segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O Camino da Beleza 40 - XXI Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXI Domingo do Tempo Comum                27.08.2017
Is 22, 19-23            Rm 11, 33-36                     Mt 16, 13-20


ESCUTAR

Eu vou te destituir do posto que ocupas e demitir-te do teu cargo (Is 22, 19-23).

De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? (Rm 11, 34).

“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16, 13-20).


MEDITAR

Em Jesus, Deus se nos comunicou, de tal maneira que, na medida em que seguimos a Jesus e nos identificamos com seu modo de vida, nessa mesma medida é como se nos encontrássemos com Deus. Isto quer dizer que não nos encontramos com Deus – nem nos relacionamos com Ele -, primordialmente e essencialmente, nem na fidelidade a certas verdades, nem na observância de certas normas, nem mediante o cumprimento de certos rituais, nem no âmbito do sagrado, nem na submissão a certas hierarquias. Por isto, e porque os dirigentes religiosos do tempo de Jesus e da sociedade em que viveu não entenderam e não toleraram isso, por esse motivo se produziu o grande conflito. O conflito que relatam os evangelhos, que foi o conflito de Jesus com a religião. Com o Templo, com os sumos sacerdotes, com a observância do sábado, com os jejuns e a amizade com os pecadores, as tensões com os mestres da Lei... Um conflito que se agravou até o extremo de terminar na paixão e na morte.

(José Maria Castillo, teólogo católico).


ORAR

Todos nós temos a tendência de questionar Deus e Ele deve responder a todas as nossas questões. Invertemos as posições e criamos a ilusão de que “ter fé” é obrigar a Deus dar conta de Si e de suas atitudes em relação a nós e ao mundo. No entanto, quem nos coloca as perguntas é Deus e somos nós que devemos dar conta da nossa fé e da prática resultante dela. No momento em que tivermos respondido a todas as perguntas, com certeza, a vida nos colocará outras novas. Quantas vezes cultivamos, em segredo, a ambição de sermos conselheiros de Deus e seus experts. A sabedoria de Deus é profunda e a nossa demasiado curta. A postura mais justa que nos cabe é a da modéstia unida ao sentido da surpresa e da maravilha. Devemos nos deixar surpreender por Deus mais do que querer conquistá-Lo. Deus não nos deve nada, pois Ele nos deu tudo por iniciativa própria e nada diante Dele é intocável ou insubstituível. Conhecer a Deus significa estar em silêncio, respirar e se deixar habitar por sua Luz inacessível. Pedro recebeu o poder de abrir e fechar; de admitir ou excluir; de atar ou desatar. Mais do que tudo, Pedro recebeu o exemplo do agir de Jesus: viu o Mestre usar as chaves somente para abrir e oferecer a todos a possibilidade de encontrar a porta aberta. Não podemos esquecer a fala imperativa de Jesus: “Ai de vós letrados e fariseus hipócritas que bloqueais aos homens o Reino dos Céus. Vós mesmos não entrais, nem deixais entrar os que estão para entrar e os que o querem” (Mt 23, 13).


CONTEMPLAR

New York, New York, 1963, Homens olhando para a arte, Elliot Erwitt (1928-), franco-americano, Paris, França.







segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Caminho da Beleza 39 - Assunção de Nossa Senhora

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

Assunção de Nossa Senhora              20.08.2017
Ap. 11, 19; 12, 1.3-6.10               1 Cor 15, 20-27                  Lc 1, 39-56


ESCUTAR

Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas (Ap 12, 1).

O último inimigo a ser destruído é a morte (1 Cor 15, 26).

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1, 42).


MEDITAR

Faça seu caminho. Isso poderá lançá-la ao exílio e sua sociedade nativa poderá tornar-se estranha, e você poderá ter muito pouco a ver com as pessoas de lá e não ter com quem comunicar-se. Mas não se esqueça de que você terá a D’us para fazê-la encontrar outros em exílio com quem terá muito para conversar.

