quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família de Jesus, Maria e José

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

Sagrada Família de Jesus, Maria e José            

Eclo 3, 3-7.14-17              Cl 3, 12-21               Mt 2, 13-15.19-23

 

ESCUTAR

“Quem honra o seu pai alcança o perdão dos pecados... quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros” (Eclo 3, 4).

“Vós sois amados por Deus, pois sois os seus santos eleitos” (Cl 3, 12).

“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2, 14).

 

MEDITAR

Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.

(Papa Francisco, Evangelii Gaudium)

 

ORAR

   Na tradição do Antigo Testamento a família era constituída para procriação e repousava sobre uma estrutura patriarcal de parentesco cujo principal cuidado era a perpetuação de uma linhagem. A família de Jesus é uma reviravolta nesta tradição. Maria, como rezava a tradição, havia sido “prometida a um homem chamado José, da família de Davi” (Lc 1, 27), mas o Arcanjo Gabriel lhe anuncia algo absolutamente revolucionário: a nova família será constituída a partir de afinidades eletivas e escolhas amorosas. José, em sonho, ouviu a palavra do anjo e a respondeu acolhendo a jovem e a criança que ela carregava no ventre, ainda que não fosse o autor desta gravidez e nem o genitor deste filho. José confia e se coloca disponível: "José não tenhas medo de acolher Maria como tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo”. Uma mulher plena do Espírito de Deus não pode e nunca poderá ser submissa. Maria, em vigília, ouve a palavra do anjo e, apesar de temerosa e perturbada confia e se coloca à disposição do desígnio de Deus. Ouvir a palavra, responder com um sim incondicional e estar absolutamente disponível são os novos pilares desta nova estrutura familiar na qual o amor recíproco e o crer sustentam a comunidade cristã e cada família nas suas plurais formas de existir. José e Maria ensinam – ele em estado de sono e ela em estado vigília – que devemos estar sempre, consciente ou inconscientemente, disponíveis para escutar e acolher a palavra de Deus. Não podemos nos confundir: existe um abismo entre sermos pais e genitores. Um homem e uma mulher precisam de alguns segundos para se tornar genitores e são estes que veem seus filhos como propriedade particular, preocupados em fazer crescer o patrimônio familiar e em continuar o sobrenome da família. Na família de Deus, gerada a partir de Maria, José e Jesus, ser pai, mãe e filho é uma aventura de outra natureza. É uma escolha amorosa, uma afinidade eletiva e um compromisso de entrega para educar e conduzir os seus filhos e filhas para opções de liberdade que poderão gerar mais vida e mais desejos. Para a mentalidade retrógada dos que se reduziram à família nuclear burguesa tudo escandaliza nesta Santa Família. A família de Deus se concretiza de uma forma extraordinária aos padrões convencionais sacralizados: José, um homem sem mulher; Maria, uma virgem sem esposo e Jesus, uma criança sem pai. Deus revela, para todo o sempre, que o mais importante é a adoção pelo coração, o centro da vida.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, 1979 (?), Yanomami, Claudia Andujar (1931-), Suíça/Brasil.




  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

O Caminho da Beleza 05 - Natal do Senhor

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo                     

Is 52, 7-10               Hb 1, 1-6                  Jo 1, 1-18

 

ESCUTAR

Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação (Is 9, 7).

Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo (Hb 1, 1-2)

E a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14).

 

MEDITAR

O sagrado no Cristo não é qualquer coisa que existe sob os ferrolhos ou que é colocada atrás das grades ou ainda sob véus impenetráveis. O sagrado em Jesus é o homem, é o próprio homem. São as nossas mãos, o trabalho de nossas mãos; são os nossos olhos e a luz que os preenche; são os nossos corações e esta maravilhosa capacidade de amar. Isto tudo é o que constitui o sagrado que perpetua a Encarnação e que não cessa de tornar presente o Cristo entre nós.

(Maurice Zundel)

 

