quinta-feira, 7 de maio de 2020

Francisco Catão (1927-2020)



Manas e Manos, hoje, o nosso pai espiritual e teológico, Francisco Catão, foi acolhido na eternidade da Trindade Amorosa. "Sua vida está escondida com Cristo em Deus" (Cl 3, 3).


"Cada um de nós é chamado a ser diante de Deus, de si mesmo, de seus irmãos, um autêntico servidor da Verdade e do Amor. Isso é Igreja. No seio da comunidade apostólica, como no meio do mundo, o que conta de fato é a fidelidade à Verdade, à Justiça e ao Amor. Todo homem pois, que vive autenticamente como homem, que ajuda seu semelhante a vivê-lo da mesma forma, faz parte da Igreja, está conduzido pelo Espírito de Jesus, completa em sua carne a Paixão de Cristo e será reconhecido como Filho do Pai do Céu" (Francisco Catão, A igreja sem fronteiras).

Seguem um vídeo e um texto em sua memória.



    

REVISITANDO IGREJA SEM FRONTEIRAS[1]


                                                                       Paulo Botas,mts

                        "Um dia que Deus estava a dormir
                        E o Espírito Santo andava a voar
                        Ele (Jesus) foi à caixa dos milagres e roubou três.
                        Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido
                        Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
                        Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
                        E deixou-o pregado na cruz que há no céu
                        E serve de modelo às outras.
                        Depois fugiu para o sol
                        E desceu pelo primeiro raio que apanhou".
                        (Fernando Pessoa/Antonio Caieiro, O Guardador de Rebanhos)


                        Neste quase terceiro milênio, é mister constatarmos o fracasso das nossas igrejas em suas missões evangelizadoras. O "mundo ocidental e cristão" carece de valores humanos que as igrejas nestes quase dois mil anos quiseram ser portadoras privilegiadas. O fato indiscutível é que fracassaram na criação e construção de homens e mulheres humanizados e moldaram à sua imagem e semelhança pessoas com um superlativo grau de preconceito, de dogmatismo e de autoritarismo. Os aparelhos burocráticos destas instituições se expandiram abafando e se sobrepondo ao espírito eclesial que deveria reinar no kerigma do Cristo Morto e Ressuscitado.
           
            "A Igreja não é uma instituição abstrata, a cuja forma rígida se devem dobrar as instituições humanas. A Igreja não é a depositária inerte de uma verdade intemporal para sempre formulada, que deverá ser imposta às             inteligências e às vidas dos homens, com exclusão de      tudo quanto possam descobrir ou sentir em contato com a realidade das coisas, reveladoras de Deus. Na realidade a Igreja é antes de tudo uma comunidade fiel à Verdade transcendente do Pai de Misericórdia, cuja Palavra de             Vida ouvimos, vimos com os nossos olhos, percebemos e             tocamos com as nossas mãos (Cf.1 Jo 1,1) (CATÃO: 7-8).

           
                        Superarmos a concepção pastoral de uma igreja monolítica, onde o direito à diferença tem sido negado em todas os grandes projetos de evangelização, é condição sine qua non jamais poderemos compreender a Redenção de Jesus de Nazaré.
           
"Historicamente, o "amai-vos uns aos outros "não se impôs pelo exemplo de doçura, bondade e entrega de Jesus de Nazaré, de alguns de seus discípulos ou primeiros mártires. Aprendemos a ver no outro "um próximo" pela força das armas; pelas fogueiras da Inquisição ; pela perseguição aos inimigos políticos; pelo degredo, prisão, assassinato ou extermínio em massa dos infiéis, hereges, dissidentes e desviantes".[2]

