3                     1 Cor 1, 10-13.17               Mt 4, 12-23

 

ESCUTAR

“O povo que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9, 1).

“Sejais todos concordes uns com os outros e não admitais divisões entre vós. Pelo contrário, sede bem unidos e concordes no pensar e no falar” (1 Cor 1, 10).

“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz. Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: ‘Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo’. Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo” (Mt 4, 16-17.23).

 

MEDITAR

Todos os dias é necessário se converter, pois a conversão nunca é de uma só vez por todas. A tendência para o cuidado de si mesmo nos entorpece e é escorregadia. No momento em que paramos de orar e de estar atentos, nos surpreendemos dizendo: ‘eu, eu, eu’, em detrimento dos outros. Ninguém se converte a si próprio, pois é Deus que nos converte e quando Jesus diz: ‘Segue-me’, Ele nos dá o que pede: o impossível necessário que se torna possível.

(François Varillon)

 

ORAR

Mesmo que não saibamos no mapa geográfico onde se encontra a terra de Zabulon, de Neftali, o rio Jordão, Madian e o lago da Galileia, o mais importante é saber onde nós nos encontramos. O essencial é olhar na direção precisa para captar a ocasião de luz, de alegria e de libertação que nos é oferecida. Sete séculos antes de Cristo, duas tribos de Israel – Zabulon e Neftali – foram deportadas para Assíria. Esta região ficou conhecida como “Galileia dos pagãos”. Jesus é oriundo desta região, meio judia e meio pagã e o profeta nos lembra que seu povo “habitava nas sombras da morte”. Esta Galileia era uma terra sob o poder do imperialismo romano e este poder faz parte da escuridão e da sombra da morte. Jesus é a luz que irrompe desta escuridão para anunciar o Reino de Deus. O Evangelho revela que Jesus não quer agir sozinho e busca simples pescadores para serem seus companheiros. Jesus vai para Cafarnaum, um pequeno povoado agrícola e pesqueiro. Jesus não vai para as cidades maiores nem para o centro do poder político, econômico, social, cultural e religioso. Jesus e seus discípulos nunca se tornaram uma casta separada e diferenciada do povo. Jesus testemunhava que o anúncio do Reino acontece quando o encontro fraterno supera todas as diferenças e divisões. Paulo enfrenta o exibicionismo dos que andavam pelas cidades: “Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar a boa nova da salvação, sem me valer dos recursos da oratória, para não privar a cruz de Cristo da sua força própria”. Temos que enfrentar todas as formas de uma religião do entretenimento que oferece o sucesso pessoal, sem sofrimento, risco e afasta para longe o kerigma que deve ser anunciado: Cristo morto e ressuscitado. Não podemos anular a Cruz do Cristo que une todos os homens e mulheres. Aniquilar as divisões é a tarefa mais desafiadora e vital dos cristãos. Seguir o Cristo Morto e Ressuscitado é seguir um caminho que pode nos levar à Cruz como expressão máxima da nossa doação pela unidade no amor. Se nesta travessia reinarem a divisão e a discórdia, a Cruz do Cristo perderá a sua força e a tornaremos, por nosso amor e indiferença, absolutamente inválida e seremos, para todo o sempre, réus do Corpo e do Sangue do Cristo.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

A pesca miraculosa de peixes, Raffaello Sanzio, 1515, têmpera sobre papel montado sobre tela, 360 x 400 cm, Victoria e Albert Museum, Londres, Reino Unido.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Caminho da Beleza 10 - II Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


II Domingo do Tempo Comum        

Is 49, 3.5-6             1 Cor 1, 1-3              Jo 1, 29-34

 

ESCUTAR

“Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49, 6).

“Para vós graça e paz da parte de Deus, nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 1, 2).

“Eu vi o Espírito descer, como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele” (Jo 1, 32).

 

MEDITAR

É fácil levar Jesus no peito; difícil é ter peito, coragem, para seguir Jesus.

(Dom Pedro Casaldáliga)

 

