quarta-feira, 25 de março de 2026

O Caminho da Beleza 21 - Ramos da Paixão do Senhor

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Ramos da Paixão do Senhor             

Is 50, 4-7                 Fl 2, 6-11                 Mt 26, 14-27, 66


ESCUTAR

O Senhor Deus deu-me língua adestrada para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida (Is 50 4).

Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2, 7-8).

O oficial e os soldados que estavam com ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram: “Ele era mesmo Filho de Deus!” (Mt 27, 54).

 

MEDITAR

Jesus de Nazaré não morreu como um estoico, com uma serenidade desprovida de paixões, o mais possível sem dor. Muito pelo contrário, experimentou grandes tormentos, expressos no grito final. O cristão não tem que esconder o seu medo e pode estar certo – ouvindo ainda o grito de Jesus – de que o seu medo será abraçado por um Deus, pelo Deus do amor.

(Hans Kung)

Quando o amor vos chamar, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos; e quando ele vos falar, acreditai nele, embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim. Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma que contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda.

(Kalil Gibran)

 

ORAR

     Temos o costume de nomear este domingo como uma entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e, para tanto, acrescentamos todos os ingredientes que a nossa imaginação possa inventar: mobilização das massas, entusiasmo incontido, adornos faustosos, cantos, gritos e aplausos vibrantes. Aprendemos que a grandeza de Deus só pode ser celebrada com mantos reais, coreografias espetaculosas e cortejos imponentes. No entanto, para Jesus, o triunfo é o da humildade, da modéstia, da mansidão, pois todas as suas conquistas foram obtidas com a força do amor. Jesus, até hoje, não se interessa pelos aplausos e gritarias que beiram a histeria, mas sim pelos corações convictos dos seus seguidores. Neste domingo, o Cristo quer ser reconhecido como um rei na sua debilidade desarmada, na sua aceitação da perseguição e no fato de ter resistido à violência, aos insultos e às torturas brutais. O nome de Jesus que invocamos é um nome que foi desacreditado pelos detentores do poder civil e religioso. Neste domingo, não podemos ficar perplexos e desconcertados diante da realidade da Cruz e embaraçados com uma fé sem profecia que nos impede de conquistar a esperança que faz atingir o mais além de nós mesmos. Somente o olhar da fé permite superar o muro do escândalo e acreditar que podemos ver de outra maneira os acontecimentos da nossa vida. E devemos estar lúcidos de que a única resposta ao excesso do mal e da violência é a superabundância de amor que nos conduz, se preciso, até o dom da própria vida.  Jesus não tinha dinheiro. Não tinha autoridade religiosa oficial, por não ser nem sacerdote e nem escriba. Jesus levava apenas em seu coração o fogo do amor pelos que eram injustiçados e até mortos pela violência dos poderosos. A mensagem de Jesus era direta e sem rodeios: os que desprezamos, excluímos e exploramos são os prediletos de Deus. Celebrar a Semana Santa é uma conversão constante para que os nossos corações sejam capazes de olhar e atender aos que sofrem, identificando-nos, cada vez mais, com eles. Nestes tempos, amordaçamos os gritos de indignação e nos acomodamos a tudo o que é tranquilizador, que não exija nada da inteligência e que seja um refúgio que nos proteja do vazio existencial. Queremos e construímos um tipo de religião que não intranquiliza ninguém, que não tem nenhuma agonia, que perdeu a tensão do seguimento de Jesus, pois não nos chama à responsabilidade alguma, pelo contrário, exonera-nos dela. No nosso cristianismo atual, escutamos cantos que abafam o grito dos pobres; estamos mergulhados em muita alegria e júbilo que não nos sobra tempo para os que sofrem; conclamamos nossos filhos e filhas a “botar fé” para a sua fartura emocional e não os evangelizamos para que tenham fome e sede de justiça para com todos seus irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai. Neste domingo de Ramos, celebramos o Messias da Cruz, desprezado, traído e abandonado. Neste domingo, devemos estar atentos ao sinal de Deus para que sejamos humildes e compassivos, pois é o outro – o estrangeiro, o diferente de nós, o pagão – que faz a sua profissão de fé, não no momento arrebatador do triunfo, mas no escândalo da derrota: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!”. Por esta razão, devemos sempre testemunhar a esperança de que todos os humilhados da terra um dia se levantarão do seu túmulo para obter a reparação e a recompensa da violência sofrida em suas vidas: a bem-aventurança no Reino e a vida eterna. Amém!

