quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Caminho da Beleza 37 - XVI Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XVI Domingo do Tempo Comum   

Sb 12, 13.16-19                  Rm 8, 26-27                       Mt 13, 24-43

 

ESCUTAR

A tua força é princípio da tua justiça e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente (Sb 12, 16).

O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor com gemidos inefáveis (Rm 8, 26).

“Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?” (Mt 13, 27).

 

MEDITAR

É impossível entrar no existir sem levar junto nossa própria sombra. Muitas vezes, na experiência humana, aqueles que não conseguem lidar com sua sombra no final fazem com que aquela mesma sombra se torne sua realidade de posse. Nossa sombra pode consumir nosso existir e, quando isso acontece, tornamo-nos pessoas possuídas, dependentes.

(John S. Spong)

 

ORAR

     O Senhor nos ensina a ser dinâmicos nos tempos de semeadura, tempos de esperançosa paciência. Somos intempestivos e queimamos etapas e nos tornamos impacientes. Plantamos a semente e já esperamos, com uma rede na mão, que ela brote, que a árvore cresça para pendurarmos nela a rede e descansar. O Senhor julga com mansidão, sua política é a misericórdia, sua diplomacia é a compaixão. Ele detém o poder e o utiliza para perdoar a todos. O Senhor, apesar de nossas tolices, sempre nos oferece a possibilidade do arrependimento. Tendemos a buscar Deus no espetacular e no prodigioso, mas o Reino de Deus é sempre um minúsculo e insignificante início: Deus vem a terra como uma semente, um fermento ou um pequeno rebento. Não devemos nos exaltar, nem sermos insolentes, nem cedermos à inquietude e nos deixarmos devorar pela ansiedade. Devemos fluir na vida e não sufocá-la. Jesus é semeador e semente ao mesmo tempo e Ele mesmo se converterá em grão caído na terra para morrer: “Se o grão caído na terra não morrer, ficará só; se morrer, dará muitos frutos” (Jo 12, 24). Sua força irresistível, mas escondida, é a força da vida: para fazer viver, é necessário desaparecer; para fazer fermentar temos que nos perder no meio da massa de pão. Jesus revela que a eficácia é garantida pela pequenez e não pelas estatísticas enganadoras. O grão de mostarda, por ser a menor semente, transformar-se-á em grande árvore. Ele é importante não pela grandeza da árvore que virá a ser, mas porque faz viver os pássaros do céu que nela encontram pouso e acolhida para a sua diversidade. Nada temos a temer, pois é o Espírito de Deus no nosso mais íntimo que intercede por nós em pleno gozo de amor: com gemidos inefáveis. Ele sempre sabe o melhor para nós e sonha com maravilhosas coisas para todos. Nunca é demais lembrar que podemos tornar Deus uma fraude não pelo que fazemos por Ele, mas, sobretudo, pelo que não permitimos que Ele faça por nós.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Beijo de Judas e prisão, 2003, Arcabas, (Jean-Marie Pirot) (1926-), óleo sobre tela, ouro fino 23 quilates, 0,81 m x o,65 m, Saint-Pierre-de-Chartreuse, França.




quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Caminho da Beleza 36 - XV Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XV Domingo do Tempo Comum                 

Is 55, 10-11             Rm 8, 18-23                       Mt 13, 1-23

 

ESCUTAR

“Assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes realizará tudo o que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la” (Is 55, 11).

“Com efeito, sabemos que toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto” (Rm 8, 22).

“A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um da cem, outro sessenta e outro trinta” (Mt 13, 16).

 

MEDITAR

Um grão amontoado apodrece, espalhado frutifica.

(São Domingos de Gusmão)

O preço do sofrimento depende da resposta que lhe dá o homem: suportado e aturado, não chega a produzir senão medíocres e deformados; assumido, é um meio poderoso de elevação, um apelo a um mais-ser. Nossa vida profunda só se mantém por um vaivém contínuo do rebaixamento ao afrontamento.

