sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O Caminho da Beleza 10 - IV Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

IV Domingo do Tempo Comum       

Jr 1, 4-5.17-19                    1 Cor 12, 31-13, 13                        Lc 4, 21-30

 

ESCUTAR

“Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te”, diz o Senhor (Jr 1, 19).

O amor não acabará nunca. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá (1 Cor 13, 8).

“Não é este o filho de José?” (Lc 4, 22).

 

MEDITAR

Papa Francisco ao guarda suíço que permaneceu toda a noite de pé do lado de fora, cuidando de seu quarto:

- Papa: Ficou acordado toda a noite de pé? Não ficou cansado?

- Guarda: É meu dever sua Santidade, para sua segurança...

O Papa retornou a seu quarto. Depois de alguns minutos, trouxe para o guarda uma cadeira em suas mãos...

- Papa: Sente-se e descanse.

- Guarda: Desculpe sua Santidade, mas não posso, as regras não permitem.

- Papa: As regras?

- Guarda: É uma ordem de meu Capitão, sua Santidade.

- Papa: Bem, mas eu sou o Papa e te peço que te sentes.

Um pouco mais tarde o Papa retornou, com café, um pouco de pão e presunto e os entregou ao guarda...

- Papa: Bom apetite meu irmão...

(Papa Francisco, abril de 2013).

 

ORAR

       Os textos de hoje nos levam a refletir sobre o amor sem fronteiras do Senhor. Cafarnaum, símbolo dos pagãos, passa adiante de Nazaré, cidade da infância de Jesus. O profeta Elias estava no meio do povo judeu, mas, no momento de realizar um prodígio, abandonou as muitas viúvas de Israel e foi ao encontro da pobre viúva pagã de Sarepta, no país de Sidon. E Eliseu não curou nenhum leproso em Israel, mas curou Naamã, o sírio. Para Jesus não é relevante que um profeta não seja bem recebido em sua pátria. A pátria, lugar onde se está enraizado pelo sangue, e o Reino de Deus não são compatíveis. O Reino de Deus ignora a pátria porque, sendo a negação de todos os limites, implica numa total abertura a todos os povos. Somos chamados a fazer avançar este Reino que será vingado por um amor sem fronteiras. O papa Francisco nos alerta: “Os problemas, as preocupações de todos os dias nos impulsionam a nos curvarmos sobre nós mesmos, na tristeza e na amargura...e isto é a morte, pois não procuramos mais Aquele que está Vivo”. O amar cristão não conhece regras, barreiras ou imposições, mas, como uma luz, irradia a solidariedade e a compaixão. Nós estamos longe do amor cristão quando, por vaidade e falsa segurança, nos tornamos sombras esmaecidas de nós mesmos. Um cristianismo adulto é a generosa doação de si próprio, feita de gestos de amor sem medidas que comprometem todo nosso ser. Paulo nos mostra que o amor é a virtude maior do que todos os dons. E virtude significa a força vital que nos foi entregue por Deus e que para Deus voltará. O dom da serve para alimentar a confiança; o da esperança para nos fazer perseverar num destino comum. Todos os dons são transitórios porque respondem pelo tempo presente; e imperfeitos, porque, como humanos, ainda vemos o que nos cerca de maneira confusa como num espelho. A virtude do amor – cáritas e ágape – é eterna porque nos conduz à profunda comunhão com o êxtase de Deus. Nela, O veremos face a face, conheceremos como somos conhecidos e estaremos no centro de gravitação da Vida: “Pondus meum amor meus: o amor é o meu peso! (Santo Agostinho). Deus é um amor sem fronteiras que arde também como fogo e quer amar sempre mais: “Quando eu resplandeço, tu deves arder; quando fluo, tu deves fluir; quando tu amas, nós dois nos tornarmos um e quando somos um, nada mais poderá nos separar” (Mechthild von Magdeburg, séc. XIII).

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

“Sem título”, mês de fevereiro, 2001, Richard Kalvar (1944-), Calendário Lavazza, 2001, “Friends & More”, fotos de Richard Kalvar e Martine Franck nos cafés de Paris, França. O fotógrafo nasceu em Nova York, Estados Unidos.

 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

O Caminho da Beleza 09 - III Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

III Domingo do Tempo Comum                  

Ne 8, 2-6.8-10                   1 Cor 12, 12-30                  Lc 1, 1-4;4, 14-21

 

ESCUTAR

“Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus. Não fiqueis tristes nem choreis...porque a alegria do Senhor será a vossa força” (Ne 8, 8.10).

Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito (1 Cor 12, 13).

Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele (Lc 4, 20).

 

MEDITAR

Minha vida é só um instante, uma hora passageira. Minha vida é somente um dia que me escapa e foge. Tu sabes, ó meu Deus! Para te amar sobre a terra não tenho nada a não ser hoje! (Santa Teresa do Menino Jesus).

Não tenham medo da ternura (Francisco, Homilia, 19 de março de 2013).