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

A entrada de Cristo em Jerusalém, c. 1842, Jean-Hippolyte Flandrin (1809-1864), afresco, Igreja de Saint-Germain-des-Prés, Paris, França.




 


quarta-feira, 18 de março de 2026

O Caminho da Beleza 20 - V Domingo da Quaresma

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


V Domingo da Quaresma

Ez 37, 12-14              Rm 8, 8-11              Jo 11, 1-45      

 

ESCUTAR

“Porei em vós o meu espírito, para que vivais, e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço – oráculo do Senhor” (Ez 37, 14).

“E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8, 11).

“Então Jesus disse: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês isso?” (Jo 11, 25-26).

 

MEDITAR

Tudo o que é votado à morte vem terminar na minha vida; tudo o que se torna outono encalha na praia da minha primavera; tudo o que se desfaz em podridão vem nutrir as minhas flores.

(Hans Urs von Balthasar)

 

ORAR

        Lázaro representa toda a humanidade sepultada e atada aos nós da morte que Jesus, por terna compaixão, salvará ao se entregar livremente por amor. Ressuscitar é desatar os nós que nos prendem à realidade cruel de uma sociedade civil e religiosa sustentada pelas aparências, pela ganância e pela competição; de uma sociedade que incentiva a promiscuidade do amor; de uma política que tolera e incentiva a corrupção; de igrejas que abandonam o seu papel profético e fazem todas as concessões para esposarem os privilégios do poder. Jesus não é um dos ressuscitados. Jesus é a Ressurreição! A travessia cristã é uma contradição permanente: temos a certeza da morte, mas vivemos esta certeza na imprevisibilidade do quando e do como. Para um cristão, em espírito e verdade, morrer é aprender a se lançar no abismo das entranhas do Amor onde começou a Vida. Na sua mística do viver, a Igreja de Jesus confronta os poderes políticos e religiosos e os coloca em xeque a partir da dimensão espiritual de suas vidas. A fidelidade de Deus é mais forte do que a morte. Ele soprará seu Espírito para fazer viver o seu povo e abrirá os túmulos da desesperança. A escolha é nossa: podemos nos fechar sobre nós mesmos num movimento autodestruidor e suicida ou acolher o transbordamento da ressurreição dada por Deus que é vida em plenitude. Vivemos tempos sombrios em que “nossos olhos se ressecaram, nossa esperança se extinguiu” (Ez 37, 11). Jesus testemunha que para Ele o mais importante é vencer a morte do que afastar a doença. Amar, para o Cristo, não é arrancar do leito, mas dos Infernos, pois o que prepara para nós, lázaros da existência, não é um remédio para nossas enfermidades, mas a glória da Ressurreição (cf. Pedro Chrisólogo, Sermão 63). Meditemos esta frase desconcertante de Jesus: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais”. E Aquele que chorou a morte do amigo nos fez saber para todo o sempre de que era necessária esta morte, daquele que amava, para que a nossa fé sepultada com Lázaro ressuscitasse com Ele para a glória bendita de Deus. Somos chamados à liberdade do Espírito, basta ouvirmos no mais íntimo de nós e arriscar na travessia o apelo de Jesus que ecoará até o fim dos tempos: “Desatai-o e deixai-o caminhar!”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Sem título, 1900, desenho de Käte Kollwitz (1867-1945), Museu Käte Kollwitz, Berlim, Alemanha.




quarta-feira, 11 de março de 2026

O Caminho da Beleza 19 - IV Domingo da Quaresma

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


IV Domingo da Quaresma             

1 Sm 16, 1.6-7.10-13a               Ef 5, 8-14                 Jo 9, 1-41      

 

ESCUTAR

“Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1 Sm 16, 7).

“O que esta gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. Mas tudo que é condenável torna-se manifesto pela luz; e tudo o que é manifesto é luz” (Ef 5, 12-13).

“Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos. Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isso e lhe disseram: ‘Porventura também nós somos cegos?’. Respondeu-lhes Jesus: ‘Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas, como dizeis ‘nós vemos’, o vosso pecado permanece’” (Jo 9, 39-41).

