terça-feira, 2 de março de 2021

O Caminho da Beleza 16 - III Domingo da Quaresma

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

III Domingo da Quaresma                 07.03.2021

Ex 20, 1-17              1 Cor 1, 22-25                    Jo 2, 13-25

 

ESCUTAR

“Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Ex 20, 7).

O que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens (1 Cor 1, 25).

“Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2, 16).

 

 MEDITAR

Imagine que não há paraíso
é fácil se você tentar,
sem inferno abaixo de nós
e acima só o céu
Imagine todas as pessoas
vivendo para o hoje

Imagine que não há países
não é difícil fazê-lo
nada pelo que matar ou morrer
e nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
vivendo a vida em paz

Você pode dizer que sou um sonhador
mas eu não sou o único
Espero que um dia você se una a nós
e o mundo vai ser um só

Imagine nenhuma posse
eu me indago se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma Irmandade humana
Imagine todas as pessoas
partilhando o mundo todo

(John Lennon, 1949-1980, Reino Unido)

 

ORAR

   A intervenção fogosa do Messias revela a profanação do santuário que constitui esta impossível tentativa humana de servir a dois senhores ao mesmo tempo. Os profetas podiam apenas lamentar e advertir, mas Jesus intervém diretamente, agindo como Senhor da casa, pois ele é o Filho todo-poderoso daquele a quem a casa pertence. Ele não contesta a utilidade e a possibilidade dos organismos colocados a serviço da oração e do sacrifício. Mas ele desvela a mentira que se infiltrou. O coração humano hipócrita suprime o limite intransponível entre o culto e o interesse próprio. Assim correm juntos, como num rio contínuo, o serviço de Deus pelo homem e o serviço do homem para ele mesmo. Se os olhos não são mais dirigidos com uma intenção pura em direção a Deus, a casa na qual o homem em oração se declara servidor de Deus torna-se um “covil de ladrões”, que se ajuntam para seu interesse. Sob o pretexto de servir ao próximo em seu culto, olham com inveja seu dinheiro a fim de açambarcá-lo. Qualquer que seja o rigor das tradições comerciais, a mentira de um culto, transformada em pretexto para serviço de Mamon, torna impossível todo o louvor a Deus. Jesus não quis, como às vezes se sugere comentando-se essa passagem, se opor ao Templo e à Lei que o santifica. Realizando seu gesto, ele não transgrediu os mandamentos, antes cumpriu a Lei, conferindo ao Templo sua santidade e sua verdadeira destinação. Quando a Igreja e sua pregação são colocadas a serviço de interesses humanos, quando esquecendo sua missão exclusiva de servidora, a Igreja se coloca à disposição dos desejos do homem, Jesus a nomeia “covil de ladrões”. Acontece o mesmo por todo lugar onde, sob o pretexto de facilitar a celebração do culto, este se torna um meio de ação política ou econômica. A encarnação do Cristo assegura a verdadeira presença e a verdadeira aproximação de Deus. O Templo do Antigo Testamento não era senão uma imagem. Assim se ajunta ao antigo Templo o novo. A purificação do Templo mostra que não é preciso, de modo algum, sonhar com a eliminação de um pelo outro; fazendo isso, Jesus purifica o que propriamente lhe pertence e que é o objeto de sua própria promessa.

(Helmut Gollwitzer, 1908-1993, Alemanha)

 

CONTEMPLAR

Você não pode servir a Deus e a Mamon, 2020, Mike Schaffner, Estados Unidos.





terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Caminho da Beleza 15 - II Domingo da Quaresma

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

II Domingo da Quaresma                   28.02.2021

Gn 22, 1-2.9-13.15-18                 Rm 8, 31-34                       Mc 9, 2-10

 

ESCUTAR

“Eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar” (Gn 22, 17).

Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8, 31).

E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles (Mc 9, 8).

 

MEDITAR

Deitado por inteiro no beliche, fixo o olhar na parede cinza.