 

ORAR

       Os textos desta liturgia nos falam do dia consagrado, um hoje permanente em que devemos celebrar o proclamado: “a alegria do Senhor será a vossa força”. O Senhor nos pede uma coerência irredutível entre palavra e ação. O evangelista apresenta Jesus no centro da sinagoga recebendo o livro do profeta Isaías. Jesus não o abriu a esmo, como se tirasse a sorte para que Deus lhe falasse magicamente. Ao contrário, abriu o livro e “achou a passagem” que o colocava na estatura de profeta e de sacerdote: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”. O hoje de Deus é proclamado, pleno de graça e julgamento, para os homens do seu tempo e o Ressuscitado, continua proclamando-o, como amor salvador, em todas as épocas e situações. Jesus coloca em seu lugar, como centro de irradiação, os mais necessitados de compaixão e misericórdia que são, segundo o Evangelho, o próprio Deus conosco: “Senhor, quando foi que o vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, nu, doente ou na cadeia?” (Mc 25, 37). Jesus, na sinagoga, era um rosto comum como tantos outros e hoje ele ainda é comum porque é o rosto conhecido de tantos pobres, cativos, cegos e oprimidos. Por mais avanço nos meios de difusão e comunicação ao nosso alcance, não conseguimos superar a cisão entre e vida porque nos recusamos a ver o Deus que se revela com um rosto humano. Mesmo com os “olhos fixos nele”, não o enxergamos porque tentamos vê-lo com as lentes do proselitismo e não com os olhos humanos da compaixão. Apesar de todos os slogans utilizados nas nossas propagandas religiosas, Deus continua a viver no exílio em sua própria casa. O Papa Francisco nos exorta: “Sou eu o guardião do meu irmão? Sim, tu és o guardião do teu irmão! Ser uma pessoa humana significa sermos guardiões uns dos outros! E, ao contrário, quando se rompe a harmonia, segue uma metamorfose: o irmão a guardar e a amar se torna o adversário a combater e a suprimir. Em cada violência e em cada guerra, fazemos renascer Caim”.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Pentecostes, 1989, Andrew Wyeth (1917-2009), têmpera, 20,75” x 30,625”, Coleção Particular, Estados-Unidos.

 


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O Caminho da Beleza 08 - II Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

II Domingo do Tempo Comum                    

Is 62, 1-5                 1 Cor 12, 4-11                     Jo 2, 1-12

 

ESCUTAR

“Assim como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposam; e como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria de teu Deus” (Is 62, 5).

“Há diversidades de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 4-7).

“Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não tem mais vinho!’” (Jo 2, 3).

 

MEDITAR

Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas, aos poucos, é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias (Francisco, Evangelii Gaudium, 6).

“Aquele que vê sofrer o seu irmão na necessidade e lhe fecha seu coração exclui Deus do seu próprio coração. O amor de Deus e o do próximo são como duas portas que só podem ser abertas e fechadas ao mesmo tempo” (Soren Kierkegaard).

 

ORAR

       A inauguração da vida pública de Jesus é colocada, pelo evangelista, num contexto de festa de bodas. Aos nossos olhos, não parece ser o melhor lugar para os seus discípulos iniciarem o seu noviciado. Tudo começa numa festa para que nossa alegria não se empobreça. É um grande equívoco unir a Sua presença aos momentos de dor e de dificuldades em nossa existência. Jesus revela que nossas festas são tímidas e frágeis; que a algazarra esconde um vazio e uma angústia; que o vinho é insuficiente e de baixa qualidade. Com Jesus, a festa encontra a sua plenitude e não está limitada ao tempo. Com Ele, o vinho é novamente colocado sobre a mesa e nunca mais faltará. Todos se beneficiarão dos seus dons, inclusive os que não esperam nada Dele. Maria intervém não porque falta o pão, mas falta o vinho que é o símbolo da alegria. As seis talhas de pedra significam o número inacabado da imperfeição em oposição ao número sete que expressa a totalidade e a plenitude. As talhas estão vazias e o ritual complexo das purificações esconde sua ineficácia, pois a relação entre Deus e o homem só pode se restabelecer por meio do amor. Na festa, todos os rituais de purificação foram cumpridos conforme a Lei e, no entanto, só produziram ansiedade, medo e tristeza. Faltara o vinho do amor e Jesus vai oferecer a todos, em abundância, a degustação do seu vinho de ternura e alegria, pois “No amor não há lugar para o temor; ao contrário, o amor desaloja o temor. Pois o temor se refere ao castigo, e quem teme não alcançou um amor perfeito” (1 Jo 4, 18). O cardeal Ravasi é enfático: “O amor que existe sobre a face da terra e que reaparece cada vez que duas criaturas se encontram e se amam é o sinal do amor que Deus tem pela humanidade inteira”. Em Caná da Galileia, Jesus começou os seus sinais para manifestar a sua glória e João não nos fala de “milagres”, mas de sinais. Na festa das bodas, o sinal é dado pela preocupação de Alguém para que a festa seja completa. O Senhor sempre faz sinais, esboça sussurros de ternura e alegria para nos fazer, com o pudor do amor, suspeitar que Ele nos ama e quer intervir na trama ordinária da nossa vida para nos convidar para a festa. O mundo contemporâneo permanece indiferente à mensagem do Evangelho apesar de as pessoas necessitarem de sinais que toquem as suas existências e corações. Sinais de compaixão, sinais de acolhida sem discriminação de pessoas, sinais que possam fazer descobrir nos cristãos a capacidade de se encontrar com Jesus que alivia os sofrimentos e nos sustenta a esperança nas dificuldades cotidianas da vida. Não podemos evangelizar a torto e a direito, como uma catequese de talhas de pedra, numa verborragia que só faz crescer o temor e a ansiedade e que é estéril e inexistente de sinais de vida, de alegria e comunhão compassiva. Escutemos Simone Weil: “Acima da infinidade do espaço e do tempo, o amor infinitamente mais infinito de Deus vem apoderar-se de nós. Ele vem na sua hora. Nós temos o poder de consentir na acolhida ou na recusa. Se ficamos surdos, ele vem e volta novamente como um mendigo, mas também como um mendigo um dia ele não retorna mais”.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Ritmo e Batida na Rua, 2014, Celso II Creer, Monochrome Photography Awards, Emirados Árabes.