                        A história de nossas igrejas foi marcada pela intransigência cultural e política e pela obsessão de "proclamar a salvação aos gentios", impondo, custasse o que custasse, o modelo ocidental como única via ética e moral que deveria nortear e sulear nossas práticas pastorais. Parafraseando Catão, a atitude fundamental das igrejas diante do mundo não é a de excomungar os que não lhe reconhecem os direitos e a liberdade, nem de condenar os que pensam a seu contrapelo, mas a de procurar eliminar todos os obstáculos que se opõem ao reconhecimento universal da Palavra de Verdade e reunir todos os homens e mulheres contando principalmente com a força do testemunho de fidelidade à mensagem de paz e de salvação que é a sua.( cf. CATÃO: 8)
                        Em outras palavras, "não é a Igreja que conquista os homens, mas Jesus Cristo que os salva" (CATÃO: l2).
                        A Igreja Romana aniquilou pelas Cruzadas os "infiéis e os hereges" que ameaçavam o mundo cristão. Na descoberta do Novo Mundo, abençoou os canhões e as armas que ajudaram a aniquilar culturas e civilizações e a impor a Cruz e a Espada num processo de "conversão" à Igreja e aos reinos de Espanha e Portugal. Atualmente, utiliza o termo "inculturação"para se apropriar das culturas que não tendo conseguido aniquilar resistem, nestes dois mil anos, a sua ousadia e arrogância missionária...

                        Catão, ao formular, inspirado no Vaticano II, uma Igreja Sem Fronteiras, reafirma o dinamismo da graça cristã e eclesial, "germinando no coração de todos os homens que, fiéis à verdade, à justiça e ao amor, mesmo sem o saber, estão a edificar por toda a parte o reino d'Aquele que é Verdade, Paz e Amor(...) Igreja Sem Fronteiras enfim, é o tema que deve estar obrigatoriamente presente a quem se preocupa com a edificação de um mundo verdadeiramente cristão, e não apenas decorativamente em paz com a Igreja, pois o que conta não são os entendimentos e os compromissos humanos entre autoridades políticas e religiosas, mas uma vida realmente alimentada com a seiva do Evangelho e posta a serviço dos homens, à imitação de Jesus Cristo" (CATÃO: l3).

                        O mundo do ecumenismo encontra nesta formulação a sua razão de ser e de estabelecer com as realidades humanas – e, portanto, culturais, diversas e plurais – um diálogo espiritual capaz de superar todos os anátemas e cismas religiosos. Mas como efetivar este projeto ecumênico se nestes últimos trinta anos assistimos estarrecidos uma sucessão de acontecimentos que negaram a dimensão da humanidade e de humanização, tão querida pelos homens e mulheres de Boa Vontade e tão amplamente desejada pelos que lutaram e lutam pela paz na terra?

"Substituímos a prática da reflexão ética pelo treinamento nos cálculos econômicos; brindamos alegremente o "enterro" das utopias socialistas; reduzimos virtude e excelência pessoais a sucesso midiático; transformamos nossas universidades em máquinas de produção padronizada de diplomas e teses; multiplicamos nossos "pátios dos milagres", esgotos a céu aberto, analfabetos, delinquentes, e, por fim, aderimos à lei do mercado com a volúpia de quem aperta a corda do próprio pescoço, na pressa de encurtar o inelutável fim" (FREIRE COSTA).

                        Retomar "velhos" escritos onde a lucidez evangélica nos arrebata é imperativo para alimentar nossos espíritos e almas tão carentes de profundidade e de pensamentos densos. O pragmatismo das nossas "igrejas populares" esvaziou a dimensão teológica e espiritual que responde pelos diálogos profundos e ousados na construção do Reino de Deus e empobreceu o Espírito que "transcende todas as fronteiras, fala todas as línguas, enche o universo e mantém em vida todas as coisas (...) A Igreja não constitui de modo algum um grupo particular, fechado e delimitado pela língua, pela mentalidade, pela maneira de sentir ou de pensar. Por sua própria natureza a Igreja é uma comunidade real de homens, mas aberta a todos os homens, a todo o mundo" (CATÃO: l6-l7).
            Existiria a possibilidade de construirmos um mundo onde a afirmação da originalidade espiritual e da vivência do Transcendente não fosse motivo de divisões e guerras? Como nossas gerações futuras poderão acreditar no Transcendente se os nossos deuses são construídos do tamanho e estatura das nossas intolerâncias e medos? O desafio ecumênico exige a superação dos nossos limites eclesiásticos que criaram burocratas que se escondem nos organismos "ecumênicos", onde se armam redes rígidas e bem sustentadas por polpudos dólares, marcos, libras, coroas e que não sabem fazer mais nada do que Consultas, Assembleias e Sínodos para mostrarem "ao mundo" a sua "quase hegemonia" na condução "missiológica" e elitista.

