quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O Caminho da Beleza 08 - II Domingo do Tempo Comum

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

II Domingo do Tempo Comum        

Is 49, 3.5-6             1 Cor 1, 1-3              Jo 1, 29-34

 

ESCUTAR

“Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49, 6).

“Para vós graça e paz da parte de Deus, nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 1, 2).

“Eu vi o Espírito descer, como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele” (Jo 1, 32).

 

MEDITAR

“É fácil levar Jesus no peito; difícil é ter peito, coragem para seguir Jesus”.

 (Dom Pedro Casaldáliga)

 

ORAR

    Aceitar a palavra de Deus significa romper a crosta dos nossos hábitos e costumes e ir mais além do nosso horizonte doméstico. Somos fiéis à Palavra de Deus na medida em que valorizamos o seu alcance profético e não a prendemos com grilhões e nem a mumificamos com o bálsamo das nossas experiências passadas. Devemos nos deixar provocar pelo que ainda não conhecemos e irmos até o limite do que nunca terminaremos de explorar. O batismo de Jesus, por uma figura marginal em um lugar marginal, cumpre toda a justiça ao revelar que o Senhor escolhera Jesus, o Filho Amado, para realizar um reino justo e libertador, diante da oposição dos que estão apenas preocupados em manter tudo como está. O evangelista proclama: “Eu não o conhecia” e nos faz conhecê-Lo como Desconhecido. O Cristo permanece desconhecido, pois revestido do Espírito de Liberdade, não se deixa aprisionar pela miopia das igrejas e nem se reduzir a conceitos que servem mais para dividir o Povo de Deus do que uni-lo num só corpo e num só Espírito. A comunidade eclesial deve alimentar o gosto pelo desconhecido e por tudo que ainda devemos e poderemos descobrir. É necessário nos converter do Jesus conhecido das nossas devoções, das práticas costumeiras e consumido pelas nossas estruturas, para um Cristo Desconhecido que somente se encontra quando rompemos a prisão confortável das nossas certezas e falsas seguranças, das nossas idolatrias fossilizadas que nos trazem a tranquilidade enganosa dos pântanos e nos sepultam na paz dissimulada dos cemitérios. Meditemos as palavras do papa Bento XVI: “Se, em definitivo, o meu bem estar, e a minha incolumidade é mais importante do que a verdade e a justiça, então vigora o domínio do mais forte; então reinam a violência e a mentira. Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes são elementos fundamentais de humanidade e o seu abandono destruiria o mesmo homem” (Spe Salvi, 39).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Cordeiro de Deus, Cláudio Pastro (1948-), vitral na Capela do Mosteiro do Encontro, Irmãs Beneditinas, Mandirituba, Paraná, Brasil.




quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

O Caminho da Beleza 07 - Epifania do Senhor

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

Epifania do Senhor                  

Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3a.5-6                    Mt 2, 1-12

 

ESCUTAR

 “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 6).

“O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém” (Mt 2, 3).

 

MEDITAR

A Igreja Católica exorta seus filhos ao diálogo e à colaboração com os seguidores das outras religiões, para que deem o testemunho da fé e da vida cristã, reconhecendo, servindo e promovendo os bens espirituais e morais assim como os valores socioculturais presentes nelas.

(Nostra Aetate, 2)

Temos de renunciar ao cristianismo, se nos obrigarem a renunciar a essas dialéticas esquartejadoras dos sentimentos cristãos, reduzindo-as à escala das sentimentalidades cômodas. Temos que romper a puerilidade de um cristianismo que produz homens delicados e frágeis que nunca avançam para uma fé comprometida, pois “vivem tremendo e murados em suas defesas”.

