Como
se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).
Dedicação da Basílica de Latrão
Ez 47, 1-2.8-9.12 1
Cor 3, 9-11.16-17 Jo
2, 13-22
ESCUTAR
“Suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se
acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem
do santuário” (Ez 47, 12).
“Vós sois lavoura de Deus, construção de Deus” (1 Cor
3, 9).
“Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo
2, 16).
MEDITAR
Por que... nos acostumamos a ver como se destrói o
trabalho digno, se despeja a tantas famílias, se expulsa os camponeses, se faz
a guerra e se abusa da natureza? Porque neste sistema se retirou o homem, a
pessoa humana, do centro, substituindo-o por outra coisa. Porque se rende um
culto idolátrico ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença.
(Papa Francisco)
Uma má religião torna-nos insensíveis, incapazes de
vida corporal. O culto do verdadeiro Deus faz-nos corporalmente vivos,
apalpando, saboreando, cheirando, vendo e ouvindo. A realização plena de nosso
ser, dom de Deus, significa aspirar à vitalidade em todos os nossos sentidos.
(Timothy Radcliffe)
ORAR
A Basílica de
Latrão, catedral da Igreja de Roma, é considerada a mãe de todas as igrejas. O
palácio de Latrão, propriedade da família imperial, tornou-se, no século IV, a
habitação particular do Papa. Constantino doou ao papa Melquiades (310-314) o
palácio onde se encontrava a “Casa de Fausta”, a residência da mulher do
Imperador na qual o Papa celebrou um Concílio. Foi a sede oficial do bispo de
Roma do século IV ao XIV e por isso representa o ideal institucional da Igreja
Romana que, saída da fase de perseguição e de martírio, fez sua entrada
triunfal na sociedade imperial romana. Durante séculos, ela foi o emblema da
liturgia pontifical que moldou o estilo de celebração de todas as igrejas do
Ocidente. O Evangelho mostra Jesus enxotando os mercadores do Templo porque
enganam os mais simples para acumular dinheiro e bens. Uma Igreja oficializada
por um imperador, na Casa de Fausta, só poderia ter no seu DNA o germe e a voracidade de tudo o que é fausto e ostensivo. Jesus
nos revela que o novo templo é o seu Corpo Ressuscitado, pois, com sua morte e
ressurreição, destruiu todo o limite local e geográfico para a sua presença
espiritual. Paulo clama em Atenas: “Deus
não habita em templos feitos pelas mãos dos homens” (At 17, 24). Devemos
estar atentos ao calor que conferimos aos templos, aos ritos e aos objetos
sacros. Não podemos idolatrá-los e nem lhes conferir um valor mágico, pois o
cristianismo é uma prática que brota do nosso encontro pessoal com Jesus, com a
nossa consciência e com o Espírito que nos ilumina e conduz aos outros. Nossos
templos não podem se tornar fetiches e nem marcos idolátricos para os cultos
burocráticos em que os altos funcionários eclesiásticos oferecem os lugares de
honra para os mais ricos e poderosos da sociedade. Nossos pastores parecem desdenhar do veredicto de Jesus: “Eu vos asseguro: um rico dificilmente entrará
no reino de Deus. Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de
uma agulha que um rico entrar no reino de Deus” (Mt 19, 24). É chegado o
momento em que a Casa de Fausta deve ser abandonada como o símbolo de
uma época histórica em que Igreja e Império celebraram um casamento espúrio e
perverso. É chegada a hora em que a Igreja de Jesus deve estar próxima dos mais
necessitados, praticando-se como uma Igreja pobre entre os pobres. Tendo, com
Ele, o “mesmo sentir e pensar” e
oferecendo o testemunho da sua identidade com Cristo Jesus que “despojou-se, assumindo a forma de escravo e
tornando-se igual ao ser humano e aparecendo como qualquer homem, humilhou-se,
fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz!” (Fl 2, 7-8). É
chegado o momento, e já quase passou, de cumprir o que proclamou o Papa João
XXIII na abertura do Vaticano II: “Está na hora de abrir as janelas para limpar
a poeira de Constantino grudada na cadeira de Pedro”.
(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e
Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
Cristo purificando
o Templo, c. 1655, Bernardino Mei (1612-1676), óleo sobre tela, 104,1 x 141 cm, Siena, Itália.