ORAR

As leituras de hoje nos falam do acesso ao desconhecido. O Cristo anunciado pelo profeta transcende a dimensão de servo: “Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra”. A palavra de Deus diz sempre mais do que quem a diz. Temos que passar do conhecido de ontem ao desconhecido de hoje. Não podemos nos reduzir às homenagens aos profetas do passado, mas tornar atuais as suas profecias ao ler os sinais dos tempos. Aceitar a palavra de Deus significa romper a crosta dos nossos hábitos e costumes e ir mais além do nosso horizonte doméstico. Somos fiéis à Palavra de Deus na medida em que valorizamos o seu alcance profético e não a prendemos com grilhões e nem a mumificamos com o bálsamo das nossas experiências passadas. Devemos nos deixar provocar pelo que ainda não conhecemos e irmos até o limite do que nunca terminaremos de explorar. O batismo de Jesus, por uma figura marginal em um lugar marginal, cumpre toda a justiça ao revelar que o Senhor escolhera Jesus, o Filho Amado, para realizar um reino justo e libertador, diante da oposição dos que estão apenas preocupados em manter tudo como está. O evangelista proclama: “Eu não o conhecia” e nos faz conhecê-Lo como Desconhecido. O Cristo permanece desconhecido pois, revestido do Espírito de Liberdade, não se deixa aprisionar pela miopia das igrejas e nem se reduzir a conceitos que servem mais para dividir o Povo de Deus do que uni-lo num só corpo e num só Espírito. A comunidade eclesial deve alimentar o gosto pelo desconhecido e por tudo que ainda devemos e poderemos descobrir. É necessário nos converter do Jesus conhecido das nossas devoções, das práticas costumeiras e consumido pelas nossas estruturas, para um Cristo Desconhecido que somente se encontra quando rompemos a prisão confortável das nossas certezas e falsas seguranças, das nossas idolatrias fossilizadas que nos trazem a tranquilidade enganosa dos pântanos e nos sepultam na paz dissimulada dos cemitérios. Meditemos as palavras do papa Bento XVI: “Se, em definitivo, o meu bem-estar, e a minha incolumidade é mais importante do que a verdade e a justiça, então vigora o domínio do mais forte; então reinam a violência e a mentira. Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes são elementos fundamentais de humanidade e o seu abandono destruiria o mesmo homem” (Spe Salvi, 39).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Cordeiro de Deus, Cláudio Pastro (1948-2016), vitral na Capela do Mosteiro do Encontro, Irmãs Beneditinas, Mandirituba, Paraná, Brasil.


 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Caminho da Beleza 09 - Batismo do Senhor

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Batismo do Senhor       

Is 42, 1-4.6-7                      At 10, 34-38                       Mt 3, 13-17

 

ESCUTAR

 “Assim fala o Senhor: ‘Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minha alma; pus o meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações’” (Is 42, 1).

“De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34-35).

“Mas João protestou, dizendo: Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim” (Mt 2, 14).

 

MEDITAR

A vida não é um sonho, um plano do homem; ela é um consentimento. Deus nos guia pelos fatos: cabe a nós dizer sim ou não.

(Abbé Pierre)

Quando dispomos da missão de Deus, como se fosse nossa, consumimos inutilmente a graça, ignoramos o amor que existe na vontade divina e nos atiramos no abismo do nosso próprio eu. Quanto mais esta autonomia adota uma atitude piedosa, tanto mais se distancia do Espírito Santo.

(Hans Urs von Balthasar)

 

ORAR

No batismo do Senhor há nova epifania, uma nova proposta de luz, um novo convite para abrir os olhos. As manifestações do Senhor continuam. O batismo de Jesus se emoldura no quadro do relato do profeta e o Espírito acompanha e sustenta o Servo na sua empreitada. Jesus tem como missão manifestar o desígnio de Deus de que a justiça e o amor vão além das fronteiras de Israel. Esta empreitada não se realiza com as armas da força, do poder, das ameaças, dos medos e dos castigos, mas com a humildade, doçura, mansidão e compreensão. O Servo anuncia o perdão e a misericórdia e por isto não tem necessidade de gritar e nem de clamar. Cristo proclama que veio salvar o que estava perdido e por isto e para isto pousa sobre Ele a palavra solene do Pai: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu bem querer”. O teólogo dominicano Schillebeeckx afirma: “A luz de Deus parece que só pode queimar na terra como azeite de nossas vidas. Sobretudo com o azeite da justiça e do amor”. Ser discípulo não significa desempenhar o papel de mestres que querem doutrinar os outros, mas apresentar-se como simples alunos na espera impaciente de ser ensinados por Deus, por sua Palavra, pela história e pelos outros homens e mulheres. Se quisermos encontrar um cristão, precisamos entrar na casa de outras pessoas diferentes de nós.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Nós somos batizados em Jesus Cristo, somos batizados em sua morte, 1945, Georges Rouault (1871-1958), placa 30 da série Miserere, gravura em metal, 552 x 424 mm, Fundação Georges Rouault, Paris, França.




sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Caminho da Beleza 08 - Epifania do Senhor

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Epifania do Senhor                   

Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3a.5-6                    Mt 2, 1-12

 

ESCUTAR

“Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho” (Ef 3, 6).

“O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém” (Mt 2, 3).

