sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O Caminho da Beleza 04 - IV Domingo do Advento

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

IV Domingo do Advento          

Mq 5, 1-4                 Hb 10, 5-10            Lc 1, 39-45

 

ESCUTAR

“Ele não recuará, apascentará com a força do Senhor e com a majestade do nome do Senhor seu Deus: os homens viverão em paz, pois ele agora estenderá o poder até aos confins da terra, e ele mesmo será a Paz” (Mq 5, 3-4).

“‘Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade’” (Hb 10, 7).

“Bendita é tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1, 42)

 

MEDITAR

“Sem o amor, tão difícil de praticar, a vida se reduz a um combate incessante para possuir e se defender dos outros” (Anthony Burgess).

“O grande inimigo, o inimigo número 1 do mundo moderno, é o tédio” (Teilhard de Chardin).

 

ORAR

     A pequena aldeia de Belém significava pouco entre as cidades da Judéia e, no entanto, Deus colocou seu olhar precisamente neste lugar insignificante para nele realizar um acontecimento decisivo. As escolhas de Deus jamais estão determinadas por critérios de grandeza e de importância mundanas. A pequenez constitui o terreno fértil em que germina e se desenvolve a obra divina. As coisas sem importância chamam a atenção do Senhor. O evangelista nos apresenta o encontro de Maria e Isabel. Maria é apresentada numa postura dinâmica: de caminhar, de encontrar e de louvar a Deus. Ela simboliza uma Igreja que jamais poderá ser fixada numa imagem estática. A Igreja deve estar em marcha pelos caminhos dos homens para levar Alguém e não deve falar de si mesma, mas do Outro. O Cristo começou a ser itinerante desde o ventre materno e graças aos passos de sua mãe caminha pelas veredas do mundo. No encontro entre Isabel, anciã estéril, e Maria, jovem virgem, existirá um pacto das entranhas que nos revela que “nada é impossível para Deus” (Lc 1, 37). A visitação se liga intimamente à anunciação. A visitação é a epifania, a manifestação do sinal anunciado de que se acabara o tempo das preparações e das esperas, de que se cumprira a promessa e de que o Senhor visitará o seu povo. A visitação é o abraço amoroso, o encontro e o cumprimento pleno de duas histórias: a de Isabel que se completa e a de Maria que se inicia. O pacto de Deus está vingado em Jesus, pois as entranhas da sua mãe são a Arca da Aliança, tecendo o Salvador, agora e sempre, para toda a Criação. O que do ponto de vista humano é limitação, impedimento, se converte em possibilidade quando intervém Deus, Senhor do Impossível. Neste encontro se realiza o que o anjo anunciara a Zacarias a respeito de João: “Ficará cheio do Espírito Santo desde o seio de sua mãe” (Lc 1, 15). No encontro destas duas mulheres grávidas a profecia é vingada: João dança de alegria no ventre de Isabel e Maria será chamada de Bem-Aventurada porque acreditou que a Palavra do Senhor seria cumprida. Maria é uma mulher que medita e pensa, uma mulher que crê. O Natal, no fundo, é um Deus que mantém a palavra e busca gente disponível, como Maria, que se agarre a esta Palavra. No Natal, Deus diz: “Aqui estou!” e seria estranho que o homem não se deixasse encontrar. E, finalmente, Maria “recebendo aos pés da cruz o testamento do amor divino assumiu todos os seres humanos, como filhos e filhas, renascidos para a vida eterna, pela morte do Cristo” (Prefácio de Nossa Senhora).

 

CONTEMPLAR

Sem título, c. 2013, Elli Cassidy, Galeria da Maternidade, Louth, Lincolnshire, Inglaterra, Reino Unido.




 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O Caminho da Beleza 03 - III Domingo do Advento

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

III Domingo do Advento               

Sf 3, 14-18               Fl 4, 4-7              Lc 3, 10-18

 

ESCUTAR

“O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido por amor; exultará por ti, entre louvores, como nos dias de festa” (Sf 3, 17-18).

“Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos. Que a vossa bondade seja conhecida de todos os homens! O Senhor está próximo!” (Fl 4, 4).

“Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3, 16).

 

MEDITAR

O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura (Francisco, Evangelii Gaudium, 88, 2013).

“Não é preciso mostrar as faltas do outro com o dedo sujo” (Provérbio italiano).