 

MEDITAR

É o amor das riquezas que causa a cegueira, a loucura dos homens e a sua perversidade.

(Théognis de Mégare)

O pior cego é o que quer ver.

(João Guimarães Rosa)

 

ORAR

       A unção de Davi se passa em Belém, o lugar onde mil anos mais tarde nascerá Jesus, um lugar insignificante entre os clãs de Judá. Davi, pastor, era o mais jovem dos filhos de Jessé. Foi o escolhido pelo Senhor, mesmo não sendo o primogênito conforme a lei. Toda eleição divina é sempre desconcertante, pois a sua dileção recai sobre os humildes e os pequenos. O Evangelho narra o episódio da cura do cego na maior festa judaica, a festa das Tendas, impregnada de uma espera impaciente e fervorosa do Messias. Os filhos das trevas não abrem nenhuma exceção, mas fazem todas as concessões uma vez que se consideram seus próprios salvadores. No entanto, o Cristo exige exceções para que possamos amar os outros. Jesus abre uma exceção na regra intransigente do sábado para curar o cego. Não concede uma polegada aos defensores aguerridos da Lei e testemunha que só os que decidem praticar o amor abrem e fazem exceções. O Evangelho de Jesus encontra o tom da verdade nos humilhados, nos machucados e nos que são considerados um nada por aqueles que só sabem calcular seus “custos e benefícios” e investem as suas vidas para “agregar valor” aos sistemas políticos e religiosos da exclusão. O evangelista é incisivo: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos”. A cura da cegueira coincide com o nascimento da fé: “Eu creio, Senhor”, afirma o que agora vê. O que era cego sai, pouco a pouco, da sua noite enquanto os fariseus chafurdam nas trevas da inveja, da mentira, da contradição e fazem de Jesus, apesar das evidências, um possuído que não respeita o sábado e dissipa o mal pelo mal. Paulo reconhece esta cisão e exclama: “Somos o aroma de Cristo oferecido a Deus para os que se salvam e para os que se perdem. Para estes, cheiro de morte que mata; para aqueles, fragrância de vida que vivifica” (2 C0r 2, 15). A declaração pública de Jesus: “Eu sou a Luz do Mundo” (Jo 8, 12) é uma declaração afrontosa aos filhos das trevas espalhados em todas as instituições políticas, sociais e religiosas que só se preocupam com o poder para serem servidos e dele se servir. Jesus veio para remover a cegueira dos homens e, sobretudo, a pior cegueira, a soberba, que é a do cego que quer ver. Os corações interesseiros são e serão sempre movidos pelo veneno da ingratidão e, revestidos da hipocrisia das belas almas, “participam nas obras estéreis das trevas”. Somos nós que nos julgamos diante da Palavra da Verdade: uns se enclausuram na revolta e na mentira e outros se abrem cada vez mais à vida, à verdade e à liberdade de amar. A Igreja de Jesus deve ser humilde para reconhecer, muitas vezes, a sua cegueira no meio do Povo de Deus que se sente perdido com tanta pompa e com tanta circunstância. Que o Santo Espírito nos alinhe entre os cegos, os surdos e os paralíticos, pois é a única condição para que sejamos renovados pela Páscoa do Senhor e, admiravelmente, recriados para a vida eterna.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Cura do homem cego, c. 1950, Edy-Legrand (1892-1970), obra a carvão em Bíblia editada por François Amiot e Robert Tamisier, França, 1950.

 



quarta-feira, 4 de março de 2026

O Caminho da Beleza 18 - III Domingo da Quaresma

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


III Domingo da Quaresma                

Ex 17, 3-7                 Rm 5, 1-2.5-8                    Jo 4, 5-42

 

ESCUTAR

“Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?” (Ex 17, 3).

A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5, 5).

“Dá-me de beber” (Jo 4, 7).

 

MEDITAR

O que farás, Deus, se eu morrer?

Eu sou teu cântaro (e se eu quebrar?)

Eu sou teu poço (e se eu estagnar?)

Sou teu hábito e teu ofício.

Sem mim perdes o teu sentido.