(Emmanuel Mounier)

 

ORAR

     O homem da Palavra deve ser um homem de esperança, pois só se pode semear na esperança. Somos chamados a semear e não a ceifar. E a semear com abundância, generosidade, sem cálculos mesquinhos e sem exclusões prejudiciais. Devemos nos acostumar às pedras e a nos movermos por entre os espinhos. Como semeadores, não temos o direito de selecionar os terrenos e declarar, de antemão, quais são os merecedores da semente porque nos oferecem perspectivas alentadoras. É preciso semear com alegria e não com uma desconfiança estampada num rosto sombrio. Nunca saberemos qual o terreno fértil, quais as circunstâncias favoráveis e o tempo justo. Todos nós que formamos a comunidade eclesial somos terrenos predispostos para acolher a semente da Palavra. Somos um pouco de tudo: caminho, pedra, espinho e terreno fértil. A Palavra de Deus, escutada centenas e milhares de vezes, pode não penetrar, não ser interiorizada, nada remover em profundidade e nem mudar o nosso rosto. Ela permanecerá inutilizada e intacta pelas recusas que Dela fazemos. Deus espera uma resposta que não pode ser evasiva e nem dada segundo as nossas preferências. Somente Deus sabe avaliar o terreno dos corações prontos para a semeadura ou empedrados pela arrogância e autossuficiência. Não só Deus espera, mas também a criação “está aguardando a plena manifestação dos filhos de Deus”. Até agora e, muitas vezes, fomos descuidados, indiferentes e a Criação tem pago as consequências, pois desfiguramos, pela ganância, a obra maravilhosa saída das mãos de Deus e transformamos a bênção original numa maldição perpetrada pelas nossas ambições e desejos espúrios. A Palavra de Deus é uma força vital e nós temos a liberdade de acolhê-la ou não.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Semeador, 1888, Vicent Van Gogh (1853-1890), óleo sobre tela, 64 x 85 cm, Coleção Rijksmuseum Kröller-Müller, Países Baixos.




 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O Caminho da Beleza 35 - XIV Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XIV Domingo do Tempo Comum               

Zc 9, 9-10                Rm 8, 9.11-13                    Mt 11, 25-30

 

ESCUTAR

“Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria de jumenta” (Zc 9, 9).

“Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (Rm 8, 9).

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25).

 

MEDITAR

Eu não quero Senhor nem ouro nem prata... Eu não procuro Senhor nem prazeres, nem a alegria deste mundo... Eu não peço honras... Dai-me teu Espírito Santo, para que ele ilumine meu coração, fortifique-me e me console em minha angústia e em minha miséria.

(Martinho Lutero)

O homem jovem conhece a carne, o homem amadurecido conhece o coração.

(Provérbio Massango, Gabão)

 

ORAR

     O Senhor vem montado num jumento e não é um rei guerreiro como o esperado. São os reis que fazem ostentação de poder e se impõem pelas armas. Jesus é manso, pacífico, humilde, mas quando desce do jumento é um deus nos acuda: é invadido por um furor sagrado e desencadeia um alvoroço no átrio do Templo. Ele é um sinal de contradição. Algumas vezes fala de sua missão como espada, fogo, jugo, sal que queima e suas palavras ao invés de carícias, parecem pedradas. Outras vezes usa palavras tão meigas que parecem açucaradas. Aquele que usa o chicote também se apresenta como manso e humilde. Jesus testemunha que a doçura não é uma caraterística de pessoas passivas. Os plenos de ternura são dotados de uma robusta espinha dorsal e mantêm a sua capacidade de indignar-se diante de situações intoleráveis. O manso e humilde não é um resignado, um impotente, incapaz de afrontar os desafios árduos que dele exigem uma posição inequívoca. Se não estivermos prontos a gritar e a nos queimar por dentro de ternura ou indignação, nunca poderemos falar de mansidão e doçura. Não existe doçura sem força e somente o não violento é forte. Os verdadeiros senhores do mundo são os consumidos pela ternura e os que recebem, como dom, a plenitude da vida. Os cansados e fatigados convidados por Jesus são os sobrecarregados com o peso de leis interpretadas por uma visão rigorista; são desprezados pelos moralistas religiosos e guardiões da intolerância que deformam a imagem de Deus ao desfigurar os homens e mulheres submetidos ao seu jugo. Jesus nos apela a sermos despenseiros da misericórdia e da generosidade que desbloqueiam as consciências e as libertam. A ternura é a única conquista da qual é lícito gabar-se e o único motivo de orgulho compatível com a humildade. A oração de Jesus é, antes de mais nada, um cântico dos pequenos e pobres que revela os segredos do seu coração. A oração é vida segundo o Espírito e por ela a religião de preceito e da obrigação é substituída pela fé no amor de Deus. Meditemos as palavras de São Bernardo de Claraval, no seu sermão sobre o Cântico dos Cânticos: “A esposa diz que seu amado é um simples ramalhete de mirra e por seu amor ela está pronta a considerar leve todo o sofrimento. Para mim que amo é um punhado de flores, pois a força do amor vence as dores mais atrozes” (Sermão sobre o Cântico 46, 1).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Cristo escarnecido por um soldado, 1880, Carl Bloch (1834-1890), óleo sobre tela, Copenhagen, Dinamarca.