(Emmanuel Mounier)

 

ORAR

    Hoje é a festa da luz porque a manifestação do Senhor, a sua epifania, é inseparável da luz. Quando o Senhor se manifesta, existem os que ao responder se colocam em caminho e buscam. Há outros, porém, que se escondem e dissimulam as suas vidas e os seus encontros. Os magos foram tomados de uma imensa alegria enquanto Herodes ficou perturbado assim como a Jerusalém do poder e do saber. Os sumos sacerdotes e os escribas foram convocados para uma reunião de emergência e nela manifestam a sua inquietude e desconfiança. É significativo que a aparição da “bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4) suscite perturbação nos que detêm o poder civil e religioso. A presença de Deus que se manifesta na fraqueza surge como um perigo e uma ameaça para a ordem estabelecida e para as posições consolidadas. O Cristo constitui uma ameaça para o nosso reino privado ao colocar em xeque nossos equilíbrios cansados e nossas falsas seguranças. O Papa Francisco afirma: “Preferem uma vida enjaulada em seus preceitos, em seus compromissos, em seus planos revolucionários ou em sua espiritualidade desencarnada” (Homilia 20.12.2013). O cristão lúcido sabe que é melhor a perturbação do que a indiferença; é melhor o compromisso do que a neutralidade; é melhor a recusa do que a ambiguidade. O cristão sabe que é necessário um coração para assombrar-se e alargar-se. O profeta desvela a expansão da luz e a sua alegria contagiosa. O evangelista, por sua vez, dá a conhecer o medo dos sábios cuja busca finda em suas bibliotecas palacianas, no meio dos pergaminhos cobertos de pó nos quais procuram sentenças definitivas. O caminho, com as suas imprevisibilidades e surpresas, não é o seu assunto. O coração dos magos é o coração dos que buscam, apaixonadamente, abrigar o mistério. O coração dos detentores do poder é árido, mesquinho e intolerante. Os magos nos revelam que entre o relâmpago do surgimento da estrela e o seu acompanhamento até o último trecho do caminho seremos assomados por dúvidas, cansaços, perdas e desilusões, mas, sobretudo, por esperanças. A estrela surge como uma chispa de fogo, acende o desejo e só volta a brilhar intensa e permanentemente no final quando o encontro se realiza. A busca não é nunca uma marcha triunfal: implica numerosas partidas e recomeços e não devemos dela esperar manifestações espetaculares. O que conta é a perseverança: a capacidade de não desertar, de não ceder ao desalento, de não se desviar para cômodos refúgios e nem se contentar com conquistas provisórias; a obstinação para caminhar quando tudo parece inútil, absurdo e impossível. E o que mais conta ainda é o discernimento de que para adorar a Deus é preciso nos deter diante do mistério do mundo e saber olhá-lo com amor. Quem olha a vida amorosamente começará a vislumbrar as vibrações de Deus antes mesmo de ser envolvido por elas.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, s.d., da série “O Congado”, Jorge Quintão, Minas Gerais, Brasil.




quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família de Jesus, Maria e José

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

Sagrada Família de Jesus, Maria e José            

Eclo 3, 3-7.14-17              Cl 3, 12-21               Mt 2, 13-15.19-23

 

ESCUTAR

“Quem honra o seu pai alcança o perdão dos pecados... quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros” (Eclo 3, 4).

“Vós sois amados por Deus, pois sois os seus santos eleitos” (Cl 3, 12).

“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2, 14).

 

MEDITAR

Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.

(Papa Francisco, Evangelii Gaudium)

 

