segunda-feira, 24 de junho de 2019

O Caminho da Beleza 32 - São Pedro e São Paulo


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)



São Pedro e São Paulo             30.06.2019
At 12, 1-11                2 Tm 4, 6-8.17-18            Mt 16, 13-19

 
ESCUTAR

“O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: ‘Levanta-te depressa!’” (At 12, 7).
“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2 Tm 4, 7).

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

 
MEDITAR

Ainda que não queiramos: Deus amadurece.

 (Rainer Maria Rilke, 1875-1926, Praga)

 
Nós devemos nos dar e só nos possuímos à medida do dom que fazemos de nós mesmos. Nós só nos expandimos na gratuidade. Nossa liberdade consiste precisamente viver desta gratuidade, a existir em ação de graças e a passar da servidão ao serviço.

 (Jean-Guy Saint Arnaud, 1934-, Canadá).

 
ORAR

A Igreja de Jesus, pobre e hospitaleira, nunca poderá estar aprisionada aos grilhões do poder, sejam os da perseguição ou os dos privilégios. Os mistérios foram e são revelados pelo Pai aos pequenos e não aos eruditos ou astutos. Pedro pertence à categoria dos simples seguidores que vivem com o coração aberto. É Jesus quem constrói a Igreja. Ela é sua e Jesus não a constrói sobre a areia. Pedro, como nós, será uma pedra nesta Igreja não por ter a solidez e a firmeza de temperamento. Pedro, honesto e apaixonado, é também inconstante e inconsistente. Seu poder repousa, simplesmente, sobre a sua fé em Cristo. Pedro é libertado da boca do leão, os dois sustentáculos do poder utilizados, em todos os tempos, para a submissão de todos: o Estado e a Religião. Pedro exclama: “Agora eu sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”. A Igreja de Jesus vive da sua dimensão peregrina diversa e plural. Uma Igreja que durante a sua existência enfrentará situações de dilaceramentos e que nelas forjar-se-á como uma Igreja solidária e portadora da paz para todos os que sofrem perseguição por amor à justiça. Paulo, o que vive na liberdade do Espírito, revela que a travessia é duelo: combater, completar a corrida e guardar a fé. É a de sermos testemunhas vivas de que, apesar de tudo, somos capazes de manter a lealdade à comunidade fraterna de Jesus na qual aquele que se perde é o que se encontra. O Concílio Vaticano II vai consagrar a Igreja do Serviço: “Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito, guiada pelo Espírito Santo, ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para condenar, para servir e não para ser servido” (Gaudium et Spes, 3). Devemos ter cuidado ao usarmos metáforas para a Igreja de Jesus, sobretudo a da barca. No final do livro de Atos, todos são salvos não por estarem protegidos na barca, mas pela partilha do pão abençoado na presença de todos, por todos comido e, por isso, animados, alimentados e saciados. A barca encalhou nas correntes de suas próprias âncoras e, ironia do destino, ficou presa em si e por si mesma (At 27, 41). A comunidade eclesial deve ser a comunidade concreta de homens e mulheres, a Igreja de Jesus, que vai ao encontro e ao diálogo com todos os outros homens e mulheres do mundo. Uma Igreja pobre, mas rica de compaixão, que não faz nas barcas do poder a sua travessia para a vida eterna, pois o Senhor prevenira que destas barcas sobrarão apenas os pedaços espalhados pelo mar da história.
(Matersol, 1999-, Brasil)

 
CONTEMPLAR

Enfrentando a tempestade (detalhe), 2014, Dianbai, Província de Guangdong, China, Joseph Tam, Austrália.
 
 

 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O Caminho da Beleza 31 - XII Domingo do Tempo Comum


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)

 
XII Domingo do Tempo Comum                 23.06.2019
Zc 12, 10-11; 13, 1             Gl 3, 26-29             Lc 9, 18-24

 
ESCUTAR

“Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de oração” (Zc 12, 10).
Todos vós sois um só em Jesus Cristo (Gl 3, 28).

“Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9, 23).

 
MEDITAR

Esse é justamente o tema maravilhoso da Bíblia que assusta a tantos: que o único sinal visível de Deus no mundo seja a cruz. Cristo não é arrebatado gloriosamente da terra para o céu, seu destino é a cruz. E precisamente lá onde está a cruz está próxima a ressurreição. Onde todos ficam desconsertados diante de Deus, onde todos se desesperam com Deus, é exatamente lá que Deus está bem perto e Cristo está vivamente presente.

