segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 48 - XXIX Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXIX Domingo do Tempo Comum             22.10.2017
Is 45, 1.4-6              1 Ts 1, 1-5b              Mt 22, 15-21


ESCUTAR

“Chamei-te pelo nome; reservei-te, e não me reconheceste” (Is 45, 4).

O nosso evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo (1 Ts 1, 5).

“Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?” (Mt 22, 18).


MEDITAR

Os ricos, os grandes, os que ocupam os lugares importantes e que escandalizam, são um mal infinito. Quando os ímpios reinam e dominam, é a ruína de todos, diz Provérbios: “quando os perversos se impõem, arruína-se o homem” (Pr 28, 12).

(Cornelius a Lapide, jesuíta, séc. XVII)


ORAR

Para os mais melindrosos deve ser motivo de escândalo o fato de que o Senhor tenha conferido a Ciro, o rei da Pérsia, um não-crente que nem O conhecia, o título de Cristo, o Ungido. E este ungido, sem etiquetas religiosas, foi chamado para realizar as obras de Deus no famoso edito de 538 AC que permitia aos judeus voltar a sua terra. Os judeus buscaram a sua segurança ao estreitar as alianças e pactos com os poderosos de turno, esquecendo que a segurança estava garantida pela fidelidade a Javé. E Ciro, o incrédulo, se converte, sem o saber, em servo do Senhor. O edito de Ciro libertou um povo e por isso convence mais que o de Constantino, que o atrelou a si. As doações de Constantino foram mais daninhas porque eivadas de interesses escusos dos poderosos que se autoproclamavam como “benfeitores”. Jesus escapa da armadilha devolvendo-a aos seus adversários e os colocando em apuros. Ainda hoje, as delimitações do território espiritual e temporal desencadeiam discussões acaloradas. A adesão a Cristo não nos facilita a chave do entendimento e nem é um milagroso salvo-conduto para resolver os conflitos. Nossos políticos, muitas vezes com o beneplácito das igrejas, sacrificam vidas pela apropriação imoral e pecaminosa do dinheiro que não lhes pertence. Estão todos excomungados do coração de Deus ainda que posem de cristãos aos olhos dos homens. Para eles, estão reservados o fogo que não se apaga e o inferno que não se acaba. No plano político, não existe uma terceira via e nem uma solução intermediária. Se Jesus diz Sim, condena os esforços do povo para libertar-se do jugo romano. Se Jesus diz Não, vai se declarar partidário dos zelotes e de sua rebeldia libertária. O poder limitado de César chega até onde vai a sua moeda. Ao contrário, o poder de Deus é ilimitado e por isso deve receber tudo de todos. Os cristãos devem confrontar os poderes civis e religiosos que toleram e perpetuam as injustiças e prepotências. Estes poderes, ainda que da boca para fora não neguem a Deus, ofendem a sua imagem que é o homem. A imagem de César está na moeda, mas a imagem de Deus está em cada um de nós. Lamentamos quando perdemos a imagem de César, mas continuamos adoradores dos poderes quando injuriamos a imagem de Deus que está em cada um de nós e em nossos irmãos e irmãs.


CONTEMPLAR

Qual é a nossa única exigência?, 2011, cartaz do Movimento dos “Indignados” cujo lema é “Ocupe Wall Street”, Nova Iorque, Estados Unidos.




sábado, 14 de outubro de 2017

Fundação Matersol 18 Anos

Manas e Manos da Travessia



Hoje, 15 de outubro de 2017, Festa de Teresa de Ávila, completamos dezoito anos de fundação da comunidade dos Manos da Terna Solidão (Matersol), como Instituto de Vida Consagrada. A comunidade, no entanto, possui uma história de 37 anos, partilhando Alegria, Ternura, Justiça e Verdade.

Agradecemos a todas as Manas e Manos que, no Espírito, buscam o Transcendente pelo testemunho do Filho, em amor e serviço à Criação do Pai!