 

MEDITAR

Temos de renunciar ao cristianismo, se nos obrigarem a renunciar a essas dialéticas esquartejadoras dos sentimentos cristãos, reduzindo-as à escala das sentimentalidades cômodas. Temos que romper a puerilidade de um cristianismo que produz homens delicados e frágeis que nunca avançam para uma fé comprometida, pois “vivem tremendo e murados em suas defesas”.

(Emmanuel Mounier)

 

ORAR

Hoje é a festa da luz porque a manifestação do Senhor, a sua epifania, é inseparável da luz. Quando o Senhor se manifesta, existem os que ao responder se colocam em caminho e buscam. Há outros, porém, que se escondem e dissimulam as suas vidas e os seus encontros. Os magos foram tomados de uma imensa alegria enquanto Herodes ficou perturbado assim como a Jerusalém do poder e do saber. Os sumos sacerdotes e os escribas foram convocados para uma reunião de emergência e nela manifestam a sua inquietude e desconfiança. É significativo que a aparição da “bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4) suscite perturbação nos que detêm o poder civil e religioso. A presença de Deus que se manifesta na fraqueza surge como um perigo e uma ameaça para a ordem estabelecida e para as posições consolidadas. O Cristo constitui uma ameaça para o nosso reino privado ao colocar em xeque nossos equilíbrios cansados e nossas falsas seguranças. O Papa Francisco afirma: “Preferem uma vida enjaulada em seus preceitos, em seus compromissos, em seus planos revolucionários ou em sua espiritualidade desencarnada” (Homilia 20.12.2013). O cristão lúcido sabe que é melhor a atenção do que a indiferença; é melhor o compromisso do que a neutralidade; é melhor a recusa do que a ambiguidade. O cristão sabe que é necessário um coração para assombrar-se e alargar-se. O profeta desvela a expansão da luz e a sua alegria contagiosa. O evangelista, por sua vez, dá a conhecer o medo dos sábios cuja busca finda em suas bibliotecas palacianas, no meio dos pergaminhos cobertos de pó nos quais procuram sentenças definitivas. O caminho, com as suas imprevisibilidades e surpresas, não é o seu assunto. O coração dos magos é o coração dos que buscam, apaixonadamente, abrigar o mistério. O coração dos detentores do poder é árido, mesquinho e intolerante. Os magos nos revelam que entre o relâmpago do surgimento da estrela e o seu acompanhamento até o último trecho do caminho seremos assomados por dúvidas, cansaços, perdas e desilusões, mas, sobretudo, por esperanças. A estrela surge como uma chispa de fogo, acende o desejo e só volta a brilhar intensa e permanentemente no final quando o encontro se realiza. A busca não é nunca uma marcha triunfal: implica numerosas partidas e recomeços e não devemos dela esperar manifestações espetaculares. O que conta é a perseverança: a capacidade de não desertar, de não ceder ao desalento, de não se desviar para cômodos refúgios e nem se contentar com conquistas provisórias; a obstinação para caminhar quando tudo parece inútil, absurdo e impossível. E o que mais conta ainda é o discernimento de que para adorar a Deus é preciso nos deter diante do mistério do mundo e saber olhá-lo com amor. Quem olha a vida amorosamente começará a vislumbrar as vibrações de Deus antes mesmo de ser envolvido por elas.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Adoração dos Magos, 2001, Arcabas (Jean-Marie Pirot, 1926-2018), óleo sobre tela, 180 x 380 cm, Isère, França.

 

 


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Caminho da Beleza 07 - Santa Maria, Mãe de Deus

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Santa Maria, Mãe de Deus                

Nm 6, 22-27                       Gl 4, 4-7                   Lc 2, 16-21

 

ESCUTAR

“O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6, 26).

“Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4, 4)

“Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2, 19).

 

MEDITAR

O corpo humano é um corpo que se faz, um corpo que se transforma, um corpo que se espiritualiza, um corpo que se imortaliza e um corpo que respira Deus e que O revela.

