terça-feira, 6 de outubro de 2026

O Caminho da Beleza 30 - XXIX Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XXIX Domingo do Tempo Comum         

Is 45, 1.4-6              1 Ts 1, 1-5                Mt 22, 15-21


ESCUTAR

“Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há Deus” (Is 45, 5).

Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações (1 Ts 1, 2).

“Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a Cesar?” (Mt 22, 17).

 

MEDITAR

O Reino de Cristo é anunciado quando o ser humano é libertado do que o oprime: o dinheiro e o desprezo. O ser humano torna-se livre quando o poder se faz serviço; quando a partilha e a solidariedade tornam-se os novos modos de viver em sociedade e na Igreja.

(D. Bernard Hubert)

 Ao se aproximar da sua morte e da sua ressurreição, Jesus se despojou de muitas coisas. Não fez mais nenhum milagre, não estava mais no centro da multidão, uma figura cercada por apoiadores e admiradores. Ele se privou dos seus discípulos que o renegaram e fugiram. Finalmente, ele se despojou das suas vestes e subiu nu na cruz. Tudo isso abriu o caminho para o dom inimaginável da Ressurreição.

(Timothy Radcliffe)

 

ORAR

    O Senhor confere o título de cristo – ungido – a Ciro, rei da Pérsia que nem sequer O conhecia. Um não–crente, sem etiquetas religiosas, é chamado para realizar as obras de Deus. Os judeus haviam buscado a segurança ao estreitar alianças, ao pactuar com os poderosos da vez e esquecer que a segurança somente está garantida pela fidelidade ao Senhor. Os pactos não impediram a ruína, ao contrário, causaram-na. Durante o exílio da Babilônia, a esperança enfraqueceu, mas graças ao édito de Ciro, em 598 AC, os judeus puderam voltar à sua terra. O edito de Ciro é mais convincente do que o de Constantino, recém-convertido, que aprisionou a Igreja ao poder temporal, tornando-a um império religioso. Jesus escapa da armadilha de seus interlocutores, deixando-os numa situação embaraçosa, pois delimita de uma maneira inequívoca o território espiritual e o temporal. Cristo não dá uma resposta/receita válida para todo o sempre, mas reafirma a riqueza de uma luz que existe no nosso interior: a consciência. O seguimento de Jesus não nos fornece um passaporte eterno e milagroso que resolve, automaticamente, para sempre, todos os conflitos. No nosso agir, devemos assumir nossa posição com a atuação da fé, o esforço do amor e a firmeza da esperança em Cristo. Diante da pergunta-armadilha dos fariseus, Jesus pede uma moeda, pois vivia como itinerante, sem trabalho e sem morada fixa. Ele não tinha sequer uma moeda e sua túnica não tinha bolsos. O poder limitado de César, por sua vez, chega até onde vai a sua moeda. O poder de Deus, ao contrário, é ilimitado e por isso deve receber tudo de todos. Os cristãos devem confrontar os poderes civis e religiosos que toleram e perpetuam as injustiças e prepotências. Estes poderes, ainda que da boca para fora não neguem a Deus, ofendem a sua imagem que é o homem. A imagem de César está na moeda, mas a imagem de Deus está em cada um de nós. Lamentamos quando perdemos a imagem de César, mas continuamos adoradores dos poderes quando injuriamos a imagem de Deus que está em cada um de nós e em nossos irmãos e irmãs.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, thruthsocial.com, acessado na rede em 06/10/2026.




 

 

O Caminho da Beleza 49 - XXVIII Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XXVIII Domingo do Tempo Comum                    

Is 25, 6-10               Fl 4, 12-14.19-20              Mt 22, 1-14

 

ESCUTAR

O Senhor Deus eliminará para sempre a morte, e enxugará as lágrimas de todas as faces, e acabará com a desonra do seu povo em toda terra (Is 25, 6.8).

Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade. Tudo posso naquele que me dá força (Fl 2, 12-13).

“Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados” (Mt 22, 10).

 

MEDITAR

Cada concessão só enfraquece aquele que a faz e ofende mais ainda aquele que a obtém.

