sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

O Caminho da Beleza 11 - V Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

V Domingo do Tempo Comum        

Is 6, 1-2a.3-8                     1 Cor 15, 1-11                      Lc 5, 1-11

 

ESCUTAR

“Ouvi, então a voz do Senhor que dizia: ‘A quem enviarei? Quem irá por nós?’ Respondi: ‘Aqui estou! Envia-me’” (Is 6, 8).

“Por último, apareceu também a mim, que sou como um aborto. Pois eu sou o menor dos apóstolos, nem mereço o nome de apóstolo, pois eu persegui a Igreja de Deus” (1 Cor 15, 8-9).

“Não tenhas medo! De agora em diante serás pescador de homens!” (Lc 5, 10).

 

MEDITAR

Senhor, ensina-me a te descobrir sem cessar e seja a respiração de minha vida. Meu céu interior, meu sol escondido, minha ternura e que eu possa, por tua graça, refletir tua face a todos os meus irmãos (Maurice Zundel).

Ir na contracorrente: isso faz bem ao coração, mas nos falta coragem para ir na contracorrente e Ele nos dá essa coragem! Não há dificuldades, provas, incompreensões que devam nos amedrontar se ficarmos unidos a Deus como os ramos são unidos à vinha, se não perdermos a amizade com Ele, se sempre Lhe abrirmos, cada vez mais, lugar em nossas vidas (Papa Francisco).

 

ORAR

O profeta ensina que a cada nova manhã devemos nos apresentar diante do Senhor não para conseguir a previsão do futuro, mas para recebermos o que nos foi consignado para este dia. O Senhor, imprevisível em suas decisões ao chamar alguém, é também imprevisível ao delegar tarefas cotidianas. Ele sempre nos surpreende com os pedidos mais audaciosos que sempre nos incomodam, pois sua palavra nunca é tranquilizadora. O Senhor nunca nos pedirá bagatelas, mas o que nos compromete para que não faltemos com os compromissos decisivos da vida. O evangelho de hoje revela que quando as palavras da nossa experiência se esgotam e ficamos desiludidos, ouviremos a Sua voz imperiosa: “Avança mais para o fundo e ali lançai vossas redes para a pesca”. Não somos chamados a ficar estacionados no raso da praia lamentando o eterno movimento dos barcos, mas a arriscarmos, largamente, confiantes na Palavra do Senhor que sempre nos recompensará abundantemente. O milagre da vida está em, apesar das aparências e do derrotismo, confiar na Palavra que vira tudo do avesso. Nos três relatos da vocação aquele que é chamado descobre a própria insuficiência e miséria. Isaías exclama: “Ai de mim, estou perdido. Sou um homem de lábios impuros”; Paulo se reconhece como uma espécie de aborto e Pedro suplica: “Afasta-te de mim, porque sou um pecador”. O Senhor quando envia alguém não faz nenhum exame das suas virtudes, mas reconhece e agradece a sua disponibilidade. A Palavra de Deus não age em nosso lugar, não consola as nossas frustrações e nem melhora, num passe de mágica, a nossa situação. Ela sempre nos desinstala e nos coloca a caminho. Somos chamados para viver, avançar nas ondas e nas tempestades do mundo e sempre recomeçar a pesca. O discipulado deve aprender a viver na insegurança de quem “nada tem, mas possui tudo”. Não podemos fincar os pés nas areias para que a espuma do mar os lave, mas arriscar a vida pelos outros e, por esta razão, Jesus invoca: “Vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14). Ele nos desvela que o único porto seguro em que devemos ancorar nossas vidas é o amor fraterno construído e conquistado na travessia dos nossos barcos. Estejamos sempre atentos e em posição de sentinelas para que em todo momento e em cada novo chamado possamos responder: “Aqui estou, envia-me!”.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Conversão de Paulo, 2004, Fiona Worcester, 35 cm x 35 cm, óleo e têmpera sobre madeira com gesso, Londres, Reino Unido.




 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O Caminho da Beleza 10 - IV Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

IV Domingo do Tempo Comum       

Jr 1, 4-5.17-19                    1 Cor 12, 31-13, 13                        Lc 4, 21-30

 

ESCUTAR

“Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te”, diz o Senhor (Jr 1, 19).

