segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O Caminho da Beleza 02 - II Domingo do Advento

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

II Domingo do Advento                       10.12.2017
Is 40, 1-5.9-11                    2 Pd 3, 8-14                                    Mc 1, 1-8


ESCUTAR

“Aplainai na solidão a estrada de nosso Deus” (Is 40, 3).

O que nós esperamos, de acordo com sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça (2 Pd 3, 13).

“Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias” (Mc 1, 7).


MEDITAR

Obrigado, irmão, pelo sol que me deste, na aparência roubando-o.

(Carlos Drummond de Andrade)


ORAR

A santa Escritura não cessa de falar e gritar, como está escrito sobre João: “Eu sou a voz que grita no deserto” (Jo 1, 23).  João não apenas gritou no tempo em que dizia aos fariseus, anunciando o Deus Salvador: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as veredas de Nosso Senhor!”. Ele grita ainda para nós e o trovão de sua voz ruge no deserto de nossos pecados. Mesmo se ele adormeceu pela morte de seu martírio, sua voz, ela, permanece sempre viva. Ainda hoje, João Batista nos diz: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas”. A santa Escritura não cessa de falar e gritar. Devemos então preparar os caminhos do Senhor, não no sentido literal, mas para a pureza de nossa fé. O Senhor não toma os caminhos terrestres, mas avança pelo segredo dos espíritos. João nos ordena a preparar o caminho do Senhor, mas vejam qual o caminho ele preparou para si mesmo. Em tudo, ele ordenou e dirigiu a trama de sua vida em função da vinda do Cristo. Ele foi, de fato, jejuador, humilde, pobre e puro, como disse o Evangelista, descrevendo seu tipo de vida: “João tinha uma manta de pelo de camelo, cingia os rins com um couro; seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre”. Penso que todo esse comportamento do profeta era ele mesmo profético. João era, portanto, grande, e o Senhor mesmo lhe louvou a grandeza: “Entre os nascidos de mulher, não há um maior que João, o Batista” (Mt 11,11). Ele teve precedência sobre todos os profetas que o precederam; ele ultrapassou todos os patriarcas... E João Batista, como uma lâmpada frágil que precede a luz do sol disse dele mesmo: “Depois de mim vem alguém maior do que eu e não sou digno de desamarrar a corda de suas sandálias, ele mesmo vos batizará com o Espírito Santo e o fogo”. Ao mesmo tempo, ele predisse que a clareza de sua lâmpada tornar-se-ia inútil e desapareceria com a vinda do Sol. O sol torna inútil a luz de uma lâmpada e a vinda da graça do Cristo torna igualmente caduco o batismo de penitência de João.

(Máximo de Turim, 380-465 dC)


CONTEMPLAR


Uma mulher protegendo a si e a seu filho do sol a bordo de um barco de refugiados no Golfo de Siam, 1977, Cambodja, Eddie Adams (1933-2004), Associated Press, de seu livro “Barco dos Não Sorrisos”, Nova Iorque, Estados Unidos.



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).


I Domingo do Advento             03.12.2017
Is 63, 16-17.19;64, 2-7               1 Cor 1, 3-9             Mc 13, 33-37


ESCUTAR

Como nos deixaste andar longe de teus caminhos e endureceste nossos corações para não termos o teu temor? (Is 63, 17).

Nele fostes enriquecidos em tudo, em toda palavra e em todo conhecimento, à medida que o testemunho sobre Cristo se confirmou entre vós (1 Cor 1, 5).

“Não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai!” (Mc 13, 37).


MEDITAR

Deus meu, foi te buscando
Que alguém te encontrou,
Eu, ao contrário, te encontrei fugindo de ti.
Foi mediante a busca que alguém te achou,
Eu descobri que eras tu quem outorga a busca.
Tu mesmo eras o caminho que permite chegar até Ti.
Tu eras o princípio e serás o final.
Tu eras tudo e isso me basta.
Tudo mais é loucura.

Senhor, leve a termo em mim Tua tarefa indizível.