ORAR

    Natal significa que “um Menino nos nasceu” e este é o sinal para a Humanidade. Nada de grandioso ou espetacular, pois Deus para nos encontrar escolhe o caminho da modéstia e da pequenez. O Natal significa que o sorriso divino pousou sobre as nossas misérias, devolveu a esperança e nos abriu todas as possibilidades futuras. Este rosto do Menino não é mais o de um Deus distante, carrasco; nem o de um Deus desiludido e traído. Este rosto terno e carinhoso revela a única condição para conquistarmos a vida eterna: deixarmo-nos amar. O natal não é apenas uma data inventada, mas o início da Boa Nova que nos faz saber que um escapou do censo ordenado por Cesar Augusto e que, portanto, não foi incluído como um dado estatístico. Não comemoramos uma data que colocou tudo em ordem, mas um início de um tempo em que a justiça de Deus se manifesta em toda a sua plenitude. A solidão acabou porque os homens e mulheres têm a mão que os guia, que os salva e os consola. O evangelista revela que o Verbo não somente entra no mundo, mas se torna um membro da humanidade e declara que a presença de Deus (Shekinah), até então na tenda da Aliança, está agora plenamente realizada na tenda de carne do Emmanuel. A divindade não se sobressai como um árbitro destacado e eterno do contexto terrestre, mas está implicada na complexidade da realidade humana. O evento decisivo da nossa existência e o artigo de fé fundamental do cristianismo é a encarnação do Verbo. No Natal, é desvelado que o Cristo é a Palavra que exige escuta; é a Vida que exige adesão do coração; é a Luz que exige a luta contra a cegueira para que possamos todos juntos, peregrinos, construir a cada nova geração um mundo de justiça e paz. No entanto, alguns natais são anunciados sem nenhum engajamento de fé. Um natal folclórico, mercantilizado, ruidoso e de um ritualismo consumista; um natal emotivo, marcado pelo infantilismo e que, apesar dos sentimentos, sabe calcular os impulsos de generosidade; um feriado natalino para ser aproveitado em viagens, que nos levem o mais distante possível de todos. Finalmente, um natal dos que foram um dia batizados e que, ao menos uma vez por ano, vestem o disfarce de cristãos para poder passar pelo umbral das igrejas mais próximas que lhes ofereça um horário de celebração mais cômodo para não atrapalhar a ceia natalina e a troca de presentes. Outros natais são possíveis de ser acrescentados à lista uma vez que são apenas pretextos para qualquer coisa. Que neste dia de Natal sejamos capazes de colocar nas nossas vidas um pouco menos de qualquer coisa, como os restos de nossas ceias. Que sejamos capazes de conseguir um pouco menos de alienada religiosidade e um pouco mais de fé comprometida com Aquele cujo nome é “Conselheiro Admirável, Deus Guerreiro, Pai dos Tempos Futuros e Príncipe da Paz” (Is 9, 5).

Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Mistério da Encarnação, 1954, Louis Rivier (1885-1963), tríptico da Encarnação (painel central), 250 x 150cm, Lausanne, Suíça.




 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

O Caminho da Beleza 04 - IV Domingo do Advento

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

IV Domingo de Advento         

Is 7, 10-14               Rm 1, 1-7                 Mt 1, 18-24

 

ESCUTAR

“Será que achais pouco incomodar os homens e passais a incomodar até o meu Deus?” (Is 7, 13).

“É por ele que recebemos a graça da vocação para o apostolado, a fim de podermos trazer à obediência da fé todos os povos pagãos, para a glória do seu nome” (Rm 1, 5).

“José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo” (Mt 1, 20).

 

MEDITAR

“Havendo Deus de ter Mãe, não podia ser senão virgem, e havendo uma virgem de ter um Filho, não podia ser senão Deus” (São Bernardo de Claraval).

“Até que ponto São José penetrou na intimidade de Deus? Não o sabemos. São José, que tanto tem a dizer, não fala: guarda dentro de si as grandezas que contempla: dentro dele erguem-se montanhas sobre montanhas, e as montanhas são silenciosas” (Ernest Hello).

 

ORAR

     Maria e José nos ensinam que uma fé se cumpre na obediência e sem nenhuma pressa, pois para Deus o tempo não existe: tudo acontece na eternidade. Sem pressa, Abraão e Sara são agraciados na velhice com Isaac, a gargalhada de Deus; sem pressa, Zacarias e Isabel se tornaram fecundos ao gerar João; sem pressa, Maria aceitou acolher, em seu ventre, o silencioso mistério que se revelava fecundo entre ela e a sombra do Espírito que pousara sobre seu corpo de mulher. Sem pressa, José assumiu a paternidade de uma criança que não era de sua semente e o fez antes mesmo que o Anjo lhe confirmasse que a criança no ventre de Maria era o da divina Promessa, o rebento de Davi esperado em Israel. Paulo nos exorta: “Ninguém vive nem morre só para si... mas, quer por nossa vida quer por nossa morte, pertencemos a Cristo” (Rm 14, 7-8). O Evangelho revela que o desígnio de Deus se realiza além da linhagem carnal. É por meio de Jesus, de Nazaré, que Deus se faz Emmanuel, mas para que isto se realizasse foi necessário que tanto José quanto Maria abrissem mão do seu projeto pessoal, do seu futuro familiar, para acolher, sem reservas, as promessas de Deus. Este Menino, que nos foi dado, tem a envergadura infinita de cada homem e cada mulher que vive sem pressa ao permitir que Deus seja uma manifestação luminosa em suas vidas por veredas que só Ele conhece. Esta manifestação se realiza pelo poder de servir e nunca nos que se servem do poder para cercear a liberdade e comprar as consciências. Assim devemos viver para a vida eterna na qual serão abolidas todas as urgências e as pressas. Como nos garante o teólogo do sertão, João Guimarães Rosa: “Deus é urgente sem pressa!”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 CONTEMPLAR

 Adoração dos Pastores (detalhe), 1612-1614, El Greco (1541-1614), óleo sobre tela, 319 x 180 cm, Museu do Prado, Madri, Espanha.







quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

O Caminho da Beleza 03 - III Domingo do Advento

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

III Domingo do Advento                    

Is 35, 1-6.10                       Tg 5, 7-10                Mt 11, 2-11

 

ESCUTAR

“Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar’” (Is 35, 4).

“Também vós, ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5, 8).

“O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis” (Mt 11, 7-8).

 

MEDITAR

“Nunca nos poderemos aproximar do mistério se não tivermos a lúdica liberdade dos filhos de Deus, se não fizermos experiências e errarmos e avançarmos às apalpadelas para a verdade (...) os cristãos deveriam ser aqueles que continuam a levantar questões, quando todos os outros pararam de o fazer”.

