quarta-feira, 13 de maio de 2026

O Caminho da Beleza 28 - Ascensão do Senhor

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Ascensão do Senhor                 

At 1, 1-11                  Ef 1, 17-23               Mt 28, 16-20

 

ESCUTAR

Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo (...) “Homens da Galileia, porque ficais aqui, parados, olhando para o céu?” (At 1, 9.11).

Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar à sua direita nos céus (Ef 1, 20).

“Ide ao mundo inteiro... Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20).

 

MEDITAR

A pessoa humana é o valor absoluto para Deus porque ela O contém. Na verdade, é um grande mistério: Deus entre os homens, Deus com eles, Deus neles. Nossa dignidade é de Lhe pertencer. Desde o Natal, somos construídos com a mesma matéria do Reino.

(Françoise Burtz)

O que conta não é o que damos, mas o amor com que damos.

(Madre Teresa de Calcutá)

 

ORAR

O evangelista Mateus permanece fiel ao seu tema de fundo anunciado desde o início do seu evangelho: Deus Conosco. A impossibilidade, de agora em diante, de ver o Cristo com nossos olhos, substancialmente não muda nada, pois Deus continua conosco. Não devemos pensar que a dinâmica de Jesus é a de uma chegada, de uma permanência e de uma partida. A dinâmica de Jesus é a de uma chegada e a de uma presença continuada ainda que de formas diversas. Não é mais Jesus quem atua fisicamente entre nós. Jesus nos pede que façamos e anunciemos a sua presença no meio de nós. A frase chave é “Ide e fazei!”. Neste domingo não comemoramos a “partida” do Mestre, mas a nossa partida, pois somos nós que devemos garantir a sua presença no mundo. Há uma solene investidura: é urgente partir uma vez que o Evangelho deve começar a sua aventura no mundo. A promessa de que o Cristo estará conosco “todos os dias, até o fim do mundo”, desafia a sua Igreja a não banalizar esta presença eficaz e obscurecê-la. Somos chamados a nos encarnar, ou seja, ser uma carne real numa história real; a realizar a missão de anunciar a Boa Nova do Reino; a carregar os pecados do mundo sem ficar, de fora, olhando o que acontece aos seres humanos; e finalmente, ressuscitar dando a todos um quinhão de vida, esperança e gozo. A missão da Igreja de Jesus se inicia com uma partida. Não se trata de multiplicar viagens e atividades, mas dar intensidade e visibilidade evangélica à própria existência. O princípio estruturante da Igreja deve ser o mesmo da vida de Jesus: a misericórdia. É a misericórdia que deve atuar na Igreja de Jesus e configurá-la. Não somos chamados a construir uma comunidade como recordação e ficarmos parados olhando para o céu, pois esta atitude pode nos conduzir a buscar em lugares equivocados e nos emperrar o caminho: “Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24, 5). Não se trata de congelar lugares especiais e criar peregrinações, mas descobrir juntos, num ponto qualquer do mundo, o lugar e o rosto em que Jesus está presente na terra. A ascensão é um apelo para seguir agindo e esperando apesar das decepções, desenganos e desalentos que nos ameaçam. Somos chamados a “remir os tempos porque os dias são maus” (Ef 5, 16), a ter paciência “até que venha o Senhor” (Tg 5, 7), a resistir como Jó para conhecer “o desfecho que Deus lhe proporcionou, pois o Senhor é compassivo e misericordioso” (Tg 5, 11) e testemunhar que “a paciência engendra a esperança” (Rm 5,4). Entre o dom do Espírito Santo e o acontecimento definitivo do Reino existe uma espera que é o tempo do testemunho e de proclamar a Boa Nova a toda Humanidade. O Evangelho começa e termina em Jerusalém. Os Atos começam em Jerusalém e terminam em Roma, ponto de encontro de todos os caminhos do mundo conhecidos na época. O Novo Testamento ultrapassa as fronteiras de Israel e o céu de Jesus é a participação plena na vida do Amor e na construção de comunidades que amam e se colocam abertas ao mundo, servindo a todos sem discriminação. Uma Igreja samaritana marcada e animada pelo princípio da misericórdia é a que deve ser presença no mundo de hoje. Que neste domingo tenhamos a lucidez de proclamar que o Espírito de Jesus não é privilégio dos cristãos, mas de todos os homens e mulheres: “De fato, todos nós judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo e todos nós bebemos de um único e mesmo Espírito” (1 Cor 12, 13).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, 2011, Vale Omo, Etiópia, Goran Jovic (1984-), Croácia.



