quarta-feira, 22 de maio de 2019

O Caminho da Beleza 27 - VI Domingo da Páscoa


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


VI Domingo da Páscoa             26.05.2019

At 15, 1-2.22-29                Ap 21, 10-14.22-23                      Jo 14, 23-29


ESCUTAR

“Ficamos sabendo que alguns dos nossos causaram perturbações com palavras que transtornaram vosso espírito” (At 15, 24).

Não vi templo na cidade, pois o seu Templo é o próprio Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro (Ap 21, 22).

O Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo (Jo 14, 26).


MEDITAR

Onde falta o desejo de se encontrar com Deus, ali não há crentes e sim pobres caricaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse.

(Simone Weil, 1909-1943, França)


ORAR

            O primeiro trabalho, o trabalho fundamental de nossa vida cristã, é nos deixar guiar em tudo pelo Espírito do Cristo. Não nos é pedido uma tensão de nós mesmos, mas um abandono a este impulso divino. Abandono que além disso não tem nada de uma preguiça ou de uma passividade, no sentido em que se emprega geralmente esta palavra. Há forças egoístas e perturbadoras que se agitam em nós e é a elas que a capitulação da vontade entrega a alma. Não se trata de nos conduzir, mas de ser conduzidos pelo Cristo. Ele nos mostra, por seu exemplo, o que é uma vida de homens sempre penetrada do Espírito. Sem dúvida, não se tratará de a copiar materialmente e servilmente, pois não nos encontramos exatamente nas mesmas circunstâncias, não temos a mesma tarefa exterior a executar. Mas nos atos do Cristo, assim como nas suas palavras revelam-se os princípios que inspiram sua ação, os julgamentos de valor que ditam sua atitude e comandam suas reações. É isto que devemos fazer nosso, incorporar progressivamente à substância de nosso ser. Quanto mais o fizermos, mais agiremos espontaneamente com o Cristo, mais estaremos sob a direção do Espírito. Mais seremos, nas circunstâncias onde Deus nos colocar, outros Cristos, isto é, cristãos. É preciso já começar, por pouco que seja, a possuir o Espírito de Cristo para compreender a vida de Cristo, de maneira que ela não esteja somente diante de nossos olhos como uma série de fatos, mas que tenhamos a compreensão de seu significado. Reformar nossa conduta depois que tivermos compreendido nos fará penetrar mais no Espírito de Cristo, pois se obtém este Espírito, não pela força da razão mas pela fidelidade nas ações, às luzes recebidas. Voltando então ao Evangelho penetraremos melhor o seu sentido. E uma nova fidelidade nos permitirá de novo uma nova compreensão mais profunda das lições evangélicas. Nesta matéria, para compreender, é preciso agir segundo o que se compreendeu. Levar uma vida medíocre é condenar-se à incompreensão.

(Yves de Montcheuil, 1900-1944, França)


CONTEMPLAR

Sinos de Jerusalém, 2013, Guy Cohen (1990-), Jerusalém, Israel.




terça-feira, 14 de maio de 2019

O Caminho da Beleza 26 - V Domingo da Páscoa


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


V Domingo da Páscoa               19.05.2019
At 14, 21-27            Ap 21, 1-5                Jo 13, 31-35


ESCUTAR

“É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no reino de Deus” (At 14, 22).

Vi um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram e o mar já não existe (Ap 21, 1).

“Amai-vos uns aos outros” (Jo 13, 34).


MEDITAR

O amor é o único ímpeto que é suficientemente avassalador para nos forçar a deixar o confortável abrigo da nossa individualidade bem protegida, a pôr de lado a concha inexpugnável da autossuficiência e rastejar nus para a zona do perigo, lá para a frente, para o cadinho em que a individualidade se purifica para aparecer a personalidade.

