segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O Caminho da Beleza 14 - II Domingo da Quaresma


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).




II Domingo da Quaresma                   25.02.2018
Gn 22, 1-2.9-13.15-18                 Rm 8, 31-34                       Mc 9, 2-10


ESCUTAR

“Eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar” (Gn 22, 17).

Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8, 31-34).

Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles (Mc 9, 2).


MEDITAR

A igreja não oferece ao mundo um sistema de regras morais, mas uma sociedade santificada, um fermento que faz fermentar a criação, não através da imposição de suas ordens morais, mas por meio de sua presença santificadora. É uma presença testemunhante, que não amarra fardos pesados aos homens para conquistá-los, vinculados moralmente, para a salvação, mas os chama à liberdade de filhos de Deus, numa comunhão com ele que conduz à renovação do mundo.

(Ioannis Zizioulas, 1931-, Metropolita Ortodoxo de Pérgamo)


ORAR

            “Eu vi uma grande luz!”, exclama uma jovem mãe japonesa, que morava a uma centena de quilômetros de Hiroshima, entrando correndo na casa, na manhã de 6 de agosto de 1945, e abraçando seu filho de dez anos, Kenzaburo Oé, futuro prêmio Nobel de literatura. A bomba atômica fez sua trágica aparição no horizonte da humanidade, como luz de morte e de devastação. No entanto, o cristão não pode não deixar de ligar esta data (6 de agosto) e esta experiência (“uma grande luz”) com a festa da transfiguração do Senhor, que se celebra precisamente neste dia a partir do século IV no Oriente e do XI no Ocidente... Nesses mesmos dias [de agosto], cai o 9 do mês de Av, segundo o calendário judeu um dia de jejum e de luto onde o povo de Israel faz a memória da destruição do primeiro e do segundo Templo (respectivamente em 586 e 70 antes de nossa era) e, a partir daí, de todas as outras tragédias que marcaram sua história, desde a expulsão de Espanha, em 1492, até a “catástrofe” máxima da Shoah do último século... Enquanto que os cristãos, em suas igrejas inundadas de luz, celebram a glória de Deus que resplandece sobre a face do Cristo, os judeus, em suas sinagogas mergulhadas na penumbra de um único e modesto candeeiro, leem o livro das Lamentações. E sobre todos pesa a sombra lúgubre e inquietante de um clarão de morte, a nuvem luminosa de uma luz exterminadora. Paradoxo perturbador: a luz da vida da Transfiguração, que provém de Deus e anuncia o futuro do mundo em Cristo, contrasta com a luz da morte produzida pelo homem, que ameaça o presente do mundo, comprometendo seu futuro. A Transfiguração lembra a beleza para a qual a humanidade e o universo inteiro estão destinados; Hiroshima e a Shoah testemunham o embrutecimento de que o homem é capaz. A Transfiguração evoca, concentrando-se sobre o Cristo, a glória à qual estão destinados o corpo humano e mesmo o cosmos; Hiroshima e a Shoah revelam a capacidade do homem de desfigurar a carne humana, de deteriorar o corpo e o espírito, de devastar o cosmos. Para um cristão, celebrar a Transfiguração representa assim um apelo à responsabilidade e uma exortação à compaixão, à dilatação do coração em consideração ao homem que sofre. Não é um acaso se, para os evangelhos, o Cristo que conhece a transfiguração é aquele que vem anunciar pela primeira vez o destino da paixão e morte que o espera, a desfiguração que sofrerá por parte dos homens (ver Mt 16, 21-23): face ao mal, Jesus escolheu ser vítima de preferência a ser ministro. A Transfiguração torna-se desse modo o “sim” de Deus ao Filho que aceita a via da solidariedade radical com os oprimidos e as vítimas da história... Se o 9 de Av evoca os sofrimentos dos judeus e se Hiroshima lembra as penas de todos os homens, o Cristo é aquele que reúne em seu corpo de homem e em sua carne de judeu as dores da humanidade inteira. A Transfiguração torna-se esperança universal, para todos aqueles que sofrem e mesmo para a criação inteira que geme pela espera da redenção.

