segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Caminho da Beleza 07 - Epifania do Senhor

O Caminho da Beleza 07
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Epifania do Senhor                   05.01.2014
Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3- 3.5-6                  Mt 2, 1-12


ESCUTAR

 “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados a mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 6).

“O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém” (Mt 2, 3).


MEDITAR

“A Igreja Católica exorta seus filhos ao diálogo e à colaboração com os seguidores das outras religiões, para que dêem o testemunho da fé e da vida cristã, reconhecendo, servindo e promovendo os bens espirituais e morais assim como os valores socioculturais presentes nelas” (Nostra aetate, 2).

“Temos de renunciar ao cristianismo, se nos obrigarem a renunciar a essas dialéticas esquartejantes dos sentimentos cristãos, reduzindo-as à escala das sentimentalidades cômodas. Temos que romper a puerilidade de um cristianismo que produz homens delicados e frágeis que nunca avançam para uma fé comprometida, pois ‘vivem tremendo e murados em suas defesas’” (Emmanuel Mounier).


ORAR

Hoje é a festa da luz porque a manifestação do Senhor, a sua epifania, é inseparável da luz. Quando o Senhor se manifesta, existem os que ao responder se colocam em caminho e buscam. Há outros, porém, que se escondem e dissimulam as suas vidas e os seus encontros. Os magos foram tomados de uma imensa alegria enquanto Herodes ficou perturbado assim como a Jerusalém do poder e do saber. Os sumos sacerdotes e os escribas foram convocados para uma reunião de emergência e nela manifestam a sua inquietude e desconfiança. É significativo que a aparição da “bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4) suscite perturbação nos que detêm o poder civil e religioso. A presença de Deus que se manifesta na fraqueza surge como um perigo e uma ameaça para a ordem estabelecida e para as posições consolidadas. O Cristo constitui uma ameaça para o nosso reino privado ao colocar em xeque nossos equilíbrios cansados e nossas falsas seguranças. O Papa Francisco afirma: “Preferem uma vida enjaulada em seus preceitos, em seus compromissos, em seus planos revolucionários ou em sua espiritualidade desencarnada” (Homilia 20.12.2013). O cristão lúcido sabe que é melhor a perturbação do que a indiferença; é melhor a hostilidade do que a neutralidade; é melhor a recusa do que a ambiguidade. O cristão sabe que é necessário um coração para assombrar-se e alargar-se. O profeta desvela a expansão da luz e a sua alegria contagiosa. O evangelista, por sua vez, dá a conhecer o medo dos sábios cuja busca finda em suas bibliotecas palacianas, no meio dos pergaminhos cobertos de pó nos quais procuram sentenças definitivas. O caminho, com as suas imprevisibilidades e surpresas, não é o seu assunto. O coração dos magos é o coração dos que buscam, apaixonadamente, abrigar o mistério. O coração dos detentores do poder é árido, mesquinho e intolerante. Os magos nos revelam que entre o relâmpago do surgimento da estrela e o seu acompanhamento até o último trecho do caminho seremos assomados por dúvidas, cansaços, perdas e desilusões, mas, sobretudo, por esperanças. A estrela surge como uma chispa de fogo, acende o desejo e só volta a brilhar intensa e permanentemente no final quando o encontro se realiza. A busca não é nunca uma marcha triunfal: implica numerosas partidas e recomeços e não devemos dela esperar manifestações espetaculares. O que conta é a perseverança: a capacidade de não desertar, de não ceder ao desalento, de não se desviar para cômodos refúgios e nem se contentar com conquistas provisórias; a obstinação para caminhar quando tudo parece inútil, absurdo e impossível. E o que mais conta ainda é o discernimento de que para adorar a Deus é preciso nos deter diante do mistério do mundo e saber olhá-lo com amor. Quem olha a vida amorosamente começará a vislumbrar as vibrações de Deus antes mesmo de ser envolvido por elas.


CONTEMPLAR


O Retorno dos Magos, Giovanni da Modena, c. 1412, afresco, Basílica de São Petronio, Bolonha, Itália.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família


O Caminho da Beleza 06
Leituras para a travessia da vida

 
“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

 

Sagrada Família de Jesus, Maria e José             29.12.2013
Eclo 3, 3-7.14-17              Cl 3, 12-21               Mt 2, 13-15.19-23

 

ESCUTAR

 
“Quem honra o seu pai alcança o perdão dos pecados... quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros” (Eclo 3, 4).