"Por acaso um mundo mais justo seria aquele em que todos pudessem ter acesso ao que as elites têm? Mas o que têm as elites a oferecer? Consumo, tédio, insatisfação e ostentação(...) Em vez de utopias, manuais de auto-ajuda, psicofármicos, cocaína e terapêuticas diversas para os que têm dinheiro; banditismo, vagabundagem, mendicância ou religiosismo fanático para os que apenas sobrevivem" (FREIRE COSTA).

                        Como afirmar, segundo Catão, em alto e bom som, que "o Povo de Deus não é delimitado por nenhuma fronteira”? E "o que é absolutamente necessário para se salvar não é o pertencimento pleno e reconhecido à Igreja, senão o laço íntimo de fé e de amor com o Senhor Jesus, a graça interior, que é a riqueza da Igreja, em outras palavras, a fidelidade total e transparente de cada um, à Verdade, à Justiça e ao Amor"? (CATÃO: 36).
                        É necessário reafirmarmos que a essência da Igreja não está no quadro institucional e burocrático, nem nos seus ministérios criados a partir de necessidades dogmáticas e históricas, mas na vida em comunhão com Deus e na afirmação do sacerdócio dos seus fiéis. Mas este sacerdócio existe em todas as religiões, que apesar das suas institucionalizações, procuram superar os seus limites e criar condições para a sua universalidade. É preciso falar da generosidade e lealdade que devem pautar a vida dos homens e mulheres que ainda acreditam na" humanização da Humanidade". E este é o mistério profundo de Jesus de Nazaré, sua profunda humanidade e seu testemunho de ser "humano, profundamente humano".
                        Catão nos alerta que o fato do cristianismo ter sido trazido para a América Latina e de ter transplantado uma cristandade em suas estruturas sem nenhuma preocupação com a cultura, religião e espiritualidade dos povos que aqui encontrou, criou para a instituição - habitualmente identificada com os bispos, padres, pastores, uma série de problemas e de compromissos de que nós não nos libertaremos tão facilmente. "A Igreja, nesse sentido, é a religião que conserva as nossas tradições e deve se opor a todas as renovações" (CATÃO: 88).

"O que se espera do missionário (...) não é que pregue sobre a Igreja e a torne atraente por uma exaltação humana do seu poder, de seu prestígio, de sua prudência, de sua ciência, de todas as suas riquezas, enfim. A Igreja deve desaparecer diante de Jesus para quem aponta, como João Batista" (CATÃO: 86-87).

                        Será que teríamos, novamente, esta inspiração que poderia garantir a retomada do diálogo ecumênico e do diálogo inter-religioso? Será que teríamos, uma vez mais, a lucidez de Catão e do Vaticano II para acreditarmos que "cada um de nós é chamado a ser diante de Deus, de si mesmo, de seus irmãos, um autêntico servidor da Verdade e do Amor. Isso é Igreja. No seio da comunidade apostólica, como no meio do mundo, o que conta de fato é a fidelidade à Verdade, à Justiça e ao Amor. Todo homem pois, que vive autenticamente como homem, que ajuda seu semelhante a vivê-lo da mesma forma, faz parte da Igreja, está conduzido pelo Espírito de Jesus, completa em sua carne a Paixão de Cristo e será reconhecido como Filho do Pai do Céu" (CATÃO: 92).
                        Ou como nos desafia Freire Costa:

"Seria muito propor que, em vez de ruminar o fracasso, pensássemos juntos em refazer a amizade, a lealdade, a fidelidade e a honra na vida pública e privada, o gosto pela ética no pensamento político ou visões de mundo capazes de contornar a lassidão moral decorrentes de nossos hábitos sentimentais e sexuais, etc? (...) Um grão de loucura e devaneio, quem sabe, é desta falta que padecem nossas almas mortas, famintas de encantamento e razão de viver".

