quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Caminho da Beleza 31 - X Domingo do Tempo Comum

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


X Domingo do Tempo Comum

Os 6, 3-6                               Rm 4, 18-25                           Mt 9, 9-13

 

ESCUTAR

Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos (Os 6, 6).

Ele, Jesus, foi entregue por causa de nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação (Rm 4, 25).

“‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13).

 

MEDITAR

Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou “clérigos burocratas”.

(Papa Francisco)

Os pecadores conhecem a Deus, os justos ainda O estão procurando.

(Hans Urs Von Balthasar)

 

ORAR

    Jesus nos chama a um compromisso sem limites com os doentes e pecadores. E para Jesus, comprometer-se é romper a monotonia e forçar a si mesmo a permanecer no amor e na solidariedade, eliminando os caprichos, as fantasias e os pretextos que são as outras tantas faces do egoísmo mesquinho. Jesus estava sentado à mesa e muitos cobradores de impostos e pessoas de má fama apareceram e foram se sentando, pois as mesas de Jesus são a expressão pública da acolhida e da compaixão. O evangelista nos desvela que a chamada de um se transforma na chegada de muitos, ainda que os que se acreditam justos, puros e sem pecados se escandalizem. A comunidade eclesial não pode se acomodar num oásis de fervor religioso por não suportar a aventura da fé no deserto de Deus. A vida sacramental é muito mais que a mera administração normativa dos sacramentos e, mais ainda, do que a estatística sociológica e rudimentar dos milhares de fiéis aglomerados e pegajosos como uma massa sem fermento. Temos que testemunhar, como Jesus, que os sacramentos são gestos de amor e misericórdia para todos. Nas mesas de Jesus, Ele mesmo se converte em comida e bebida para os que dele necessitam. Nossas eucaristias devem superar toda e qualquer tentação de se tornarem pedra de divisão entre os de dentro e os de fora, pois elas são os sinais desta comunidade escatológica e messiânica que reúne e une todos os povos num só corpo e num só espírito. Se as igrejas não puderem ser isto, não serão igrejas de Cristo e se nossas ceias eucarísticas não forem isto não serão a eucaristia do Senhor. Como nos escreve Eusébio de Cesaréia: “A Igreja uma vez que alcançou a salvação necessita constantemente da mesma salvação”. E como somos um povo santo e pecador, devemos nos revestir, com humildade, das palavras de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo, que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino do meu Pai” (Mt 21,31). Mais do que nunca, os doentes e os pecadores são os sinais da presença do Reino e da salvação no meio da perdição do mundo corrupto em que nós somos, movemos e existimos.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, 2025, Anita Andrzejewska (1970-), da série “Dançando para despertar seu sonho”, Polônia.



 

 

 

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Caminho da Beleza 30 - Santíssima Trindade

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Santíssima Trindade               

Ex 34, 4b-6.8-9                 2 Cor 13, 11-13                   Jo 3, 16-18

 

ESCUTAR

Moisés gritou: "Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel” (Ex 34, 6).

Irmãos, alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco (2 Cor 13, 11).

Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16).

 

MEDITAR

Quem não consegue mais ouvir o irmão, em breve também não conseguirá mais ouvir a Deus. Estará sempre falando, também, perante Deus. Aqui começa a morte da vida espiritual, e no fim restará só o palavreado piedoso, a condescendência clericalesca que sufoca com palavras piedosas.

(Dietrich Bonhoeffer)

Não é o clero, mas sim a comunidade, a Igreja concretamente reunida, que celebra a Ceia comemorativa na qual o Senhor se faz presente e incorpora os reunidos transformando-os em seu próprio corpo.

(Hans Urs von Balthasar)

 