quarta-feira, 6 de maio de 2026

O Caminho da Beleza 27 - VI Domingo da Páscoa

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


VI Domingo da Páscoa

At 8, 5-8.14-17                  1 Pd 3, 15-18                      Jo 14, 15-21

 

ESCUTAR

“Era grande a alegria naquela cidade” (At 8, 8).

“Amados, santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir” (1 Pd 3, 15).

“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14, 21).

 

MEDITAR

O beato João Evangelista, enquanto passeava em Éfeso os últimos anos da sua existência, era levado com dificuldade à igreja no braço dos seus discípulos e não podia falar muito, nem dizer em cada homilia outra coisa além disso: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros”. Até que um dia os irmãos e os discípulos que estavam presentes, aborrecidos de tanto escutar sempre as mesmas palavras, perguntaram-lhe: “Mestre, por que dizes sempre isso?”. E ele respondeu com uma sentença digna de João: “Porque é o mandamento do Senhor e, se só isso fosse observado, bastaria”.

(São Jerônimo)

Um único olhar, um único pensamento, um único batimento do coração têm uma dimensão infinita. O Amor transfigura todos os cálculos e estatísticas. Não somos mais uma gota impessoal no oceano, mas uma vida insubstituível e um destino que tem o seu próprio valor.

(André Dupleix)

 

ORAR

     Jesus não nos deixa o legado de uma doutrina, um manual de instruções e muito menos um código de conduta. Jesus nos deixa um desejo, um único desejo: que nos amemos! A Igreja é a Igreja de Cristo não por ser o lugar da obediência, da disciplina, da organização perfeita, mas por ser uma comunidade de amor. Não temos nenhum certificado de autenticidade cristã, apenas uma condição: “Se me amais...”. Somente àquele que ama será dado o Espírito defensor, o Espírito da verdade que continuará em nós a presença do Cristo: “Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós”. Não necessitamos de excursões a vários santuários para encontrar vestígios do divino, pois o divino está dentro de nós, somos templos de Deus (1 Cor 3, 16). A verdadeira desgraça é que estamos dispostos, custe o que custar, a irmos aos lugares mais distantes para ver o Senhor e temos medo de ir ao lugar mais próximo: o centro de nós mesmos, o nosso coração. A Igreja do Cristo é uma igreja do amor fraterno, da terna tolerância que é o nome da generosidade. É uma Igreja da coerência em que estaremos sempre prontos a dar razão da nossa esperança a quem nos pedir. O Espírito Santo assume uma dupla função. No interior da comunidade, mantém viva e interpreta a mensagem do Cristo: “O Valedor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 26); e sustenta os fiéis no seu confronto com o mundo, ajudando-os a decifrar o sinal dos tempos e o sentido da História. É vital abrir as portas da comunidade e dos corações à ação do Espírito dado pelo Cristo Pascal. O Pai, o Cristo, o Espírito e nós somos vinculados por um amálgama de amor, pois no Evangelho domina a categoria do encontro, da aliança e da comunhão e, mais do que nunca, a liberdade, a paz, a justiça e a reconciliação não podem ser privatizadas. Não devemos ter medo de anunciar as exigências concretas da verdade evangélica, pois só ela pode romper a comodidade de uma tradição religiosa multissecular e a ilusão de que nós, católicos apostólicos romanos, pertencemos à religião mais poderosa do mundo. A verdade de Deus humaniza a todos senão não é a verdade de Deus. E a verdade de Deus é buscar, em primeiro lugar, o seu Reino e a sua justiça (Mt 6, 33). O Papa Bento XVI nos exortava: “A fonte do Espírito é Jesus. Quanto mais penetramos em Jesus, tanto mais realmente penetramos no Espírito e este penetra em nós”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Carisma, s. d., Yvonne Bell, pintura sobre seda, Northamptonshire, Reino Unido.