(Maurice Zundel)

 

ORAR

    O ano civil se abre com a festa da Mãe de Deus. Maria, com seu consentimento ilimitado, revela uma fecundidade aberta ao Infinito e a resposta de Deus é uma maternidade cuja expansão é imprevisível. Cada afirmação dada ao Senhor é sempre restituída com o imprevisível do seu dom. Hoje comemoramos a jornada mundial da Paz e devemos estar lúcidos de que a paz só poderá ser construída quando os homens disserem um Sim, uns aos outros, como uma acolhida recíproca de cada um como irmão. O Evangelho chama de bem-aventurados os construtores da paz, uma paz que nunca será construída pelos poderosos da terra, que lucram com as guerras e que se imobilizam reciprocamente por meio dos arsenais nucleares e dos mísseis que desfilam diante das crianças nas festas da Pátria. Desfilam para adestrá-las a sentirem orgulho do poder bélico, sem saber que são poucos os que lucram com a fábrica de mortes que se sucede de geração em geração. Que se vingue a profecia de D. Hélder Câmara: “que se acabe, mas que se acabe mesmo, a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é a paz!”. O campo de guerra dos cristãos é um campo aberto cujas armas são o perdão, a tolerância, a compreensão, o respeito e a confiança. É necessário ensinar as crianças, para além dos seus video games, que há sempre um irmão para amar e não um inimigo a ser eliminado. Agindo desta forma, seremos merecedores do bendizer de Deus sobre nós para que sejamos transformados pela sua Palavra. Pedir a bênção de Deus é nos oferecermos, incondicionalmente, a Ele para que exerça em nós a Sua ação transformadora e nos vire do avesso. A bênção maior é o dom do Seu Filho por meio do qual volta para nós o Seu rosto e faz brilhar sobre nós a Sua face. Tudo é expressão de humildade: os pastores eram pessoas pouco recomendadas e o seu trabalho os impedia de frequentar as sinagogas e respeitar o sábado; tudo se passa em Belém, a casa do pão, e o Menino está deitado numa manjedoura que se torna uma bela imagem para Aquele que vem para ser alimento da humanidade. A Igreja de Jesus não deve procurar a companhia dos grandes, mas compadecer-se na amizade dos que são, falsamente, chamados de pobre gente. Meditemos as palavras do Cardeal Gianfranco Ravasi: “A Igreja, como Maria, deve viver a sua santidade e a sua fidelidade na existência ordinária dos homens sem procurar se distinguir ou se fazer notar e separar-se deles. A Igreja deve viver no meio deles nas circunstâncias ordinárias da vida”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Virgem amamentando, ou Galactotrophousa, Girgis Al-Musawwir, último quarto do século XVIII, têmpera sobre madeira, 32,4 x 26 cm, Arcebispado Grego-Católico de Alep, Síria.




 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família de Jesus, Maria e José

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Sagrada Família de Jesus, Maria e José             

Eclo 3, 3-7.14-17               Cl 3, 12-21               Mt 2, 13-15.19-23

 

ESCUTAR

“Quem honra o seu pai alcança o perdão dos pecados... quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros” (Eclo 3, 4).

“Vós sois amados por Deus, pois sois os seus santos eleitos” (Cl 3, 12).

“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2, 14).

 

MEDITAR

Ele armou sua tenda entre nós e nos revelou que o amor não conhece limites nem definições restritivas; ele leva aquele que ama ao ponto de desistir da própria vida pelo bem dos outros. Ele vai acima e além da linha do dever. É claro, isto é extravagante e absurdo, mas o Reino de Deus é para as aventuras da fé. Não é uma recompensa para a mediocridade.

(Manos da Terna Solidão)

 

ORAR

    Jesus viveu uma vida familiar durante trinta anos em Nazaré. Não são anos obscuros, mas vibrantes nos seus gestos, palavras e costumes porque são a irradiação do eterno, sacramentos do divino e sinal resplandecente do Deus Conosco. Jesus foi educado numa família comum, revelou o rosto do Pai no marco modesto de sua casa, o santuário em que permaneceu mais tempo. A casa de Nazaré não é, simplesmente, a sala de espera antes da sua partida para o testemunho público e o anúncio da Boa Nova. A família de Nazaré é o lugar do encontro com os homens e mulheres do seu tempo, da sua mensagem universal de amor, da sua palavra silenciosa e da transfiguração do humano. A sua casa de Nazaré foi o seu primeiro lugar de oração. Jesus nunca deixou para os seus as migalhas da sua atenção ainda que soubesse que o profeta nunca é bem recebido em sua casa e ainda que muitos dos seus parentes O considerassem como louco. Jesus não lhes foi indiferente, nem se irritou e nem se deixou dominar pela impaciência. Testemunhava que não poderia haver amor se não houvesse uma acolhida incondicional. A festa da Sagrada Família é a festa da liturgia do cotidiano feita de hospitalidade recíproca, pequenos gestos, palavras simples, carícias distribuídas sobre as pequenas feridas do outro, ternura manifestada sem falsos pudores e gratidão pela presença samaritana dos que estão perto de nós. Devemos ser uma comunidade familiar, uma Igreja doméstica profundamente unida porque nos alicerçamos sobre a adesão comum e incondicional aos desígnios de Deus.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Fuga para o Egito, imagem sem referência.