 

ORAR

    A dinâmica da vida cristã se realiza na resposta a uma tríplice vocação: a da esperança, a da conversão do olhar e a da alegria. Temos uma vocação à alegria ainda que tentem nos incutir que a felicidade está proibida e que devemos suportar, nesta terra, um “vale de lágrimas”. A alegria da comunidade eclesial é a melhor prova da existência de Deus, ou pelo menos, uma suspeita desta existência. O cristão deve aprender a praticar a ascese da felicidade, a penitência do sorriso e o cilício da serenidade. Esta alegria é conquistada quando saímos de nós mesmos, do nosso egoísmo e nos abrimos a Deus para acolher os seus desígnios em nossa vida. E esta acolhida não implica numa dimensão intimista, mas numa abertura ao mundo inteiro. Quando o “valente guerreiro que te salva” (Sf 3, 17) está no meio de nós, podemos começar do zero e inventar outra história: dizer sim a Deus e ao próximo. João, o Batista, revela que o sinal da descoberta da presença do próximo está na nossa capacidade de partilhar: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!”. A regra de ouro dos sinais do Reino está na justiça e não na extorsão; na recusa da violência, da mentira e da busca insana do proveito próprio com o prejuízo dos outros. João proclama a conversão como descoberta do próximo e esta descoberta como elemento essencial da nossa alegria. O Cristo reitera que só sendo um ser-em-comunhão é que poderemos atingir a felicidade. A alegria cristã é marcada pela afabilidade, esta capacidade de não fazer dramas por ninharias; de aniquilar toda a ansiedade e inquietude e de exorcizar toda a angústia: “Não vos preocupeis!”. A alegria é a nossa capacidade de dar graças e para o cristão ser significa ser na alegria. Temos que ser sinais de alegria neste mundo necessitado de tréguas e de repouso; neste mundo em desânimo e depressivo onde o acumular é a chave mestra do viver e os caminhos se tornaram tortuosos pela cobiça e pela ambição. Este Menino é a luz do mundo e temos que resplandecer esta luz para que não seja apagada pelo vento do orgulho e da soberba. É a humildade profética que nos liberta para o anúncio de Cristo a todos os povos e nações: “Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias”. A manjedoura desvela que a casa do Senhor é o lugar dos abraços, da partilha e da comunhão. É o lugar onde todos, sem discriminação, podem e devem saciar-se da ternura do Pai. E nela somos convidados a entrar em todas as horas do dia e todos os dias do ano, dizendo: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos”.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Madona com a criança – Apresentação aos magos do Oriente, Arcabas (Jean-Marie Pirot), s.d., 80 x 80 cm, óleo sobre tela, coleção particular, Costa de Santo André, França.







 

sábado, 4 de dezembro de 2021

O Caminho da Beleza 02 - II Domingo do Advento

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

II Domingo do Advento                      

Br 5,1-9                    Fl 1,4-6.8-11                       Lc 3, 1-6


ESCUTAR

Levanta-te, Jerusalém, põe-te no alto e olha para o oriente! (Br 5, 5).

E isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência (Fl 1, 9).

“Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas’” (Lc 3, 4).

 

MEDITAR

Na experiência pessoal de Deus não posso deixar de lado o caminho. Diria que encontramos Deus caminhando, andando, buscando-o e nos deixando buscar por Ele. São dois caminhos que se encontram. Por um lado, o nosso que O busca, impulsionado por esse instinto que flui do coração. E depois, quando nos encontramos, percebemos que Ele já nos buscava desde antes, Ele nos antecipou (Francisco, Sobre o céu e a terra, 2013).

O povo santo de Deus participa da função profética de Cristo. Dá o testemunho vivo de Cristo, especialmente pela vida de fé e de amor e oferece a Deus a hóstia de louvor como fruto dos lábios que exaltam o seu nome (Lumen Gentium 12).

 

ORAR

    Neste domingo somos convidados a “ver” para que nossa esperança não se torne impossível e a espera desemboque na desilusão. O profeta pede para nos colocarmos em pé, subir no mais alto possível e olhar para o oriente de onde vem o Sol Nascente. O profeta consegue ver de outra maneira e anima os outros a olhar o que ainda não existe. O evangelista nos assegura que “todas as pessoas verão a salvação de Deus”. Esta salvação que, com frequência, desponta onde menos esperamos e se apresenta quando não desejamos. O Vaticano II proclama que por causa do Cristo, Deus salva também os homens fora dos limites visíveis da Igreja e fora do alcance do rito dos sacramentos (cf. LG 16). A história da Igreja não coincide, simplesmente, de modo unívoco, com a história da salvação. Não podemos confundir o Natal com nossas canções e cantilenas. Deus arma a sua tenda no meio de nós para falar e busca o silêncio. Paulo nos exorta a irmos ao essencial da vida cristã que é o amor fraterno. Jesus nunca pregou que o amor não evita os conflitos. Ao contrário, o amor produz os verdadeiros conflitos em que a verdade está comprometida. O amor não sufoca as diferenças, mas nos convida a um olhar convertido capaz de vislumbrar e discernir o essencial. A luz que desperta em Belém não é ornamental e é ela que vislumbra o nosso caminho. O Cristo solta dentro de nós a centelha de sua luz para vermos o que muitos não veem. O evangelista nos revela que o essencial não está nas mãos dos poderosos políticos e religiosos: a Palavra do Senhor se fez ouvir no deserto, não na Roma imperial e nem no recinto sagrado do Templo de Jerusalém. No deserto, não há lugar para o supérfluo e nem para acumular coisas desnecessárias. Façamos da nossa vida um eterno deserto para que o Senhor nos fale no silêncio e nos inunde de vozes e sons de ternura e alegria.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Thomas, 2011, Lee Jeffries (1971-), foto da série Homeless, Manchester, Reino Unido.