(Enzo Bianchi, 1943-, comunidade de Bose, Itália)


CONTEMPLAR

Lanternas flutuantes no rio Motoyasugawa, Hiroshima, Japão, 6 de agosto de 2017, as lanternas marcam o aniversário do bombardeio de Hiroshima. Cada uma representa uma vida perdida, publicada no jornal Asahi Shimbun, Getty Images, Japão.




segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Caminho da Beleza 13 - I Domingo da Quaresma


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).




I Domingo da Quaresma                     18.02.2018
Gn 9, 8-15               1 Pd 3, 18-22                      Mc 1, 12-15


ESCUTAR

“Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos” (Gn 9, 9).

[Cristo] sofreu a morte na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito (1 Pd 3, 18).

O Espírito levou Jesus para o deserto (Mc 1, 12).


MEDITAR

O Pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas trasmalharam-se pela encosta...
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu...
Ninguém o tinha amado, afinal.

Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes.
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.

(Fernando Pessoa, 1888-1935)


ORAR

            Convém lembrar como o primeiro Adão foi expulso do paraíso para o deserto, para que tua atenção seja atraída à maneira pela qual o segundo Adão voltou do deserto ao paraíso. Veja, com efeito, como as primeiras sentenças, que haviam sido estabelecidas, são negadas e como as boas ações divinas são restabelecidas, retomando seus próprios traços. Adão vem de uma terra virgem, o Cristo da Virgem; aquele foi feito à imagem de Deus, Este é a Imagem de Deus; aquele foi colocado acima de todos os animais irracionais, Este acima de todos os seres animados; por uma mulher veio o desatino, por uma virgem a sabedoria; a morte por uma árvore, a vida pela Cruz. Um, desnudado do espiritual, é coberto pelo desfolhar de uma árvore; o outro, despojado dos hábitos desse século, não tem mais desejo de uma vestimenta corporal. Adão é expulso para o deserto, o Cristo vem para o deserto. É porque Ele sabia onde encontrar o condenado que reconduziria ao paraíso livre de sua falta; mas como ele não podia retornar para lá coberto pelos hábitos deste mundo, uma vez que não se pode ser habitante do céu sem estar despojado de toda falta, o homem velho retira-se, revestido do novo. Como aquele que, desorientado, havia perdido no paraíso a rota que seguia, pode, sem guia, encontrar no deserto a rota perdida? Sigamos, portanto, o Cristo, conforme o que é escrito: “tu marcharás em seguida ao Senhor teu Deus, a ele estarás ligado”. A quem me ligar senão ao Cristo, como diz Paulo: “aquele que se liga ao Senhor é só um espírito com Ele”. Sigamos, então, seus rastros e nós poderemos retornar do deserto ao paraíso... É, portanto, de propósito, que Jesus, cheio do Espírito Santo, é conduzido ao deserto para provocar o diabo. Pois se não tivesse combatido, o Senhor não teria triunfado por mim. Ele o fez no mistério para livrar este Adão do exílio; ele o faz como exemplo para nos mostrar que o diabo odeia aqueles que se esforçam em fazer o melhor e que, nesse caso, acima de tudo, é necessário cuidar que a fraqueza da alma não traia a graça do mistério.

(Ambrósio de Milão, aprox. 334-397)


CONTEMPLAR

Muro da Separação em El Paso, 2011, Texas, Estados Unidos, Paolo Pellegrin (1964-), Magnum Photos, Roma, Itália.




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Caminho da Beleza 12 - VI Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).


VI Domingo do Tempo Comum                   11.02.2018
2 Rs 5, 9-14             1 Cor 10, 31-11,1               Mc 1, 40-45


ESCUTAR

“Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo” (2 Rs 5, 10).

Irmãos, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus (1 Cor 10, 31).

Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos (Mc 1, 45).


MEDITAR

“As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam”.