                        O desafio ecumênico, para quem ainda acredita e decidiu investir a sua vida nesta utopia, está presente nesta nossa atitude de, ao assumir as situações-limites, superarmos nossas miopias institucionais e seus dogmatismos historicamente produzidos. De sermos livres para sonharmos os novos mundos e as novas religiões, onde Deus não seja apenas uma palavra vazia e vã mas seja, tão somente, a expressão da comunhão solidária, na Verdade, na Justiça e no Amor, dos homens e mulheres, que "como se vissem o Invisível" permanecem firmes e lutando toda a sua vida.
                        São estes os benditos e benditas do Pai, os felizes, as bem-aventuradas, e, mais que nunca, são estes que, apesar da Morte, recomeçam sempre e cada vez mais se tornam imprescindíveis porque fulminados pela Esperança e pelo Amor que tudo transforma e que aproxima homens e mulheres de todas as raças, credos e religiões, porque Deus é Mais e Liberdade é o nome do seu Espírito....



Comunidade dos Manos da Terna Solidão, 29 de setembro de 1996, primeiro domingo de oxalá.


           
                       




[1]Título do livro que marcou a década de 60 e toda uma geração de Ação Católica, mas sobretudo o diálogo ecumênico no Brasil, abrindo novas perspectivas para ações comuns entre os cristãos. Seu autor foi provincial da Ordem dos Frades Pregadores (Dominicanos) no Brasil e responsável pelas posições teológicas de ponta assumidas por esta ordem religiosa que tanto marcou a Igreja brasileira e seus compromissos políticos e sociais. CATÃO, Bernardo, A igreja sem fronteiras, São Paulo, Livraria Duas Cidades, l965, 92 p.
[2] FREIRE COSTA, Jurandir, “A devoração da esperança no próximo”, Folha de São Paulo, 22.09.96, Caderno MAIS, p 8.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O Caminho da Beleza 25 - V Domingo da Páscoa


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

V Domingo da Páscoa               10.05.2020
At 6, 1-7                   1 Pd 2, 4-9               Jo 14, 1-12


ESCUTAR

O número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica (At 6, 1).

Aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus (1 Pd 2, 4-9).

“Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9).


MEDITAR

Dentro de nós está o Amor atraindo-nos até Ele, ao centro de nós mesmos, que é Ele. Porque o amor busca sempre a união, a identificação do amado com a amada. Existe alguém dentro de mim que não sou eu mesmo. Estamos construídos de tal maneira que o centro de nosso ser é Deus. De tal modo que concentrar-nos em nós mesmos é aproximar-nos de Deus. Ainda que não possamos chegar até Ele, porque também a distância que há entre Ele e nós é infinita: porque está infinitamente perto de nós (infinitamente dentro).

(Ernesto Cardenal, 1925-2020, Nicarágua)


ORAR

           Desde que Deus deixou o mundo estremecido pelo medo, ele empregou seu amor para fazê-lo voltar a ele, sua graça para convidá-lo, sua afeição para abraçá-lo. Quando do dilúvio, sua vingança purifica a terra de um mal inveterado; ele chama Noé a construir um mundo novo, encoraja-o com doces palavras, dá-lhe sua confiança familiar, o instrui com bondade sobre o presente e o consola por sua graça a respeito do futuro. Em seguida, Deus chama Abraão do meio das nações, magnifica seu nome e o faz pai dos crentes. Ele o acompanha no caminho, protege-o do estrangeiro, cumula-o de riquezas, honra-o com vitórias, assegura-o de suas promessas, arranca-o das injustiças, consola-o com sua hospitalidade, e o encanta por um nascimento inesperado a fim de que, cumulado de todos os bens, atraído pela grande doçura do amor divino, ele aprende a amar Deus e a não mais temê-lo, a adorá-lo amando-o e não mais temendo-o. Mais tarde, Deus consola Jacó na fuga por meio de sonhos. Ao seu retorno, ele o provoca ao combate e, durante a luta, ele o aperta em seus braços a fim de que ele ame o pai dos combates e não o tema mais. Depois ele chama Moisés e lhe fala com um amor de pai para convidá-lo a libertar seu povo. Em todos esses acontecimentos, a chama da caridade divina abraçou o coração humano, a embriaguez do amor de Deus se derramou sobre a sensibilidade dos homens; e estes, com a alma rendida, começaram a desejar ver Deus com seus olhos de carne. Deus, que o mundo não pode abarcar, como o olhar limitado de um homem o abarcaria? Mas o que deve ser e o que é possível não é a regra do amor. O amor ignora esta justiça. Ele não tem regra e não conhece medida. O amor não admite o pretexto da impossibilidade, não aceita tampouco o da dificuldade. O amor, se ele não realiza os seus desejos, ele mata aquele que ama. Ele vai onde ele se sente atraído e não onde há a força. O amor engendra o desejo, ele se desenvolve com ardor e almeja o impossível. E o que mais? O amor não admite não ver aquele que ele ama. Os santos não consideravam como pouca coisa tudo o que obtinham para ver a Deus? É assim que Moisés ousa dizer: “Se eu encontrar graça diante de ti, mostra-me tua face” (Ex 33, 13). E o salmista: “Mostra-nos tua face” (Sl 80, 4). Não é por isso que os pagãos se cercam de ídolos? Mesmo no meio do erro, eles viam com seus olhos o que adoravam. Deus conhecia, portanto, os mortais atormentados pelo desejo de o ver. O que ele escolheu para se mostrar era grande sobre a terra e não menos no céu. Porque o que, sobre a terra, Deus fez semelhante a ele não podia ficar sem honra no céu: “Façamos, disse ele, o homem à nossa imagem e à nossa semelhança (Gn 1, 26). Que ninguém, portanto, pense que Deus não tivesse razão de vir aos homens por um homem. Ele se fez carne entre nós para ser visto por nós.

