quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O Caminho da Beleza 13 - I Domingo da Quaresma

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

I Domingo da Quaresma                     

Gn 9, 8-15                           1 Pd 3, 18-22                      Mc 1, 12-15

 

 

ESCUTAR

 

“Estabeleço convosco a minha aliança: nunca mais nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio para devastar a terra” (Gn 9, 11).

 

O batismo não serve para limpar o corpo da imundície, mas é um pedido a Deus para obter uma boa consciência, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo (1 Pd 3, 21).

 

Naquele tempo, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias e aí foi tentado por satanás (Mc 1, 13).

 

 

MEDITAR

 

Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre... Deus come escondido e o diabo sai por toda parte lambendo o prato...


(Guimarães Rosa)

 

A vida é luta e a solidariedade com a vida é luta e se faz na luta. Não me cansarei de repetir que o que mais une os homens uns aos outros são as nossas discórdias. E o que mais une cada um consigo mesmo, o que faz a unidade íntima de nossa vida, são nossas discórdias íntimas, as contradições interiores de nossas discórdias. Só nos colocamos em paz conosco mesmo, como Dom Quixote, para morrer.


(Miguel de Unamuno)

 

 

ORAR

 

O cristão é solicitado, continuamente, pela palavra de Deus a uma mudança radical de mentalidade e de atitudes. Esta metanoia, conversão, abarca a pessoa em sua totalidade e determina sempre um momento de decisão e um revirar, pelo avesso, a vida. É no deserto que este embate pessoal acontece. No deserto, os beduínos se lavam com areia que se torna assim um elemento de purificação. Longe da forma refrescante da água que lava nossos corpos, a areia nos submete a um enérgico tratamento à base do esmeril. No deserto, Deus se serve das areias para arear a nossa superficialidade e atingir a mais implacável autenticidade conosco mesmo. A areia do deserto é cruel, não oferece alternativa a não ser um estilo de austeridade. Esta austeridade nos impõe limitações que não queremos, pois desejamos todas as coisas inúteis que nos correspondem. O deserto é o lugar da intimidade, do encontro e do diálogo com Deus interrompido no jardim do Éden. O deserto é, também, o lugar do confronto, da tentação e da luta, pois, além de encontrarmos Deus, encontramos o Inimigo. Não existe vida cristã sem luta, empenho e esforço. A conversão não é um processo indolor, mas exige desprendimento, lacerações e privações. O caminho cristão não é uma tranquila e fútil excursão em território religioso, mas uma aventura arriscada no meio da Vida, que é Deus. Ainda que sejamos tentados por satanás e tenhamos que viver entre animais selvagens, sabendo, acima de tudo, que os anjos nos servirão.

 

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 

CONTEMPLAR

 

A Vitória de São Miguel sobre o demônio, escultura em bronze, porta de entrada da Igreja de São Miguel, Hamburgo, Alemanha.




 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

O Caminho da Beleza 12 - VI Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

VI Domingo do Tempo Comum                  

2 Rs 5, 9-14                        1 Cor 10, 31-11,1                Mc 1, 40-45

 

ESCUTAR

“Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito?” (2 Rs 5, 13).

Fazei como eu, que procuro agradar a todos em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim de serem salvos (1 Cor 10, 33).

Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse. “Eu quero: fica curado!” (Mc 1, 41).

 

MEDITAR

Jesus circulou tocando as pessoas. Ele tocou os corpos dos doentes. Ele tocou os leprosos. Ele tocou até os mortos... Gandhi recusou deixar que os da casta mais baixa no hinduísmo fossem chamados de “intocáveis”... A compaixão nos dá um coração de carne. Isto significa que nós desejamos alcançar e tocar as pessoas que os outros rejeitam.

(Timothy Radcliffe)

 

Se há um mendigo pedindo esmola na porta da Igreja, a missa foi mal rezada.