 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

O Caminho da Beleza 34 - São Pedro e São Paulo

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


São Pedro e São Paulo            

At 12, 1-11                2 Tm 4, 6-8.17-18            Mt 16, 13-19

 

ESCUTAR

Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele (At 12, 5).

Caríssimo, quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida (2 Tm 4, 6).

“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16, 17).

 

MEDITAR

Se você ama será crucificado; se não ama, você já está morto.

(Timothy Radcliffe)

Mais do que qualquer outro, aquele que está animado de verdadeiro amor é engenhoso em descobrir as causas de miséria, encontrar os meios de a combater e vencê-la resolutamente.

(Papa Paulo VI)

 

ORAR

            Comemoramos neste domingo a festa do Papa e devemos nos concentrar em torno de Pedro que foi escolhido por Jesus para responder pelos Doze e administrar as responsabilidades da evangelização. A Igreja valoriza a diversidade das culturas para que nenhuma obsessão de unanimidade a transforme numa promotora de exclusão. Jesus ao ordenar aos seus discípulos – “não leveis ouro, nem prata, nem dinheiro à cintura, nem sacola para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias e nem bastão” (Mt 10, 9-10) – não o faz para penalizá-los, mas para que peçam ajuda aos outros e dependam da sua generosa hospitalidade. A Igreja de Jesus deve ser peregrina, hospitaleira e em permanente êxodo, sobretudo deve ser a Igreja do Perdão. Como afirmou Francisco: “A mãe Igreja não fecha as portas para ninguém, para ninguém! Nem mesmo para o mais pecador, para ninguém! E faz isso pela força, pela graça do Espírito Santo. A mãe Igreja abre, escancara suas portas para todos, porque é mãe” (24.05.2015). O Cristo perdoou o pecado da negação de Pedro e o pecado da perseguição de Paulo. Santo Antonio de Pádua pregava: “Jesus pediu a Pedro que apascentasse as suas ovelhas, não que as tosquiasse”. Jesus também não pede aos seus discípulos uma obediência cega, mas os convida sempre a refletir e a julgar: “Que vos parece?” (Mt 21, 28); “Por que não julgais por vós mesmos o que é justo?” (Lc 12, 57); “Qual é a vossa opinião?” (Mt 13, 51); “Compreendestes tudo isso?” (Mt 13, 51). Jesus conhece a limitação do seu discipulado, mas o ama acima de tudo. Sabe que é próprio da fragilidade humana vacilar e pecar por meio da covardia, omissão, conivência e traição, diante do exigido pela Boa Nova: o de não se deixar dominar pela ganância do dinheiro e do prestígio; pela ânsia do poder e do status social e clerical, mas o de se tornar livre para Deus que é glorificado pelos que amam.

 (Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Enfrentando a tempestade (detalhe), 2014, Dianbai, Província de Guangdong, China, Joseph Tam, Austrália.



quinta-feira, 18 de junho de 2026

O Caminho da Beleza 33 - XII Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XII Domingo do Tempo Comum

Jr 20, 10-13                        Rm 5, 12-15                        Mt 10, 26-33

 

ESCUTAR

“Mas o Senhor está ao meu lado como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos” (Jr 20, 11).

O dom gratuito concedido por meio de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos (Rm 5, 15).

Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado (Mt 10, 26).

 

MEDITAR

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Carlos Drummond de Andrade)


O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo.

