quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

O Caminho da Beleza 13 - VII Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

VII Domingo do Tempo Comum     

Lv 19, 1-2.17-18                 1 Cor 3, 16-23                    Mt 5, 38-48

 

ESCUTAR

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18).

“Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” (1 Cor 3, 16).

“Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis?” (Mt 5, 46).

 

 MEDITAR

Acontece que, quando estamos rezando, os irmãos vêm nos procurar. Devemos então escolher: ou interromper nossa oração ou entristecer o irmão recusando-nos a responder-lhe. No entanto, o amor é maior que a oração: a oração é uma virtude entre as outras, enquanto o amor contém todas.

(João Clímaco, A Escada Santa, 26º degrau, 43)

 

ORAR

 O templo de Deus somos nós. Somos comunidades de pedras vivas e em nosso corpo o Espírito fez morada. Todo gesto nosso é sagrado e cada passo é o de um templo que se move: somos santuários peregrinos. Paulo afirma que a sabedoria mundana pode progredir ao máximo possível, mas nunca chegará a roçar a sabedoria de Deus, pois para alcançá-la, devemos transformar a sabedoria deste mundo em loucura. São Francisco de Assis pregava: “Cristo me chamou de idiota e de simples para que seguisse a loucura da Cruz: Quero que sejas um novo louco no mundo e, com obras e palavras, pregues a loucura da Cruz”. Devemos ser honestos como alguns discípulos que tiveram a lealdade de protestar: “Este discurso é bem duro: quem poderá escutá-lo” (Jo 6, 60). E em seguida abandonaram a sinagoga porque o alimento da Palavra se tornara, para eles, indigesto. As palavras do Cristo devem nos incomodar e nos arrancar da nossa tranquilidade cotidiana para que não se tornem meras palavras que passam pelos nossos ouvidos estéreis sem nunca atingir e fecundar o nosso coração. A vocação do cristão é uma vocação para o extraordinário. O próprio Cristo nos questiona: “Se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário?”. A vocação do cristão é a de superar as medidas calculadas: “Dai e vos darão: recebereis uma medida generosa, calcada, sacudida e transbordante. A medida que usardes será usada para vós” (Lc 6, 38). É a vocação de ir além do impossível para superar a justiça dos fariseus e dos mestres da Lei. O teólogo luterano Bonhoeffer pregava: “Aonde não existe este fator singular, extraordinário, não existe nada de cristão”. Os cristãos se fazem visíveis pelo extraordinário: perdoar, dar sem calcular, amar os inimigos, orar pelos perseguidores, desejar aos malvados todo bem possível, saudar os que mostram o seu rosto feroz, mas, sobretudo, amar os que não amam ninguém e que ninguém ama. Não devemos nos preocupar e nem nos complicar. Se agir de uma maneira extraordinária nos incomoda, devemos saber que demos o primeiro passo para a salvação, pois, finalmente, estamos abandonando o caminho da normalidade. O evangelho não é concêntrico, mas excêntrico. O cristianismo não é uma forma de auto-realização, pois Jesus não era Narciso. Amém!

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Doutor Martin Luther King Jr. em seu tour pelos Estados Unidos após receber o Prêmio Nobel da Paz, 1964, Baltimore, Maryland, Leonard Freed (1929-2006), Magnum Photos, Estados Unidos.


 


 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O Caminho da Beleza 12 - VI Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

VI Domingo do Tempo Comum       

Eclo 15, 16-21                    1 Cor 2, 6-10                      Mt 5, 17-37

 

ESCUTAR

“Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás” (Eclo 15, 16).

“Nós falamos de uma sabedoria, não da sabedoria deste mundo nem da sabedoria dos poderosos deste mundo, que, afinal estão votados à destruição” (1 Cor 2, 6).

“Porque eu vos digo, se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus” (Mt 5, 20).

 

MEDITAR

Não ponhas tua fé na mágica eficácia que podem ter os rituais religiosos, por mais que sejam rituais de pureza imaculada; nem ponhas tua fé na presumida e suposta salvação que brota do puritanismo dos intocáveis; nem nos conselhos que te dão os que querem ver-te que andas pela vida como pessoa irrepreensível; ponha tua fé somente no amor, ali onde o gozo inefável do carinho compartido se apalpa e se faz visível, onde os amantes se fundem num mesmo projeto e com uma só ilusão, a ilusão apaixonada e apaixonante de dar a vida e receber a entrega livre daquele que te quer sem interesse, porque eras tu, como és, sem mais.