 (Timothy Radcliffe)

“Senhor, eu te agradeço porque não sou uma engrenagem do poder. Eu te agradeço porque sou um daqueles que o poder esmaga”.

 (Rabindranath Tagore)

 

ORAR

    As leituras de hoje convidam à paciência para fortalecer as mãos enfraquecidas e firmar os joelhos debilitados. Devemos permanecer firmes e com nossos corações reanimados. A paciência cristã é uma força ativa e nada tem a ver com a inércia, a indiferença e com uma postura derrotista. A paciência verdadeira nos coloca em pé e nos faz defender as convicções que moldam e determinam as vidas. O lavrador é paciente depois de haver trabalhado como era preciso e pode esperar o fruto após ter semeado. O cristão e os de boa vontade são pessoas talhadas na paciência: não se rendem e nem se dão por vencidos mesmo quando derrotados. Vivem as contradições e para eles nada é definitivo, pois aprendem a viver na provisoriedade das coisas. O Cristo nos ensina, paradoxalmente, que para ter paciência é necessário ter fogo dentro, um fogo permanente e não uma chama que dura um instante. O deserto floresce na paciência e cada um de nós é fruto da paciência de Deus. No Natal, Deus decide viver esta paciência amorosa de uma maneira mais próxima e mais impaciente. Ele quer se tornar companheiro de viagem e nesta viagem deseja que deixemos de ser mancos, de arrastar pesadamente os pés para que saltemos como um cervo. Quer que rompamos o selo de nossa boca para que desatada a língua, possamos gritar palavras de amor e liberdade. Os sinais estão nas entranhas da misericórdia dos que exercem a compaixão e a solidariedade. Para isto é necessário que abandonemos o palácio do rei e suas suntuosas vestes. Como afirma o Papa Francisco: “A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, nos faz insensíveis ao grito dos outros; nos faz viver em bolhas de sabão que são bonitas, mas não são nada. São a ilusão do fútil, do provisório que conduz à indiferença com os outros, ou melhor, leva a uma globalização da indiferença”. Se ainda tivermos dúvidas quanto a isto, é o momento de nos apresentarmos diante do Cristo, na fila dos surdos e dos cegos para que nos cure. É preciso, mais do que nunca, que perguntemos aos surdos e escutemos a explicação dos mudos.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Madona de Porto Lligat (detalhe), 1950, Salvador Dalí, óleo sobre tela, 144 cm x 96 cm, coleção privada, Tóquio, Japão.




quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O Caminho da Beleza 02 - II Domingo do Advento

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

II Domingo do Advento     

Is 11, 1-10                Rm 15, 4-9              Mt 3, 1-12

 

ESCUTAR

“Ele não julgará pelas aparências que vê nem decidirá somente por ouvir dizer; mas trará justiça para os humildes e uma ordem justa para os homens pacíficos; fustigará a terra com a força da sua palavra e destruirá o mau com o sopro dos lábios” (Is 11, 3-4).

“Assim, tendo como que um só coração e a uma só voz, glorificareis o Deus e Pai do Senhor nosso, Jesus Cristo. Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus” (Rm 15, 6-7).

“‘Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!’ (...) O machado já está na raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo” (Mt 3, 3.10).

 

MEDITAR

Não há nada de melhor no mundo do que estas amizades maravilhosas que Deus desperta e que são como o reflexo da gratuidade e da generosidade do seu amor (Jacques Maritain).

Parti sem o mapa da estrada para descobrir Deus, sabendo que Ele está no caminho e não no fim desta mesma estrada (Madeleine Delbrêl).

 

ORAR

     Converter-se é dar uma meia-volta sobre nós mesmos e retomar o início do caminho. Para isto, é necessário que uma palavra nos seja dirigida por alguém, por um outro. Este acontecimento, de uma voz que “grita no deserto”, é o início de uma vinda que desvela que “o reino de Deus está próximo”. O próprio Deus faz a sua irrupção na história da Humanidade e nos abre um outro futuro para além do implacável ciclo da violência; suscita a esperança de que a vinda de um Deus que se faz misericórdia é, de agora em diante, mais forte do que a sabedoria dos poderosos. A Boa Nova é a de que se antes vivíamos “à sombra da morte” (Lc 1, 79), agora e para sempre sucede a Vida partilhada “em superabundância” (Jo 10, 10). A primeira vez que o Anúncio ecoou no mundo, fizemos tudo para abafá-lo: João foi decapitado na prisão e Jesus ultrajado e crucificado. Os tempos da Igreja, os nossos tempos, não serão diferentes, pois “o servo não é maior que o seu Senhor. Se me perseguiram, também a vós perseguirão” (Jo 15, 20). O deserto é o lugar em que pregamos para nada e que ninguém vem para ouvir. Entretanto, o deserto é também o lugar em que se reencontra Deus se nos dignarmos a ir até o “nosso deserto”, pois Deus só se deixa encontrar pelos que se despojam. O anúncio do Evangelho exige o grito e o sussurro: a palavra forte e a palavra íntima. O grito é o da cólera de Deus para nos lembrar do seu amor e nos abrir os céus. O grito de Deus é um sinal de urgência. A voz em sussurro é sempre pessoal e única. Ela nos lembra que devemos adequar as nossas vidas ao Evangelho e não o contrário. O Evangelho já decidiu por nós e basta apenas que anunciemos as palavras do Cristo com a nossa voz e com a nossa prática fraterna, pois Deus nos fala pelo testemunho de seu Filho e somente a palavra encarnada pode conferir veracidade ao que proclamamos. João Batista lembra que é por nossas palavras que o Verbo é anunciado: anunciamos o Cristo com Suas palavras colocadas em nossas palavras. Se falarmos o deserto florescerá; se calarmos continuará a secar e a se tornar mais árido. Basta uma voz e o deserto não será mais um deserto, pois o Senhor nos pede que Lhe emprestemos os nossos ouvidos, mas que também Lhe emprestemos as nossas vozes. Façamos nossa a oração de Charles de Foucauld: “Ó Jesus, fazer a vontade de vosso Pai, agir em vista dele foi o vosso alimento e do que vivestes. Seja este também o nosso pão e a nossa vida: agir continuamente para Vós, para Vós viver, para a Vossa vontade e para a Vossa glória. Eis a nossa vida, o nosso pão cotidiano e o nosso viver a cada instante que poderá ser o último, ó meu Senhor e meu Deus”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Virgem, o menino Jesus e São João, o Batista, William-Adolphe Bouguereau, 1875, óleo sobre tela, 122 x 200,5 cm, Coleção Particular, França.