(Mark Patrick Hederman OSB, 1944-, Irlanda)


ORAR

            É, com efeito, “o amor do próximo o nosso modo concreto de entrar no amor de Deus”. É a encarnação do nosso amor de Deus, a prova da sua veracidade. Nós não podemos amar verdadeiramente a Deus sem querer o bem de nossos irmãos no Cristo, sem querer que todos estejam unidos n’Ele pelo mesmo “Pai Nosso”. “Aquele que não ama seu irmão a quem vê, como poderá amar Deus que não vê?” (1 Jo 4, 20). Nosso próximo é o Cristo ao alcance do nosso amor. Se não o amamos, é que não amamos a Cristo verdadeiramente...O amor fraterno, em cada um dos seus atos, é uma epifania do Deus do amor. A comunidade do amor deixa transparecer no semblante os traços invisíveis da comunidade divina, comunica-lhe sua vida. Pois o amor se espalha. É a alma da comunidade e o seu princípio de ação. O Espírito do amor é a fonte de sua vida e da sua difusão. O que a comunidade de amor traz ao mundo é a presença de Deus, é a experiência de Deus, a alegria de Deus ao alcance de todos. O que atrai a Fé, o que provoca a adesão, é a experiência de um amor novo na comunidade cristã viva, é o contato de Deus. “Que eles sejam um, pede o Cristo, a fim de que o mundo creia” (Jo 17, 21). E a sua oração é ouvida. Eles não formavam senão um só coração e uma só alma e a multidão dos fiéis ia aumentando a cada dia (At 2, 41.44). “Não teriam convertido o mundo”, comenta São João Crisóstomo, “se não tivessem amado tanto”. Isto permanece verdadeiro ainda hoje: só vivendo no amor fraterno pode uma comunidade levar o Evangelho a um meio humano qualquer. E sempre que há o amor, a vida divina passa e atrai, pois o coração do homem é feito para viver essa alegria, de conhecer e amar a Deus no outro.

(Louis Lochet, 1914-2002, França)


CONTEMPLAR

Crianças no degrau da porta, 2008, Havana, Cuba, Tony McDonnell, Dundalk, Irlanda.





terça-feira, 7 de maio de 2019

O Caminho da Beleza 25 - IV Domingo da Páscoa


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


IV Domingo da Páscoa             12.05.2019
At 13, 14.43-52                  Ap 7, 9.14-17                      Jo 10, 27-30


ESCUTAR

“Eu te coloquei como luza para as nações, para que leves a salvação até os confins da terra” (At 13, 47).

“Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14).

“As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (J0 10, 27).


MEDITAR

O caminho para a fé passa pela obediência ao chamado de Cristo. Exige-se um passo decisivo, senão o chamado de Jesus ecoa no vácuo, e todo suposto discipulado, sem esse passo ao qual Jesus nos chama, transforma-se em falsa onda entusiástica.

(Dietrich Bonhoeffer, 1906-1945, Alemanha)


ORAR

            Os povos e aldeias da Galileia estavam formados por gente campesina e de condição social muito humilde. Eram pessoas que viviam do campo e do pastoreio de seus escassos rebanhos de ovelhas e cabras. Naquela sociedade agrária, na qual nasceu e se educou Jesus, a imagem do pastor e o pastoreio das ovelhas era familiar. Jesus, seguindo a tradição dos profetas (Ez 34) utiliza esta imagem para explicar a relação entre os líderes e os discípulos na comunidade cristã. A experiência ensinava, desde então, que este assunto era delicado e se prestava a abusos muito graves. Ezequiel havia se queixado: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! (Ez 34, 2b). Por isso, Deus mesmo os ameaçava: Vou-me enfrentar com os pastores; lhes reclamarei minhas ovelhas (Ez 34, 10). É o escândalo dos pastores que atuam como donos do rebanho e o dominam segundo suas próprias ideias, seus interesses e suas preferências. Em consequência, Jesus explica o modelo de relação entre o pastor, que é bom de verdade, e a comunidade que apascenta. Esta relação se define por três verbos: “escutar”, “conhecer” e “seguir”... O mais importante de tudo é o “seguimento”. As ovelhas confiam no pastor, vão onde ele vai. Se sentem seguras com seu pastor. Tudo isso supõem modificar a raiz da relação entre o governante e os que se deixam governar. Já não se trata de uma “relação de poder” a qual corresponde uma “relação de submissão”. Isso tem sido o “princípio de decomposição” da Igreja. Porque a deformou. Numa instituição assim, Jesus não pode estar presente. Muito pelo contrário: Jesus se faz presente onde se oferece um modelo alternativo na relação entre líderes e comunidade. Quando todos eles se fundem em unidade, então a Igreja oferece a possibilidade de um mundo que nos pode seduzir. O mundo que tanto necessitamos.

