terça-feira, 4 de abril de 2017

O Caminho da Beleza 20 - Domingo de Ramos e Paixão do Senhor

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

Domingo de Ramos e Paixão do Senhor              09.04.2017
Is 50, 4-7                 Fl 2, 6-11                 Mt 27, 11-54


ESCUTAR

O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás (Is 50, 5).

Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2, 7-8).

Ele era mesmo Filho de Deus! (Mt 27, 54).


MEDITAR

Às vezes, é terrível conceber e admitir, meu Deus, tudo que as criaturas terrestres se infligem umas contra as outras nesses tempos decaídos. Mas permanecendo em meu quarto não me fecho a esse espetáculo, meu Deus, continuo a encarar tudo, não fujo de nada, procuro compreender e dissecar os piores feitos, procuro sempre encontrar o traço do homem em sua nudez, sua fragilidade, deste homem raramente encontrado em meio às ruínas monstruosas de seus atos absurdos... Deus, encaro seu mundo no fundo dos meus olhos, não fujo da realidade refugiando-me em belos sonhos – quero dizer que há lugar para belos sonhos ao lado da mais crua realidade – e eu teimo em louvar tua criação, meu Deus, apesar de tudo.

 (Etty Hillesum, jovem holandesa assassinada em Auschwitz, em 1943).


ORAR

Hoje devemos festejar e colocar na roda toda a alegria de que somos capazes. A festa de Jesus tem as cores da espontaneidade e da simplicidade. Nenhuma comissão de pessoas importantes, nenhuma oficialidade nem gastos exorbitantes. A fé comporta um custo que nada tem a ver com os gastos. A entrada de Jesus em Jerusalém, montado num jumentinho, rodeado e aclamado pelas gentes humildes, expressa que o mais humano de nossa vida se realiza na simplicidade e na recusa de toda pompa e desejo de domínio. Oxalá as igrejas aprendam, de uma vez por todas, a não mais celebrar Te Deum para os ditadores e assassinos, pois só o amor e a bondade são dignos de fé. O evangelho faz uma paródia do poder e a trajetória de Jesus é a de todo cristão: abaixamento/ elevação; humilhação/ glorificação; obscuridade/ luminosidade; despojamento/ transfiguração; perda do nome/ aquisição do Nome-sobre-todo-nome. Jesus morre soltando um grito lacerante. Um grito que expressa a indignação de todos os torturados, de todas as vítimas da injustiça, da violência, dos sofrimentos mais absurdos e do abandono. Mas este grito é também uma declaração última de amor, pois Jesus morre gritando seu amor para com todos: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem!”. Devemos nos deixar penetrar por este grito e não apenas nos conformar em ouvi-lo. Podemos nos mover livremente, porque Ele permanece cravado na Cruz; podemos existir porque Ele nos ama e podemos viver porque Ele, com uma semente, aceitou morrer. No relato evangélico não há discursos de elogio ao vencedor triunfante, mas se destaca o ato final de um homem que deu sentido à sua vida e à sua morte ao dizer que não havia maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos. Devemos, como Jesus, sem medo, dar o mesmo sentido às nossas vidas e mortes, oferecendo a força vital de nosso amor ao mundo. O Cristo, morto e ressuscitado, evoca-nos, com a sua entrega de amor, que a libertação do medo consiste em sermos fulminados pela coragem da esperança: “No mundo passareis tribulações; mas tende ânimo, pois eu venci o mundo” (Jo 16, 33).


CONTEMPLAR

Sem Título, anônimo, acessado em Pinterest, (Fonte: s-media-cache-ak0.pinimg.com).





segunda-feira, 27 de março de 2017

O Caminho da Beleza 19 - V Domingo da Quaresma

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?

(Ml 2, 10)

V Domingo da Quaresma                    02.04.2017
Ez 37, 12-14                                    Rm 8, 8-11              Jo 11, 1-45


ESCUTAR

Poreis em vós o meu espírito, para que vivais, e vos colocarei em vossa terra (Ez 37, 14).

Aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós (Rm 8, 11).

“Desatai-o e deixai-o caminhar!” (Jo 11, 44).


MEDITAR

Silêncio!
És feito de pensamento, afeto e paixão.
O que resta é nada
além de carne e ossos.

Por que nos falam
de templos de oração,
de atos piedosos?
Somos o caçador e a caça,
outono e primavera,
noite e dia,
o Visível e o Invisível.

Somos o tesouro do espírito.
Somos a alma do mundo,
livres do peso que vergasta o corpo.

Prisioneiros não somos
do tempo nem do espaço
nem mesmo da terra que pisamos.

No amor fomos gerados.
No amor nascemos.

(Jalal ud-Din Rumi, Sufismo)


ORAR

Nossa sociedade faz todo possível para esconder a morte e subtraí-la dos nossos olhos e corações. Temos a pretensão de aniquilar com a sua fealdade ao evitar o convívio com a nossa própria morte. A morte é um terminar de morrer, pois “a gente morre é para provar que viveu e que não teve razão” (Guimarães Rosa). A ressurreição dos mortos é um ponto central da fé e tem um impacto nas nossas vidas, pois incide, de uma maneira determinante, no nosso caminho, nas opções a serem tomadas e nas orientações que damos às nossas existências. A palavra de Jesus é incisiva aos amigos e irmãs de Lázaro: “Desatai-o e deixai-o caminhar!”. Morrer é não desatar os nós que nos impedem de caminhar; é manter nossos rostos escondidos atrás de um pano mortuário que nos embaça os olhos, faz-nos tropeçar, errar o alvo e manter contaminado o coração. Devemos expurgar os anjos da morte, amigos dos que destroem a Criação de Deus para acumular posses e poder, sinais do Maligno. Se o Espírito não nos livrar do medo não haverá esperança para o mundo, pois a ressurreição é também ser libertado do medo para enfrentar as formas de morte inventadas pelos homens. A morte é imposta pela corrupção que usurpa a vida dos mais desfavorecidos, cria leis para o usufruto dos bens que são para todos, divide para reinar e se abarrota do espólio de morte feito de cinismo, hipocrisia e escárnio. O papa Francisco exorta: “A corrupção dos poderosos acaba sendo paga pelos pobres que, por causa da avidez dos outros, ficam sem aquilo de que têm necessidade e direito. A corrupção é justamente o pecado acessível de alguém que tem autoridade sobre os outros...econômica, política ou eclesiástica. Todos somos tentados pela corrupção, porque quando alguém tem autoridade e se sente poderoso, se sente quase como um deus. Somos corrompidos ao longo do caminho da própria segurança. Com o bem-estar, o dinheiro, depois o poder, a vaidade, o orgulho. E daí brota tudo: também o matar”. O triunfalismo é o terreno ideal para o comportamento corrupto que não conhece a fraternidade ou a amizade, mas só a cumplicidade. O papa Francisco alerta: “Quando uma pessoa vive no seu ambiente fechado respira aquele ar próprio dos seus bens, da sua satisfação, da vaidade, de se sentir seguro e confia apenas em si mesmo, perde a orientação, perde a bússola e não sabe onde estão os limites”. A corrupção é proselitista e se disfarça de comportamentos socialmente aceitáveis. Somos corrompidos pela mediocridade e pela tibieza e nos tornamos acrobatas da delicadeza e campeões das boas maneiras Como Pilatos, o corrupto lava as mãos, faz de conta que o problema não lhe diz respeito e assim defende a sua zona corrupta de adesão ao poder a qualquer preço. O Papa Francisco é incisivo: “Porque uma coisa corrupta é uma coisa suja. Se encontramos um animal morto que está se deteriorando, que é corrupto, é ruim e também fede. A corrupção fede! A sociedade corrupta fede! Um cristão que deixa entrar dentro de si a corrupção não é cristão, fede!”. A todos se passa o mesmo: não queremos pensar na morte. É melhor esquecê-la, não falar disto e seguir vivendo cada dia como se fôssemos eternos. No entanto, “a morte de cada um já está em edital” (Guimarães Rosa). Deus não impede ninguém de morrer, pois todo homem experimentará a morte. Jesus também teve a sua vez e a sua hora: chora, tem medo, se entristece até a morte e seu suor é seu próprio sangue. Nossa morte é uma página no livro da Vida e o encontro final para um cristão não é com sua própria morte, mas com a morte de Jesus. A Palavra de Jesus não é mais um túmulo selado, mas uma chamada: “Lázaro sai!”.