O amor não acabará nunca. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá (1 Cor 13, 8).

“Não é este o filho de José?” (Lc 4, 22).

 

MEDITAR

Papa Francisco ao guarda suíço que permaneceu toda a noite de pé do lado de fora, cuidando de seu quarto:

- Papa: Ficou acordado toda a noite de pé? Não ficou cansado?

- Guarda: É meu dever sua Santidade, para sua segurança...

O Papa retornou a seu quarto. Depois de alguns minutos, trouxe para o guarda uma cadeira em suas mãos...

- Papa: Sente-se e descanse.

- Guarda: Desculpe sua Santidade, mas não posso, as regras não permitem.

- Papa: As regras?

- Guarda: É uma ordem de meu Capitão, sua Santidade.

- Papa: Bem, mas eu sou o Papa e te peço que te sentes.

Um pouco mais tarde o Papa retornou, com café, um pouco de pão e presunto e os entregou ao guarda...

- Papa: Bom apetite meu irmão...

(Papa Francisco, abril de 2013).

 

ORAR

       Os textos de hoje nos levam a refletir sobre o amor sem fronteiras do Senhor. Cafarnaum, símbolo dos pagãos, passa adiante de Nazaré, cidade da infância de Jesus. O profeta Elias estava no meio do povo judeu, mas, no momento de realizar um prodígio, abandonou as muitas viúvas de Israel e foi ao encontro da pobre viúva pagã de Sarepta, no país de Sidon. E Eliseu não curou nenhum leproso em Israel, mas curou Naamã, o sírio. Para Jesus não é relevante que um profeta não seja bem recebido em sua pátria. A pátria, lugar onde se está enraizado pelo sangue, e o Reino de Deus não são compatíveis. O Reino de Deus ignora a pátria porque, sendo a negação de todos os limites, implica numa total abertura a todos os povos. Somos chamados a fazer avançar este Reino que será vingado por um amor sem fronteiras. O papa Francisco nos alerta: “Os problemas, as preocupações de todos os dias nos impulsionam a nos curvarmos sobre nós mesmos, na tristeza e na amargura...e isto é a morte, pois não procuramos mais Aquele que está Vivo”. O amar cristão não conhece regras, barreiras ou imposições, mas, como uma luz, irradia a solidariedade e a compaixão. Nós estamos longe do amor cristão quando, por vaidade e falsa segurança, nos tornamos sombras esmaecidas de nós mesmos. Um cristianismo adulto é a generosa doação de si próprio, feita de gestos de amor sem medidas que comprometem todo nosso ser. Paulo nos mostra que o amor é a virtude maior do que todos os dons. E virtude significa a força vital que nos foi entregue por Deus e que para Deus voltará. O dom da fé serve para alimentar a confiança; o da esperança para nos fazer perseverar num destino comum. Todos os dons são transitórios porque respondem pelo tempo presente; e imperfeitos, porque, como humanos, ainda vemos o que nos cerca de maneira confusa como num espelho. A virtude do amor – cáritas e ágape – é eterna porque nos conduz à profunda comunhão com o êxtase de Deus. Nela, O veremos face a face, conheceremos como somos conhecidos e estaremos no centro de gravitação da Vida: “Pondus meum amor meus”: o amor é o meu peso! (Santo Agostinho). Deus é um amor sem fronteiras que arde também como fogo e quer amar sempre mais: “Quando eu resplandeço, tu deves arder; quando fluo, tu deves fluir; quando tu amas, nós dois nos tornarmos um e quando somos um, nada mais poderá nos separar” (Mechthild von Magdeburg, séc. XIII).

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

“Sem título”, mês de fevereiro, 2001, Richard Kalvar (1944-), Calendário Lavazza, 2001, “Friends & More”, fotos de Richard Kalvar e Martine Franck nos cafés de Paris, França. O fotógrafo nasceu em Nova York, Estados Unidos.

 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

O Caminho da Beleza 09 - III Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

III Domingo do Tempo Comum                  

Ne 8, 2-6.8-10                   1 Cor 12, 12-30                  Lc 1, 1-4;4, 14-21

 

ESCUTAR

“Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus. Não fiqueis tristes nem choreis...porque a alegria do Senhor será a vossa força” (Ne 8, 8.10).

Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito (1 Cor 12, 13).

Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele (Lc 4, 20).

 

MEDITAR

Minha vida é só um instante, uma hora passageira. Minha vida é somente um dia que me escapa e foge. Tu sabes, ó meu Deus! Para te amar sobre a terra não tenho nada a não ser hoje! (Santa Teresa do Menino Jesus).

Não tenham medo da ternura (Francisco, Homilia, 19 de março de 2013).

 

ORAR

       Os textos desta liturgia nos falam do dia consagrado, um hoje permanente em que devemos celebrar o proclamado: “a alegria do Senhor será a vossa força”. O Senhor nos pede uma coerência irredutível entre palavra e ação. O evangelista apresenta Jesus no centro da sinagoga recebendo o livro do profeta Isaías. Jesus não o abriu a esmo, como se tirasse a sorte para que Deus lhe falasse magicamente. Ao contrário, abriu o livro e “achou a passagem” que o colocava na estatura de profeta e de sacerdote: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”. O hoje de Deus é proclamado, pleno de graça e julgamento, para os homens do seu tempo e o Ressuscitado, continua proclamando-o, como amor salvador, em todas as épocas e situações. Jesus coloca em seu lugar, como centro de irradiação, os mais necessitados de compaixão e misericórdia que são, segundo o Evangelho, o próprio Deus conosco: “Senhor, quando foi que o vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, nu, doente ou na cadeia?” (Mc 25, 37). Jesus, na sinagoga, era um rosto comum como tantos outros e hoje ele ainda é comum porque é o rosto conhecido de tantos pobres, cativos, cegos e oprimidos. Por mais avanço nos meios de difusão e comunicação ao nosso alcance, não conseguimos superar a cisão entre fé e vida porque nos recusamos a ver o Deus que se revela com um rosto humano. Mesmo com os “olhos fixos nele”, não o enxergamos porque tentamos vê-lo com as lentes do proselitismo e não com os olhos humanos da compaixão. Apesar de todos os slogans utilizados nas nossas propagandas religiosas, Deus continua a viver no exílio em sua própria casa. O Papa Francisco nos exorta: “Sou eu o guardião do meu irmão? Sim, tu és o guardião do teu irmão! Ser uma pessoa humana significa sermos guardiões uns dos outros! E, ao contrário, quando se rompe a harmonia, segue uma metamorfose: o irmão a guardar e a amar se torna o adversário a combater e a suprimir. Em cada violência e em cada guerra, fazemos renascer Caim”.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Pentecostes, 1989, Andrew Wyeth (1917-2009), têmpera, 20,75” x 30,625”, Coleção Particular, Estados-Unidos.

 


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O Caminho da Beleza 08 - II Domingo do Tempo Comum

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

II Domingo do Tempo Comum                    

Is 62, 1-5                 1 Cor 12, 4-11                     Jo 2, 1-12

 

ESCUTAR

“Assim como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposam; e como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria de teu Deus” (Is 62, 5).

“Há diversidades de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 4-7).

“Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não tem mais vinho!’” (Jo 2, 3).

 

MEDITAR

Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas, aos poucos, é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias (Francisco, Evangelii Gaudium, 6).

“Aquele que vê sofrer o seu irmão na necessidade e lhe fecha seu coração exclui Deus do seu próprio coração. O amor de Deus e o do próximo são como duas portas que só podem ser abertas e fechadas ao mesmo tempo” (Soren Kierkegaard).

 