(Guimarães Rosa)

 

ORAR

     “Não temais!” é a invocação deste domingo ainda que estejamos expostos a todos os riscos e vivamos num estado permanente de conflitos e contradições. Jeremias testemunha que o Senhor lhe confia uma palavra ardente, que corta a carne e arranca as falsas seguranças. O profeta incomoda a tranquilidade alheia e por mais que o Senhor esteja ao seu lado, como forte guerreiro, Ele não intervém para livrá-lo dos golpes. Os discípulos do Cristo estão sempre sob a proteção paterna de Deus, mas, apesar disto, estão expostos a todas as provas e tentações sem nenhuma imunidade divina. O Cristo na Cruz se faz voluntariamente impotente e conserva somente o poder do amor e do perdão. Deus não intervém, e muito menos de fora, pois o risco do amor é a debilidade e o desprezo. Quando o amor recorre à força para se fazer valer ou recorre à lei para tutelar os seus direitos desmente-se a si mesmo. A única razão do amor é o amor. O evangelho nos faz saber que o Pai está comprometido em tudo o que nos acontece e está dentro de nós, encarando conosco os golpes que recebemos. A fé cristã não tem uma função de impermeabilizar. A fé cristã se expõe e nesta exposição nos faz saber e sentir a presença providencial do Senhor. No calvário, existe somente a Cruz e nela se encontram e cruzam o pecado do homem e o dom de Deus que oferece o seu Filho único. O amor, ainda que derrotado, continua dando tudo e sempre. Jesus quer libertar as pessoas do medo e da angústia que se apoderam delas quando em nosso coração crescem a desconfiança, a insegurança e a falta de liberdade interior. O amor é sempre um gesto que liberta. Jesus procurou, antes de mais nada, despertar a confiança no coração das pessoas. Seu maior desejo era que elas vivessem em paz, sem medos e angústias, pois onde cresce o medo perde-se de vista Deus, afoga-se a bondade das pessoas, a vida se apaga e a alegria desaparece. Meditemos em nossos corações as palavras de Paulo: “Quem nos afastará do amor de Cristo: tribulação, angústia, perseguição, nudez, perigo, espada? Em todas essas circunstâncias, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8, 35-37). Uma comunidade cristã deve ser o lugar em que, vivendo a verdade, libertamo-nos dos fantasmas, que são os nossos medos, para respirar a paz e viver a fraternidade entranhada que nos torna possível, hic et nunc, escutar o apelo de Jesus: “Não tenhais medo!”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Os amantes, 1928, René Magritte (1898-1967), Bélgica, óleo sobre tela, 54 x 73,4 cm, Museu de Arte Moderna, Nova York, Estados Unidos.



 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O Caminho da Beleza 32 - XI Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XI Domingo do Tempo Comum                  

Ez 17, 22-24                       2 Cor 5, 6-10                      Mc 4, 26-34

 

ESCUTAR

“Eu sou o Senhor que abaixo a árvore alta e elevo a árvore baixa; faço secar a árvore verde e brotar a árvore seca. Eu, o Senhor, digo e faço” (Ez 17, 24).

Caminhamos na fé e não na visão clara (2 Cor 5, 7).

“A semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece” (Mc 4, 27).

 

MEDITAR

Não desfaleças, deixa-te absorver pelo amor. Não podes saber para onde te levo... Não esperes, sobretudo, velhice tranquila, pacífica, considerada. Teu caminho é luta sem tréguas, até o fim, até o impossível.

(J. L. Lebret)

Eu que sou Divino estou verdadeiramente em ti. Jamais poderei ser separado de ti: por mais que sejamos afastados, jamais poderemos ser separados. Eu estou em ti e tu estás em Mim. Não poderíamos estar mais próximos. Nós dois estamos fundidos em um só, derramados em um único molde. Assim, infatigáveis, permaneceremos para todo o sempre.