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Distrito Financeiro e Bolsa de Valores de Nova Iorque, 2008, Christopher Anderson (1970-), Magnum Photos, Kelowna, Canadá.




segunda-feira, 20 de março de 2017

O Caminho da Beleza 18 - IV Domingo da Quaresma

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

IV Domingo da Quaresma                  26.03.2017
1 Sm 16, 1.6-7                    Ef 5, 8-14                Jo 9, 1-41


ESCUTAR

“Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem” (1 Sm 16, 6).

Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se bondade, justiça e verdade (Ef 5, 8-9).

“Como é que abriram os teus olhos?” (Jo 9, 10).


MEDITAR

Cada um conhece a direção do lugar em que se esconde (Provérbio Bambara, Costa do Marfim).


ORAR

O olhar dos homens fica nas aparências. O olhar de Deus penetra até sondar o coração e seus critérios de julgamento não são os nossos: Ele aprecia o que para os homes carece de importância. No evangelho de hoje prevalece o tema da luz. O cego de nascença estava condenado e era tratado como um bode expiatório. Jesus não participa deste linchamento psicológico, social e religioso e ao se declarar a Luz do Mundo, recria o gesto do Criador e devolve a visão ao cego. A palavra de Jesus é uma palavra que não condena, mas torna possível um futuro a ser inventado. Jesus reconcilia o homem consigo mesmo ao lhe devolver a capacidade de olhar, de se projetar num futuro, pois recuperada a visão ele recupera a palavra: “Só sei que eu era cego e agora vejo”. Neste momento, o que era cego se torna responsável por si mesmo, nasce como pessoa e recupera a sua liberdade diante da condenação por uma falta que nunca cometera. Somos muitas vezes cegos, pois queremos ver tudo, falar sobre tudo e desta maneira mergulhamos na estagnação do mundo. “O pior cego é o que quer ver” (Guimarães Rosa), pois os que caminham na escuridão do breu acreditam poder ver mais do que os outros. O fato culminante deste evangelho é o ato de fé: “Eu creio, Senhor!”. A fé no Cristo é o transbordamento de um processo de iluminação e despojamento. O cego é expulso da sinagoga e, neste momento, reconhece o Cristo e realiza o seu ato de fé. Reconhecer o Cristo é estar livre das amarras e armadilhas dos que nos privam da liberdade e querem ver as coisas por nós e sonhar nossos sonhos. “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos”. Somos educados a ser bem vistos por todos e ser cegos diante de nós mesmos. Crer no Cristo é luz para ver e liberdade para falar. Devemos nos libertar da cegueira do egoísmo que nos torna infelizes e infelizes os outros. Nosso “eu” não é o centro do mundo, mas a possibilidade de uma relação sempre aberta. A Igreja de Jesus não precisa de fanáticos que defendam suas verdades de maneira autoritária, com uma linguagem vazia e de frases feitas. Precisa de homens e mulheres de fé, atentos à vida e sensíveis aos problemas dos outros. Homens e mulheres que buscam Deus e sejam capazes de escutar os que sofrem por não poderem viver de maneira mais humana. “Não basta sermos iluminados, devemos ser testemunhas da Luz” (Jo 1, 8).


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S. Título, Jo Paul Wallace, Londres, Reino Unido.


segunda-feira, 13 de março de 2017

O Caminho da Beleza 17 - III Domingo da Quaresma

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?

(Ml 2, 10)

III Domingo da Quaresma                 19.03.2017
Ex 17, 3-7                 Rm 5, 1-2.5-8                    Jo 4, 5-42


ESCUTAR

“Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?” (Ex 17, 3).