(Dietrich Bonhoeffer, 1906-1944, Alemanha)

 
ORAR

            “Nenhum de vós vive para si, e ninguém morre para si... quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 7-8). Na morte de Cristo evidenciou-se mais claramente que nem ele, o Messias, se pertence a si mesmo. Não há amor se não houver capacidade de alguém se gostar gratuitamente. Não haverá comunidade cristã, se ninguém renunciar a seus direitos de infindáveis litígios e acirradas discussões. O pleno desabrochar da pessoa como pessoa supõe que alguém se sacrifique generosamente por mim, que alguém confie em mim, me perdoe, me suporte com magnanimidade, renuncie a si para me dar sua palavra, seu tempo, sua atenção, sua estima... sem pagamento. A cruz que, ao exemplo do Cristo, é entrega generosa pelo bem dos outros, é a mais direta liberação do nosso egoísmo mortífero. Ela nos dá o coração de bondade e os sentimentos de respeito, isto é, ela nos purifica. Não é a cruz que se opõe ao mundo moderno do progresso. O que impossibilita o advento do mundo mais humano, mais justo e de maior amor é sua gigantesca capacidade técnica de se fechar no egoísmo estreito e mortal ou, em defesa do seu eu imaturo e inveterado, recorrer ao ódio e a lutas fratricidas. Num mundo, onde o progresso é o único critério, cria-se um homem-monstro, capaz de imolar os seus semelhantes julgados “inúteis” e “supérfluos”. Não a cruz de desprezo, mas a cruz do Cristo, a cruz do serviço a nossos irmãos, dá-nos força de imolarmos nossos próprios interesses para crescermos todos juntos. Esta cruz não elimina nem resolve todos os problemas, mas nos redime com eles.

(Emanuel Bouzon, 1933-2006, Brasil e Karl Romer, 1932-, Suíça)

 
CONTEMPLAR

No Quintal, México, 1936-7, Marcel Gautherot (1910-1996), Instituto Moreira Salles, França/Brasil.
 
 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O Caminho da Beleza 30 - Santíssima Trindade





Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)
 

 

Santíssima Trindade                16.06.2019
Pr 8, 22-31              Rm 5, 1-5                Jo 16, 12-15
 
ESCUTAR
Assim fala a sabedoria de Deus: “...eu era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença” (Pr 8, 30).
O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5, 5).
 
“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora” (Jo 16, 12).

MEDITAR
Alguns de nós acreditam que Deus é Todo-Poderoso e que pode fazer tudo, e que Deus é Todo-Sabedoria e sabe como fazer tudo. Mas que Deus é Todo-Amoroso e quer amar tudo, aqui nós nos contemos. E essa ignorância atrapalha a maioria dos amantes de Deus, como eu vejo (...) Deus quer ser pensado como nosso Amante.
(Julian de Norwich, 1342-1416, Reino Unido).
 
ORAR

        A festa da Santíssima Trindade não é uma simples formalidade nem uma representação dogmática. Ela nos convida a tentar viver e a nos insurgir contra uma certa insensibilidade em nós e em torno de nós à urgência de Deus e à envergadura do seu Mistério. Neste domingo, devemos entrar neste mistério adorável de saber que a dinâmica da Trindade é o Amor. É uma eterna comunicação, pois não existe nem um olhar-para-si, mas sempre e eternamente um olhar-para-o-outro. O Pai é um eterno olhar para o Filho assim como o Filho é um olhar eterno para o Pai e toda a Luz divina brota desta troca como a visibilidade de um dom eternamente realizado. Meditemos as palavras do dominicano Eckhart escritas no século XIV: “O Pai sorri para o Filho e o Filho sorri para o Pai e o sorriso faz nascer o prazer, o prazer faz nascer a alegria e a alegria faz nascer o amor”. Toda a alegria brota do dom nesta dança eterna em que qualquer posse é impossível, pois a grandeza consiste no dom de si mesmo. A vida de Deus é sempre uma vertiginosa troca, partilha e uma circulação infinita expressa no respirar do Pai, no sangue do Filho, na água e no fogo do Espírito. A vida da Trindade acontece em nós mesmos sem que a percebamos e nela “nem morte nem vida, nem anjos nem potestades, nem presente nem futuro, nem poderes nem altura nem profundidade, nem criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus Senhor nosso” (Rm 8, 38-39). É no silêncio que esta vida se manifesta, pois a alegria verdadeira começa quando, enfim, com os olhos fechados e os lábios cerrados percebemos a dinâmica amorosa do Pai, pelo Filho, no Espírito. Esta festa exige uma profunda revisão de vida e a perguntarmos sobre a esterilidade de um amor que se debruça sobre si mesmo e de um egoísmo que se idolatra. O Cristo nos revelou a Trindade para fazer surgir em nós uma liberdade total ante os olhos do egoísmo mortal que assola o mundo, aniquila as culturas, domina os mais fracos, corrompe os poderes civis e religiosos, e que, sobretudo, pela ganância, destrói a natureza criada para o bem de toda a humanidade por todos os séculos. Eis o mistério: Deus para nós, Deus em nós e Deus conosco.
 