(José Maria Castillo, 1929-, Espanha)


CONTEMPLAR

S. Título, s. data, Manhattan (?), Clay Benskin, New York, Estados Unidos.




sexta-feira, 3 de maio de 2019

O Caminho da Beleza 24 - III Domingo da Páscoa


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


III Domingo da Páscoa            05.05.2019
At 5, 27-32.40-41             Ap 5, 11-14              Jo 21, 1-19


ESCUTAR

“É preciso obedecer a Deus antes que aos homens” (At 5, 29).

“O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor” (Ap 5, 12).

“Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21, 17).


MEDITAR

O Teu lugar no meu coração é todo o meu coração: só Tu tens lugar aí. Meu espírito Te segura entre a minha pele e os meus ossos. Se Te perdesse, como faria? Quando tento esconder-Te o meu amor: meu inconsciente o declara com as lágrimas que escondia.

(Hussein Mansur al-Hallaj, 858-922, Pérsia)


ORAR

“Te levará para onde não queres ir”. O evangelho da aparição do Senhor na margem do lago Tiberíades termina com a investidura de Pedro em seu ministério de pastor. Tudo antes é preparação: primeiro a pesca malograda; em seguida a pesca milagrosa, após a qual Pedro se atira à agua para chegar nadando até o Senhor e manter-se a seu lado sobre a rocha da eternidade, enquanto que o resto da Igreja lhes traz sua colheita, sua pesca; depois é Pedro somente que arrasta até a margem a rede repleta de peixes. E finalmente se coloca a Pedro a questão decisiva: “tu me amas mais do que estes?”. Tu, que me negaste três vezes, me amas mais que este discípulo amado, que teve o valor de permanecer junto a mim ao pé da cruz? Pedro, que é consciente de sua culpa quando o Senhor lhe repete três vezes a mesma pergunta, pronuncia um primeiro sim cheio de arrependimento, pois de nenhuma maneira pode dizer não, e toma emprestada de João a força para isso (na comunhão dos santos). Sem a confissão deste amor maior, o Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas, não poderia confiar a Pedro a tarefa de apascentar seu rebanho. Pois o ministério que Jesus havia recebido do Pai é idêntico à entrega amorosa de sua vida por suas ovelhas. E para que esta unidade de ministério e amor, absolutamente necessária para o ministério conferido por Jesus, fique definitivamente selada, se prediz a Pedro sua crucificação, o dom da perfeita imitação de Cristo. Desde então, a cruz permanecerá ligada ao papado, mesmo quando houver papas indignos; mas quanto mais a sério tome um papa seu ministério, tanto mais sentirá sobre seus ombros o peso da cruz.

(Hans Urs Von Balthasar, 1905-1988, Suíça)


CONTEMPLAR

Jangadas, c. 1950, Marcel Gautherot (1910-1996), Instituto Moreira Salles, França-Brasil.




segunda-feira, 22 de abril de 2019

O Caminho da Beleza 23 - II Domingo da Páscoa


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


II Domingo da Páscoa              28.04.2019
At 5, 12-16               Ap 1, 9-13.17-19                Jo 20, 19-31


ESCUTAR

Chegavam a transportar para as praças os doentes em camas e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra tocasse alguns deles (At 5, 15).

“Não tenhas medo. Eu sou o primeiro e o último, aquele que vive” (Ap 17-18).

“Acreditaste porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20, 29).


MEDITAR

A vida cristã não é sobre acreditar em credos e ser obediente a regras divinas; é sobre viver, amar e ser. A Ressurreição vem quando somos livres para dar nossas vidas a fora, livres para amar além das fronteiras de nossos medos, livres não apenas para sermos nós mesmos, mas para conferir poder a todos os outros de serem plenamente eles mesmos nessa nossa rica, diferenciada e multifacetada humanidade. Aqui o preconceito morre. Aqui a totalidade é provada. Aqui a ressurreição torna-se real.