Lá fora, uma noite de verão,

que me ignora,

segue pelos campos, cantando...

Irmão, até por trás da noite escarlate

Alvorece o novo dia

resiste!

(Dietrich Bonhoeffer, 1906-1945, Alemanha)

 

ORAR

    Proibido saltar por cima da noite. É noite para Abraão (“Toma teu filho único, Isaac, a quem amas, e oferece-o em sacrifício”). É noite para tantas pessoas que se sentem “acusadas” e “condenadas” (Rm 8, 33). É noite para os discípulos que ouviram o Mestre falar do caminho da cruz (Mc 8, 31ss). Dá vontade de saltar por cima destas trevas e se deixar penetrar imediatamente pela luz. Chegar felizmente ao final alegre: “não estendas a mão contra teu filho e nem lhe faças nada... Te abençoarei”. Agarrar-se a essa afirmação: “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” Fixar imediatamente o olhar sobre Jesus que veste o hábito da luz sobre o monte da transfiguração. Demasiado simples. Porque é necessário passar através da noite, explorá-la até o fundo. Também a noite contém indícios de luz. Resistir confiando na palavra. Dietrich Bonhoeffer viveu sua noite interminável na prisão de Tegel, em Berlim. Aquelas trevas foram perfuradas, em rajadas, por golpes de luz que lhe permitiram “manter-se em pé”, recorrer com firmeza às “estações sobre o caminho da liberdade” e seguir sendo evangelicamente “resistente” contra o demônio do nazismo. Como quando, em 20 de julho de 1944, meditando as leituras do dia, topou com a passagem de Paulo: “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” Daí retirou, como atesta em uma carta, gozo e força. O Deus-para-nós é o Deus que não perdoou a seu próprio filho. Que, em Jesus, nos deu e nos dá tudo. A. Maillot comenta com seu estilo paradoxal: “Deus não tem outro filho de reserva... Em Cristo, Deus se despojou e se arruinou pelos homens”. Ele também teve sua noite escura (era meio-dia no relógio dos homens), ainda que incendiada pelo amor. O Deus-em-si se fez o Deus-conosco (o Emmanuel) e além disso o Deus-para-nós. O “para”, em certo sentido, já é a qualificação da divindade. As últimas palavras de Bonhoeffer, antes de ser executado, foram: “Isto é o final, para mim o começo da vida”. Os três apóstolos pensam que foram dispensados da noite da paixão-morte, quando, no monte, contemplam ao Cristo transfigurado na glória. “É bom ficarmos aqui! Vamos fazer três tendas...”. Equivocam-se pensando chegar à pascoa sem passar pelo obstáculo do Calvário. Mas a visão pascoal antecipada dura como um relâmpago. Imediatamente recomeça a noite. “De repente, olhando em volta, não viram ninguém mais, a não ser Jesus, só com eles”. Um homem como os demais, e mais: um condenado à morte que caminha até o patíbulo infame. A luz se apagou. E, contudo, neles permaneceu acesa uma palavra: “Este é meu Filho amado, escutai-o”. E eles, como nós, como todos os crentes, levam dentro, além daquele raio de luz, sobretudo, aquela palavra. O caminho do que acredita só pode se iluminar por uma palavra. “Lâmpada para meus passos é a tua palavra” (Sl 119, 105). A lâmpada não elimina a noite. Mas permite caminhar.

 (Alessandro Pronzato, 1932-, Itália)

 

CONTEMPLAR

O holofote de Karnak, 2017, Templo de Karnak, Luxor, Egito, Sake Van Pelt (1991-), Holanda.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

O Caminho da Beleza 14 - I Domingo da Quaresma

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

I Domingo da Quaresma                     21.02.202

Gn 9, 8-15               1 Pd 3, 18-22                      Mc 1, 12-15

 

ESCUTAR

“Ponho meu arco nas nuvens como sinal de aliança entre mim e a terra” (Gn 9, 13).

Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus (1 Pd 3, 18).

“O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1, 15).