 
“Vós sois amados por Deus, pois sois os seus santos eleitos” (Cl 3, 12).

 
“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2, 14).

 


MEDITAR

 
“Ele armou sua tenda entre nós e nos revelou que o amor não conhece limites nem definições restritivas; ele leva aquele que ama ao ponto de desistir da própria vida pelo bem dos outros. Ele vai acima e além da linha do dever. É claro, isto é extravagante e absurdo, mas o Reino de Deus é para as aventuras da fé. Não é uma recompensa para a mediocridade” (Manos da Terna Solidão).

 
“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos (Francisco, Evangelii Gaudium).

 

 

ORAR

 

Jesus viveu uma vida familiar durante trinta anos em Nazaré. Não são anos obscuros, mas vibrantes nos seus gestos, palavras e costumes porque são a irradiação do eterno, sacramentos do divino e sinal resplandecente do Deus-Conosco. Jesus foi educado numa família comum, revelou o rosto do Pai no marco modesto de sua casa, o santuário em que permaneceu mais tempo. A casa de Nazaré não é, simplesmente, a sala de espera antes da sua partida para o testemunho público e o anúncio da Boa Nova. A família de Nazaré é o lugar do encontro com os homens e mulheres do seu tempo, da sua mensagem universal de amor, da sua palavra silenciosa e da transfiguração do humano. A sua casa de Nazaré foi o seu primeiro lugar de oração. Jesus nunca deixou para os seus as migalhas da sua atenção ainda que soubesse que o profeta nunca é bem recebido em sua casa e ainda que muitos dos seus parentes O considerassem como louco. Jesus não lhes foi indiferente, nem se irritou e nem se deixou dominar pela impaciência. Testemunhava que não poderia haver amor se não houvesse uma acolhida incondicional. A festa da Sagrada Família é a festa da liturgia do cotidiano feita de hospitalidade recíproca, pequenos gestos, palavras simples, carícias distribuídas sobre as pequenas feridas do outro, ternura manifestada sem falsos pudores e gratidão pela presença samaritana dos que estão perto de nós. Devemos ser uma comunidade familiar, uma Igreja doméstica profundamente unida porque nos alicerçamos sobre a adesão comum e incondicional aos desígnios de Deus.

 

 
CONTEMPLAR

 
Numa aldeia na fronteira com o Sudão, Sebastião Salgado, 1985, foto, Chade, África.
 
 
 
 

 

 

 

 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O Caminho da Beleza 05 - Natal de Jesus


O Caminho da Beleza 05
Leituras para a travessia da vida

 
“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Missa do dia de Natal               25.12.2013
Is 52, 7-10               Hb 1,1-6                   Jo 1, 1-18

 
 
ESCUTAR

 
“Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação, e diz a Sião: ‘Reina teu Deus!’” (Is 52, 7).

 
“Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei” (Hb 1, 5).

 
“E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

 

MEDITAR

 
“Vê, aí está ele – o deus. Onde? Aí mesmo; não podes vê-lo? Ele é o deus e, não obstante, não tem onde repousar a cabeça, e não ousa apoiar-se em nenhum homem para não vir a escandalizá-lo. Que vida! puro amor e pura aflição: querer exprimir a unidade do amor e aí não ser compreendido; ter de temer a perdição de cada um e, no entanto, não poder, em verdade, salvar um único homem a não ser desta maneira” (Soren Kierkegaard).

 
“Com sua encarnação, Cristo colocou-se entre mim e as circunstâncias do mundo (...). Não se coloca apenas entre mim e Deus, mas está igualmente entre mim e o mundo, entre mim e os outros seres humanos e coisas. Ele é o mediador, e isso não somente entre Deus e os seres humanos, mas também entre ser humano e ser humano, e entre o ser humano e a realidade” (Dietrich Bonhoeffer).