 

 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento

A palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4, 12).

I Domingo de Advento                        

Jr 33, 14-16                        1 Ts 3, 12-4,2                      Lc 21, 25-28.34-36

 

ESCUTAR

“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá. Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a sementa da justiça” (Jr 33, 14-15).

“O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós” (1 Ts 3, 12).

“Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 36).

 

MEDITAR

“Não se trata de anunciar a alegria, mas de só procurá-la no serviço da alegria de todos. De todos, a começar pelos mais próximos, e depois estender, de próximo em próximo, até a alegria universal” (Abbé Pierre).

“O que chamamos de início é o mesmo do que o fim e acabar é começar. E o fim é de onde partimos” (T. S. Eliot).

 

ORAR

    Neste primeiro domingo de Advento, a existência cristã está fundamentada sob o signo da espera. A espera de um duplo acontecimento e de uma dupla vinda do Cristo: na carne (Natal) e na glória (Juízo Final) e estes dois acontecimentos, que se entrelaçam, só podem ser vividos na esperança. E esta espera/esperança está centrada na mesma pessoa: o Cristo. O profeta anuncia que a justiça de Deus é manter as promessas que fez em favor do seu povo. E o Senhor não quer faltar à palavra dada, pois a justiça tem o mesmo rosto de sua misericórdia. O tempo do Advento é o tempo para que nos purifiquemos de todos os ídolos que nos são oferecidos cotidianamente: as aparências, os status, os poderes. O cristão conjuga o verbo esperar não como uma esperança vaga e modesta, mas como uma esperança audaz que tem como raiz o dom que, em Cristo, nos vem de Deus. O cristão não foge da existência cotidiana, mas está sempre atento para não ser pego desprevenido e nem distraído. O cristão alimenta a sua lucidez diante das inúmeras seduções que o possam desviar do desígnio de Deus e, desta maneira, fazê-lo perder o sentido do caminho a ser seguido. Somos chamados a termos “nossas cinturas cingidas e as lamparinas acesas” (Lc 12, 35), uma vez que, como sentinelas, não nos cabe um minuto de desatenção e nem de descanso, pois deveremos estar “em pé diante do Filho do Homem”. E o Senhor nos promete “que essa humanidade se emancipará da escravidão da corrupção, para obter a liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 20). Neste domingo, é preciso proclamar que o amor que se encarna é o mesmo que nos julgará pelo amar que conseguimos. O tempo de Advento é um tempo de crise; uma ruptura com a nossa mediocridade e um mergulho no amor e na prática do amor, pois só conhecemos, quase que plenamente, a existência daqueles que amamos. Meditemos as palavras de Ernesto Cardenal, monge trapista da Nicarágua: “Dentro de nós está o amor. Deus está louco de amor e, portanto, seu comportamento é imprevisível. Em qualquer momento o Amante pode cometer um disparate, porque como todo o que ama, não raciocina. Está bêbado, embriagado de amor”. Ou, em bom espanhol: “Dios está borracho de amor!”.

(Manos da Terna Solidão)

 

CONTEMPLAR

Madona com a criança, c. 1750, Luis de Morales (1509-1586), óleo sobre painel, 84 x 64 cm, Museu do Prado, Madri, Espanha.




quinta-feira, 18 de novembro de 2021

O Caminho da Beleza 53 - Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo                 21.11.2021

Dn 7, 13-14             Ap 1, 5-8                  Jo 18, 33-37

 

ESCUTAR

“Seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7, 14).

Olhai! Ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão, também aqueles que o traspassaram (Ap 1, 7).

“Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37).

 

MEDITAR

Olhai-o!


Não olhai sua divindade,

mas olhai antes sua liberdade!