 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

O Caminho da Beleza 26 - V Domingo da Páscoa

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


V Domingo da Páscoa  

At 6, 1-7                   1 Pd 2, 4-9               Jo 14, 1-12

 

ESCUTAR

Naqueles dias, o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica (At 6, 1).

Amados, aproximai-vos do Senhor, pedra vida, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus (1 Pd 2, 4).

“Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 1).

 

MEDITAR

Todo deus que não se apresente como resposta à questão do sentido da vida, inerente às preocupações fundamentais da pessoa ou de um determinado grupo humano, é um ídolo, uma ilusão ou um subterfúgio. Um deus ausente da vida torna os humanos vítimas de devaneios mais ou menos infantis, escravos do sagrado e de ideologias inverificáveis.

(Francisco Catão)

 

ORAR

     A leitura do livro de Atos rompe a visão idílica das primeiras comunidades cristãs. Elas sofreram com a pequenez e a miopia dos que se privilegiavam e se protegiam por serem da mesma procedência étnica. Os que deviam se ocupar das necessidades materiais também precisam do dom do Espírito para romper com o seu interesse pessoal e as discriminações que dele decorrem. É o Espírito que nos impede de nos convertemos em prisioneiros das tarefas burocráticas e administrativas ou, como no caso dos apóstolos, de se acomodar em posições de mando hierárquicas. É o Espírito que nos faz saber que o serviço prático não é uma limitação nem o apostolado um privilégio exclusivo, pois cada um de nós constrói a comunidade eclesial a partir da sua originalidade e experiência vital. Somos, como Cristo, pedras angulares, pedras de tropeço e rochas que fazem cair quando a nossa liberdade enfrenta as manobras do poder; quando a nossa pobreza não está disponível para projetos de grandeza passageira; quando a nossa palavra profética estorva os projetos sagazes e sedutores. Somos rochas que fazem cair quando não aceitamos as regras do êxito, da hipocrisia, do carreirismo. Somos pedras vivas quando deixamos de ser inertes, decorativos e facilmente manipulados. Devemos ter a lucidez de que o Cristo é maior do que as igrejas e o Evangelho maior que os nossos sermões. Para as primeiras comunidades, o cristianismo não era uma religião, mas uma nova forma de viver. O Cristo é o Caminho e a Vida mediados pela Verdade. Uma Igreja verdadeira é uma Igreja que se identifica com Jesus. Uma Igreja que arrisca a perder prestígio e segurança por defender, como Jesus, a causa dos últimos. Para Jesus, a esfera divina não é uma realidade exterior ao homem, mas interior: existe uma fusão entre o Pai e os homens que estende ao infinito a sua capacidade de amar. Jesus é o Caminho de um amor generoso que pode nos amedrontar por ser custoso. É este amor generoso que nos conduzirá a crer no esforço para a transformação do mundo e a não dissipar, num longínquo céu, os tesouros destinados para a terra. Mais do que nunca devemos afirmar que “Deus contemplou a sua obra e viu que tudo era belo” (Gn 1, 31).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Sagrado Coração de Jesus, 1942, Candido Portinari (1903-1962), têmpera sobre madeira, 64 x 49,5 cm, Brasil.



terça-feira, 21 de abril de 2026

O Caminho da Beleza 25 - IV Domingo da Páscoa

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).

IV Domingo da Páscoa

At 2, 14a.36-41                  1 Pd 2, 20b-25                   Jo 10, 1-10

 

ESCUTAR

“E vós recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós e vossos filhos, e para todos aqueles que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si” (At 2, 39-40).

Caríssimos, se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isso vos torna agradáveis diante de Deus (1 Pd 2, 20).

“Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10, 2).

 

MEDITAR

Não me lembro de um só instante da minha vida em que tenha duvidado de Deus. Duvidei e duvido da possibilidade do pensamento humano conhecer e nomear adequadamente a sua existência, duvidei e duvido das pretensões das religiões de encerrá-lo nas suas doutrinas, duvidei e duvido de muitas outras coisas, mas de Deus e da possibilidade de participar no seu mistério de vida infinita que Jesus-Yeshua chamava ‘reino’ nunca duvidei e espero que nunca duvide até o último dos meus dias.