(John Shelby Spong, 1931-, Estados Unidos)


ORAR

           A grande e alegre mensagem da Páscoa é o homem novo, o homem que a Ressurreição de Cristo liberta das cadeias da insuficiência egoísta e da vã procura de sua realização. A Ressurreição o conduz, em plena liberdade, à consciência do pecado e da sua própria insuficiência, a fim de levá-lo pelo poder da Redenção a fazer quebrar-se o núcleo endurecido da sua própria individualidade, para que a energia procedente da sua verdadeira personalidade jorre na graça concedida. O que a Ressurreição oferece coincide com o apelo angustiado do homem contemporâneo, com a necessidade da hora presente: um rejuvenescimento  radical e incorruptível, rejuvenescimento que não é fechado sobre si mesmo, mas com o seu centro no Corpo vivo do Cristo que renova eternamente toda coisa; um rejuvenescimento que assegura tanto a unidade interior da pessoa, como a unidade orgânica da comunhão de todos os que se tornaram perfeitos e livres em Cristo. Contudo, todo um mundo vive ainda na noite da Sexta-Feira Santa, à véspera da Ressurreição, portas fechadas pelo medo, face sombria, cheia de dúvida e contradições, sem suspeitar que o Cristo ressuscitou e é nosso companheiro de viagem, pronto a revelar-se na fração do pão. Certamente, o mal se encontra ainda na história e no tempo que a regula. Esta coexistência da Ressurreição e do mal na história constitui o mistério da coexistência da liberdade e do destino. Ela é paradoxal, o paradoxo querido por Deus, da injustiça sofrida pelo justo para que a justiça se faça na terra. Mais do que nunca, o mundo de hoje tem necessidade da Páscoa, duma passagem da servidão à liberdade, da injustiça à salvação, da guerra à paz, das discriminações à unidade, da tristeza à alegria do céu. O Cristo ressuscitou. Proclamemo-lo.

(Damaskinos Papandreou, 1891-1949, Grécia)


CONTEMPLAR

Velas de Páscoa, 2018, Ilha de Poros, Grécia, Chris Panagiotidis, Atenas, Grécia.




terça-feira, 16 de abril de 2019

O Caminho da Beleza 22 - Páscoa da Ressurreição


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


Páscoa da Ressurreição                      21.04.2019
At 10, 34.37-43                 Cl 3, 1-4                   Jo 20, 1-9


ESCUTAR

Ele andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio, porque Deus estava com ele (At 10, 38).

Vós morrestes e a vossa vida está escondida, com Cristo em Deus (Cl 3, 1-4).

Entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu e acreditou (Jo 20, 8).


MEDITAR

“Ele viu e acreditou”. O que ele viu então? Nenhum objeto particular. É a ausência mesma que, plena de amor, se transforma para ele na evocação de uma Presença. Jesus, aliás, havia prometido: “Aquele que me ama será amado por meu Pai; e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14, 21).

(Enzo Bianchi, 1943-, Itália).


ORAR

            A fé em Jesus, ressuscitado pelo Pai, não brotou de maneira natural e espontânea no coração dos discípulos: antes de encontrar-se com ele, pleno de vida, os evangelistas falam, de sua desorientação, de sua busca em torno do sepulcro, suas interrogações e incertezas. Maria de Magdala é o melhor protótipo do que acontece provavelmente com todos. Segundo o relato de João, busca o crucificado em meio às trevas, “quando ainda estava escuro” e, como é natural, busca-o “no sepulcro”. Todavia não sabe que a morte havia sido vencida, por isso, o vazio do sepulcro a deixa desconcertada. Sem Jesus, se sente perdida. A fé no Cristo ressuscitado não nasce, tampouco, em nós hoje de forma espontânea ou só porque desde crianças escutamos a catequistas e pregadores. Para nos abrirmos à fé na ressurreição de Jesus, temos que fazer a nossa própria jornada: é decisivo não esquecer de Jesus, amá-lo com paixão e buscá-lo com todas as nossas forças, mas não no mundo dos mortos: aquele que vive, há que buscá-lo aonde há vida. Se queremos encontrar com Cristo ressuscitado, cheio de vida e de força criadora, temos de buscá-lo não em uma religião morta, reduzida ao cumprimento e à observância externa de leis e normas, mas sim ali onde se vive segundo o Espírito de Jesus, acolhido com fé, com amor e com responsabilidade por seus seguidores. Devemos buscá-lo não entre cristãos divididos e que se enfrentam em lutas estéreis, vazias de amor por Jesus e de paixão pelo Evangelho, mas sim ali onde vamos construindo comunidades que coloquem o Cristo em seu centro, porque sabem que “onde estão reunidos dois ou três em seu nome, ali ele está”. Aquele que vive não o encontraremos em uma fé estancada e rotineira, gasta por toda classe de tópicos e fórmulas vazias de experiências, mas sim buscando uma qualidade nova em nossa relação com ele e em nossa identificação com seu desígnio. Um Jesus apagado e inerte, que não enamora e nem seduz, que não toca os corações nem contagia com sua liberdade, é um “Jesus morto”. Não é o Cristo vivo, ressuscitado pelo Pai. Não é o que vive e que faz viver.