 

MEDITAR

Devemos resistir à tentação de preencher o vazio. É o deserto que é o lugar onde Deus pode vir falar ao nosso coração. Entrar na capela ou outro local e permanecer em silêncio diante da presença de Deus é, portanto, a coisa mais corajosa que se pode fazer. Isso nos prepara para a demanda imprevisível...qual é o teu deserto, aquele em que Deus te falará com ternura?

(Timothy Radcliffe, 1945-, Reino Unido).

 

ORAR

    Neste primeiro domingo de Quaresma encontramos Jesus que, depois de ter recebido o batismo de João Batista no rio Jordão (cf. Mc 1, 9), padece a tentação no deserto (cf. Mc 1, 12-13). O deserto de que se fala tem vários significados. Pode indicar a situação de abandono e de solidão, o “lugar” da debilidade do homem, onde não existem ajudas nem seguranças, onde a tentação se faz mais forte. Mas ele pode indicar também um lugar de refúgio e de amparo, como foi para o povo de Israel que se livrou da escravidão egípcia, onde se pode experimentar de modo particular a Presença de Deus. Jesus, “permaneceu quarenta dias no deserto, onde foi tentado pelo demônio” (Mc 1, 13). São Leão Magno comenta que “o Senhor quis padecer o ataque do tentador para nos defender com a sua ajuda e para nos instruir com o seu exemplo”. Que nos pode ensinar este episódio? Como lemos no Livro da Imitação de Cristo, “o homem nunca está totalmente isento da tentação, enquanto viver... mas é com a paciência e com a verdadeira humildade que nos tornaremos mais fortes do que todos os inimigos”; a paciência e a humildade de seguir o Senhor todos os dias, aprendendo a construir a nossa vida sem O excluir, ou como se Ele não existisse, mas nele e com Ele, porque é a fonte da vida verdadeira. A tentação de eliminar Deus, de pôr ordem sozinho em si mesmo e no mundo, contando unicamente com as próprias capacidades, está sempre presente na história do homem. Jesus proclama que “se completou o tempo e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1, 15), anuncia que nele acontece algo de novo: Deus se dirige ao homem de modo inesperado, com uma proximidade singular, concreta, cheia de amor; Deus encarna-se e entra no mundo do homem para assumir sobre si o pecado, para vencer o mal e restituir o homem ao mundo de Deus. Mas este anúncio é acompanhado pelo pedido de corresponder a um dom muito grande. Com efeito, Jesus acrescenta: “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15); é o convite a ter fé em Deus e a converter todos os dias a nossa vida à sua Vontade, orientando para o bem todas as nossas obras e pensamentos. O tempo da Quaresma é o momento propício para renovar e tornar mais sólida a nossa relação com Deus, através da oração quotidiana, dos gestos de penitência e das obras de caridade fraterna.

(Bento XVI, 1927-, Alemanha).

 

CONTEMPLAR

S. Título, 1963, David Heath (1931-2016), Estados Unidos.




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O Caminho da Beleza 13 - VI Domingo do Tempo Comum

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível (Papa Francisco).

VI Domingo do Tempo Comum                   14.02.2021

2 Rs 5, 9-14             1 Cor 10, 31-11, 1              Mc 1, 40-45

 

ESCUTAR

“Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo” (2 Rs 5, 10).

Irmãos, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (1 Cor 10, 31).

Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero: fica curado!” (Mc 1, 41).

 

MEDITAR

A muitos só lhes resta o inferno.

?Que lhes coube na monstruosa partilha da vida

Senão uma angústia sem nobreza, e a peste da alma.

Nunca ouviram a música nascer do farfalhar das árvores,

Nem assistiram à contínua anunciação

E ao contínuo parto das belas formas.

Nunca puderam ver a noite chegar sem elementos de terror,

Caminham conduzindo o castigo e a sombra de seus atos,

Comeram o pó e beberam o próprio suor,

Não se banharam no regato livre.

Entretanto, a transfiguração precede a morte.