 

 

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

I Domingo de Advento

Is 2, 1-5                    Rm 13, 11-14                      Mt 24, 37-44

 

ESCUTAR

“Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate” (Is 2, 4).

“A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz” (Rm 13, 12).

“Por isso, também vós ficais preparados! Porque, na hora em que menos pensais, o Filho do homem virá” (Mt 24, 44).

 

MEDITAR

“Quando quer manifestar a sua vontade, Deus evita cuidadosamente as pessoas que pertencem ao mundo religioso, refratárias e hostis a qualquer novidade que venha perturbar as seguranças delas, e escolhe simplesmente ‘um homem’, sem qualquer outro título a não ser o de pertencer à humanidade”.

(Alberto Maggi)

“A espera do Senhor não é estática. Ela não é um repouso. Toda verdadeira espera do Senhor implica numa transformação. A espera do Senhor é um desenraizamento. Ela nos desenraiza do nosso terreno, do nosso meio. Não vemos mais como os outros porque a nossa visão leva mais longe. Eles não sabem e não esperam. Mas os que esperam conosco esperam Aquele que esperamos e esta mesma espera cria entre os corações a mais íntima comunhão”.

(Um monge da Igreja do Oriente)

 

ORAR

    Nestes tempos de Advento, somos chamados a despertar do sonambulismo, da indiferença e da insensibilidade. O papa Francisco nos questiona: “Onde estamos nós ancorados, cada um de nós? Estamos ancorados precisamente na margem daquele oceano tão distante ou estamos ancorados num lago artificial que nós construímos com as nossas regras, os nossos comportamentos, os nossos horários, os nossos clericalismos, as nossas atitudes eclesiásticas e não eclesiais? Estamos ancorados ali? Tudo cômodo, tudo seguro? Aquilo não é a esperança”. A enfermidade do sonambulismo e da indiferença, como uma epidemia, tem afetado as igrejas em todos os lugares e tempos. O Cristo está no meio de nós e, sem temor, devemos permanecer perto da sua vinda: “Não é necessário atravessar mares, penetrar nuvens ou transpor montanhas; não é um caminho muito longo que nos é proposto: basta entrarmos em nós mesmos para correr ao encontro do nosso Deus” (São Bernardo de Claraval). As igrejas devem se desinstalar, pois a espera do Senhor não é um plácido repouso, mas uma transformação. A espera do Senhor é um desenraizamento que nos faz ver mais longe e o horizonte para o qual avançamos é atual. O tempo do Advento se abre com a urgência de um despertar e de um colocar-se a caminho. Como no dilúvio, somos impotentes para ler os sinais dos tempos e nos aferramos ao ramerrão do cotidiano: “Pois, nos dias antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e se davam em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca”. Temos nos condenado a um frenético ativismo e concentramos nossas forças para conquistar uma eficiência administrativa em que se entrelaçam negócios e apostolados, poder e religião, num escapismo que nos leva a não dar conta de nada. Tudo isto aponta para um estado de não vigilância que desemboca numa agitação mundana sinalizada pelo arrivismo, pelas disputas internas, pelas invejas e pelas mesquinharias. É o momento de nos darmos conta de que o tempo de Deus penetrou no tempo dos homens e que este instante é um instante eterno. E o que importa é o agora e a grande ocasião que não podemos perder é a de hoje. Meditemos o canto do salmista: “Pois EU SOU é o nosso Pastor. Nós somos as ovelhas do seu rebanho, as ovelhas que sua mão com amor conduz. EU SOU! Nós ouvimos a tua voz e viemos ao teu encontro” (Sl 95).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Nascimento em Belém (detalhe), 1995-1997, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1926-2018), óleo sobre tela, 87 cm x 106 cm, Palácio Arquiepiscopal de Malines, Bélgica.

