Homilias

XV Domingo do Tempo Comum                  15.07.2018

No Evangelho de hoje, o Cristo envia os discípulos para ungir e cuidar dos enfermos sem se preocupar com o seu próprio sustento e sobrevivência. Deveriam se arriscar na pobreza, livres de todos os fardos que impedissem a força do seu testemunho pelo Evangelho. O tom maior é mais sobre o bem viver do que o possuir.

Devemos estar sempre a caminho e nunca instalados. O cajado para Jesus não servia para mandar, mas para caminhar. Jesus não pensa no que devemos levar para sermos eficazes, mas no que não devemos levar para não vivermos encerrados em nosso bem-estar.

Viemos ao mundo sem nada e o deixaremos sem levar nada e nele brigamos por coisas que não nos pertencem. Quanto mais bens acumulados mais paralisados ficamos na vida. O mesquinho que traduz a sua existência na frase - “não posso descapitalizar” – é um enfermo de corpo e de mente, cai refém da morte, se enreda na gosma de suas teias e definha. Para ele, a sentença do livro do Eclesiastes: “Vento. Toda a sua vida come no escuro, entre muitos desgostos, doenças e rancores” (Ecl 5, 15-16).

A dinâmica a que Jesus nos chama é a da expansão pessoal no despojamento: “Não acumuleis riquezas na terra, onde roem a traça e o caruncho, onde os ladrões arrombam e roubam... Se teu olhar é generoso, todo o teu corpo será luminoso; porém se teu olhar é mesquinho, todo o seu corpo será tenebroso” (Mt 6, 19.22-23).

A expansão no despojamento aniquila o medo e tudo o que desfigura a nossa capacidade de criar gestos de amor. Todo aquele que se despoja se expande no movimento da vida. Todo aquele que ama e serve se impõe à morte, não a espera chegar, vive até o fim, não morre esperando pelo fim.

O Evangelho é anunciado por aqueles que sabem viver com simplicidade, homens e mulheres livres que conhecem o prazer de lutar e caminhar pela vida, sem se sentir escravos das coisas. Não vivemos somente de pão, mas do amor que ousa se afirmar. Se entrarmos neste universo de confiança e de fraternidade – o universo do bem viver – cada um de nós será capaz de transformar tudo em milagre de Deus: a angústia em ânimo, a necessidade em saciedade, a secura interior em ternura.

Para o cristão, basta um amigo, uma amiga, um bastão e poucas sandálias para adentrar pelas veredas da Vida. Pois, como diz o apóstolo Paulo, somos “entristecidos, mas sempre alegres, pobres, mas enriquecendo a muitos, nada tendo, mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


XIV Domingo do Tempo Comum                08.07.2018

Para o mano Fachin

Neste domingo, o evangelista Marcos nos aponta uma das mais perniciosas atitudes diante da vida e que nos atinge como um câncer silencioso: a maledicência, fruto da ignorância, da difamação e da calunia. Esta maledicência se sustenta pela vaidade e pela inveja, ardis do diabo. “O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo” (GR).

            Jesus enfrenta a intolerância, a mesquinhez e os preconceitos dos seus conterrâneos que o conheciam desde sempre: “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria?”. E se espantam, como tantos de nós, com os nossos mais próximos tocados pela graça do Senhor: “De onde recebeu ele tudo isso? Como conseguiu tanta sabedoria?”.

            Os nazarenos admiravam Jesus, mas esperavam Dele coisas maravilhosas, milagres e espetáculos para Nele crer. Começaram com a beleza e acabaram com um crime: queriam assassinar Jesus.

            Nas nossas igrejas e instituições, a maledicência corre nas veias dos medíocres que disseminam os anônimos rumores para destruir os que se expõem em nome da verdade e da justiça. O Papa Francisco repreende: “Os que vivem julgando o seu próximo, falando mal do próximo, são hipócritas porque não têm a força e a coragem de guardar seus defeitos e suas imperfeições. O Senhor não faz, sobre isto, nenhuma falação”.

            A inveja, o ciúme e a maledicência são o pai e a mãe dos rumores que dividem e são as armas do diabo depositadas nos corações e nos lábios. Francisco afirma que “a pessoa invejosa, a pessoa ciumenta é uma pessoa amarga: não sabe cantar, não sabe louvar, não sabe o que é a alegria e sempre questiona: ‘Por que ele e não eu?’”.

             Seguir Jesus não é um polido protocolo a ser respeitado e cumprido, mas um êxodo a viver, pois Deus concede a liberdade e a alegria sempre e só quando nos colocamos a caminho. Para se encontrar Jesus é preciso perder o medo de entrar no jogo, de se alegrar com o caminho andado e não pedir nada à vida: basta a graça e o dom de Deus, pois é na fraqueza que a força se manifesta.

            Paulo nos exorta: “Não sequeis o espírito, não desprezei as profecias. Tudo examinai; o que é bom, guardai. Afastai-vos de toda forma de iniquidade” (1 Ts 5, 19-21). E “se alguém parece ser religioso, não refreando a língua, mas enganando o seu coração, fútil é a religião dessa pessoa” (Tg 1, 26). O livro dos Provérbios arremata: “Língua enganadora duplica os danos, boca que adula provoca ruína”(Pv 26, 28).