(Abdolah Ansari, 1006-1089)


ORAR

     Tanto na encarnação como na última vinda, o Deus com quem somos chamados a prestar contas é um Deus “surpreendente”. Para viver o hoje da primeira vinda, o cristão é chamado à acolhida. O Deus que rasga os céus e desce não é um Deus “ocasional”, furtivo, episódico, “excepcional”. É o Deus conosco. O Deus que quer estar no meio de nós, no centro de nossa existência, não em suas margens. Sua presença é constante e não está ligada a momentos privilegiados e a lugares especiais. Este “rasgão” permanece. Temos de “suportar” cotidianamente a intromissão do céu nos assuntos da terra... Por outra parte, a acolhida nos obriga a... receber. O Deus “surpreendente” antes de tudo não vem exigir ou reivindicar, mas sim dar... Acolhê-lo não significa preparar um espetáculo colossal, uma recepção grandiosa em sua honra. Mas sim nos apresentar com nossa pobreza, que é essencialmente a disponibilidade para receber... Jesus não nos revela a hora. A espera assume uma dimensão particular: a esperança. E esta se concretiza em uma postura de responsabilidade e de compromisso. Cada um em seu posto e atento ao próprio trabalho: “a cada um sua tarefa”... Um Deus “surpreendente”, que chega “ao entardecer ou a meia-noite, ou ao canto do galo, ou ao amanhecer”, não pode ser anunciado mediante um sinal de alarme. O Deus “surpreendente” deve ser esperado no estupor, com as portas abertas de par em par, com mãos trabalhadoras, olhos livres das travas e coração finalmente curado da dureza (Alessandro Pronzato).


CONTEMPLAR

Uma Ceia de Páscoa na sala de jantar do Kibbutz Kinneret, 1979, Israel, Micha Bar-Am (1930-), Magnum Photos, Berlim, Alemanha.






segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O Caminho da Beleza 53 - Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo                 26.11.2017
Ez 34, 11-12.15-17            1 Cor 15, 20-26.28                       Mt 25, 31-46

ESCUTAR

Assim diz o Senhor Deus: “Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas” (Ez 34, 11).

Em Cristo todos reviverão (1 Cor 15, 22).

“Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” (Mt 25, 32).


MEDITAR

Em 1935, Hitler havia dito que “se a guerra viesse, ele englobaria e resolveria a questão da eutanásia, porque era mais fácil fazê-lo em tempo de guerra”. O decreto foi cumprido imediatamente no que dizia respeito aos doentes mentais e, entre dezembro de 1939 e agosto de 1941, cerca de 50 mil alemães foram mortos com monóxido de carbono em instituições cujas salas de execução eram disfarçadas exatamente como seriam depois em Auschwitz – como salas de duchas e banhos... Os homens que haviam sido empregados no programa de eutanásia na Alemanha foram então mandados para o Leste para construir as novas instalações para o extermínio de todo um povo” (Hannah Arendt).