(Matersol, 1999-, Brasil)
 
CONTEMPLAR
O Trio Três Dançarinos (Mason Kelly, Jenni Large e Georgia Rudd) 2015, Amber Haines, Companhia de Dança Dancenorth, Austrália.
 
 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

O Caminho da Beleza 29 - Pentecostes


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


Pentecostes                       09.06.2016
At 2, 1-11                  1 Cor 12, 3-7.12-13                       Jo 20, 19-23


ESCUTAR

“Todos nós os escutamos anunciar as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2, 11).

A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum (1 Cor 12, 7).

Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco” (Jo 20, 19).


MEDITAR

A obra do Espírito Santo é de tornar contemporâneas a presença e a ação de Jesus Cristo na nossa humanidade. É dele que esperamos o nascimento do mundo novo sendo vigilantes na fé. Ele é o mestre de obras da nova criação como foi na origem, pairando sobre as águas ou insuflado no homem. O Espírito Santo é o ar do Reino de Deus.

(Pierre Claverie, 1938-1996, Argelia).


ORAR

Na festa de Pentecostes, celebramos a vinda do Espírito de Jesus para fundar a comunidade eclesial. Pentecostes é uma dinâmica de vida e sempre será testemunhado na razão direta da capacidade de amor fraterno da comunidade. O Espírito sabe qual a melhor forma da sua comunicação - brisa suave, forte ventania e fogo – para tornar presente no meio de nós a Palavra de Deus assim como a tornou presente no seio de Maria. Hoje ele chega como uma forte ventania para nos mostrar a sua liberdade e pousa como línguas de fogo sobre as cabeças dos discípulos, tornando ardentes e inflamados os seus corações e seus lábios para que pronunciassem nas línguas diversas as maravilhas do Senhor. Como o Espírito de Jesus foi soprado sobre nós só nos resta nos abandonar a este impulso divino. Este abandono não é uma preguiça nem uma passividade, mas o confronto permanente para que possamos superar as forças interiores que exigem a capitulação dos nossos sonhos e a acomodação estéril das nossas vidas. Precisamos nos deixar invadir pelo Espírito de Jesus para que alcancemos o significado de tudo o que acontece nas nossas vidas, pois nos foi prometido: “Quando, porém, vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16, 13). O Espírito de Jesus não conhece e, muito menos, impõe limites. A única coisa que não nos concede é levar uma vida medíocre e aprisionada nos limites que nos impomos, pois uma vida assim nos condena à absoluta incompreensão de nós mesmos. Na manifestação de Pentecostes foi afirmada a pluralidade do universo, pois além dos apóstolos, em Jerusalém, os pagãos, na Cesárea, foram tocados pelo Espírito Santo e, falando várias línguas, glorificavam a Deus. A Igreja não se constrói somente pelo caminho institucional, mas pela infinita variedade de dons e carismas que o Espírito distribui para a construção do bem comum, pois “todos nós bebemos de um único Espírito”. Ouvir a voz do Espírito de Jesus é viver na comunidade fraterna aberta a todos os homens e mulheres e comprometida com todo o Cosmos. Como nos escreveu São Basílio Magno, no século IV: “Dele nos vem a alegria sem fim, a união constante e a semelhança com Deus; Dele procede, enfim, o bem mais sublime que se pode desejar: o homem é divinizado”.

(Matersol, 1999-, Brasil)


CONTEMPLAR

Awá-Guajá: raios de luz do sol da tarde iluminam a densa floresta amazônica do norte do Brasil, 2013, Sebastião Salgado (1944-), Projeto Amazônia, Brasil.







terça-feira, 28 de maio de 2019

O Caminho da Beleza 28 - Ascensão do Senhor


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


Ascensão do Senhor                  02.06.2019            
At 1, 1-11                  Ef 1, 17-23               Lc 24, 46-53


ESCUTAR

“Recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós para serdes minhas testemunhas” (At 1, 8).

Irmãos, o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, vos dê um espírito de sabedoria que vo-lo revele e faça verdadeiramente conhecer (Ef 1, 17).

“Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu (24, 49).


MEDITAR

A espiritualidade não pode ser aprendida por uma fuga do mundo, fugindo-se das coisas ou se tornando solitário e afastando-se do mundo. Pelo contrário, nós devemos aprender uma solidão interior onde e com quem estivermos. Nós devemos aprender a penetrar nas coisas e achar Deus lá.