            Meditemos as palavras do poeta do sertão: “Inveja é erro de galho, jogar jogo sem baralho...Invejar é querer o peso de bagagens alheias, vazio” (GR).
           



São Pedro e São Paulo             01.07.2018

Não é fácil tentar responder a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” Na verdade, quem é Jesus para nós? Sua pessoa nos chega através de vinte séculos de imagens, fórmulas e devoções que muitas vezes velam e deturpam sua riqueza insondável.

Quase sem nos dar conta, o diminuímos e o desfiguramos, inclusive quando tratamos de exaltá-lo. E, no entanto, Jesus continua vivo. Nós cristãos não pudemos dissecá-lo com a nossa mediocridade. Ele não se deixa etiquetar nem se reduzir a ritos, fórmulas ou costumes
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Jesus sempre desconcerta quem se aproxima dele. Sempre abre novas brechas em nossa vida, rompe nossos esquemas e nos atrai para uma vida nova. Como afirma o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, antes de ser executado pelos nazistas: “Jesus não nos chama a uma nova religião, mas à vida”.

Por isso Ele é perigoso. Percebemos nele uma entrega aos seres humanos que desmascara nosso egoísmo. Uma paixão pela justiça que sacode as nossas seguranças e privilégios. Uma ternura que deixa a descoberto a nossa mesquinhez. Uma liberdade que rompe nossas mil escravidões e sujeições.

Na intimidade com Deus, no Espírito, Jesus nos atrai e nos convida a abrir também a nossa existência ao Pai. Vamos conhecendo-o na medida em que nos entregamos a Ele. Só há um caminho para aprofundar-nos em seu mistério: segui-lo.

Foi isso que fizeram Pedro e Paulo, revelando em suas fragilidades e erros que seguir a Jesus não é e nunca será uma realização pessoal ou institucional. É, antes de tudo, uma entrega absoluta para a construção do reino de Deus.

O Concílio Vaticano II nos aponta esse verdadeiro caminho do seguimento: “Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito, guiada pelo Espírito Santo, ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para condenar, para servir e não para ser servido” (Gaudium et Spes, 3).

O agir cristão não necessita do poder de instituição alguma. Necessita sim de comunidades de homens e mulheres forjados pelo Evangelho; capazes de uma vida “crucificada”, vivida com o mesmo espírito de amor, irmandade e solidariedade com que viveu Jesus. No agir cristão “se você ama será crucificado; se não ama, você já está morto” (Timothy Radcliffe).



Natividade de João Batista          24.6.2018

         Toda vocação tem dois caminhos que se entrelaçam: o de Deus e o do homem. Se bloquearmos a irrupção da graça, o homem se extingue na mesquinhez e no egoísmo. Se bloquearmos a vontade humana, o dom de Deus cai no vazio.

         João Batista estava numa linha de fronteira: era o maior nascido de mulher e o menor, no reino dos céus, era maior do que ele. Ele é o único santo que a igreja celebra o nascimento. Com a chegada de João neste mundo se encerra uma etapa na história das tradições religiosas e outra se abre: “A lei e os profetas duraram até João. A partir daí anuncia-se a Boa Nova do reinado de Deus”.

         Abre-se a etapa do Reino que é vida para os pobres, enfermos e pecadores. O centro religioso se desloca: deixa de estar no Templo e passa para as ruas, os campos e os desertos. João era filho de um sacerdote e sua mãe era da família de Aarão. Por esta razão, seria mais lógico que se integrasse ao Templo para viver como sacerdote. Mas a sua lucidez o fazia clamar que era preciso que ele diminuísse para que Jesus crescesse. João foi um homem do deserto, um lugar de perigo e marginalização social.

         João se preocupava com a conversão dos pecadores e Jesus com a saúde dos enfermos e a comensalidade partilhada por todos. João acreditava num Deus justiceiro e castigador e Jesus, num Pai misericordioso e bom para com todos.

          O papa Francisco nos dá a régua e o compasso para traçarmos a nossa vida de testemunho: ser pobre no coração, saber chorar com os outros, buscar a justiça com fome e sede, olhar e agir com misericórdia, semear a paz e abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas (Gaudete et Exultate). E enfatiza: “A comunidade que guarda os pequenos detalhes do amor e na qual os membros cuidam uns dos outros e formam um espaço aberto e evangelizador, é lugar da presença do Ressuscitado, que a vai santificando segundo o desígnio do Pai” (GE 145).
         O Deus de Jesus, o Cristo, não cai simplesmente do céu, mas se encarna concretamente numa história que é um caminho para Ele. E nesta história concreta, João, o Batista é o último profeta e a última testemunha que precede a Jesus. É hora e sempre será de convertermos nosso ufanismo católico numa alegria cristã verdadeira.


         Nossas igrejas e comunidades devem ser como o Precursor: presença de uma voz que clama nos desertos apesar de tudo e de todos. E com o grito solto na garganta, serem puro passo e travessia.


