quinta-feira, 25 de novembro de 2021

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

I Domingo de Advento                        

Jr 33, 14-16                        1 Ts 3, 12-4,2                      Lc 21, 25-28.34-36

 

ESCUTAR

“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá. Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a sementa da justiça” (Jr 33, 14-15).

“O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós” (1 Ts 3, 12).

“Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 36).

 

MEDITAR

“Não se trata de anunciar a alegria, mas de só procurá-la no serviço da alegria de todos. De todos, a começar pelos mais próximos, e depois estender, de próximo em próximo, até a alegria universal” (Abbé Pierre).

“O que chamamos de início é o mesmo do que o fim e acabar é começar. E o fim é de onde partimos” (T. S. Eliot).

 

ORAR

    Neste primeiro domingo de Advento, a existência cristã está fundamentada sob o signo da espera. A espera de um duplo acontecimento e de uma dupla vinda do Cristo: na carne (Natal) e na glória (Juízo Final) e estes dois acontecimentos, que se entrelaçam, só podem ser vividos na esperança. E esta espera/esperança está centrada na mesma pessoa: o Cristo. O profeta anuncia que a justiça de Deus é manter as promessas que fez em favor do seu povo. E o Senhor não quer faltar à palavra dada, pois a justiça tem o mesmo rosto de sua misericórdia. O tempo do Advento é o tempo para que nos purifiquemos de todos os ídolos que nos são oferecidos cotidianamente: as aparências, os status, os poderes. O cristão conjuga o verbo esperar não como uma esperança vaga e modesta, mas como uma esperança audaz que tem como raiz o dom que, em Cristo, nos vem de Deus. O cristão não foge da existência cotidiana, mas está sempre atento para não ser pego desprevenido e nem distraído. O cristão alimenta a sua lucidez diante das inúmeras seduções que o possam desviar do desígnio de Deus e, desta maneira, fazê-lo perder o sentido do caminho a ser seguido. Somos chamados a termos “nossas cinturas cingidas e as lamparinas acesas” (Lc 12, 35), uma vez que, como sentinelas, não nos cabe um minuto de desatenção e nem de descanso, pois deveremos estar “em pé diante do Filho do Homem”. E o Senhor nos promete “que essa humanidade se emancipará da escravidão da corrupção, para obter a liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 20). Neste domingo, é preciso proclamar que o amor que se encarna é o mesmo que nos julgará pelo amar que conseguimos. O tempo de Advento é um tempo de crise; uma ruptura com a nossa mediocridade e um mergulho no amor e na prática do amor, pois só conhecemos, quase que plenamente, a existência daqueles que amamos. Meditemos as palavras de Ernesto Cardenal, monge trapista da Nicarágua: “Dentro de nós está o amor. Deus está louco de amor e, portanto, seu comportamento é imprevisível. Em qualquer momento o Amante pode cometer um disparate, porque como todo o que ama, não raciocina. Está bêbado, embriagado de amor”. Ou, em bom espanhol: “Dios está borracho de amor!”.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Madona com a criança, c. 1750, Luis de Morales (1509-1586), óleo sobre painel, 84 x 64 cm, Museu do Prado, Madri, Espanha.




quinta-feira, 18 de novembro de 2021

O Caminho da Beleza 53 - Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo                 21.11.2021

Dn 7, 13-14             Ap 1, 5-8                  Jo 18, 33-37

 

ESCUTAR

“Seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7, 14).

Olhai! Ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão, também aqueles que o traspassaram (Ap 1, 7).

“Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37).

 

MEDITAR

Olhai-o!


Não olhai sua divindade,

mas olhai antes sua liberdade!


Não olhai as histórias exageradas de seu poder,

mas olhai antes sua capacidade infinita de se doar ao outro.

 

Não olhai a mitologia do primeiro século que o cercou,

mas olhai antes sua coragem de ser,

sua capacidade de viver e

a qualidade contagiosa de seu amor.

 

Parai vossa busca frenética!

Parai e conhecei que Deus é isto:

este amor,

esta liberdade,

esta vida,

este ser...

 

Beijai esse sopro do Cristo

e ousai ser

você mesmo!

 

Creio que é este o caminho para Deus, o Deus que encontrei

nesse Jesus tão profundamente humano.

Shalom!

