quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O Caminho da Beleza 45 - XXVI Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXVI Domingo do Tempo Comum             26.09.2021

Nm 11, 25-29                     Tg 5, 1-6                   Mc 9, 38-43.45.47-48

 

ESCUTAR

“Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!” (Nm 11, 29).

Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem deles vai servir de testemunho contra vós e devorar vossas carnes como fogo! (Tg 5, 3).

“Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue” (Mc 9, 38).

 

MEDITAR

A Crueldade tem um Coração Humano,

E o Ciúme uma Figura Humana;

O Terror tem a Divina Forma Humana,

E o Mistério tem a Vestimenta do Homem.

 

A Vestimenta do Homem é o Ferro que se forja,

A Forma Humana, uma Forja de chama,

A Figura humana, uma fornalha chumbada,

O Coração Humano, sua Goela esfaimada.

(William Blake, 1757-1827, Inglaterra)

 

ORAR

   Cuidado, nós que pensamos estar livres de tabus, desalienados em relação à religião, desmitizados e que olhamos com desprezo o pobre prisioneiro das “objetivações religiosas”. A Igreja não é um clube de puros, nem de intelectuais hipercríticos... Há somente uma riqueza verdadeira, a do amor, que reflete um pouco o de Deus pelo homem. Assim, primeiro um olhar sobre o outro que seja tão compreensivo como o do Pai. Compreensivo é o contrário de exclusivo. Israel conheceu a tentação de excluir. Ele precisou admitir o estrangeiro, abrir os espíritos ao universal. Josué não queria que se desvalorizasse na vulgarização a prerrogativa profética. Os discípulos, como verdadeiros filhos de Israel, não compreendiam que se possa expulsar os demônios, mesmo em nome do Cristo, sem ser do grupo, sem ser confundido com um clã. Mas precisamente Jesus Cristo é maior que todos os grupos, mesmo eclesiásticos, que todas as “famílias religiosas”, os “movimentos cristãos”, inclusive as Igrejas. E o Vaticano II nos levou a compreender de novo que a ação do Espírito transborda as fronteiras do corpo que anima. Portanto, o principal não é que o que luta contra o mal demoníaco “seja do nosso lado”: é que ele esteja do lado de Jesus Cristo. O Espírito que foi dado a Moisés, e a seus companheiros, o Espírito que ele sonhava ver comunicado a todo o povo, somente ele pode em nós vencer a carne, o amor pelo dinheiro, o desprezo pelo fraco, a estreiteza de vista, e nos comunicar as atitudes próprias do Cristo, aquelas de um filho de Deus e de um irmão dos homens. Este Espírito nos foi prometido desde muito tempo: “Eu derramarei sobre vós uma água pura... eu vos darei um coração novo, colocarei em vós um novo espírito, eliminarei de vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne...” (Ez 36, 25-29) ... Tal é a utopia cristã. Não precisamos mais de lei. Não precisamos também de chefes, nem de profetas. A rigor, nenhuma escora humana é já necessária. O Espírito de Deus, a caridade divina em nós, faz descobrir tudo e a tudo imaginar. Isto só será verdadeiro na volta de Cristo. Mas é para lá que é preciso tender. É o ideal, que nos permite relativizar o que não tem jamais o direito de se tornar um absoluto: os meios que instituímos, as obras que realizamos, as superioridades que nos atribuímos.

(René Salaün, 1910-2000, França)

 

CONTEMPLAR

Enxaqueca, 2016, Stan Horaczek, Popular Photography, New York, Estados Unidos.




sexta-feira, 17 de setembro de 2021

O Caminho da Beleza 44 - XXV Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXV Domingo do Tempo Comum               19.09.2021

Sb 2, 12.17-20                    Tg 3, 16-4, 3                       Mc 9, 30-37

 

ESCUTAR

Os ímpios dizem: “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir” (Sb 2, 12).

O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz (Tg 3, 18).

“Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc 9, 35).

