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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

O Caminho da Beleza 04 - IV Domingo do Advento

Como se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).


IV Domingo do Advento           

Mq 5, 1-4                 Hb 10, 5-10            Lc 1, 39-45

 

 

ESCUTAR

 

“Ele não recuará, apascentará com a força do Senhor e com a majestade do nome do Senhor seu Deus: os homens viverão em paz, pois ele agora estenderá o poder até aos confins da terra, e ele mesmo será a Paz” (Mq 5, 3-4).

 

“‘Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade’” (Hb 10, 7).

 

“Bendita é tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1, 42)

 

 

MEDITAR

 

Sem o amor, tão difícil de praticar, a vida se reduz a um combate incessante para possuir e se defender dos outros.


(Anthony Burgess)

 

O grande inimigo, o inimigo número 1 do mundo moderno, é o tédio.


(Teilhard de Chardin)

 

 

ORAR

 

            A pequena aldeia de Belém significava pouco entre as cidades da Judéia e, no entanto, Deus colocou seu olhar precisamente neste lugar insignificante para nele realizar um acontecimento decisivo. As escolhas de Deus jamais estão determinadas por critérios de grandeza e de importância mundanas. A pequenez constitui o terreno fértil em que germina e se desenvolve a obra divina. As coisas sem importância chamam a atenção do Senhor. O evangelista nos apresenta o encontro de Maria e Isabel. Maria é apresentada numa postura dinâmica: de caminhar, de encontrar e de louvar a Deus. Ela simboliza uma Igreja que jamais poderá ser fixada numa imagem estática. A Igreja deve estar em marcha pelos caminhos dos homens para levar Alguém e não deve falar de si mesma, mas do Outro. O Cristo começou a ser itinerante desde o ventre materno e graças aos passos de sua mãe caminha pelas veredas do mundo. No encontro entre Isabel, anciã estéril, e Maria, jovem virgem, existirá um pacto das entranhas que nos revela que “nada é impossível para Deus” (Lc 1, 37). A visitação se liga intimamente à anunciação. A visitação é a epifania, a manifestação do sinal anunciado de que se acabara o tempo das preparações e das esperas, de que se cumprira a promessa e de que o Senhor visitará o seu povo. A visitação é o abraço amoroso, o encontro e o cumprimento pleno de duas histórias: a de Isabel que se completa e a de Maria que se inicia. O pacto de Deus está vingado em Jesus, pois as entranhas da sua mãe são a Arca da Aliança, tecendo o Salvador, agora e sempre, para todos os habitantes da Terra. O que do ponto de vista humano é limitação, impedimento, se converte em possibilidade quando intervém Deus, Senhor do Impossível. Neste encontro se realiza o que o anjo anunciara a Zacarias a respeito de João: “Ficará cheio do Espírito Santo desde o seio de sua mãe” (Lc 1, 15). No encontro destas duas mulheres grávidas a profecia é vingada: João dança de alegria no ventre de Isabel e Maria será chamada de Bem-Aventurada porque acreditou que a Palavra do Senhor seria cumprida. Maria não é apenas uma mulher que sabe, mas uma mulher que crê. O Natal, no fundo, é um Deus que mantém a palavra e busca gente corajosa, como Maria, que se agarre a esta Palavra. No Natal, Deus diz: “Aqui estou!” e seria estranho que o homem não se deixasse encontrar. E, finalmente, Maria “recebendo aos pés da cruz o testamento do amor divino assumiu todos os seres humanos, como filhos e filhas, renascidos para a vida eterna, pela morte do Cristo” (Prefácio de Nossa Senhora). 


(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 

CONTEMPLAR

 

Sem títuloc. 2013, Elli Cassidy, Galeria da Maternidade, Louth, Lincolnshire, Inglaterra, Reino Unido.

 



quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

O Caminho da Beleza 03 - III Domingo do Advento

Como se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).


III Domingo do Advento                

Sf 3, 14-18               Fl 4, 4-7              Lc 3, 10-18

 

 

ESCUTAR

 

O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido por amor; exultará por ti, entre louvores, como nos dias de festa (Sf 3, 17-18).

 

Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos. Que a vossa bondade seja conhecida de todos os homens! O Senhor está próximo! (Fl 4, 4).

 

“Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3, 16).

 

 

MEDITAR

 

O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura.