ORAR

     A Trindade revela o dinamismo vital que faz a comunidade eclesial viver. A comunidade deve ser o lugar de visibilidade em que não temos medo da verdade seja qual for e onde cada um reconhece o direito de expressar livremente o seu pensamento e o de fazê-lo com coragem. Numa comunidade em que as murmurações e as dissimulações correm soltas pelos becos e bares, elas só poderão ser superadas por uma reciprocidade respeitosa e lúcida. A comunidade cristã não se basta a si mesma, mas deve buscar a comunhão: “Tende os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2, 5). A comunidade sem comunhão é uma esquálida referência e uma casca vazia de conteúdo. A comunidade eclesial não é uma simples justaposição de pessoas que temem acolher-se, reciprocamente, na verdade: “Alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia e vivei em paz”. A comunidade não é uma uniformidade niveladora, quase sempre pela rasura, mas a comunhão de pessoas plurais e diversas. O primado da comunidade não é a disciplina, mas o amor. A dinâmica vital da comunidade é a fraternidade que se converte no sinal do amor do Pai, revelado pelo Filho e infundido em nossos corações no Espírito. Ela testemunha e proclama o nome de Deus como revelado a Moisés: “Misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”. Se a comunidade cristã não reflete o amor trinitário, desaparece o sinal específico do amor e ela se reduz a um espelho que não reflete nenhuma imagem. Quando afirmamos o primado do amor na comunidade, valorizamos a centralidade da pessoa e a valorização das diferenças. O amor é dinâmico: expande-se e circula. Somos tentados a forjar um Deus à nossa imagem e conceituá-lo como o contrário do homem e, por esta razão, contentamo-nos com a acomodação de encerrar Deus num puro ato de contemplação e numa suposta e feliz autossuficiência. A Boa Nova da revelação da Trindade é que existem diferenças entre si e, portanto, a vida divina não se define como um eterno retorno narcisista sobre si, pelo êxtase. Cada pessoa só existe em relação às outras pessoas e é esta relação que as constitui como diferentes. É uma dança amorosa que jamais termina, pois nela a comunhão brota da interdependência e da intercomunicação. Meditemos as palavras de Emmanuel Mounier: “Eu preciso do olhar dos meus amigos para saber quem eu sou”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Saltos do Barco, 2020, Malásia, Igor Atuna (1966-), Arrasate-Mondragón, Espanha, Siena International Photo Awards 2021.





quarta-feira, 20 de maio de 2026

O Caminho da Beleza 29 - Pentecostes

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Pentecostes           

At 2, 1-11                  1 Cor 12, 3b-7.12-13                    Jo 20, 19-23

 

ESCUTAR

Todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua (At 2, 6).

A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum (1 Cor 12, 7).

E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: "Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).

 

MEDITAR

Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a Terra, deveis embriagar-vos sem tréguas. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de ternura, à vossa escolha. Mas embriagai-vos. E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a Deus, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio e Deus vos responderão: “São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de ternura, à vossa escolha”.

(Charles Baudelaire)

É isto, o espírito. Esta capacidade de não submeter sua existência, mas de assumi-la no amor para fazer dela uma oferenda luminosa e universal.

(Maurice Zundel)

 

ORAR

     Tentemos deixar fluir ao menos uma vez na vida o sopro do Espírito no meio e dentro de nós. Deixemos que sejam varridos das cabeças todos os símbolos do poder: coroas, solidéus, mitras com todas as máscaras e disfarces que ornam as liturgias do poder. Permitamos que o sopro arranque as páginas dos nossos códigos, que leve para o mais longe as sandices dos nossos discursos políticos, sociais e religiosos e assistamos ao fogo se ocupar de queimá-los para que nunca mais pretendam dosificar a sua força. Com certeza, será um ganho para todos nós. Ele não sopra para garantir a ordem, para avalizar decisões que prejudiquem o Bem Comum e nem desempenha a função de juiz em nossos jogos com as regras determinadas por nós e para o nosso sucesso. Façamos, ao menos uma vez, com plena confiança no Espírito da Liberdade, a prova de acolher este mesmo Espírito como elemento perturbador, verdadeira inspiração, desmonte das regras fixadas de antemão e portador de coisas jamais vistas, ouvidas e experimentadas antes. Tenhamos a coragem de sermos habitados pelo vento e pelo fogo. É o Espírito da Verdade que vem a nós e nos produz como homens e mulheres que não temem as travessias plurais da vida. O Ressuscitado abre o futuro, abre a porta e abre a esperança do possível. Pentecostes é a festa de todos os possíveis. O Espírito acende em nós uma paixão e uma nova criação nasce de um colossal incêndio que nos deixa enamorados e nos surpreende com as palavras apaixonadas que por falso pudor nunca nos permitimos, publicamente, dizer. O Espírito – vento e fogo – rompe os limites das alcovas e das salas e brinca, diverte-se e ri da nossa sisudez e pretensa seriedade. Vento e fogo são incontroláveis, imprevisíveis e a nova aliança que trazem nos faz orbitar fora de nós e encontrar os outros conhecidos e desconhecidos num abraço amoroso e livre. Os discípulos foram considerados embriagados, pois novamente despertavam entusiasmados (cheios de Deus) para anunciar, em todas as línguas, as maravilhas do Senhor. Toda a tentativa de administrar a ação do Espírito e falar em seu nome será um contrassenso. O Espírito de Jesus se encontra na oração, na solidariedade, no perdão, na palavra comprometida e na misericórdia que superam todas as fórmulas e as frases de conveniência, os conselhos moralizantes e as respostas pré-fabricadas. Jesus nos fala de um pecado contra o Espírito que nunca terá perdão. É a blasfêmia de conceder ao Espírito apenas um sussurro e uma sutil e vigiada fissura ao invés de janelas e portas abertas dos corações. O pecado irreparável é a pretensão de falar da coragem cristã e oferecer ao Espírito um pouco menos da metade de todo o resto que concedemos ao medo e à angústia. O pecado sem perdão é falar de Pentecostes sem nunca nos permitir experimentar e viver até as últimas consequências a sua embriaguez.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Nuvens flamejantes, 2013, autor possível wildflower1555 folders, alphacoders.com, local desconhecido.