 

MEDITAR

Na Rússia nós temos uma crença muito firme: se me aproximo de Deus, tenho que me aproximar dos homens; aqui não há distinção, desde o dia em que Jesus Cristo se fez homem e se ajoelhou diante dos seus apóstolos para lhes lavar os pés. Aproximar-se de Deus é candidatar-se ao serviço da humanidade. Não consigo rezar se não sei servir. Não sou capaz de rezar tendo um irmão passando fome a meu lado. É só recordar a bela estória ou parábola do bom samaritano. O sacerdote e o levita que passaram ao lado do homem ferido tinham apenas o nome, não a realidade nem a dignidade sacerdotal.

(Catherine de Hueck Doherty, 1896-1985, Rússia)

 

ORAR

     Certamente nossos critérios não coincidem com os de Jesus.  A quem de nós ocorre hoje pensar que os homens e mulheres mais importantes são aqueles que vivem para o serviço aos demais? Para nós, importante é o homem de prestígio, seguro de si mesmo, que alcançou o êxito em algum campo da vida, que conseguiu se sobressair aos demais e ser aplaudido pela multidão.  Essas pessoas cujo rosto podemos ver constantemente na televisão: líderes políticos, “prêmios Nobel”, cantores da moda, esportistas excepcionais... Quem pode ser mais importante do que eles? Segundo o critério de Jesus, simplesmente, os milhares e milhares de homens e mulheres anônimos, de rosto desconhecido, a quem ninguém fará homenagem alguma, mas que se desdobram no serviço desinteressado aos demais. Pessoas que não vivem para seu êxito pessoal. Que não pensam só em satisfazer egoisticamente seus desejos, mas que se preocupam sim com a felicidade dos outros. Segundo Jesus, há uma grandeza na vida dessas pessoas que não se acertam em ser felizes sem a felicidade dos demais. Sua vida é um mistério de entrega e desinteresse. Sabem colocar sua vida à disposição dos outros. Atuam movidos por sua bondade. A solidariedade anima seu trabalho, seu fazer diário, suas relações, sua convivência. Não vivem apenas para trabalhar nem para desfrutar. Sua vida não se reduz a cumprir suas obrigações profissionais ou executar diligentemente suas tarefas. Sua vida encerra algo mais. Vivem de maneira criativa. Cada pessoa que encontram em seu caminho, cada dor que percebem em seu redor, cada problema que surge para eles é uma chamada que lhes convida a atuar, servir e ajudar. Podem parecer os “últimos”, mas sua vida é verdadeiramente grande. Todos sabemos que uma vida de amor e serviço desinteressado vale a pena, ainda que não nos atrevamos a vivê-la. Quiçá tenhamos que orar humildemente como fazia Teilhard de Chardin: “Senhor, responderei a tua inspiração profunda que me ordena existir, tendo cuidado de não abafar nem desviar nem desperdiçar minha força de amar e fazer o bem”.

(José Antônio Pagola, 1937-, Espanha)

 

CONTEMPLAR

Amigas para sempre, 2018, Somenath Mukopadhyay (1968-), Bengala Ocidental, Índia.




sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O Caminho da Beleza 43 - XXIV Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXIV Domingo do Tempo Comum             12.09.2021

Is 50, 5-9                 Tg 2, 14-18              Mc 8, 27-35

 

ESCUTAR

O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás (Is 50, 5).

A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta (Tg 2, 17).

“Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8, 34).

 

MEDITAR

O grande milagre, tão grande que a gente não o vê, por estar perto demais dos olhos, é: a vida que se renova sob a fé em Cristo; a vida que sempre cria nova coragem e que não desanima nunca; vida que aguenta perseguição, que chega a morrer, mas que ressuscita sempre; vida que renova os outros pela simples presença; vida que confunde por causa da sua grande riqueza, apesar da pobreza em que se vive. Este é o milagre, ambulante e contínuo, provocado pela ação do Espírito, presente na vida dos homens.