(Gustave Thibon)

 

ORAR

      O profeta Isaías nos convida a sonhar o inimaginável, os projetos mais incríveis e os propósitos mais impossíveis de um Deus cuja realidade está infinitamente mais longe do que os nossos desejos mais audazes e loucos. Temos sido rasos e medíocres para imaginar as coisas maravilhosas que o Senhor realiza em nós e o futuro que Ele nos prepara.  O profeta nos faz saber que o que nos conduz ao Paraíso é sermos capazes de sonhar o impossível. A parábola do banquete foi muito popular entre as primeiras gerações cristãs. Deus está preparando uma festa final para os seus filhos e filhas, pois deseja ver a todos sentados com Ele ao redor da mesma mesa e desfrutando, para sempre, de uma vida plena e em abundância. Esta foi uma das imagens mais queridas por Jesus para sugerir a plenitude dos tempos. Ele compreendeu e viveu a sua vida como um grande convite em nome de Deus. Não impunha nada e nem pressionava ninguém. Anunciava a Boa Nova, despertava a confiança, arrancava os medos, aniquilava as angústias e devolvia a alegria. O Evangelho fala sobre o banquete e esta parábola é conduzida por uma série ininterrupta de surpresas. A primeira, a apresentação do Reino de Deus como um banquete de bodas, símbolo por excelência da alegria do encontro, da comunhão e da intimidade. A segunda, a recusa absurda dos convidados pela sua indiferença, distância e fastio. A terceira surpresa, é que o desígnio de Deus não se interrompe apesar da falta de adesão dos convidados privilegiados. Deus não suspende a festa, pois o Evangelho rechaçado por uns encontra uma inesperada acolhida em outros corações. A quarta surpresa, como uma reviravolta dramática, é protagonizada pelo homem surpreendido sem a veste de festa. O evangelista quer que saibamos que não é possível ser cristão sem mudar a própria conduta, uma vez que as exigências éticas contam no reino de Deus. A seriedade do compromisso é a condição para que a festa seja verdadeira. Aquele que, por descuido ou desleixo, não veste o traje da festa inverte a gratuidade do convite e no seu orgulho está convencido de que é o Senhor que deve lhe agradecer por ele estar presente. Ele exclui a si mesmo da mesa por ter se contentado com a tênue luz que iluminava a si próprio. Paulo nos fala sobre o segredo de viver. No mundo todos somos pressionados, sem pudor, pela força do dinheiro, mas ele nos revela que encontrou em outra parte o que o alimentou para o anúncio do Evangelho: “Tudo posso naquele que me dá força”. Paulo revela que tudo poderemos sem o dinheiro e que tudo podemos, precisamente, por não termos dinheiro. Saberemos viver na pobreza e na abundância, pois aprendemos o gosto da liberdade dos que não fazem das suas posses os seus grilhões. Aos que planejam usufruir de tudo e de todos, sem nunca oferecer e entregar nada a ninguém, estes serão a comida e a bebida do banquete profetizado por Ezequiel: “Dize aos pássaros, a tudo o que voa, a todos os animais selvagens: Reuni-vos e vinde! Podereis comer carne e beber sangue. Podereis comer carne de heróis e beber sangue dos governantes da terra. Comereis gordura até saciar-vos e beberei sangue até embriagar-vos: é o banquete que vos preparei” (Ez 39, 17).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Sem Título, s.d., Barcelona, Martin Molinero (1975-), Buenos Aires, Argentina.



 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Caminho da Beleza 48 - XXVII Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XXVII Domingo do Tempo Comum          

Is 5, 1-7                    Fl 4, 6-9                   Mt 21, 33-43

 

ESCUTAR

Eu esperava deles justiça – e eis injustiça; esperava obras de bondade – e eis iniquidade (Is 5, 7).

E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus (Fl 4, 7).

“O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos” (Mt 21, 43).

 

MEDITAR

O verdadeiro problema da Igreja é continuar com uma resignação e um tédio cada vez maior pelos caminhos habituais de uma mediocridade espiritual.

(Karl Rahner)

Senhor, faze que eu tenha fome e sede de justiça. Faze que eu não seja apegado às pequenas coisas que me tranquilizam, a um status quo pelo qual me sinto protegido... Que eu não perca nunca a esperança; que eu saiba contestar, em nome desta esperança em Ti e no homem, todo imobilismo, toda conservação que nega a ação incessante do teu Espírito!