(Rabino Polsky, Judaísmo)


ORAR

A luz que brota da Assunção de Maria revela que não estamos caminhando para a morte, mas para a Ressurreição. A Igreja Oriental nomeia esta festa como Dormição: “Pois se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará juntamente em sua companhia os que dormem” (1 Ts 4, 14). O céu não representa uma ameaça nem uma chantagem, mas uma possibilidade inaudita e um apelo à liberdade. Hoje, graças à cumplicidade de Maria, podemos estender um fragmento do céu em nossos horizontes; podemos abrir no cinza da nossa existência um fragmento de azul que a salve da banalização e da vulgaridade. Na nossa travessia, corremos o risco de uma vida incolor, insípida e sem perfume. Não devemos temer a morte, mas uma vida reduzida a coisas irrisórias, sufocada pelas preocupações mesquinhas e ausente de possibilidades. Celebramos a festa do corpo destinado à imortalidade e devemos derrubar os maniqueísmos da divisão entre corpo e alma. Devemos recuperar o sentido do corpo nesta experiência do céu na terra que é um feitio de oração (Noel Rosa). Orar significa desatar-se. Desatar-se das máscaras da hipocrisia, da falsa seriedade que nos impede de rir; das mãos encolhidas ao invés de estendidas num gesto de dom; de pés que caminham em todas as direções menos na do amor, da amizade e da paz. Nossos corpos devem resplandecer, transformados pela palavra do Senhor, como sinais visíveis de Deus. Davi dança, nu, diante da Arca da Aliança. O poeta escreve: “Quiseram eliminar-me, mas saltei mais para cima porque eu sou a vida que não pode morrer e viverei em vós e vós vivereis em mim porque Eu Sou o Senhor da dança” (Sidney Carter). E Nietzsche argumentava: “Só posso acreditar num Deus que saiba dançar”. Nesta festa de hoje, a grandiosa representação cósmica desfaz-se, pouco a pouco, na paisagem montanhosa em que se destaca uma moça que caminha apressada. A Arca da Aliança não aparece mais colocada no marco solene do Templo e objeto de ritos solenes, mas no caminho, em marcha, na forma de uma criatura de carne que leva um filho no ventre. O encontro entre as futuras mães se revela no diálogo das entranhas. O salto de alegria que o Batista dá no ventre de Isabel é um dançar com o seu primo. Nessa dança de ventres e corpos, o humano se faz portador do divino. O mistério se manifesta com gestos e sinais que fazem parte da humanidade. O corpo se faz tabernáculo da divindade e visibilidade do Transcendente. Maria elevada resta infinitamente humana, mãe para sempre, voltada para a terra, atenta aos sofrimentos dos seus filhos e filhas de todos os tempos e lugares. Esta celebração traz em seu bojo um contraste entre o culto religioso e a prática da vida. O culto religioso elogia e celebra o feminino da nossa religião personificada em Maria. As festas de Maria se sucedem durante o ano litúrgico. No entanto, a prática das nossas igrejas exclui, marginaliza e esquece as mulheres quando melhor lhes convêm. Deus jamais revelou que as mulheres não podem exercer os mesmos direitos que os homens. Se nós, cristãos, não pudermos mudar esta realidade tradicional, devemos parar com a hipocrisia de elogiar o feminino e alimentar as religiões que desprezam as mulheres que carregam em seus ventres as gerações de todo o sempre.


CONTEMPLAR

Laetitia Casta, 2012, Dominique Issermann (1947-), Maison Européenne de la Photographie, Paris, França.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O Caminho da Beleza 38 - XIX Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XIX Domingo do Tempo Comum                13.08.2017
1 Rs 19, 9.11-13                 Rm 9, 1-5                Mt 14, 22-33


ESCUTAR

Ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa (1 Rs 19, 12).

Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua (Rm 9, 2).

“Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14, 27).


