segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXXIII Domingo do Tempo Comum                     19. 11.2017
Pr 31, 10-13,19-30.30-31                      1 Ts 5, 1-6                Mt 25 14-30


ESCUTAR

Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre (Pr 31, 20).

Não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios (1 Ts 5, 6).

Todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância (Mt 25, 29).


MEDITAR

Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo o caminho da gente é resvaloso. Mas também cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha...O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem – que Ele é bondade adiante... (João Guimarães Rosa).


ORAR

Não há espetáculo mais deprimente do que o de um cristão que esconde o seu talento, que mascara a sua fé e dissimula a sua pertença a Cristo ao sepultar a Palavra. Mais deprimente ainda é reduzir a Palavra a um moralismo barato ou a uma celebração triunfalista. Não há deformação mais vil do que a das igrejas que se isolam para contemplarem, satisfeitas, os talentos recebidos. Guardar não é o mesmo que semear e Deus tem o direito de nos pedir coragem, liberdade e responsabilidade. Nossa relação com Deus não pode ser reduzida a uma relação servil de uma miserável contabilidade de toma lá dá cá. A parábola dos talentos não é uma estória de medos e ameaças, mas uma luta contra os medos e a afirmação da nossa liberdade de correr riscos. O medo bloqueia e nos faz mergulhar na inutilidade, pois “quem afrouxa na saída ou se entrega na chegada não perde nenhuma guerra, mas também não ganha nada” (G. Vandré). Se damos a Deus apenas o que Ele nos deu, na realidade não lhe damos nada. O talento que mantemos enterrado como cimento de nossa segurança é a expressão da esterilidade da nossa vida. Jesus exige de nós a audácia, a coragem e a disposição ao risco. Somente quem é capaz do risco receberá a amizade de Jesus e encontrará o sentido da vida. Devemos romper a nossa acomodação e vingar o livro dos Provérbios: “Dá bebida ao andarilho e vinho ao aflito para que beba e esqueça a sua miséria e não se lembre de seus sofrimentos. Abre a tua boca a favor do mudo e em defesa do desventurado. Abre a tua boca e dá a sentença justa, defendendo o pobre e o infeliz” (Pr 31, 6-9). A fé no Cristo é o risco de todos os riscos e para todos o mesmo salto no vazio, mas é também alegria, promessa, ternura, amor e vida em abundância.


CONTEMPLAR

Sertão sem Fim, 2009, Araquém Alcântara (1951-), Florianópolis, Brasil.





segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O Caminho da Beleza 51 - XXXII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXXII Domingo do Tempo Comum                       12.11.2017
Sb 6, 12-16              1 Ts 4, 13-18                       Mt 25, 1-13


ESCUTAR

A sabedoria é resplandecente e sempre viçosa. Ela é facilmente contemplada por aqueles que a amam, e é encontrada por aqueles que a procuram (Sb 6, 12).

Não fiqueis tristes como os outros, que não têm esperança (1 Ts 4, 13).

“No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ (Mt 25, 6).


MEDITAR

Quem me compreende como o Eterno, o Anônimo,
o Imanifesto, o Inconcebível, o Supremo,
não limitado de forma alguma,
o Infinito,
quem me adora desse modo e, contudo, vê a minha presença
em todos os seres
e, praticando o bem,
vive alegremente,
esse acabará por unir-se a mim.

(Krishna, em “do amor universal”, bhagavad-gita, século 1 a.C.)


ORAR

A sabedoria não se encontra somente nas universidades, igrejas e templos. Ela é oferecimento e busca: “Ela é facilmente contemplada por aqueles que a amam, e é encontrada por aqueles que a procuram”. No evangelho de hoje, a necessidade da sabedoria soma-se ao convite de estar vigilantes. Cristo não nos pede que renunciemos ao descanso, mas que rompamos com tudo que se opõe à vida e à luz. A vigilância é a capacidade de acolher o momento presente, pois a esperança não se encontra fora do tempo. O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer afirma que devemos levar a sério as realidades últimas e, ao mesmo tempo, tomar posições decididas diante das penúltimas. É necessário viver a plenitude de cada instante. A hora da chegada do Esposo não pode ser improvisada. É uma hora como as outras. A sabedoria é o sinal luminoso da espera vigilante e da capacidade de sentir o tempo que se faz breve. Deus se atrasa porque, paradoxalmente, é a sua característica de ser pontual. É urgente sem pressa. O noivo estava demorando e não sabemos o dia e nem a hora da sua chegada. Deus sempre chega pontualmente na sua hora, mas por meio de uma sucessão interminável de atrasos em relação aos nossos vorazes relógios. A vida é eterna não por causa da sua duração indefinida, mas pela sua qualidade indestrutível. Ser fiel é se entregar aos outros e esta atitude não pode ser tomada de última hora e improvisadamente. O Cristianismo não é prática de vida reservada para a hora da morte. Não é uma imprudência. Para os imprudentes fecham-se as portas e ouve-se somente o veredicto: “Não vos conheço!”.