(Rudolf Bultmann)

 

ORAR

   Os textos litúrgicos de hoje nos apelam à liberdade. A nova lei do Evangelho não é uma imposição, “Deves”, mas um “Se quiseres”. A vida não é impune, devemos decidir entre o fogo e a água; a vida e a morte: “Conheço tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente; mas, visto que és morno, nem frio nem quente, vou te vomitar da minha boca” (Ap 3, 15). As palavras do Cristo são fogo e não podemos atenuá-las. Se quisermos seremos abrasados por um desejo intenso, mas também poderemos recusá-lo. Jesus veio para dar plenitude à Lei antiga, levando-a às últimas consequências. Jesus é exigente não no sentido da quantidade, mas da radicalidade e da capacidade que temos de ir às raízes das coisas, sem sectarismos. Jesus evita as deformações do legalismo e do casuísmo, pois o formalismo religioso se preocupa exclusiva e obcecadamente com a boa conduta aparente, fixando e multiplicando normas e regras. A ética de Cristo se dirige, antes de tudo, à interioridade, ao coração do homem. “O cristão não é um homem da minúcia, mas da totalidade” (Cardeal Gianfranco Ravasi). Devemos escolher, a cada dia, entre a moral corrente dos “príncipes deste mundo”, que conduz à morte, e a ética do Cristo que é a expressão de uma sabedoria escondida e que nos será desvelada por meio do Espírito que nos mergulha nas profundezas de Deus e nos conduz à plenitude da vida. Sabedoria escondida que esquadrinha os desígnios do Pai; que nos faz intuir que as coisas excessivas Deus reserva, exclusivamente, para os que O amam. Finalmente, é preciso compreender que o “porque eu vos digo” do Cristo afeta somente os que buscam interiorizar outro discurso: o da linguagem secreta que é a do amor.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Concha Espiral, 1921, Edward Steichen (1879-1973), Luxemburgo.




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

O Caminho da Beleza 11 - V Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

V Domingo do Tempo Comum        

Is 58, 7-10               1 Cor 2, 1-5             Mt 5, 13-16

 

ESCUTAR

“Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o e não desprezes a tua carne. Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá” (Is 58, 7-8).

“Eu estive junto de vós com fraqueza e receio, e muito tremor” (1 Cor 2, 3).

“Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).

 

MEDITAR

Um irmão não possuía absolutamente nada além de um Evangelho. Vendeu-o e gastou o dinheiro com alimentos para os famintos, acrescentando este dito memorável: “O que vendi foi o próprio livro que me diz: “Vende o que tem e dá aos pobres.

(Evágrio Pôntico, Tratado Prático, 97)

 

Um ser espiritual irradia o amor em que vive e não busca doutrinar, convencer. Não é nada mais que um outro. Faz o que tem de fazer. É ele mesmo quase sem se dar conta [...] Pode-se falar dele, de seu comportamento, mas o que emana de sua pessoa é inexplicável, pertence ao que há de mais vivo, de mais estimulante. Ele é surpreendente, até mesmo ‘chocante’, mas esse choque é revelador de uma outra coisa que não pode ser explicada – ele está com Deus

(Françoise Dolto)

 