MEDITAR

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

(Fernando Pessoa, Mensagem)


ORAR

O profeta Elias é um profeta fogoso: “Então levantou como fogo um profeta [Elias] cujas palavras eram fogo aceso” (Eclo 48, 1) e seu Deus era um fogo exterminador. Para ele Deus só podia ser um guerreiro que aniquilava os inimigos: 450 profetas de ídolos foram barbaramente degolados (1 Rs 18, 40). Mas, o deus que vence pela espada não é um verdadeiro Deus e, na hora do triunfo, Elias tem seus olhos cegados e sua mente aprisionada em seus próprios esquemas. Quando é perseguido, Elias tem a oportunidade de encontrar Deus e descobrir seu verdadeiro rosto. Não é no monte Carmelo, onde aconteceu o cruento desafio entre os fanatismos opostos, mas no monte Horeb e de uma maneira distinta da experimentada por Moisés. O Senhor é sempre novo e surpreendente e não faz reedições do passado. É o silêncio que entrega a Elias o verdadeiro Deus: “Depois do fogo, uma voz e um silêncio sutil”. O Senhor é silêncio, paz, intimidade e presença serena. Elias sai transformado e transfigurado em um ser pacificado. Agora poderá falar de Deus sem vociferar e invocar o fogo dos céus, pois descobrira que os relâmpagos da tempestade não traçam as linhas do rosto de Deus. O evangelista narra a tempestade em que Pedro afunda no mar. Aliás, uma coisa embaraçadora para um pescador profissional. Pedro falhou por estar com o corpo pesado, dominado pelo medo e pela sua ambição de se sobressair dos demais. Pedro foi puxado para baixo. Pedro afundou. Pedro não sabia que o segredo da leveza é a oração. Jesus em oração é esta sombra luminosa que avança sobre as águas ameaçadoras; que caminha sobre as ondas e desloca as montanhas. Ele é a voz do sutil silêncio. O pecado, o alvo errado dos homens, não pode atingir a brisa da tarde que é o próprio Deus caminhando com amor ao reencontro da sua Criação. Toda a narrativa do Evangelista é um símbolo da bondade apaixonada que paira sobre as águas e as trevas na busca incessante dos que sofrem e são atormentados; dos que se debatem na noite escura; dos que veem fantasmas, gritam de medo e se afundam na vida. Somos convidados a superar o simplismo, o fanatismo, a autopiedade farisaica, a superficialidade. Somos convidados a ser abertos, humildes, tolerantes, discretos e suaves como Deus na brisa. O Espírito de Jesus sempre será ouvido como um murmúrio: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”.


CONTEMPLAR

Sem Título, 2014, anônimo, Ijevsk, Rússia, http://fishki.net/1256374-makrofotografii-i-ne-ne-tolko.html








segunda-feira, 31 de julho de 2017

O Caminho da Beleza 37 - Transfiguração do Senhor

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

Transfiguração do Senhor                 06.08.2017
Dn 7, 9-10.13-14               2 Pd 1, 16-19                       Mt 17, 1-9


ESCUTAR

Seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá (Dn 7, 14).

Não foi seguindo fábulas habilmente inventadas que vos demos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas, sim, por termos sido testemunhas oculares de sua majestade (2 Pd 1, 16).

Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo” (Mt 17, 7).


MEDITAR

Certa vez um monge perguntou a Mestre Joshu:
__ Um cão possui a Natureza de Buda ou não?
E Joshu exclamou:
__ Muuu!