(Metchild de Magdeburg)


ORAR

Somos chamados a recuperar os valores autênticos da pequenez, da obscuridade, da debilidade, da pobreza e da fragilidade. O Senhor elege as realidades mais humildes para realizar seus desígnios de grandeza imensuráveis segundo critérios e medidas humanas. A parábola de hoje nos fala de um processo germinal interno de cada pessoa e sociedade. Jesus semeia o Reino pregando o evangelho. Ele não se preocupa em conduzir a colheita e nem se ela acontecerá imediatamente. O desenvolvimento misterioso do Reino é assunto de Deus, pois é a sua obra e o seu segredo. Somos convidados a superar a impaciência, o imediatismo e os frenesis das soluções miraculosas. O Reino irrompe no meio de nós sem o sensacionalismo dos espetáculos, mas numa permanente ação silenciosa. A palavra-chave é “ele não sabe como isso acontece”, ou seja, não entendemos nada e sabemos menos ainda. É o grande sorriso de Deus sobre nós, e como diz o Papa Francisco: “É preciso deixar que Deus nos surpreenda”. Assim é o amor de Deus: na fragilidade se revela forte e faz do impossível o possível. As transformações profundas que revelam a presença de Deus vêm dos pequenos, dos últimos e dos insignificantes. Deus se faz presente não porque a sociedade se torna mais religiosa, mas porque se faz mais humana, mais justa e solidária. Deus não reina porque as igrejas estão cheias, nem porque os movimentos religiosos se espalham nas praças, nas praias, nas marchas e passeatas. Deus reina porque e quando os homens e mulheres são mais honrados e mais respeitados na sua dignidade e em seus direitos diversos e plurais. Meditemos as palavras do Papa Leão XIV: “construir um mundo onde todos possam ‘florescer’ exige [...] uma corresponsabilidade corajosa. Nenhuma mão, sozinha, é suficiente para aguentar o peso dos desafios que assolam o mundo; e nenhuma mão é tão fraca que não possa dar a sua contribuição: ‘A força manifesta-se na fraqueza’ (2 Cor 12, 9)” (Magnifica Humanitas).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Homem debaixo da grande árvore de mostarda, Si Le, aquarela, dreamstime.com, acessado em 10.06.2026.



quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Caminho da Beleza 31 - X Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


X Domingo do Tempo Comum

Os 6, 3-6                               Rm 4, 18-25                           Mt 9, 9-13

 

ESCUTAR

Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos (Os 6, 6).

Ele, Jesus, foi entregue por causa de nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação (Rm 4, 25).

“‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13).

 

MEDITAR

Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou “clérigos burocratas”.

(Papa Francisco)

Os pecadores conhecem a Deus, os justos ainda O estão procurando.

(Hans Urs Von Balthasar)

 

ORAR

    Jesus nos chama a um compromisso sem limites com os doentes e pecadores. E para Jesus, comprometer-se é romper a monotonia e forçar a si mesmo a permanecer no amor e na solidariedade, eliminando os caprichos, as fantasias e os pretextos que são as outras tantas faces do egoísmo mesquinho. Jesus estava sentado à mesa e muitos cobradores de impostos e pessoas de má fama apareceram e foram se sentando, pois as mesas de Jesus são a expressão pública da acolhida e da compaixão. O evangelista nos desvela que a chamada de um se transforma na chegada de muitos, ainda que os que se acreditam justos, puros e sem pecados se escandalizem. A comunidade eclesial não pode se acomodar num oásis de fervor religioso por não suportar a aventura da fé no deserto de Deus. A vida sacramental é muito mais que a mera administração normativa dos sacramentos e, mais ainda, do que a estatística sociológica e rudimentar dos milhares de fiéis aglomerados e pegajosos como uma massa sem fermento. Temos que testemunhar, como Jesus, que os sacramentos são gestos de amor e misericórdia para todos. Nas mesas de Jesus, Ele mesmo se converte em comida e bebida para os que dele necessitam. Nossas eucaristias devem superar toda e qualquer tentação de se tornarem pedra de divisão entre os de dentro e os de fora, pois elas são os sinais desta comunidade escatológica e messiânica que reúne e une todos os povos num só corpo e num só espírito. Se as igrejas não puderem ser isto, não serão igrejas de Cristo e se nossas ceias eucarísticas não forem isto não serão a eucaristia do Senhor. Como nos escreve Eusébio de Cesaréia: “A Igreja uma vez que alcançou a salvação necessita constantemente da mesma salvação”. E como somos um povo santo e pecador, devemos nos revestir, com humildade, das palavras de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo, que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino do meu Pai” (Mt 21,31). Mais do que nunca, os doentes e os pecadores são os sinais da presença do Reino e da salvação no meio da perdição do mundo corrupto em que nós somos, movemos e existimos.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, 2025, Anita Andrzejewska (1970-), da série “Dançando para despertar seu sonho”, Polônia.