(Ettore Masina)

 

ORAR

Somos chamados a sermos juízes do amante traído pela vinha amada. O amado cuidou com toda dedicação da sua vinha, mas ela produziu uvas selvagens. O amante esperava frutos bons para que os outros pudessem deles usufruir; o seu amor e dedicação deveriam ser devolvidos em favor dos outros. A canção de amor se converte numa denúncia áspera e cheia de questionamento: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?”. Somos nós a vinha do Senhor que produzimos uvas selvagens da injustiça, do desamor e da mentira. Apesar de tudo, o Senhor continua tentando nos atrair com canções de amor. A lição do profeta cabe como uma luva para as igrejas que reclamam privilégios, outorgam a si direitos, celebram triunfos passados, mas não produzem frutos de amor. Jesus não pede nada de excepcional, apenas sugere, por meio do Espírito, o possível que devemos produzir e o impossível que devemos esperar do Pai. A Igreja de Jesus foi construída sobre uma pedra desprezada e, até hoje, ela se sustenta sobre a pedra rejeitada e sobre tantas pessoas desprezadas. Paulo nos evoca a produzir frutos verdadeiros, respeitáveis, justos, puros, amáveis, honrados e dignos de louvor. São frutos que podem ser encontrados em outras vinhas que sempre são vinhas do Senhor ainda que não tenham a placa oficial pendurada na porta de entrada. A parábola nos exorta a que não criemos falsas ilusões ao reivindicar um direito de propriedade sobre a salvação e a verdade. Jesus não diz que a vinha será entregue às igrejas ou a uma nova instituição, mas “a um povo que produzirá frutos”. O Reino de Deus está no povo que produz frutos de justiça, de compaixão e que defende os sem direito e os sem voz. “Povo de Deus é o que pratica a justiça em qualquer situação, tempo ou lugar” (Lumen Gentium 9). A maior tragédia que pode suceder ao cristianismo é calar a voz dos profetas, que os sacerdotes se intitulem donos da vinha do Senhor e que o Cristo seja posto de lado por sufocarmos o seu Espírito. Não podemos jamais esquecer que se a Igreja não responder às esperanças que pôs nela o Senhor, Ele abrirá novos caminhos de salvação em povos que produzam frutos.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Colheita de Uvas, autoria desconhecida, IStock/Getty Images, istockphoto.com, acessado em 01/10/2026.

 


 

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O Caminho da Beleza 47 - XXVI Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XXVI Domingo do Tempo Comum            

Ez 18, 25-28                       Fl 2, 1-5                   Mt 21, 28-32

 

ESCUTAR

“Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida” (Ez 18, 27).

 Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro (Fl 2, 3-4).

“Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21, 31).

 

MEDITAR

Se eu fosse um demônio, para tentar a um grupo religioso sério, pedir-lhe-ia que criasse muitas leis e regras e que logo organizassem sua vida. Os membros desse grupo poderiam pensar que a observância destas leis é o caminho para servir a Deus, mas gradualmente Deus se retiraria. Logo após isto, em nome da busca da verdade, eles propagariam essas leis mediante palavras e ideias... tudo isso em nome de Deus. Pouco a pouco, eles mesmos tomariam o lugar de Deus.

(Shigeto Oshida)

Muitas pessoas esperam ser muito mais santas e perfeitas estando às voltas com grandes coisas e grandes palavras. Buscam e desejam muitas coisas, querendo também as possuir; não obstante olharem tanto para si e para isso e aquilo, e pensarem estar se empenhando atrás do recolhimento interior, não podem acolher uma palavra. Estejais verdadeiramente certos de que essas pessoas estão longe de Deus e fora dessa união.