(Francisco, Evangelii Gaudium)

 

 

 ORAR

 

            A dinâmica da vida cristã se realiza na resposta a uma tríplice vocação: a da esperança, a da conversão do olhar e a da alegria. Temos uma vocação à alegria ainda que tentem nos incutir que a felicidade está proibida e que devemos suportar, nesta terra, um “vale de lágrimas”. A alegria da comunidade eclesial é a melhor prova da existência de Deus. O cristão deve aprender a praticar a ascese da felicidade, a penitência do sorriso e o cilício da serenidade. Esta alegria é conquistada quando saímos de nós mesmos, do nosso egoísmo e nos abrimos a Deus para acolher os seus desígnios em nossa vida. E esta acolhida não implica numa dimensão intimista, mas numa abertura ao mundo inteiro. Quando o “valente guerreiro que te salva” (Sf 3, 17) está no meio de nós, podemos começar do zero e inventar outra história: dizer sim a Deus e ao próximo. João, o Batista, revela que o sinal da descoberta da presença do próximo está na nossa capacidade de partilhar: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!”. A regra de ouro dos sinais do Reino está na justiça e não na extorsão; na recusa da violência, da mentira e da busca insana do proveito próprio com o prejuízo dos outros. João proclama a conversão como descoberta do próximo e esta descoberta como elemento essencial da nossa alegria. O Cristo reitera que só sendo um ser-em-comunhão é que poderemos atingir a felicidade. A alegria cristã é marcada pela afabilidade, esta capacidade de não fazer dramas por ninharias; de aniquilar toda a ansiedade e inquietude e de exorcizar toda a angústia: “Não vos preocupeis!”. A alegria é a nossa capacidade de dar graças e para o cristão ser significa ser na alegria. Temos que ser sinais de alegria neste mundo necessitado de tréguas e de repouso; neste mundo em desânimo e depressivo onde o acumular é a chave mestra do viver e os caminhos se tornaram tortuosos pela cobiça e pela ambição. Este Menino é a luz do mundo e temos que resplandecer esta luz para que não seja apagada pelos ventos do orgulho e da soberba, que carregam consigo a calúnia e a difamação. É a humildade profética que nos liberta para o anúncio de Cristo a todos os povos e nações: “Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias”. A manjedoura desvela que a casa do Senhor é o lugar dos abraços, da partilha e da comunhão. É o lugar onde todos, sem discriminação, podem e devem saciar-se da ternura do Pai. E nela somos convidados a entrar em todas as horas do dia e todos os dias do ano, dizendo: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos”.

 

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 

CONTEMPLAR

 

Uma Vida na Morte, 2013, Nancy Borowick (1985-), World Press Photo, Associated Press Photo, Chappaqua, Nova Iorque, Estados Unidos.




 

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O Caminho da Beleza 02 - Imaculada Conceição de Maria

Como se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).


Imaculada Conceição de Maria                   

Gn 3, 9-15.20                    Ef 1, 3-6.11-12                    Lc 1, 26-38

 

ESCUTAR

O Senhor Deus chamou Adão, dizendo: “Onde estás?” (Gn 3, 9).

Nós fomos predestinados a ser, para o louvor de sua glória, os que de antemão colocaram a sua esperança em Cristo (Ef 1, 11-12).

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lc 1, 28).

 

MEDITAR

Maria sente que Jesus é seu filho, inteiramente seu, e que ele é Deus. Ela contempla e medita: “Este Deus é meu filho. Esta carne divina é minha carne. Ele é feito de mim, tem meus olhos, e essa forma da sua boca é a forma da minha. Ele se assemelha a mim. É Deus, mas semelhante a mim”. Nenhuma mulher teve, assim, seu Deus só para si. Um Deus muito pequenino, que se pode tomar nos braços e cobrir de beijos, um Deus bem quentinho, que sorri e respira. Um Deus que se pode tocar e está vivo. É por isso mesmo, por ter sido ela a única a quem Deus se entregou tão completamente, deixando-a vê-Lo assim tão absolutamente tal qual Ele é, que nós dizemos que ela é cheia de graça e bendita entre as mulheres.

(Jean-Paul Sartre)

 

