Homilias

II Domingo de Páscoa                 28.04.2019

            Quando receberam o sopro do Espírito Santo os discípulos estavam reunidos em comunidade, in Ecclesia, e poderiam perdoar os pecados e retê-los para um próximo perdão. Jesus deseja uma Igreja que seja uma comunidade de homens e mulheres livres não um aparato eclesiástico, hierárquico e burocrático. Uma Igreja criada para fazer justiça perdoar sempre e não para ser uma instituição da segregação e do descarte dos diferentes.

            A generosidade é o sinal do Espírito. E uma pessoa espiritual é generosa e dentro dela existe uma alma expandida para grandes coisas: “Se teu olhar é generoso, todo o teu corpo será luminoso (Mt 6,22). Somos ungidos todos para  sermos uma existência-para-os-outros que, como o Cristo, é um mistério de Amor e um modo de ser para a redenção da Vida. Jesus anunciou o Reino de Deus sem mediadores ou intermediários.

            Jesus nunca se fechou sobre si próprio e nem se encerrou, contente, num título de honraria e nem numa ideologia religiosa ou partido. Ele espera de nós uma intimidade espontânea, de confiança, de ternura onde o coração fala ao coração.

            Ao exibir seus estigmas de suplício nos revela que o Ressuscitado não pode ser dissociado do Crucificado. Hoje, as marcas da Cruz são visíveis na humanidade e se acreditarmos que os seres humanos são membros do Corpo de Cristo, o menor copo d’água dado a um sedento é dado ao próprio Jesus.

 Como afirma o Papa Francisco: “A ternura é assumida onde nós não temos medo de colocar nossos dedos nas chagas de Jesus Ressuscitado que se revela na “carne sofredora dos outros”, pois “na entrega criativa e generosa, aprendemos a descansar na ternura dos braços do Pai”.

Tomé não estava no primeiro encontro em que foi soprado o Espírito. Isolado dos seus irmãos, não foi surpreendido pela Luz do Ressuscitado. Por inveja ou despeito, se revela incrédulo e dita suas condições para crer.

 Como os outros descrentes, que desafiaram Jesus, pede um sinal, provas e evidências. Sem confiar nas palavras da comunidade, ao reafirmar o seu isolamento, exige e cobra uma experiência de uma demonstração física. Tomé é fruto de uma desconfiança ansiosa e egocêntrica ainda que tenha se proposto a morrer com Jesus (Jo 11, 16).

O evangelista nos deixa dois enigmas no ar. Tomé recebeu o sopro sozinho? Tomé tocou, como exigia, os estigmas do Ressuscitado? Talvez seja mais seguro dizer que depois do vexame humano e público, o Espírito o tenha perdoado e colocado em seus lábios a declaração de fé irredutível: “Meu Senhor e meu Deus!”.

A instituição separa e afasta. O amor aproxima e une a todos. Tudo o que liberta vem de Deus; tudo o que sufoca e oprime, não procede do Senhor amante da vida (Sb 11, 26).

O Cristo Ressuscitado transforma a vida numa festa sem fim e sua Páscoa é a festa da liberdade: a própria vida é boa, é belo existir e é magnifico estarmos aqui como irmãos, na nossa casa comum, a Terra. Nós vivemos para Viver.


“Bem-aventurados os que creram sem terem visto”