Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a
muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).
XII Domingo do Tempo Comum
Jr 20, 10-13 Rm
5, 12-15 Mt 10,
26-33
ESCUTAR
“Mas o Senhor está ao meu
lado como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos” (Jr
20, 11).
O dom gratuito concedido
por meio de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos (Rm
5, 15).
Não tenhais medo dos
homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado (Mt 10, 26).
MEDITAR
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
(Carlos Drummond de Andrade)
O medo é a extrema
ignorância em momento muito agudo.
(Guimarães Rosa)
ORAR
“Não temais!”
é a invocação deste domingo ainda que estejamos expostos a todos os riscos e
vivamos num estado permanente de conflitos e contradições. Jeremias testemunha
que o Senhor lhe confia uma palavra ardente, que corta a carne e arranca as
falsas seguranças. O profeta incomoda a tranquilidade alheia e por mais que o
Senhor esteja ao seu lado, como forte guerreiro, Ele não intervém para livrá-lo
dos golpes. Os discípulos do Cristo estão sempre sob a proteção paterna de
Deus, mas, apesar disto, estão expostos a todas as provas e tentações sem
nenhuma imunidade divina. O Cristo na Cruz se faz voluntariamente impotente e
conserva somente o poder do amor e do perdão. Deus não intervém, e muito menos
de fora, pois o risco do amor é a debilidade e o desprezo. Quando o amor
recorre à força para se fazer valer ou recorre à lei para tutelar os seus
direitos desmente-se a si mesmo. A única razão do amor é o amor. O evangelho
nos faz saber que o Pai está comprometido em tudo o que nos acontece e está
dentro de nós, encarando conosco os golpes que recebemos. A fé cristã não tem
uma função de impermeabilizar. A fé cristã se expõe e nesta exposição nos faz
saber e sentir a presença providencial do Senhor. No calvário, existe somente a
Cruz e nela se encontram e cruzam o pecado do homem e o dom de Deus que oferece
o seu Filho único. O amor, ainda que derrotado, continua dando tudo e sempre.
Jesus quer libertar as pessoas do medo e da angústia que se apoderam delas
quando em nosso coração crescem a desconfiança, a insegurança e a falta de
liberdade interior. O amor é sempre um gesto que liberta. Jesus procurou, antes
de mais nada, despertar a confiança no coração das pessoas. Seu maior desejo
era que elas vivessem em paz, sem medos e angústias, pois onde cresce o medo
perde-se de vista Deus, afoga-se a bondade das pessoas, a vida se apaga e a
alegria desaparece. Meditemos em nossos corações as palavras de Paulo: “Quem
nos afastará do amor de Cristo: tribulação, angústia, perseguição, nudez,
perigo, espada? Em todas essas circunstâncias, somos mais que vencedores,
graças àquele que nos amou” (Rm 8, 35-37). Uma comunidade cristã deve ser o
lugar em que, vivendo a verdade, libertamo-nos dos fantasmas, que são os nossos
medos, para respirar a paz e viver a fraternidade entranhada que nos torna
possível, hic et nunc, escutar o
apelo de Jesus: “Não tenhais medo!”.
(Manos da Terna Solidão/Pe.
Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
Os amantes, 1928, René Magritte (1898-1967), Bélgica, óleo sobre tela, 54 x 73,4 cm, Museu de Arte Moderna, Nova York, Estados Unidos.