sexta-feira, 17 de novembro de 2023

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

XXXIII Domingo do Tempo Comum                    

Pr 31, 10-13.19-20.30-31                      1 Ts 5, 1-6                Mt 25, 14-30

 

ESCUTAR

“Uma mulher forte, quem a encontrará? Ela vale muito mais do que as jóias” (Pr 31, 10).

“Vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá como ladrão, de noite” (1 Ts 5, 2).

“Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mt 25, 29).

 

MEDITAR

Nada é grave senão perder o amor. Descobrir uma intimidade com Deus... Contem­plá-lo também no rosto do homem... Devolver fisionomia humana ao homem desfigu­rado... Eis uma única e mesma luta: a do amor. Sem o amor, para que a fé? Para que chegar a queimar nossos corpos nas chamas? Nas nossas lutas... nada é grave a não ser perder o amor.

(Roger Schutz)

 

ORAR

Somos chamados a não enterrar a vida e nem a esterilizá-la completamente. Somos chamados a romper a obsessiva preocupação com a segurança e a afirmar diante de todos a maravilha do risco de existir para transformar o mundo. Somos chamados para o seguimento de um Jesus comprometido e não para coexistir com uma fé sufocada pelo conformismo e pela indolência. O cristão se questiona sempre sobre o que semeia ao seu redor; a quem contagiamos com a esperança e como aliviaremos a angústia que faz sofrer nossos amados e amadas. Não somos chamados a conservar a Palavra em potes herméticos de vinagre e sal, mas proclamar a Boa Nova que, ao transformar vidas, introduz o Reino de Deus no mundo. O teólogo von Balthasar é enfático: “Ninguém se converterá a Cristo porque existe um magistério, os sete sacramentos, um direito canônico, um clero, os núncios apostólicos ou um gigantesco aparato eclesiástico. Alguém se converte ao Cristo porque encontrou um cristão que, por meio da sua existência e exemplo, manifestou que é precisamente, no meio da vida que se dá um seguimento de Cristo digno de fé”. A parábola de hoje faz eco a um provérbio africano que reza “Quem te ama te dá sementes” e Deus nos entrega um tesouro pessoal apesar dos nossos limites, faltas e defeitos. Somos convidados a gastar este tesouro saindo de nós mesmos, arriscando-nos no meio da vida e, desta maneira, participando da alegria do Senhor. Jesus nos deixa livres para nos aventurar na travessia e sermos fecundos. Existem os que empacam, enterram seus talentos, se emburrecem e vivem, literalmente, enfezados. Suas vidas passam despercebidas e melancólicas e a presença do Senhor é temida e transforma-se num fardo. A nossa fé nos garante que o Senhor nunca entrega nada a ninguém sem garantir os meios para que expanda e frutifique a sua doação. O cristão sabe que deve ousar o quanto puder, pois na fé e no amor não se calcula e nem se poupa para que não se perca tudo. O papa Bento XVI exorta: “Tenha a coragem de ousar com Deus! Tente! Não tenha medo Dele! Tenha a coragem de arriscar a fé! Tenha a coragem de arriscar a bondade! Tenha a coragem de arriscar o coração puro! Comprometei-vos com Deus. Então verás que, precisamente, por isso a tua vida se tornará grande e iluminada, não mais entediada, mas plena de infinitas surpresas, porque a bondade infinita de Deus jamais se esgota!”. Não existem lugares e nem situações fechadas para a presença cristã. O espetáculo mais deprimente é aquele no qual um cristão esconde seu talento, mascara a sua fé, dissimula a sua pertença a Cristo, sepulta a Palavra ou a utiliza para seus projetos mesquinhos. A maior deformação é a vileza de uma Igreja satisfeita que se isola para usufruir, contemplar e defender os talentos recebidos. O cristão comprometido com o anúncio da Boa Nova sabe que guardar não é o mesmo que semear. A Igreja não foi instituída para preservar os dons de Deus, mas para multiplicá-los para todos. Não podemos empacar as nossas vidas e a dos outros e fenecermos estanques no mesmo lugar. Como afirma Guimarães Rosa: “Burro só não gosta é de principiar viagens... O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo” (Guimarães Rosa).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, 2016, Alessandra Tarantino (1974-), Associated Press Images, Roma, Itália.