quarta-feira, 13 de maio de 2026

O Caminho da Beleza 28 - Ascensão do Senhor

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Ascensão do Senhor                 

At 1, 1-11                  Ef 1, 17-23               Mt 28, 16-20

 

ESCUTAR

Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo (...) “Homens da Galileia, porque ficais aqui, parados, olhando para o céu?” (At 1, 9.11).

Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar à sua direita nos céus (Ef 1, 20).

“Ide ao mundo inteiro... Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20).

 

MEDITAR

A pessoa humana é o valor absoluto para Deus porque ela O contém. Na verdade, é um grande mistério: Deus entre os homens, Deus com eles, Deus neles. Nossa dignidade é de Lhe pertencer. Desde o Natal, somos construídos com a mesma matéria do Reino.

(Françoise Burtz)

O que conta não é o que damos, mas o amor com que damos.

(Madre Teresa de Calcutá)

 

ORAR

O evangelista Mateus permanece fiel ao seu tema de fundo anunciado desde o início do seu evangelho: Deus Conosco. A impossibilidade, de agora em diante, de ver o Cristo com nossos olhos, substancialmente não muda nada, pois Deus continua conosco. Não devemos pensar que a dinâmica de Jesus é a de uma chegada, de uma permanência e de uma partida. A dinâmica de Jesus é a de uma chegada e a de uma presença continuada ainda que de formas diversas. Não é mais Jesus quem atua fisicamente entre nós. Jesus nos pede que façamos e anunciemos a sua presença no meio de nós. A frase chave é “Ide e fazei!”. Neste domingo não comemoramos a “partida” do Mestre, mas a nossa partida, pois somos nós que devemos garantir a sua presença no mundo. Há uma solene investidura: é urgente partir uma vez que o Evangelho deve começar a sua aventura no mundo. A promessa de que o Cristo estará conosco “todos os dias, até o fim do mundo”, desafia a sua Igreja a não banalizar esta presença eficaz e obscurecê-la. Somos chamados a nos encarnar, ou seja, ser uma carne real numa história real; a realizar a missão de anunciar a Boa Nova do Reino; a carregar os pecados do mundo sem ficar, de fora, olhando o que acontece aos seres humanos; e finalmente, ressuscitar dando a todos um quinhão de vida, esperança e gozo. A missão da Igreja de Jesus se inicia com uma partida. Não se trata de multiplicar viagens e atividades, mas dar intensidade e visibilidade evangélica à própria existência. O princípio estruturante da Igreja deve ser o mesmo da vida de Jesus: a misericórdia. É a misericórdia que deve atuar na Igreja de Jesus e configurá-la. Não somos chamados a construir uma comunidade como recordação e ficarmos parados olhando para o céu, pois esta atitude pode nos conduzir a buscar em lugares equivocados e nos emperrar o caminho: “Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24, 5). Não se trata de congelar lugares especiais e criar peregrinações, mas descobrir juntos, num ponto qualquer do mundo, o lugar e o rosto em que Jesus está presente na terra. A ascensão é um apelo para seguir agindo e esperando apesar das decepções, desenganos e desalentos que nos ameaçam. Somos chamados a “remir os tempos porque os dias são maus” (Ef 5, 16), a ter paciência “até que venha o Senhor” (Tg 5, 7), a resistir como Jó para conhecer “o desfecho que Deus lhe proporcionou, pois o Senhor é compassivo e misericordioso” (Tg 5, 11) e testemunhar que “a paciência engendra a esperança” (Rm 5,4). Entre o dom do Espírito Santo e o acontecimento definitivo do Reino existe uma espera que é o tempo do testemunho e de proclamar a Boa Nova a toda Humanidade. O Evangelho começa e termina em Jerusalém. Os Atos começam em Jerusalém e terminam em Roma, ponto de encontro de todos os caminhos do mundo conhecidos na época. O Novo Testamento ultrapassa as fronteiras de Israel e o céu de Jesus é a participação plena na vida do Amor e na construção de comunidades que amam e se colocam abertas ao mundo, servindo a todos sem discriminação. Uma Igreja samaritana marcada e animada pelo princípio da misericórdia é a que deve ser presença no mundo de hoje. Que neste domingo tenhamos a lucidez de proclamar que o Espírito de Jesus não é privilégio dos cristãos, mas de todos os homens e mulheres: “De fato, todos nós judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo e todos nós bebemos de um único e mesmo Espírito” (1 Cor 12, 13).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, 2011, Vale Omo, Etiópia, Goran Jovic (1984-), Croácia.