(Madre Teresa de Calcutá, 1910-1997)


ORAR

            O texto de hoje nos apresenta o encontro de Jesus com um doente de lepra. É preciso lembrar que no Israel antigo o leproso representava a pessoa proscrita por excelência: ferido por uma doença não somente considerada como repugnante, mas também devido a uma punição divina pelos pecados que havia cometido, o leproso vivia a condição a mais desesperante e a mais vergonhosa em Israel. Aos sofrimentos físicos se somavam os sofrimentos ligados à separação da família e da sociedade, e também o julgamento religioso que fazia dele um pecador e, portanto, alguém punido por Deus (cf. Nm 12, 14; Lv 13, 45-46). Não devemos, todavia, nos escandalizar diante desta injustiça, porque ainda a cometemos hoje em dia, quando somos tentados a julgar a doença do outro como a consequência de um comportamento imoral; ou quando, face a nossa doença, nos colocamos a questão: “Que pecado cometi? Por que é que sou punido por Deus?... Jesus aceita encontrar uma pessoa que todo mundo evitava, que era constrangida a viver em lugares desertos e a revelar a sua própria condição a qualquer um que se aproximasse dele. E, então... o leproso disse a Jesus: “Se queres, tu podes me purificar”, palavras que testemunham um imenso e profundo ato de fé: “Eu conto contigo, sei que tu me amas e consequentemente sei que é possível me curar”. A purificação que nós, homens, podemos conhecer está ligada à nossa confiança em Jesus que, por sua santidade, pode nos comunicar a pureza e uma saúde perfeita; mais geralmente, em nossa vida cotidiana, a cura começa quando sabemos poder contar com alguém que deseja nosso bem, que se coloca ao nosso lado, disposto a suportar nosso mal, quer se trate de doença ou de pecado... Assim, a compaixão radical vivida por Jesus demanda a cada um de nós a se interrogar sobre sua própria capacidade de se colocar ao lado daquele que se sente impuro ou doente. Como esquecer que justamente no dia em que decidiu beijar um leproso, Francisco de Assis comprometeu de um só golpe todo o cristianismo e iniciou seu caminho de discípulo até se tornar “o mais semelhante possível a Jesus”? Jesus é a santidade que queima todo nosso pecado, ele é a vida que cura a nossa enfermidade, mas ele paga caro esse serviço feito aos homens. Ele não pode mais entrar abertamente nas cidades, ele é constrangido a permanecer nos lugares desertos, isto é, a viver a situação que antes era vivida pelo leproso: Jesus cuida e cura os outros à custa de assumir o seu mal sobre ele... Sim, Jesus, o Servo, o Messias, o Salvador, fez-se por nós um leproso para curar a lepra do nosso corpo e do nosso espírito! Dessa maneira, sobre a cruz ele será ferido como um leproso: mas nós podemos fixar sobre ele nosso olhar na esperança da cura, certos da compaixão daquele do qual se diz: “Ele, que suportou nossos sofrimentos e carregou nossas dores” (Is 53, 4a).

(Enzo Bianchi, 1943-, fundador da comunidade monástica de Bose, Itália)


CONTEMPLAR


S. Título, 2013, Mário Macilau (1984-), da série “O Preço do Cimento”, Maputo, Moçambique.



segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O Caminho da Beleza 11 - V Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).


V Domingo do Tempo Comum                     04.02.2018
Jó 7, 1-4.6-7                       1 Cor 9, 16-19.22-23                   Mc 1, 29-39


ESCUTAR

“Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra” (Jó 7, 1).

Em que consiste então o meu salário? Em pregar o evangelho, oferecendo-o de graça, sem usar os direitos que o evangelho me dá (1 Cor 9, 18).

Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto (Mc 1, 38).


MEDITAR

Nesse processo de conhecer o que denominamos divino, o Deus que é amor aos poucos se transforma no amor que é Deus...Caminhamos para dentro desse Deus e nos deixamos absorver por esse amor expansivo, abundante e gratuito. Quanto mais nos adentramos nesse amor e partilhamos dele, mais nossa vida se abre para novas possibilidades, para a sacralidade transpessoal e para a transcendência ilimitada.