 

(John Shelby Spong, 1931-2021, Estados Unidos)

 

 ORAR

          A vitória de Deus sobre o poder terreno, que se opõe ao seu plano de salvação na história, age na contraposição radical e absoluta do amor a toda forma de poder, porque não apenas Deus se concebe no diálogo com o mundo como deve ser definido como “amor”. E seu amor é fiel e, em Cristo, se cumpre num ato realizado na história, por isso de agora em diante o poder é considerado superado pelo ingresso do amor no mundo. Diante de Pilatos que representa o poder, Jesus dirá que a sua morte é testemunha dada à verdade. Donde verdade, segundo o significado hebraico, é também fidelidade e designa o verdadeiro amor em que consiste a verdade de Deus. A vitória sobre o poder é obtida superando-se a lógica negada pela raiz de sua “verdade”. Nesse sentido, pode-se agora falar, como faz o Apocalipse, dos reinos que servem e são submetidos, porque são submetidos por um “traspassado”. Cristo, pois, é rei na medida em que não é tudo isto que humanamente se designa com este termo: é rei enquanto contrapõe o amor ao poder. A doutrina do domínio de Jesus sobre todo o mundo é incompreensível se não é lida nesta dimensão teológica e escatológica. Um domínio que é doação plena e total, “obedecendo ao Pai até a morte de cruz" (Fl 2, 8). A Igreja deve viver nesta luz a sua participação na soberania do Cristo não “servindo-se” da humanidade, mas “servindo” a humanidade (Mc 10, 41-45: o “código da autoridade cristã”). Cabe à Igreja guardar aberta aquela ferida que o Cristo desfechou ao poder prevaricador e ao mal, ferida que é mortal. Hoje, portanto, é a celebração de uma nova ordem de relação entre Deus e o homem: um reino celeste e eterno, legado pela lógica do amor de Deus (Daniel), um reino de esperança e de salvação definitiva (Apocalipse), um reino de verdade e de justiça (João).

(Gianfranco Ravasi, 1942-, Itália)

 

CONTEMPLAR

Poder Popular, 2007, Edwin S. Loyola, Manila, Filipinas.




 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXXIII Domingo do Tempo Comum                     14.11.2021

Dn 12, 1-3                Hb 10, 11-14.18                 Mc 13, 24-32

 

ESCUTAR

“Os que tiverem ensinado a muitos homens os caminhos da virtude brilharão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12, 3).

Onde existe o perdão, já não se faz oferenda pelo pecado (Hb 10, 18).

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13, 31).

 

MEDITAR

A Oração é a própria criação do que está por vir. Ela não existe nem para encher o vazio do passado, nem para assegurar um presente: ela realiza um futuro, para assegurar a possibilidade de uma história; a história da minha própria vida, para que ela não se torne a fastidiosa repetição indefinida de instantes sem significação; a história da minha Igreja para que ela não seja a incoerência de boas intenções e de piedade sem fundamentos; a história de meu Povo, para que não venha a ser acúmulo de opressões, de ódios e de injustiças.

(Jacques Ellul, 1912-1994, França)

 

ORAR

      A esperança consiste fundamentalmente em reconhecer que toda a verdade do homem não se encontra naquilo que se vê agora, e que o homem não se deixa esgotar pelo seu presente. Consiste ainda em crer que essa verdade plena do homem não é pura ilusão, mas que ela se revelará no futuro. Não se trata de aspirar para a satisfação de desejos atuais frustrados na experiência de cada dia. Trata-se de esperar algo novo. O objeto da esperança não são os objetos dos nossos desejos: é aquilo que não desejamos por não o conhecermos... Os desejos e as necessidades atuais situam-se na superfície do homem. Num nível mais profundo existe uma aspiração não consciente e não vivida para uma manifestação diferente do ser humano. Essa é a aspiração de que fala São Paulo: “A criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Pois a criação foi sujeita à vaidade, não por vontade própria mas pela vontade daquele que a sujeitou, todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que em dores de parto até o presente dia (Rm 8, 19-22). Os gemidos e os sofrimentos da criação não equivalem às frustrações que se podem experimentar. É da espera de um mundo novo que se trata, além de todas as dores do mundo presente... Por isso devemos evitar uma confusão fácil. A mensagem cristã não é uma resposta dada à esperança. Não se excita a esperança para poder oferecer a vida cristã como resposta. Esta vida cristã não tem por finalidade acalmar as aspirações, dar-lhes satisfação, assegurar aos homens a tranquilidade que procuram. Muito pelo contrário, o cristianismo consiste em despertar uma esperança latente e inaugurar uma vida de esperança. Em lugar de suprimir o problema, a mensagem evangélica cria uma perspectiva nova e um problema novo. Não pretende acalmar os homens no nível de sua vida exterior, de suas atividades naturais. A esperança nem suprime, nem suscita desequilíbrios psíquicos. Ela é nova dimensão dada à vida anterior. “Na esperança é que fomos salvos” (Rm 8, 24). Isto é: nossa salvação consiste em viver uma vida de esperança.