Em comunhão com Mère Belém, nossa mãe da ternura, fundadora das Irmãs Contemplativas de Sion, e de Dom Irineu, nosso pai da alegria, bispo emérito da Diocese de Lins (SP), que nos consagraram como manos, pedimos a todos a antiga benção monástica (século VI):



"O Senhor Jesus Cristo
esteja junto de ti para te proteger:
à tua frente para te conduzir;
atrás de ti para te guardar;
acima de ti para te abençoar.
Ele que, com o Pai e o Espírito Santo
vive e reina pelos séculos. Amém."


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 47 - XXVIII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXVIII Domingo do Tempo Comum                     15.10.2017
Is 25, 6-10               Fl 4, 12-14.19-20              Mt 22, 1-14


ESCUTAR

O Senhor Deus eliminará para sempre a morte (Is 25, 8).

Tudo posso naquele que me dá força (Fl 4, 13).

“Já preparei o banquete...Vinde para a festa!” (Mt 22, 4).


MEDITAR

Acercou-se de mim, vi o seu rosto.
“Do rosto eu não sabia mais que o véu”.

Se a luz do véu abrasa esse universo,
O que dizer do fogo de teu rosto?

O amor veio e partiu. Eu o segui.
Voltou-se, como águia, e devorou-me.

Perdi-me no tempo e no espaço.
Perdi-me nos mares do verbo.

O gosto deste vinho,
Conhece quem sofreu.

Os profetas bebem tormentos.
E as águas não temem o fogo.

(Rûmi, Sufismo)


ORAR

O banquete de Deus anunciado pelo profeta está infinitamente mais longe do que os nossos sonhos mais audazes e loucos possam sonhar. Nossos pensamentos em relação a Deus são excessivamente modestos e mesquinhos. O Senhor se desilude com a nossa incapacidade de imaginar as coisas maravilhosas que Ele realiza para nós agora e sempre. São os sonhos impossíveis que nos conduzem ao Paraíso. O evangelho apresenta várias surpresas. A primeira, é que Deus não se senta em tribunal para julgar e nem para controlar nossos documentos. Deus não é um oficial aduaneiro. Ao contrário, Ele nos convida para um banquete de bodas: alegria, encontros, comunhão e intimidade. A segunda, a recusa absurda dos convidados que se mostram indiferentes, distantes e tediosos. A terceira surpresa é a de que o desígnio de Deus não se interrompe pela falta de adesão dos convidados. Deus não suspende a festa, pois o seu desígnio não fracassa. O Evangelho, rechaçado por uns, encontra uma inesperada acolhida em outros corações e a sala se enche de excluídos. A quarta surpresa é o homem não vestido para a festa. Entrara de penetra e afoito, mas o convite não teve nenhuma repercussão em sua vida. Não é possível ser cristão sem mudar a nossa prática de vida. A seriedade do compromisso não está em contradição com a atmosfera festiva, mas é condição para que a festa seja verdadeira. A roupa da festa é o nosso salvo conduto e é entregue na entrada: revestir-se do Cristo. Apesar da recusa, Deus ressurge constantemente no coração dos homens. A simbologia do banquete é a da comunhão com Deus. Não basta ser chamado. É necessário entrar na plenitude da eleição. Os que recusam o convite são sempre aqueles cuja prioridade é cuidar dos seus negócios (a negação do ócio), pois tempo é dinheiro. Os que respondem ao convite são os que valorizam a solidariedade, a alegria e a reciprocidade. Jesus compreendeu a sua vida como um grande convite em nome do Pai, no Espírito. Não impunha nada e nem pressionava ninguém. Arrancava os medos, as angústias; acendia a alegria e o desejo de Deus. Os que não aceitam o convite continuarão a viver uma existência solitária, encerrados num monólogo perpétuo consigo mesmo. Madre Belém, no seu leito de morte, balbuciava: “Quando há uma missa que a gente não vai e despreza tivemos uma oportunidade perdida. Peço a vocês, nunca deixem de ir a uma missa por preguiça, afazeres e distração. A fidelidade à missa de domingo é uma garantia de salvação porque Deus põe as graças da semana em cima do altar e nós temos que buscá-las senão quem sai perdendo somos nós” (11.12.2011). Devemos nos perguntar se estamos com a veste nupcial ou se a esquecemos por estarmos com o coração ausente e a mente perdida atrás dos nossos interesses e negócios. E a veste nupcial? É o amor!