 


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

O Caminho da Beleza 52 - Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo           

2 Sm 5, 1-3              Cl 1, 12-20               Lc 23, 35-43


ESCUTAR

“Tu apascentarás o meu povo Israel e serás o seu chefe” (2 Sm 5, 2).

“Ele nos libertou do poder das trevas e nos recebeu no reino do seu Filho amado” (Cl 1, 13).

“Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado” (Lc 23, 42).

 

 MEDITAR

O Cristo vai aonde não temos coragem de ir. No momento em que o procuramos no templo, ele se acha no estábulo; quando o buscamos entre os padres, ele está entre os pecadores; no instante em que o solicitamos em liberda­de, está detido; quando o procuramos ornado de glória, ele está coberto de sangue sobre a cruz.

(Cartas na prisão de um cristão anônimo)

Prefiro uma Igreja que comete erros a uma Igreja que adoece por ficar fechada.

(Papa Francisco)

 

ORAR

    Davi tem uma investidura real plebiscitária: “Todas as tribos de Israel vieram encontrar com Davi em Hebron e disseram-lhe: ‘Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne’”. Jesus, o Cristo, da descendência de Davi, ao contrário, é contestado em sua realeza: o povo adota uma posição neutra e oportunista; os soldados o insultam e a inscrição colocada sobre a sua cabeça é uma zombaria. Somente um delinquente comum o reconhece como rei. Davi foi vitorioso com a força das armas nas suas batalhas; Jesus, ao contrário, aparece sobre a cruz como derrotado, pois são os seus inimigos que possuem as armas. Onde está a cruz, não há lugar para sinais de força. A tortura foi o seu manto, os espinhos a sua coroa, a proscrição o seu cetro, as provocações e os escárnios foram a sua aclamação. Cristo quer ser reconhecido como rei unicamente por meio de uma adesão livre, no amor, sem coação alguma e nenhuma imposição. Cristo é um Rei vencido pela força, mas vitorioso na fraqueza da ternura e jamais poderá aceitar a honra das armas nem que seja por puro adorno. No calvário, Cristo está coroando não uma conquista espetacular, mas uma obra de reconciliação e de paz. Cristo em seu “palácio” oferece asilo aos “malfeitores” que nele encontram um refúgio seguro e se cerca de súditos “pouco recomendáveis”. Um destes o reconhece explicitamente como rei e se converte no primeiro cidadão do seu Reino. O Reino do Cristo é o reino do Inocente condenado, da inocência achincalhada. É o Reino invisível Daquele que faz irromper no mundo a dimensão do perdão e o perdão para todos, inclusive para os que brilham por sua covardia, pois são os que sempre lavam as mãos. A Igreja de Jesus é sempre ameaçada pelo triunfalismo, em nome do Cristo Rei, para garantir um império como o dos ditadores e não perder o domínio e o privilégio de suas conquistas terrenas. O desafio está lançado no alto do Calvário: ou empenhamos nossas vidas para o serviço aos outros, ou procuraremos o poder e nos converteremos em seus escravos. O “bom ladrão” não obtém de Cristo a salvação física, como pretendia o seu parceiro, mas a salvação total. Jesus, o Rei e Messias crucificado, reúne todo o universo e nos revela, para todo o sempre, que a alegria em Deus consiste, simplesmente, no dom total de si mesmo.

(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

A Trindade, José de Ribera, c. 1635, óleo sobre tela, 226 x 181 cm, Museu do Prado, Madrid, Espanha.

 


quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O Caminho da Beleza 51 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

XXXIII Domingo do Tempo Comum

Ml 3, 19-20 2 Ts 3, 7-12 Lc 21, 5-19


ESCUTAR

Eis que virá o dia, abrasador como fornalha, em que todos os soberbos e ímpios serão como palha (Ml 3, 19).

“Quem não quer trabalhar, também não deve comer” (2 Ts 3, 10).

“Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome dizendo: ‘Sou eu!’ e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não sigais essa gente” (Lc 21, 8).


MEDITAR

Há que dizer a verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade. Dizer cruamente a verdade crua, preocupadamente a verdade que causa dano, tristemente a verdade triste. Quem não proclama a verdade quando a conhece se torna cúmplice dos mentirosos e dos covardes (Charles Pèguy).


ORAR

    Teremos sempre que enfrentar a hora decisiva e a lucidez exige afrontar a soberba e a injustiça que tem raiz e ramos dentro de nós. Temos que atiçar o fogo ardente para queimar como palha tudo o que dentro de nós faz parte de um mundo decrépito e inaceitável aos olhos de Deus. Devemos aniquilar a astúcia humana que cultiva a ilusão de que pode possuir o segredo do momento e, por esta razão, tentamos o Senhor: “Mestre, quando vai ser isto? E qual será o sinal que tudo isto está para suceder?”. São sempre as mesmas e tediosas perguntas repetidas até a náusea – “quando?” e “como?” – para que possamos aniquilar o risco de sermos surpreendidos. Jesus nos apela à perseverança, pois “é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim”, pois os dias dos homens, os dias do antes também são dias do Senhor, dias em que se desenvolve o juízo. O único tempo certo é o tempo da conversão. A existência do cristão encontra o seu ponto de equilíbrio no concreto do compromisso cotidiano sério e sereno, evitando os extremos opostos do fanatismo e da inércia. Paulo fez-se construtor de tendas para sobreviver do próprio trabalho e não onerar a comunidade eclesial e Jesus afirma que do templo não “ficará pedra sobre pedra”: “O Senhor repudiou o seu altar, desfez o seu santuário, afundou na terra as portas, quebrou os ferrolhos, estendeu o prumo e não retirou a mão que derrubava” (Lm 2, 5-9). No lugar do Templo, Deus oferece uma tenda que, em sua provisoriedade, é necessária como resguardo e lugar de encontro dos nômades. E ainda assim continuam a perguntar: “O fim do mundo é para amanhã?”. Jesus dá a resposta: “O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui, está ali, pois o Reino de Deus está no meio de nós’” (Lc 17, 20-21). E podemos responder tranquilamente: “Não, o fim anunciado é hoje” e por mais que na arrogância queiramos materializar os símbolos de proteção e poder em fortalezas, templos, palácios e igrejas de pedra, Aquele que nasceu numa manjedoura, que morreu suspenso numa cruz e saiu vivo e nu de um túmulo despojado, garante, para todo o sempre, que somos o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em nós (cf. 1 Cor 3, 16). 