ORAR

   Na tradição do Antigo Testamento a família era constituída para procriação e repousava sobre uma estrutura patriarcal de parentesco cujo principal cuidado era a perpetuação de uma linhagem. A família de Jesus é uma reviravolta nesta tradição. Maria, como rezava a tradição, havia sido “prometida a um homem chamado José, da família de Davi” (Lc 1, 27), mas o Arcanjo Gabriel lhe anuncia algo absolutamente revolucionário: a nova família será constituída a partir de afinidades eletivas e escolhas amorosas. José, em sonho, ouviu a palavra do anjo e a respondeu acolhendo a jovem e a criança que ela carregava no ventre, ainda que não fosse o autor desta gravidez e nem o genitor deste filho. José confia e se coloca disponível: "José não tenhas medo de acolher Maria como tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo”. Uma mulher plena do Espírito de Deus não pode e nunca poderá ser submissa. Maria, em vigília, ouve a palavra do anjo e, apesar de temerosa e perturbada confia e se coloca à disposição do desígnio de Deus. Ouvir a palavra, responder com um sim incondicional e estar absolutamente disponível são os novos pilares desta nova estrutura familiar na qual o amor recíproco e o crer sustentam a comunidade cristã e cada família nas suas plurais formas de existir. José e Maria ensinam – ele em estado de sono e ela em estado vigília – que devemos estar sempre, consciente ou inconscientemente, disponíveis para escutar e acolher a palavra de Deus. Não podemos nos confundir: existe um abismo entre sermos pais e genitores. Um homem e uma mulher precisam de alguns segundos para se tornar genitores e são estes que veem seus filhos como propriedade particular, preocupados em fazer crescer o patrimônio familiar e em continuar o sobrenome da família. Na família de Deus, gerada a partir de Maria, José e Jesus, ser pai, mãe e filho é uma aventura de outra natureza. É uma escolha amorosa, uma afinidade eletiva e um compromisso de entrega para educar e conduzir os seus filhos e filhas para opções de liberdade que poderão gerar mais vida e mais desejos. Para a mentalidade retrógada dos que se reduziram à família nuclear burguesa tudo escandaliza nesta Santa Família. A família de Deus se concretiza de uma forma extraordinária aos padrões convencionais sacralizados: José, um homem sem mulher; Maria, uma virgem sem esposo e Jesus, uma criança sem pai. Deus revela, para todo o sempre, que o mais importante é a adoção pelo coração, o centro da vida.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

S. Título, 1979 (?), Yanomami, Claudia Andujar (1931-), Suíça/Brasil.




  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

O Caminho da Beleza 05 - Natal do Senhor

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo                     

Is 52, 7-10               Hb 1, 1-6                  Jo 1, 1-18

 

ESCUTAR

Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação (Is 9, 7).

Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo (Hb 1, 1-2)

E a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14).

 

MEDITAR

O sagrado no Cristo não é qualquer coisa que existe sob os ferrolhos ou que é colocada atrás das grades ou ainda sob véus impenetráveis. O sagrado em Jesus é o homem, é o próprio homem. São as nossas mãos, o trabalho de nossas mãos; são os nossos olhos e a luz que os preenche; são os nossos corações e esta maravilhosa capacidade de amar. Isto tudo é o que constitui o sagrado que perpetua a Encarnação e que não cessa de tornar presente o Cristo entre nós.

(Maurice Zundel)

 

ORAR

    Natal significa que “um Menino nos nasceu” e este é o sinal para a Humanidade. Nada de grandioso ou espetacular, pois Deus para nos encontrar escolhe o caminho da modéstia e da pequenez. O Natal significa que o sorriso divino pousou sobre as nossas misérias, devolveu a esperança e nos abriu todas as possibilidades futuras. Este rosto do Menino não é mais o de um Deus distante, carrasco; nem o de um Deus desiludido e traído. Este rosto terno e carinhoso revela a única condição para conquistarmos a vida eterna: deixarmo-nos amar. O natal não é apenas uma data inventada, mas o início da Boa Nova que nos faz saber que um escapou do censo ordenado por Cesar Augusto e que, portanto, não foi incluído como um dado estatístico. Não comemoramos uma data que colocou tudo em ordem, mas um início de um tempo em que a justiça de Deus se manifesta em toda a sua plenitude. A solidão acabou porque os homens e mulheres têm a mão que os guia, que os salva e os consola. O evangelista revela que o Verbo não somente entra no mundo, mas se torna um membro da humanidade e declara que a presença de Deus (Shekinah), até então na tenda da Aliança, está agora plenamente realizada na tenda de carne do Emmanuel. A divindade não se sobressai como um árbitro destacado e eterno do contexto terrestre, mas está implicada na complexidade da realidade humana. O evento decisivo da nossa existência e o artigo de fé fundamental do cristianismo é a encarnação do Verbo. No Natal, é desvelado que o Cristo é a Palavra que exige escuta; é a Vida que exige adesão do coração; é a Luz que exige a luta contra a cegueira para que possamos todos juntos, peregrinos, construir a cada nova geração um mundo de justiça e paz. No entanto, alguns natais são anunciados sem nenhum engajamento de fé. Um natal folclórico, mercantilizado, ruidoso e de um ritualismo consumista; um natal emotivo, marcado pelo infantilismo e que, apesar dos sentimentos, sabe calcular os impulsos de generosidade; um feriado natalino para ser aproveitado em viagens, que nos levem o mais distante possível de todos. Finalmente, um natal dos que foram um dia batizados e que, ao menos uma vez por ano, vestem o disfarce de cristãos para poder passar pelo umbral das igrejas mais próximas que lhes ofereça um horário de celebração mais cômodo para não atrapalhar a ceia natalina e a troca de presentes. Outros natais são possíveis de ser acrescentados à lista uma vez que são apenas pretextos para qualquer coisa. Que neste dia de Natal sejamos capazes de colocar nas nossas vidas um pouco menos de qualquer coisa, como os restos de nossas ceias. Que sejamos capazes de conseguir um pouco menos de alienada religiosidade e um pouco mais de fé comprometida com Aquele cujo nome é “Conselheiro Admirável, Deus Guerreiro, Pai dos Tempos Futuros e Príncipe da Paz” (Is 9, 5).

Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Mistério da Encarnação, 1954, Louis Rivier (1885-1963), tríptico da Encarnação (painel central), 250 x 150cm, Lausanne, Suíça.




 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

O Caminho da Beleza 04 - IV Domingo do Advento

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

IV Domingo de Advento         

Is 7, 10-14               Rm 1, 1-7                 Mt 1, 18-24

 

ESCUTAR

“Será que achais pouco incomodar os homens e passais a incomodar até o meu Deus?” (Is 7, 13).

“É por ele que recebemos a graça da vocação para o apostolado, a fim de podermos trazer à obediência da fé todos os povos pagãos, para a glória do seu nome” (Rm 1, 5).

“José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo” (Mt 1, 20).

 

MEDITAR

“Havendo Deus de ter Mãe, não podia ser senão virgem, e havendo uma virgem de ter um Filho, não podia ser senão Deus” (São Bernardo de Claraval).

“Até que ponto São José penetrou na intimidade de Deus? Não o sabemos. São José, que tanto tem a dizer, não fala: guarda dentro de si as grandezas que contempla: dentro dele erguem-se montanhas sobre montanhas, e as montanhas são silenciosas” (Ernest Hello).

 

ORAR

     Maria e José nos ensinam que uma fé se cumpre na obediência e sem nenhuma pressa, pois para Deus o tempo não existe: tudo acontece na eternidade. Sem pressa, Abraão e Sara são agraciados na velhice com Isaac, a gargalhada de Deus; sem pressa, Zacarias e Isabel se tornaram fecundos ao gerar João; sem pressa, Maria aceitou acolher, em seu ventre, o silencioso mistério que se revelava fecundo entre ela e a sombra do Espírito que pousara sobre seu corpo de mulher. Sem pressa, José assumiu a paternidade de uma criança que não era de sua semente e o fez antes mesmo que o Anjo lhe confirmasse que a criança no ventre de Maria era o da divina Promessa, o rebento de Davi esperado em Israel. Paulo nos exorta: “Ninguém vive nem morre só para si... mas, quer por nossa vida quer por nossa morte, pertencemos a Cristo” (Rm 14, 7-8). O Evangelho revela que o desígnio de Deus se realiza além da linhagem carnal. É por meio de Jesus, de Nazaré, que Deus se faz Emmanuel, mas para que isto se realizasse foi necessário que tanto José quanto Maria abrissem mão do seu projeto pessoal, do seu futuro familiar, para acolher, sem reservas, as promessas de Deus. Este Menino, que nos foi dado, tem a envergadura infinita de cada homem e cada mulher que vive sem pressa ao permitir que Deus seja uma manifestação luminosa em suas vidas por veredas que só Ele conhece. Esta manifestação se realiza pelo poder de servir e nunca nos que se servem do poder para cercear a liberdade e comprar as consciências. Assim devemos viver para a vida eterna na qual serão abolidas todas as urgências e as pressas. Como nos garante o teólogo do sertão, João Guimarães Rosa: “Deus é urgente sem pressa!”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 CONTEMPLAR