CONTEMPLAR

Dia a dia na Espanha, 1933, Henri Cartier-Bresson (1908-2004), Magnum Photos, Céreste, França.





segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 46 - XXVII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXVII Domingo do Tempo Comum                       08.10.2017
Is 5, 1-7                    Fl 4, 6-9                   Mt 21, 33-43


ESCUTAR

Eu esperava deles frutos de justiça – e eis injustiça; esperava obras de bondade – e eis iniquidade (Is 5, 7).

Irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude (Fl 4, 8).

“O reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos” (Mt 21, 43).


MEDITAR

Uma pessoa má pode fazer dez mil vezes mais dano do que uma fera, por que nós podemos usar nossa razão para tramar muitos males diversos.

(São Tomás de Aquino)


ORAR

A lição mais visível dos textos desta liturgia é o abuso do comportamento de “proprietário” que muitas vezes temos em nossas igrejas. Cuidamos da vinha, a defendemos, reivindicamos direitos e privilégios, mas nos esquecemos do essencial: produzir frutos. As estruturas estão em função dos frutos e não podem substituí-los. A vinha não pode ser ornamental. Ela não nos pertence e nem os frutos são para o nosso proveito. As igrejas não podem se contentar em possuir a verdade, a salvação, as obras, as instituições. O fazer da Igreja é produzir os frutos do Reino: justiça, liberdade, misericórdia, fraternidade, perdão e paz. A vinha está arrendada para nós para que produza frutos, caso contrário, o Senhor “arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos no tempo certo”. Jesus não nos pede nada de excepcional, mas sugere, no Espírito, o possível que devemos produzir e o impossível que temos que esperar do Pai. O maior pecado é querer produzir frutos que não são os da vinha, mas feitos à nossa maneira. Jesus chama isto de farisaísmo: querer se apossar da religião para interpretá-la ao nosso bel prazer e conveniência e para que ela produza falsos frutos como o conformismo das práticas, os sentimentos de segurança e os privilégios religiosos. O desafio é transformar o nosso pequeno lote arrendado numa fraternidade que seja a expressão do Reino. O Reino de Deus não pertence às igrejas, nem às hierarquias religiosas e nem é propriedade dos canonistas e moralistas de plantão. O Reino de Deus está nas comunidades eclesiais que produzem frutos de justiça, compaixão e defesa dos mais necessitados. A tragédia que pode suceder ao cristianismo de hoje e de sempre é que sufoquemos as vozes dos profetas, que nos coloquemos como os únicos donos da vinha do Pai e que dela expulsemos o Filho e aprisionemos o seu Espírito. O evangelista é rigoroso: se as igrejas não responderem às esperanças que o Senhor nelas colocou, Ele abrirá novos caminhos de salvação em povos que produzam frutos. O teólogo mais importante do século XX, o jesuíta von Balthasar, afirmava que a Igreja, ao invés de louvar e adorar a Deus, corre atrás de três deuses estranhos: a missa como autossatisfação da comunidade; a oração como higiene da alma e o dogmatismo que lhe traz segurança. No entanto, Paulo alertava; “Eu receio que, assim como a serpente seduziu Eva com astúcia, vosso modo de pensar se vicie abandonando a sinceridade e a fidelidade a Cristo” (2 Cor 11, 3). Quem quiser entender que entenda!


CONTEMPLAR

Mercado velho pegando fogo, 2010, Port-au-Prince, Haiti, Ricardo Venturi (1966-), Agência Contrasto, Roma, Itália.





segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Caminho da Beleza 45 - XXVI Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXVI Domingo do Tempo Comum             01.10.2017
Ez 18, 25-28                       Fl 2, 1-5                   Mt 21, 28-32


ESCUTAR

“Quando um justo se desvia da justiça, ele pratica o mal e morre” (Ez 18, 26).

Cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro (Fl 2, 3-4).

“Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no reino de Deus” (Mt 21, 31).


MEDITAR

Depois que dizemos Sim a Deus, só nos resta dizer Amém!