A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5, 5).

“Dá-me de beber” (Jo 4, 7).


MEDITAR

O que farás, Deus, se eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se eu quebrar?)
Eu sou teu poço (e se eu estagnar?)
Sou teu hábito e teu ofício.
Sem mim perdes o teu sentido.

Sem mim não terás casa, onde
palavras, íntimas e quentes, te abriguem,
Cairá de teus pés cansados
a sandália macia que eu sou.

Teu grande manto te cairá.
Teu olhar, que minha face acolhe,
quente como um travesseiro,
virá de longe me procurar
e ao pôr do sol se aninhará entre
estranhas pedras.

O que farás, Deus? Tenho medo.

(Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas).


ORAR

Nas Escrituras Sagradas, os poços e as fontes são lugares de reencontro e aliança entre os homens e Deus. Em todas as tradições religiosas, as águas são fonte de vida, meios de purificação e o seu aspecto inesgotável responde pela metáfora da abundância. No casamento, o êxtase é comparado ao beber da própria água: “Bebe a água de tua cisterna, bebe abundantemente de teu poço. Seja bendita a tua fonte, exulta com a esposa de tua juventude: cerva querida, gazela formosa, que suas carícias sempre te embriaguem, e constantemente te arrebate seu amor” (Pr 5, 15.18-19). O testemunho de Jesus nas suas andanças é ir ao encontro dos outros com a liberdade que brotava dentro dele como um rio de água viva. Jesus encontra a samaritana que cumpre a obrigação de buscar a água estagnada do poço. Jesus não condena a samaritana e faz com que descubra a alegria acima do prazer, o valor pessoal acima da beleza física e a dignidade acima da capacidade de seduzir. Mas como vivenciar o encontro pessoal com Jesus se nos contentamos com as informações pasteurizadas das redes sociais e não somos mais pessoas originais, mas empreendedores de nós mesmos? Se a nossa espiritualidade está abarrotada com as fáceis palavras dos livros de autoajuda e chamamos de meditação os mantras dos slogans religiosos que consumimos a torto e a direito? Somos a geração que foge dos encontros pessoais e mergulhamos no fast food religioso das palavras de efeito. O encontro com a samaritana desvela o longo processo ao qual devemos nos configurar e pelo qual passa o caminho da fé. A samaritana carrega uma angústia e quanto maior esta angústia maior é a sensação do vazio. Jesus quer aniquilar este vazio e se identifica com ela: está cansado e com sede. O diálogo de Jesus não é para vencer uma disputa, pois Deus não está na derrota do outro. Nesta derrota faz morada apenas o narcisismo de quem se toma com referência última de todas as coisas. Meditemos as palavras de Abbé Pierre: “a fraternidade não é outra coisa do que um deslumbramento partilhado”.


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S. Título, c. 1996 Henning Christoph (1944-), Grimma, Alemanha. A foto está em Voodoo, Secret Power in Africa: Köln, Taschen, 1996, p.99.






segunda-feira, 6 de março de 2017

O Caminho da Beleza 16 - II Domingo da Quaresma

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

II Domingo da Quaresma                   12.03.2017
Gn 12, 1-4                2 Tm 1, 8-10                       Mt 17, 1-9


ESCUTAR

O Senhor disse a Abrão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa de teu pai e vai para a terra que eu vou te mostrar” (Gn 12, 1).

Caríssimo, sofre comigo pelo evangelho, fortificado pelo poder de Deus (2 Tm 1, 8).

“Levantai-vos e não tenhais medo” (Mt 17, 7).


MEDITAR

Tu que iluminas a terra
e seus habitantes com misericórdia,
e que na tua bondade renovas sempre,
a cada dia, a obra da criação...
Deus eterno, na tua grande misericórdia
tem compaixão de nós,
Senhor da nossa força,
rocha do nosso abrigo,
escudo da nossa salvação,
nosso único refúgio.

Bendito és tu, Senhor,
que formas os luminares.