 

Sem mim não terás casa, onde

palavras, íntimas e quentes, te abriguem,

Cairá de teus pés cansados

a sandália macia que eu sou.

 

Teu grande manto te cairá.

Teu olhar, que minha face acolhe,

quente como um travesseiro,

virá de longe me procurar

e ao pôr do sol se aninhará entre

estranhas pedras.

 

O que farás, Deus? Tenho medo.

(Rainer Marie Rilke)

 

 

ORAR

     Nas Escrituras Sagradas, os poços e as fontes são lugares de reencontro e aliança entre os homens e Deus. Em todas as tradições religiosas, as águas são fonte de vida, meios de purificação e o seu aspecto inesgotável responde pela metáfora da abundância. No casamento, o êxtase é comparado ao beber da própria água: “Bebe a água de tua cisterna, bebe abundantemente de teu poço. Seja bendita a tua fonte, exulta com a esposa de tua juventude: cerva querida, gazela formosa, que suas carícias sempre te embriaguem, e constantemente te arrebate seu amor” (Pr 5, 15.18-19). O testemunho de Jesus nas suas andanças é ir ao encontro dos outros com a liberdade que brotava dentro dele como um rio de água viva. Jesus encontra a samaritana que cumpre a obrigação de buscar a água estagnada do poço. Jesus não condena a samaritana e faz com que descubra a alegria acima do prazer, o valor pessoal acima da beleza física e a dignidade acima da capacidade de seduzir. Mas como vivenciar o encontro pessoal com Jesus se nos contentamos com as informações pasteurizadas das redes sociais e não somos mais pessoas originais, mas empreendedores de nós mesmos? Se a nossa espiritualidade está abarrotada com as fáceis palavras dos livros de autoajuda e chamamos de meditação os mantras dos slogans religiosos que consumimos a torto e a direito? Somos a geração que foge dos encontros pessoais e mergulhamos no fast food religioso das palavras de efeito. O encontro com a samaritana desvela o longo processo ao qual devemos nos configurar e pelo qual passa o caminho da fé. A samaritana carrega uma angústia e quanto maior esta angústia maior é a sensação do vazio. Jesus quer aniquilar este vazio e se identifica com ela: está cansado e com sede. O diálogo de Jesus não é para vencer uma disputa, pois Deus não está na derrota do outro. Nesta derrota faz morada apenas o narcisismo de quem se toma como referência última de todas as coisas. Meditemos as palavras de Abbé Pierre: “a fraternidade não é outra coisa do que um deslumbramento partilhado”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Cristo e a Mulher da Samaria, 1828, George Richmond (1809-1896), têmpera e ouro sobre mogno, 410 x 498 mm, Tate Gallery, Reino Unido.




 

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Caminho da Beleza 17 - II Domingo da Quaresma

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


II Domingo da Quaresma                            

Gn 12, 1-4                  2 Tm 1, 8-10                     Mt 17, 1-9

 

ESCUTAR

“Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma benção. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!” (Gn 2, 1-3).

“Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2 Tm, 10).

“Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (Mt 17, 1-2).

 

MEDITAR

Todos nós seríamos transformados se tivéssemos a coragem de ser o que somos.

(Marguerite Yourcenar)

A Palavra de Deus convida cada pessoa a viver totalmente. Com suas forças de ser. Com seus limites. E sem se sentir culpada de ser uma criatura inacabada e sacudida pelos seus desvios e suas contradições. Finalmente, a única indagação de Deus será talvez: ‘Você se tornou você mesma?

(Yvan Portras)

 