ORAR

      Os textos deste domingo encerram o ano litúrgico e nos fazem refletir sobre o julgamento derradeiro. O profeta nos faz saber que este não será uma anistia ampla, geral e irrestrita, pois o amar do Senhor é fazer justiça e tomar partido pelos menores entre os menores. A comunidade de Mateus revela que o Filho do Homem é Jesus, o Crucificado, e seu poder é o Reino do Amor que renuncia a si mesmo para construir a fraternidade entre homens e pecadores. É este Jesus cheio de “sabedoria, glória e realeza” que recebe do Pai o poder de julgar. O Evangelho nos faz saber que o único critério para o julgamento derradeiro, e que diz respeito a todas as nações da terra, é o amor aos menores, aos considerados insignificantes. Devemos atender à oração de São João Crisóstomo: “Rende-te ao meu modesto pedido: não peço nada que te custe; somente pão, teto e algumas palavras de consolo”. Todas as nossas “celebrações” serão abominadas pelo Senhor se não forem celebrações do testemunho efetivo da comunidade para com os irmãos menores entre nós. O Ressuscitado, como um mendigo, bate à nossa porta e nos pede sempre, com a mão estendida, alguma coisa. Ele quer ser alimentado por nós, pois Ele quer ser o nosso devedor. Porque nos ama, Ele quer sempre estar sentado em nossa mesa, entre amigos, e proclamar ao mundo que a fraternidade é possível e não é um mero sonho ou quimera. O Ressuscitado quer se apresentar ao mundo como Alguém a quem alimentamos, damos de beber, acolhemos, vestimos, visitamos na prisão, nos hospícios e nos hospitais. A grande revelação do Evangelho é que seremos julgados pelo que não fizemos: “Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeste”. Ainda é tempo de amar, de praticar o amor, pois ninguém sabe nem o dia e nem a hora derradeiros. E praticar este amor é seguir à risca o roteiro traçado pelo profeta que nos garante como prêmio a Coroa da Vida: “O jejum que eu prefiro é este: acabar com a injustiça qual corrente que se arrebenta; acabar com a opressão qual canga que se solta; deixar livre os oprimidos, acabar com toda espécie de imposição e jamais te esconder do pobre do teu irmão. Aí, então, qual novo amanhecer, vai brilhar a tua luz e tuas feridas hão de sarar rapidamente. Teus atos de justiça irão à tua frente e a glória do Senhor te seguirá. E quando o invocares, o Senhor te atenderá e ao clamares, Ele responderá: Aqui Estou!” (Is 58, 6-9).


CONTEMPLAR

S. Título, 1998, França, Paris, Museu Rodin, Elliot Erwitt (1928-), Magnum Photos, franco-americano.




segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXXIII Domingo do Tempo Comum                     19. 11.2017
Pr 31, 10-13,19-30.30-31                      1 Ts 5, 1-6                Mt 25 14-30


ESCUTAR

Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre (Pr 31, 20).

Não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios (1 Ts 5, 6).

Todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância (Mt 25, 29).


MEDITAR

Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo o caminho da gente é resvaloso. Mas também cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha...O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem – que Ele é bondade adiante... (João Guimarães Rosa).


ORAR

Não há espetáculo mais deprimente do que o de um cristão que esconde o seu talento, que mascara a sua fé e dissimula a sua pertença a Cristo ao sepultar a Palavra. Mais deprimente ainda é reduzir a Palavra a um moralismo barato ou a uma celebração triunfalista. Não há deformação mais vil do que a das igrejas que se isolam para contemplarem, satisfeitas, os talentos recebidos. Guardar não é o mesmo que semear e Deus tem o direito de nos pedir coragem, liberdade e responsabilidade. Nossa relação com Deus não pode ser reduzida a uma relação servil de uma miserável contabilidade de toma lá dá cá. A parábola dos talentos não é uma estória de medos e ameaças, mas uma luta contra os medos e a afirmação da nossa liberdade de correr riscos. O medo bloqueia e nos faz mergulhar na inutilidade, pois “quem afrouxa na saída ou se entrega na chegada não perde nenhuma guerra, mas também não ganha nada” (G. Vandré). Se damos a Deus apenas o que Ele nos deu, na realidade não lhe damos nada. O talento que mantemos enterrado como cimento de nossa segurança é a expressão da esterilidade da nossa vida. Jesus exige de nós a audácia, a coragem e a disposição ao risco. Somente quem é capaz do risco receberá a amizade de Jesus e encontrará o sentido da vida. Devemos romper a nossa acomodação e vingar o livro dos Provérbios: “Dá bebida ao andarilho e vinho ao aflito para que beba e esqueça a sua miséria e não se lembre de seus sofrimentos. Abre a tua boca a favor do mudo e em defesa do desventurado. Abre a tua boca e dá a sentença justa, defendendo o pobre e o infeliz” (Pr 31, 6-9). A fé no Cristo é o risco de todos os riscos e para todos o mesmo salto no vazio, mas é também alegria, promessa, ternura, amor e vida em abundância.


CONTEMPLAR

Sertão sem Fim, 2009, Araquém Alcântara (1951-), Florianópolis, Brasil.





segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O Caminho da Beleza 51 - XXXII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXXII Domingo do Tempo Comum                       12.11.2017
Sb 6, 12-16              1 Ts 4, 13-18                       Mt 25, 1-13


ESCUTAR

A sabedoria é resplandecente e sempre viçosa. Ela é facilmente contemplada por aqueles que a amam, e é encontrada por aqueles que a procuram (Sb 6, 12).