ORAR

  Somos chamados a praticar boas obras e nos abstermos de atitudes ameaçadoras e da maledicência. Nossa oração só alcançará Deus quando o amor fraterno alcançar o próximo. Deus nos diz, “Estou aqui”, unicamente ao que responde, “Eis-me aqui”, quando alguém bate em sua porta. Basta de andarmos como cegos de um lado para o outro e irmos longe para acender uma luz e deixarmos os mais próximos às escuras. A Luz se oferece aos outros com modéstia e delicadeza e o Cristo sobre a cruz se manifesta na sua fraqueza para que aprendamos a falar da Cruz do Cristo em tom humilde e palavras sinceras. O evangelista revela que para sermos luz do mundo não devemos ter a pretensão de brilhar. Devemos esquecer a ilusão de dar a luz aos outros e desterrar a obscuridade e o caos que nos rodeiam com um pouco da loucura de Deus. O homo sapiens produziu e continua a produzir catástrofes em todos os níveis. É a hora de nos convertemos em homo demens e caminharmos no caminho do risco, do excesso e da provocação. O papa Francisco nos assegura: “No governo, a prudência é uma virtude, mas a audácia também é”. E o Papa exorta a sermos uma igreja que tropeça porque caminha em frente do que uma igreja que se acomoda e se resguarda de tudo e de todos. Pés parados não topam com nenhuma pedra. O mundo de hoje não necessita da beatice de olhos mortiços e pescoços pendidos, nem de intelectuais refinados, nem de doutores que prescrevem receitas, nem de lideranças vanguardistas. O mundo de hoje precisa de loucos, de artistas e de poetas. De homens e mulheres entusiasmados, cheios de Deus, capazes de realizar gestos insólitos e surpreendentes na sua fantasia; provocadores em sua liberdade para quem as bem-aventuranças são uma desconcertante sinfonia em que tudo será um milagre porque tudo será virado pelo avesso. Neste mundo de pactos medíocres, em que grassa uma subcultura política, social e religiosa, devemos fazer eco ao grito do escritor russo Dostoievski: “A beleza salvará o mundo!”. Sigamos os passos de São Francisco que se autonomeava o louco e o idiota de Deus e dessa maneira levava alegria a todos: de homo demens converteu-se em homo ludens. Na iconografia católica, o Menino Jesus no colo de Maria segura em suas mãos frágeis uma bola que é o mundo com o qual brinca o Menino. O nosso cristianismo está enfermo da sisudez e do escrúpulo; aprisionado a uma religiosidade supersticiosa pendurada em fetiches que materializam a nossa debilidade espiritual e a nossa fé infantilizada. Sem alegria, somos como “cegos conduzindo outros cegos” e cairemos todos num buraco (Mt 15, 14). Sem o sal que nos queima, perderemos o sabor e a chama amorosa da ternura que nos deve consumir, pois “todos vão ser salgados com o fogo” (Mc 9, 49). Se não nos tornarmos crianças lúdicas, se não nos convertermos em loucos, poetas, artistas e se não mantivermos em nós o sal e o fogo, jamais conheceremos o gozo que invade todo o anúncio de Cristo. Está mais do que na hora de nos deixarmos seduzir pela loucura, pela alegria e pela ternura de Deus para que salgados pelo fogo do seu amor e da sua misericórdia não apodreçamos justapostos e isolados nas nossas falsas seguranças. Não podemos continuar cristãos decorativos, pois Deus não nos seduz quando nos é imposto nos nossos cérebros, mas quando possui os nossos loucos corações.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, autoria desconhecida, acessado em Pinterest, 04.01.2017.




quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

O Caminho da Beleza 10 - IV Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

IV Domingo do Tempo Comum        

Sf 2, 3; 3, 12-13                 1 Cor 1, 26-31                     Mt 5, 1-12

 

ESCUTAR

“Buscai o Senhor, humildes da terra, que pondes em prática seus preceitos; praticai a justiça, procurai a humildade; talvez achareis um refúgio no dia da cólera do Senhor” (Sf 2, 3).

“Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido, para assim confundir os sábios; Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante, para que ninguém possa gloriar-se diante Dele” (1 Cor 1, 27-29).

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 1-12).

 

MEDITAR

Após dois séculos a Igreja perdeu o hábito do debate. Reina um analfabetismo da afetividade, do calor humano, um medo doentio do coração, uma letargia, uma vigilância defensiva da comunicação pessoal. Eu sei bem de que metal é feita a caridade das pessoas da Igreja: é uma caridade sem coração, sem fraternidade e sem humanidade.