(Vito Mancuso)

Um ser humano não deve ser para um outro um objetivo, mas um meio. Meio de ascender a um degrau superior de vida. Meio de se desprender desta terra bem penosa e de suas criaturas. Um com o outro e um para o outro devem chegar a se libertar um do outro para continuar a viver juntos numa liberdade superior.

(Etty Hillesum)

 

ORAR

     O final da carta de Pedro nos introduz o tema central desta liturgia: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas”. Jesus se apresenta como a porta do redil. Uma porta de exclusão para os ladrões e salteadores, ao mesmo tempo, uma porta de inclusão e acesso para os verdadeiros pastores que dão a vida pelas ovelhas. É uma relação vital e não jurídica, doutrinal ou ritual. Tantas vezes, os pastores com suas investiduras legais e títulos de legitimidade jurídica se comportam como ladrões e bandidos e se tornam impotentes para criarem vínculos de confiança, intimidade e partilha. O verdadeiro pastor faz sair as ovelhas e as liberta dos sistemas fechados de dogmas, ritos e ideologia. A vida só está segura no movimento por Cristo, com Cristo e em Cristo, que nos oferece uma vida em abundância (Jo 10, 10) e não uma vida restrita às falsas seguranças do poder e do dinheiro. As ovelhas “não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. Os poderosos são obedecidos, mas não escutados, pois a sua voz tem a obstinação de dominar e não de amar. Não podemos prender Jesus no redil das nossas estreitas vidas como uma coisa que possuímos. Devemos é transformar nossas vidas numa porta sempre aberta para que entrem e saiam, renovados, os que o Senhor colocou em nossas travessias. O amor cristão não prende e nem cerceia, mas nos coloca na dinâmica de uma vida em liberdade. Para o cristão, “dar a vida” não significa entregar-se à morte, mas se arriscar e se expor diante de um perigo que ameaça um outro. Temos uma relação muito empobrecida com o Cristo: não cremos que Ele cuida de nós e que podemos recorrer a Ele quando nos sentimos cansados e sem esperança. Temos vivido em estruturas nas quais Jesus Cristo é confessado de maneira doutrinal, mas distante da comunidade; em que nossos pastores apascentam mais a si mesmos do que as suas ovelhas. Como diz o profeta a estes falsos pastores: “Comeis sua gordura e vos vestis com sua lã; matais as mais gordas. Não fortaleceis as fracas, nem curais as enfermas, nem vendais as feridas; não recolheis as desgarradas, nem procurais as perdidas e maltratais brutalmente as fortes” (Ez 34, 3-4). Neste tempo pascal, como em todos os outros tempos, devemos procurar o Ressuscitado no amor e não na letra morta; na verdade e não nas aparências; na ação criativa e não na passividade e na inércia; no silêncio interior e não na agitação superficial. Temos que nos perguntar se a palavra que escutamos em nossas Igrejas provém da Galileia e nasce do Espírito do Ressuscitado para que não substituamos a voz inconfundível do Cristo pelo amontoado de pregações, de escritos teológicos, de exposição de catequistas que só nos causam ruídos e surdez para a voz límpida do Cristo que nos chama pelo nome, nos acolhe e nos perdoa em sua misericórdia.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Papa Francisco com um cordeiro sobre os ombros. AP Photo, Osservatore Romano, http://roma.repubblica.it, 01/06/2014.

 


 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O Caminho da Beleza 24 - III Domingo da Páscoa

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


III Domingo da Páscoa           

At 2, 14.22-23                    1 Pd 1, 17-21                       Lc 24, 13-35

 

ESCUTAR

“Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz” (At 2, 23).

Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais não por meio de coisas perecíveis, como prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito (1 Pd 1, 18-19).

“Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32).

 

MEDITAR

Devemos acolher com hospitalidade o Cristo presente no forasteiro para que no dia do julgamento Ele não nos ignore como estrangeiros, mas nos receba como irmãos em seu Reino.