Santíssima Trindade                27.05.2018
A festa da Santíssima Trindade, que celebramos hoje, não é uma simples formalidade na liturgia da Igreja e nem uma representação dogmática. Ela nos convida a tentar viver e a nos insurgir contra a nossa perda de sensibilidade à proximidade de Deus e à envergadura do seu Mistério.
Neste domingo devemos entrar neste mistério adorável de saber que a dinâmica da Trindade é o Amor que nunca se fecha. A Trindade Amorosa é uma eterna comunicação, pois não existe nem um olhar-para-si, mas sempre e eternamente um olhar-para-o-outro. O Pai é um eterno olhar para o Filho assim como o Filho é um olhar eterno para o Pai e toda a Luz divina brota desta relação como a visibilidade de um dom eternamente realizado.
Toda a alegria brota nesta dança eterna em que qualquer posse é impossível, pois a grandeza consiste no dom de si mesmo. A vida de Deus é sempre uma vertiginosa troca, partilha e uma circulação infinita entre o respirar do Pai, pelo sangue do Filho, na água e no fogo do Espírito.
A vida da Trindade acontece em nós mesmos sem que não a percebamos e nela “nem morte nem vida, nem anjos nem potestades, nem presente nem futuro, nem poderes nem altura nem profundidade, nem criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus Senhor nosso” (Rm 8, 38-39).
É na ternura partilhada que esta vida se manifesta, pois a alegria verdadeira começa quando percebemos, na relação com o outro, a dinâmica amorosa do Pai, pelo Filho e no Espírito Santo. Esta festa exige uma profunda revisão de vida e a nos perguntarmos sobre a esterilidade de uma vida que se debruça sobre si mesma e de um egoísmo que se idolatra.
O Cristo nos revelou a Trindade para fazer surgir em nós uma liberdade total ante os olhos do egoísmo mortal que assola o mundo, aniquila as culturas, domina os mais fracos, corrompe os poderes civis e religiosos, e que, sobretudo, pela ganância, destrói a natureza criada para o bem de toda a humanidade.
Eis o mistério: o Deus Uno e Trino é um despojamento. Ele é um dom. E este Amor assim totalmente despojado não pode mais bastar a Si. É um Amor estendido para um Outro, um Amor que deseja, que sai de Si e do qual resulta eternamente essa respiração viva, o Espírito, que procede do Pai e do Filho. Resta-nos, no silêncio da intimidade do Pai, inspirar e expirar, dizendo para sempre: “seja feita.... a Tua vontade”.


Homilia de Pentecostes                    20.5.2018

         Em Babel, o mundo inteiro falava a mesma língua na busca de se alcançar o céu e submeter a todos ao mesmo caminho e meta. Uns matavam os outros no afã do sucesso sem limites. Continuamos com os valores de Babel e suas divisões.

 O mundo de hoje está marcado pela arrogância e pela intolerância. A competividade marca a juventude e o empreendedorismo, a palavra da moda, vinga a idolatria de Mamon.

         Desde há muito a globalização é o novo nome de Babel: as culturas e os idiomas se perdem, a capacidade criativa se debilita, a vida comunitária se deteriora, os valores locais, suas crenças e símbolos religiosos, são destruídos num átimo de segundo. A pobreza se impõe como uma agressão estrutural e novas formas de escravidão, high tech, surgem a cada dia. Valoriza-se o proselitismo que violenta as consciências, toma de assalto a alma e instaura uma desolação espiritual e religiosa alienada e alienante.

Em Pentecostes, as maravilhas de Deus são anunciadas na nossa própria língua e São Paulo afirma que “há uma diversidade de dons, mas um mesmo Espírito”. A diversidade se revela como o único caminho para atingirmos a Deus.

         O pluralismo religioso é um desígnio misterioso de Deus cujo significado último nos escapa, pois o mistério de Cristo vai além das fronteiras das igrejas. Todas as vezes que as pessoas de boa vontade, expandidas em línguas de fogo,  trabalham no sentido da paz, da justiça, da liberdade e da fraternidade entre os homens, contribuem, misteriosamente, para o advento do Reino de Deus na história.

         A humanidade é plural e cada vez que pretendemos possuir a verdade e impô-la; cada vez que ousamos falar em nome da humanidade caímos no totalitarismo, na intolerância, na exclusão e construímos uma cultura dos descartáveis. Não se possui Deus, nem por Jesus que O revela e nem pelos dogmas da fé. Não se possui a verdade e, mais do que nunca, necessitamos da verdade uns dos outros.

         Paulo exorta: “Por meio da Boa Nova os pagãos compartilham a herança e as promessas de Jesus Cristo e são membros do mesmo corpo”(Ef 3, 6).

         As Igrejas, ao longo dos cismas, guerras e intolerâncias, reivindicaram uma universalidade que pertence só a Cristo. É necessário evitar identificar a universalidade do Cristo com o cristianismo enquanto religião histórica. Nós, cristãos, não somos proprietários nem de Deus e nem da salvação. Somos apenas testemunhas do Reino pela prática da Palavra e do Amor.