Não olhai as histórias exageradas de seu poder,

mas olhai antes sua capacidade infinita de se doar ao outro.

 

Não olhai a mitologia do primeiro século que o cercou,

mas olhai antes sua coragem de ser,

sua capacidade de viver e

a qualidade contagiosa de seu amor.

 

Parai vossa busca frenética!

Parai e conhecei que Deus é isto:

este amor,

esta liberdade,

esta vida,

este ser...

 

Beijai esse sopro do Cristo

e ousai ser

você mesmo!

 

Creio que é este o caminho para Deus, o Deus que encontrei

nesse Jesus tão profundamente humano.

Shalom!

 

(John Shelby Spong, 1931-2021, Estados Unidos)

 

 ORAR

          A vitória de Deus sobre o poder terreno, que se opõe ao seu plano de salvação na história, age na contraposição radical e absoluta do amor a toda forma de poder, porque não apenas Deus se concebe no diálogo com o mundo como deve ser definido como “amor”. E seu amor é fiel e, em Cristo, se cumpre num ato realizado na história, por isso de agora em diante o poder é considerado superado pelo ingresso do amor no mundo. Diante de Pilatos que representa o poder, Jesus dirá que a sua morte é testemunha dada à verdade. Donde verdade, segundo o significado hebraico, é também fidelidade e designa o verdadeiro amor em que consiste a verdade de Deus. A vitória sobre o poder é obtida superando-se a lógica negada pela raiz de sua “verdade”. Nesse sentido, pode-se agora falar, como faz o Apocalipse, dos reinos que servem e são submetidos, porque são submetidos por um “traspassado”. Cristo, pois, é rei na medida em que não é tudo isto que humanamente se designa com este termo: é rei enquanto contrapõe o amor ao poder. A doutrina do domínio de Jesus sobre todo o mundo é incompreensível se não é lida nesta dimensão teológica e escatológica. Um domínio que é doação plena e total, “obedecendo ao Pai até a morte de cruz" (Fl 2, 8). A Igreja deve viver nesta luz a sua participação na soberania do Cristo não “servindo-se” da humanidade, mas “servindo” a humanidade (Mc 10, 41-45: o “código da autoridade cristã”). Cabe à Igreja guardar aberta aquela ferida que o Cristo desfechou ao poder prevaricador e ao mal, ferida que é mortal. Hoje, portanto, é a celebração de uma nova ordem de relação entre Deus e o homem: um reino celeste e eterno, legado pela lógica do amor de Deus (Daniel), um reino de esperança e de salvação definitiva (Apocalipse), um reino de verdade e de justiça (João).

(Gianfranco Ravasi, 1942-, Itália)

 

CONTEMPLAR

Poder Popular, 2007, Edwin S. Loyola, Manila, Filipinas.




 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

XXXIII Domingo do Tempo Comum                     14.11.2021

Dn 12, 1-3                Hb 10, 11-14.18                 Mc 13, 24-32

 

ESCUTAR

“Os que tiverem ensinado a muitos homens os caminhos da virtude brilharão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12, 3).

Onde existe o perdão, já não se faz oferenda pelo pecado (Hb 10, 18).

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13, 31).

 

MEDITAR

A Oração é a própria criação do que está por vir. Ela não existe nem para encher o vazio do passado, nem para assegurar um presente: ela realiza um futuro, para assegurar a possibilidade de uma história; a história da minha própria vida, para que ela não se torne a fastidiosa repetição indefinida de instantes sem significação; a história da minha Igreja para que ela não seja a incoerência de boas intenções e de piedade sem fundamentos; a história de meu Povo, para que não venha a ser acúmulo de opressões, de ódios e de injustiças.

(Jacques Ellul, 1912-1994, França)

 