(São Gregório Magno)

Pouco tempo depois vieram as famílias da vizinhança chorar conosco; famílias expulsas, na neve, em pleno inverno: eram as férias de Natal. A casa estava cheia de jovens. Eu havia procurado todo o dia e não encontrei nenhum lugar para alojar uma família. Então, à tarde, eu retirei o Santíssimo Sacramento da pequena peça aquecida que servia de capela e o coloquei no celeiro onde não havia fogo. E lá, onde havia fogo, coloquei as camas das crianças e dos pais. Os rapazes e as moças me disseram: “Padre, isto não é conveniente! Onde rezarás a missa amanhã?”. E eu respondi: “Eu creio com toda a força da minha fé que o Amor infinito tornou-se homem, tornou-se pão e lá na hóstia consagrada, com uma fé inteligente, sei que não é na hóstia que Jesus tem frio esta noite. Ele tem frio nas mãos e nos pés destas pequenas crianças, e se amo, são estes que sofrem que devo colocar onde há fogo”.

(Abbé Pierre)

 

ORAR

     Quando o Ressuscitado nos deseja a paz não quer dizer que devemos estar tranquilos, mas que devemos abrir os olhos para fazer novas todas as coisas (Ap 21, 5) e não correr o risco de voltar atrás. A palavra profética faz uma reviravolta em nossos corações e nos obriga a uma mudança radical no modo de valorizar os nossos atos. Nós nos assemelhamos aos discípulos de Emaús: estamos muito bem informados das últimas notícias e o Cristo parece estar desinformado e com a necessidade de ser atualizado. Temos uma dificuldade, e nem fazemos nenhum esforço, para compreender e interpretar o significado das coisas que acontecem. Jesus, antes de ser reconhecido ao partir o pão, revela as Escrituras e revela-se a si mesmo. A Páscoa não é um relato de uma grande ilusão nem uma estória a ser contada e recontada. A fé não recobre as lacunas da nossa intuição ou da nossa experiência e muitas vezes nos perdemos na proliferação dos nossos conceitos. Os discípulos tinham uma abundante informação sobre Jesus: suas lembranças históricas e o relato das mulheres e, no entanto, foram incapazes de reconhecer o Vivente ao seu lado caminhando com eles. Os discípulos haviam perdido a fé e a esperança.  Mortos, marchavam com um Vivo; mortos, marchavam com a Vida ainda que seus corações não houvessem ainda retornado à vida. Para eles, Jesus estava morto e ponto final: “Pena que tenha terminado assim”. Quando Jesus os reencontra haviam perdido o caminho. Apesar de que tudo houvesse sido dito sobre o sofrimento, a morte e a ressurreição, eles haviam perdido a memória sobre tudo que acontecera. Não lhes ardia mais o coração, pois perderam a intimidade com Jesus vivo. E quando perdemos esta intimidade tudo se torna inútil. Estavam sem esperança, sem meta e nem objetivo, porque Jesus havia desaparecido de suas vidas. Jesus sempre nos alcança, não só quando O buscamos, mas, sobretudo, quando fugimos da vida em comunhão e nos isolamos dos outros. Neste reencontro, Jesus nos envia novamente cheios de vida, para contagiar com a paz cada casa, aliviar o sofrimento e anunciar que Deus está próximo e se preocupa conosco.  O Ressuscitado torna possível esta passagem da não-fé à fé no decorrer de uma refeição partilhada.  São três as conversões no caminho de Emaús: a da tristeza em alegria; a da obscuridade à luz e a conversão à vida comunitária: “Voltaram para Jerusalém, onde encontraram os onze reunidos com os outros”. O Ressuscitado se revela na hospitalidade e a partilha do pão torna o Vivente presente e permite a fé nascer. Meditemos as palavras de Agostinho de Hipona: “Acolha o estrangeiro, se queres reconhecer o Salvador. Isto que a dúvida fez perder, a hospitalidade resgatou. O Senhor manifestou a sua presença na partilha do pão”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Os discípulos de Emaús, 1998, Jean-Marie Pirot, Arcabas (1926-2018), tríptico, 4,0 x 2,5 m, Igreja de Cognin, França.





quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Caminho da Beleza 23 - II Domingo da Páscoa

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


II Domingo da Páscoa 

At 2, 42-47              1 Pd 1, 3-9               Jo 20, 19-31

 

ESCUTAR

Os que haviam se convertido eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações (At 2, 42).