(Carlos Mesters, 1931-, Países Baixos)

 

ORAR

     A tentação é grande de gritar por injustiça, de dizer que Deus exige muito de nós, que nossa cruz é mais pesada que a dos outros. Uma velha história conta a revolta semelhante de um homem simples e sincero. O anjo o conduz então a uma porção de cruzes de diferentes tamanhos e lhe propõe escolher uma delas. O homem procura a mais leve e percebe justamente que era a sua! O homem nunca é tentado para além de suas forças. Deus nos apoia nesse momento decisivo. Ele espera de nossa fé um ato viril, a plena e consciente aceitação de nosso destino; ele pede que o assumamos livremente. Ninguém pode fazê-lo em nosso lugar, nem mesmo Deus. A cruz é feita de nossas fraquezas e de nossas quedas; ela é construída por nossos impulsos ofegantes e, sobretudo, por nossas trevas profundas onde se move a surda resistência e se encrusta a inconfessável e cúmplice torpeza. Enfim, ela é carregada de toda complexidade que, nesse momento preciso, é o nosso eu autêntico. Ora, “Ame teu próximo, como a ti mesmo” (Mt 19, 19) comporta um certo amor a si mesmo: é o apelo a amar nossa cruz. Isso talvez signifique o ato mais difícil: aceitar-se tal como é. Sabemos que os seres mais orgulhosos, os mais sedentos de amor-próprio, são os que, precisamente, se sentem mal consigo mesmo, os que, veladamente, não se suportam. Esse momento infinitamente grave do encontro consigo mesmo exige um desnudar-se, a visão imediata e total de si em seus contornos mais ocultos... No momento da penosa solidão, só a humildade profunda nos vem em auxílio. Reconhecendo a impotência radical do humano natural, ela instiga o homem a depositar inteiramente seu ser ao pé da cruz e, então, subitamente, o Cristo suporta este peso esmagador em nosso lugar: “Aprendei de mim que meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11, 30).

(Paul Evdokimov, 1901-1970, Rússia)

 

CONTEMPLAR

Dignidade, 2020, Abdulmonan Eassa (1995-), Siena International Photo Awards 2020, Agence France Press, Damasco, Síria.




sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O Caminho da Beleza 42 - XXIII Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXIII Domingo do Tempo Comum            05.09.2021

Is 35, 4-7                 Tg 2, 1-5                  Mc 7, 31-37

 

ESCUTAR

Se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos (Is 35, 5-6).

A fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas (Tg 2, 1).

Olhando para o céu, suspirou e disse; “Efatá!”, que quer dizer “abre-te” (Mc 7, 31-37).

 

MEDITAR

O poder divino desceu à terra e revestiu-se de membros sensíveis, a fim de que a nossa fraqueza pudesse, tocando-lhe a humanidade, sentir a divindade. O surdo-mudo, curado por Cristo, sentiu dedos de carne tocarem-lhe os ouvidos e a língua; mas, quando pôde falar, quando seus ouvidos se abriram, ele atingiu, por meio desses dedos acessíveis aos sentidos, a inacessível divindade. O próprio artista que modelou seu corpo, que formou seus membros, viera a ele. Encontrara-o surdo. Com voz suave, sem dor, rompeu-lhe os ouvidos. Dessa garganta fechada, incapaz de emitir a voz, fez brotar o louvor Àquele que o curara.

(Santo Efrém, c. 306-373, Turquia)

 

ORAR

      Olhemos de perto esse surdo-mudo trazido a Jesus. Ele é surdo; não escuta, portanto, nada do que se diz a ele e do que se diz ao redor dele. Inútil lhe falar. É colocado num canto e não se ocupam mais dele. Pior, ele é mudo; articula provavelmente alguns sons, mas lhe é impossível entrar em comunhão com seu meio. Ele está só com seu silêncio, encerrado em sua enfermidade. Esse surdo-mudo, parece-me, é a imagem de numerosas pessoas que terminam por se resignar à sua solidão por todos os tipos de razões psicológicas, familiares ou sociais. Fala-se muito dos excluídos do que de pessoas que, sem estar forçosamente na miséria, vivem curvadas sobre si-mesmas, sem relações, sem amigos, sem família e mesmo sem trabalho. E esse surdo-mudo me parece ser também a imagem do nosso mundo marcado pelo individualismo onde cada um procura antes de tudo salvaguardar seus interesses ou seus privilégios, ficando surdo a tudo o que não diz respeito a ele. E nós? Não temos tendência a viver, às vezes, como surdos-mudos nos interessando apenas por nós mesmos? Nossa fé nos diz, entretanto, que Deus fez o homem à sua imagem. Deus é essencialmente comunhão, partilha. Nele próprio, Deus, Pai-Filho-Espírito, é comunhão de vida e de amor... Tal é o desígnio de Deus: entrar em comunhão com os homens a fim de que a humanidade inteira se torne um dia uma imensa comunhão fraterna, em que não haverá mais nem párias nem abandonados e nem excluídos de qualquer tipo. Como estamos longe disso! Logo, hoje, a cada um de nós, como ao surdo-mudo, o Senhor diz: “Abre-te!”. Não fique encerrado em suas preocupações pessoais, nem em suas relações habituais, nem em seu meio social!... Que vossa Igreja se abra ela mesma a todos os grandes problemas atuais: ao ecumenismo, ao diálogo com as outras religiões, aos divorciados recasados que se sentem com frequência excluídos da Igreja, a todas as vítimas de uma sociedade fria e sem coração. Nosso papel de cristãos é o de construir, com todos os que nos cercam, comunhões abertas e acolhedoras aos outros, como Jesus estava aberto e acolhedor a todos os que encontrava. Fiquemos especialmente atentos aos feridos pela vida, aos que nunca têm a palavra e que ninguém escuta, porque Deus, sim, os escuta.