(Mestre Eckhart)

 

ORAR

O profeta nos faz saber da nossa responsabilidade individual e cada um de nós é responsável pelo momento presente, dono do seu próprio destino e artífice do seu futuro. Se somos o que somos devemos a nós mesmos. Se não somos o que queríamos ter sido não é justo descarregar as culpas nos DNAs familiares. É muito cômodo responsabilizar a sociedade, as estruturas, o ambiente familiar e o sistema. Atualmente as pessoas não se arrependem nem do bem e nem do mal que fazem e continuam sem se perguntar sobre os conteúdos da vida e da direção que caminham. O Evangelho nos mostra dois filhos arrependidos. O primeiro não quis ir para a vinha, mas depois foi; o segundo quis ir, mas não foi. A Igreja de hoje deve temer mais os consensos superficiais, as aprovações entusiastas, as declarações que nada custam e as aclamações hipócritas. Muita gente diz sempre Sim em qualquer circunstância e em todas as partes. Toda obediência ostensiva é suspeita, pois pode ser um recurso sutil para se esquivar das tarefas mais ingratas. Os aplausos dificilmente abrem para um compromisso concreto e silencioso. Nós, cristãos do século XXI, não inventamos absolutamente nada. Continuamos a viver numa sociedade e em igrejas nas quais cada um busca o próprio interesse e o próprio êxito; pisando uns sobre os outros para ascender em status e poder. A mensagem da parábola é clara: diante de Deus, o importante não é falar, mas fazer. O decisivo não é prometer ou confessar, mas cumprir a Sua vontade. A tradição rabínica repete: “Os justos dizem pouco e fazem muito; os ímpios dizem muito e não fazem nada”. Os escribas falam constantemente da Lei e o nome de Deus está sempre em seus lábios. Os sacerdotes do Templo louvam a Deus sem descanso e suas bocas estão cheias de salmos. Ninguém duvidaria de que estivessem fazendo a vontade do Pai. Mas as coisas não são sempre como parecem. Os cobradores de impostos e as prostitutas não falam a ninguém de Deus e Jesus tem compaixão para com eles. O Credo que pronunciamos repetitivamente é inócuo se vivemos sem compaixão. Nossos pedidos de paz e justiça são estéreis se nada fazemos para construir uma vida mais digna para todos. Nós, cristãos, construímos magníficos sistemas de pensamento para recolher a doutrina cristã com profundidade. No entanto, a verdadeira vontade do Pai é vingada pelos que traduzem em atos de compaixão o Evangelho de Jesus.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Bom Samaritano, 1885, Ferdinand Hodler (1853-1918), óleo sobre tela, Museu de Arte Moderna de Zürich, Suíça.




quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O Caminho da Beleza 46 - XXV Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XXV Domingo do Tempo Comum  

Is 55, 6-9                 Fl 1, 20-24.27                    Mt 20, 1-16

 

ESCUTAR

Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor (Is 55, 8).

Só uma coisa importa: vivei à altura do evangelho de Cristo (Fl 1, 27).

 “Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom? Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (Mt 20, 15-16).

 

MEDITAR

Quando se tratar de receber a recompensa, seremos todos iguais: os primeiros, como se fossem os últimos e os últimos como se fossem os primeiros. Porque a moeda de prata é a vida eterna, todos fruirão da mesma vida eterna. Contudo, em razão da diversidade dos méritos um resplandecerá mais e outro menos, mas quanto à vida eterna, ela será a mesma para todos. Ela não será mais longa para um e nem menos longa para outro, pois ela será eterna para todos: o que não tem fim para mim, não terá também para ti.

(Santo Agostinho)

Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

(Clarice Lispector)

 