         O papa Francisco proclama: “Cada cultura reflete alguma coisa de Deus e tem uma mensagem a nos ensinar”(Laudato Si'). Pentecostes infunde o mesmo Espírito no coração de todos para que deixemos de ser “homens de cabeça dura, incircuncisos de coração e de ouvidos resistindo sempre ao Espírito”(At 7, 51).

         Babel nos torna seguros de nós mesmos, intolerantes, atados ao passado estéril das nossas míopes certezas e nos debatendo em divisões familiares, sociais e religiosas. Nos tornamos impermeáveis a Pentecostes, pois o Espírito nos incomoda, nos desinstala e nos abre ao futuro.

         O papa Francisco é enfático: “Na história houve a tentação de alguns que afirmavam: a Igreja é só a Igreja dos puros, daqueles que são totalmente coerentes e os outros devem ser afastados. Isso não é verdade. É uma blasfêmia e uma heresia” (A Igreja da Misericórdia).



IV Domingo da Quaresma                11.03.2018
O centro e o ápice da nossa fé estão na afirmação de que Deus ama tanto o mundo que entrega o seu Filho Único. Crer é mais do que aderir cegamente a uma lista de enunciados e dogmas. O que devemos crer, acima de tudo e de todos, é que o amor de Deus manifestado é o dom do Filho.
E o dom do Filho para nós é manifestado na Cruz. A Cruz nos fala de um amor derrotado, mas vitorioso; humilhado, mas pleno de glória; traído, mas fiel. Jesus foi levantado sobre o patíbulo da infâmia e sua exaltação não é uma expressão de um poder dominador, mas a eleição de um outro poder: o do amor.
Este dom nos coloca em crise porque pode ser aceito ou rejeitado. Somos nós que nos colocamos, como salvação ou condenação, diante da escolha do amor manifestado em Cristo. O Julgamento, no Evangelho de João, não é um ato divino, mas uma escolha humana.  
Podemos decidir pela escuridão ou pela luz; por ter segurança na religião ou liberdade no amor; por nos deter ao que nos é dado ou termos a coragem do testemunho revolucionário: o de que vivemos e caminhamos juntos ao serviço do Reino, pois amando manifestamos que nossas ações “são realizadas em Deus”.
Nicodemos, o fariseu enviado para inquirir Jesus, não o compreende porque estava preso nas “trevas” da segurança religiosa de seu tempo. Vislumbrou a luz, mas não conseguiu entrar nela. Ao final do Evangelho, João menciona sua presença no enterro de Jesus, porque simbolicamente o fariseu, atado à obscuridade de sua tradição, não alcança a nova vida no Espírito e não vai além de uma carne que sempre termina num túmulo.
Jesus antecipa a riqueza, a gravidade e o esplendor de todas as vidas humanas e nos convida a renascer todo o dia para a liberdade de quem toma a vida em suas próprias mãos: “Não te admires de eu te dizer que é preciso nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves sua voz e seu rumor, porém não sabes de onde vem, nem para onde vai” (Jo 3, 7).
No prólogo de João, a luz brilhava no meio das trevas e chegava até o mundo iluminando a todo homem (1,9). Antes, podíamos aceitar ou não a luz, agora podemos praticar ou não o amor em todas as suas possibilidades.
A Igreja não pode esquecer que Jesus, o Cristo, não é apenas um Messias reformador das instituições, mas o doador da vida e da liberdade. O Deus que Jesus revela é a fonte do amor que veio não para julgar o mundo, mas para abrir nossos olhos para ver, acreditar e viver essa nova vida e ingressar na eternidade que Deus é.





III Domingo da Quaresma                04.03.2018

         A maior prova de uma religião, como aparato de dominação, é o lugar que tem nela o dinheiro. Jesus se deparou com essa monstruosa idolatria. A Páscoa em Jerusalém não é mais a festa da libertação da escravidão, mas uma Páscoa em benefício do poder e enriquecimento de chefes religiosos.

         O Messias, entrando no Templo, não encontra pessoas em oração e sim comércio e tráfico de interesses. A cólera de Jesus é a cólera do Senhor, enunciada pelo profeta Zacarias, contra os pastores que tratam suas ovelhas como bestas para o abatedouro, compram-nas para matá-las e as vendem exclamando: “Bendito seja Deus! Vou ficar rico!” (Zc 11, 4-5).

         Mas Jesus vai além! Ele não quer a purificação do lugar do culto, mas sim a sua eliminação. Na nova aliança, não é mais o homem quem deve oferecer ao seu Senhor, mas o Pai que oferece o próprio Filho. Deus não pede sacrifício, mas a acolhida do seu amor.

         No Reino de Deus, que Jesus realiza, não há mais lugar para “nenhum Templo, porque o Senhor, Pai onipotente, e o Cordeiro são o seu Templo” (Ap 21,22) e nem para o culto porque o Senhor “não habita Templos construídos por homens, nem se deixa servir por mãos humanas... é ele quem dá a vida e a respiração a todas as coisas” (At 17, 24-25).

         Ao chamar Deus de Pai, Jesus esvazia o Templo: agora é somente na profunda humanidade de Jesus que o divino se encontra. O Deus de Jesus Cristo é um Deus gratuito. O seu lugar de encontro é o coração do ser humano, pois Ele não se encontra na sacralidade das relações religiosas, mas na laicidade das relações humanas.