(Paulo Botas, mts)


ORAR

A lógica do sistema nos faz pensar que o que somos devemos a nós mesmos e quando isso não acontece descarregamos as nossas culpas sobre a nossa árvore genealógica. É cômodo responsabilizar a sociedade, as estruturas e o sistema pelo que não conseguimos por falta de nosso empenho pessoal. O profeta adverte que sempre haverá uma possibilidade de arrependimento e de uma mudança de orientação de nossa existência. Os que não se arrependem de uma coisa nem de outra continuarão caminhando sem jamais se perguntar sobre a razão de sua vida. Continuamos a repetir o que passou e nos omitimos de inventar um outro presente e um novo futuro. A maior loucura é ver o mundo como ele é não como deveria ser. Há os que decidem a vida e avançam e os que deixam que a vida decida por eles e se enraízam numa falta de liberdade. O evangelho nos revela o arrependimento dos filhos. Um se arrepende do Sim e não vai e o outro se arrepende do Não e vai. Está em jogo o sentido da obediência: uns são rebeldes por amor e outros fiéis por desafeto. Há os poucos disciplinados e descarados, substancialmente desobedientes, mas animados por um amor real. Temos que temer nas nossas igrejas os do consenso superficial, das aprovações entusiastas, das declarações fervorosas que nada custam, das aclamações que só comprometem a boca. Os aplausos fecham o discurso e o interrompem, mas dificilmente abrem a um compromisso concreto e silencioso. Mil palavras, centenas de documentos, planos de pastoral e declarações solenes não fazem um Sim. A bênção do Senhor dada por um batizado vale tanto quanto a de um purpurado clerical que concede às ostentações dos políticos que alimentam, como na igreja de Filipos, as rivalidades, as discórdias, a mentalidade de clã e o cultivo das glórias pessoais. A essência da vida cristã é a de não se pertencer mais. É dizer, ao inspirar, “Seja feita” e, ao expirar, “A sua vontade”. O Cristo sabe o que é melhor para nós, basta que nos coloquemos disponíveis. A tradição rabínica nos exorta: “Os justos falam pouco e fazem muito. Os ímpios falam muito e nada fazem”. A quem pode interessar o credo que professamos se vivemos sem compaixão e ocupados com o nosso bem-estar? De que adiantam os pedidos dirigidos a Deus para que traga paz e justiça, se nada fazemos para construir uma vida digna como Ele deseja para todos? A obediência querida por Deus não é a submissão cega da nossa capacidade de decidir. A obediência querida por Deus significa a proximidade com os outros, a eliminação da vanglória, do próprio interesse e do gosto do poder. Recebemos de Deus uma missão de diaconia e de serviço. Devemos nos perguntar no mais fundo de nós: de quantos sepulcros caiados, de aparente obediência, nascem o vazio, a morte e a podridão? É preciso ter a coragem, como o Cristo, de sujar as mãos, de se arriscar na busca de novos valores mais próximos da liberdade, do amor e da felicidade humana.


CONTEMPLAR

Menino de boné na fila de identidade, 1981, Patrick Zachmann (1955-), Magnum Photos, Choisy-le-Roi, França.





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O Caminho da Beleza 44 - XXV Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXV Domingo do Tempo Comum               24.09.2017
Is 55, 6-9                 Fl 1, 20-24.27                    Mt 20, 1-16


ESCUTAR

Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos (Is 55, 8).

Pois, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro (Fl 1, 21).

“Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?” (Mt 20, 15).


MEDITAR

O sábio disse
À amendoeira:
Fala-me de Deus.
E a amendoeira floriu.

(Poema anônimo, Abadia de Sylvanès, França)