(Bernard Prévost, 1913-?, França)

 

CONTEMPLAR

Compaixão, 2016, Goetz Burgdorf, Berlim, Alemanha. Descrição: a foto foi tirada em frente a uma igreja católica durante a missa. Mas mesmo após a missa, ninguém deu uma moeda a este homem. “Pedimos um pequeno presente! Grato!” é o que está escrito no cartaz ao chão.




quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O Caminho da Beleza 41 - XXII Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXII Domingo do Tempo Comum              29.08.2021

Dt 4, 1-2.6-8           Tg 1, 17-18.21-22.27        Mc 7, 1-8.14-15.21-23

 

ESCUTAR

Nada acrescenteis, nada tireis à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo (Dt 4, 2).

Sede praticantes da Palavra que em vós foi implantada e que é capaz de salvar as vossas almas (Tg 1, 22).

“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mc 7, 6).

 

MEDITAR

Sabemos agora para não mais duvidar, devemos saber e não mais esquecer, que há uma boca do coração, que há uma língua do coração. Foi esta boca que “se encheu de alegria” (segundo o salmo) (126, 2). É por esta boca que oramos interiormente a Deus, com os lábios fechados, mas com a consciência aberta. Tudo está em silêncio, mas um grito sobe do coração; para os ouvidos de quem? De um homem? Não; para os ouvidos de Deus.

(Agostinho de Hipona, 354-430, Argélia)

 

ORAR

    Jesus não podia admitir a arrogância com a qual os fariseus e os escribas tratavam “os camponeses”, não somente denunciando sua ignorância às tradições dos pais e dos comentários rabínicos, mas tirando disto o pretexto para lhes recusar a proximidade de Deus. Segundo eles, não há religião possível para quem não se submete em detalhe à sua interpretação da lei mosaica e à sua explicação da Escritura. A questão do puro e do impuro coloca bem o problema da rejeição depreciativa de uma categoria social e isso já exaspera Jesus o suficiente a ponto de enfurecê-lo... É um problema ainda bem atual.  Uma porção de estudiosos considera que a Igreja, particularmente do ponto de vista moral, não faz senão manter um código de vida burguês, reafirmando certos valores que se fundam metafisicamente numa essência e vontade divinas e que são, portanto, declarados válidos “por si mesmos”. É claro que a religião corre o risco contínuo de se degenerar em simples ideologia social e de se transformar assim em instrumento de dominação de classe a serviço de estruturas de poder e de alienação... Se a religião se presta a manter e absolutizar tais atitudes, ela contradiz a ideia que os profetas tinham de uma verdadeira comunidade de seres humanos unidos na liberdade e igualdade diante de Deus. Não se pode mais falar então de “povo de Deus”: trata-se simplesmente de uma seita que pretende se impor à outra em nome de Deus... Para Jesus, a questão de Deus só se coloca na verdade se cessamos de nos preocupar com o que vamos dizer. Porque viver na angústia, a propósito do que “é preciso” e do que “não é preciso”, é viver na aparência, é divinizar o homem em lugar de acreditar em Deus... Quanto mais tempo nos deixarmos conduzir pelo medo do que dirão os vizinhos, os pais, os superiores, os terceiros, permaneceremos escravos da tradição e das convenções e estaremos continuamente obrigados a negar a nós mesmos; é fora de propósito erigir em verdadeira religião essa espécie de auto renúncia em proveito do grupo. A única coisa importante é caminhar interiormente em direção a Deus. Para isso, é capital ser coerente consigo mesmo e se exprimir a si mesmo por seus atos. Em outras palavras, trata-se de colocar um termo a esta alienação religiosa que consiste em forçar as pessoas a se apresentar exteriormente de maneira diferente do que são interiormente... O homem é chamado a ser livre. Ele tem direito à liberdade. Que não se venha, portanto, usar Deus como pretexto para explicar e provar doutamente aos outros o que devem fazer em dias de festa. Dele, só devemos falar o que brota verdadeiramente do coração... Que cada um fale em função não do calendário, mas do que sente interiormente. Porque é isso que Deus espera de nós e é apenas assim que poderemos acreditar que Deus nos escuta.