(Mestre Eckhart, 1260-1328, Alemanha)


ORAR
           
Com a ascensão de Jesus começa o tempo da Igreja, um tempo de testemunho público e corajoso que, progressivamente, alcançará todos os homens. A ascensão é a linha divisória entre a história de Jesus e a da comunidade pós-pascal. A comunidade eclesial pode iniciar o seu próprio caminho histórico sem nostalgias e sem fugas apocalípticas graças à força do Espírito prometido pelo Senhor. O banquete eucarístico, convivência íntima, é o lugar por excelência em que os amigos podem estar em comunhão com o Cristo. A Igreja surge como uma comunidade de oração para depois ser apostólica, quando a sua prática passa a ser animada pelo Espírito. A comunidade eclesial tem necessidade do sopro vital que lhe será dado pelo Espírito do Senhor, pois sem Ele não existe vida, nem força de expansão e nem capacidade de testemunho para a Igreja. Jesus se “separa” dos amigos com o sinal da benção e esta é a última imagem que fica: a do Cristo glorioso que abençoa. Os apóstolos saúdam a partida do Senhor não com prantos, mas com alegria ainda que devam afrontar um mundo hostil para levar a paz, o amor e o perdão. Não celebramos uma despedida, mas uma nova maneira de estar presente no mundo, pois a presença definitiva do Ressuscitado entre nós e na história da humanidade está assegurada pelo seu Espírito que conduz a comunidade eclesial até o fim dos tempos, por meio da concretização do amor fraterno, símbolo emblemático dos cristãos e dos homens e mulheres de boa vontade. Somos herdeiros de sua missão e neste seguimento devemos reinventá-la a cada novo momento histórico, como pedia o Papa João XXIII, lendo e compreendendo os “sinais dos tempos”. A celebração da eucaristia anuncia e realiza a proibição de toda estatização da Igreja e de todo o clericalismo na política. A Igreja peregrina não funda a cidade terrena, mas a habita apontando para o futuro. Devemos nos guiar pela prática de Jesus: a sua maneira de acolher os pecadores, de elevar os humildes, desnudar os orgulhosos e arrogantes. Devemos lembrar que a conversão proposta por Ele é a mudança radical nas nossas relações com Deus, com o próximo e, sobretudo, com o dinheiro. A novidade dos seus ensinamentos e do seu testemunho lhe valeu, como valerá para nós, a hostilidade dos governantes e do poder religioso e esta hostilidade foi a causa da sua condenação e assassinato. O evangelista enfatiza que são “fatos que nos aconteceram” (Lc 1, 1) e não qualquer mistificação maravilhosa inventada e difundida ao bel prazer de qualquer um. Meditemos as palavras de Bento XVI: “Nós devemos estar seguros de que, por mais pesadas e turbulentas as provas que nos esperam, não seremos jamais abandonados a nós mesmos. As mãos do Senhor não nos largarão, pois estas são mãos que nos criaram e que, todo o dia, nos acompanham no itinerário de nossas vidas”.

(Matersol, 1999-, Brasil)


CONTEMPLAR

Memorial para Kyle Dempster e Scott Adamson, 2018, Geleira Choktoi, Paquistão, Andrew Burr, Utah, Estados Unidos.






quarta-feira, 22 de maio de 2019

O Caminho da Beleza 27 - VI Domingo da Páscoa


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


VI Domingo da Páscoa             26.05.2019

At 15, 1-2.22-29                Ap 21, 10-14.22-23                      Jo 14, 23-29


ESCUTAR

“Ficamos sabendo que alguns dos nossos causaram perturbações com palavras que transtornaram vosso espírito” (At 15, 24).

Não vi templo na cidade, pois o seu Templo é o próprio Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro (Ap 21, 22).

O Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo (Jo 14, 26).


MEDITAR

Onde falta o desejo de se encontrar com Deus, ali não há crentes e sim pobres caricaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse.