(José Antonio Pagola, 1937-, Espanha).


CONTEMPLAR

Sem Título, Arpi (Arpad) Atilla Szasz, 1960-, Califórnia, Estados Unidos.




segunda-feira, 8 de abril de 2019

O Caminho da Beleza 21 - Ramos e Paixão do Senhor


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


Ramos e Paixão do Senhor                14.04.2019
Is 50, 4-7                 Fl 2, 6-11                 Lc 23, 1-49


ESCUTAR

O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás (Is 50, 5).

Ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens (Fl 2, 7).

Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23, 46).


MEDITAR

Quando o Cristo chama um homem, ele diz a ele venha e morra.

(Dietrich Bonhoeffer, 1906-1945)

ORAR

            E, então, ele foi levantado na cruz e um título foi fixado, indicando quem era aquele sendo executado. Doloroso é dizer, mas mais terrível não dizer... Ele que elevou a terra foi elevado, ele que fixou os céus foi fixado, ele que atou todas as coisas foi atado ao lenho; o Senhor é ultrajado; Deus é assassinado.

(Melito de Sardis, -180 d. C., Anatólia Ocidental, atual Turquia)


CONTEMPLAR

Sem Título, 2019, Rui Pereira, Exposição “Reflexões de Luz e Sombra”, Lisboa, Portugal.




segunda-feira, 1 de abril de 2019

O Caminho da Beleza 20 - V Domingo da Quaresma


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


V Domingo da Quaresma                    07.04.2019
Is 43, 16-21             Fl 3, 8-14                 Jo 8, 1-11


ESCUTAR

“Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?” (Is 43, 18-19).

Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente (Fl 3, 13).

“Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno” (Jo 8, 10-11).


MEDITAR

Os pecadores conhecem a Deus, os justos ainda O estão procurando.

(Cardeal Hans Urs Von Balthasar, 1905-1988, Suíça)


ORAR

            Lição de misericórdia. O erro era flagrante, impossível de negar. Aquela mulher nem chega a defender-se. Que faz Jesus? Começa impondo silêncio aos acusadores. Condena os acusadores. Não porque seja falsa a acusação, mas porque não são retos os seus motivos. “Diziam isso com intenção de experimentá-lo e de arranjar base para o acusar”. Não queriam a justiça... a justiça era apenas um pretexto. Afastando-se os acusadores, eis Jesus face a face com a culpada. O pecado em face de Deus. “Alguém te condenou? – Ninguém, Senhor. Nem eu te condenarei. Vai e não peques mais”. Sê misericordioso, tu também. Não desculpes o mal. Mas não julgues o pecador. “Quando teu irmão cometer um erro, repreende-o a sós”. Não faças de seu pecado um acontecimento público. Não exponhas seus erros. Não faças deles um processo escandaloso. Poupa-lhe, portanto, o brio. E a dignidade. Mesmo pecador, o homem conserva sua dignidade e continua estimável, em sua pessoa. Teu irmão culpado não desesperará do Amor se se sentir amado por ti. Fala-lhe fraternalmente. Não com piedade. A piedade se dirige ao que está abaixo de nós. O pecador tem mais necessidade de amor do que de piedade. E o verdadeiro perdão não se afasta do amor. Fala-lhe fraternalmente. Que sinta estares no mesmo nível, teu coração ao lado do seu. Fala-lhe humildemente. Sim, humildemente. Pois não sabes se o pecado que ele acaba de cometer, não o cometerás tu amanhã, ou dentro de uma hora... Mesmo decaído, teu irmão continua a pertencer à tua família... filho de Deus, como tu, filho de Deus em provação, filho ausente. Em excursão aos últimos limites de sua liberdade, conserva seu lugar – está vazio, mas ainda é seu – no coração do Pai. Como tu, está mergulhado na noite... Tu remas contra a maré, sabendo onde vais. Ele abandonou-se à correnteza. Mas não esqueças: ele ainda conserva – adormecidas, talvez, mas bem vivas – mil capacidades que são reservas para o futuro... Talvez no seu pecado e nas suas inquietações, seja mais reto do que tu em tua virtude demasiadamente tranquila. Quem sabe se aos olhos de Deus não é ele mais atraente, por sentir-se menor do que te sentes... Continua sendo teu irmão. Mesmo amando pouco, ainda é o bem-amado do Pai... Que seja muito amado por ti.