quarta-feira, 6 de maio de 2026

O Caminho da Beleza 27 - VI Domingo da Páscoa

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


VI Domingo da Páscoa

At 8, 5-8.14-17                  1 Pd 3, 15-18                      Jo 14, 15-21

 

ESCUTAR

“Era grande a alegria naquela cidade” (At 8, 8).

“Amados, santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir” (1 Pd 3, 15).

“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14, 21).

 

MEDITAR

O beato João Evangelista, enquanto passeava em Éfeso os últimos anos da sua existência, era levado com dificuldade à igreja no braço dos seus discípulos e não podia falar muito, nem dizer em cada homilia outra coisa além disso: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros”. Até que um dia os irmãos e os discípulos que estavam presentes, aborrecidos de tanto escutar sempre as mesmas palavras, perguntaram-lhe: “Mestre, por que dizes sempre isso?”. E ele respondeu com uma sentença digna de João: “Porque é o mandamento do Senhor e, se só isso fosse observado, bastaria”.

(São Jerônimo)

Um único olhar, um único pensamento, um único batimento do coração têm uma dimensão infinita. O Amor transfigura todos os cálculos e estatísticas. Não somos mais uma gota impessoal no oceano, mas uma vida insubstituível e um destino que tem o seu próprio valor.

(André Dupleix)

 

ORAR

     Jesus não nos deixa o legado de uma doutrina, um manual de instruções e muito menos um código de conduta. Jesus nos deixa um desejo, um único desejo: que nos amemos! A Igreja é a Igreja de Cristo não por ser o lugar da obediência, da disciplina, da organização perfeita, mas por ser uma comunidade de amor. Não temos nenhum certificado de autenticidade cristã, apenas uma condição: “Se me amais...”. Somente àquele que ama será dado o Espírito defensor, o Espírito da verdade que continuará em nós a presença do Cristo: “Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós”. Não necessitamos de excursões a vários santuários para encontrar vestígios do divino, pois o divino está dentro de nós, somos templos de Deus (1 Cor 3, 16). A verdadeira desgraça é que estamos dispostos, custe o que custar, a irmos aos lugares mais distantes para ver o Senhor e temos medo de ir ao lugar mais próximo: o centro de nós mesmos, o nosso coração. A Igreja do Cristo é uma igreja do amor fraterno, da terna tolerância que é o nome da generosidade. É uma Igreja da coerência em que estaremos sempre prontos a dar razão da nossa esperança a quem nos pedir. O Espírito Santo assume uma dupla função. No interior da comunidade, mantém viva e interpreta a mensagem do Cristo: “O Valedor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 26); e sustenta os fiéis no seu confronto com o mundo, ajudando-os a decifrar o sinal dos tempos e o sentido da História. É vital abrir as portas da comunidade e dos corações à ação do Espírito dado pelo Cristo Pascal. O Pai, o Cristo, o Espírito e nós somos vinculados por um amálgama de amor, pois no Evangelho domina a categoria do encontro, da aliança e da comunhão e, mais do que nunca, a liberdade, a paz, a justiça e a reconciliação não podem ser privatizadas. Não devemos ter medo de anunciar as exigências concretas da verdade evangélica, pois só ela pode romper a comodidade de uma tradição religiosa multissecular e a ilusão de que nós, católicos apostólicos romanos, pertencemos à religião mais poderosa do mundo. A verdade de Deus humaniza a todos senão não é a verdade de Deus. E a verdade de Deus é buscar, em primeiro lugar, o seu Reino e a sua justiça (Mt 6, 33). O Papa Bento XVI nos exortava: “A fonte do Espírito é Jesus. Quanto mais penetramos em Jesus, tanto mais realmente penetramos no Espírito e este penetra em nós”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Carisma, s. d., Yvonne Bell, pintura sobre seda, Northamptonshire, Reino Unido.