(Simone Weil, 1909-1943, França)


ORAR

            O primeiro trabalho, o trabalho fundamental de nossa vida cristã, é nos deixar guiar em tudo pelo Espírito do Cristo. Não nos é pedido uma tensão de nós mesmos, mas um abandono a este impulso divino. Abandono que além disso não tem nada de uma preguiça ou de uma passividade, no sentido em que se emprega geralmente esta palavra. Há forças egoístas e perturbadoras que se agitam em nós e é a elas que a capitulação da vontade entrega a alma. Não se trata de nos conduzir, mas de ser conduzidos pelo Cristo. Ele nos mostra, por seu exemplo, o que é uma vida de homens sempre penetrada do Espírito. Sem dúvida, não se tratará de a copiar materialmente e servilmente, pois não nos encontramos exatamente nas mesmas circunstâncias, não temos a mesma tarefa exterior a executar. Mas nos atos do Cristo, assim como nas suas palavras revelam-se os princípios que inspiram sua ação, os julgamentos de valor que ditam sua atitude e comandam suas reações. É isto que devemos fazer nosso, incorporar progressivamente à substância de nosso ser. Quanto mais o fizermos, mais agiremos espontaneamente com o Cristo, mais estaremos sob a direção do Espírito. Mais seremos, nas circunstâncias onde Deus nos colocar, outros Cristos, isto é, cristãos. É preciso já começar, por pouco que seja, a possuir o Espírito de Cristo para compreender a vida de Cristo, de maneira que ela não esteja somente diante de nossos olhos como uma série de fatos, mas que tenhamos a compreensão de seu significado. Reformar nossa conduta depois que tivermos compreendido nos fará penetrar mais no Espírito de Cristo, pois se obtém este Espírito, não pela força da razão mas pela fidelidade nas ações, às luzes recebidas. Voltando então ao Evangelho penetraremos melhor o seu sentido. E uma nova fidelidade nos permitirá de novo uma nova compreensão mais profunda das lições evangélicas. Nesta matéria, para compreender, é preciso agir segundo o que se compreendeu. Levar uma vida medíocre é condenar-se à incompreensão.

(Yves de Montcheuil, 1900-1944, França)


CONTEMPLAR

Sinos de Jerusalém, 2013, Guy Cohen (1990-), Jerusalém, Israel.




terça-feira, 14 de maio de 2019

O Caminho da Beleza 26 - V Domingo da Páscoa


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


V Domingo da Páscoa               19.05.2019
At 14, 21-27            Ap 21, 1-5                Jo 13, 31-35


ESCUTAR

“É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no reino de Deus” (At 14, 22).

Vi um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram e o mar já não existe (Ap 21, 1).

“Amai-vos uns aos outros” (Jo 13, 34).


MEDITAR

O amor é o único ímpeto que é suficientemente avassalador para nos forçar a deixar o confortável abrigo da nossa individualidade bem protegida, a pôr de lado a concha inexpugnável da autossuficiência e rastejar nus para a zona do perigo, lá para a frente, para o cadinho em que a individualidade se purifica para aparecer a personalidade.

(Mark Patrick Hederman OSB, 1944-, Irlanda)


ORAR

            É, com efeito, “o amor do próximo o nosso modo concreto de entrar no amor de Deus”. É a encarnação do nosso amor de Deus, a prova da sua veracidade. Nós não podemos amar verdadeiramente a Deus sem querer o bem de nossos irmãos no Cristo, sem querer que todos estejam unidos n’Ele pelo mesmo “Pai Nosso”. “Aquele que não ama seu irmão a quem vê, como poderá amar Deus que não vê?” (1 Jo 4, 20). Nosso próximo é o Cristo ao alcance do nosso amor. Se não o amamos, é que não amamos a Cristo verdadeiramente...O amor fraterno, em cada um dos seus atos, é uma epifania do Deus do amor. A comunidade do amor deixa transparecer no semblante os traços invisíveis da comunidade divina, comunica-lhe sua vida. Pois o amor se espalha. É a alma da comunidade e o seu princípio de ação. O Espírito do amor é a fonte de sua vida e da sua difusão. O que a comunidade de amor traz ao mundo é a presença de Deus, é a experiência de Deus, a alegria de Deus ao alcance de todos. O que atrai a Fé, o que provoca a adesão, é a experiência de um amor novo na comunidade cristã viva, é o contato de Deus. “Que eles sejam um, pede o Cristo, a fim de que o mundo creia” (Jo 17, 21). E a sua oração é ouvida. Eles não formavam senão um só coração e uma só alma e a multidão dos fiéis ia aumentando a cada dia (At 2, 41.44). “Não teriam convertido o mundo”, comenta São João Crisóstomo, “se não tivessem amado tanto”. Isto permanece verdadeiro ainda hoje: só vivendo no amor fraterno pode uma comunidade levar o Evangelho a um meio humano qualquer. E sempre que há o amor, a vida divina passa e atrai, pois o coração do homem é feito para viver essa alegria, de conhecer e amar a Deus no outro.

(Louis Lochet, 1914-2002, França)


CONTEMPLAR

Crianças no degrau da porta, 2008, Havana, Cuba, Tony McDonnell, Dundalk, Irlanda.