(Pedro Crisólogo, 380-450, Itália)


CONTEMPLAR

S. Título, 2015, Nedim Chaabene (1968-), Flickr/CC BY, Tunísia/França.






segunda-feira, 27 de abril de 2020

O Caminho da Beleza 24 - IV Domingo da Páscoa


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

IV Domingo da Páscoa             03.05.2020
At 2, 14.36-41                    1 Pd 2, 20-25                     Jo 10, 1-10


ESCUTAR

Pedro lhes dava testemunho e os exortava, dizendo: “Salvai-vos dessa gente corrompida!” (At 2, 40).

Se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isso vos torna agradáveis diante de Deus (1 Pd 2, 20).

“Eu sou a porta. Quem entrar por mim será salvo... Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 9.10).


MEDITAR

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS

                                    A Portinari

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
Sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.

(Carlos Drummond de Andrade, 1902-1987, Brasil)


ORAR

     Jesus quis que encontrássemos acesso à nossa vida nos colocando entre as mãos de Deus, sob o olhar de Deus. Quando ele fala de um porteiro, não se trata de modo algum em seu espírito de uma fronteira exterior a atravessar sob o olhar inquisidor de uma sentinela qualquer. Ele quer dizer que nossa alma deve se tornar tão sensível, cultivar uma tal escuta, que ela saiba discernir quando se pode abrir inteiramente a porta do coração e quando ela não pode, e que esse seria assim o verdadeiro critério das relações humanas, e a fortiori da nossa relação com Deus. Quando a porta do coração se abre sem constrangimento, naturalmente, por ela mesma, como as pétalas de uma flor à luz da aurora, podemos então estar certos de que Deus está ali a abri-la. Quando se tem necessidade de mil desvios, de toda sorte de fugas ilusórias, quando é preciso se reprimir duramente, então podemos estar certos de que nada, absolutamente nada vem de Deus. É uma questão aqui de saber o que queremos no fim das contas. Os déspotas aspiravam reunir, governar e dirigir grandes massas humanas. Eles têm sempre a responsabilidade por tudo. Eles querem continuamente fazer tudo. É exatamente o contrário do que se iniciou com a fé de Israel no Eterno e que se prolonga com a pessoa de Jesus: a responsabilidade repousa sobre cada indivíduo, ele a carrega em seu próprio nome porque este não  existe senão uma vez, uma só e única vez sobre esta terra e Deus deseja que esse nome se exprima através dele. É apenas no sentido deste acompanhamento de cada homem até o lugar onde se sente em sua própria casa que Jesus entende sua vocação de pastor. Trata-se de alcançar e nutrir uma confiança recíproca. Não se pode pretender guiar os homens tomando-os simplesmente pelas mãos, como se tratasse de empurrá-los, seduzi-los, corrigi-los, adestrá-los, endireitá-los. Guiar-se-ão os homens apenas chamando-os à sua voz mais interior, ajudando-os a exprimir um conhecimento há muito tempo experimentado, mesmo que profundamente oculto, a fim de que eles se reconheçam ali. Um tal pastor não vem nunca de longe, ele não é nunca estranho ao ser, mas fala ao que está no mais profundo dele. É por isso que Jesus afirma aqui: “Eu sou a porta”.  Não se conseguirá jamais abordar os homens, senão à maneira de Jesus. Poder-se-á pela força engrossar as multidões, reunir as tropas, recolher impostos e reforçar um aparato administrativo; mas não se poderá realmente, à maneira de Jesus, encontrar os homens a não ser chamando o outro por seu nome, reconhecendo e enunciando por isso que ele é o que vive nele e, ainda demasiado melhor, o que nele aspira a viver.