CONTEMPLAR


Sem Título, sem data, sem autoria definida, acessado em pinterest.com, outubro 2017.



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 50 - Solenidade de Todos os Santos

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

Solenidade de Todos os Santos                    05.11.2017
Ap 7, 2-4.9-14                    1 Jo 3, 1-3                Mt 5, 1-12a


ESCUTAR

Eu, João, vi outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo (Ap 7, 2).

Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! (1 Jo 3, 1).

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).


MEDITAR

Creio que nem os Romanos e nem os Judeus compreenderam Jesus de Nazaré, nem tampouco Seus discípulos que agora pregam Seu nome.
Os Romanos O mataram. E isso foi um erro. Os Galileus fizeram d’Ele um deus, e isso foi um engano.
Jesus era do coração do homem.

(Kalil Gibran)


ORAR

Viver a festa da santidade é viver a realidade de um censo impossível: “uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar”. E como não podemos conhecer todos os nomes dos santos, devemos chamar este domingo da Festa da Santidade Anônima. Todos participam da mesma santidade de Deus e a santidade é o sinal inequívoco do vestígio de Deus em nossas vidas. Os santos não se reduzem ao dos altares oficiais, mas circulam cotidianamente entre nós. Devemos buscar em cada dia o rosto dos santos porque são um reflexo do rosto de Deus. Os santos não vivem em nichos de gesso, mas em casas comuns. Não trazem auréolas luminosas em suas cabeças, mas problemas e preocupações. Não flutuam no ar, mas tem pernas e pés doloridos como os nossos. Os santos são contaminados pela alegria, pela surpresa e compõem a sinfonia dos loucos de Deus. O milagre dos santos consiste no fato de existirem no cenário perverso desta sociedade e querer acrescentar um pouco de graça e ternura no cotidiano do mundo. A santidade não é um luxo, mas uma condição normal e obrigatória do cristão: ela é um dom e uma possibilidade oferecida a todos e não reservada a uns poucos privilegiados. Devemos sempre suspeitar que eles estão mais próximos de nós do que podemos supor. Os santos correm pelas ruas e a maior parte dos bem-aventurados são pessoas simples e que têm coração. A declaração conciliar Nostra Aetate afirma: “A Igreja Católica não rejeita o que é verdadeiro e santo em todas as religiões. Considera suas práticas, maneiras de viver, preceitos e doutrinas como reflexo da verdade que ilumina todos os seres humanos, ainda que se distanciem do que ela crê e ensina (...)A Igreja rejeita como contrária ao pensamento de Cristo toda a discriminação ou perseguição por causa das diferenças de raça, cor, condição ou religião” (NA 857.871).


CONTEMPLAR

Monge budista noviço, Kyaw Thiha, brinca durante a chuva no Monastério Shin Ohtama Tharya, em Yangon, Myanmar, 2011, Soe Zeya Tun, Agência Reuters, Yangon, Myanmar.





segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXX Domingo do Tempo Comum              29.10.2017
Ex 22, 20-26                     1 Ts 1, 5-10                 Mt 22, 34-40


ESCUTAR

Não façais mal algum à viúva nem ao órfão. Se os maltratardes, gritarão por mim e eu ouvirei o seu clamor (Ex 22, 21-22).

Irmãos, sabeis de que maneira procedemos entre vós, para o vosso bem (1 Ts 1, 5).

“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” (Mt 22, 36).


MEDITAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Carlos Drummond de Andrade, Amar).