A loucura e o escândalo da Cruz, pregada pelo apóstolo, nos obrigam a revisar e a rechaçar todas as imagens idolátricas de Deus. Deus é amor e não poder, portanto, não pode ser comunicado por meio da Lei ou da Doutrina, mas somente mediante os gestos que transmitem a vida (Alberto Maggi).


Os sinais que Jesus realizará serão as obras com as quais restituirá a plenitude da vida ao povo enfermo, faminto, cego e morto que encontrará em sua travessia.  São eles o “santuário de seu próprio corpo”. São eles o Templo do Senhor: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito habita em vós? (1 Cor 3, 16). 

Nós seremos também tatuados nesse corpo/templo, humano/divino, quando partilharmos a nossa atenção e o nosso amor, atendendo à miséria e ao sofrimento que encontrarmos a nossa volta. E, assim, ofereceremos a Deus o único e verdadeiro sacrifício que ele nos pede: a nossa própria vida!


II Domingo da Quaresma                 25.02.2018

A Transfiguração, que normalmente se celebra no dia 6 de agosto, nos coloca diante de um paradoxo perturbador. Exatamente nessa data, há 73 anos, a bomba atômica de Hiroshima fez sua trágica aparição no horizonte da humanidade, como uma luz de morte e de devastação. Nessa época, também, o calendário judaico faz a memória da Shoah (a tragédia do assassinato de mais de 6 milhões de judeus na segunda grande guerra).

Desse modo, a luz da vida da Transfiguração, que provém de Deus e anuncia o futuro do mundo em Cristo, contrasta com a luz da morte produzida pelo homem, que ameaça o presente do mundo, comprometendo seu futuro. A Transfiguração lembra a beleza para a qual a humanidade e o universo inteiro estão destinados; Hiroshima e a Shoah testemunham o embrutecimento de que o homem é capaz.

 A Transfiguração evoca, concentrando-se sobre o Cristo, a glória à qual estão destinados o corpo humano e o próprio cosmos; Hiroshima e a Shoah revelam a capacidade do homem de desfigurar a carne humana, de deteriorar o corpo e o espírito, de devastar o cosmos.

Para um cristão, celebrar a Transfiguração representa assim um apelo à responsabilidade e uma exortação à compaixão, à dilatação do coração em consideração ao homem que sofre. Não é um acaso se, para os evangelhos, o Cristo que conhece a transfiguração é aquele que vem anunciar pela primeira vez o destino da paixão e morte que o espera, a desfiguração que sofrerá por parte dos homens (ver Mt 16, 21-23): face ao mal, Jesus escolheu ser vítima de preferência a ser um rei todo poderoso.

A Transfiguração torna-se desse modo o “sim” de Deus ao Filho que aceita a via da solidariedade radical com os oprimidos e as vítimas da história. O Cristo é aquele que reúne em seu corpo de homem e em sua carne de judeu as dores da humanidade inteira.

Diante das tragédias do assassinato da Cruz, da Shoah e de Hiroshima, a Transfiguração torna-se esperança universal, para todos aqueles que sofrem e mesmo para a criação inteira que geme pela espera da redenção.

A luz do Ressuscitado brota do mais fundo do sofrimento, de um amor vivido até o fim. Ao extremo da morte corresponde o extremo do amor. Também em nossa obscuridade, habita esta luz interior e trinitária com a qual transfiguraremos em vida toda a força de devastação e morte: a misericórdia do Pai, a entrega amorosa do Filho e a liberdade do Espírito.




I Domingo da Quaresma         18.02.2018
        
Nesta quaresma, a liturgia da Palavra nos aponta para a experiência mística do deserto, que é a experiência da luta espiritual. É preciso desviar nossos olhos dos numerosos ídolos que nos seduzem e voltá-los para o essencial do agir cristão.

A experiência de Jesus no batismo – a de ter sido designado pelo Pai como seu “filho bem-amado” (Mc 1, 11) – não lhe acarretou uma vida fácil, livre de provações. Logo após ter sido mergulhado nas águas do Jordão, Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto: o lugar do vazio, da luta, da vertigem, da solidão. Mas, ele não está só!

O deserto é o reino dos demônios e da morte, mas é também o lugar onde, na ausência de tudo, pode-se sentir a presença de Deus. Deus criou o deserto para chamar alguém! Os padres espirituais afirmam que a autenticidade de cada um é forjada na escola do deserto porque Deus se serve das areias para arear a nossa superficialidade e atingirmos a mais implacável verdade para conosco mesmo.

No deserto de sua solidão, Jesus trava o duelo entre Deus e Satanás, entre as feras e os anjos que o sustentam. Vencida a divisão do mal, Jesus faz nascer um novo homem, um novo mundo e uma nova Aliança de Deus com a humanidade: “O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo”.

Hoje o verdadeiro deserto é a alma mergulhada na angústia, no vazio que nos atemoriza, na depressão e ansiedade, e no medo do futuro, pois o verdadeiro inimigo não está diante de nós, mas em nós mesmos. Em tudo isso o deserto pode se tornar o solo de acolhida da misericórdia de Deus. O deserto em Deus pode se transformar em nova gênese.