(Eugen Drewermann, 1940-, Alemanha)


CONTEMPLAR

Daniela Trezzi, 2020, Newflash/Daniela Trezzi (1986-2020), enfermeira de 34 anos, que tirou a própria vida ao saber que contraíra o coronavírus e que infectara outras pessoas. Ela trabalhava na linha de frente do Hospital San Gerardo de Monza, na região da Lombardia, Itália.




terça-feira, 21 de abril de 2020

O Caminho da Beleza 23 - III Domingo da Páscoa


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

III Domingo da Páscoa            26.04.2020
At 2, 14.22-23                    1 Pd 1, 17-21                       Lc 24, 13-35

ESCUTAR

Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus, junto de vós, pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou, por meio dele, entre vós (At 2, 22).

Se invocais como Pai aquele que, sem discriminação, julga a cada um de acordo com as suas obras, vivei então respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo (1 Pd 1, 17).

“Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32).


MEDITAR

Aquele que é luz quer que jorre luz dos olhos do ser amado. Se eu te amo não posso querer que tenhas os olhos baços. Se eu te amo, quero que haja luz em teus olhos e quero estar junto de ti como contágio de luz, contágio de existência luminosa. Olhar de amor ou amizade é olhar ambicioso pelo outro. Eu te amo, quer dizer, tenho ambições para ti, acima de tudo, não te quero dominar e sufocar-te a liberdade, quero que despertes. Quero que a minha liberdade comungue com a tua e isso não é possível se a tua não existir.

(François Varillon, 1905-1978, França)


ORAR

    A caminhada de Emaús constitui uma espécie de fenomenologia precisa do ato de fé. Só se chega à fé pertencendo realmente à humanidade e situando Jesus nessa humanidade. É então que aparece o Senhor, não tanto como aquele que traz soluções às perguntas propostas, mas como aquele que também faz perguntas, aprende a fazê-las corretamente e vai ao fim da pesquisa que elas inauguram. Não se deve confundir a fé com a religiosidade ou com uma simples crença mais ou menos intelectual na existência de Deus. Não é por termos “necessidade” de Deus para proteger-nos ou para explicar a criação ou a moral, que temos fé. Do mesmo modo, não é por darmos muita importância ao conteúdo da fé, aos diferentes dogmas que ela reúne ou aos sistemas de pensamento que ela consagra em sua formulação, que temos verdadeiramente fé: antes de ser um conteúdo preciso, a fé é inicialmente uma atitude. O conteúdo pode variar em sua expressão ou nos acentos colocados em seus elementos sem com isso afetar a atitude fundamental da fé. Mas qual é então essa atitude? Antes de tudo, parece que é preciso ser plenamente homem para ser plenamente crente. Em outros termos, a fé é a atitude de um homem que vive ao máximo sua conexão com a humanidade. É então que Cristo aparece: não como alguém que tem a solução para essas perguntas, mas antes de tudo como alguém, um homem entre nós,  que também se fez essas mesmas perguntas, que se revoltou igualmente contra essa condição imposta ao homem. Posso dizer que tenho fé em Jesus Cristo quando descubro nele um homem que vive as perguntas da humanidade sobre o sentido de sua condição, mas que para viver essas perguntas traz um sentido especial, pessoal, até misterioso, o de uma absoluta fidelidade a seu Pai e à pobreza e às lacunas da condição humana, indo até à morte. Jesus viveu sua condição de homem de um modo muito particular: abrindo-se totalmente ao outro, aos seus irmãos os homens, e preparando-se assim para abrir-se ao Pai e receber dele o dom da vida. Não se pode dizer que o Cristo traga uma solução às minhas perguntas: ele me deixa totalmente viver em minhas próprias indagações. Jesus traz uma maneira de viver essas perguntas na abertura ao outro, no amor do outro. É esse estilo de vida de Jesus, essa sua maneira de dar um significado à condição humana que nele me agrada, que me leva procurar sua amizade, a viver em sua presença, a participar de seu Espírito e sua comunhão com o Pai. Portanto, a fé é antes de tudo uma atitude de vida com Jesus.