ORAR

Jesus fez uma única operação aritmética na vida: os dez mandamentos haviam se transformado em seiscentos e treze preceitos dos quais trezentos e sessenta e cinco começavam com Não – um por dia – e os outros duzentos e quarenta e oito com um imperativo Deves. Jesus não se perde neste emaranhado selvático de prescrições, filigranas ou detalhes insignificantes, pedantes e ridículos. Provocado por um doutor da Lei, acostumado às sutilezas e sofismas, Jesus soma, divide, multiplica, diminui e chega ao resultado desejado: Dois que são Um. Amor a Deus e Amor ao próximo são a mesma coisa e formam um único bloco. Somos nós, que atomizados por tantos casuísmos clericais, multiplicamos em leis todos os nossos interesses, tormentos, remorsos e acusações implacáveis. Conseguimos colocar algo que não está no Evangelho, nem no centro e nem na periferia. A operação simplificada de Jesus nos resulta indigesta e evitamos aceitar o essencial e testemunhá-lo. Nesta selva de números, aterroriza-nos descobrir apenas dois rostos: o do irmão, tantos rostos que formam um só, e o rosto de Deus. Jesus não nos entrega estatísticas, mas rostos e presenças. Somos nós, por ignorância ou covardia, que separamos e fazemos pirotecnias acerca do primado de Deus e da atenção e cuidado ao próximo. Pensamos que somos religiosos quando oramos, quando recebemos os sacramentos e quando entramos pela porta da frente das igrejas. No entanto, para Jesus seremos religiosos quando lutarmos por uma sociedade mais justa e nos interessarmos pelos imigrantes, pelos desprezados. Quando rompermos a solidão dos anciãos e superamos os preconceitos que marginalizam e demonizam nossos irmãos e irmãs. Jesus não nos obriga a olhar um código e nem a decorar prescrições minuciosas. Ele arranca todos os códigos de nossas mãos e nos obriga a descobrir os rostos. O essencial não está escrito nas páginas de um texto porque o essencial sempre teve, tem e terá um rosto e uma única explicação possível: a do amor. Que possamos um dia testemunhar o que já foi testemunhado um dia: “Vede como se amam e como estão dispostos a morrer uns pelos outros” (Tertuliano, século III DC).


CONTEMPLAR

Crianças em balanços, 1996, Richard Kalvar (1944-), Magnum Photos, Nova Iorque, Estados Unidos.




segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 48 - XXIX Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXIX Domingo do Tempo Comum             22.10.2017
Is 45, 1.4-6              1 Ts 1, 1-5b              Mt 22, 15-21


ESCUTAR

“Chamei-te pelo nome; reservei-te, e não me reconheceste” (Is 45, 4).

O nosso evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo (1 Ts 1, 5).

“Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?” (Mt 22, 18).


MEDITAR

Os ricos, os grandes, os que ocupam os lugares importantes e que escandalizam, são um mal infinito. Quando os ímpios reinam e dominam, é a ruína de todos, diz Provérbios: “quando os perversos se impõem, arruína-se o homem” (Pr 28, 12).

(Cornelius a Lapide, jesuíta, séc. XVII)


ORAR

Para os mais melindrosos deve ser motivo de escândalo o fato de que o Senhor tenha conferido a Ciro, o rei da Pérsia, um não-crente que nem O conhecia, o título de Cristo, o Ungido. E este ungido, sem etiquetas religiosas, foi chamado para realizar as obras de Deus no famoso edito de 538 AC que permitia aos judeus voltar a sua terra. Os judeus buscaram a sua segurança ao estreitar as alianças e pactos com os poderosos de turno, esquecendo que a segurança estava garantida pela fidelidade a Javé. E Ciro, o incrédulo, se converte, sem o saber, em servo do Senhor. O edito de Ciro libertou um povo e por isso convence mais que o de Constantino, que o atrelou a si. As doações de Constantino foram mais daninhas porque eivadas de interesses escusos dos poderosos que se autoproclamavam como “benfeitores”. Jesus escapa da armadilha devolvendo-a aos seus adversários e os colocando em apuros. Ainda hoje, as delimitações do território espiritual e temporal desencadeiam discussões acaloradas. A adesão a Cristo não nos facilita a chave do entendimento e nem é um milagroso salvo-conduto para resolver os conflitos. Nossos políticos, muitas vezes com o beneplácito das igrejas, sacrificam vidas pela apropriação imoral e pecaminosa do dinheiro que não lhes pertence. Estão todos excomungados do coração de Deus ainda que posem de cristãos aos olhos dos homens. Para eles, estão reservados o fogo que não se apaga e o inferno que não se acaba. No plano político, não existe uma terceira via e nem uma solução intermediária. Se Jesus diz Sim, condena os esforços do povo para libertar-se do jugo romano. Se Jesus diz Não, vai se declarar partidário dos zelotes e de sua rebeldia libertária. O poder limitado de César chega até onde vai a sua moeda. Ao contrário, o poder de Deus é ilimitado e por isso deve receber tudo de todos. Os cristãos devem confrontar os poderes civis e religiosos que toleram e perpetuam as injustiças e prepotências. Estes poderes, ainda que da boca para fora não neguem a Deus, ofendem a sua imagem que é o homem. A imagem de César está na moeda, mas a imagem de Deus está em cada um de nós. Lamentamos quando perdemos a imagem de César, mas continuamos adoradores dos poderes quando injuriamos a imagem de Deus que está em cada um de nós e em nossos irmãos e irmãs.


