Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a
muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).
V Domingo da Quaresma
Ez 37, 12-14
Rm 8, 8-11 Jo 11,
1-45
ESCUTAR
“Porei em vós o meu
espírito, para que vivais, e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que
eu, o Senhor, digo e faço – oráculo do Senhor” (Ez 37, 14).
“E se o Espírito daquele que
ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou
Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio
do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8, 11).
“Então Jesus disse: Eu sou a
ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra viverá. E todo aquele
que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês isso?” (Jo 11, 25-26).
MEDITAR
Tudo o que é votado à morte
vem terminar na minha vida; tudo o que se torna outono encalha na praia da
minha primavera; tudo o que se desfaz em podridão vem nutrir as minhas flores.
(Hans Urs von Balthasar)
ORAR
Lázaro representa toda a humanidade
sepultada e atada aos nós da morte que Jesus, por terna compaixão, salvará ao
se entregar livremente por amor. Ressuscitar é desatar os nós que nos prendem à
realidade cruel de uma sociedade civil e religiosa sustentada pelas aparências,
pela ganância e pela competição; de uma sociedade que incentiva a promiscuidade
do amor; de uma política que tolera e incentiva a corrupção; de igrejas que
abandonam o seu papel profético e fazem todas as concessões para esposarem os
privilégios do poder. Jesus não é um dos ressuscitados.
Jesus é a Ressurreição! A travessia cristã é uma contradição permanente: temos
a certeza da morte, mas vivemos esta certeza na imprevisibilidade do quando e do como. Para um cristão, em espírito e verdade, morrer é aprender a
se lançar no abismo das entranhas do Amor onde começou a Vida. Na sua mística
do viver, a Igreja de Jesus confronta os poderes políticos e religiosos e os
coloca em xeque a partir da dimensão espiritual de suas vidas. A fidelidade de
Deus é mais forte do que a morte. Ele soprará seu Espírito para fazer viver o
seu povo e abrirá os túmulos da desesperança. A escolha é nossa: podemos nos
fechar sobre nós mesmos num movimento autodestruidor e suicida ou acolher o
transbordamento da ressurreição dada por Deus que é vida em plenitude. Vivemos
tempos sombrios em que “nossos olhos se ressecaram, nossa esperança se
extinguiu” (Ez 37, 11). Jesus testemunha que para Ele o mais importante é
vencer a morte do que afastar a doença. Amar, para o Cristo, não é arrancar do
leito, mas dos Infernos, pois o que prepara para nós, lázaros da existência,
não é um remédio para nossas enfermidades, mas a glória da Ressurreição (cf.
Pedro Chrisólogo, Sermão 63).
Meditemos esta frase desconcertante de Jesus: “Lázaro está morto. Mas por causa
de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais”. E Aquele que chorou
a morte do amigo nos fez saber para todo o sempre de que era necessária esta
morte, daquele que amava, para que a nossa fé sepultada com Lázaro
ressuscitasse com Ele para a glória bendita de Deus. Somos chamados à liberdade
do Espírito, basta ouvirmos no mais íntimo de nós e arriscar na travessia o
apelo de Jesus que ecoará até o fim dos tempos: “Desatai-o e deixai-o
caminhar!”.
(Manos da Terna Solidão/Pe.
Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
Sem título, 1900, desenho de Käte Kollwitz (1867-1945), Museu Käte
Kollwitz, Berlim, Alemanha.