(Thierry Maertens, 1921-, e Jean Frisque, Bélgica)


CONTEMPLAR

Refugiados afegãos esperando para cruzar a fronteira iraniana, 2018, Enayat Asadi (1981-), World Press Photo, 2019 Photo Contest, Irã.




segunda-feira, 13 de abril de 2020

O Caminho da Beleza 22 - II Domingo da Páscoa


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

II Domingo da Páscoa              19.04.2020
At 2, 42-47              1 Pd 1, 3-9               Jo 20, 19-31


ESCUTAR

Viviam unidos e colocavam tudo em comum; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um (At 2, 44-45).

Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais (1 Pe 1, 8).

“Acreditaste porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20, 29).


MEDITAR

A morte rompe as relações, mas Jesus se apresenta aos apóstolos: ele faz explodir a barreira da morte. Ele está livre para comunicar quando quiser. A experiência pascal é a comunicação e a relação restituídas numa liberdade inesperada. Não é a lembrança que comanda, Jesus não é o prisioneiro de nossa memória, Ele é o Vivente; e porque ele é o Vivente, Ele é Promessa até que se realize para todos a comunicação, a ruptura da morte.

(Christian Duquoc, 1926-2008, França)


ORAR

  Eis que Jesus convida Tomé a tocar as chagas da paixão. Qual é o significado desse convite? De um lado, é um apelo à uma relação de intimidade com o Senhor Jesus. Nosso Salvador não se mantém longe de nós. Ele permite, deseja mesmo, que nós o toquemos em espírito. “Eu não vos chamo mais de servos, eu vos chamo amigos” (Jo 15, 15). Ele espera de nós uma aproximação pessoal, espontânea, uma aproximação de confiança e de ternura em que o coração fala ao coração. De outro lado, Jesus quer que nessa aproximação suas chagas, isto é, seu sofrimento e sua morte, não sejam jamais esquecidas. Porque, assim como é preciso recusar uma absorção mórbida aos aspectos sangrentos de sua paixão, é preciso também evitar que um apego unilateral à sua transfiguração e à sua ressurreição nos leve a menosprezar e a diminuir a realidade de sua humanidade santa, humilhada e sofrida de Redentor. O corpo que Jesus nos faz tomar é um corpo partido. O sangue que ele nos faz beber é um sangue derramado. A união perfeita da sexta-feira santa e do dia da Páscoa nos é luminosamente mostrada no episódio que meditamos hoje. Querendo mostrar a Tomé a verdade da ressurreição, Jesus o convida a tocar as feridas pelas quais fomos curados (Is 53, 5). Como nos é possível colocar nossos dedos na marca dos pregos e nossa mão no lado do Salvador? Hoje, Jesus não tem mais mãos visíveis a não ser a dos homens, não tem lado visível a não ser o dos homens. Se acreditamos verdadeiramente que os seres humanos são os membros do corpo do Cristo e que o menor copo d’água dado a uma pessoa sedenta é dado ao próprio Jesus, então nós temos um meio infalível de alcançar o Senhor. Enquanto é difícil elevar nossos corações a Deus e encontrá-lo na oração, é sempre possível descer ao Cristo, isto é, procurá-lo e encontrá-lo bem abaixo de nós mesmos, nos membros mais sofridos e mais desprezados. Nesse momento a realidade da ressurreição se torna tangível a nós, no sentido literal da palavra. Aquele que se inclina sobre seu irmão infeliz ou aviltado, aquele que não hesita em tocar em sua lepra, toca o corpo de seu Senhor. Ele sente que recebe uma experiência vivida da Presença divina.