CONTEMPLAR

Qual é a nossa única exigência?, 2011, cartaz do Movimento dos “Indignados” cujo lema é “Ocupe Wall Street”, Nova Iorque, Estados Unidos.




sábado, 14 de outubro de 2017

Fundação Matersol 18 Anos

Manas e Manos da Travessia



Hoje, 15 de outubro de 2017, Festa de Teresa de Ávila, completamos dezoito anos de fundação da comunidade dos Manos da Terna Solidão (Matersol), como Instituto de Vida Consagrada. A comunidade, no entanto, possui uma história de 37 anos, partilhando Alegria, Ternura, Justiça e Verdade.

Agradecemos a todas as Manas e Manos que, no Espírito, buscam o Transcendente pelo testemunho do Filho, em amor e serviço à Criação do Pai!

Em comunhão com Mère Belém, nossa mãe da ternura, fundadora das Irmãs Contemplativas de Sion, e de Dom Irineu, nosso pai da alegria, bispo emérito da Diocese de Lins (SP), que nos consagraram como manos, pedimos a todos a antiga benção monástica (século VI):



"O Senhor Jesus Cristo
esteja junto de ti para te proteger:
à tua frente para te conduzir;
atrás de ti para te guardar;
acima de ti para te abençoar.
Ele que, com o Pai e o Espírito Santo
vive e reina pelos séculos. Amém."


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 47 - XXVIII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXVIII Domingo do Tempo Comum                     15.10.2017
Is 25, 6-10               Fl 4, 12-14.19-20              Mt 22, 1-14


ESCUTAR

O Senhor Deus eliminará para sempre a morte (Is 25, 8).

Tudo posso naquele que me dá força (Fl 4, 13).

“Já preparei o banquete...Vinde para a festa!” (Mt 22, 4).


MEDITAR

Acercou-se de mim, vi o seu rosto.
“Do rosto eu não sabia mais que o véu”.

Se a luz do véu abrasa esse universo,
O que dizer do fogo de teu rosto?

O amor veio e partiu. Eu o segui.
Voltou-se, como águia, e devorou-me.

Perdi-me no tempo e no espaço.
Perdi-me nos mares do verbo.

O gosto deste vinho,
Conhece quem sofreu.

Os profetas bebem tormentos.
E as águas não temem o fogo.

(Rûmi, Sufismo)