sexta-feira, 10 de novembro de 2023

O Caminho da Beleza 51 - XXXII Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

XXXII Domingo do Tempo Comum

Sb 6, 12-16              Ts 4, 13-18              Mt 25, 1-13

 

ESCUTAR

A Sabedoria... é facilmente contemplada por aqueles que a amam, e é encontrada por aqueles que a procuram (Sb 6, 12).

Nós que fomos deixados com vida para a vinda do Senhor não levaremos vantagem em relação aos que morreram (Ts 4, 15).

“O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!” (Mt 25, 6).

 

MEDITAR

Senhor, dá-nos viver nossa vida, não como um jogo de xadrez; onde tudo é calculado; não como uma competição onde tudo é difícil; não como um teorema que nos quebra a cabeça, mas como uma festa sem fim onde nosso encontro se renova, como um baile, uma dança, entre os braços da tua graça, na música universal do teu amor. Senhor, vem tirar-nos para a dança.

(Madeleine Delbrêl)

 

ORAR

O Evangelho nos desafia a olharmos além da ponta de nossos narizes. Nós somos chamados ao serviço, a darmos o sustento espiritual e a solidariedade justa na hora certa em que formos chamados a fazer isto. Muitas vezes nos acomodamos num bem-estar e esquecemos da nossa vocação. Contentes e preguiçosos, aguardamos tranquilos a vinda do reino de Deus acreditando que é o próximo que deve vir para nos ajudar e não o contrário. Perdemos a sensibilidade e a compaixão, voltamos a ter um coração de pedra e não mais de carne. Os cristãos – como as jovens previdentes que saíram ao encontro do noivo – devem dar este mesmo testemunho de vigilância permanente. Somos chamados a interceder pelos que, neste mundo consumista, não encontram um tempo mínimo para a oração; um minuto sequer para se colocar diante de Deus e pronunciar “seja feita a vossa vontade”. O Ressuscitado nos faz, novamente, acreditar que a “porta fechada” do Paraíso não é nunca um castigo, mas a expressão do nosso descuido de viver a vida em plenitude com Deus. A perda do Paraíso é somente um exílio que nos impomos a nós mesmos. Vigiar e estar atento, pois a qualquer momento pode ser a hora e o dia, é aprender a tornar sereno o nosso espírito pela prática do amor fraterno e a cicatrizar na nossa alma a amargura de ser só, numa solidão de amor que nos faz experimentar um gosto de morte. Vigiar e estar atento, virtudes imprescindíveis para os seguidores do Cristo, é não deixar escapar a vida e nem as surpresas da intemporalidade e do infinito das nossas relações com Deus. O modelo de vida perfeito que o Evangelho de hoje nos propõe é a kenosis: o dom amoroso de si. Nossa individualidade, diante da imensidão de Deus, é um grão de trigo que deve cessar de querer existir por si mesmo, deve esgotar a existência da vida não pelo desejo de ser autônomo, mas pelo dom amoroso de si. Cada um de nós, em comunidade fraterna, deve exercitar esta existência amorosa kenótica que se despoja de si mesma, assim como Deus é uma pericorese kenótica de três pessoas que se dão umas às outras, despojando-se do que são. Devemos compreender esta realidade esponsal da vida religiosa e comunitária em que a união numa só carne significa que o outro é a nossa carne e que não podemos cessar de ser-para este outro.

(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Os Três Dançarinos, 2015, coreografia de Didy Veldmann (1967-), Rambert Dance Company, foto de Stephen Wright (1960-), Wallingford, Inglaterra.




 

 

 

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

O Caminho da Beleza 50 - Todos os Santos e Santas

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

Todos os Santos e Santas       

Ap 7, 2-4.9-14                    1 Jo 3, 1-3                Mt 5, 1-12

 

ESCUTAR

“Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 13).