(Formador da Luz, Yoser’or, Judaísmo)


ORAR

Temos que ler os Evangelhos para buscar o esplendor da Vida e a Vida Eterna. Quando o Senhor chama, arranca todas as seguranças e nos tira do conforto em que nos movemos. A fé é uma viagem, uma travessia interminável e nosso vínculo com o Senhor é mantido no meio de uma série de rupturas, pois Ele não nos alimenta de certezas, mas de promessas; não oferece conquistas, mas bênçãos. A realidade apresentada é um caminho que nunca termina. Se Abrão aparece como um nômade desgarrado, Pedro emerge com uma fé sedentária protegida numa tenda. O cristão caminha esperando e espera caminhando, pois somos chamados a partir e a nos comprometer com uma travessia. Só poderemos escutar Jesus seguindo-O. Ele é um mestre itinerante: caminha e aprenderás, caminha e verás, caminha e descobrirás. É no caminho com Ele que nos transfiguramos e vamos além de um bronzeado espiritual. Pedro deseja prolongar a experiência da Luz e não tem pressa para sair. Jesus nos revela que basta um instante para fixar, na eternidade, a face de todo ser humano apesar da banalidade do cotidiano em que vivemos, pois “todo homem é uma história sagrada” (Jean Vanier). Basta do apego a um passado idílico em que nos movemos mais com um instinto de conservação do que de renovação. A misericórdia está acima de tudo e a Igreja de Jesus não recebe um ministério de julgamento e condenação, mas o ministério da reconciliação. Jesus nos apela a não termos medo e o encontro pessoal com Ele nos liberta de todos os medos, apruma as vértebras e nos mantém de pé. É preciso aprender a ouvir o Bem Amado escondido na gruta secreta do nosso coração e pronto para se deixar transfigurar. Basta um olhar de ternura: este é o olhar que nos salva, pois é o olhar do Cristo na face de todos os viventes.


CONTEMPLAR

Folha em Ardósia, Jim Brandenburg (1945-), Minnesota, Estados Unidos. Acessado em http://www.jimbrandenburg.com/



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Caminho da Beleza 15 - I Domingo da Quaresma

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

I Domingo da Quaresma                     05.03.2017
Gn 2, 7-9; 3, 1-7                Rm 5, 12-19                                   Mt 4, 1-11


ESCUTAR

Então, os olhos dos dois se abriram; e, vendo que estavam nus, teceram tangas para si com folhas de figueira (Gn 3, 7).

O dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos (Rm 5, 15).

“Não tentarás o Senhor teu Deus!” (Mt 4, 7).


MEDITAR

A fala é divinamente exata,
Convém ser exato para com ela.
A língua que falsifica a palavra
Vicia o sangue daquele que mente.
(Provérbio do ritual Komo, da tradição Bambara, do Mali, África).

ORAR

As tentações do deserto propõem caminhos alternativos reduzidos a um messianismo triunfalista e terreno. A primeira, é reduzir o homem ao seu estômago; a segunda, é lhe conferir o poder de impressionar para a publicidade, a teatralidade e a ostentação. É a tentação da imagem exacerbada de um milagrismo tosco, de mal gosto, que longe de ser uma expressão de fé é uma caricatura da verdadeira relação com Deus. A terceira, é conferir toda a força e poder às relações políticas e religiosas. O primeiro caminho é o da facilidade; o segundo, o da superficialidade e o terceiro, o da contaminação pelas idolatrias e falsas seguranças. É diabólico organizar a religião para nos acomodar. Não se constrói um mundo mais humano refugiando-se cada um na sua própria religião. A tentação é colocar-se à prova, mas também uma armadilha para nos aprisionar. O deserto (eremos) é o lugar de refúgio e solidão para Jesus e é o Espírito que o conduz para ser tentado. É no deserto que Jesus se derrama em abundância sobre todos. Na tentação do deserto, Satã se apresenta como exegeta para Jesus. Ele interpreta as Escrituras para que Ele se acomode, mas o Espírito sopra uma outra exegese: a Palavra não é dada para se exigir milagres, mas para revelar aos homens o milagre que ele é. Ainda procuramos não tanto Deus quanto os milagres. “Esta geração adultera e perversa procura um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado” (Mt 16, 4). As tentações do Cujo representam entediantes variações sobre pouquíssimos temas muito velhos e aborrecidos. Desde o Gênesis, os homens se omitem em comer o fruto da árvore da Vida que simboliza a aspiração à Vida Eterna. Seu pecado é o da omissão de viver e correr riscos livremente. “Existem três forças, as únicas três forças na terra capaz de vencer e cativar para sempre a consciência desses rebeldes fracos para sua própria felicidade: essas forças são o milagre, o mistério e a autoridade” (Lenda do Grande Inquisidor, Dostoiévski). Entregamos a nossa liberdade a qualquer instituição que nos ofereça segurança e proteção e, como a serpente, decida por nós. E nos tornamos “doidos sem cura” (Guimarães Rosa), mas o Cristo nos liberta desta loucura mundana que nos despersonaliza, pois “o demônio não existe real. Deus é que deixa afinar à vontade o instrumento, até que chegue a hora de se dançar” (Grande Sertão, Veredas).