 

ORAR


Nem Maria, nem José e nem os pastores sabiam o que era Natal e muito menos Herodes. Infelizmente, os cristãos, acreditam saber o que é, como deve ser, quando chega e até quando dura o Natal. Tudo funciona como o previsto, nenhuma surpresa deverá atrapalhar a festa natalina que se repete ano a ano e nela o Emmanuel está excluído ainda que finjamos a sua acolhida. O protagonista do natal cristão é outro: é um Deus que nasce numa criança pobre, em terra estrangeira, que não é tranquilizador, não está previsto em nosso cerimonial natalino e muito menos satisfaz o nosso sentimentalismo religioso. Hoje celebramos a libertação, a consolação e a alegria se realizando em plenitude neste dia de luz legado ao cristianismo, na sua origem, pela celebração pagã do Sol Invicto. Hoje surge um novo dia, as sentinelas anunciam uma luz indestrutível e a escravidão foi aniquilada. Deus ergue a sua tenda do encontro com os homens e mulheres e a plenitude da vida resplandece neste Menino visível, acessível e palpável. O Natal é a celebração da unidade de todo o ser em Cristo. O Natal nos convida a um ato de justiça, de perdão, de doação e de compreensão. O Natal suscita a ternura, a mesma manifestada por Deus neste dia e sempre. Nossa vida é iluminada, confortada e encorajada pela presença da Criança de Belém que modifica todas as perspectivas, abre-nos uma verdadeira esperança e nos convida a uma vida de amor. Neste dia devemos proclamar que o importante não é que o homem tenha caminhado sobre a lua, o importante é que Deus tenha caminhado sobre a terra. Ninguém está excluído da alegria deste dia e nele devemos nos despojar do peso dos nossos ressentimentos e remorsos para que a alegria da novidade volte a habitar o nosso coração e a nossa vida como “crianças recém-nascidas” (1 Pd 2, 2). Meditemos as palavras do Papa Bento XVI: “A Palavra eterna fez-se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. Fez-se criança para que a Palavra possa ser compreendida por nós. Desde então a Palavra já não é apenas audível, não possui somente uma voz; agora a Palavra tem um rosto, que por isso mesmo podemos ver: Jesus de Nazaré” (Verbum Domini 12).

 

CONTEMPLAR

 
Filho de Deus nascido (Te Tamari no Atua), Paul Gauguin, 1896, óleo sobre tela, Neue Pinakothek, Munique, Alemanha.
 



 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O Caminho da Beleza 04 - IV Domingo do Advento


O Caminho da Beleza 04
Leituras para a travessia da vida

 
“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

 
 
IV Domingo de Advento                      22.12.2013
Is 7, 10-14               Rm 1, 1-7                 Mt 1, 18-24

 

ESCUTAR

 
“Será que achais pouco incomodar os homens e passais a incomodar até o meu Deus?” (Is 7, 13).

 
“É por ele que recebemos a graça da vocação para o apostolado, a fim de podermos trazer à obediência da fé todos os povos pagãos, para a glória do seu nome” (Rm 1, 5).

 
“José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo” (Mt 1, 20).

 


MEDITAR

 
“Havendo Deus de ter Mãe, não podia ser senão virgem, e havendo uma virgem de ter um Filho, não podia ser senão Deus” (São Bernardo de Claraval).

 
“Até que ponto São José penetrou na intimidade de Deus? Não o sabemos. São José, que tanto tem a dizer, não fala: guarda dentro de si as grandezas que contempla: dentro dele erguem-se montanhas sobre montanhas, e as montanhas são silenciosas” (Ernest Hello).

 


ORAR

 
Maria e José nos ensinam que uma fé se cumpre na obediência e sem nenhuma pressa, pois para Deus o tempo não existe: tudo acontece na eternidade. Sem pressa, Abraão e Sara são agraciados na velhice com Isaac, a gargalhada de Deus; sem pressa, Zacarias e Isabel se tornaram fecundos ao gerar João; sem pressa, Maria aceitou acolher, em seu ventre, o silencioso mistério que se revelava fecundo entre ela e a sombra do Espírito que pousara sobre seu corpo de mulher. Sem pressa, José assumiu a paternidade de uma criança que não era de sua semente e o fez antes mesmo que o Anjo lhe confirmasse que a criança no ventre de Maria era o da divina Promessa, o rebento de Davi esperado em Israel. Paulo nos exorta: “Ninguém vive nem morre só para si... mas, quer por nossa vida quer por nossa morte, pertencemos a Cristo” (Rm 14, 7-8). O evangelho revela que o desígnio de Deus se realiza além da linhagem carnal. É por meio de Jesus, de Nazaré, que Deus se faz Emmanuel, mas para que isto se realizasse foi necessário que tanto José quanto Maria abrissem mão do seu projeto pessoal, do seu futuro familiar, para acolher, sem reservas, as promessas de Deus. Este Menino, que nos foi dado, tem a envergadura infinita de cada homem e cada mulher que vive sem pressa ao permitir que Deus seja uma manifestação luminosa em suas vidas por veredas que só Ele conhece. Esta manifestação se realiza no poder de servir e nunca nos que se servem do poder para cercear a liberdade e comprar as consciências. Assim devemos viver para a vida eterna na qual serão abolidas todas as urgências e as pressas. Como nos garante o teólogo do sertão, João Guimarães Rosa: “Deus é urgente sem pressa!”.