(Lev Gillet, 1893-1980, França)


CONTEMPLAR

Enfermeira exausta após um turno interminável no hospital, 2020, foto de Francesca Mangiatordi, médica do Departamento de Emergência do Hospital Maggiore de Cremona, Lombardia, Itália.




segunda-feira, 6 de abril de 2020

O Caminho da Beleza 21 - Páscoa da Ressurreição


A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

Páscoa da Ressurreição                      12.04.2020
At 10, 34.37-43                 Cl 3, 1-4                   Jo 20, 1-9


ESCUTAR

Ele andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos (At 10, 38).

Vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus (Cl 3, 3).

Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu e acreditou (Jo 20, 8).


MEDITAR

Alguns invejam a chance dos discípulos: “Eles o viram e nós, nós não o vimos!”. Mas tê-lo visto foi também uma prova. Era a tentação de retê-lo e de se congelar numa fascinação hipnótica – esquecendo seu próximo e nem vendo mais a aventura e o universo que ele está prestes a criar especialmente para nós. A última lição do Verbo encarnado foi a de retomar os gestos simples e por eles ensinar a não mais vê-lo, mas a ver todas as coisas nele e a reconhecer a sua glória em toda parte que emerge no cotidiano.

(Fabrice Hadjadj, 1971-, França)


ORAR

Toda vez que somos capazes de quebrar nossas rotinas, nossas resignações, nossas complacências, nossas alienações em relação à ordem estabelecida ou à nossa individualidade mesquinha, e que a partir desta ruptura realizamos um ato criador, nas artes, nas ciências, na revolução ou no amor, cada vez que trazemos qualquer coisa de novo à forma humana, o Cristo está vivo, a criação está em nós, por nós e se continua através de nós. A Ressurreição se realiza a cada dia. Cada um dos meus atos libertadores e criadores implica no postulado da Ressurreição. E mais que qualquer outro, o ato revolucionário. Pois, se eu sou um revolucionário, significa que eu creio que a vida tem um sentido e um sentido para todos. Como poderia eu falar de um projeto global para a humanidade, de um sentido a dar à sua história, quando milhares de homens, no passado, foram marginalizados, viveram e morreram, escravos ou soldados, sem que sua vida e sua morte tenham um sentido? Como poderia eu imaginar que outras vidas se sacrificaram para que nasça esta realidade nova, se eu não acreditasse que esta realidade nova os contém todos e os prolonga, que eles vivem e ressuscitam nela? A ressurreição dos mortos não é mais que a do Cristo, não é o feito dos indivíduos. Como a ressurreição do Cristo seria a minha? Se ela interpela hoje cada um de nós, é porque ele não ressuscitou por ele, como indivíduo, mas por nós, em nós, para mostrar o caminho. Ele não nos salva de fora, como se oferece um presente. Mas de dentro: pois é nossa decisão, a nossa fé que nos salva. Cada um dos atos que os relatos evangélicos nos apresentam como um milagre, tem este caráter: o Cristo não aparece como um taumaturgo, agindo de fora para transformar os homens, como se fabrica um objeto. Não; tudo passa pela consciência e pela vontade dos homens. Ele não diz: “Eu te salvei”, como se pesca um náufrago. Ele diz: “Tua fé te salvou”. Lembrando-nos assim de que todo o drama da fé, sem o menor resíduo, se passa em nossa vida humana, que o homem, como diz o Padre Rahner, é o único domínio da teologia, que somos inteiramente responsáveis pela nossa história; que o homem é uma tarefa a realizar; que a sociedade é uma tarefa a realizar, que a Ressurreição é uma tarefa a realizar, e a realizar todos os dias.

(Roger Garaudy, 1913-2012, França)


CONTEMPLAR

O começo, 2017, Blake Latiolais, Monovisions Photography Awards, Estados Unidos.