 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

O Caminho da Beleza 26 - V Domingo da Páscoa

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


V Domingo da Páscoa  

At 6, 1-7                   1 Pd 2, 4-9               Jo 14, 1-12

 

ESCUTAR

Naqueles dias, o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica (At 6, 1).

Amados, aproximai-vos do Senhor, pedra vida, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus (1 Pd 2, 4).

“Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 1).

 

MEDITAR

Todo deus que não se apresente como resposta à questão do sentido da vida, inerente às preocupações fundamentais da pessoa ou de um determinado grupo humano, é um ídolo, uma ilusão ou um subterfúgio. Um deus ausente da vida torna os humanos vítimas de devaneios mais ou menos infantis, escravos do sagrado e de ideologias inverificáveis.

(Francisco Catão)

 

ORAR

     A leitura do livro de Atos rompe a visão idílica das primeiras comunidades cristãs. Elas sofreram com a pequenez e a miopia dos que se privilegiavam e se protegiam por serem da mesma procedência étnica. Os que deviam se ocupar das necessidades materiais também precisam do dom do Espírito para romper com o seu interesse pessoal e as discriminações que dele decorrem. É o Espírito que nos impede de nos convertemos em prisioneiros das tarefas burocráticas e administrativas ou, como no caso dos apóstolos, de se acomodar em posições de mando hierárquicas. É o Espírito que nos faz saber que o serviço prático não é uma limitação nem o apostolado um privilégio exclusivo, pois cada um de nós constrói a comunidade eclesial a partir da sua originalidade e experiência vital. Somos, como Cristo, pedras angulares, pedras de tropeço e rochas que fazem cair quando a nossa liberdade enfrenta as manobras do poder; quando a nossa pobreza não está disponível para projetos de grandeza passageira; quando a nossa palavra profética estorva os projetos sagazes e sedutores. Somos rochas que fazem cair quando não aceitamos as regras do êxito, da hipocrisia, do carreirismo. Somos pedras vivas quando deixamos de ser inertes, decorativos e facilmente manipulados. Devemos ter a lucidez de que o Cristo é maior do que as igrejas e o Evangelho maior que os nossos sermões. Para as primeiras comunidades, o cristianismo não era uma religião, mas uma nova forma de viver. O Cristo é o Caminho e a Vida mediados pela Verdade. Uma Igreja verdadeira é uma Igreja que se identifica com Jesus. Uma Igreja que arrisca a perder prestígio e segurança por defender, como Jesus, a causa dos últimos. Para Jesus, a esfera divina não é uma realidade exterior ao homem, mas interior: existe uma fusão entre o Pai e os homens que estende ao infinito a sua capacidade de amar. Jesus é o Caminho de um amor generoso que pode nos amedrontar por ser custoso. É este amor generoso que nos conduzirá a crer no esforço para a transformação do mundo e a não dissipar, num longínquo céu, os tesouros destinados para a terra. Mais do que nunca devemos afirmar que “Deus contemplou a sua obra e viu que tudo era belo” (Gn 1, 31).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Sagrado Coração de Jesus, 1942, Candido Portinari (1903-1962), têmpera sobre madeira, 64 x 49,5 cm, Brasil.



terça-feira, 21 de abril de 2026

O Caminho da Beleza 25 - IV Domingo da Páscoa

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).