(Dom Irineu Danelon, sdb)

 

ORAR

Paulo é enfático! Não diz para olharmos para ele, mas seguir o seu exemplo e assumir como única referência o Cristo. Jesus, no Evangelho, não vacila em infringir a regra, romper o cordão sanitário, superar os mecanismos de exclusão e sair fora do círculo de proteção. Jesus tem piedade, mas também está enojado porque os homens tentam resolver os problemas dos leprosos pela exclusão. Jesus suprime as fronteiras, destrói os muros seculares da separação, passa por cima dos preconceitos e não aceita as discriminações religiosas. Para Jesus, existe somente o homem e a mulher sem adjetivos e a porta, para Ele, só serve para sair ao encontro daqueles que estão fora, ainda que seja um só. Somos nós, cristãos, que nos preocupamos mais com a lista dos que estão presentes sem jamais nomearmos os ausentes da nossa comunidade eclesial para os quais o Cristo veio prioritariamente: “Se algum de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás da extraviada até encontrá-la?” (Lc 15, 4). A celebração litúrgica deve ser interrompida quando fazemos exclusões e discriminações. Nunca estaremos preparados como exigem nossos pastores, salvo o orgulho de poucos, para merecermos os dons gratuitos de Deus. O leproso, mantido à distância é readmitido com todas as honras no centro da comunidade. Se não fizermos o mesmo, quando celebrarmos uma festa em honra do Cristo, mais uma vez O condenaremos a morrer “fora da cidade”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Papa abraça homem desfigurado, 2013, Claudio Petri, EPA Images, Itália.



 

 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

O Caminho da Beleza 11 - V Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

V Domingo do Tempo Comum        

Jó 7, 1-4.6-7                       1 Cor 9, 16-19.22-23                    Mc 1, 29-39

 

ESCUTAR

“Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança” (Jó 7, 6).

Com todos, eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. Por causa do evangelho eu faço tudo, para ter parte nele (1 Cor 9, 22-23).

De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto (Mc 1, 35).

 

MEDITAR

A fé é um fio de cabelo seguro com os dentes, no abismo! 

(Madre Belém)

Coragem! Quis servir-me de ti para o advento do meu reino. Não desanimes. Não afrouxes. Não te esquives. Mergulha na aventura desconhecida da minha noite. Então te salvarei de ti mesmo, e te ensinarei a imensidão do amor fraternal.

 (J. L. Lebret)

 

ORAR

Jó tem a coragem de fazer uma pergunta escandalosa: “Viver é uma vida? Pode-se chamar vida se depois devemos morrer?”. O Senhor responde com um sim a este dramático protesto de Jó. Ele é convidado, como nós, a aceitar e amar um Deus incompreensível que vai além das explicações possíveis. O teólogo Maurice Zundel enfatiza: “Ao olhar de Deus, a vida do homem vale tanto quanto a Sua própria vida”. A imagem da vida que corre rápida como a lançadeira do tear traz um detalhe sutil: a palavra tikva, em hebraico, significa fio, mas também quer dizer esperança. A vida cessa quando se rompe o fio e se interrompe quando desaparece a esperança. Jó se agarra neste fio/esperança e suplica: “Lembra-te de que a minha vida é apenas um sopro”. Jesus testemunha o que deve ser a vida do discipulado: uma vida que encontra sua própria força na oração e no diálogo com Deus e que se desdobra numa vida-para-os-outros. Uma vida que se encarrega dos sofrimentos do irmão, uma compaixão diante das enfermidades físicas e espirituais. Uma vida feita para aliviar a dor dos outros. A filósofa judia Simone Weil escrevia: “A plenitude do amor ao próximo consiste, simplesmente, em ser capaz de perguntar-lhe: ‘Qual é o teu tormento?’” (Espera de Deus). O cristão deve ter um coração que vê e escuta para assumir as necessidades dos outros no mais profundo do seu ser e fazê-las suas. Madre Belém, no seu testamento espiritual, relembrava: “Outra coisa é sabermos manter esse amor ao Cristo por uma doação completa aos pobres e necessitados. Mesmo que seja pouco o que eles não ousam pedir, nós temos que adivinhar e é essa resposta que Deus pede de nós”. No evangelho, Jesus revela que seu seguidor não é um burocrata, nem um empregado, mas alguém que se coloca na linha de frente com a mais absoluta gratuidade: “Dai de graça o que de graça recebestes” (Mt 10, 8). Algumas vezes, o Cristo diz não quando todos O buscam. Foge, toma distância e ora. Quando se assenta é para estar presente, de outra maneira e em outro lugar. Jesus afirma que a comunhão se produz saindo fora da popularidade falsa, dos ritos da banalidade e das regras do conformismo. O homem de oração é o que se deixa encontrar e a solidão é sempre uma possibilidade oferecida a todos.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Jó n. 1, 2003, Oldrich Kulhánek (1940-2013), litografia, República Checa, in http://oldrichkulhanek.cz/index.php?section=galerie&lang=cz.




sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

O Caminho da Beleza 10 - IV Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

IV Domingo do Tempo Comum             

Dt 18, 15-20                       1 Cor 7, 32-35                    Mc 1, 21-28

 

ESCUTAR

“O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar” (Dt 18, 15).

“Digo isto para o vosso próprio bem e não para vos armar um laço. O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações” (1 Cor 7, 35).

“Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei” (Mc 1, 22).

 

MEDITAR

Por que Jesus Cristo pode estar no interior de cada um de nós? Porque ele é vazio, vazio, vazio, radicalmente, deste eu possessivo do qual estamos todos doentes.

(Maurice Zundel)

O que dará o homem que tenha o valor da sua vida? Nada, se não for sua própria vida. A única coisa que poderíamos dar que tenha o valor de nossa vida é a nossa vida. E ter fé é acreditar que isto não é um suicídio.

(Cardeal Lustiger)

 

ORAR

O profeta é escolhido por Deus para ser um homem da palavra. Ele não é alguém que escolhe uma carreira ou profissão. Ele é responsável por uma mensagem que não é sua, mas também não é um simples repetidor. O profeta é um provocador de crises e nos obriga a tomar posição: “Eu mesmo pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome”. É um homem condenado à fidelidade à Palavra de Deus. O profeta, em todos os tempos, é dotado de olhos abertos ao invés do oportunismo; de liberdade ao invés do servilismo e conformismo; de coragem ao invés do medo; de inteligência ao invés da superficialidade; de paixão ao invés da indiferença e de humildade ao invés da presunção e do protagonismo. O profeta só sabe a autenticidade da sua vocação quando incomoda, cria opositores e recebe injúrias mais do que privilégios. O médico Albert Schweitzer afirmava: “Se não dizeis coisas que desagradam alguém não podereis afirmar que dissestes a verdade”. Jesus testemunha de que não é a palavra que deriva da autoridade, mas a autoridade que deriva da palavra. Uma palavra que não incomoda e nem provoca reações é uma palavra emburrecida e, portanto, a verdadeira derrota da palavra. A palavra de Deus não pode ser pretexto para se falar de outra coisa. As igrejas abafam a Palavra quando valorizam os casuísmos, quando se imiscuem nas disputas de poder que nada têm a ver com a mensagem original do Evangelho. Não se pode falar de outra coisa quando se fala de Deus. Jesus testemunha que os inimigos do homem são inimigos de Deus e que tudo o que ameaça a dignidade humana constitui uma blasfêmia contra a glória de Deus. O homem, para Jesus, é assunto de Deus. Jesus ensina com autoridade, quer que sejamos homens livres e, por esta razão, homens de Deus, por isso expulsa os demônios interiores que nos escravizam ainda que seja no dia sagrado do sábado. Os demônios são o caos existente na fragmentação espiritual das pessoas e da sua autodestruição contínua: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Viestes para nos destruir?” Jesus tem a liberdade de infringir a regra sagrada quando se trata de libertar as pessoas que sofrem. A comunidade eclesial deve cantar como a Esposa do Cântico dos cânticos: “Ouvi, pois chegar meu amado saltando sobre os montes, pulando pelas colinas!” (Ct 2, 8) e rezar com toda a Igreja: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22, 20). Vem nos arrebatar para além de nós mesmos, na casa paterna onde, no banquete nupcial do Cordeiro, comeremos e beberemos Contigo.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR


João o Batista (detalhe), 1985, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1926 -), acetato de vinil, areia de silício, carvão, ouro 23 q., Saint-Hugues-de-Chartreuse, Grenoble, França.