(John Shelby Spong, 1931-, Igreja Episcopal, Estados Unidos)


ORAR

            Por “vida ativa”, entendo a atividade com vista à conversão e a salvação do próximo; por “vida contemplativa”, a relação escondida com Deus pela oração. Há momentos em que as duas podem coexistir bem. Eu digo “há momentos”, porque a mania imatura de querer instruir e converter impregna o cristianismo da mesma forma que a doença impregna o corpo! E creio que é preciso percorrer um bom caminho com Jesus, antes de poder ser admitido ao círculo restrito de seus apóstolos (cf. At 1, 21-22). O próprio Filho de Deus – e isso é um mistério – não permaneceu escondido durante trinta anos antes de começar sua vida pública e ativa? E se qualquer um é verdadeiramente chamado e enviado pelo Salvador para o serviço e o despertar do próximo, a vida ativa deve sempre, como antes, manter-se submissa à vida contemplativa, e esta última deve ser sua mais importante preocupação. Quero dizer que esses discípulos não deveriam ficar todo o tempo a agir, a sair e a falar, mas que é também necessário a tais apóstolos aproximarem-se mais vezes de Jesus para se entreter com ele e para repousar um pouco num lugar deserto (cf. Mc 6, 30-31). Isso permite ao serviço da Palavra de manter-se sempre ligado à perseverança da oração (cf. At 6, 4), subordinando-se a ela. De uma maneira geral, aliás, eles não deveriam jamais se doar sem reservas à relação e ao trabalho com seus próximos, sob o risco de negligenciar o “vigia a tua pessoa” (1 Tm 4, 16) ou melhor, sob o risco de colocar essa vigilância após o ensinamento, porque poderia acontecer que depois de ter pregado aos outros, eles fossem desqualificados (1 Cor 9, 27).

(Gerhard Tersteegen, 1697-1769, Tratados Espirituais, Igreja Luterana, Ruhr, Alemanha)


CONTEMPLAR


S. Título, 1984, México, Estado de Guerrero, Cidade de San Agustin de Oapan, Abbas Alttar (1944-), Magnum Photos, Irã.



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O Caminho da Beleza 10 - IV Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).


IV Domingo do Tempo Comum                   28.01.2018
Dt 18, 15-20                       1 Cor 7, 32-35                    Mc 1, 21-28


ESCUTAR

“O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar” (Dt 18, 15).

Irmãos, eu gostaria que estivésseis livres de preocupações (1 Cor 7, 32).

“Que queres de nós, Jesus nazareno? Vieste para nos destruir? (Mc 1, 24).


MEDITAR

O falso profeta esconde seu objetivo obscuro sob o manto da piedade, aproveitando-se da credulidade dos cristãos. Confia que não será desmascarado nessa veste inocente. Sabe também que os cristãos estão proibidos de julgar, e lhes refrescará a memória oportunamente a respeito disso! Talvez ele mesmo não tenha consciência de tudo isso; talvez Satanás, sua força motriz, lhe roube o conhecimento de si mesmo.

 (Dietrich Bonhoeffer, 1906-1945).


ORAR

            Cada um de nós, conforme a educação religiosa que recebeu, faz uma ideia para si de Jesus. Permanecemos, às vezes, com o “pequeno Jesus da manjedoura”, ou com o “bom Jesus, doce como um cordeiro, deixado pregado na cruz por nossos pecados”. O evangelho de hoje é particularmente interessante uma vez que ele nos traz as impressões totalmente diversas que Jesus causava em seus contemporâneos, no início de sua vida pública. “Jesus ensinava”. O que ele ensinava? Marcos não nos diz aqui, mas ele o diz no princípio de seu evangelho: ele proclamava a boa nova do Reino de Deus que se oferece a todos os homens: “Arrependei-vos e crede na boa nova de Deus que vem a vós!”... Jesus ensinava, mas não ensinava “como os escribas” (os catequistas daquele tempo) que só faziam repetir o que haviam aprendido. Jesus ao contrário ensinava com autoridade; via-se nele um profeta que falava da parte de Deus, um mestre que ensinava com destreza e liberdade, mesmo que não tivesse seguido nenhum dos estudos religiosos habituais; isso espantava: “De onde que lhe vem tudo isso?”... Jesus aparecia como um homem livre e como um homem de Deus. E nós, temos interesse em descobrir a verdadeira personalidade de Jesus, igual à que se depreende dos evangelhos? Enfim, Jesus manifestava sua autoridade arrancando os maus espíritos e curando os doentes, mesmo no dia do shabbat, dia consagrado a Deus, durante o qual não se devia se entregar a nenhum trabalho qualquer que fosse. Com o risco de ser muito malvisto pelas autoridades religiosas, Jesus tomou a liberdade de infringir essa norma sagrada quando se tratava de aliviar e curar as pessoas que sofrem. É uma maneira de nos dizer: os mandamentos religiosos são bons, mas não é preciso tomá-los como absolutos, é preciso colocá-los em prática inteligentemente, com toda retidão de consciência; e se acontece deles se acharem em oposição ao amor que devemos aos outros, um serviço urgente a fazer, o salvamento de um infeliz, então não hesiteis em colocar o amor adiante da observância do mandamento. Os bons cristãos praticantes têm às vezes a tendência de se conduzir com relação à sua Igreja como pequenas crianças bem espertas e obedientes, enquanto que o Cristo nos chama a nos tornar cristãos adultos, pensantes, que clareiam sua consciência à luz das diretivas da Igreja e que, em seguida, tomam suas decisões como homens livres e responsáveis. “É capital, escreveu recentemente um bispo, encorajar cada cristão a viver segundo sua consciência e não primeiramente segundo os julgamentos formulados por uma autoridade eclesiástica. Cada um será julgado a partir de suas escolhas de consciência” (Mons. Thomas).