Deus conduz a luta dentro de nós, contra nós e por meio de nós. É a voz misteriosa em nosso interior, o murmúrio feito de pausas e suspiros que, num apelo ao Absoluto, aceita que o vento varra a areia das nossas inquietudes. No mais árido deserto de nossas almas, Deus nos sussurra: “Na minha luta, és tu que lutas” (Sl 42, 1).

O testemunho do Cristo nos revela que não existe experiência cristã sem luta contra as tentações que nos dividem e nos conduzem ao isolamento e ao desamor. O Caminho da Páscoa passa pelo deserto e a Via crucis, essa prática peculiar do tempo da quaresma, mais que um “exercício piedoso” é e sempre será um “exercício incômodo”.


         Por ele, a travessia do cristão nunca será uma excursão tranquila em território religioso, mas sempre uma aventura arriscada e surpreendente no meio da Vida.


VI Domingo do Tempo Comum                11.02.2018

         Na liturgia da Palavra de hoje, o Pai se revela Todo Poderoso em sua Ternura e Misericórdia. Não há dor que não possa ser curada e mal que não possa ser revertido em supremo bem, quando se toca, pela ternura, no intocável da dor de uma alma ferida.

O leproso, na Palestina antiga, era o maior dos proscritos a ponto de ser considerado como o “primogênito entre os mortos”. Os religiosos o discriminavam como “impuro”, qualificativo terrível porque associava diretamente a doença e a dor de um ser humano ao domínio do pecado e do mal, morada de Satã.

         Jesus não compactua com essa discriminação religiosa e revela que em todo homem, por mais miserável que seja, habita uma força vital transformadora. É ela que leva o leproso a tomar a iniciativa de se aproximar de Jesus e a transgredir a Lei que o proibia de todo contato humano. É ela também que move o Senhor nas entranhas a estender a mão e a tocá-lo, dirigindo o seu amor (“eu quero: fique curado”) àquele homem que se considerava castigado por Deus.

         Jesus e o leproso são um só, indivisíveis, no sinal da proscrição e da dor. Se curado, o leproso se junta à comunidade dos homens; curando, Jesus é forçado à solidão do deserto. A imagem remete ao Calvário onde Jesus será executado, fora de Jerusalém, como um blasfemador, inimigo da lei religiosa de seu tempo e de um deus feito ao seu tamanho.

         Ao mandar o leproso se apresentar aos sacerdotes, Jesus não faz uma concessão à lei (que ele mesmo transgredira), mas sim um convite para que eles tomassem consciência da Boa Nova que trazia: a de que Deus atua ao contrário deles, porque “seus chefes julgam por suborno, seus sacerdotes pregam por salário, seus profetas advinham por dinheiro” (Mq 3, 11).

         Paulo nos chama a ser imitadores do Cristo, a co-dividir a nossa vida com os leprosos do Senhor: os rechaçados, os renegados, os proscritos que portam a miséria do mundo como se fosse a cruz do próprio Cristo. Lá onde está a dor, lá deve estar presente também o cristão! Lá onde está o mal ou a imperfeição, lá o cristão deve agir!

         Francisco de Assis encontrou a face do Cristo na compaixão pela dor, ao beijar o leproso e na proscrição, quando expulso pela própria ordem, recebeu as chagas do Senhor. Como ele, descobriremos que os leprosos somos todos nós, que não existe a “pureza” perfeita, mas que de nossas imperfeições, da sombra que se oculta em nós mesmos, poderemos sim retirar a força espiritual extraordinária para transfigurar todo o mal e fazer todo o bem.
        

         

V Domingo do Tempo Comum                  04.02.2018

         Nesse capítulo inaugural do Evangelho de Marcos, depois do Cristo que chama os discípulos, depois do Cristo que ensina nas sinagogas, revela-se o Cristo que cura com ternura. Jesus, o Ungido, o Filho Bem-Amado, o Filho da Ternura do Pai. Recém-saído das águas de seu batismo, do deserto das tentações, ele penetra na capital da dor, em que doentes e endemoninhados são levados até ele.

         A dor dilacera e desespera. A dor conduz Jó à lucidez de que nela tudo perde o sentido: “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade”. E, no entanto, à “sombra da morte”, na qual transcorremos nossos dias, o profeta Zacarias canta que, na sua ternura e misericórdia, Deus “fará brilhar o sol nascente”. É à sombra do mal que Jesus ora de madrugada, esperando o sol nascer, invocando o nome do Senhor.

Deus se revela e nos levanta pelas mãos. O Cristo acolhe o contágio e as dores e tem diante dele a humanidade em toda sua vastidão e devastação. Ele vê os ossos ressequidos dos homens e lhes devolve o sopro da vida (Ez 37, 5). Ele vê a nossa apatia febril quando recusamos a modificar nossos rumos e comportamentos.

Muitas vezes aquilo que consideramos “normal” em nossas vidas pode ser, na realidade, uma grande doença, uma febre ou uma fuga. Logo que Simão escutou as palavras de Jesus à beira do lago, ele o seguiu porque se desembaraçou do mal que o aprisionava: o de uma vida certa e bem regrada. Deus nos abre à total liberdade mas nos faz saber que “diante dos homens estão a vida e a morte e o que agrada a cada um lhe será dado” (Eclo 15, 17).