 

 


quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

O Caminho da Beleza 09 - III Domingo do Tempo Comum

 A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

III Domingo do Tempo Comum            

Jn 3, 1-5.10            1 Cor 7, 29-31                    Mc 1, 14-20

 

ESCUTAR

“Vendo Deus as suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhes, e não o fez” (Jn 3, 10).

“Eu digo, irmãos: o tempo está abreviado” (1 Cor 7, 29-31).

“O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1, 14-20).

 

MEDITAR

Amar significa entregar-se sem garantia, dar-se completamente na esperança de que nosso amor produzirá amor na pessoa amada. Amar é um ato de fé, e quem tiver mesquinha fé terá também mesquinho amor.

(Erich From)

Jesus não age movido por bons sentimentos. Não tenta agradar ou passar uma boa imagem de si mesmo. Jesus vai ao essencial: ele compreende o que está em jogo além das aparências, buscando a verdade do ser para solicitar um autêntico encontro com ele. O que ele visa é a realidade do homem.

(Daniel Duigou)

 

ORAR

As três afirmações das leituras deste domingo são uma sucessão inquietante de advertências: “Ainda quarenta dias”; “O tempo está abreviado”; “O tempo já se cumpriu”. Como cristãos devemos acreditar que o desenlace não é uma hecatombe, mas uma transformação. Jesus num breve pronunciamento reitera que se cumpriu o prazo, o Reino de Deus está próximo e que é necessário converter-se e crer na Boa Nova. As duas primeiras afirmações constituem uma revelação a partir de Deus e a última implica uma decisão por parte do homem. Uma decisão expressa por duas exigências: conversão e fé. Os habitantes de Nínive nem esperaram o vencimento fatídico dos quarenta dias, pois tanto a fé como a conversão não obedecem a um horário preestabelecido, pois são uma resposta imediata. A palavra de Deus não se desmente a si mesma. A antiga Nínive foi destruída pela conversão e fé dos seus habitantes e uma nova Nínive se deslumbrava. Sucedeu o imprevisível: a força da palavra de Deus proclamada por um só homem, Jonas, que além de duvidar do milagre não fez o menor esforço para crer que para Deus nada era impossível. Os habitantes de Nínive vestiram-se de sacos e Deus depôs a vestimenta da cólera para revestir-se do manto da misericórdia. O profeta Jonas, medíocre e mesquinho, como tantos de nós, cumpriu mecanicamente a sua tarefa sem se deixar enternecer e dilatar o seu coração. Jonas apenas sentenciou como tantos padres e médicos: “Aqui só um milagre!”. E dizem isto porque não acreditam que tudo é possível. Melhor seria que tivéssemos suficiente fé nem tanto para fazer o milagre, mas para ao menos crer nele como possível. Jonas, que foi enviado para abrir os olhos dos ninivitas, permaneceu com a trava nos seus. O tempo breve é um convite para voltarmos os corações para o eterno com um profundo desprendimento interior: os que têm, os que choram e os que estão alegres vivam como se não tivessem, não chorassem e nem fossem alegres. Estamos no limiar do mundo novo anunciado pelo profeta: “Eis que vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is 65, 17) e por isso somos convidados a levantar os olhos para além do nosso limite cotidiano e olhar para o horizonte de Deus neste mundo novo em via de nascer. Devemos ter um único horizonte, o do Reino: “Portanto, quer comais ou bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor 10, 31).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

A Conversão de Saulo, 1800, William Blake (1757-1827), lápis, caneta, nanquim e aquarela sobre papel, 42,3 cm x 37,1 cm, Henry E. Huntington Library and Art Gallery, San Marino, Califórnia, Estados Unidos.