ORAR

      A esperança consiste fundamentalmente em reconhecer que toda a verdade do homem não se encontra naquilo que se vê agora, e que o homem não se deixa esgotar pelo seu presente. Consiste ainda em crer que essa verdade plena do homem não é pura ilusão, mas que ela se revelará no futuro. Não se trata de aspirar para a satisfação de desejos atuais frustrados na experiência de cada dia. Trata-se de esperar algo novo. O objeto da esperança não são os objetos dos nossos desejos: é aquilo que não desejamos por não o conhecermos... Os desejos e as necessidades atuais situam-se na superfície do homem. Num nível mais profundo existe uma aspiração não consciente e não vivida para uma manifestação diferente do ser humano. Essa é a aspiração de que fala São Paulo: “A criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Pois a criação foi sujeita à vaidade, não por vontade própria mas pela vontade daquele que a sujeitou, todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que em dores de parto até o presente dia (Rm 8, 19-22). Os gemidos e os sofrimentos da criação não equivalem às frustrações que se podem experimentar. É da espera de um mundo novo que se trata, além de todas as dores do mundo presente... Por isso devemos evitar uma confusão fácil. A mensagem cristã não é uma resposta dada à esperança. Não se excita a esperança para poder oferecer a vida cristã como resposta. Esta vida cristã não tem por finalidade acalmar as aspirações, dar-lhes satisfação, assegurar aos homens a tranquilidade que procuram. Muito pelo contrário, o cristianismo consiste em despertar uma esperança latente e inaugurar uma vida de esperança. Em lugar de suprimir o problema, a mensagem evangélica cria uma perspectiva nova e um problema novo. Não pretende acalmar os homens no nível de sua vida exterior, de suas atividades naturais. A esperança nem suprime, nem suscita desequilíbrios psíquicos. Ela é nova dimensão dada à vida anterior. “Na esperança é que fomos salvos” (Rm 8, 24). Isto é: nossa salvação consiste em viver uma vida de esperança.

(Joseph Comblin, 1923-2011, Bélgica)

 

CONTEMPLAR    

Nelson Mandela, 1994, primeiro presidente negro da África do Sul revisita sua cela em Robben Island, onde passou dezoito dos seus vinte e sete anos de prisão, Jürgen Schadeberg (1931-2020), Getty Images, Alemanha/África do Sul.




 

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O Caminho da Beleza 51 - Todos os Santos e Santas

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

Todos os Santos e Santas                    07.11.2021

Ap 7, 2-4.9-14                    1 Jo 3, 1-3                Mt 5, 1-12

 

ESCUTAR

“Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus” (Ap 7, 3).

Caríssimos, vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!

“Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5, 5).

 

MEDITAR

Amais ou amastes a alguém o bastante para não quererdes ser separados deles, para poder viver com eles toda a eternidade? Só aquele que ama assim, só aquele que é amado assim tem promessas de eternidade. O céu é amar sempre, e nossa capacidade de céu é exatamente proporcional à nossa capacidade de amar. Tendes algo de bastante bom, de bastante valioso em vossa vida para querê-lo eternizar?

(Louis Évely, 1910-1985, Bélgica)

 

ORAR

      Nossa vida é um movimento. Nossa vida é uma travessia em direção a nós mesmos... E é precisamente nessa travessia em direção a nós mesmos que encontramos o Deus vivo não como um estranho que está além, após a morte, mas como uma Fonte, agora, dentro de nós.... como uma Fonte que jorra em vida eterna! Os Santos compreenderam que o Céu está aqui, dentro de nós. Eles descobriram, dentro deles mesmos, esse rosto adorável que é impossível exprimir, mas que é tão maravilhoso de se viver. Eles não se dirigiam a um Deus estranho, eles se aninhavam na intimidade de um Deus que era a Vida de suas vidas. É preciso, portanto, tomar consciência hoje da renovação necessária do nosso olhar para que Deus não seja mais para nós uma ameaça e um limite, para que não vejamos Nele o inventor de uma morte que nos arranca de uma vida em que estamos agarrados até a medula, que saibamos e aprendamos justamente que a morte tem mil rostos diferentes e que ela não é a mesma para aquele que viveu, para aquele que juntou sua identidade no coração a coração com Deus e que isso justamente é possível para nós, que isso nos é oferecido, que é nossa vocação vencer a morte dando-nos Àquele que é em nós uma Fonte que jorra em vida eterna. Todos os Santos é um apelo imenso à autenticidade, é uma tomada de consciência do mistério infinito de nossa vida. É preciso dizer que seria impossível tomar consciência do Mistério que é Deus se nossa vida não fosse, ela mesma, um mistério inesgotável. E nós encontramos o Deus vivo precisamente nessa travessia de nós para nós mesmos, em que é preciso constantemente se ultrapassar para atingir enfim o eu pessoal que funda a nossa dignidade: o bem comum para a conservação em que toda a humanidade está interessada porque nesse diálogo com Deus cada um de nós pode se tornar uma origem, uma fonte, um começo e um criador. É preciso, pois, associar a Todos os Santos o chamado a nos descobrir a nós mesmos em nossa autenticidade, a irmos em direção à realização perfeita de nossa vocação de homens que só pode justamente atingir seu cume nesse diálogo do amor em que nos perdemos em Deus.

(Maurice Zundel, 1897-1975, Suíça)

 

CONTEMPLAR

Cidade Proibida, s.d., Saul Landell, Guadalajara, México.