 

 
CONTEMPLAR

 
O sonho de São José (detalhe), Cláudio Pastro, painel central em azulejos da Capela de São José, Basílica Nossa Senhora da Aparecida, Brasil.
 
 
 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Caminho da Beleza 03 - III Domingo do Advento


O Caminho da Beleza 03
Leituras para a travessia da vida

 
“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

 

III Domingo do Advento                     15.12.2013
Is 35, 1-6.10                       Tg 5, 7-10                Mt 11, 2-11

 

ESCUTAR

 
“Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar’” (Is 35, 4).

 
“Também vós, ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5, 8).

 
“O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis” (Mt 11, 7-8).

 

MEDITAR

 
“Nunca nos poderemos aproximar do mistério se não tivermos a lúdica liberdade dos filhos de Deus, se não fizermos experiências e errarmos e avançarmos às apalpadelas para a verdade (...) os cristãos deveriam ser aqueles que continuam a levantar questões, quando todos os outros pararam de o fazer” (Timothy Radcliffe).

 
“Senhor, eu te agradeço porque não sou uma engrenagem do poder. Eu te agradeço porque sou um daqueles que o poder esmaga” (Rabindranath Tagore).

 

ORAR

 
As leituras de hoje convidam à paciência para fortalecer as mãos enfraquecidas e firmar os joelhos debilitados. Devemos permanecer firmes e com nossos corações reanimados. A paciência cristã é uma força ativa e nada tem a ver com a inércia, a indiferença e com uma postura derrotista. A paciência verdadeira nos coloca em pé e nos faz defender as convicções que moldam e determinam as vidas. O lavrador é paciente depois de haver trabalhado como era preciso e pode esperar o fruto após ter semeado. O cristão e os de boa vontade são pessoas talhadas na paciência: não se rendem e nem se dão por vencidos mesmo quando derrotados. Vivem as contradições e para eles nada é definitivo, pois aprendem a viver na provisoriedade das coisas. O Cristo nos ensina, paradoxalmente, que para ter paciência é necessário ter fogo dentro, um fogo permanente e não uma chama que dura um instante. O deserto floresce na paciência e cada um de nós é fruto da paciência de Deus. No Natal, Deus decide viver esta paciência amorosa de uma maneira mais próxima e mais impaciente. Ele quer se tornar companheiro de viagem e nesta viagem deseja que deixemos de ser mancos, de arrastar pesadamente os pés para que saltemos como um cervo. Quer que rompamos o selo de nossa boca para que desatada a língua, possamos gritar palavras de amor e liberdade. Os sinais estão nas entranhas da misericórdia dos que exercem a compaixão e a solidariedade. Para isto é necessário que abandonemos o palácio do rei e suas suntuosas vestes. Como afirma o Papa Francisco: “A cultura do bem estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, nos faz insensíveis ao grito dos outros; nos faz viver em bolhas de sabão que são bonitas, mas não são nada. São a ilusão do fútil, do provisório que conduz à indiferença com os outros, ou melhor, leva a uma globalização da indiferença”. Se ainda tivermos dúvidas quanto a isto, é o momento de nos apresentarmos diante do Cristo, na fila dos surdos e dos cegos para que nos cure. É preciso, mais do que nunca, que perguntemos aos surdos e escutemos a explicação dos mudos.

 

CONTEMPLAR

A decapitação de São João, o Batista, Pierre-Cécile Puvis de Chavannes, c. 1869, óleo sobre tela, 240 x 316 cm, National Gallery, Londres, Reino Unido.
 
