Homilias

II Domingo da Páscoa               23.04.2017

Na comunidade cristã o irmão não é somente o que compartilha a mesma fé, mas o que participa e tem livre acesso aos nossos bens. Desta forma, no verdadeiro testemunho cristão, desaparece qualquer discriminação econômica, pois a prática da partilha e da solidariedade aniquila a lógica do poder privado ou da família nuclear fechada em si mesma. A comunhão espiritual da comunidade com o Ressuscitado se expressa, de uma maneira visível, na partilha dos bens materiais com os mais fracos e necessitados.
 O evangelista nos apresenta uma comunidade em crise. Uma crise de medo resolvida pela presença e o dom da paz do Ressuscitado. Crise de um discípulo que não acredita. O Ressuscitado reaparece e não aponta Tomé com um dedo ameaçador, mas aceita a sua condição imposta para crer: ser tocado. Nenhum dedo ameaçador salvou ninguém e nunca constituiu um argumento convincente. Deus nunca aponta um dedo acusador, mas sempre oferece a mão (e o seu corpo) de misericórdia.
 Hoje, a dificuldade para acreditar não vem da invisibilidade do Ressuscitado, mas da visibilidade das igrejas e dos cristãos e de seus contra-testemunhos. Uma Igreja ou comunidade fechada e encerrada em seus problemas é uma Igreja ou comunidade sem horizontes e sem riscos. Aqueles que conseguem sair do fechamento, sem medo de amar e livres para a denúncia profética, encontram a paz e a alegria do Vivente que está com eles, fundido em suas vidas e relações.
Um dos equívocos mais frequentes que temos é imaginar Jesus, a partir da ressurreição, como um ser celestial, alienado do mundo e da nossa condição humana. Jesus ressuscitado não foi assim e nem atuou assim. O Ressuscitado está vinculado à condição carnal. Não é um fantasma. É um Vivente! O Ressuscitado não se dá a conhecer no “religioso” ou no “celestial”. Ele se encontra na mesa compartilhada e fraterna e no cuidado e atenção com a condição humana mais aniquilada.
Os cristãos encontram o Vivente quando são capazes do ato da misericórdia: de ver e tocar a dor humana de todos aqueles em que Deus está presente. É nas chagas das vítimas que encontramos o amor e a fé em Deus, o Deus Pai do Ressuscitado, o Vivente pelos séculos dos séculos. Como afirma o Papa Francisco: “O que Jesus nos pede para fazer com nossas ações de misericórdia é aquilo que Tomé havia pedido: entrar nas feridas. Só tocando as feridas, acariciando-as, é possível adorar o Deus vivo no meio de nós”.
Apenas uma igreja livre do “celestial”, uma “igreja em saída”, aberta e sem temor de tocar as feridas do mundo, redescobrirá a verdadeira essência do evangelho: a de que o mais divino se encontra e se apalpa no mais humano e de que apenas no humano vemos, tocamos e apalpamos o divino.