 Adoração dos Pastores (detalhe), 1612-1614, El Greco (1541-1614), óleo sobre tela, 319 x 180 cm, Museu do Prado, Madri, Espanha.







quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

O Caminho da Beleza 03 - III Domingo do Advento

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

III Domingo do Advento                    

Is 35, 1-6.10                       Tg 5, 7-10                Mt 11, 2-11

 

ESCUTAR

“Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar’” (Is 35, 4).

“Também vós, ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5, 8).

“O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis” (Mt 11, 7-8).

 

MEDITAR

“Nunca nos poderemos aproximar do mistério se não tivermos a lúdica liberdade dos filhos de Deus, se não fizermos experiências e errarmos e avançarmos às apalpadelas para a verdade (...) os cristãos deveriam ser aqueles que continuam a levantar questões, quando todos os outros pararam de o fazer”.

 (Timothy Radcliffe)

“Senhor, eu te agradeço porque não sou uma engrenagem do poder. Eu te agradeço porque sou um daqueles que o poder esmaga”.

 (Rabindranath Tagore)

 

ORAR

    As leituras de hoje convidam à paciência para fortalecer as mãos enfraquecidas e firmar os joelhos debilitados. Devemos permanecer firmes e com nossos corações reanimados. A paciência cristã é uma força ativa e nada tem a ver com a inércia, a indiferença e com uma postura derrotista. A paciência verdadeira nos coloca em pé e nos faz defender as convicções que moldam e determinam as vidas. O lavrador é paciente depois de haver trabalhado como era preciso e pode esperar o fruto após ter semeado. O cristão e os de boa vontade são pessoas talhadas na paciência: não se rendem e nem se dão por vencidos mesmo quando derrotados. Vivem as contradições e para eles nada é definitivo, pois aprendem a viver na provisoriedade das coisas. O Cristo nos ensina, paradoxalmente, que para ter paciência é necessário ter fogo dentro, um fogo permanente e não uma chama que dura um instante. O deserto floresce na paciência e cada um de nós é fruto da paciência de Deus. No Natal, Deus decide viver esta paciência amorosa de uma maneira mais próxima e mais impaciente. Ele quer se tornar companheiro de viagem e nesta viagem deseja que deixemos de ser mancos, de arrastar pesadamente os pés para que saltemos como um cervo. Quer que rompamos o selo de nossa boca para que desatada a língua, possamos gritar palavras de amor e liberdade. Os sinais estão nas entranhas da misericórdia dos que exercem a compaixão e a solidariedade. Para isto é necessário que abandonemos o palácio do rei e suas suntuosas vestes. Como afirma o Papa Francisco: “A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, nos faz insensíveis ao grito dos outros; nos faz viver em bolhas de sabão que são bonitas, mas não são nada. São a ilusão do fútil, do provisório que conduz à indiferença com os outros, ou melhor, leva a uma globalização da indiferença”. Se ainda tivermos dúvidas quanto a isto, é o momento de nos apresentarmos diante do Cristo, na fila dos surdos e dos cegos para que nos cure. É preciso, mais do que nunca, que perguntemos aos surdos e escutemos a explicação dos mudos.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Madona de Porto Lligat (detalhe), 1950, Salvador Dalí, óleo sobre tela, 144 cm x 96 cm, coleção privada, Tóquio, Japão.




quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O Caminho da Beleza 02 - II Domingo do Advento

Peguei da mão do anjo o livrinho e comi-o. Na boca era doce como mel, mas, quando o engoli, meu estômago tornou-se amargo (Ap 10, 10).