Os “demônios” que carregamos são as vozes da oposição e do não em nós mesmos, aquelas que se levantam para contestar e recusar o caminho que nos conduziria ao ânimo e à alegria, em direção a nós mesmos, à nossa verdade.

Basta despertarmos para o que fomos chamados que os “maus espíritos” elevam sua voz em nosso interior e dizem: “isso não vai dar em nada”. Basta sentirmos um sonho se elevar em nossa alma que logo vem a voz novamente: “pense bem...assim está bom, para quê mais?” Mas é à voz desses espíritos doentes, que o reconhecem até como Filho de Deus, que Jesus ordena para fecharem totalmente a boca: “Cala-te” (Mc 1, 25).

Com a mão terna de Jesus, todas as febres tombam e Deus mesmo toma possessão do coração do homem fazendo cessar a angústia que o aprisiona, a tirania que mata a liberdade, o medo que abafa e, enfim, o demoníaco em cada ser humano.


Do Cristo emana uma confiança que se irradia a todos e a todos faz levantar. Ele mesmo, recusando a reputação de ser aclamado e adorado pela multidão, se levantou de madrugada e foi ao deserto orar, num movimento que deixa entrever sua ressurreição a vir e que se dá, desde já, para cada um de nós, como uma promessa de vida: a de ressurgir sempre para a liberdade de servir e amar, pois, como Ele disse: “foi para isso que eu vim”.


IV Domingo do Advento          24.12.2017

         Na liturgia de hoje, há dois modos diversos de se interpretar o advento, de se viver a espera: o de Davi e o de Maria de Nazaré. Um preocupado em dispor um espaço externo a Deus. A outra disponível para oferecer um espaço interior de escuta e acolhida.

         Davi ansioso para realizar o seu projeto a despeito do Senhor. Maria capaz de se introduzir no desígnio de Deus sem outra bagagem a não ser sua fé intrépida e a sua absoluta entrega, própria apenas de uma criatura livre: “Eis aqui a serva do Senhor”.

         Os preparativos de Davi, mesmo que generosos e carregados de boa intenção, não são aceitos. Deus quer outra coisa. Os desígnios de Deus vão mais além do que os planos dos homens. Mais do que habitar uma casa de pedras, Deus prefere fazer de um povo a sua própria casa, e caminhar com ele. Deus prefere as “pedras vivas” à solidão vazia dos monumentos.

         Maria de Nazaré oferece a seu Senhor o único espaço de que Ele necessita: seu corpo, sua pessoa e todo seu ser. Somente o templo de carne viva pode conter a sua glória. Unicamente a pequenez pode abraçar a grandeza divina. O espaço minúsculo do útero de uma jovem é o único apto para abarcar o Infinito.

         Maria, como escreverá Santo Ambrósio, “não é o Deus do Templo, mas sim o Templo de Deus”. Ela é a sede da efusão suprema da cháris – a graça do Senhor, porque nela está presente o próprio Deus no Filho que concebe e engendra.

         E, assim, no grito do Filho ungido, nascido do seu ventre, o Pai corrige, pela infusão do Espírito, a esterilidade do mundo para que este também se torne fecundo. O homem não está mais só com suas forças, mas sob o efeito da graça do Cristo que nos acompanha durante toda a nossa travessia.

         Como fez Maria, oferecendo sua existência e seu corpo para o ingresso de Deus no mundo, que o nosso ser, livre de todos os projetos pessoais e mesquinhos, possa acolher e se transfigurar em Deus. Apenas, desse modo, poderemos cantar o hino espiritual:

“Hoje, o grão de trigo foi disposto numa terra virgem...e a natureza inteira prepara os dons que oferecerá para o menino. A terra irá oferecer uma manjedoura e as cidades vão oferecer Belém. Os ventos oferecerão sua obediência e o mar sua submissão... As águas vão oferecer o Jordão, as fontes vão oferecer a Samaritana e o deserto, João Batista. Os animais oferecerão um jumento e os pássaros uma pomba. As estéreis oferecem Isabel e as virgens Maria. Os sacerdotes vão oferecer Simeão e as viúvas Ana. Os pastores vão oferecer seus cantos e as crianças seus ramos. Os perseguidores oferecerão Paulo e os pagãos uma cananeia. A hemorroíssa oferecerá sua fé e a prostituta seu perfume. As árvores oferecerão Zaqueu e as florestas uma cruz. O Oriente oferecerá uma estrela e Gabriel sua saudação: ‘Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!’” (Proclo de Constantinopla, século V).



III Domingo do Advento          17.12.2017

Se nós cristãos temos que estar sempre prontos a dar a razão de nossa esperança (1 Pd 3, 15), hoje, neste domingo, esperamos a Deus não com temor ou tremor, mas com a alegria! “Alegrai-vos sempre no Senhor...alegrai-vos! O Senhor está próximo” (Fl 4, 4), diz a antífona de entrada.