(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)


CONTEMPLAR

O corpo ensanguentado de Dom Oscar Romero jaz no solo assistido por monjas do hospital, 24 de março de 1980, autor da foto não identificado, San Salvador, El Salvador.





quinta-feira, 3 de novembro de 2022

O Caminho da Beleza 50 - Todos os Santos e Santas

 A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

Todos os Santos e Santas              

Ap 7, 2-4.9-14                    1 Jo 3, 1-3                Mt 5, 1-12

 

ESCUTAR

Eu, João, vi outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo (Ap 7, 2).

Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! (1 Jo 3, 1).

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).

 

MEDITAR

 Deu-me Deus o seu gládio porque eu faça/A sua santa guerra./Sagrou-me seu em honra e em desgraça,/Às horas em que um frio vento passa/Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me/A fronte com o olhar;/E esta febre de Além, que me consome,/E este querer grandeza são seu nome/Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá/Em minha face calma./Cheio de Deus, não temo o que virá,/Pois, venha o que vier, nunca será/ Maior do que a minha alma.

(Fernando Pessoa)

 

ORAR

    Viver a festa da santidade é viver a realidade de um censo impossível: “uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar”. E como não podemos conhecer todos os nomes dos santos, devemos chamar este domingo da Festa da Santidade Anônima. Todos participam da mesma santidade de Deus e a santidade é o sinal inequívoco do vestígio de Deus em nossas vidas. Os santos não se reduzem ao dos altares oficiais, mas circulam cotidianamente entre nós. Devemos buscar em cada dia o rosto dos santos porque são um reflexo do rosto de Deus. Os santos não vivem em nichos de gesso, mas em casas comuns. Não trazem auréolas luminosas em suas cabeças, mas problemas e preocupações. Não flutuam no ar, mas tem pernas e pés doloridos como os nossos. Os santos são contaminados pela alegria, pela surpresa e compõem a sinfonia dos loucos de Deus. O milagre dos santos consiste no fato de existirem no cenário perverso desta sociedade e querer acrescentar um pouco de graça e ternura no cotidiano do mundo. A santidade não é um luxo, mas uma condição normal e obrigatória do cristão: ela é um dom e uma possibilidade oferecida a todos e não reservada a uns poucos privilegiados. Devemos sempre suspeitar que eles estão mais próximos de nós do que podemos supor. Os santos correm pelas ruas e a maior parte dos bem-aventurados são pessoas simples e que têm coração. A declaração conciliar Nostra Aetate afirma: “A Igreja Católica não rejeita o que é verdadeiro e santo em todas as religiões. Considera suas práticas, maneiras de viver, preceitos e doutrinas como reflexo da verdade que ilumina todos os seres humanos, ainda que se distanciem do que ela crê e ensina (...)A Igreja rejeita como contrária ao pensamento de Cristo toda a discriminação ou perseguição por causa das diferenças de raça, cor, condição ou religião” (NA 857.871).

(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Monge budista noviço, Kyaw Thiha, brinca durante a chuva no Monastério Shin Ohtama Tharya, em Yangon, Myanmar, 2011, Soe Zeya Tun, Agência Reuters, Yangon, Myanmar.




sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O Caminho da Beleza 49 - XXXI Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

XXXI Domingo do Tempo Comum            

Sb 11,22-12,2                     2 Ts 1,11-2,2                       Lc 19, 1-10


ESCUTAR

“A todos, porém, tu tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor, amigo da vida” (Sb 11, 26).

“Não cessamos de rezar por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação” (2 Ts 1, 11).

“Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 1-10).

 

MEDITAR

Não! Permanecer e transcorrer não é perdurar, não é existir e nem honrar a vida! Há tantas maneiras de não ser, tanta consciência sem saber, adormecida... Merecer a vida, não é calar e consentir... Isto de durar e transcorrer não nos dá o direito de nos gabar, porque não é o mesmo que viver e honrar a vida.