(Pe. Valadier, SJ)

É preciso nos familiarizar com este maravilhoso paradoxo: Deus é Deus porque ele nada pode possuir. Deus é Deus porque Ele dá tudo e disto resulta que Deus só pode nos tocar pelo seu amor, pois não há nenhum outro modo possível e nós só poderemos atingi-lo pelo nosso amor

(Maurice Zundel)

 

ORAR

     Não podemos continuar considerando as bem-aventuranças como um ideal da vida cristã, pois ideal está mais próximo da filosofia grega do que das Escrituras que nos garantem: “Cristo morreu por nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Cor 15, 3). Temos que ler nas histórias concretas que nos precederam para melhor procurá-Lo e encontrá-Lo nas nossas vidas. Muito mais do que um ideal, as bem-aventuranças nos indicam a maneira de agir, em qualquer circunstância para agradar a Deus e não confundi-Lo com os ídolos violentos que os pagãos fabricam (Sl 118, 105). Devemos nos esforçar para amar, para exercer a misericórdia e para ver o outro, seja quem for, como um irmão. Jesus nos deu este exemplo e, com certeza, como Ele, conheceremos a calúnia, o desprezo, a perseguição e a ardente sede de justiça. Seremos tratados como loucos, mas seremos chamados, pelo Cristo, de felizes e bem-aventurados, as palavras-chave das Beatitudes que são palavras inesgotáveis de ternura e de vida. Em todos os lugares e tempos, desde que o Evangelho foi anunciado, os que encontram apreço e valor aos olhos e coração de Deus são os que lutam contra a pobreza, o sofrimento e a fraqueza. O cristão, pela encarnação do Cristo, é um cidadão do mundo e deve se inclinar para descobrir, no tempo em que vive, onde estão os pobres, os que sofrem e os que são fracos para, com eles, indignar-se e clamar pela justiça prometida por Deus. O cristão será confrontado, como o Cristo, com o Palácio e o Templo, responsáveis pela violência destruidora, seja do poder, do preconceito e da discriminação. Para se construir a Paz fundada na justiça – desígnio de Deus – será necessária uma revolução de valores em que a solidariedade com a vida seja o alimento da esperança de um novo mundo e de uma nova humanidade. As bem-aventuranças exigem um compromisso com a paz. Não só em palavras, mas em atos que nada mais são do que palavras encarnadas. Cristãos são os que rompem o conforto medíocre das suas igrejas e lares para entregar a própria vida, uma vida que não lhes pertence porque lhes foi dada por Deus para que honrem a vida, a morte e a ressurreição do seu Filho. Somos chamados a perpetuar em nós a esperança nesta marcha dos bem-aventurados que sonham o sonho impossível de dar uma chance a Paz. Eles sabem que a única coisa que precisam é do Amor que conseguem por semear entre lágrimas os futuros cantos de alegria e de ternura.

(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Yanomami, 1974, Cláudia Andujar, Suíça/Brasil.




quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

O Caminho da Beleza 09 - III Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

III Domingo Tempo Comum

Is 8, 23b-9, 3                     1 Cor 1, 10-13.17               Mt 4, 12-23

 

ESCUTAR

“O povo que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9, 1).

“Sejais todos concordes uns com os outros e não admitais divisões entre vós. Pelo contrário, sede bem unidos e concordes no pensar e no falar” (1 Cor 1, 10).

“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz. Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: ‘Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo’. Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo” (Mt 4, 16-17.23).

 

MEDITAR

Todos os dias é necessário se converter, pois a conversão nunca é de uma só vez por todas. A tendência para o cuidado de si mesmo nos entorpece e é escorregadia. No momento em que paramos de orar e de estar atentos, nos surpreendemos dizendo: ‘eu, eu, eu’, em detrimento dos outros. Ninguém se converte a si próprio, pois é Deus que nos converte e quando Jesus diz: ‘Segue-me’, Ele nos dá o que pede: o impossível necessário que se torna possível.

(François Varillon, SJ)

 