 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O Caminho da Beleza 07 - Batismo do Senhor

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

Batismo do Senhor                   

Is 42, 1-4.6-7                      At 10, 34-38                       Lc 3, 15-16.21-22

 

ESCUTAR

“Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minha alma” (Is 42, 1).

“Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34).

Enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba (Lc 3, 21-22).

 

MEDITAR

Justiça e paz em casa, entre nós. Isto começa em casa e depois se expande por toda a humanidade. Mas nós devemos começar conosco. O Espírito Santo age nos corações, dissipa os fechamentos e as durezas e faz com que nos enterneçamos diante da fragilidade do menino Jesus (Francisco, Angelus, janeiro 2014).

Um homem que caminha, um pássaro que voa, uma folha que tomba: tudo anuncia o começo de uma dança. No coração do átomo e no balé dos astros, o ritmo e a harmonia são semeados por nosso Criador e Pai. Escutar a música, olhar a dança são verdadeiras orações (D. Hélder Câmara).

 

ORAR

       Jesus não se enquadra nos esquemas e nos escaninhos que os homens predispuseram para Ele. Jesus desmente a própria imagem apresentada pelo Batista: um Messias cheio de ira e que colocaria ordem “na casa”. O estilo de Jesus não condiz com os gostos e as previsões dos que O esperavam. O seu modo diferente de ser é o de Servo (Is 42, 1ss): que não faz publicidade, não enche as praças com uma voz potente e sonora cheia de retóricas e ameaças. Ele é solidário com os perdedores, com os fracos; com os capazes de dar confiança e sustentar a esperança. Ele se coloca ao lado dos pobres e daqueles que não contam para a sociedade da opulência e do consumo. O batismo prefigura a morte e a ressurreição de Jesus. A imersão no rio simboliza a ação de morrer e o seu emergir à vida nova é selado pelo abrir do céu e a voz do seu Pai que exclama o seu bem querer. O céu aberto para sempre traz o novo dia e nos faz saber que o muro entre Deus e os homens foi destruído: Deus não é mais o Inacessível. Jesus tem preferência por todos e “andava por toda a parte fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio, porque Deus estava com ele”. Jesus manifesta o seu poder ao se ocupar dos fracos revelando-se como manso e humilde de coração. O nosso batismo deve ultrapassar os registros dos arquivos paroquiais numa prática cristã que honre os compromissos que outros assumiram por nós. Não basta delegar à certidão paroquial a prova de que somos batizados. É necessário que o batismo seja assumido por nós para que não se sepulte como um ato convencional e social. Caso contrário, seremos demissionários do nome de cristãos que nos deram. Antes, quando crianças, não podíamos ler o Evangelho. Agora, podemos e devemos, pois temos o direito de saber o que somos e qual a prática de vida que nos qualifica como cristãos. Batismo e manifestação de Jesus de Nazaré coincidem. O que agrada o Senhor não são os ritos carentes de amor, mas uma vida “em espírito e em verdade” no Espírito de Jesus. O cardeal Ratzinger escrevia: “O batismo é o arco-íris de Deus sobre nossa vida, a promessa do seu grande Sim, a porta da esperança e o caminhar numa união viva e pessoal com Jesus Cristo pelos seus caminhos. Olhando para Ele sabemos que Deus é maior que o nosso coração” (Homilia do Batismo, 07.01.1990). Paulo nos exorta: “Não matem o Espírito de Deus” (1 Ts 5, 19) e uma igreja com o Espírito apagado ou esvaziada do Espírito de Jesus não pode viver e nem comunicar sua verdadeira novidade e, muito menos, saborear e proclamar a Boa Nova.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

O Batismo do Cristo, s.d., Daniel Bonnell, óleo sobre tela, 92” x 46”, Igreja Missionária Baptista do Monte Calvário, Carolina do Sul, Estados Unidos.