ORAR

O banquete de Deus anunciado pelo profeta está infinitamente mais longe do que os nossos sonhos mais audazes e loucos possam sonhar. Nossos pensamentos em relação a Deus são excessivamente modestos e mesquinhos. O Senhor se desilude com a nossa incapacidade de imaginar as coisas maravilhosas que Ele realiza para nós agora e sempre. São os sonhos impossíveis que nos conduzem ao Paraíso. O evangelho apresenta várias surpresas. A primeira, é que Deus não se senta em tribunal para julgar e nem para controlar nossos documentos. Deus não é um oficial aduaneiro. Ao contrário, Ele nos convida para um banquete de bodas: alegria, encontros, comunhão e intimidade. A segunda, a recusa absurda dos convidados que se mostram indiferentes, distantes e tediosos. A terceira surpresa é a de que o desígnio de Deus não se interrompe pela falta de adesão dos convidados. Deus não suspende a festa, pois o seu desígnio não fracassa. O Evangelho, rechaçado por uns, encontra uma inesperada acolhida em outros corações e a sala se enche de excluídos. A quarta surpresa é o homem não vestido para a festa. Entrara de penetra e afoito, mas o convite não teve nenhuma repercussão em sua vida. Não é possível ser cristão sem mudar a nossa prática de vida. A seriedade do compromisso não está em contradição com a atmosfera festiva, mas é condição para que a festa seja verdadeira. A roupa da festa é o nosso salvo conduto e é entregue na entrada: revestir-se do Cristo. Apesar da recusa, Deus ressurge constantemente no coração dos homens. A simbologia do banquete é a da comunhão com Deus. Não basta ser chamado. É necessário entrar na plenitude da eleição. Os que recusam o convite são sempre aqueles cuja prioridade é cuidar dos seus negócios (a negação do ócio), pois tempo é dinheiro. Os que respondem ao convite são os que valorizam a solidariedade, a alegria e a reciprocidade. Jesus compreendeu a sua vida como um grande convite em nome do Pai, no Espírito. Não impunha nada e nem pressionava ninguém. Arrancava os medos, as angústias; acendia a alegria e o desejo de Deus. Os que não aceitam o convite continuarão a viver uma existência solitária, encerrados num monólogo perpétuo consigo mesmo. Madre Belém, no seu leito de morte, balbuciava: “Quando há uma missa que a gente não vai e despreza tivemos uma oportunidade perdida. Peço a vocês, nunca deixem de ir a uma missa por preguiça, afazeres e distração. A fidelidade à missa de domingo é uma garantia de salvação porque Deus põe as graças da semana em cima do altar e nós temos que buscá-las senão quem sai perdendo somos nós” (11.12.2011). Devemos nos perguntar se estamos com a veste nupcial ou se a esquecemos por estarmos com o coração ausente e a mente perdida atrás dos nossos interesses e negócios. E a veste nupcial? É o amor!


CONTEMPLAR

Dia a dia na Espanha, 1933, Henri Cartier-Bresson (1908-2004), Magnum Photos, Céreste, França.





segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Caminho da Beleza 46 - XXVII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXVII Domingo do Tempo Comum                       08.10.2017
Is 5, 1-7                    Fl 4, 6-9                   Mt 21, 33-43


ESCUTAR

Eu esperava deles frutos de justiça – e eis injustiça; esperava obras de bondade – e eis iniquidade (Is 5, 7).

Irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude (Fl 4, 8).

“O reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos” (Mt 21, 43).


MEDITAR

Uma pessoa má pode fazer dez mil vezes mais dano do que uma fera, por que nós podemos usar nossa razão para tramar muitos males diversos.

(São Tomás de Aquino)


ORAR

A lição mais visível dos textos desta liturgia é o abuso do comportamento de “proprietário” que muitas vezes temos em nossas igrejas. Cuidamos da vinha, a defendemos, reivindicamos direitos e privilégios, mas nos esquecemos do essencial: produzir frutos. As estruturas estão em função dos frutos e não podem substituí-los. A vinha não pode ser ornamental. Ela não nos pertence e nem os frutos são para o nosso proveito. As igrejas não podem se contentar em possuir a verdade, a salvação, as obras, as instituições. O fazer da Igreja é produzir os frutos do Reino: justiça, liberdade, misericórdia, fraternidade, perdão e paz. A vinha está arrendada para nós para que produza frutos, caso contrário, o Senhor “arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos no tempo certo”. Jesus não nos pede nada de excepcional, mas sugere, no Espírito, o possível que devemos produzir e o impossível que temos que esperar do Pai. O maior pecado é querer produzir frutos que não são os da vinha, mas feitos à nossa maneira. Jesus chama isto de farisaísmo: querer se apossar da religião para interpretá-la ao nosso bel prazer e conveniência e para que ela produza falsos frutos como o conformismo das práticas, os sentimentos de segurança e os privilégios religiosos. O desafio é transformar o nosso pequeno lote arrendado numa fraternidade que seja a expressão do Reino. O Reino de Deus não pertence às igrejas, nem às hierarquias religiosas e nem é propriedade dos canonistas e moralistas de plantão. O Reino de Deus está nas comunidades eclesiais que produzem frutos de justiça, compaixão e defesa dos mais necessitados. A tragédia que pode suceder ao cristianismo de hoje e de sempre é que sufoquemos as vozes dos profetas, que nos coloquemos como os únicos donos da vinha do Pai e que dela expulsemos o Filho e aprisionemos o seu Espírito. O evangelista é rigoroso: se as igrejas não responderem às esperanças que o Senhor nelas colocou, Ele abrirá novos caminhos de salvação em povos que produzam frutos. O teólogo mais importante do século XX, o jesuíta von Balthasar, afirmava que a Igreja, ao invés de louvar e adorar a Deus, corre atrás de três deuses estranhos: a missa como autossatisfação da comunidade; a oração como higiene da alma e o dogmatismo que lhe traz segurança. No entanto, Paulo alertava; “Eu receio que, assim como a serpente seduziu Eva com astúcia, vosso modo de pensar se vicie abandonando a sinceridade e a fidelidade a Cristo” (2 Cor 11, 3). Quem quiser entender que entenda!