 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

O Caminho da Beleza 08 - II Domingo do Tempo Comum

 A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

II Domingo do Tempo Comum                    

1 Sm 3,3b-10.19    1 Cor 6, 13-15.17-20        Jo 1, 35-42

 

ESCUTAR

“Fala, que teu servo escuta!” (1 Sm 3, 10).

“Ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que mora em vós e que vos é dado por Deus?” (1 Cor, 19).

“Rabi, onde moras?” Jesus respondeu: “Vinde ver” (Jo 1, 38-39).

 

MEDITAR

É uma decisão custosa escolher a vida, mas isso é definitivamente o que os seguidores de Jesus devem fazer. Escolher a vida, agarrar a vida, entrar na vida e clamar pela vida. Isto requer uma nova visão, nascer do Espírito, escapar dos debates sobre superioridade religiosa ou da forma ou lugar mais adequado de se rezar. Esta decisão nos abre a novas dimensões assustadoras do que significa ser humano.

(John Shelby Spong, Bispo Anglicano)

 

ORAR

A primeira leitura nos faz saber que O Senhor não tem uma voz reconhecível, tanto que Samuel a confunde com a do sacerdote Eli. O Senhor não fala a língua dos textos sagrados e nem se obriga a seguir as rubricas de um missal. O teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer diz que Ele fala sempre o dialeto do povo. Deus permanece sempre o inesperado. A sua voz é, habitualmente, discreta e contida: “O menino Samuel oficiava com Eli diante do Senhor. A palavra do Senhor naquele tempo era rara e as visões não eram abundantes” (1 Sm 3, 1). O Evangelho revela que Jesus prefere estar fora do cenário religioso e passar por uma vereda qualquer: “João estava com dois de seus discípulos. Vendo Jesus passar, diz: - Aí está o cordeiro de Deus”. Devemos sair do útero protetor da passividade, do costume, dos condicionamentos sociais e religiosos, para afrontar o risco de uma fé consciente e de um consentimento livre à iniciativa divina. Devemos ser capazes de uma experiência vital, sem medo algum de nos entregarmos, pois não nos entregamos a uma ideia ou a um código moral, mas a Alguém: “nesse dia, permaneceram com Ele”. Jesus, a cada pergunta nossa, não responderá jamais com programas, planos pastorais, esquemas detalhados e nem normas preestabelecidas. Jesus nos responde sempre com dois verbos: “Vinde ver!”: um convite e uma promessa. Jesus não aprisiona as pessoas, mas as desinstala para se porem a caminho, pois “ficar com Ele” significa fazer-se itinerante por Ele, com Ele e Nele. A nossa fé cristã não se transmite como um depósito de conceitos, mas por meio de uma palavra viva que acende no outro desejos. As palavras do anúncio não são as aprendidas nos textos, mas as que brotam de uma experiência perturbadora. O encontro com o Cristo não é o de uma doutrina, nem de uma lista de coisas na qual temos que acreditar, mas uma descoberta que transforma as nossas vidas, liberta as nossas mentes, ilumina nossos espíritos, conduz as nossas ações e nos devolve a coragem de ser e existir, apesar de tudo e de todos. Não nos iludamos, somente quem O acompanha, verá. O poema de Camus nos aponta para o verdadeiro encontro com o Cristo: “Não caminhe diante de mim, que não poderei te seguir. Não caminhe detrás de mim, que não poderei te conduzir. Caminhe exatamente junto a mim para, simplesmente, ser meu amigo”. O Evangelho acentua que, paradoxalmente, Simão não é chamado por Jesus, mas conduzido a ele pelo seu irmão André. É o amor fraterno que nos conduz ao Cristo, pois “aquele que não ama não conhece a Deus” (1 Jo 4, 8). E Simão é também chamado para ser-para-os-outros. Paulo reafirma que aquele que escutou a chamada do Senhor “não se pertence mais”, pois se torna com Ele um só Espírito. Desde então, só nos cabe viver por amor, com amor e no amor.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Camaradagem, 2019, Campo de gado de Mundari, Sudão do Sul, Trevor Cole, Monochrome Photography Awards 2019, Reino Unido.