ORAR

     A missão de Jesus não se inicia no deserto como a de João, o Batista; nem em Jerusalém, a capital religiosa e o centro do poder político e econômico. A missão de Jesus se inicia na Galileia onde residiam numerosos pagãos. A fase decisiva da história da salvação se inicia numa região que os judeus desprezavam e consideravam sombria. Sobre este país, uma luz se ergue e brilha para que seja comunicada a todos os homens e mulheres de todos os tempos e lugares do mundo. A Palavra não se esconde de ninguém e o paradoxo cristão se revela na desproporção infinita que existe entre o que somos e a missão que nos é confiada: uma missão cumulada com a misericórdia e o amor do Cristo. Na medida em que nos abandonamos à força de Deus somos cumulados de bênçãos para que cumpramos o seu desígnio e este desígnio é o próprio Deus presente no mundo. A sabedoria do Cristo é o abandono a Deus, pois quem nos envia nunca nos deixará sozinhos, uma vez que o seu Espírito habita em nossos corações. A nossa vida não é somente nossa, mas é a própria vida do Cristo presente hoje, como outrora, na sua condição terrena de humildade e pobreza. Paulo exclamava: “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Jesus nos testemunha que a humildade de sua vida não O impediu de realizar a salvação do mundo. Ao contrário, foi precisamente na sua fraqueza que pôde realizar a obra que lhe foi confiada, pois “a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Cor 1, 25). Não devemos nos escandalizar: o Cristo está presente na nossa humildade e pobreza e são estas que se tornam os instrumentos escolhidos por Deus para continuar a missão de Jesus. Os verbos ver, chamar e seguir fazem parte da dinâmica do chamado de Jesus para que caminhemos com Ele segundo a originalidade de nossos talentos. Ninguém está privado do seu olhar e nem afastado do seu apelo. A liberdade do cristão é construída, cotidianamente, numa dinâmica permanente e conflitante do “abandono de... para alguma coisa”, que desemboca na plenitude do Amor e no amor que “tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 7). Um amor que jamais acabará. A Igreja de Jesus deve se sentir em casa quando fica indignada com a pobreza das massas e se alimentar da hospitalidade de uma esperança que nunca discrimina, pois qualquer discriminação, por menor que seja, é escuridão e sombra da morte. Devemos nos converter em “povo que andava na escuridão e viu uma grande luz” para que nos transformemos, de uma vez por todas, nestes inumeráveis grãos de trigo que, reunidos, fermentados e sovados, tornam-se um só pão que será, por todos os séculos, o Pão da Vida. 

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, s.d., Margaret Durow (1989-), da série “Peso e Espera”, Wisconsin, Estados Unidos.




quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O Caminho da Beleza 08 - II Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

II Domingo do Tempo Comum        

Is 49, 3.5-6             1 Cor 1, 1-3              Jo 1, 29-34

 

ESCUTAR

“Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49, 6).

“Para vós graça e paz da parte de Deus, nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 1, 2).

“Eu vi o Espírito descer, como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele” (Jo 1, 32).

 

MEDITAR

“É fácil levar Jesus no peito; difícil é ter peito, coragem para seguir Jesus”.

 (Dom Pedro Casaldáliga)

 

ORAR

    Aceitar a palavra de Deus significa romper a crosta dos nossos hábitos e costumes e ir mais além do nosso horizonte doméstico. Somos fiéis à Palavra de Deus na medida em que valorizamos o seu alcance profético e não a prendemos com grilhões e nem a mumificamos com o bálsamo das nossas experiências passadas. Devemos nos deixar provocar pelo que ainda não conhecemos e irmos até o limite do que nunca terminaremos de explorar. O batismo de Jesus, por uma figura marginal em um lugar marginal, cumpre toda a justiça ao revelar que o Senhor escolhera Jesus, o Filho Amado, para realizar um reino justo e libertador, diante da oposição dos que estão apenas preocupados em manter tudo como está. O evangelista proclama: “Eu não o conhecia” e nos faz conhecê-Lo como Desconhecido. O Cristo permanece desconhecido, pois revestido do Espírito de Liberdade, não se deixa aprisionar pela miopia das igrejas e nem se reduzir a conceitos que servem mais para dividir o Povo de Deus do que uni-lo num só corpo e num só Espírito. A comunidade eclesial deve alimentar o gosto pelo desconhecido e por tudo que ainda devemos e poderemos descobrir. É necessário nos converter do Jesus conhecido das nossas devoções, das práticas costumeiras e consumido pelas nossas estruturas, para um Cristo Desconhecido que somente se encontra quando rompemos a prisão confortável das nossas certezas e falsas seguranças, das nossas idolatrias fossilizadas que nos trazem a tranquilidade enganosa dos pântanos e nos sepultam na paz dissimulada dos cemitérios. Meditemos as palavras do papa Bento XVI: “Se, em definitivo, o meu bem estar, e a minha incolumidade é mais importante do que a verdade e a justiça, então vigora o domínio do mais forte; então reinam a violência e a mentira. Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes são elementos fundamentais de humanidade e o seu abandono destruiria o mesmo homem” (Spe Salvi, 39).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Cordeiro de Deus, Cláudio Pastro (1948-), vitral na Capela do Mosteiro do Encontro, Irmãs Beneditinas, Mandirituba, Paraná, Brasil.




quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

O Caminho da Beleza 07 - Epifania do Senhor

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

Epifania do Senhor                  

Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3a.5-6                    Mt 2, 1-12

 

ESCUTAR

 “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 6).