 (Eladia Blázquez e Mercedes Sosa)

 

ORAR

   O Senhor é amigo da vida, aposta no melhor que existe em cada pessoa e se deixa encontrar pelos pacientes. O amor de Deus se revela mais forte do que os pecados dos homens e suas traições. Precisamos amar a vida e aniquilar toda a espiritualidade de mortificações que sufocam a epifania da vida. Não devemos amar a Deus por temer a vida, pois o “Senhor ama tudo o que existe (...) e a todos trata com bondade” e, apesar disto, parece que a nossa vocação irresistível é a de não perdoar nada e a ninguém. Nossa posição diante dos outros oscila entre o desprezo e a suspeita. Somos céleres em querer apresentar diante de Deus uma lista de pessoas, grupos e povos que para nós, católicos, são dignos de desprezo. No entanto, Deus abandona estas indicações mesquinhas. O mal inoculou no mundo uma espécie de veneno que contaminou a vida amada por Deus. Jesus aposta nas pessoas e por isto se auto convida para ficar na casa de Zaqueu. Zaqueu acaba descobrindo a pequenez que o impedia de viver: o egoísmo, a avareza, os roubos, a opressão e a exploração dos mais fracos. Ele se despoja para acolher o dom e o amor que lhe são oferecidos por Aquele que instituiu com ele uma amizade marcada pela comunhão da mesa. Zaqueu se tornara, ele mesmo, o fruto da árvore a ser colhido por Jesus e cujo sumo é sorvido pelos dois numa fusão existencial. Os dois tornam-se um no Amor: não há santo nem pecador. Finalmente, a figueira cresceu e amadureceu; e na sua hora e na sua vez entregou um fruto bom.

(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, s. d., autor desconhecido, site: pxfuel.com




domingo, 23 de outubro de 2022

O Caminho da Beleza 48 - XXX Domingo do Tempo Comum

XXX Domingo do Tempo Comum

Eclo 35, 15b-17.20-22 2 Tm 4, 6-8.16-18 Lc 18, 9-14


ESCUTAR

“O Senhor é um juiz que não faz acepção de pessoas. Ele não é parcial em prejuízo do pobre, mas escuta, sim, a súplica do injustiçado. Jamais despreza a súplica do órfão nem da viúva, quando esta lhe fala com seus gemidos” (Eclo 35, 15b-16).

“Quanto a mim, já estou sendo oferecido em libação, pois chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2 Tm 4, 6-7).

“Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 18, 14).


MEDITAR

“Deveria ter feito mais concessões e remado menos contra a maré? A resposta a que eu mesmo ia me dar e a que queria ouvir me chega lá de dentro da noite num inesperado canto de galo que me diz: Não! Não! Não!” (Joel Silveira).

“A grandeza não consiste em se colocar acima e exigir, a grandeza não consiste em comandar, a grandeza, por ser grandeza, consiste em se dar e é maior quem se dá mais!” (Maurice Zundel).


ORAR

   O Senhor toma partido e “não é parcial em prejuízo dos pobres, mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos”. O Senhor julga as orações, sobretudo, a dos humildes. O evangelista nos apresenta a oração do fariseu que não atravessa as nuvens e nem sequer atinge o teto do templo, pois é carregada de vaidade e de autoglorificação. Na oração do fariseu o sujeito é o pequeno eu, mas na do publicano o sujeito é Deus. O fariseu ora de pé, seguro e sem temor. Sua consciência não o acusa de nada. Não é hipócrita e o que diz é verdade. Cumpre fielmente a Lei. O publicano retira-se a um canto e não se sente à vontade naquele lugar santo. Não promete nada, nem mudar de vida. Só lhe resta abandonar-se à misericórdia de Deus. É necessário romper com a lógica farisaica do “eu te dou para que tu me dês” e viver na lógica evangélica do “dou a ti porque tu me deste”. Convivem no nosso interior os dois homens: como o publicano somos pecadores e como o fariseu nos julgamos justos. O fariseu acusa e o publicano se acusa. O fariseu se afirma na negação do outro. O publicano se arrepende diante do Outro. O contrário do pecado não é a virtude, mas a fé que nos abre à misericórdia de Deus. Não basta obedecer, observar, mas amar com gratuidade e se arrepender de não ter amado ainda mais. 

(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)


CONTEMPLAR

São Francisco em êxtase, c.1594-95, Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), óleo sobre tela, 92.5 × 127.8 cm, The Ella Gallup Sumner and Mary Catlin Sumner Collection Fund, Wadsworth Atheneum Museum of Art, Hartford, Connecticut, Estados Unidos.









sexta-feira, 14 de outubro de 2022

O Caminho da Beleza 47 - XXIX Domingo do Tempo Comum

XXIX Domingo do Tempo Comum

Ex 17, 8-13 2 Tm 3, 14-4, 2 Lc 18, 1-8


ESCUTAR

“Assim as mãos ficaram firmes até o por do sol, e Josué derrotou Amalec e sua gente a fio de espada” (Ex 17, 12-13).

“Quanto a ti permanece firme naquilo que aprendestes e aceitaste como verdade” (2 Tm 3, 14).

“Mas o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar fé sobre a terra?” (Lc 18, 8).


MEDITAR

“Hein, jovens! Vocês, queridos jovens, possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio benefício. Também para vocês e para todas as pessoas repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança”.