ORAR

Tudo se joga num instante. Os convites, paradoxalmente, são novos e os mesmos a cada novo momento. Se não estivermos atentos, podemos faltar ao encontro marcado e decisivo nas nossas vidas. Este é o momento favorável e pode não existir outro. Não nos é concedido pedir um tempo para considerarmos a oferta, pois Deus está no instante-que-passa (Ecl 3, 15). Os caminhos do Senhor nunca coincidem, rigorosamente, com os nossos. Existe sempre uma distância que se mede pela escala do Infinito. Descobrir Deus é se desembaraçar dos nossos pesos e medidas; da nossa miserável contabilidade e de nossos critérios de julgamento. Os que chegam por último percebem o mesmo que os primeiros. Pensar em Deus significa renunciar aos nossos pensamentos sobre Ele. A deformação da imagem de Deus é o perigo que correm as pessoas religiosas. “Peçamos a Deus, que nos livre de Deus”, já dizia Mestre Eckhart. Quando nos convertemos não encontramos, automaticamente, Deus. O encontro é sempre com um Deus Escondido e que permanece Escondido para que possamos buscá-Lo. O encontro com Deus se faz pelos olhos do coração. Deus nos desconcerta e nos escandaliza. Diante Dele, não conta nem a questão do mérito, nem da quantidade ou qualidade do trabalho; nem muito menos do prêmio de produção ou a eleição do operário padrão. O chamado para o trabalho na vinha é graça e o prêmio é um dom. A alegria de Deus é dar sem medida. Aceitamos com tranquilidade os dogmas proclamados pelas igrejas, mas a generosidade de Deus cria problemas a ponto de ser, para muitos, um obstáculo para a fé e um perigo para a moral. A generosidade de Deus não é uma debilidade do Seu coração. Fomos educados a aplaudir a severidade de Deus, mas não a sua benevolência. A parábola obriga a nos perguntar sobre nossas reações diante das atitudes surpreendentes e escandalosas de Deus. O coração de Deus é tão profundamente bondoso que privilegia os últimos, os mais desgraçados e os que a lógica dos homens despreza. A solução da crise que vivemos virá, não da riqueza, mas da bondade. Quando formos verdadeiramente sensíveis aos sofrimentos dos menores entre nós.


CONTEMPLAR


Mina de Ouro de Serra Pelada, 1986, do livro “Trabalhadores”, Sebastião Salgado (1944-), Minas Gerais, Brasil.



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Caminho da Beleza 43 - XXIV Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXIV Domingo do Tempo Comum             17.09.2017
Eclo 17, 33-28,9               Rm 14, 7-9              Mt 18, 21-35


ESCUTAR

Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura? Se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados? (Eclo 27, 3-4).

Irmãos, ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo (Rm 14, 7).

“Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18, 21).


MEDITAR

Perdoar a uma cascavel: exercício de santidade.

(João Guimarães Rosa)


ORAR

Quando colocamos a questão, “Quantas vezes devo perdoar?”, impomos um limite à misericórdia de Deus. Para evitar esta desgraça espiritual, devemos perguntar, “Quantas vezes posso perdoar?”, e assim colocaremos nossos corações na mesma sintonia do coração de Deus. Podemos perdoar infinitas vezes como são infinitos os perdões de Deus. Não devemos pensar como Pedro, que tem as chaves para atar e desatar, em termos de dever e de obrigação. O perdão não é um mandato compulsório, nem um dever, uma imposição, mas uma estupenda e surpreendente possibilidade. Não é uma obrigação, mas um gesto gratuito e fora de todas as regras. O perdão é a capacidade de mudar as regras do jogo em que a bola envenenada da ofensa e da violência, atirada em direção ao adversário, tem a força acentuada pelo ódio, pela vingança, pelo rancor e pelo ressentimento. O perdão rompe o cerco sufocante, dilata os espaços e produz o insólito: inaugura um novo modo de viver e olhar o outro. É interdito a nós introduzir números nos registros da misericórdia e fixar datas especiais no calendário do amor. Nunca existirá uma última vez, pois em assuntos do perdão existem apenas limites a serem, continuamente, superados. Para Jesus, terminou o tempo das contas e das dosificações penais. O perdão para ser produzido deve ser repartido e participado com os outros, como se fosse um pão. O perdão, como o amor, não termina nunca e não se interrompe. A glória de Deus é perdoar e nisto se resume todo o cristianismo. Não devemos ter medo de perdoar muito, pois o que damos aos outros é a justa medida do que receberemos de Deus. Não podemos ser servos sem entranhas que anulam a compaixão por não querer ouvir os chamados de perdão. No entanto, devemos gravar em nossos corações e mentes a regra de ouro do poeta: “Quem não pede perdão não é nunca perdoado”.


CONTEMPLAR


Um homem norte-coreano acena sua mão enquanto seu parente sul-coreano chora, 2010, Monte Kungang, Coréia do Norte, foto de Kim Ho-Young, Agência Reuters, Coreia do Sul.