Não fiqueis tristes como os outros, que não têm esperança (1 Ts 4, 13).

“No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ (Mt 25, 6).


MEDITAR

Quem me compreende como o Eterno, o Anônimo,
o Imanifesto, o Inconcebível, o Supremo,
não limitado de forma alguma,
o Infinito,
quem me adora desse modo e, contudo, vê a minha presença
em todos os seres
e, praticando o bem,
vive alegremente,
esse acabará por unir-se a mim.

(Krishna, em “do amor universal”, bhagavad-gita, século 1 a.C.)


ORAR

A sabedoria não se encontra somente nas universidades, igrejas e templos. Ela é oferecimento e busca: “Ela é facilmente contemplada por aqueles que a amam, e é encontrada por aqueles que a procuram”. No evangelho de hoje, a necessidade da sabedoria soma-se ao convite de estar vigilantes. Cristo não nos pede que renunciemos ao descanso, mas que rompamos com tudo que se opõe à vida e à luz. A vigilância é a capacidade de acolher o momento presente, pois a esperança não se encontra fora do tempo. O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer afirma que devemos levar a sério as realidades últimas e, ao mesmo tempo, tomar posições decididas diante das penúltimas. É necessário viver a plenitude de cada instante. A hora da chegada do Esposo não pode ser improvisada. É uma hora como as outras. A sabedoria é o sinal luminoso da espera vigilante e da capacidade de sentir o tempo que se faz breve. Deus se atrasa porque, paradoxalmente, é a sua característica de ser pontual. É urgente sem pressa. O noivo estava demorando e não sabemos o dia e nem a hora da sua chegada. Deus sempre chega pontualmente na sua hora, mas por meio de uma sucessão interminável de atrasos em relação aos nossos vorazes relógios. A vida é eterna não por causa da sua duração indefinida, mas pela sua qualidade indestrutível. Ser fiel é se entregar aos outros e esta atitude não pode ser tomada de última hora e improvisadamente. O Cristianismo não é prática de vida reservada para a hora da morte. Não é uma imprudência. Para os imprudentes fecham-se as portas e ouve-se somente o veredicto: “Não vos conheço!”.


CONTEMPLAR


Sem Título, sem data, sem autoria definida, acessado em pinterest.com, outubro 2017.



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 50 - Solenidade de Todos os Santos

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

Solenidade de Todos os Santos                    05.11.2017
Ap 7, 2-4.9-14                    1 Jo 3, 1-3                Mt 5, 1-12a


ESCUTAR

Eu, João, vi outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo (Ap 7, 2).

Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! (1 Jo 3, 1).

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).


MEDITAR

Creio que nem os Romanos e nem os Judeus compreenderam Jesus de Nazaré, nem tampouco Seus discípulos que agora pregam Seu nome.
Os Romanos O mataram. E isso foi um erro. Os Galileus fizeram d’Ele um deus, e isso foi um engano.
Jesus era do coração do homem.

(Kalil Gibran)


ORAR

Viver a festa da santidade é viver a realidade de um censo impossível: “uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar”. E como não podemos conhecer todos os nomes dos santos, devemos chamar este domingo da Festa da Santidade Anônima. Todos participam da mesma santidade de Deus e a santidade é o sinal inequívoco do vestígio de Deus em nossas vidas. Os santos não se reduzem ao dos altares oficiais, mas circulam cotidianamente entre nós. Devemos buscar em cada dia o rosto dos santos porque são um reflexo do rosto de Deus. Os santos não vivem em nichos de gesso, mas em casas comuns. Não trazem auréolas luminosas em suas cabeças, mas problemas e preocupações. Não flutuam no ar, mas tem pernas e pés doloridos como os nossos. Os santos são contaminados pela alegria, pela surpresa e compõem a sinfonia dos loucos de Deus. O milagre dos santos consiste no fato de existirem no cenário perverso desta sociedade e querer acrescentar um pouco de graça e ternura no cotidiano do mundo. A santidade não é um luxo, mas uma condição normal e obrigatória do cristão: ela é um dom e uma possibilidade oferecida a todos e não reservada a uns poucos privilegiados. Devemos sempre suspeitar que eles estão mais próximos de nós do que podemos supor. Os santos correm pelas ruas e a maior parte dos bem-aventurados são pessoas simples e que têm coração. A declaração conciliar Nostra Aetate afirma: “A Igreja Católica não rejeita o que é verdadeiro e santo em todas as religiões. Considera suas práticas, maneiras de viver, preceitos e doutrinas como reflexo da verdade que ilumina todos os seres humanos, ainda que se distanciem do que ela crê e ensina (...)A Igreja rejeita como contrária ao pensamento de Cristo toda a discriminação ou perseguição por causa das diferenças de raça, cor, condição ou religião” (NA 857.871).