II Domingo do Advento     

Is 11, 1-10                Rm 15, 4-9              Mt 3, 1-12

 

ESCUTAR

“Ele não julgará pelas aparências que vê nem decidirá somente por ouvir dizer; mas trará justiça para os humildes e uma ordem justa para os homens pacíficos; fustigará a terra com a força da sua palavra e destruirá o mau com o sopro dos lábios” (Is 11, 3-4).

“Assim, tendo como que um só coração e a uma só voz, glorificareis o Deus e Pai do Senhor nosso, Jesus Cristo. Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus” (Rm 15, 6-7).

“‘Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!’ (...) O machado já está na raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo” (Mt 3, 3.10).

 

MEDITAR

Não há nada de melhor no mundo do que estas amizades maravilhosas que Deus desperta e que são como o reflexo da gratuidade e da generosidade do seu amor (Jacques Maritain).

Parti sem o mapa da estrada para descobrir Deus, sabendo que Ele está no caminho e não no fim desta mesma estrada (Madeleine Delbrêl).

 

ORAR

     Converter-se é dar uma meia-volta sobre nós mesmos e retomar o início do caminho. Para isto, é necessário que uma palavra nos seja dirigida por alguém, por um outro. Este acontecimento, de uma voz que “grita no deserto”, é o início de uma vinda que desvela que “o reino de Deus está próximo”. O próprio Deus faz a sua irrupção na história da Humanidade e nos abre um outro futuro para além do implacável ciclo da violência; suscita a esperança de que a vinda de um Deus que se faz misericórdia é, de agora em diante, mais forte do que a sabedoria dos poderosos. A Boa Nova é a de que se antes vivíamos “à sombra da morte” (Lc 1, 79), agora e para sempre sucede a Vida partilhada “em superabundância” (Jo 10, 10). A primeira vez que o Anúncio ecoou no mundo, fizemos tudo para abafá-lo: João foi decapitado na prisão e Jesus ultrajado e crucificado. Os tempos da Igreja, os nossos tempos, não serão diferentes, pois “o servo não é maior que o seu Senhor. Se me perseguiram, também a vós perseguirão” (Jo 15, 20). O deserto é o lugar em que pregamos para nada e que ninguém vem para ouvir. Entretanto, o deserto é também o lugar em que se reencontra Deus se nos dignarmos a ir até o “nosso deserto”, pois Deus só se deixa encontrar pelos que se despojam. O anúncio do Evangelho exige o grito e o sussurro: a palavra forte e a palavra íntima. O grito é o da cólera de Deus para nos lembrar do seu amor e nos abrir os céus. O grito de Deus é um sinal de urgência. A voz em sussurro é sempre pessoal e única. Ela nos lembra que devemos adequar as nossas vidas ao Evangelho e não o contrário. O Evangelho já decidiu por nós e basta apenas que anunciemos as palavras do Cristo com a nossa voz e com a nossa prática fraterna, pois Deus nos fala pelo testemunho de seu Filho e somente a palavra encarnada pode conferir veracidade ao que proclamamos. João Batista lembra que é por nossas palavras que o Verbo é anunciado: anunciamos o Cristo com Suas palavras colocadas em nossas palavras. Se falarmos o deserto florescerá; se calarmos continuará a secar e a se tornar mais árido. Basta uma voz e o deserto não será mais um deserto, pois o Senhor nos pede que Lhe emprestemos os nossos ouvidos, mas que também Lhe emprestemos as nossas vozes. Façamos nossa a oração de Charles de Foucauld: “Ó Jesus, fazer a vontade de vosso Pai, agir em vista dele foi o vosso alimento e do que vivestes. Seja este também o nosso pão e a nossa vida: agir continuamente para Vós, para Vós viver, para a Vossa vontade e para a Vossa glória. Eis a nossa vida, o nosso pão cotidiano e o nosso viver a cada instante que poderá ser o último, ó meu Senhor e meu Deus”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Virgem, o menino Jesus e São João, o Batista, William-Adolphe Bouguereau, 1875, óleo sobre tela, 122 x 200,5 cm, Coleção Particular, França.