(Köan Zen, Zen-Budismo)


ORAR

O evangelista nos revela a identidade de Jesus: o filho Amado. O Cristo é a tenda, presença perfeita e definitiva do Pai. No final da cena, ao centro, se ergue tão somente a figura de Jesus. O Filho é a tenda da Shekinah, a Divina Presença. A Transfiguração é o desvelamento do destino e do mistério de Jesus e também do nosso destino e mistério. Para todos se abre um horizonte de luz: “Amados, já somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que seremos. Sabemos que, quando ele aparecer seremos semelhantes a ele e o veremos como ele é” (1 Jo 3, 2). O Transfigurado passa pela obscuridade da história e da morte. Jesus presente no nosso cotidiano transfigura os seres e as coisas mais humildes. Os discípulos estão assustados e caem com o rosto em terra. Depois, no Jardim do Horto, cairão no sono e serão incapazes de uma hora de vigília. Nossa oração em silêncio, com Jesus, pode transfigurar a vida pela acolhida dos outros numa nova maneira de vê-los. Devemos aniquilar as doenças do olhar que são as doenças de uma oração equivocada, centrada em nós mesmos. É preciso colocar nossos olhos e nossos olhares no coração e nele encontrar a fonte da vida. O dia seis de agosto nos remete a uma fatal sincronicidade. Neste dia, em 1945, os habitantes de Hiroshima e Nagasaki viram uma grande luz no horizonte. A bomba atômica fazia sua trágica aparição no horizonte da humanidade como uma luz de devastação e de morte. A humanidade acabara de assistir a transfiguração da luz que liberta e dá a vida numa luz cega e trágica que desfigurava e aniquilava os que também foram criados à imagem e semelhança de Deus. A transfiguração de Jesus nos lembra a beleza à qual a humanidade e o universo são destinados. Hiroshima e Nagasaki testemunham o embrutecimento e o horror de que os homens são capazes ao desfigurar os corpos que são santuários de Deus (1 Cor 6, 9) e devastar a criação de Deus. Para os cristãos, celebrar a Transfiguração é um apelo à responsabilidade, uma exortação à compaixão e a expansão do coração diante dos que sofrem. A Transfiguração é o desvelamento do SIM do Cristo ao caminho da solidariedade radical com os oprimidos e vítimas da História.


CONTEMPLAR

Um homem sírio chora sobre o corpo de seu filho próximo ao hospital de Alepo, Síria, outubro de 2012, Prêmio Pulitzer de 2013, Manu Brabo (1981-), Saragoça, Espanha.




segunda-feira, 24 de julho de 2017

O Caminho da Beleza 36 - XVII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XVII Domingo do Tempo Comum              30.07.2017
1 Rs 3, 5.7-12                     Rm 8, 28-30                      Mt 13, 44-52


ESCUTAR

“Dá, pois, ao teu servo um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal” (1 Rs 3, 9).

Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8, 28).

“Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola” (Mt 13, 46).


MEDITAR

Quando busco o meu coração, encontro-o em Ti.
Quando busco a minha alma, encontro-a entre os Teus cabelos.
Quando, sedento, me aproximo a uma fonte para beber,
mesmo no pequeno espelho d’água vejo o Teu rosto refletido.

Nada me está mais próximo do que o Amado,
mais próximo a mim do que a minha própria alma.
E dele não me recordo jamais,
pois a lembrança existe para quem não está.

(Rûmî, Sufismo).