 
 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O Caminho da Beleza 02 - II Domingo do Advento


O Caminho da Beleza 02
Leituras para a travessia da vida

 
“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

 

Imaculada Conceição de Nossa Senhora                        08.12.2013
Gn 3,9-15.20                     Ef 1, 3-6.11-12                    Lc 1, 26-38

 

ESCUTAR

 
“Adão disse: ‘A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu o fruto da árvore e eu comi’” (Gn 3, 12).

 
“Ele nos predestinou para sermos filhos adotivos” (Ef 1, 5).

 
“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lc 1, 28).

 

MEDITAR

 
“O papel da mulher na Igreja é de serviço, não de servidão” (Francisco).

 
“O que é bom para mim se Maria deu à luz ao Filho de Deus 1400 anos atrás e eu não dou à luz ao Filho de Deus na minha própria pessoa e no meu tempo e cultura? (...) Nós somos todos predestinados a ser mães de Deus” (Mestre Eckhart).

 

ORAR

 
A festa que hoje celebramos é festa da Mulher cuja descendência vencerá completamente o Mal e a Morte, pois existe uma hostilidade recíproca entre a serpente, símbolo do Mal, e a descendência da Mulher. Maria não é imaculada por seu próprio mérito, mas por um dom de Deus e o é desde o começo da sua existência quando a sua vontade não podia ainda intervir e se manifestar. E, também nós, o Pai “em Cristo, nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor”. A santidade cristã não é uma santidade de separação, mas de amor e comunhão. Ser imaculado significa se separar do mal e não das pessoas. A Imaculada Conceição não separa Maria dos outros homens e mulheres, mas, ao contrário, a predispõe a um amor maior e mais universal. Maria prepara o seu coração ao dar-se com uma generosidade ilimitada para o bem de todos em união com a entrega total e amorosa do seu Filho: a ternura de Deus encarnada. Ela manifesta a sua santidade ao não conceber e alimentar sentimentos de orgulho em razão desta grande dignidade que lhe é prometida. Maria se apresenta como serva e se coloca absolutamente disponível aos desígnios de Deus. A Imaculada Conceição participa deste desígnio de amor e nos prepara não somente para a festa de Natal, mas para o mistério pascal de Jesus. Identificada aos pobres de Deus, Maria testemunhará o seu Filho se deixar tocar por impuros, se sentar com pecadores, ter entre seus seguidores mulheres, discípulos de má fama e morrer crucificado entre malfeitores. A comunidade eclesial deve viver esta disponibilidade de Maria e de Jesus: um amor desnudado, sem normas nem enfeites, em que a santidade resplandece sem ideologia, sem interesses e em estado puro. Somos todos filhos das entranhas do Senhor (Is 49, 15) e Clemente de Alexandria escreveu: “pela sua misteriosa divindade, Deus é Pai. Mas a ternura que tem para conosco transforma-o em Mãe. Amando, o Pai torna-se feminino”. Vamos encarnar, nesta festa de Maria, as bodas definitivas da ternura de Deus com a humanidade, prometida desde a criação e vingada em Jesus de Nazaré, o Emmanuel, Deus-Conosco.

 

CONTEMPLAR

A Anunciação, Henry Ossawa Tanner, 1898, óleo sobre tela, 57,0”x 71,25”, Philadelphia Museum of Art, Estados Unidos.
 
 
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento


O Caminho da Beleza 01
Leituras para a travessia da vida

 
“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

 

I Domingo de Advento             01.12.2013
Is 2, 1-5                    Rm 13, 11-14                      Mt 24, 37-44

 

ESCUTAR

 
“Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate” (Is 2, 4).

 
“A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz” (Rm 13, 12).

 
“Por isso, também vós ficai preparados! Porque, na hora em que menos pensais, o Filho do homem virá” (Mt 24, 44).

 

MEDITAR

 
“Quando quer manifestar a sua vontade, Deus evita cuidadosamente as pessoas que pertencem ao mundo religioso, refratárias e hostis a qualquer novidade que venha perturbar as seguranças delas, e escolhe simplesmente ‘um homem’, sem qualquer outro título a não ser o de pertencer à humanidade” (Alberto Maggi).

 
“A esperança não é a convicção de que alguma coisa acabará bem, mas a certeza de que alguma coisa tem sentido, independentemente do modo como acabar” (Vaclav Havel).