(Bernard Prévost, 1913-, França)


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Um homem sem-teto adormecido no metrô de Paris, 1991, Stanley Greene (1949-2017), NOOR Imagens, Estados Unidos.



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O Caminho da Beleza 09 - III Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).


III Domingo do Tempo Comum                   21.01.2018
Jn 3, 1-5.10             1 Cor 7, 29-31                    Mc 1, 14-20


ESCUTAR

“Levanta-te e põe-te a caminho da grande cidade de Nínive, e anuncia-lhe a mensagem que eu te vou confiar” (Jn 3, 2).

Eu digo, irmãos, o tempo está abreviado (1 Cor 7, 29).

E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus (Mc 1, 18).


MEDITAR

Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reinado de Deus.

(Evangelho de Lucas 9, 62)


ORAR

            Se o texto não o diz, nós tomaríamos por inverossímil isto que talvez seja um dos maiores milagres de Jesus: um simples apelo de sua parte e os homens largam tudo o que faziam, até a sua vida, para tudo recomeçar. Jesus oferecia ao mesmo tempo um sentimento de liberdade, de independência e de grande largueza. O sinal da verdadeira vocação era o da descoberta repentina de que nada mais pode nos fechar nas muralhas deste mundo... Um homem não vive daquilo que faz para viver. Sua realidade emana da verdade que está nele e à qual ele é chamado. É bem esse o sentido primeiro e essencial do chamado de Simão e André. Há objetivos e realidades humanas pelas quais vale a pena largar tudo. Existem vocações e atitudes mais profundas do que as disposições por uma profissão, por um emprego. Uma coisa é fazer ou produzir algo do qual se possa viver, outra é saber aquilo que faz de nós seres humanos e pelo qual vale a pena viver. A única coisa religiosamente importante é a maneira pela qual se descobre a sua própria definição, aquela do seu ser profundo... Em nossa existência, o importante não é aquilo que nos formou desde a infância, mas é ousar pensar por si mesmo e saber se voltar aos outros, abrindo-se às exigências do presente. Nesse domínio, os Apóstolos descobrirão um mundo de coisas, indo de encontro à sua tradição. Ao seu lado, Jesus os fará renegar certos mandamentos e, por isso, saberão se desfazer de certos sentimentos de culpa que lhes serão incutidos. Eles deverão descobrir o vazio e o absurdo de certas normas sagradas e reprimir o medo que eles não poderão agora deixar de experimentar. Mas, cada vez que, apoiados sobre Jesus, tiverem a coragem de descobrirem-se a si mesmos, eles ganharão em humanidade e confiança. É isso que deve ser o significado do apelo a deixar “seu pai Zebedeu com os empregados” na barca: o passado não tem mais o poder de bloquear o futuro; os homens têm a chance de poder riscar de vez aquilo que lhes haviam ensinado até então; eles podem enfim se dirigir para um futuro livre e aberto. É suficiente notar a fraqueza da rede invisível na qual nos enredamos cotidianamente e ouvir o chamado à liberdade para compreender, imediatamente, a força que pode nos dar a escolha pelo Cristo. Dispomos a todo momento da faculdade inaudita de seguir adiante, sem mais preliminares, sem adestramento, sem angústia e sem obrigação, sem nos cercar de proteções, abertos, sensíveis e livres, uns em direção aos outros. Assim vivia o Cristo, quando ele dizia que Deus e seu reino estavam próximos. Falando da chegada próxima do “Filho do homem”, ele nos convida a viver desta mesma maneira.