“O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém” (Mt 2, 3).

 

MEDITAR

A Igreja Católica exorta seus filhos ao diálogo e à colaboração com os seguidores das outras religiões, para que deem o testemunho da fé e da vida cristã, reconhecendo, servindo e promovendo os bens espirituais e morais assim como os valores socioculturais presentes nelas.

(Nostra Aetate, 2)

Temos de renunciar ao cristianismo, se nos obrigarem a renunciar a essas dialéticas esquartejadoras dos sentimentos cristãos, reduzindo-as à escala das sentimentalidades cômodas. Temos que romper a puerilidade de um cristianismo que produz homens delicados e frágeis que nunca avançam para uma fé comprometida, pois “vivem tremendo e murados em suas defesas”.

(Emmanuel Mounier)

 

ORAR

    Hoje é a festa da luz porque a manifestação do Senhor, a sua epifania, é inseparável da luz. Quando o Senhor se manifesta, existem os que ao responder se colocam em caminho e buscam. Há outros, porém, que se escondem e dissimulam as suas vidas e os seus encontros. Os magos foram tomados de uma imensa alegria enquanto Herodes ficou perturbado assim como a Jerusalém do poder e do saber. Os sumos sacerdotes e os escribas foram convocados para uma reunião de emergência e nela manifestam a sua inquietude e desconfiança. É significativo que a aparição da “bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4) suscite perturbação nos que detêm o poder civil e religioso. A presença de Deus que se manifesta na fraqueza surge como um perigo e uma ameaça para a ordem estabelecida e para as posições consolidadas. O Cristo constitui uma ameaça para o nosso reino privado ao colocar em xeque nossos equilíbrios cansados e nossas falsas seguranças. O Papa Francisco afirma: “Preferem uma vida enjaulada em seus preceitos, em seus compromissos, em seus planos revolucionários ou em sua espiritualidade desencarnada” (Homilia 20.12.2013). O cristão lúcido sabe que é melhor a perturbação do que a indiferença; é melhor o compromisso do que a neutralidade; é melhor a recusa do que a ambiguidade. O cristão sabe que é necessário um coração para assombrar-se e alargar-se. O profeta desvela a expansão da luz e a sua alegria contagiosa. O evangelista, por sua vez, dá a conhecer o medo dos sábios cuja busca finda em suas bibliotecas palacianas, no meio dos pergaminhos cobertos de pó nos quais procuram sentenças definitivas. O caminho, com as suas imprevisibilidades e surpresas, não é o seu assunto. O coração dos magos é o coração dos que buscam, apaixonadamente, abrigar o mistério. O coração dos detentores do poder é árido, mesquinho e intolerante. Os magos nos revelam que entre o relâmpago do surgimento da estrela e o seu acompanhamento até o último trecho do caminho seremos assomados por dúvidas, cansaços, perdas e desilusões, mas, sobretudo, por esperanças. A estrela surge como uma chispa de fogo, acende o desejo e só volta a brilhar intensa e permanentemente no final quando o encontro se realiza. A busca não é nunca uma marcha triunfal: implica numerosas partidas e recomeços e não devemos dela esperar manifestações espetaculares. O que conta é a perseverança: a capacidade de não desertar, de não ceder ao desalento, de não se desviar para cômodos refúgios e nem se contentar com conquistas provisórias; a obstinação para caminhar quando tudo parece inútil, absurdo e impossível. E o que mais conta ainda é o discernimento de que para adorar a Deus é preciso nos deter diante do mistério do mundo e saber olhá-lo com amor. Quem olha a vida amorosamente começará a vislumbrar as vibrações de Deus antes mesmo de ser envolvido por elas.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, s.d., da série “O Congado”, Jorge Quintão, Minas Gerais, Brasil.