ORAR

Deus mostra a sua delicadeza ao aparecer a Salomão em sonho. Quando dormimos não temos vergonha de nada e podemos pedir tudo o que queremos e desejamos. Salomão não se apresenta como seguro de si. O Evangelho apresenta as parábolas, mas talvez as nossas vidas não são a ilustração mais pertinente e convincente da mensagem de fundo que elas contêm. Muitos de nós chegam a ser doutores sem se converter em discípulos. Pensamos que tudo sabemos e que podemos dar lições aos outros. O Evangelho revela que o cristão é o homem do descobrimento gozoso e somos chamados a superar as facilidades que enganam e consomem nosso existir. O seguidor de Cristo não é o homem da renúncia, mas da adesão a Alguém. O discípulo não perdeu nada, pois encontrou Alguém e esta vivência é sempre prazerosa e não mortificante. No entanto, as deformações estão sempre à nossa espreita. Podemos acreditar que possuímos o único tesouro e conservamos suas bagatelas e quinquilharias. Podemos querer parecer que deixamos tudo para seguir Jesus e fazemos os outros pagarem o preço do que abandonamos e não encontramos. O mais triste é encontrar cristãos cujas vidas não estão marcadas pela alegria, o assombro e a surpresa de Deus. Vivem encerrados no seu mundinho religioso sem nunca encontrar nenhum tesouro. O tesouro do Evangelho é como um grande amor e uma imensa paixão. E esta paixão é pelo o ideal de transformar a face do mundo e torná-lo mais fraterno. O cristianismo não é uma religião do refúgio, da proteção e da segurança para os nossos bens. O Evangelho nos faz trocar o certo pelo duvidoso e só assim encontraremos o surpreendente tesouro. O amor não conhece limites nem definições restritivas. Ele leva aquele que ama ao ponto de desistir da própria vida pelo bem dos outros. Isto pode parecer extravagante e absurdo, mas o Reino de Deus é para as aventuras da fé e da ternura. Não é uma recompensa para a mediocridade.


CONTEMPLAR

Pegando a chuva, década de 1930, Robert Doisneau (1912-1994), Paris, França.



segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Caminho da Beleza 35 - XVI Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XVI Domingo do Tempo Comum                23.07.2017
Sb 12, 13.16-19                  Rm 8, 26-27                       Mt 13, 24-43


ESCUTAR

Ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores (Sb 12, 19).

O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor com gemidos inefáveis (Rm 8, 26).

“Enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora” (Mt 13, 25).


MEDITAR

Diálogo entre o venerável Uddálaka a seu filho Shvetaketu:

“Vai e traze-me um fruto da árvore nyagrodha.”
“Aqui está, venerável.”
“Abre-o.”
“Feito, venerável.”
“Que vês no interior?”
“Vejo-o, venerável, todo cheio de sementes.”
“Abre uma delas.”
“Feito, venerável.”
“Que vês em seu interior?”
“Nada, venerável.”
Então lhe disse:
“Da coisa sutil que tu de modo algum percebes, querido filho, dessa coisa sutil surgiu certamente essa enorme árvore nyagrodha. Acredita, querido filho, o que constitui essa coisa sutil, aquilo de que surgiu o universo, isso é o real, é a alma, és tu, ó Shvetaketu”.

(Chhandogya-Upanishad VI, 11-12, Hinduismo)


ORAR

O Reino de Deus é sempre um início minúsculo e insignificante. O Reino começa em alguma parte sem que ninguém se dê conta disto. Deus vem à terra como uma semente, um fermento ou um rebento. Jesus é semeador e semente ao mesmo tempo. Devemos aprender a delicadeza de Deus, sua solicitude e benevolência. Não podemos ceder à inquietude e nem nos deixar devorar pela ansiedade. Respeitemos a vida, não a sufoquemos e vivamos todas as suas possibilidades. Seja qual for o momento em que nos encontramos, não é mais do que um ponto de partida. Devemos suspeitar das transformações espetaculares e dos resultados imediatos, pois as coisas que deixam um sinal profundo tomam sempre a vereda da lentidão. A parábola do joio revela a hipocrisia descarada em que vivemos: com o propósito de arrancar o mal procuramos nos desembaraçar do que nos molesta, nos causa fastio e ameaça as nossas ambições. Se formos intempestivos, poderemos arrancar o trigo. Não existe nenhum campo que seja somente de grão bom. Quando julgamos os outros sem considerar o joio que habita em nossos corações, transformamo-nos em sinal de discórdia. O Papa Francisco disse: “O hipócrita é capaz de matar uma comunidade. Fala com docilidade, mas julga brutalmente as pessoas. O hipócrita é um assassino e começa sempre com a adulação. A linguagem da hipocrisia é a linguagem do engano; é a mesma linguagem da serpente com Eva. No final, utiliza a mesma linguagem do diabo para destruir as comunidades” (Homilia de Santa Marta, 06.06.2017). Temos que nos precaver do farisaísmo cristão fruto do fanatismo em criar igrejas perfeitas, puras, mas separadas umas das outras. Os verdadeiros malvados são os que, em vez de se empenhar no humilde esforço da prática do Evangelho (Mt 7, 21-23) arrogam-se a tarefa que é da competência de Deus. São os campeões de uma fé arrogante, presunçosa, e estão sempre prontos para suspeitar uns dos outros. Deus deseja nos ouvir em oração, mas não suporta ouvir nossos desejos minúsculos, insuficientes, mesquinhos e deformados. O Papa Francisco colocou na porta de seu quarto uma tabuleta com o escrito: “Proibido lamentar-se”, para que não sejamos possuídos pela síndrome do “vitimismo” que nos diminui o humor e a capacidade para enfrentar os desafios. Deus não deseja o que nós desejamos. O Espírito sempre vem em nosso socorro para suprir a debilidade das nossas preces. No mais fundo dos nossos corações, está o Espírito e Deus sabe qual é o desejo do Espírito. Fraudamos Deus não pelo que fazemos por Ele, mas, sobretudo, porque não O permitimos fazer maravilhas conosco.