(Eugen Drewermann, 1940-, teólogo e psicanalista alemão)


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Uma mulher refugiada Rohingya, exausta, toca a costa depois de atravessar a fronteira Bangladesh-Myanmar de barco através do Golfo de Bengala, em Shah Porir Dwip (Bangladesh), 11 de setembro de 2017, Danish Siddiqui (1983-), Agência Reuters, Mumbai, Índia.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O Caminho da Beleza 08 - II Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).


II Domingo do Tempo Comum                     14.01.2018
1 Sm 3, 3-10.19                 1 Cor 6, 13-15.17-20                    Jo 1, 35-42


ESCUTAR

“Senhor, fala, que teu servo escuta!” (1 Sm 3, 9).

Porventura ignorais que vossos corpos são membros de Cristo? Quem adere ao Senhor torna-se com ele um só espírito (1 Cor 6, 15.17).

João estava de novo com dois de seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” (Jo 1, 35-36).


MEDITAR

Deus jamais se comunica plenamente nem suavemente a não ser a um coração despojado de tudo.

(São João da Cruz, século XVI)


ORAR

            A beleza do tempo comum está no fato de que nos convida a viver a nossa vida ordinária como um itinerário de santidade, isto é, de fé e de amizade com Jesus, continuamente descoberto e redescoberto como Mestre e Senhor, Caminho, Verdade e Vida do homem. É o que, na liturgia de hoje, nos sugere o Evangelho de João, apresentando-nos o primeiro encontro entre Jesus e alguns dos que se tornarão seus apóstolos. Eles eram discípulos de João Batista, e foi precisamente ele quem os orientou para Jesus, quando, depois do Batismo no Jordão o indicou como “Cordeiro de Deus” (Jo 1, 36). Então dois dos seus discípulos seguiram o Messias, o qual lhes perguntou: “Que procurais?”. Os dois perguntaram-lhe: “Mestre, onde moras?”. E Jesus respondeu: “Vinde e vereis”, isto é, convidou-os a segui-lo e a estar um pouco com Ele. Nas poucas horas transcorridas com Jesus, eles ficaram tão admirados, que imediatamente, André, falou com o irmão Simão dizendo-lhe: “Encontramos o Messias”. Eis duas palavras singularmente significativas; “procurar”, “encontrar”. Podemos tirar da página evangélica de hoje estes dois verbos e obter uma indicação fundamental para o ano novo, que desejamos seja um tempo para renovar o nosso caminho espiritual com Jesus, na alegria de o procurar e de o encontrar incessantemente. De fato, a alegria mais verdadeira está na relação com Ele encontrado, seguido, conhecido, amado, graças a uma contínua tensão da mente e do coração. Ser discípulo de Cristo: isto é suficiente para o cristão. A amizade com o Mestre garante à alma paz profunda e serenidade também nos momentos obscuros e nas provas mais difíceis. Quando a fé se confronta com noites escuras, nas quais já não se “sente” nem se “vê” a Presença de Deus, a amizade com Jesus garante que na realidade nada nos pode separar do seu Amor (cf. Rm 8, 39). Procurar e encontrar Cristo, fonte inexaurível de verdade e de vida: a Palavra de Deus convida-nos a retomar, neste início de ano novo, o caminho da fé que nunca se conclui. “Mestre, onde moras?”, dizemos também nós a Jesus e ele responde-nos: “Vinde e vereis”.

(Bento XVI)


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S. Título, 2014, Juazeiro, Bahia, Guy Veloso (1969-), da série “Penitentes...”, Belém do Pará, Brasil.