 

ORAR

 
Nestes tempos de Advento, somos chamados a despertar do sonambulismo, da indiferença e da insensibilidade. O papa Francisco nos questiona: “Onde estamos nós ancorados, cada um de nós? Estamos ancorados precisamente na margem daquele oceano tão distante ou estamos ancorados num lago artificial que nós construímos com as nossas regras, os nossos comportamentos, os nossos horários, os nossos clericalismos, as nossas atitudes eclesiásticas e não eclesiais? Estamos ancorados ali? Tudo cômodo, tudo seguro? Aquilo não é a esperança.” A enfermidade do sonambulismo, como uma epidemia, tem afetado as igrejas em todos os lugares e tempos. O Cristo está no meio de nós e, sem temor, devemos permanecer perto da sua vinda: “Não é necessário atravessar mares, penetrar nuvens ou transpor montanhas; não é um caminho muito longo que nos é proposto: basta entrarmos em nós mesmos para correr ao encontro do nosso Deus” (Bernardo de Claraval). As igrejas devem se desinstalar, pois a espera do Senhor não é um plácido repouso, mas uma transformação. A espera do Senhor é um desenraizamento que nos faz ver mais longe e o horizonte para o qual avançamos é atual. O tempo do Advento se abre com a urgência de um despertar e de um colocar-se a caminho. Como no dilúvio, somos impotentes para ler os sinais dos tempos e nos aferramos ao ramerrão do cotidiano: “Pois, nos dias antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e se davam em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca”. Temos nos condenado a um frenético ativismo e concentramos nossas forças para conquistar uma eficiência administrativa em que se entrelaçam negócios e apostolados, poder e religião, num escapismo que nos leva a não dar conta de nada. Tudo isto aponta para um estado de não vigilância que desemboca numa agitação mundana sinalizada pelo arrivismo, pelas disputas internas, pelas invejas e pelas mesquinharias. É o momento de nos darmos conta de que o tempo de Deus penetrou no tempo dos homens e que este instante é um instante eterno. E o que importa é o agora e a grande ocasião que não podemos perder é a de hoje. Meditemos o canto do salmista: “Pois ele é o nosso Deus e nós o seu povo, o rebanho do seu aprisco. Oxalá lhes deis atenção hoje” (Sl 95, 7).

 
CONTEMPLAR

O sol no ventre, Arcabas (Jean-Marie Pirot), 1984, óleo sobre arcadas 660 g., 112 x 56 cm, coleção particular, França.
 
 
 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O Caminho da Beleza 53 - Cristo, Rei do Universo


O Caminho da Beleza 53
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Cristo, Rei do Universo                       24.11.2013
2 Sm 5, 1-3              Cl 1, 12-20               Lc 23, 35-43


ESCUTAR

“Tu apascentarás o meu povo Israel e serás o seu chefe” (2 Sm 5, 2).

“Ele nos libertou do poder das trevas e nos recebeu no reino do seu Filho amado” (Cl 1, 13).

“Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado” (Lc 23, 42).


MEDITAR

“Ninguém dá o que não tem. Se um homem não se aceita plena e verdadeiramente, tanto em sua inteireza como em sua fragilidade, ele tampouco pode se dar inteiramente a outra pessoa nem aceitar inteiramente a outra pessoa” (Todd A. Salzman e Wichael G. Lawler).

“Nessas andanças arriscadas podem cometer erros. Podem até receber uma carta da Congregação para a Doutrina da Fé recriminando suas atitudes. Não se preocupem! Expliquem e sigam adiante! Abram portas e façam algo, onde a vida clama! Prefiro uma Igreja que comete erros a uma Igreja que adoece por ficar fechada” (Papa Francisco aos religiosos da Conferência Latino-Americana e do Caribe).