Amados, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! (1 Jo 3, 2).

“Bem-aventurados... Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 7 5, 3).

 

MEDITAR

Ser santo é suportar o olhar de Deus.

(Hans Urs von Balthasar)

 

ORAR

A celebração de todos os santos e santas, para que seja verdadeira, deve agitar dentro de nós uma mistura de sentimentos: gratidão e remorso; admiração e raiva; orgulho e nostalgia; alegria e inquietude; paz e desconcerto. Os santos e santas quando surgem no nosso horizonte são uma provocação, pois a verdadeira vocação, tantas vezes falida, na nossa vida, é a santidade. João nos fala do grande presente que o Pai nos deu, mas, atolados nas nossas vidas deficitárias, estamos mais preocupados em supervalorizar os fracassos, os erros e os infortúnios. A santidade não é feita de matérias extraordinárias e nem de fenômenos excepcionais. Ela é feita exclusivamente de amor. É o amor que faz os santos e santas, pois são os que não temem se deixarem amar. Se a santidade nos parece difícil e quase impossível é porque não temos a coragem de nos abandonarmos ao amor. O Senhor permanece desconhecido porque são muito conhecidas e difundidas as suas caricaturas. As bem-aventuranças são uma alegria concreta, duradoura e não um raio de momentos felizes que não se repetem. Elas jamais se dissolvem porque têm a mesma duração de Deus e Deus nunca retira a sua palavra. Temos apenas que nos aproximar da Palavra para ouvir e compreender o segredo da alegria em Deus. Santos e santas são todos os que tiveram a coragem de dar esse passo, de abandonar a maneira habitual de interpretar a vida. A provocação desta festa de hoje é unir a vocação à santidade – que é a vocação de todos – com a vocação da alegria. Os santos e santas são os impacientes da alegria e na alegria aprendem a suportar o olhar amoroso de Deus. A pertença ou não ao Reino não se justifica pela adesão a verdades ortodoxas da fé, mas à prática ou não do amor. Um dia, vamos conhecer os verdadeiros santos e santas de todas as religiões e de todos os ateísmos: os que viveram amando, no anonimato, sem nada esperar.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spíller, mts)

 

CONTEMPLAR

Crianças no degrau da porta, 2008, Havana, Cuba, Tony McDonnell, Dundalk, Irlanda.




quinta-feira, 26 de outubro de 2023

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

XXX Domingo do Tempo Comum  

Ex 22, 20-26                      1 Ts 1, 5-10                         Mt 22, 34-40

 

ESCUTAR

“Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito” (Ex 22, 20).

“E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1 Ts 1, 6).

“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” (Mt 22, 36).

 

MEDITAR

A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo – Deus comigo. O amor ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.

(Hélio Pellegrino)

 

ORAR

Jesus tinha um método estranho para fazer as operações: quando tinha que multiplicar, dividia (como fez com os pães); para obter maior resultado, propunha abandonar, cortar, perder. O judaísmo tinha 613 preceitos dos quais 365 começavam com “não” e 248 com um imperativo “deves”. Jesus não se perde neste emaranhado selvagem de prescrições e casuísmos. Ao ser provocado pelo doutor da Lei, resume tudo em dois mandamentos que têm um só fundamento: o Amor. Temos um descaso pelo que é essencial até porque preferimos a complexidade, as complicações e a quantidade de preceitos, pois nos ajudam a nos evadir do necessário. Temos medo deste recorte feito por Jesus que nos permite descobrir dois rostos: o do irmão e o do Pai. Jesus está impaciente porque deseja que sejamos capazes de ver alguma coisa e descobrir alguém. Jesus revela que todas as práticas, observâncias e tributos religiosos sem o mandamento principal do amor estão privados de sentido e valor. O mandamento do amor é o primeiro, não porque está no topo da lista, mas porque está no centro, no coração, pois é no coração que todos devem se referenciar e se medir. O amor é a medida da fé. Temos a pretensão de separar o amor de Deus do amor ao próximo. Reduzimos o nosso agir à frequência dos sacramentos e esquecemos de que ele deve ser calcado na luta pela justiça, contra a discriminação e a intolerância de todos os tipos. Jesus arranca os códigos morais religiosos de nossas mãos e nos obriga a descobrir um rosto, vários rostos. O essencial não está escrito nas páginas de um livro, pois o essencial sempre tem um rosto. Jesus nos faz saber que não existe nenhum espaço sagrado em que possamos nos encontrar somente com Deus e ficar de costas para os outros. Um amor a Deus que esquece seus filhos e filhas é uma grande mentira.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Dia da Independência, 4 de julho de 1971, Aspen, Colorado, Estados Unidos, Henri Cartier-Bresson (1908-2004), Magnum Photos, Paris, França.