(Joseph Comblin, 1923-2011, Bélgica)

 

CONTEMPLAR    

Nelson Mandela, 1994, primeiro presidente negro da África do Sul revisita sua cela em Robben Island, onde passou dezoito dos seus vinte e sete anos de prisão, Jürgen Schadeberg (1931-2020), Getty Images, Alemanha/África do Sul.




 

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O Caminho da Beleza 51 - Todos os Santos e Santas

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

Todos os Santos e Santas                    07.11.2021

Ap 7, 2-4.9-14                    1 Jo 3, 1-3                Mt 5, 1-12

 

ESCUTAR

“Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus” (Ap 7, 3).

Caríssimos, vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!

“Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5, 5).

 

MEDITAR

Amais ou amastes a alguém o bastante para não quererdes ser separados deles, para poder viver com eles toda a eternidade? Só aquele que ama assim, só aquele que é amado assim tem promessas de eternidade. O céu é amar sempre, e nossa capacidade de céu é exatamente proporcional à nossa capacidade de amar. Tendes algo de bastante bom, de bastante valioso em vossa vida para querê-lo eternizar?

(Louis Évely, 1910-1985, Bélgica)

 

ORAR

      Nossa vida é um movimento. Nossa vida é uma travessia em direção a nós mesmos... E é precisamente nessa travessia em direção a nós mesmos que encontramos o Deus vivo não como um estranho que está além, após a morte, mas como uma Fonte, agora, dentro de nós.... como uma Fonte que jorra em vida eterna! Os Santos compreenderam que o Céu está aqui, dentro de nós. Eles descobriram, dentro deles mesmos, esse rosto adorável que é impossível exprimir, mas que é tão maravilhoso de se viver. Eles não se dirigiam a um Deus estranho, eles se aninhavam na intimidade de um Deus que era a Vida de suas vidas. É preciso, portanto, tomar consciência hoje da renovação necessária do nosso olhar para que Deus não seja mais para nós uma ameaça e um limite, para que não vejamos Nele o inventor de uma morte que nos arranca de uma vida em que estamos agarrados até a medula, que saibamos e aprendamos justamente que a morte tem mil rostos diferentes e que ela não é a mesma para aquele que viveu, para aquele que juntou sua identidade no coração a coração com Deus e que isso justamente é possível para nós, que isso nos é oferecido, que é nossa vocação vencer a morte dando-nos Àquele que é em nós uma Fonte que jorra em vida eterna. Todos os Santos é um apelo imenso à autenticidade, é uma tomada de consciência do mistério infinito de nossa vida. É preciso dizer que seria impossível tomar consciência do Mistério que é Deus se nossa vida não fosse, ela mesma, um mistério inesgotável. E nós encontramos o Deus vivo precisamente nessa travessia de nós para nós mesmos, em que é preciso constantemente se ultrapassar para atingir enfim o eu pessoal que funda a nossa dignidade: o bem comum para a conservação em que toda a humanidade está interessada porque nesse diálogo com Deus cada um de nós pode se tornar uma origem, uma fonte, um começo e um criador. É preciso, pois, associar a Todos os Santos o chamado a nos descobrir a nós mesmos em nossa autenticidade, a irmos em direção à realização perfeita de nossa vocação de homens que só pode justamente atingir seu cume nesse diálogo do amor em que nos perdemos em Deus.

(Maurice Zundel, 1897-1975, Suíça)

 

CONTEMPLAR

Cidade Proibida, s.d., Saul Landell, Guadalajara, México.




 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O Caminho da Beleza 50 - XXXI Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXXI Domingo do Tempo Comum             31.10.2021

Dt 6, 2-6                  Hb 7, 23-28                        Mc 12, 28-34

 

ESCUTAR

“Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5).

Cristo, porém, uma vez que permanece para a eternidade, possui um sacerdócio que não muda (Hb 7, 24).

“Amá-lo de todo o coração, de toda a mente e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo, é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios” (Mc 12, 33).

 

MEDITAR

escute: eu bato à porta (Ap 3, 20); eu te falo pelo meu olhar: ame.

 

escute: eu bato à porta

                 abra-me               minha amada

                                               minha pomba

                                               meu eu (Ct 5, 2)

 

escute, abra teu coração

     e nós cearemos juntos

                 eu em ti e tu em mim (Ap 3, 20)

 

escute: eu me calo

                 e no silêncio eterno

                 tu te tornarás uma palavra engendrada pelo Pai

                                               esta palavra emitida no Sopro

                                               seu Eu te amo por todos.