ORAR


Davi tem uma investidura real plebiscitária: “Todas as tribos de Israel vieram encontrar com Davi em Hebron e disseram-lhe: ‘Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne’”. Jesus, o Cristo, da descendência de Davi, ao contrário, é contestado em sua realeza: o povo adota uma posição neutra e oportunista; os soldados O insultam e a inscrição colocada sobre a sua cabeça é um zombaria. Somente um delinquente comum o reconhece como rei. Davi foi vitorioso com a força das armas nas suas batalhas; Jesus, ao contrário, aparece sobre a cruz como perdedor, pois são os seus inimigos que possuem as armas. Onde está a cruz, não há lugar para sinais de força. A tortura foi o seu manto, os espinhos a sua coroa, a proscrição o seu cetro, as provocações e os escárnios foram a sua aclamação. Cristo quer ser reconhecido como rei unicamente por meio de uma adesão livre, no amor, sem coação alguma e nenhuma imposição. Cristo é um Rei vencido pela força, mas vitorioso na fraqueza da ternura e jamais poderá aceitar a honra das armas nem que seja por puro adorno. No calvário, Cristo está coroando não uma conquista espetacular, mas uma obra de reconciliação e de paz. Cristo em seu “palácio” oferece asilo aos “malfeitores” que nele encontram um refúgio seguro e se cerca de súditos “pouco recomendáveis”. Um destes o reconhece explicitamente como rei e se converte no primeiro cidadão do seu Reino. O Reino do Cristo é o reino do Inocente condenado, da inocência achincalhada. É o Reino invisível Daquele que faz irromper no mundo a dimensão do perdão e o perdão para todos, inclusive para os que brilham por sua covardia, pois são os que sempre lavam as mãos. A Igreja de Jesus é sempre ameaçada pelo triunfalismo, em nome do Cristo Rei, para garantir um império como o dos ditadores e não perder o domínio e o privilégio de suas conquistas terrenas. O desafio está lançado no alto do Calvário: ou empenhamos nossas vidas para o serviço aos outros, ou procuraremos o poder e nos converteremos em seus escravos. O “bom ladrão” não obtém de Cristo a salvação física, como pretendia o seu parceiro, mas a salvação total. Jesus, o Rei e Messias crucificado, reúne todo o universo e nos revela, para todo o sempre, que a felicidade em Deus consiste em ser o dom de si mesmo.


CONTEMPLAR

Crucifixão e Deposição, Missal de Reims (Missale Remenense), 1285-1297, pergaminho, 23, 3 x 16, 2 cm, Paris, França.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum








O Caminho da Beleza 52
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXXIII Domingo do Tempo Comum                     17.11.2013
Ml 3, 19-20             2 Ts 3, 7-12             Lc 21, 5-19


ESCUTAR

“Para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas” (Ml 3, 20a )

“Quem não quer trabalhar, também não deve comer” (2 Ts 3, 10).

“Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome dizendo: ‘Sou eu!’ e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não sigais essa gente” (Lc 21, 8).


MEDITAR

“Crescemos na escola de Caifás, um professor que nos obrigou a copiar milhões de vezes no caderno de nossa existência que poder, riqueza e prestígio são os pilares de um mundo feliz. Frente a esta aprendizagem gravada a fogo na alma de nossa cultura, o caminho até a felicidade distópica do Reino – serviço, pobreza e humildade – exige uma conversão social e pessoal nada fácil e nem evidente” (José Laguna).

“Há que dizer a verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade. Dizer cruamente a verdade crua, preocupadamente a verdade que causa dano, tristemente a verdade triste. Quem não proclama a verdade quando a conhece se torna cúmplice dos mentirosos e dos covardes” (Charles Pèguy).


ORAR


Teremos sempre que enfrentar a hora decisiva e a lucidez exige afrontar a soberba e a injustiça que tem raiz e ramos dentro de nós. Temos que atiçar o fogo ardente para queimar como palha tudo o que dentro de nós faz parte de um mundo decrépito e inaceitável aos olhos de Deus. Devemos aniquilar a astúcia humana que cultiva a ilusão de que pode possuir o segredo do momento e, por esta razão, tentamos o Senhor: “Mestre, quando vai ser isto? E qual será o sinal que tudo isto está para suceder?”. São sempre as mesmas e tediosas perguntas repetidas até a náusea – “quando?” e “como?” – para que possamos aniquilar o risco de sermos surpreendidos. Jesus nos apela à perseverança, pois “é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim”, pois os dias dos homens, os dias do antes também são dias do Senhor, dias em que se desenvolve o juízo. O único tempo certo é o tempo da conversão. A existência do cristão encontra o seu ponto de equilíbrio no concreto do compromisso cotidiano sério e sereno, evitando os extremos opostos do fanatismo e da inércia. Paulo fez-se construtor de tendas para sobreviver do próprio trabalho e não onerar a comunidade eclesial e Jesus afirma que do templo não “ficará pedra sobre pedra”: “O Senhor repudiou o seu altar, desfez o seu santuário, afundou na terra as portas, quebrou os ferrolhos, estendeu o prumo e não retirou a mão que derrubava” (Lm 2, 5-9). No lugar do Templo, Deus oferece uma tenda que, em sua provisoriedade, é necessária como resguardo e lugar de encontro dos nômades. E ainda assim continuam a perguntar: “O fim do mundo é para amanhã?”. Jesus dá a resposta: “O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui, está ali, pois o Reino de Deus está no meio de nós’” (Lc 17, 20-21). E podemos responder tranquilamente: “Não, o fim anunciado é hoje” e por mais que na arrogância queiramos materializar os símbolos de proteção e poder em fortalezas, templos, palácios e igrejas de pedra, Aquele que nasceu numa manjedoura, que morreu suspenso numa cruz e saiu vivo e nu de um túmulo despojado, garante, para todo o sempre, que somos o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em nós (cf. 1 Cor 3, 16).