quarta-feira, 18 de outubro de 2023

O Caminho da Beleza 48 - XXIX Domingo do Tempo Comum

 Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

XXIX Domingo do Tempo Comum             19.10.2014

Is 45, 1.4-6              1 Ts 1, 1-5                Mt 22, 15-21

 

 ESCUTAR

“Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há Deus” (Is 45, 5).

“Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações” (1 Ts 1, 2).

“Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a Cesar?” (Mt 22, 17).

 

MEDITAR

O Reino de Cristo é anunciado quando o ser humano é liberado do que o oprime: o dinheiro e o desprezo. O ser humano torna-se livre quando o poder se faz serviço; quando a partilha e a solidariedade tornam-se os novos modos de viver em sociedade e na Igreja.

(D. Bernard Hubert)

 Ao se aproximar da sua morte e da sua ressurreição, Jesus se despojou de muitas coisas. Não fez mais nenhum milagre, não estava mais no centro da multidão, uma figura cercada por apoiadores e admiradores. Ele se privou dos seus discípulos que o renegaram e fugiram. Finalmente, ele se despojou das suas vestes e subiu nu na cruz. Tudo isso abriu o caminho para o dom inimaginável da Ressurreição.

(Timothy Radcliffe)

 

ORAR

O Senhor confere o título de cristo – ungido – a Ciro, rei da Pérsia que nem sequer O conhecia. Um não–crente, sem etiquetas religiosas é chamado para realizar as obras de Deus. Os judeus haviam buscado a segurança ao estreitar alianças, ao pactuar com os poderosos da vez e esquecer que a segurança somente está garantida pela fidelidade ao Senhor. Os pactos não impediram a ruína, ao contrário, causaram-na. Durante o exílio da Babilônia, a esperança enfraqueceu, mas graças ao édito de Ciro, em 598 AC, os judeus puderam voltar à sua terra. O édito de Ciro é mais convincente do que o de Constantino, recém-convertido, que aprisionou a Igreja ao poder temporal, tornando-a um império religioso. Jesus escapa da armadilha de seus interlocutores, deixando-os numa situação embaraçosa, pois não delimita de uma maneira inequívoca o território espiritual e o temporal. Cristo não dá uma resposta/receita válida para todo o sempre, mas reafirma a riqueza de uma luz que existe no nosso interior: a consciência. O seguimento de Jesus não nos fornece um passaporte eterno e milagroso que resolve, automaticamente, para sempre, todos os conflitos. Paulo nos exorta a acreditar que a maturidade da fé vem do enfrentamento dos desafios, sem nada escamotear, apenas contando com a abundante força do Espírito. No nosso agir, devemos assumir nossa posição com a atuação da fé, o esforço do amor e a firmeza da esperança em Cristo. Jesus pede uma moeda, pois vivia como itinerante, sem trabalho e sem morada fixa. Ele não tinha sequer uma moeda e sua túnica não tinha bolsos. Jesus não afirma que uma metade da vida, a material e a econômica, pertence à esfera de Cesar e a outra metade, a espiritual e religiosa, à esfera de Deus. Sua mensagem é clara: se entrarmos no Reino não podemos consentir que nenhum Cesar imponha sacrifícios ao que somente a Deus pertence: os famintos do mundo, os proscritos da sociedade, os vitimados por guerras. Jesus é enfático na sua escolha e o seu Evangelho já a fez por nós: que nenhum Cesar conte conosco, pois nunca nenhum Cesar contará com Ele.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)