Cada um deve assumi-la em carne e espírito

Para que a alegria seja completa e definitiva.

 

É necessário conhecer seu próprio abismo

E polir sempre o candelabro que o esclarece.

(Murilo Mendes, 1901-1975, Brasil)

 

ORAR

       O Espírito que reina n’Ele tem o poder de curar. De curar desde as raízes; porque é capaz de criar, de apreender o mais fundo princípio de vida e transformá-lo. O poder de curar é tão inesgotável em Jesus que Ele leva a melhor da miséria humana que se comprime à sua volta. Não recua. As feridas, os membros torcidos, as deformações, nenhuns sofrimentos O assustam. Defronta-os. Não distingue o que é mais urgente ou o que correspondesse à força que está em Si, e, simplesmente, aceita toda a gente. A palavra “Vinde a Mim” – vide Mateus, II, 28 – é por Ele realizada antes mesmo de a pronunciar. E que deixa Ele aproximar-se de Si! Não é o sofrimento humano um mar? Não é socorrer um trabalho sem fim? Quem, decidindo-se a aliviar os homens, havendo-se posto à disposição deles, não foi submergido – e feliz ainda quando se não perde a si próprio – por esta tarefa infinita? Jesus sente o sofrimento dos homens. A compaixão agita-Lhe o coração. Permite à miséria aproximar-se de Si, mas é mais forte do que ela. Não conhecemos alguma palavra do Senhor que pareça “idealista”, que deixe entender que poderia suprimir a dor. Não a sobrevoa, comovido ou entusiasta, encara-a na sua inteira e horrível realidade. Mas jamais perde a coragem, jamais Se cansa ou aparece decepcionado. O seu coração, o mais sábio e o mais sensível de todos que alguma vez bateram, é mais forte do que todo o sofrimento humano... Estaremos mais perto da verdade se dissermos: Cristo não procurou evitar o sofrimento, como sempre faz o homem. Não o desprezou. Não Se protegeu contra ele. Acolheu-o no seu coração. Tomou os homens que sofrem como eles são, com toda a sua realidade. Fez seus os incômodos, os pecados e as necessidades do homem. Há nisso uma infinita grandeza. Um amor de uma santa seriedade; sem qualquer ilusão e por isso mesmo infinitamente poderoso, porque é “um ato da verdade na caridade”, que apreende a realidade e a eleva acima de si mesma. A atividade de cura de Jesus é um ato de Deus: uma revelação de Deus e um caminho para Deus.

(Romano Guardini, 1885-1968, Alemanha)

 

CONTEMPLAR

S. Título, 2015, Fernando Zamorra, Folha Press, São Paulo, Brasil.




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

O Caminho da Beleza 12 - V Domingo do Tempo Comum

Mantinha-se firme, como se visse o Invisível! (Hb 11, 27)

V Domingo do Tempo Comum                     07.02.2021

Jó 7, 1-4.6-7                       1 Cor 9, 16-19.22-23                   Mc 1, 29-39

 

ESCUTAR

“Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança. Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro (Jó 7, 6).

Ai de mim se eu não pregar o Evangelho! (1 Cor 9, 16).

À tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio... De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto (Mc 1, 32.35).

 

MEDITAR

Os transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus arrebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível.

(Papa Francisco, 1936-, Argentina)

 