 (Christophe Lebreton, 1950-1996, França)

 

ORAR

   O Evangelho deste domingo nos repropõe o ensinamento de Jesus sobre o maior Mandamento: o Mandamento do Amor, que é duplo: amar a Deus e amar ao próximo... O Mandamento do Amor só pode ser plenamente posto em prática por aquele que vive numa relação profunda com Deus, precisamente como a criança se torna capaz de amar a partir de uma boa relação com a mãe e com o pai. São João de Ávila escreve assim no início do seu Tratado do amor de Deus: “A causa – diz – que em maior medida estimula o nosso coração ao Amor de Deus é considerar profundamente o amor que Ele teve por nós... Este, mais que os benefícios, estimula o coração a amar; porque aquele que presta um benefício a outro, dá-lhe algo que possui; mas aquele que ama, dá-se a si mesmo com tudo o que tem, sem que lhe reste algo mais para dar”. Antes de ser um Mandamento – o amor não é uma ordem – é um dom, uma realidade que Deus nos faz conhecer e experimentar, de modo que, como uma semente, possa germinar também dentro de nós e desenvolver-se na nossa vida. Se o amor de Deus ganhou raízes profundas numa pessoa, ela torna-se capaz de amar até quem não o merece, como faz precisamente Deus em relação a nós... Aprendemos a olhar para o próximo não só com os nossos olhos, mas com o olhar de Deus, que é o olhar de Jesus Cristo. Um olhar que parte do coração e não se detém na superfície, vai além das aparências e consegue captar as expectativas profundas do outro: expectativas de ser recebido, de uma atenção gratuita, numa palavra: de amor. Mas verifica-se também o percurso contrário: que abrindo-me ao outro tal como ele é, indo ao seu encontro, pondo-me à disposição, abro-me também ao conhecimento de Deus, a sentir que Ele existe e é bondoso. Amor de Deus e amor ao próximo são inseparáveis e estão em relação recíproca. Jesus não inventou nem um nem outro, mas revelou que eles são, no fundo, um único Mandamento, e fê-lo não só com palavras, mas sobretudo com o seu testemunho: a própria Pessoa de Jesus e todo o seu Mistério encarnam a Unidade do Amor de Deus e do próximo, como os dois braços da Cruz, vertical e horizontal. Na Eucaristia Ele doa-nos este amor duplo, doando-se a Si mesmo, para que, alimentados por este Pão, nos amemos uns aos outros como Ele nos amou.

(Bento XVI, 1927-, Alemanha)

 

CONTEMPLAR

Sem Fim, 2017, praia do Moçambique, Santa Catarina, Juliana Freitas (1988-), Brasil.




 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXX Domingo do Tempo Comum              24.10.2021

Jr 31, 7-9                 Hb 5, 1-6                 Mc 10, 46-52

 

ESCUTAR

Eu os conduzirei por torrentes de água, por um caminho reto onde não tropeçarão, pois tornei-me um pai para Israel (Jr 31, 9).

Cristo não atribuiu a si mesmo a honra de ser sumo sacerdote, mas foi aquele que lhe disse: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei” (Hb 5, 5).

No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho (Mc 10, 52).

 

MEDITAR

Para mim, é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo ser transformado aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão. Enquanto isso, devo me agarrar aos meus ideais. Talvez chegue o dia em que eu possa realizá-los!

(Anne Frank, 1929-1945, Alemanha)

 