ORAR

O evangelista nos revela a identidade de Jesus: o filho Amado. O Cristo é a tenda, presença perfeita e definitiva do Pai. No final da cena, ao centro, se ergue tão somente a figura de Jesus. O Filho é a tenda da Shekinah, a Divina Presença. A Transfiguração é o desvelamento do destino e do mistério de Jesus e também do nosso destino e mistério. Para todos se abre um horizonte de luz: “Amados, já somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que seremos. Sabemos que, quando ele aparecer seremos semelhantes a ele e o veremos como ele é” (1 Jo 3, 2). O Transfigurado passa pela obscuridade da história e da morte. Jesus presente no nosso cotidiano transfigura os seres e as coisas mais humildes. Os discípulos estão assustados e caem com o rosto em terra. Depois, no Jardim do Horto, cairão no sono e serão incapazes de uma hora de vigília. Nossa oração em silêncio, com Jesus, pode transfigurar a vida pela acolhida dos outros numa nova maneira de vê-los. Devemos aniquilar as doenças do olhar que são as doenças de uma oração equivocada, centrada em nós mesmos. É preciso colocar nossos olhos e nossos olhares no coração e nele encontrar a fonte da vida. O dia seis de agosto, em que normalmente se celebra a Festa da Transfiguração, nos remete a uma fatal sincronicidade. Neste dia, em 1945, os habitantes de Hiroshima e Nagasaki viram uma grande luz no horizonte. A bomba atômica fazia sua trágica aparição no horizonte da humanidade como uma luz de devastação e de morte. A humanidade acabara de assistir a transfiguração da luz que liberta e dá a vida numa luz cega e trágica que desfigurava e aniquilava os que também foram criados à imagem e semelhança de Deus. A transfiguração de Jesus nos lembra a beleza à qual a humanidade e o universo são destinados. Hiroshima e Nagasaki testemunham o embrutecimento e o horror de que os homens são capazes ao desfigurar os corpos que são santuários de Deus (1 Cor 6, 9) e devastar a criação de Deus. Para os cristãos, celebrar a Transfiguração é um apelo à responsabilidade, uma exortação à compaixão e à expansão do coração diante dos que sofrem. A Transfiguração é o desvelamento do SIM do Cristo ao caminho da solidariedade radical com os oprimidos e vítimas da História.

 (Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Transfiguração, 2005, Sieger Köder (1925-2015), óleo sobre tela, Alemanha.  




 

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O Caminho da Beleza 16 - I Domingo da Quaresma

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


I Domingo da Quaresma               

Gn 2, 7-9; 3, 1-7                 Rm 5, 12.17-19                  Mt 4, 1-11      

 

ESCUTAR

“O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2, 7-8).

“Por um só homem, pela falta de um só homem, a morte começou a reinar. Muito mais reinarão na vida, pela mediação de um só, Jesus Cristo, os que recebem o dom gratuito e superabundante da justiça” (Rm 5, 17).

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome... Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram Jesus” (Mt 4, 1-2.11).

 

MEDITAR

É melhor mal amar, amar a torto e a direito do que nunca amar, pois o que ama mal pode sempre aprender e descobrir como amar melhor, mas aquele que não ama está perdido.

(Jean-Guy Saint-Arnaud)

A alma que fica na superfície de si mesma, que não se habita a si mesma, torna-se estrangeira de si própria. A interioridade nos faz descobrir verdadeiramente a nós mesmos, Deus e os outros.

(Mestre Eckhart)

 

ORAR

       Somos um misto frágil de pó da terra e de sopro divino. Por esta razão sempre sofremos a tentação de sucumbirmos ao pecado da vaidade. Jesus se retira sob o sol de Satanás e sofrerá um batismo de fogo após o seu batismo de água no Jordão. A sua tentação é proporcional à sua missão e como a nossa é expressa humanamente: a de ter seus desejos imediatamente satisfeitos e assegurar a sua sobrevivência; a de experimentar a sua onipotência e se tornar igual a Deus e, finalmente, a de dominar os homens e reinar sobre a Terra. O mesmo Espírito que conduz Jesus ao deserto permite reconhecer em nossos desertos a presença de Deus agindo do nosso lado nas provas e tentações cotidianas. A tentação não é um mistério de vitrine, mas um mistério de vertigem que cada um carrega em si, no seu próprio precipício possível. Na sua agonia, Jesus é abandonado pelos seus, na sua tentação é abandonado a si mesmo e se reencontra só com todos os possíveis da sua humanidade. O Enganador se engana: se somos filhos de Deus, é inútil transformar pedras em pão, pois o Pai dá naturalmente o pão a seus filhos (Mt 6, 11); se somos filhos de Deus é impossível se lançar abaixo, porque seguros nas mãos de Deus não teremos vertigens e se somos seus filhos será em vão fazer vilezas e vulgaridades para se ganhar todos os reinos do mundo, porque já somos herdeiros com o Filho do reino do Pai (Rm 8, 17). Este período de quaresma nos permite uma profunda revisão no nosso deserto interior para que possamos, como Jesus, permanecer nos desígnios do Pai. A nossa vitória está na conquista da lucidez de sermos filhos e filhas bem-amados. O evangelista nos remete à experiência humana mais profunda que acarreta apreensão e angústia por desfilar diante dos olhos as imagens mais sedutoras. Há um debate interior que une, na vida de Jesus, dois momentos cruciais: a solidão do deserto e a solidão do Jardim das Oliveiras. Jesus não escolhe os bens terrestres, mas a pobreza; não escolhe o prestígio, mas a humildade diante das humilhações; não sucumbe à idolatria do poder político, mas prefere ser condenado injustamente como “rei dos judeus”. A tentação do deserto desvela a união diabólica e a natureza maléfica do poder político e da elite religiosa. A liderança política e religiosa é a forma institucional visível de uma realidade interna que resiste aos propósitos de Deus e se empenha em cumprir a sua agenda por meio da injustiça e do poder opressor. A Igreja de Jesus deve aprender com Ele a não sucumbir à tentação maior que é a de agir em benefício próprio. Como diz Paulo: “Conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por vós se tornou pobre para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8, 9).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