(Eugen Drewermann, 1940-, Alemanha)

 

CONTEMPLAR

Saudação, 2021, Stefano Petraccone, Monovisions Photography Awards 2021, Itália.




 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O Caminho da Beleza 40 - XXI Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXI Domingo do Tempo Comum                22.08.2021

Js 24, 1-2.15-18                Ef 5, 21-32              Jo 6, 60-69

 

ESCUTAR

“O Senhor, nosso Deus, ele mesmo é quem nos tirou, a nós e a nossos pais, da terra do Egito, da casa da escravidão” (Js 24, 17).

Vós que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros (Ef 5, 21).

“Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6, 60)

 

MEDITAR

O desconfinamento vai exigir uma intensa atenção ao outro: cada um deverá renunciar à impaciência, à insolência, à gulodice, à incivilidade de seu ego para dar prioridade à proteção do outro, meio eminente de entrar em relação com ele.

(François Cassingena-Trévedy, 1959-, França)

 

ORAR

        A opção fundamental, isto é, a decisão que define a história autêntica de toda pessoa, está no centro da experiência atual. Uma escolha frequentemente dramática, dilacerante, vivida repetidamente. A decisão pelo escândalo da pobreza e da humildade contra a ilusão do orgulho e do poder, a decisão por um Deus vivo e exigente contra os ídolos extintos, mas convenientes, e, se quisermos incluir a segunda leitura, a decisão pelo amor total contra o egoísmo na vida eclesial e matrimonial. A liberdade está no coração da fé e da moral. Temos visto que o “servir” bíblico significa adesão pessoal e espontânea. O “vós também vos quereis ir embora?” de Jesus é esclarecedor. Não se constrói nunca uma verdadeira fé senão sobre uma educação plena para a liberdade. Uma liberdade não só de qualquer coisa ou de qualquer um, ou seja, dos condicionamentos externos e internos (aspecto negativo, todavia fundamental, da liberdade), mas também liberdade para qualquer coisa e, sobretudo, para qualquer um, na doação positiva a Deus e aos irmãos. A liberdade de Jesus deve ser contagiosa até para o cristão, deve atravessar a pessoa, deve percorrer as instituições e ser a alma da Igreja. A liberdade é risco. Pode também desembocar na traição (Judas, os discípulos “que voltaram atrás”; o Israel pecador).  A medida da autêntica liberdade está no amor (Ef 5). Da Ética de Bonhoeffer: “Responsabilidade e liberdade são conceitos que se correspondem reciprocamente. A responsabilidade pressupõe a liberdade e esta não pode se basear senão na responsabilidade. A responsabilidade é a liberdade conferida aos homens unicamente pela obrigação que os vincula a Deus e ao próximo”.

(Gianfranco Ravasi, 1942-, Itália).

 

CONTEMPLAR

Washington Square, 1960, Dave Heath (1931-2016), Estados Unidos.




 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O Caminho da Beleza 39 - Assunção de Nossa Senhora

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

Assunção de Nossa Senhora              15.08.2021

Ap 11, 19;12, 1.3-6.10                  1 Cor 15, 20-27                  Lc 1, 39-56

 

ESCUTAR

Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas (Ap 12, 1).

O último inimigo a ser destruído é a morte (1 Cor 15, 26).

Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes (Lc 1, 51-52).