“Graças à fé e pelo poder de Deus, vós fostes guardados para a salvação que deve manifestar-se nos últimos tempos” (1 Pd 1, 5).

“Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20, 29).

 

MEDITAR

Jesus concebia a fé como disposição do coração, confiança, atitude abrangente da existência. A fé de Jesus é a orientação de quem uniu a liberdade ao único necessário, desligando-a dos múltiplos ídolos do poder. É a fé como paz do coração, e também como luta contra a injustiça.

(Vito Mancuso)

Quanto a mim, confesso que acho natural entregar-me por inteiro ao afeto de meus amigos, especialmente quando estou cansado dos escândalos do mundo. Neles me repouso sem preocupação alguma. Pois sinto que Deus está lá, que é n'Ele que me lanço com toda a segurança e em toda segurança me repouso... Quando sinto que um homem, abrasado de amor cristão, tornou-se meu amigo fiel, o que lhe confio de meus projetos e de meus pensamentos não é a um homem que confio, mas Àquele em quem ele permanece e pelo qual é o que é.

(Santo Agostinho)

 

ORAR

A primeira comunidade cristã entrelaça as suas raízes num terreno de comum humanidade com todos os outros: “eram estimados por todo o povo!”. No entanto, era distinta, pois colocavam tudo em comum e repartiam de acordo com a necessidade de cada um. O cristianismo nos ensina que irmão não é somente quem partilha a mesma fé, mas o que, gratuitamente, participa dos nossos bens. Na primeira comunidade não existia discriminação econômica e a prática da partilha e da solidariedade substituía uma lógica patronal e privativista. Mas existiram sombras nesta comunidade. Ananias e Safira venderam a sua propriedade, guardaram para si parte do dinheiro e o resto depuseram aos pés dos apóstolos. Foram réus porque mentiram ao Espírito Santo e caíram mortos aos pés de Pedro: “Não mentiste aos homens, mas a Deus”. O evangelista apresenta uma comunidade em crise de medo. Tomé é o gêmeo de Jesus porque é o único discípulo disposto a dar a sua vida por Ele. A diferença entre Tomé e Pedro é que o gêmeo compreendeu que Jesus não pede que se morra por Ele, mas com Ele. Não somos chamados, como heróis, a dar a vida por Jesus, mas dar a vida pelos outros como foi o seu testemunho de amor. A leitura equivocada dos evangelhos converteu Tomé em um incrédulo. A dúvida não é um obstáculo para a fé, mas o reconhecimento de que muitas vezes somos frágeis e não temos todas as respostas. Jesus não lhe aponta um dedo ameaçador, porque um dedo ameaçador não salva ninguém e nem é um argumento convincente. A grande dificuldade de acreditar não vem da invisibilidade do Ressuscitado, mas da visibilidade dos cristãos que se mostram pouco acolhedores e misericordiosos. Tomé não nega a ressurreição de Jesus, mas revela uma atitude quase desesperada de crer nela e, mesmo duvidando, faz a mais elevada profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.  Para Jesus, o verdadeiro fundamento da fé não são as visões e aparições nem as experiências extraordinárias, mas o simples serviço prestado por amor. A comunidade cristã deve ser fiel ao anúncio e ao testemunho do Evangelho; fiel ao amor fraterno expresso no serviço aos mais necessitados e fiel à partilha eucarística, seu coração e élan vitais. Meditemos um provérbio indiano: “Quando batemos palmas conhecemos o som de duas mãos juntas. Mas qual é o som de uma única mão?”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

A Incredulidade de São Tomé, 1601-1602, Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), óleo sobre tela, 107 cm x 146 cm, Sanssouci, Potsdam, Alemanha.




quarta-feira, 1 de abril de 2026

O Caminho da Beleza 22 - Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor                

At 10, 34a.37-43              Cl 3, 1-4                 Jo 20, 1-9                             

 

ESCUTAR

“E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e mortos” (At 10, 42).

Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória (Cl 3, 3-4).

Ele viu e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos (Jo 20, 8-9).