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Poste de Cerca, 2014, Matt Black (1970-), Magnum Photos, Allensworth, Califórnia, Estados Unidos.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Caminho da Beleza 14 - VIII Domingo do Tempo Comum

Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente. Procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus. Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça.
(Papa Francisco, 2016)

Não temos um só Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns contra os outros?
(Ml 2, 10)

VIII Domingo do Tempo Comum                26.02.2017
Is 49, 14-15             1 Cor 4, 1-5             Mt 6, 24-34


ESCUTAR

Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti (Is 49, 15).

Aguardai que o Senhor venha. Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações (1 Cor 4, 5).

“Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus problemas” (Mt 6, 34).


MEDITAR

O homem jovem come a carne, o homem maduro come o coração (Provérbio Massango, Gabão, África).


ORAR

Na liturgia deste domingo são oferecidas três imagens de Deus (mãe, pai e juiz) e uma grande dúvida: “O Senhor abandonou-me, o Senhor se esqueceu de mim”. A resposta é imediata: uma mãe não esquece jamais do seu filho, pois a memória materna é expressa pela comoção, no sobressalto das entranhas, e sempre leva, ainda que adulto e distante, o seu filho no seio e no coração. O Senhor empenha a sua palavra: “Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti”. Somos nós que nos separamos de Deus, pois estamos tão preocupados com nossa estabilidade material que temos dificuldade em nos abandonar à Providência Divina. Servimos mais ao dinheiro do que a Deus e Mamon tem vencido no mundo por meio da nossa idolatria e falsa segurança. Os filhos de Mamon se contentam com os pingos de água benta que são jogados em seus estabelecimentos, criados para a acumulação, e apaziguam as consciências com um cheque oferecido aos que pensam abençoá-los em nome de Deus. O dinheiro se torna um ídolo quando se aninha no coração dos homens e a nossa falta de fé dificulta, arduamente, compreender a Providência de Deus. Jesus nos convida a ter a coragem de arriscar, experimentar, confiar, em suma, crer. Jesus utiliza o verbo douleyein que significa, literalmente, servir como escravo. Somos desafiados a decidir a quem serviremos: à gratuidade de Deus ou à ganância do dinheiro. A primeira, leva-nos ao encontro e ao coração dos outros; a segunda nos conduz à decomposição e à insensibilidade diante da dor das vítimas de Mamon. O papa Francisco escreveu: “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e impiedosa versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem uma meta verdadeiramente humana”. O dinheiro, com sua ambição desenfreada que nos domina, “é o esterco do diabo”, como dizia Basílio de Cesareia. Ele divide e coloca irmão contra irmão, mãe contra filho, filha contra pai e destrói a cada um, sem exceção. O Senhor nos livre desta maldição!


CONTEMPLAR


S. Título, anônimo, Indonésia, acessado em Pinterest, 04.01.2017.