ORAR

   A lição é forte e até mesmo violenta. Jesus se dirige a Jerusalém. Ele encabeça uma caminhada que ninguém compreende. Mesmo seus amigos, que o cercam, e que lhe são favoráveis. Eles ficam muito inquietos pelo que consideram uma loucura. Subir a Jerusalém é se colocar inutilmente numa armadilha. E por que fazê-lo? Atrás dele, as pessoas que o seguem têm medo. Simplesmente medo...  Mas eis o cego que nos mostra como Deus age. Este cego renunciou a toda pretensão diante de Deus. É um indigente, um excluído. Dizem-lhe que Jesus de Nazaré está no caminho e que vai passar. Ele não o vê; ele não o conhece. Pôs-se a gritar de modo insuportável. Os que cercavam Jesus, o serviço de segurança, dizem: “Façam-no calar”. Jesus diz: “Chamai-o”. E a multidão compreende e muda de opinião: “Tenha confiança! Levanta-te, ele te chama” ...  E eis que se passa um acontecimento totalmente inesperado e único neste Evangelho. Quando todos os outros estavam prestes a deixar o Cristo, de caminhar para trás dizendo: “Ele está louco. Ele vai a Jerusalém, para a morte”, o cego segue Jesus. E Jesus não o impede. Talvez te pareça impossível, se tua vida te parece medíocre, que ela possa mudar. Talvez te pareça impossível, se está preso em becos sem saída, que possa se livrar deles. Talvez te pareça impossível, se não tem fé, de ousar acreditar no que está apenas vislumbrando. Talvez te pareça impossível que o que há de melhor em ti apareça e aja em vez da amargura, do rancor e do ódio... Talvez te pareça impossível estar feliz e deixar qualquer um feliz...  Mas talvez, como o cego, você dê um passo além. Talvez, em sua cegueira, é a comunidade que hoje te diz: “Tenha confiança! Levanta-te, ele te chama”. Talvez ela te diga também: “Porque para Deus tudo é possível”. Se não acredita nisso, que esperança você poderá transmitir às suas crianças? Que esperança você poderá transmitir que não seja uma mentira? Nossa convicção não é a de que o mundo esteja perfeito, mas a de que, na descoberta de nossa fraqueza, um mais poderoso do que nós coloque em nossas bocas o sorriso e a alegria quando a experiência da vida e o sofrimento nos conduzem justamente para o oposto.

(Jean-Marie Lustiger, 1926-2007, França)

 

CONTEMPLAR

Artista de rua no metrô durante a covid, Portugal, Gabriele Guadagnini (1988-), Monochrome Awards 2020, Itália.



 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O Caminho da Beleza 48 - XXIX Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXIX Domingo do Tempo Comum             17.10.2021

Is 53, 10-11             Hb 4, 14-16             Mc 10, 35-45

 

ESCUTAR

O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos (Is 53, 10).

Temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus (Hb 4, 14).

“Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim” (Mc 10, 42).

 

MEDITAR

Essa palavra do Cristo em que ele se proclama “servo” nos faz compreender que a paixão não deve ser entendida de modo dolorista. O caminho da cruz não é “sofrer”, mas, primeiro, “servir”. Há um crescendo: a primeira instrução convidava o discípulo a tomar a sua cruz, a arriscar a sua vida pelo Evangelho; depois, a ênfase era sobre a vida entre irmãos, sobre o espírito de serviço e a vida fraterna; agora, põe-se em destaque o motivo de tudo isso: é preciso seguir o Cristo-Servo, que serve até ao dom de sua vida pela multidão.

(Jean Delorme, 1920-2005, França)

 

ORAR

        O problema capital que este evangelho coloca não é a rejeição da soberba, mas a rejeição do poder. Para que os discípulos entendam o que o Evangelho lhes pede, Jesus não coloca, como exemplo, que se deve evitar aos orgulhosos, mas sim aos poderosos... O problema que a Igreja tem com o Evangelho não está no possível orgulho, vaidade ou soberba que podem ter alguns de seus membros, mas no poder que o “ministério apostólico” exerce sobre os demais católicos.  Ao dizer isso, não se trata de afirmar que na Igreja não deve haver presbíteros, bispos e Papa. O problema não está na existência do poder, mas no exercício desse poder. Jesus não quer que os apóstolos (e seus sucessores ou colaboradores) exerçam o poder como exercem os chefes políticos. No entanto, resulta chocante que o texto evangélico em que Jesus proíbe isso, de forma taxativa (Mt 20, 26; Mc 10, 43), não é citado uma vez sequer nos principais documentos do Magistério da Igreja (Denzinger-Hünermann, pp. 1583 ss). Resulta inevitável pensar que o Magistério eclesiástico escolheu do Evangelho o que justificava seu poder e sua forma de exercer o poder, ao mesmo tempo em que marginalizou o que colocava o mais sério problema ao exercício do poder eclesiástico. Os documentos eclesiásticos sobre o poder na Igreja não são a última palavra sobre este assunto. A Igreja tem o direito e o dever de seguir buscando o modo de exercer o poder que seja coerente com o Evangelho. Um poder nunca baseado na submissão incondicional de uns (os leigos) para com os outros (presbíteros, bispos, Papa), mas baseado no seguimento de Jesus, o Senhor. Porque o seguimento gera, por si só e por si mesmo, exemplaridade e felicidade. É urgente que a Igreja ofereça a este mundo (de tantos poderes opressores) outro modelo de exercer a autoridade.

(José María Castillo, 1929-, Espanha)

 

CONTEMPLAR

Quarto de Dom Pedro Casaldáliga, 2014, Wilson Dias, Agência Brasil, Brasil.