CONTEMPLAR

Sem Título, s.d., Barcelona, Martin Molinero (1975-), Buenos Aires, Argentina.




segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Caminho da Beleza 34 - XV Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XV Domingo do Tempo Comum                  16.07.2017
Is 55, 10-11             Rm 8, 18-23                       Mt 13, 1-23


ESCUTAR

“A palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade” (Is 55, 11).

Toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto (Rm 8, 22).

“Quem tem ouvidos ouça!” (Mt 13, 9).


MEDITAR

A Terra, sua Vida eu sou
A Terra, seus pés são meus pés
A Terra, suas pernas são minhas pernas
A Terra, seu corpo é meu corpo
A Terra, seus pensamentos são meus pensamentos
A Terra, sua fala é minha fala
...O Céu, sua vida eu sou,
As montanhas, sua vida eu sou
...O Sol, sua vida eu sou

(Canto sagrado Navajo, América do Norte)


ORAR

Somos terrenos compostos com um pouco de tudo: caminhos, pedras, espinhos e terras férteis. Nosso interior é um terreno em que a Palavra de Deus é semeada. A semeadura exige de nós uma resposta que não pode ser evasiva e nem estar de acordo com nossos gostos pessoais. O efeito da Palavra não é estabelecido por nós, mas fixado por Aquele que a entrega: “A palavra que sair da minha boca não voltará para mim vazia; antes realizará tudo o que for da minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la”. Ninguém saberá prever até onde chegará a semente e o que está destinada a produzir. Tantas vezes as igrejas utilizam a Palavra para fazer coisas que voltam aos céus sem resposta e vazias. Não somente Deus espera, mas a Criação também “está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus”. Temos sido filhos descuidados, indiferentes, distraídos e toda a Criação tem pago tragicamente as consequências. Nossas atitudes desfiguram a obra de Deus. O papa Francisco é enfático: “A crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior” (LS 217). No seguimento de Jesus, não necessitamos de colhedores, pois não somos chamados a colher êxitos, conquistar as ruas, dominar a sociedade, encher as igrejas e templos e impor a nossa fé religiosa. Precisamos de semeadores que por onde passam semeiem palavras de esperança e gestos de compaixão. Esta é a conversão que precisamos: romper com a obsessão de colher e assumirmos o trabalho paciente e imprevisível de semear. Jesus nos deixou de herança a parábola do semeador e não a do colhedor. Que terreno somos nós? Um coração que compreende ou um caminho árido e estagnado pela ausência de sensibilidade, de afetividade e generosidade?


CONTEMPLAR

S. Título, 2005, Onomich, Província de Hiroshima, Japão, Donata Wenders (1965-), Berlim, Alemanha.