ORAR

    “Ide para a minha vinha”, diz o Senhor e tudo se joga num instante, numa ocasião que não se pode deixar passar. Se não abrirmos os olhos, nos colocarmos de pé e não respondermos ao chamado, faltaremos ao encontro decisivo da nossa vida. Este é o momento favorável e o dia da salvação (2 Cor 6, 2) e não haverá outros mais favoráveis. Não podemos pedir “um tempo” para considerar a oferta, para avaliar o convite e responder numa próxima vez. O Senhor nos quer encontrar hoje, pois qualquer hora é hora para Ele desde que seja a hora do nosso Sim. Os caminhos do Senhor e seus pensamentos podem não coincidir, rigorosamente, com os nossos. Ao encontrarmos o Senhor, a entrega há de ser inteira e despojada. Para encontrá-Lo, devemos, primeiro, renunciar aos nossos pensamentos sobre Ele. A deformação da imagem de Deus é o perigo que correm as pessoas religiosas. Quanto mais o Senhor se revela tanto mais se faz misterioso e sempre sua revelação nos desconcerta e nos escandaliza. O chamado à vinha é graça e o prêmio é dom, pois a alegria do Senhor é dar sem medida. Deus nos fala da gratuidade e nós respondemos a Ele, falando da “justiça” com suas cláusulas, códigos e regras. A generosidade de Deus sempre cria problemas e, muitas vezes, se torna um obstáculo para a fé e um perigo para a moral daqueles que rechaçam os que consideram indignos e pecadores. A parábola não se dirige aos pecadores, mas aos bons e justos que devem se questionar sobre suas reações diante dos comportamentos surpreendentes e escandalosos de Deus. Não é fácil acreditar nesta bondade insondável de Deus que nos fala Jesus. Podemos nos escandalizar que Deus seja bom para com todos, mereçam ou não; sejam crentes ou agnósticos; invoquem seu nome ou vivam de costas para Ele. Deus é assim e o melhor que podemos e devemos fazer é deixar que Ele seja o que é, sem apequená-Lo com nossas ideias, esquemas e frustrações.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

À Meia-Noite, 2005, Michael Triegel (1968-), técnica mista sobre MDF, 80 cm x 126,5 cm, coleção particular, Fundação São Mateus, Berlim, Alemanha.



 

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Caminho da Beleza 45 - XXIV Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XXIV Domingo do Tempo Comum            

Eclo 27, 33-28, 9              Rm 14, 7-9              Mt 18, 21-35

 

ESCUTAR

Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura? Se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados? (Eclo 27, 3-4).

Irmãos, ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor (Rm 14, 7-8).

“Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18, 21-22).

 

MEDITAR

Nosso grande erro é tentar obter de cada um em particular as virtudes que ele não tem e negligenciar o cultivo das virtudes que ele possui.

(Marguerite Youcenar)

Todo grupo humano se enriquece na comunicação, na ajuda mútua e na solidariedade visando o bem comum: o desabrochar de cada um no respeito das diferenças.

(Françoise Dolto)

Na lição cristã, o perdão é a prova mais alta que alcança o amor humano porque isto seria uma exclusividade de Deus e quando o homem se aproxima à possibilidade do perdão, se avizinha, por consequência, de Deus.

(Massimo Recalcatti)

 

ORAR

    Após recomendar o amor fraterno como constitutivo da comunidade, Jesus convida os seus discípulos para ir mais longe, até o perdão das ofensas, sem limites e sem voltas. Setenta vezes sete é a vingança extrema citada nos velhos contos épicos: “Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete” (Gn 4, 24). Pedro ainda não compreendera que o perdão não é um prêmio, uma imposição, mas uma estupenda possibilidade; não um peso, mas uma libertação. O perdão é uma inacreditável possibilidade que nos é oferecida de fazer o mesmo gesto misericordioso e sem limites do Pai que zera todas as contas e anula todas as dívidas. O perdão, e tão somente ele, nos garante a certeza de virar a regra do jogo marcada pela ofensa, pela violência, pelo ódio do adversário, pela vingança, pelo rancor e pelo ressentimento. Nem Pedro e nem André, seu irmão, frequentaram a escola, pois desde cedo tiveram que aprender, com o seu pai, o ofício de pescador. E Pedro só conseguiu contar até sete na tentativa de regulamentar o perdão ao fixar um teto limite. Jesus lhe revela que não há cifras para o amor, que não existe “a última vez”, mas somente limites continuamente superáveis. “Sim, o amor é êxtase; êxtase não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus” (Bento XVI, Deus Caritas Est). No calendário cristão todo o dia é sempre dia de amar e de perdoar sem medidas. É o momento de inverter as preocupações e perguntar quantas vezes fizemos danos aos outros, pois também podemos ofender e escandalizar os nossos irmãos e irmãs. Temos que aniquilar o perdão regulamentado porque ele é sempre de mão única e um perdão de superioridade, de cima para baixo e, portanto, um perdão sem as entranhas da compaixão. Pedro só descobriu o perdão quando se tornou um devedor insolvente pela negação que fez de Jesus: “Não conheço este homem!” (Lc 22, 57). O perdão cristão, como a misericórdia do Pai, não entra em nenhuma medida humana e, por isso, por mais que queiramos, será impossível tomar posse dele e reservá-lo para nós. Que não sejamos nós a perguntar ao Cristo: quantas vezes podemos ser generosos como fostes conosco?