CONTEMPLAR

Monge budista noviço, Kyaw Thiha, brinca durante a chuva no Monastério Shin Ohtama Tharya, em Yangon, Myanmar, 2011, Soe Zeya Tun, Agência Reuters, Yangon, Myanmar.





segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXX Domingo do Tempo Comum              29.10.2017
Ex 22, 20-26                     1 Ts 1, 5-10                 Mt 22, 34-40


ESCUTAR

Não façais mal algum à viúva nem ao órfão. Se os maltratardes, gritarão por mim e eu ouvirei o seu clamor (Ex 22, 21-22).

Irmãos, sabeis de que maneira procedemos entre vós, para o vosso bem (1 Ts 1, 5).

“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” (Mt 22, 36).


MEDITAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Carlos Drummond de Andrade, Amar).


ORAR

Jesus fez uma única operação aritmética na vida: os dez mandamentos haviam se transformado em seiscentos e treze preceitos dos quais trezentos e sessenta e cinco começavam com Não – um por dia – e os outros duzentos e quarenta e oito com um imperativo Deves. Jesus não se perde neste emaranhado selvático de prescrições, filigranas ou detalhes insignificantes, pedantes e ridículos. Provocado por um doutor da Lei, acostumado às sutilezas e sofismas, Jesus soma, divide, multiplica, diminui e chega ao resultado desejado: Dois que são Um. Amor a Deus e Amor ao próximo são a mesma coisa e formam um único bloco. Somos nós, que atomizados por tantos casuísmos clericais, multiplicamos em leis todos os nossos interesses, tormentos, remorsos e acusações implacáveis. Conseguimos colocar algo que não está no Evangelho, nem no centro e nem na periferia. A operação simplificada de Jesus nos resulta indigesta e evitamos aceitar o essencial e testemunhá-lo. Nesta selva de números, aterroriza-nos descobrir apenas dois rostos: o do irmão, tantos rostos que formam um só, e o rosto de Deus. Jesus não nos entrega estatísticas, mas rostos e presenças. Somos nós, por ignorância ou covardia, que separamos e fazemos pirotecnias acerca do primado de Deus e da atenção e cuidado ao próximo. Pensamos que somos religiosos quando oramos, quando recebemos os sacramentos e quando entramos pela porta da frente das igrejas. No entanto, para Jesus seremos religiosos quando lutarmos por uma sociedade mais justa e nos interessarmos pelos imigrantes, pelos desprezados. Quando rompermos a solidão dos anciãos e superamos os preconceitos que marginalizam e demonizam nossos irmãos e irmãs. Jesus não nos obriga a olhar um código e nem a decorar prescrições minuciosas. Ele arranca todos os códigos de nossas mãos e nos obriga a descobrir os rostos. O essencial não está escrito nas páginas de um texto porque o essencial sempre teve, tem e terá um rosto e uma única explicação possível: a do amor. Que possamos um dia testemunhar o que já foi testemunhado um dia: “Vede como se amam e como estão dispostos a morrer uns pelos outros” (Tertuliano, século III DC).


CONTEMPLAR

Crianças em balanços, 1996, Richard Kalvar (1944-), Magnum Photos, Nova Iorque, Estados Unidos.