A Ceia, 1976-1979, Ben Willikens (1939-), acrílico sobre tela (tríptico), 300 cm x 200 cm (cada painel), Museu Alemão de Arquitetura, Frankfurt, Alemanha.

 



 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Caminho da Beleza 15 - Quarta-Feira de Cinzas

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Quarta Feira de Cinzas

Jl 2, 12-18               2 Cor 5, 20- 6, 2               Mt 6, 1-6.16-18

 

ESCUTAR

Rasgai o coração, e não as vestes, e voltai para o Senhor, vosso Deus (Jl 2, 13).

“No momento favorável eu te ouvi, e no dia da salvação eu te socorri”. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação. (2 Cor 5, 2).

Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por ele. (Mt 6, 1).

 

MEDITAR

O que importa é Deus. Viver unido a Deus, nas luzes e nas noites da caminhada. Ora, viver unido a Deus é morrer a si mesmo, abraçando a cruz cotidiana no seguimento de Jesus e abrindo o coração aos outros, na alegria do Espírito.

(Francisco Catão)

 

ORAR

“Rasgai os vossos corações e não as vestes” é o apelo profundo do profeta para nós neste “tempo propício” que o apóstolo Paulo nos recorda. Não é um tempo depressivo como muitas vezes queremos fazer, mas um tempo de conversão. E converter-se não é apenas “tomar consciência” das nossas coisas, mas mudar a nossa prática de vida. Só existe conversão quando existe uma mudança de prática no nosso viver. É um tempo penitencial não porque temos que inventar sacrifícios, mas porque devemos nos reconciliar com nossos irmãos e irmãs e, consequentemente, nos reconciliar com o Pai, no Filho, pelo Espírito Santo. Para nós cristãos, é um tempo de recolhimento e de testemunho. Não é um tempo para festas, rifas, bingos ainda que possam render alguma coisa para os mais necessitados e para as nossas paróquias e pastorais. É um tempo de perdão. “Não quero sacrifícios, mas a misericórdia”, proclama o profeta Oséias. Para que este tempo penitencial possa encontrar o seu verdadeiro significado e valor para Deus, devemos trazê-lo para o nosso interior, para o invisível. Jesus nos aconselha a dar esmolas, rezar e jejuar de uma maneira discreta para que essas oferendas sejam recompensadas pelo Pai que conhece o mais íntimo dos nossos corações. Ninguém faz penitência para ser recompensado por Deus. Antes de tudo fazemos penitência para podermos nos identificar e seguir a Jesus Cristo. E, fazer penitência, é, no mundo de hoje, nos comprometermos para que ele possa sair desta situação de miséria, de opressão e de dor em que ele se converteu. É sermos capaz de gestos, por menores que sejam, mas gestos que libertam pela sua solidariedade e compaixão. As cinzas nos lembram que somos pó e que ao pó retornaremos e, portanto, o fio condutor da nossa revisão de vida deve ser marcado pelas palavras de Jesus ao citar o profeta Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Luz de Esperança, s.d., Black Now, David Carillo, Estados Unidos, viewbug.com.