(Ludovic Giraud, França)


CONTEMPLAR

Marpessa e a Freira, 1987, Bagheria, Sicília, Ferdinando Scianna (1943-), Magnum Photos, Itália.




segunda-feira, 25 de março de 2019

O Caminho da Beleza 19 - IV Domingo da Quaresma


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


IV Domingo da Quaresma                  31.03.2019
Js 5, 9-12                 2 Cor 5, 17-21                    Lc 15, 1-3.11-32


ESCUTAR

O Senhor disse a Josué: “Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito” (Js 5, 9).

Irmãos, se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo (2 Cor 5, 17).

“Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos” (Lc 15, 20).


MEDITAR

Deus não investiga com repulsa, de modo inflexível e implacável, o coração do pecador para aí verificar a “coisa” ou o “ser” que detesta. Compreende o pecador com misericórdia, todo o ser do pecador, a partir de dentro, de modo que sua realidade mais íntima não é mais a culpa, mas sua ligação filial.

(Thomas Merton, 1915-1968, França/Estados Unidos)


ORAR

            Muitas vezes, sentimos que Deus nos trai. Esperávamos isto e aquilo, rogamos, prometemos e as nossas mãos enchem-se sucessivamente de um silêncio que não conseguimos ler. É verdade que a Sagrada Escritura testemunha: “Mesmo que sejamos infiéis, Deus permanecer-nos-á fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” (2 Tm 2, 13). Mas nem sempre conseguimos abraçar com esperança os seus silêncios. A religiosidade natural do homem remete-o para o divino através da necessidade: o homem precisa de um Deus que lhe seja útil, que tenha poder no mundo, que o proteja. Rapidamente, Deus torna-se um ídolo, que serve para garantir-nos um funcionamento favorável do grande sistema do mundo. Contrariamente, a Bíblia encaminha-nos para a revelação de um Deus pessoal, e o faz de um modo cada vez mais surpreendente (por vezes, até escandalosamente surpreendente). Por exemplo, o Deus que Jesus Cristo nos anuncia ajuda-nos não por um entendimento mágico ou providencialista da sua onipotência, mas pela sua paternidade, pelo dom de seu amor. Quando o irmão mais velho, na parábola do filho pródigo, censura o pai por nunca lhe haver dado um cabrito para festejar com os seus amigos (cf. Lc 15, 29), o pai explica-lhe o que nos explica também a nós: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu (Lc 15, 31). O grande desafio da espiritualidade cristã inscreve-se precisamente nesta virada de atitude, nesta conversão: mais do que aquilo que Deus nos dá temos de aprender a valorizar a profundidade e a intensidade da sua presença: “Tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu”. Tudo se joga numa relação gratuita, e não num vaivém interesseiro. Esta é a diferença decisiva em relação ao quadro tradicional do fenômeno religioso.

(José Tolentino Mendonça, 1965-, Portugal)


CONTEMPLAR

Emoção, 2015, Londres, Kevin Mullins, Wiltshire, Inglaterra.