ORAR

       A inauguração da vida pública de Jesus é colocada, pelo evangelista, num contexto de festa de bodas. Aos nossos olhos, não parece ser o melhor lugar para os seus discípulos iniciarem o seu noviciado. Tudo começa numa festa para que nossa alegria não se empobreça. É um grande equívoco unir a Sua presença aos momentos de dor e de dificuldades em nossa existência. Jesus revela que nossas festas são tímidas e frágeis; que a algazarra esconde um vazio e uma angústia; que o vinho é insuficiente e de baixa qualidade. Com Jesus, a festa encontra a sua plenitude e não está limitada ao tempo. Com Ele, o vinho é novamente colocado sobre a mesa e nunca mais faltará. Todos se beneficiarão dos seus dons, inclusive os que não esperam nada Dele. Maria intervém não porque falta o pão, mas falta o vinho que é o símbolo da alegria. As seis talhas de pedra significam o número inacabado da imperfeição em oposição ao número sete que expressa a totalidade e a plenitude. As talhas estão vazias e o ritual complexo das purificações esconde sua ineficácia, pois a relação entre Deus e o homem só pode se restabelecer por meio do amor. Na festa, todos os rituais de purificação foram cumpridos conforme a Lei e, no entanto, só produziram ansiedade, medo e tristeza. Faltara o vinho do amor e Jesus vai oferecer a todos, em abundância, a degustação do seu vinho de ternura e alegria, pois “No amor não há lugar para o temor; ao contrário, o amor desaloja o temor. Pois o temor se refere ao castigo, e quem teme não alcançou um amor perfeito” (1 Jo 4, 18). O cardeal Ravasi é enfático: “O amor que existe sobre a face da terra e que reaparece cada vez que duas criaturas se encontram e se amam é o sinal do amor que Deus tem pela humanidade inteira”. Em Caná da Galileia, Jesus começou os seus sinais para manifestar a sua glória e João não nos fala de “milagres”, mas de sinais. Na festa das bodas, o sinal é dado pela preocupação de Alguém para que a festa seja completa. O Senhor sempre faz sinais, esboça sussurros de ternura e alegria para nos fazer, com o pudor do amor, suspeitar que Ele nos ama e quer intervir na trama ordinária da nossa vida para nos convidar para a festa. O mundo contemporâneo permanece indiferente à mensagem do Evangelho apesar de as pessoas necessitarem de sinais que toquem as suas existências e corações. Sinais de compaixão, sinais de acolhida sem discriminação de pessoas, sinais que possam fazer descobrir nos cristãos a capacidade de se encontrar com Jesus que alivia os sofrimentos e nos sustenta a esperança nas dificuldades cotidianas da vida. Não podemos evangelizar a torto e a direito, como uma catequese de talhas de pedra, numa verborragia que só faz crescer o temor e a ansiedade e que é estéril e inexistente de sinais de vida, de alegria e comunhão compassiva. Escutemos Simone Weil: “Acima da infinidade do espaço e do tempo, o amor infinitamente mais infinito de Deus vem apoderar-se de nós. Ele vem na sua hora. Nós temos o poder de consentir na acolhida ou na recusa. Se ficamos surdos, ele vem e volta novamente como um mendigo, mas também como um mendigo um dia ele não retorna mais”.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Ritmo e Batida na Rua, 2014, Celso II Creer, Monochrome Photography Awards, Emirados Árabes.




 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O Caminho da Beleza 07 - Batismo do Senhor

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

Batismo do Senhor                   

Is 42, 1-4.6-7                      At 10, 34-38                       Lc 3, 15-16.21-22

 

ESCUTAR

“Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minha alma” (Is 42, 1).

“Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34).

Enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba (Lc 3, 21-22).

 

MEDITAR

Justiça e paz em casa, entre nós. Isto começa em casa e depois se expande por toda a humanidade. Mas nós devemos começar conosco. O Espírito Santo age nos corações, dissipa os fechamentos e as durezas e faz com que nos enterneçamos diante da fragilidade do menino Jesus (Francisco, Angelus, janeiro 2014).

Um homem que caminha, um pássaro que voa, uma folha que tomba: tudo anuncia o começo de uma dança. No coração do átomo e no balé dos astros, o ritmo e a harmonia são semeados por nosso Criador e Pai. Escutar a música, olhar a dança são verdadeiras orações (D. Hélder Câmara).

 