         Mas devemos nos questionar: a alegria, pode ser ela fruto de uma ordem? Aonde hoje tem lugar a alegria? Ela ainda é possível, é legítima, numa época em que a humanidade parece ter regressado à barbárie?

Ainda assim, a Escritura insiste: em meio ao caos e às trevas, devemos dar o testemunho da luz! Porque pertencemos a Cristo, deve prevalecer em nós a alegria! Não uma alegria superficial, mas aquela forjada na luta, como o transbordamento de uma ação boa que alcança a sua meta. A alegria autêntica é causada pelo amor, pelo fato de que quem nos ama está presente, como disse João Batista sobre Jesus: “entre vós está aquele que não conheceis”.

Dar graças ao Pai, não importa a adversidade, é dar ao Espírito que nos habita a oportunidade de atuar e abrir uma porta até Deus, através da qual Ele possa entrar em sua casa. Não podemos esquecer que os profetas preparam a chegada de Cristo, mas o encontro pessoal com ele é absolutamente livre.

Quanto mais se aproxima o homem a Deus, para dar testemunho de Deus, menos ele vê o reflexo de si mesmo. Quanto mais espaço se deixa a Deus dentro de si, mais se se converte em seu puro instrumento. Como diz Santo Agostinho: “o Senhor está mais próximo de nós do que nós de nós mesmos”.

Só pelo despojamento de toda a pretensão pode alguém dar o testemunho da Luz. Caso contrário, nos fecharemos em nós mesmos, como na estória narrada pelos Padres Espirituais: “Perguntaram ao ancião: ‘Por que tenho medo quando vou ao deserto?’. ‘Porque até então vives para ti mesmo’, respondeu o ancião”.

Hoje ainda, em terra seca e árida, se eleva a planta vivaz do grito, o grito que faz na solidão o seu caminho, sem evasivas: “Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’”. Como João Batista, todo homem espiritual pode suscitar incompreensão, ou mesmo hostilidade. Mas, só por sua presença e pela presença daquele que ele anuncia, ele já difunde uma alegria serena nos que dele se aproximam.

A psicanalista Françoise Dolto afirma: todo “ser espiritual irradia o amor em que vive e não busca doutrinar, convencer...Faz o que tem que fazer. É ele mesmo quase sem se dar conta... Ele é surpreendente, até mesmo ‘chocante’, mas esse choque é revelador de uma outra coisa que não pode ser explicada – ele está com Deus”.

Neste Advento, abramos o nosso coração, pois o Senhor está próximo, o Amor se avizinha e nos chama a expandir as nossas vidas, no Espírito, pela alegria do testemunho! Gaudete in Domino!




II Domingo do Advento           10.12.2017

         A Boa Nova de Jesus, o Cristo, não começou no Templo, não veio de seus funcionários, de seus sacerdotes ou de suas cerimônias, e sim do deserto, de um profeta do deserto. O Evangelho não começa no religioso, mas na boca de um andrajo.

         João Batista certamente causaria incômodos em ambientes eclesiásticos atuais. Suas atitudes mais inquietavam do que tranquilizavam e ele não era nada conciliador. Não queria aplausos ou reconhecimento porque, no deserto, a Palavra provoca o silêncio, não os aplausos. Decidiu viver de maneira pobre e despojada, livre de todos os adornos, porque no deserto descobre-se a essencialidade.

         O profeta nos ensina que para proclamar o único necessário se impõe despojar-se de toda a vaidade! Deve-se confiar na linguagem da simplicidade e não da espetacularidade. Hoje, muitos de nossos sacerdotes e igrejas preocupam-se mais com os microfones do que com a autenticidade da sua voz. Mais com a mídia do que com a essência da Palavra que ousam pregar.

         Se oferecemos uma verdade já fabricada, apresentamos solução para todos os problemas, apontamos facilmente o caminho para se chegar ao Senhor, João Batista, ao contrário, semeia a inquietude, acende o desejo, suscita uma espera, anuncia uma busca.... Ele não tem a pretensão de nos “entregar” Cristo (será Judas quem o entregará). E isto porque não O possui! Ele só é, como disse, o “amigo do noivo” (Jo 3, 29).

         Como João Batista, a Santa Escritura não cessa de nos falar e gritar: o trovão de sua voz ruge no deserto de nossa existência. Nesse Advento, devemos preparar os caminhos do Senhor, em nós mesmos, para nos purificar de tudo que nos afasta do testemunho. “Aplainai na solidão a estrada de nosso Deus”, diz Isaías, porque o Senhor não se envereda por caminhos terrestres, mas avança pelo segredo dos espíritos.

         Como João, devemos ordenar e dirigir a trama de nossa vida em função da vinda do Cristo. Porque é o Senhor que vem até nós e pede para abrir o caminho pelo qual Ele nos alcança. Para tanto, que os “vales” vazios de nossa existência sejam preenchidos; que os “montes e colinas” da nossa autossuficiência e presunção sejam rebaixados; e que as “asperezas” de nossos vacilos e ambiguidades sejam aplainadas. Livres e despojados de todo conformismo e de todas as amarras da acomodação, abramos as veredas que nos conduzem a Deus para nos deixar também ser encontrado por Ele.