CONTEMPLAR

Oscar Romero de El Salvador, ícone, anônimo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Caminho da Beleza 51 - XXXII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 51
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXXII Domingo do Tempo Comum                       10.11.2013
2 Mc 7, 1-2.9-14                2 Ts 2, 16- 3, 5                   Lc 20, 27-38


ESCUTAR

“Prefiro ser morto pelos homens tendo em vista a esperança dada por Deus, que um dia nos ressuscitará” (2 Mc 7, 14).

“Que o Senhor dirija os vossos corações ao amor de Deus e à firme esperança em Cristo” (2 Ts 16, 5).

“Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para ele” (Lc 20, 38).


MEDITAR

“Deus não precisa ser representado. Ele é ele próprio. Isto basta. Deus não é uma criatura tão desvalida a ponto de precisar de porta-vozes o tempo todo. E quando ele quer falar, ele o faz na alma de cada pessoa” (Eugen Drewermann).

“Não somos espíritos, somos pessoas... Nos veremos à nós, humanos sempre, nos veremos sempre humanamente, ainda que nos vejamos ‘em sua luz’. A corporeidade humana é indestrutível. Será transformada” (D. Pedro Casaldáliga).


ORAR

Jesus nos faz entender que a instituição do matrimônio enquanto tal não tem razão de ser na outra vida. Isto não significa que na eternidade tudo será varrido, pois o que se semeou nesta terra no que se refere ao amor autêntico, à amizade, à fraternidade, certamente não desaparecerá. Ao contrário, tudo encontrará a sua plenitude e a sua máxima expressividade na transfiguração dos corpos. Devemos reter duas imagens. A primeira, “são como anjos”, pois a vida eterna estará consagrada ao louvor e à ação de graças em plena comunhão com Deus e entre nós. A segunda, “são filhos de Deus”, o que nos faz entrever uma relação de intimidade como a que existe entre o Pai e o Filho. O Senhor nunca permitirá que o vínculo da aliança se rompa por este corte brutal que é a morte. Estarmos destinados à vida eterna significa, principalmente, estarmos muito vivos no presente. O amor de Deus impede que nos percamos ao longo do caminho. A paciência do Cristo representa um antídoto contra o cansaço e a desilusão. Não temos o direito, como cristãos, de colocarmos a Jesus questões destinadas a ridicularizar o que acreditamos. Jesus afirma antes de mais nada que a sexualidade sobre a qual também repousa a bênção de Deus (cf. Gn 1, 28) é transitória e que ela pertence à condição terrestre dos seres humanos e exprime uma realidade que a transcende. Esta realidade é a fidelidade, a aliança nupcial de Deus com o seu povo, com todos os homens e mulheres: “Naquele dia – oráculo do Senhor – tu me chamarás Esposo meu, já não me chamarás Ídolo meu [...]. Eu me casarei contigo para sempre, eu me casarei contigo a preço de justiça e de direito, de afeto e de amor” (Os 2, 18.21). Não é a procriação que assegura a vida eterna, mas o poder de Deus e sua misericórdia.



CONTEMPLAR

A Ressurreição, William Blake, s.d., aquarela sobre lápis no papel, 21 x 20,5 cm, coleção particular.