IV Domingo da Páscoa

At 2, 14a.36-41                  1 Pd 2, 20b-25                   Jo 10, 1-10

 

ESCUTAR

“E vós recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós e vossos filhos, e para todos aqueles que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si” (At 2, 39-40).

Caríssimos, se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isso vos torna agradáveis diante de Deus (1 Pd 2, 20).

“Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10, 2).

 

MEDITAR

Não me lembro de um só instante da minha vida em que tenha duvidado de Deus. Duvidei e duvido da possibilidade do pensamento humano conhecer e nomear adequadamente a sua existência, duvidei e duvido das pretensões das religiões de encerrá-lo nas suas doutrinas, duvidei e duvido de muitas outras coisas, mas de Deus e da possibilidade de participar no seu mistério de vida infinita que Jesus-Yeshua chamava ‘reino’ nunca duvidei e espero que nunca duvide até o último dos meus dias.

(Vito Mancuso)

Um ser humano não deve ser para um outro um objetivo, mas um meio. Meio de ascender a um degrau superior de vida. Meio de se desprender desta terra bem penosa e de suas criaturas. Um com o outro e um para o outro devem chegar a se libertar um do outro para continuar a viver juntos numa liberdade superior.

(Etty Hillesum)

 

ORAR

     O final da carta de Pedro nos introduz o tema central desta liturgia: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas”. Jesus se apresenta como a porta do redil. Uma porta de exclusão para os ladrões e salteadores, ao mesmo tempo, uma porta de inclusão e acesso para os verdadeiros pastores que dão a vida pelas ovelhas. É uma relação vital e não jurídica, doutrinal ou ritual. Tantas vezes, os pastores com suas investiduras legais e títulos de legitimidade jurídica se comportam como ladrões e bandidos e se tornam impotentes para criarem vínculos de confiança, intimidade e partilha. O verdadeiro pastor faz sair as ovelhas e as liberta dos sistemas fechados de dogmas, ritos e ideologia. A vida só está segura no movimento por Cristo, com Cristo e em Cristo, que nos oferece uma vida em abundância (Jo 10, 10) e não uma vida restrita às falsas seguranças do poder e do dinheiro. As ovelhas “não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. Os poderosos são obedecidos, mas não escutados, pois a sua voz tem a obstinação de dominar e não de amar. Não podemos prender Jesus no redil das nossas estreitas vidas como uma coisa que possuímos. Devemos é transformar nossas vidas numa porta sempre aberta para que entrem e saiam, renovados, os que o Senhor colocou em nossas travessias. O amor cristão não prende e nem cerceia, mas nos coloca na dinâmica de uma vida em liberdade. Para o cristão, “dar a vida” não significa entregar-se à morte, mas se arriscar e se expor diante de um perigo que ameaça um outro. Temos uma relação muito empobrecida com o Cristo: não cremos que Ele cuida de nós e que podemos recorrer a Ele quando nos sentimos cansados e sem esperança. Temos vivido em estruturas nas quais Jesus Cristo é confessado de maneira doutrinal, mas distante da comunidade; em que nossos pastores apascentam mais a si mesmos do que as suas ovelhas. Como diz o profeta a estes falsos pastores: “Comeis sua gordura e vos vestis com sua lã; matais as mais gordas. Não fortaleceis as fracas, nem curais as enfermas, nem vendais as feridas; não recolheis as desgarradas, nem procurais as perdidas e maltratais brutalmente as fortes” (Ez 34, 3-4). Neste tempo pascal, como em todos os outros tempos, devemos procurar o Ressuscitado no amor e não na letra morta; na verdade e não nas aparências; na ação criativa e não na passividade e na inércia; no silêncio interior e não na agitação superficial. Temos que nos perguntar se a palavra que escutamos em nossas Igrejas provém da Galileia e nasce do Espírito do Ressuscitado para que não substituamos a voz inconfundível do Cristo pelo amontoado de pregações, de escritos teológicos, de exposição de catequistas que só nos causam ruídos e surdez para a voz límpida do Cristo que nos chama pelo nome, nos acolhe e nos perdoa em sua misericórdia.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Papa Francisco com um cordeiro sobre os ombros. AP Photo, Osservatore Romano, http://roma.repubblica.it, 01/06/2014.