 

MEDITAR

Toda história da salvação poderia ser descrita como um drama de amor, como um imenso Cântico dos cânticos. Porém é menos a noiva que procura o noivo que o Deus fiel que procura seu povo adúltero, que procura a humanidade que se desviou dele; ele a procura para ‘lhe falar ao coração’ e reconduzi-la ao seu primeiro amor. Na Páscoa, as bodas são consumadas e no Ressuscitado é a humanidade inteira e o cosmos que se encontram secretamente recriados e transfigurados: o corpo do Ressuscitado é vida pura e não esta mistura de vida e de morte, esta ‘vida morte’ que chamamos de vida.

(Atenágoras de Constantinopla)

Se olharmos nossa vida nesta luz, se nós pensarmos que somos chamados pelo Amor a ser o Templo de Deus, o Santuário do Espírito e o Corpo de Jesus, teremos, frente a nós mesmos, uma atitude de respeito que fará de nós o altar, o tabernáculo onde Deus se revela, onde Deus manifesta Sua vida, transfigurando a nossa para que a nossa comunique a Sua.

(Maurice Zundel)

 

ORAR

     Em Atos, o discurso de Pedro é pronunciado na casa de Cornélio, centurião romano e pagão. O Evangelho começara a ultrapassar as fronteiras de Israel e Pedro, contrariando a sua educação e as suas certezas, decide batizar um pagão. A última frase de Pedro é vital nesta sua nova compreensão da realidade espiritual do Evangelho: “Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”. Se, no início, a salvação fora anunciada a Israel, doravante basta crer em Jesus, o Cristo, para receber o perdão dos pecados, ou seja, entrar na Aliança com Deus. A liturgia da Igreja, neste domingo de Páscoa, nos faz ouvir um texto tardio após a Ressurreição do Cristo, para nos fazer compreender, de uma vez por todas, a razão da vinda do Cristo entre nós: “Eu nasci, para isso vim ao mundo, para testemunhar a verdade. Quem está a favor da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37). Todos podem ouvir e compreender esta Voz. A ressurreição de Jesus não é como o ressurgimento de Lázaro no mesmo corpo conhecido pelas suas irmãs e vizinhos e para um resto de vida que teria o seu término. Lázaro, ao ser trazido de volta à vida, saiu todo atado nas faixas mortuárias. Seu corpo estava ainda prisioneiro dos grilhões do mundo, pois não era ainda um corpo ressuscitado. Ninguém viu o Senhor ressuscitando. O que Madalena, Pedro e João viram foram os sinais e as aparições do Ressuscitado. Não foram os olhos do corpo que O viram, mas os olhos dos seus corações iluminados pelo amor e pela fé. Maria Madalena assistirá a primeira aurora desta nova humanidade que as trevas não puderam impedir. João sabe que as faixas de linho no chão são a prova de que Jesus está, doravante, livre da morte, pois estas faixas que O imobilizaram simbolizavam, a passividade da morte. Seu corpo ressuscitado não conhece e nem experimenta mais nenhum entrave ou limite. Diante destas faixas abandonadas e inúteis, João “viu e acreditou”. A última frase do Evangelho de hoje é espantosa: “De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. Foi preciso esperar a ressurreição para que os discípulos compreendessem o mistério do Cristo, suas palavras e suas atitudes. É a ressurreição do Cristo que ilumina todas as Escrituras e as torna luminosas. A nossa fé deverá ser alimentada sem nenhuma prova material, além do testemunho das comunidades cristãs que a sustentaram sempre. O desafio é encontrar a força, como Pedro e João, de ler em nossas vidas e na vida do mundo todos os sinais cotidianos da Ressurreição. O Papa Bento XVI nos exorta: “Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de ‘redenção’ que dá um sentido novo à sua vida” (Spe Salvi, 26). O Espírito nos foi dado para que a cada “primeiro dia da semana” renovemos a gostosura de amar e ser amado e, fulminados pela Esperança, possamos correr, com todos nossos irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai, ao reencontro misterioso do Ressuscitado.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Anastasis, 2003, Arcabas (Jean-Marie Pirot) (1926-2018), óleo sobre tela, ouro fino 23 quilates, 1,62 m x 1,35m, Saint-Pierre-de-Chartreuse, França.