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Um homem norte-coreano acena sua mão enquanto seu parente sul-coreano chora, 2010, Monte Kungang, Coréia do Norte, foto de Kim Ho-Young, Agência Reuters, Coreia do Sul.

 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O Caminho da Beleza 44 - XXIII Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XXIII Domingo do Tempo Comum           

Ez 33, 7-9                Rm 13, 8-10                       Mt 18, 15-20

 

ESCUTAR

“Quanto a ti, filho do homem, eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel. Logo que ouvires alguma palavra da minha boca, tu os deves advertir em meu nome” (Ez 33, 7).

Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a lei (Rm 13, 8).

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (Mt 18, 20).

 

MEDITAR

Nossa experiência de Deus é como o ato de nadar num eterno oceano de amor ou interagir com a presença despercebida do ar: inspiramos amor e expiramos amor. Essa experiência é onipresente, onisciente e onipotente. Jamais se esgota, sempre se expande. Quando procuro descrever essa realidade, as palavras me falham, então simplesmente digo o nome Deus.

(John Shelby Spong)

 

ORAR

“Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo”. As dívidas mais importantes e vitais que temos são dívidas de amor. Sempre estaremos em débito, porque ao pagar as dívidas do presente as do futuro surgirão. O cristão sempre ficará, por amor, a dever alguma coisa para alguém. O amor é um crédito que os outros exibem diante de nós sempre e em todas as partes. Quando servimos os pobres não fazemos mais do que pagar nossas dívidas de amor. O profeta nos apela a sermos sempre sentinelas do amor. Não vigias da disciplina e da intolerância e nem vigias que não dormem para acusar os inimigos, mas se tornam sonolentos quando se trata de defender a prática do amor. O cristão age em comunidade sob o signo da corresponsabilidade. Cada um é sentinela do seu irmão para aniquilar a prepotência assassina de Caim: “Sou eu o guarda do meu irmão? Quem não ama é assassino e as vozes do sangue dos não-amados clamarão aos céus” (Gn 4, 10). Ser sentinela não significa comportar-se como espião ou polícia do outro, pois antes de julgar o próximo é necessário demonstrar nosso cuidado, nossa atenção, e fazê-lo acreditar que é amado, apesar de tudo. O amor, a paciência, a misericórdia e o respeito são a luz indispensável para a correção fraterna dos nossos irmãos. Mais do que discipliná-los é preciso chamá-los a deixar-se amar. A correção fraterna exige o abandono de qualquer superioridade, pois todos partilhamos da mesma fragilidade e miséria. Nunca dizer: “Olha o que você fez!”, mas “Veja o que somos capazes de fazer”. E para aquele que se autoexclui da comunidade devemos ainda mais amor. Na Igreja de Jesus, não podemos estar por inércia nem por costume ou medo. Devemos estar reunidos em seu nome e alimentando-nos do seu Evangelho. Reunir-se em nome de Jesus é criar um espaço para viver a existência em torno Dele e do Seu horizonte. Um espaço definido não pelos limites das doutrinas, dos costumes e práticas, mas pelos horizontes de amor. O cristão não conhece limites, mas horizontes. Devemos ser uma luz no meio de uma Igreja debilitada pela rotina e paralisada pelos medos. A renovação da Igreja começa sempre no coração de dois ou três que se unem em nome de Jesus: a presença de Deus está onde existe a presença fraterna. Meditemos em nosso coração o livro do Eclesiástico: “há amigos de um momento que não duram em tempo de perigo. O amigo fiel é refúgio seguro; quem o encontra, encontra um tesouro” (Eclo 6, 8.14).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, s.d., autoria desconhecida, fonte: pexels/pixabay.