ORAR

       A primeira palavra da parte de Deus a seus filhos, quando o Salvador se aproxima do mundo, é um convite à alegria. É o que escuta Maria: “Alegra-te”. Jürgen Moltmann, o grande teólogo da esperança, a expressou assim: “A palavra última e primeira da grande libertação que vem de Deus não é ódio e sim alegria; não é condenação e sim absolvição. Cristo nasce da alegria de Deus e morre e ressuscita para trazer sua alegria a este mundo contraditório e absurdo”. Porém, a alegria não é fácil. A ninguém se pode forçar que fique alegre; não se pode impor desde fora a alegria. O verdadeiro gozo deve nascer no mais fundo de nós mesmos. Do contrário, será riso exterior, gargalhada vazia, euforia passageira, mas a alegria permanecerá fora, à porta de nosso coração. O novelista alemão Hermann Hesse diz que os rostos atormentados, nervosos e tristes de tantos homens e mulheres se devem a que “a felicidade só a alma pode senti-la, não a razão, nem o ventre, nem a cabeça, nem o bolso”. Mas há algo mais. Como se pode ser feliz quando há tantos sofrimentos sobre a terra? Como se pode rir quando ainda não estão secas todas as lágrimas e brotam diariamente outras novas? Como gozar quando duas terças partes da humanidade se encontram afundadas na fome, na miséria ou na guerra. A alegria de Maria é o gozo de uma mulher crente que se alegra em Deus salvador, a que levanta os humilhados e dispersa os soberbos, a que cumula de bens os famintos e despede vazios os ricos. A alegria verdadeira só é possível no coração daquela que anseia e busca justiça, liberdade e fraternidade para todos. Maria se alegra em Deus porque vem consumar a esperança dos abandonados. Só se pode ser alegre em comunhão com os que sofrem e em solidariedade com os que choram. Só tem direito à alegria quem luta por fazê-la possível entre os humilhados. Só pode ser feliz quem se esforça por fazer felizes aos demais. Só pode celebrar o Natal quem busca sinceramente o nascimento de um homem novo entre nós.

(José Antonio Pagola)

 

CONTEMPLAR

Imigrantes nigerianas choram e se abraçam num centro de detenção para refugiados na Líbia, 2016, Daniel Etter (1980-), World Press Photo Contest 2017, Alemanha. 





quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento

Como se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).


I Domingo do Advento                         

Jr 33, 14-16                        1 Ts 3, 12-4,2                     Lc 21, 25-28.34-36

 

 

ESCUTAR

 

Farei brotar de Davi a sementa da justiça (Jr 33, 15).

 

O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós (1 Ts 3, 12).

 

“Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 36).

 

 

MEDITAR

 

O que chamamos de início é o mesmo do que o fim e acabar é começar. E o fim é de onde partimos.

 

(T. S. Eliot)

 

 

ORAR

 

Neste primeiro domingo de Advento, o agir cristão está fundamentado sob o signo da espera. A espera de um duplo acontecimento e de uma dupla vinda do Cristo: na carne (Natal) e na glória (Julgamento Final) e estes dois acontecimentos, que se entrelaçam, só podem ser vividos na esperança. E esta espera/esperança está centrada na mesma pessoa: o Cristo. O profeta anuncia que a justiça de Deus é manter as promessas que fez em favor do seu povo. E o Senhor não quer faltar à palavra dada, pois a justiça tem o mesmo rosto de sua misericórdia. O tempo do Advento é o tempo para que nos purifiquemos de todos os ídolos que nos são oferecidos cotidianamente: as aparências, os status, os poderes. O cristão conjuga o verbo esperar não como uma esperança vaga e modesta, mas como uma esperança audaz que tem como raiz o dom que, em Cristo, no Espírito, nos vem de Deus. O cristão não foge da existência cotidiana, mas está sempre atento para não ser pego desprevenido e nem distraído. O cristão alimenta a sua lucidez diante das inúmeras seduções que o possam desviar do desígnio de Deus e fazê-lo perder o sentido do caminho a ser seguido. Somos chamados a ter “nossas cinturas cingidas e as lamparinas acesas” (Lc 12, 35), uma vez que, como sentinelas, não nos cabe um minuto de desatenção e nem de descanso, pois deveremos estar “em pé diante do Filho do Homem”. E o Senhor nos promete “que essa humanidade se emancipará da escravidão da corrupção, para obter a liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 20). Neste domingo, é preciso proclamar que o amor que se encarna é o mesmo que nos julgará pelo amar que conseguirmos. O tempo do Advento é um tempo de crise; uma ruptura com a nossa mediocridade e um mergulho na prática do amor, pois só conhecemos, quase que plenamente, a existência daqueles que amamos. Meditemos as palavras de Ernesto Cardenal, monge trapista da Nicarágua: “Dentro de nós está o amor. Deus está louco de amor e, portanto, seu comportamento é imprevisível. Em qualquer momento o Amante pode cometer um disparate, porque como todo o que ama, não raciocina. Está bêbado, embriagado de amor”.


(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 

CONTEMPLAR

 

Madona e Criança, Marianne Stokes (1855-1927), pintora austríaca, data, dimensões e locação desconhecidas.