 

MEDITAR

Amo-te quanto em largo, alto e profundo

Minha’alma alcança quando, transportada,

Sente, alongando os olhos deste mundo,

Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

 

Amo-te em cada dia, hora e segundo:

À luz do sol, na noite sossegada

E é tão pura a paixão de que me inundo

Quanto o pudor dos que não pedem nada.

 

Amo-te com o doer das velhas penas;

Com sorrisos, com lágrimas de prece,

E a fé da minha infância, ingênua e forte.

 

Amo-te até nas coisas mais pequenas.

Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,

Ainda mais te amarei depois da morte.


(Elizabeth Barrett Browning, 1806-1861, Reino Unido) 

 

ORAR

     Maria nos remete primeiro ao mistério do Cristo. Essa palavra estranha e abstrata – assunção (os Orientais preferem dormição) – quer dizer simplesmente que Maria, a segunda Eva, venceu definitivamente a morte. Ela participa desde já, em sua alma e corpo, da glória do Cristo ressuscitado. Ela é a primeira resgatada e a primeira ressuscitada. É um privilégio inaudito. É por isso que se pode dizer que ela é a mãe de todos os homens e mulheres que nasceram para a vida no Cristo, como Eva é a mãe de toda a humanidade. Mas, ao mesmo tempo, esta pequena filha de Israel é totalmente nossa irmã em humanidade. É por isso que ela é por excelência o triunfo da graça, isto é do dom gratuito de Deus que precede toda obra, todo esforço e todo o mérito do homem. A única coisa que lhe é pedida é consentir com a Palavra de Deus. Isabel pode saudá-la como “bendita entre todas as mulheres”, porque ela acreditou na palavra do anjo. Ela é cheia de graças, em todos os sentidos da palavra graça, e, ao mesmo tempo, a plenitude da gratuidade – como dom de Deus e como dom do homem – e a plenitude inteiramente feminina do encanto e da beleza... Maria, na glória de sua Assunção, é um sinal de esperança para todos os pobres, oprimidos, pequenos, humildes de coração, para todas as mulheres em particular que são sempre exploradas de uma maneira ou de outra pelo egoísmo dos homens. É bom que a liturgia da Assunção nos faça ouvir o cântico do Magnificat. Esse canto de ação de graças nos revela a imagem de um Deus que faz justiça a todos os vencidos da história. É um grito de triunfo que celebra, contra todas as fatalidades da história, uma reviravolta extraordinária: Maria, a desconhecida jovem filha de Israel, torna-se a Rainha do Céu, a Mulher resplandecente que tem o sol por manto e a lua sob seus pés. E Maria é a promessa de uma reviravolta, de uma inversão de papéis que se aplica a toda história dos homens: “O Poderoso fez em mim maravilhas...ele derrubou os poderosos de seus tronos, elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, despediu os ricos de mãos vazias”. Alguns hoje amam ver no Magnificat um verdadeiro canto revolucionário. Eles têm razão. Mas trata-se do poder revolucionário do Evangelho, isto é, da vida segundo as Bem-aventuranças. No 15 de agosto, voltamos nossos olhares para o céu e procuramos entrever Maria na glória inacessível de sua Assunção. Mas Maria mora conosco; ela nos mostra o caminho que vai da terra dos homens até a glória de Deus, que é o caminho das Bem-aventuranças. “Bem-Aventurada aquela que acreditou no cumprimento das palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor!”... Bem-Aventurada não apenas porque ela é a Mãe de Deus, mas porque ela viveu todas as bem-aventuranças do Sermão da montanha: ela é terna e humilde de coração, ela é pobre em espírito, ela tem o coração puro, ela é misericordiosa, ela chora com aqueles que choram, ela tem fome e sede de justiça. Nós que procuramos sempre lutar contra a violência em nosso coração, em nossas famílias, em nossos casais, no mundo e na própria Igreja, nós a invocamos como Nossa Senhora da compaixão, Nossa Senhora da esperança, Nossa Senhora da paz, Nossa Senhora causa de nossa alegria, causa nostrae laetitiae.

(Claude Geffré, 1916-2017, França)

 

CONTEMPLAR

Os Olhos Alegres, 2018, Assam, norte da Índia, Saurabh Sirohiya (1985-), Kolkata, Índia.