ORAR

       Uma das coisas que mais se destacam nesse trecho, do que era a vida diária de Jesus, é que a oração era muito importante e muito frequente em sua vida. O projeto de vida de Jesus se centrava em curar enfermos, partilhar a comida com famintos e remediar as penalidades e sofrimentos das pessoas. Mas, para realizar esse projeto, Jesus viu que precisava orar ao Pai. E precisava muito e com frequência. Para orar não ia ao templo, mas a lugares solitários, ao campo, ao monte. E assim passava noites inteiras em oração. A oração de Jesus é uma lição exemplar mais profunda do que imaginamos. A oração é uma das provas mais patentes de que Jesus era um “ser humano”. E, como todo ser humano, sentia a necessidade de ajuda e auxílio do Transcendente, o Pai do Céu a quem acudia com tanta frequência. O segredo, a explicação e a chave da humanidade de Jesus estão em sua espiritualidade. Ou seja, Jesus foi tão profundamente humano por causa da relação tão frequente e profunda que teve com a fonte de toda humanidade. A condição humana, tal como de fato existe – mesclada e fundida com o inumano e com a desumanização – só resulta num homem, “como tantos outros” (Fl 2, 7), que foi tão plenamente humano que nele não cabia inumanidade alguma. Por isso Jesus necessitou recorrer ao Pai. Por isso o necessitamos todos, se é que de verdade queremos ser profundamente humanos e sintonizar com tudo o que é verdadeiramente humano. Há formas de orar que entontecem e há formas de orar que humanizam.

(José Maria Castillo, 1929-, Espanha)

 

CONTEMPLAR

Homem Sombra, 2020, Rua Aldersgate, Londres, Lesley Scoble (1949-), Reino Unido.




 

 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

O Caminho da Beleza 11 - IV Domingo do Tempo Comum

 Mantinha-se firme, como se visse o Invisível! (Hb 11, 27)

IV Domingo do Tempo Comum                   31.01.2021

Dt 18, 15-20                       1 Cor 7, 32-35                    Mc 1, 21-28

 

ESCUTAR

“O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar” (Dt 18, 15).

O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações (1 Cor 7, 35).

“Que queres de nós, Jesus nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus” (Mc 1, 24).

 

MEDITAR

Abram-me todas as portas!

Por força que hei de passar!...

Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,

E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!

 

Tirem esse lixo da minha frente!

Metam-se em gavetas essas emoções!

Daqui pra fora, políticos, literatos,

Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,

Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.

O espírito que dá a vida neste momento sou EU!

 

Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!

O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!

Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,

É comigo, com Deus, com o sentido – eu da palavra Infinito...

Pra frente!

Meto esporas!

Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,

Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,

Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,

Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso...

 

(Fernando Pessoa, 1888-1935, Portugal)

 

ORAR

A voz de Jesus se eleva incrivelmente cortante. É a primeira vez que aparece em público e, no entanto, ele o faz com uma coragem total e absoluta, chamando-nos a uma escolha incondicional e nos deixando livres para fazê-la, de uma maneira totalmente diferente da dos escribas. “O que significa isso?” perguntavam-se as pessoas na sinagoga de Cafarnaum. Marcos pretendia dizer que essa cura de um “possuído” significava nada menos do que o acontecimento de uma nova era. Doravante os seres humanos devem enfim compreender que eles não têm outro mestre a não ser Deus. E se continuamos a perguntar o que é um demônio ou o que sobressai dele só há uma resposta possível: tudo o que conduz o homem a se agarrar ao menor fio de palha como se ali fosse a salvação; tudo o que o atrela aos poderes que não são Deus; tudo o que o constrange a uma lógica contrária à da criação; tudo o que o arrasta a um processo infinito de destruição. É preciso escolher: de um lado, há Deus que nos quer pessoas vivas por si próprias; de outro o poder da angústia que nos obriga, de uma certa maneira, a só existir em coletividade e que nos destrói até nos tornar irreconhecíveis. Isso pode nos conduzir à situação dilacerante desse relato em que qualquer um chega a acreditar e a dizer de si mesmo que é impuro para viver, que não é ele mesmo, que quer somente que o deixem em paz. Só tocamos aparentemente toda a profundidade do demoníaco no homem se compreendemos a que ponto a aspiração à pureza e à perfeição pode se transformar em negação de si, ódio de si e destruição de si, desde que nos tornamos prisioneiros do sistema de coerção dos outros. É preciso escolher entre os “espíritos”, em outras palavras, entre duas atitudes espirituais: a tolerância infinita com a qual Deus acompanha passo a passo sua criatura ou a rigidez dos “puros”, dos guardiões da lei, das pessoas de eternos bons princípios. O poder de Deus se fixa no coração do homem e sua impotência muitas vezes provém de uma religião que é feita apenas de medo. Depois desse milagre na sinagoga de Cafarnaum, os tempos novos surgiram e a escolha a fazer é agora clara. É preciso, entretanto, toda nossa firmeza para banir o poder de nossos velhos medos.