 CONTEMPLAR

Feliz Voo, 2013, Centro Comercial em Bucareste, Romênia, Thomas Leuthard (1971-), Zug, Suíça.




quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O Caminho da Beleza 47 - XXVIII Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

XXVIII Domingo do Tempo Comum                    

Is 25, 6-10               Fl 4, 12-14.19-20              Mt 22, 1-14

 

ESCUTAR

“O Senhor Deus eliminará para sempre a morte, e enxugará as lágrimas de todas as faces, e acabará com a desonra do seu povo em toda terra” (Is 25, 6.8).

“Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade. Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 2, 12-13).

“Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados” (Mt 22, 10).

 

MEDITAR

“Cada concessão só enfraquece aquele que a faz e ofende mais ainda aquele que a obtém” (Gustave Thibon).

 

ORAR

            O profeta Isaías nos convida a sonhar o inimaginável, os projetos mais incríveis e os propósitos mais impossíveis de um Deus cuja realidade está infinitamente mais longe do que os nossos desejos mais audazes e loucos. Temos sido rasos e medíocres para imaginar as coisas maravilhosas que o Senhor realiza em nós e o futuro que Ele nos prepara.  O profeta nos faz saber que o que nos conduz ao Paraíso é sermos capazes de sonhar o impossível. A parábola do banquete foi muito popular entre as primeiras gerações cristãs. Deus está preparando uma festa final para os seus filhos e filhas, pois deseja ver a todos sentados com Ele ao redor da mesma mesa e desfrutando, para sempre, de uma vida plena e em abundância. Esta foi uma das imagens mais queridas por Jesus para sugerir a plenitude dos tempos. Ele compreendeu e viveu a sua vida como um grande convite em nome de Deus. Não impunha nada e nem pressionava ninguém. Anunciava a Boa Nova, despertava a confiança, arrancava os medos, aniquilava as angústias e devolvia a alegria. O Evangelho fala sobre o banquete e esta parábola é conduzida por uma série ininterrupta de surpresas. A primeira, a apresentação do Reino de Deus como um banquete de bodas, símbolo por excelência da alegria do encontro, da comunhão e da intimidade. A segunda, a recusa absurda dos convidados pela sua indiferença, distância e fastio. A terceira surpresa, é que o desígnio de Deus não se interrompe apesar da falta de adesão dos convidados privilegiados. Deus não suspende a festa, pois o Evangelho rechaçado por uns encontra uma inesperada acolhida em outros corações. A quarta surpresa, como uma reviravolta dramática, é protagonizada pelo homem surpreendido sem a veste de festa. O evangelista quer que saibamos que não é possível ser cristão sem mudar a própria conduta, uma vez que as exigências éticas contam no reino de Deus. A seriedade do compromisso é a condição para que a festa seja verdadeira. Aquele que, por descuido ou desleixo, não veste o traje da festa inverte a gratuidade do convite e no seu orgulho está convencido de que é o Senhor que deve lhe agradecer por ele estar presente. Ele exclui a si mesmo da mesa por ter se contentado com a tênue luz que iluminava a si próprio. Paulo nos fala sobre o segredo de viver. No mundo, todos somos pressionados, sem pudor, pela força do dinheiro, mas ele nos revela que encontrou em outra parte o que o alimentou para o anúncio do Evangelho: “Tudo posso naquele que me dá força”. Paulo revela que tudo poderemos sem o dinheiro e que tudo podemos, precisamente, por não termos dinheiro. Saberemos viver na pobreza e na abundância, pois aprendemos o gosto da liberdade dos que não fazem das suas posses os seus grilhões. Aos que planejam usufruir de tudo e de todos, sem nunca oferecer e entregar nada a ninguém, estes serão a comida e a bebida do banquete profetizado por Ezequiel: “Dize aos pássaros, a tudo o que voa, a todos os animais selvagens: Reuni-vos e vinde! Podereis comer carne e beber sangue. Podereis comer carne de heróis e beber sangue dos governantes da terra. Comereis gordura até saciar-vos e beberei sangue até embriagar-vos: é o banquete que vos preparei” (Ez 39, 17).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Sem Título, s.d., Barcelona, Martin Molinero (1975-), Buenos Aires, Argentina. 



quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O Caminho da Beleza 46 - XXVII Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

XXVII Domingo do Tempo Comum          

Is 5, 1-7                    Fl 4, 6-9                   Mt 21, 33-43

 

ESCUTAR

“Eu esperava deles justiça – e eis injustiça; esperava obras de bondade – e eis iniquidade” (Is 5, 7).

“E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus” (Fl 4, 7).

“O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos” (Mt 21, 43).

 

MEDITAR

O verdadeiro problema da Igreja é continuar com uma resignação e um tédio cada vez maior pelos caminhos habituais de uma mediocridade espiritual.

(Karl Rahner)

Senhor, faze que eu tenha fome e sede de justiça. Faze que eu não seja apegado às pequenas coisas que me tranquilizam, a um status quo pelo qual me sinto protegido... Que eu não perca nunca a esperança; que eu saiba contestar, em nome desta esperança em Ti e no homem, todo imobilismo, toda conservação que nega a ação incessante do teu Espírito!

(Ettore Masina)

 

ORAR

Somos chamados a sermos juízes do amante traído pela vinha amada. O amado cuidou com toda dedicação da sua vinha, mas ela produziu uvas selvagens. O amante esperava frutos bons para que os outros pudessem deles usufruir; o seu amor e dedicação deveriam ser devolvidos em favor dos outros. A canção de amor se converte numa denúncia áspera e cheia de questionamento: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?”. Somos nós a vinha do Senhor que produzimos uvas selvagens da injustiça, do desamor e da mentira. Apesar de tudo, o Senhor continua tentando nos atrair com canções de amor. A lição do profeta cabe como uma luva para as igrejas que reclamam privilégios, outorgam a si direitos, celebram triunfos passados, mas não produzem frutos de amor. Jesus não pede nada de excepcional, apenas sugere, por meio do Espírito, o possível que devemos produzir e o impossível que devemos esperar do Pai. A Igreja de Jesus foi construída sobre uma pedra desprezada e, até hoje, ela se sustenta sobre a pedra rejeitada e sobre tantas pessoas desprezadas. Paulo nos evoca a produzir frutos verdadeiros, respeitáveis, justos, puros, amáveis, honrados e dignos de louvor. São frutos que podem ser encontrados em outras vinhas que sempre são vinhas do Senhor ainda que não tenham a placa oficial pendurada na porta de entrada. A parábola nos exorta a que não criemos falsas ilusões ao reivindicar um direito de propriedade sobre a salvação e a verdade. Jesus não diz que a vinha será entregue às igrejas ou a uma nova instituição, mas “a um povo que produzirá frutos”. O Reino de Deus está no povo que produz frutos de justiça, de compaixão e que defende os sem direito e os sem voz. “Povo de Deus é o que pratica a justiça em qualquer situação, tempo ou lugar” (Lumen Gentium 9). A maior tragédia que pode suceder ao cristianismo é calar a voz dos profetas, que os sacerdotes se intitulem donos da vinha do Senhor e que o Cristo seja posto de lado por sufocarmos o seu Espírito. Não podemos jamais esquecer que se a Igreja não responder às esperanças que pôs nela o Senhor, Ele abrirá novos caminhos de salvação em povos que produzam frutos.

(Manos da Terna Solidão/ Pe. Paulo Botas e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Velha vinha, 2009, WB Fuller, Getty Images.