(Papa Francisco)


ORAR

    Paulo exorta a nos convertemos em pessoas que resistem: “permanece firme naquilo que aprendeste”. E a resistência implica numa obstinação: “insiste oportuna e ou importunamente”. A resistência não é uma postura passiva de defesa, mas se expressa num dinamismo de iniciativa permanente. A Palavra é servida numa tríplice dimensão: o anúncio, a exortação e a consolação. A resistência não se refere somente ao âmbito da fé e da fidelidade à Palavra, mas abarca toda a vida do crente. O cristão está sempre alinhado à resistência contínua e não é como aquele que reage somente em situações de emergência. O cristão é o que afronta e resiste a toda e qualquer ordem social injusta que nega a liberdade e ofende a dignidade das pessoas. O cristão luta e denuncia toda forma de servidão, de desumanização e de aviltamento. O verdadeiro discípulo de Cristo opõe resistência a todos os fanatismos, intolerâncias e sectarismos. O cristão resistente renuncia aos atrativos de posições tranquilas e privilegiadas; dos apoios importantes e das carreiras facilitadas. Aceita fazer parte de uma minoria que se opõe à estupidez geral, que mantém a indignação diante de uma pseudo evangelização emocional e sentimentalista que manipula a verdade e contagia as massas. O cristão que resiste tem a lucidez de que a pedra que o sustenta é Cristo e que ela não pode ser usada para se sentar, mas para permanecer de pé. Jesus nos ensina a orar com a maior tenacidade possível por meio de pedidos concretos. A comunidade fraterna está sujeita a viver tribulações e injustiças; a experimentar tempos difíceis e de longa espera. Podemos e chegamos, muitas vezes, ao limite do desespero, mas devemos confiar que, apesar das aparências, o Senhor sempre chega antes e não deixa nada pela metade e nem pelo meio do caminho. O Senhor age por meio dos fatos e não adia a sua justiça, mas cumpre-a no aqui e agora das nossas vidas e testemunhos.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)


CONTEMPLAR

Marcha pela Paz, Washington, 1967, Marc Riboud (1923-), França. Foto tirada em frente ao Pentágono numa manifestação contra a guerra do Vietnã, em março de 1967.










sexta-feira, 30 de setembro de 2022

O Caminho da Beleza 46 - XXVIII Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

XXVIII Domingo do Tempo Comum                    

2 Rs 5, 14-17                      2 Tm 2, 8-13                      Lc 17, 11-19

 

ESCUTAR

“‘Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda a terra, senão o que há em Israel! Por favor, aceita um presente de mim, teu servo’. Eliseu respondeu: ‘Pela vida do Senhor, a quem sirvo, nada aceitarei’” (2 Rs 5, 15).

“A Palavra de Deus não está algemada” (2 Tm 2, 9).

“E este era um samaritano. Então Jesus perguntou: ‘Não foram dez os curados?’” (Lc 17, 17).

 

MEDITAR

“Damos graças por este Deus que não esmaga nunca, não se impõe, não julga e nunca rejeita ninguém (...) Damos graças a este Deus porque Ele é um Deus de relação e de comunhão e não um todo-poderoso solitário e distante. Ele é na sua própria natureza acolhida e dom; partilha e comunhão” (Pierre Claverie).

 

ORAR

A falta de gratidão é uma marca do nosso tempo. Sem vínculos, nos movemos no emaranhado de informações que as redes sociais, quase anônimas, nos vendem como uma verdade. No entanto, a dinâmica da vida cristã nos faz reconhecer o dom: ser uma pessoa de fé é dar graças. A ausência de gratidão responde pela ausência da fé. A fé ignora fronteiras porque o dom suprime as barreiras, pois a salvação de Deus é para todos os povos. A oração é possível em qualquer parte do mundo e em qualquer lugar. Cristão não é o que pede graças ou recebe graças, mas o que dá graças. Eucaristia significa, literalmente, dar graças e o homem eucarístico é o do reconhecimento do dom. A ação de graças não se esgota na oração, pois a gratidão mais perfeita se exprime na alegria de viver e a melhor maneira de dar graças ao Senhor é celebrar a vida com cantos e festas de alegria. A autoridade de Jesus vinha da sua surpreendente alegria e, por esta razão, se um irmão ou irmã estiver triste é nossa responsabilidade ajudá-los a reencontrar a felicidade. Se desejarmos conhecer a alegria do Evangelho, não devemos querer escapar do sofrimento do mundo, mas ter a coragem de imergir nele para encontrar a alegria de Deus. Querer uma alegria sem conhecer a tristeza é viver num mundo de fantasias e de evasão da realidade. Não temos o direito de receber dons e fugir para desfrutá-los sozinhos, temendo que nos sejam tirados. A dificuldade de sermos gratos a Deus nasce do fato de não sabermos ser gratos aos outros. No evangelho, os dez leprosos viviam juntos, pois a lepra os aproximava sem distinção. No entanto, a cura os separou definitivamente e o leproso curado, que deu graças, continuou samaritano. Os outros nove, que eram judeus, ficaram presos à letra da Lei, encerrados na cômoda certeza de ter cumprido todos os seus deveres. Eles não encontraram Deus onde Ele se deixou encontrar. Voltaram para o Templo e para suas obrigações religiosas. O samaritano volta ao lugar onde recebeu o dom divino da misericórdia, pois a gratidão é a marca de um homem salvo.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Btas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)


CONTEMPLAR

Cura dos dez leprosos, anônimo, 1035-1040, Codex Aureus Epternacensis.