(Eugen Drewermann, 194o-, Alemanha)

 

CONTEMPLAR

Memento Mori (Lembre-se da Morte), 2019, Denis Buchel, Moldávia, Urban Photos Awards.




segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

O Caminho da Beleza 10 - III Domingo do Tempo Comum

Mantinha-se firme, como se visse o Invisível! (Hb 11, 27)

III Domingo do Tempo Comum                   24.01.2021

Jn 3, 1-5.10             1 Cor 7, 29-31                    Mc 1, 14-20

 

ESCUTAR

Vendo Deus suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhes (Jn 3, 10).

A figura deste mundo passa (1 Cor 7, 31).

“O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1, 15).

 

MEDITAR

Sempre que se começa a ter amor a alguém, assim no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.

(João Guimarães Rosa, 1908-1967, Brasil). 

 

ORAR

   O amor cristão do próximo e a fraternidade possuem um significado e uma dignidade inteiramente diferentes se os vemos como uma maneira concreta de realizar o amor de Deus e não como uma obrigação secundária, imposta como um mandamento divino. Tudo se passa em nossa vida cristã como se devêssemos obter nossa salvação só pela oração, pela recepção dos sacramentos, pela participação na Eucaristia, pela fuga diante do pecado ou pelo perdão dos pecados; tudo se passa como se, para realizar esse objetivo, devêssemos evitar as grandes faltas contra as obrigações que temos para com o próximo. Mas a vida cristã não surgiria com toda uma outra luz se o adágio “salva tua alma” se transformasse por inteiro, natural e automaticamente, em “salve teu próximo”? Considerando a vida cristã ordinária, parece que a consciência moral do cristão médio é dominada pela ideia de que o amor do próximo é realizado quando não lhe fazemos nada de mal e satisfazemos às obrigações específicas que ele tem o direito de exigir. Mas, na verdade, o “mandamento” de amar nosso próximo, em união com o amor de Deus, nos demanda romper nosso egoísmo, ultrapassar a ideia de que aquele amor do próximo seria, no fundo, apenas uma regulamentação inteligente de exigências recíprocas e um acordo unicamente fundado sobre o par “dar e receber”. Na realidade, o amor do próximo só atinge sua verdadeira dimensão na renúncia aos cálculos, na disposição de amar sem esperar por recompensa, na aceitação da loucura da cruz. Se compreendemos efetivamente que o amor de Deus e o amor do próximo são apenas um, esse último toma um novo valor: ele deixa seu papel de exigência particular, implicando esforços limitados e controláveis, para ocupar o lugar da nossa realização completa: é à totalidade de nosso ser que ele dirige todas as interpelações, bem além das obrigações normais, mas é apenas assim que chegamos à mais alta liberdade que há, a liberdade vis-à-vis a nós mesmos. Eis, em conclusão, as certezas de nossa fé cristã: o amor por Deus e pelo próximo – esse amor que é mais do que um mandamento e do que uma prática imposta por dever – ele é o único a poder trazer a salvação à humanidade; ele é a significação última da Lei e dos Profetas; ele pode surgir mesmo na humildade de uma vida ordinária e, portanto, na humildade da última renúncia e do último abandono a Deus, que nos associa ao ato derradeiro de Jesus sobre a cruz. Uma fraternidade que seja trazida pelo amor de Deus e que encontre sua realização neste amor, eis o ápice de nosso destino. E este ápice é uma possibilidade oferecida a todo homem.

(Karl Rahner, 1904-1984, Alemanha)

 

CONTEMPLAR

S. Título, s.d., autoria desconhecida, fonte: pexels/pixabay.