           

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

O Caminho da Beleza 07 - Epifania do Senhor

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

Solenidade da Epifania do Senhor                       

Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3a.5-6                    Mt 2, 1-12

 

ESCUTAR

“Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 6).

“O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém” (Mt 2, 3).

 

MEDITAR

Temos de renunciar ao cristianismo, se nos obrigarem a renunciar a essas dialéticas esquartejadoras dos sentimentos cristãos, reduzindo-as à escala das sentimentalidades cômodas. Temos que romper a puerilidade de um cristianismo que produz homens delicados e frágeis que nunca avançam para uma fé comprometida, pois ‘vivem tremendo e murados em suas defesas.

(Emmanuel Mounier)

 

ORAR

Hoje é a festa da luz porque a manifestação do Senhor, a sua epifania, é inseparável da luz. Quando o Senhor se manifesta, existem os que ao responder se colocam em caminho e buscam. Há outros, porém, que se escondem e dissimulam as suas vidas e os seus encontros. Os magos foram tomados de uma imensa alegria enquanto Herodes ficou perturbado assim como a Jerusalém do poder e do saber. Os sumos sacerdotes e os escribas foram convocados para uma reunião de emergência e nela manifestam a sua inquietude e desconfiança. É significativo que a aparição da “bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4) suscite perturbação nos que detêm o poder civil e religioso. A presença de Deus, que se manifesta na fraqueza, surge como um perigo e uma ameaça para a ordem estabelecida e para as posições consolidadas. O Cristo constitui uma ameaça para o nosso reino privado ao colocar em xeque nossos equilíbrios cansados e nossas falsas seguranças. O Papa Francisco afirma: “Preferem uma vida enjaulada em seus preceitos, em seus compromissos, em seus planos revolucionários ou em sua espiritualidade desencarnada” (Homilia 20.12.2013). O cristão lúcido sabe que é melhor a perturbação do que a indiferença; é melhor o compromisso do que a neutralidade; é melhor a recusa do que a ambiguidade. O cristão sabe que é necessário um coração para assombrar-se e alargar-se. O profeta desvela a expansão da luz e a sua alegria contagiosa. O evangelista, por sua vez, dá a conhecer o medo dos sábios cuja busca finda em suas bibliotecas palacianas, no meio dos pergaminhos cobertos de pó nos quais procuram sentenças definitivas. O caminho, com as suas imprevisibilidades e surpresas, não é o seu assunto. O coração dos magos é o coração dos que buscam, apaixonadamente, abrigar o mistério. O coração dos detentores do poder é árido, mesquinho e intolerante. Os magos nos revelam que entre o relâmpago do surgimento da estrela e o seu acompanhamento até o último trecho do caminho seremos assomados por dúvidas, cansaços, perdas e desilusões, mas, sobretudo, por esperanças. A estrela surge como uma chispa de fogo, acende o desejo e só volta a brilhar intensa e permanentemente no final quando o encontro se realiza. A busca não é nunca uma marcha triunfal: implica numerosas partidas e recomeços e não devemos dela esperar manifestações espetaculares. O que conta é a perseverança: a capacidade de não desertar, de não ceder ao desalento, de não se desviar para cômodos refúgios e nem se contentar com conquistas provisórias; a obstinação para caminhar quando tudo parece inútil, absurdo e impossível. E o que mais conta ainda é o discernimento de que para adorar a Deus é preciso nos deter diante do mistério do mundo e saber olhá-lo com amor. Quem olha a vida amorosamente começará a vislumbrar as vibrações de Deus antes mesmo de ser envolvido por elas.


(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

A Noite Estrelada, 1889, Vincent van Gogh (1853-1890), óleo sobre tela, 73 cm x 92 cm, Museu de Arte Moderna, Nova York, Estados Unidos.