ORAR

       Jesus não se enquadra nos esquemas e nos escaninhos que os homens predispuseram para Ele. Jesus desmente a própria imagem apresentada pelo Batista: um Messias cheio de ira e que colocaria ordem “na casa”. O estilo de Jesus não condiz com os gostos e as previsões dos que O esperavam. O seu modo diferente de ser é o de Servo (Is 42, 1ss): que não faz publicidade, não enche as praças com uma voz potente e sonora cheia de retóricas e ameaças. Ele é solidário com os perdedores, com os fracos; com os capazes de dar confiança e sustentar a esperança. Ele se coloca ao lado dos pobres e daqueles que não contam para a sociedade da opulência e do consumo. O batismo prefigura a morte e a ressurreição de Jesus. A imersão no rio simboliza a ação de morrer e o seu emergir à vida nova é selado pelo abrir do céu e a voz do seu Pai que exclama o seu bem querer. O céu aberto para sempre traz o novo dia e nos faz saber que o muro entre Deus e os homens foi destruído: Deus não é mais o Inacessível. Jesus tem preferência por todos e “andava por toda a parte fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio, porque Deus estava com ele”. Jesus manifesta o seu poder ao se ocupar dos fracos revelando-se como manso e humilde de coração. O nosso batismo deve ultrapassar os registros dos arquivos paroquiais numa prática cristã que honre os compromissos que outros assumiram por nós. Não basta delegar à certidão paroquial a prova de que somos batizados. É necessário que o batismo seja assumido por nós para que não se sepulte como um ato convencional e social. Caso contrário, seremos demissionários do nome de cristãos que nos deram. Antes, quando crianças, não podíamos ler o Evangelho. Agora, podemos e devemos, pois temos o direito de saber o que somos e qual a prática de vida que nos qualifica como cristãos. Batismo e manifestação de Jesus de Nazaré coincidem. O que agrada o Senhor não são os ritos carentes de amor, mas uma vida “em espírito e em verdade” no Espírito de Jesus. O cardeal Ratzinger escrevia: “O batismo é o arco-íris de Deus sobre nossa vida, a promessa do seu grande Sim, a porta da esperança e o caminhar numa união viva e pessoal com Jesus Cristo pelos seus caminhos. Olhando para Ele sabemos que Deus é maior que o nosso coração” (Homilia do Batismo, 07.01.1990). Paulo nos exorta: “Não matem o Espírito de Deus” (1 Ts 5, 19) e uma igreja com o Espírito apagado ou esvaziada do Espírito de Jesus não pode viver e nem comunicar sua verdadeira novidade e, muito menos, saborear e proclamar a Boa Nova.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

O Batismo do Cristo, s.d., Daniel Bonnell, óleo sobre tela, 92” x 46”, Igreja Missionária Baptista do Monte Calvário, Carolina do Sul, Estados Unidos.








 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

O Caminho da Beleza 06 - Epifania do Senhor

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

Epifania do Senhor       

Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3.5-6                       Mt 2, 1-12

 

ESCUTAR

Levanta os olhos ao redor e vê, todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços (Is 60, 4).

Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho (Ef 3, 6).

“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2).

 

MEDITAR

Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou “clérigos burocratas” (Francisco, Entrevista a Antonio Spadaro, 2013).

“O que verdadeiramente conta, o que marcará os séculos futuros, não é o que faz mais barulho, mas o que Deus realiza, em segredo, no coração de tantos homens e mulheres de nosso tempo que aceitam se tornar, após os magos, peregrinos nos caminhos de Deus” (D. Guillaume Jedrzejczak, abade do mosteiro trapista de Sainte Marie du Mont de Cats, França).


ORAR

       A marca da manifestação do amor de Deus, na sua totalidade, está no trecho da carta de Paulo: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho”. O evangelista ratifica esta eleição de Deus pelos pagãos, simbolicamente, representados pelos Reis Magos. Deus fala a estes astrólogos pagãos fazendo brilhar uma insólita estrela no meio de suas constelações habituais. Esta palavra lhes aguça os ouvidos e os coloca, confiantes, a caminho, seguindo a estrela. E Israel, acostumada à palavra de Deus, fecha seus ouvidos à palavra da revelação para que nada perturbe o curso habitual das suas dinastias. Os Reis Magos nos ensinam a liberdade absoluta dos que ouvem a palavra de Deus, pois “para ser livres, Cristo nos libertou” (Gl 5, 1). Estes se põem a caminho, modificam o curso de suas vidas, alteram a ordem dos dias e o desenvolvimento dos seus trabalhos, e disponibilizam o seu tempo. E não é isto que aprendemos a chamar de metanóia, de conversão? E são os convertidos que abrem novos caminhos para as igrejas apesar da resistência delas em aceitá-los. “Paulo, ao chegar em Jerusalém, tentava juntar-se aos discípulos; mas eles o temiam, pois não acreditavam que fosse discípulo” (At 9, 26). São assim as pessoas que Deus ama: os que são habitados pela paixão da verdade, que não se contentam com fórmulas feitas, mas, pagãos ou não, estão em autêntica busca e não temem pagar o preço das suas descobertas e dos seus itinerários. O evangelho nunca será recebido por meio de estradas já percorridas e, muito menos, em seguranças confortáveis. O evangelho só é encontrado por quem está pronto para correr o risco de um êxodo e ir até o fim de uma busca jamais terminada, pois a distância não é nada para quem se põe a caminho, ao passo que a vizinhança não é nada para quem está e é imóvel. Nesta epifania do Senhor, uma coisa deve ser tatuada em nosso coração: “A vida cristã é núpcias na pobreza; a cruz é o leito nupcial!” (Hans Urs von Balthasar).