CONTEMPLAR

Mercado velho pegando fogo, 2010, Port-au-Prince, Haiti, Ricardo Venturi (1966-), Agência Contrasto, Roma, Itália.





segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Caminho da Beleza 45 - XXVI Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

XXVI Domingo do Tempo Comum             01.10.2017
Ez 18, 25-28                       Fl 2, 1-5                   Mt 21, 28-32


ESCUTAR

“Quando um justo se desvia da justiça, ele pratica o mal e morre” (Ez 18, 26).

Cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro (Fl 2, 3-4).

“Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no reino de Deus” (Mt 21, 31).


MEDITAR

Depois que dizemos Sim a Deus, só nos resta dizer Amém!

(Paulo Botas, mts)


ORAR

A lógica do sistema nos faz pensar que o que somos devemos a nós mesmos e quando isso não acontece descarregamos as nossas culpas sobre a nossa árvore genealógica. É cômodo responsabilizar a sociedade, as estruturas e o sistema pelo que não conseguimos por falta de nosso empenho pessoal. O profeta adverte que sempre haverá uma possibilidade de arrependimento e de uma mudança de orientação de nossa existência. Os que não se arrependem de uma coisa nem de outra continuarão caminhando sem jamais se perguntar sobre a razão de sua vida. Continuamos a repetir o que passou e nos omitimos de inventar um outro presente e um novo futuro. A maior loucura é ver o mundo como ele é não como deveria ser. Há os que decidem a vida e avançam e os que deixam que a vida decida por eles e se enraízam numa falta de liberdade. O evangelho nos revela o arrependimento dos filhos. Um se arrepende do Sim e não vai e o outro se arrepende do Não e vai. Está em jogo o sentido da obediência: uns são rebeldes por amor e outros fiéis por desafeto. Há os poucos disciplinados e descarados, substancialmente desobedientes, mas animados por um amor real. Temos que temer nas nossas igrejas os do consenso superficial, das aprovações entusiastas, das declarações fervorosas que nada custam, das aclamações que só comprometem a boca. Os aplausos fecham o discurso e o interrompem, mas dificilmente abrem a um compromisso concreto e silencioso. Mil palavras, centenas de documentos, planos de pastoral e declarações solenes não fazem um Sim. A bênção do Senhor dada por um batizado vale tanto quanto a de um purpurado clerical que concede às ostentações dos políticos que alimentam, como na igreja de Filipos, as rivalidades, as discórdias, a mentalidade de clã e o cultivo das glórias pessoais. A essência da vida cristã é a de não se pertencer mais. É dizer, ao inspirar, “Seja feita” e, ao expirar, “A sua vontade”. O Cristo sabe o que é melhor para nós, basta que nos coloquemos disponíveis. A tradição rabínica nos exorta: “Os justos falam pouco e fazem muito. Os ímpios falam muito e nada fazem”. A quem pode interessar o credo que professamos se vivemos sem compaixão e ocupados com o nosso bem-estar? De que adiantam os pedidos dirigidos a Deus para que traga paz e justiça, se nada fazemos para construir uma vida digna como Ele deseja para todos? A obediência querida por Deus não é a submissão cega da nossa capacidade de decidir. A obediência querida por Deus significa a proximidade com os outros, a eliminação da vanglória, do próprio interesse e do gosto do poder. Recebemos de Deus uma missão de diaconia e de serviço. Devemos nos perguntar no mais fundo de nós: de quantos sepulcros caiados, de aparente obediência, nascem o vazio, a morte e a podridão? É preciso ter a coragem, como o Cristo, de sujar as mãos, de se arriscar na busca de novos valores mais próximos da liberdade, do amor e da felicidade humana.


CONTEMPLAR

Menino de boné na fila de identidade, 1981, Patrick Zachmann (1955-), Magnum Photos, Choisy-le-Roi, França.