Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como
mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).
IV Domingo do Tempo Comum
Sf 2, 3; 3, 12-13 1
Cor 1, 26-31 Mt 5,
1-12
ESCUTAR
“Buscai o Senhor, humildes da terra, que pondes em
prática seus preceitos; praticai a justiça, procurai a humildade; talvez
achareis um refúgio no dia da cólera do Senhor” (Sf 2, 3).
“Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido,
para assim confundir os sábios; Deus escolheu o que para o mundo é sem
importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a
inutilidade do que é considerado importante, para que ninguém possa gloriar-se
diante Dele” (1 Cor 1, 27-29).
“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e
perseguirem, e mentindo disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,
1-12).
MEDITAR
Após dois séculos a Igreja perdeu o hábito do debate.
Reina um analfabetismo da afetividade, do calor humano, um medo doentio do
coração, uma letargia, uma vigilância defensiva da comunicação pessoal. Eu sei
bem de que metal é feita a caridade das pessoas da Igreja: é uma caridade sem
coração, sem fraternidade e sem humanidade.
(Pe. Valadier, SJ)
É preciso nos familiarizar com este maravilhoso
paradoxo: Deus é Deus porque ele nada pode possuir. Deus é Deus porque Ele dá
tudo e disto resulta que Deus só pode nos tocar pelo seu amor, pois não há
nenhum outro modo possível e nós só poderemos atingi-lo pelo nosso amor
(Maurice Zundel)
ORAR
Não podemos continuar
considerando as bem-aventuranças como um ideal
da vida cristã, pois ideal está mais
próximo da filosofia grega do que das Escrituras que nos garantem: “Cristo
morreu por nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo
as Escrituras” (1 Cor 15, 3). Temos que ler nas histórias concretas que nos
precederam para melhor procurá-Lo e encontrá-Lo nas nossas vidas. Muito mais do
que um ideal, as bem-aventuranças nos
indicam a maneira de agir, em qualquer circunstância para agradar a Deus e não
confundi-Lo com os ídolos violentos que os pagãos fabricam (Sl 118, 105).
Devemos nos esforçar para amar, para exercer a misericórdia e para ver o outro,
seja quem for, como um irmão. Jesus nos deu este exemplo e, com certeza, como
Ele, conheceremos a calúnia, o desprezo, a perseguição e a ardente sede de
justiça. Seremos tratados como loucos, mas seremos chamados, pelo Cristo, de
felizes e bem-aventurados, as palavras-chave das Beatitudes que são palavras
inesgotáveis de ternura e de vida. Em todos os lugares e tempos, desde que o
Evangelho foi anunciado, os que encontram apreço e valor aos olhos e coração de
Deus são os que lutam contra a pobreza, o sofrimento e a fraqueza. O cristão,
pela encarnação do Cristo, é um cidadão do mundo e deve se inclinar para
descobrir, no tempo em que vive, onde estão os pobres, os que sofrem e os que
são fracos para, com eles, indignar-se e clamar pela justiça prometida por
Deus. O cristão será confrontado, como o Cristo, com o Palácio e o Templo,
responsáveis pela violência destruidora, seja do poder, do preconceito e da
discriminação. Para se construir a Paz fundada na justiça – desígnio de Deus –
será necessária uma revolução de valores em que a solidariedade com a vida seja
o alimento da esperança de um novo mundo e de uma nova humanidade. As bem-aventuranças
exigem um compromisso com a paz. Não só em palavras, mas em atos que nada mais
são do que palavras encarnadas. Cristãos são os que rompem o conforto medíocre
das suas igrejas e lares para entregar a própria vida, uma vida que não lhes
pertence porque lhes foi dada por Deus para que honrem a vida, a morte e a
ressurreição do seu Filho. Somos chamados a perpetuar em nós a esperança nesta
marcha dos bem-aventurados que sonham o sonho impossível de dar uma chance a
Paz. Eles sabem que a única coisa que precisam é do Amor que conseguem por semear
entre lágrimas os futuros cantos de alegria e de ternura.
(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
Yanomami, 1974, Cláudia Andujar, Suíça/Brasil.