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

S. Título, anônimo, site vatican.news, acessado 31.12.2021.




 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O Caminho da Beleza 05 - Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo                      

Is 52, 7-10               Hb 1, 1-6                  Jo 1, 1-18

 

ESCUTAR

Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação, e diz a Sião: “Reina teu Deus!” (Is 52, 7).

Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo. Este é o esplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser (Hb 1, 1-3).

E a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14).

 

MEDITAR

“Natal, não é somente uma alegria que nasce da terra. É a revelação da bondade infinita de Deus, o sinal de um destino misterioso que toca o mundo e os homens. É um pensamento do amor infinito que abre o céu fechado do mistério impenetrável da vida íntima do Deus desconhecido e que o comunicou a terra” (Paulo VI).

“É no meio do silêncio, no momento em que todas as coisas estão mergulhadas no maior silêncio, em que reina o verdadeiro silêncio, é então que se ouve em verdade essa Palavra, pois se queremos que Deus nos fale é preciso que nos calemos. Para que Ele entre, todas as coisas devem sair (Johannes Tauler).

 

ORAR

    Neste dia de Natal, comemoramos e damos graças porque Deus pronunciou a sua última palavra e este Menino na manjedoura é “a expressão do seu ser (...) o que faz dos ventos os seus anjos e das chamas de fogo os seus ministros” (Hb 1, 3.7). O Cristo nasceu para todos e o Natal é o dia em que o mistério sagrado se tornou santo e especial. Não é somente um dia a mais na fastidiosa ronda dos dias. Hoje, “a eternidade entra no tempo e o tempo, santificado, entra na eternidade” (Thomas Merton). Natal se tornou uma palavra mágica e todos são atingidos por ela: os bons cristãos e os de Boa Vontade procuram nela o seu gosto especial. É uma festa que a todos pertence, cristãos ou não. Anunciamos a Boa Nova de que o Deus que estava distante se tornou próximo neste recém-nascido, filho de Maria e de José. E nesta realidade tocamos o coração do cristianismo. O Natal é uma Boa Nova porque não estamos mais sós, não estamos mais condenados a um destino cego subordinado a uma eterna repetição da usura, do aleatório e da morte. A novidade da mensagem de Jesus não é a de ter anunciado a ressurreição dos mortos: os judeus já acreditavam nela; nem ter prometido a vinda do Filho do Homem no último dia: os judeus já esperavam esta vinda. A novidade da mensagem de Jesus é ter manifestado para toda a humanidade o nascimento de um novo Deus. Não mais um Deus distante, mas próximo; não um deus do cosmos, mas um Deus dos vivos e dos mortos; não um Deus justiceiro e violento, mas um Deus do amor e da paz que toma o partido dos pobres, dos excluídos, dos marginalizados e dos pecadores. A mensagem de Natal é a mensagem de Paz para todos os homens e, por isso, devemos ser mensageiros da Paz para nossos irmãos e irmãs de todos os cantos da Terra e de todas as religiões. E o Reino de Deus que vem a cada novo Natal, é um Reino que acontece e se realiza cada vez que o amor triunfa sobre o ódio; cada vez que a reconciliação coloca um fim na engrenagem da violência e da banalização da vida e, sobretudo, cada vez que o desejo da paz é mais forte que a fatalidade da guerra.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Ludavine, 2020, Sophie Harris-Taylor (1988-), da série Milk, Londres, Reino Unido.