quinta-feira, 26 de setembro de 2024

O Caminho da Beleza 45 - XXVI Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).


XXVI Domingo do Tempo Comum             

Nm 11, 25-29                     Tg 5, 1-6                   Mc 9, 38-43.45.47-48

 

 

ESCUTAR

 

“Quem dera todo povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!” (Nm 11, 29).

 

E agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós (Tg 5, 1).

 

“Quem não é contra nós é a nosso favor” (Mc 9, 40).

 

 

MEDITAR

 

Quanto a mim é na oração o meu encontro com você. Perdida no Cristo eu vislumbro melhor toda a sua história e compreendo tanta coisa! Compreendo porque muita gente não lhe entende. Como é que poderiam entender se só aceitam as pessoas e as coisas segundo padrão próprio e estático? No fundo o que eu aprecio em você é a sua autenticidade. É a coragem que você tem de continuar a ser você mesmo. Acho que com o decorrer dos anos você irá se descobrindo cada vez mais profundamente, quer dizer, você irá se tornando santo, não por artifício, mas por despojamentos que lhe mostrarão o verdadeiro rosto de Cristo em você.

 

(Madre Belém)

 

É mais fácil desintegrar um átomo do que acabar com um preconceito.

 

(Albert Einstein)

 

 

ORAR

 

O maior risco para a vivência cristã é o da mentalidade sectária. A mentalidade sectária é um pecado contra o Espírito e é fruto do joio. O evangelista aponta o contraste entre a mesquinhez dos apóstolos, seu egoísmo de grupo e a amplitude, a tolerância e o espírito aberto de Jesus. A comunidade dos apóstolos está mais preocupada com a expansão e o êxito do grupo do que pela realidade em questão. O Senhor com largueza atua, pelo Espírito, imprevisivelmente, em territórios sem fronteiras. Somos nós que somos incapazes de ver um palmo à frente do nosso nariz e além do nosso umbigo. Neste momento, por defesa, recorremos à desqualificação: “Não é dos nossos!”. Tentamos aprisionar a ação do Espírito ao invés de nos abrirmos e fluirmos no seu dinamismo. Forçamo-nos em prendê-Lo nos limites das nossas tendas e transformá-Lo “num dos nossos”. A cura radical da mentalidade sectária é a acolhida. Não o acolher o outro como “um dos nossos”, mas valorizá-lo na sua diversidade de escolhas e seguimentos. Os setenta que receberam o Espírito não continuaram a profetizar. Talvez tenham estado demasiadamente empenhados em disciplinar o dom, fixar regras, segregar e excomungar. É mais fácil murmurar que profetizar; estabelecer sinais do que traçar caminhos. A profecia continuou nos dois que foram à tenda e que são os únicos dos quais conhecemos os nomes: Eldad e Medad. Quando nos ocupamos excessivamente de nós mesmos, o Espírito suscita carismas não autorizados que, ao abalar as pretensões e arrogâncias, movem o mundo e conduzem a vida para a Eternidade.

 

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 

CONTEMPLAR

 

Quietude, 2023, John Seager, Monochrome Photography Awards, Reino Unido. 

 


quinta-feira, 19 de setembro de 2024

O Caminho da Beleza 44 - XXV Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).


XXV Domingo do Tempo Comum              

Sb 2.12.17-20                     Tg 3, 16-4.3                        Mc 9, 30-37

 

 

ESCUTAR

“Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir” (Sb 2, 12).

“Caríssimos, onde há inveja e rivalidade aí estão as desordens e toda espécie de obras más” (Tg 3, 16).

“Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc 9, 35).

 

MEDITAR

Meu Senhor e meu Deus, tira-me tudo que me distancia de ti. Meu Senhor e meu Deus, dá-me tudo que me aproxima de ti. Meu Senhor e meu Deus, separa-me de mim e entrega-me completo para ti.

 

(Nicolau de Flüe)

 

 Aquele que tem um amigo verdadeiro não precisa de um espelho.

(Provérbio indiano)

 

ORAR

No nosso cotidiano enfrentamos três desafios: a cobiça, a inveja e a rivalidade. A atitude denunciada pelo livro da Sabedoria é extremamente atual no cinismo civil e religioso em que vivemos: “Armemos ciladas ao justo, pois sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da Lei e nos difama por pecarmos contra a nossa tradição”. Os homens do poder têm escarnecido dos mais pobres por meio de falsas promessas e pela venda de ilusões. Ao prometer um poder como serviço, revelam a intimidade dos seus corações estimulando a inveja, a divisão pela rivalidade e aumentando a cobiça ao se “venderem” como cidadãos acima de quaisquer suspeitas. O evangelista mostra os discípulos fazendo ouvidos surdos e não compreendendo o que ouviam, pois “pelo caminho tinham discutido quem era o maior”. Jesus, ao colocar no colo uma criança, quer falar da fragilidade do ser humano porque acolher o Reino de Deus, como uma criança, significa que a nova ordem social só poderá ser construída quando tivermos a coragem de enfrentar os verdadeiros fundamentos da opressão e rompermos o ciclo da violência que despreza e utiliza os menores e os mais fracos. O Evangelho nos convida a viver com Jesus a mesma entrega e confiança que uma criança tem com seus pais. Como cristãos, devemos falar de afabilidade, mansidão, compaixão nesta sociedade que vive sob o signo da competitividade, da agressividade e da prepotência, ainda que sejamos considerados ingênuos, ou pior, idiotas. Caso contrário, viveremos também a maldição de cobiçar, mas não conseguir ter; de cultivar a inveja, mas não conseguir êxito algum; de brigar e guerrear, mas não conseguir possuir. E sermos condenados, por nós mesmos, à maior das maldições: a de pedir e não receber.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Meninas na missa, 2003, Igreja Católica Notre Dame do Haiti, Miami, Flórida, da série Haiti/ Little Haiti, Bruce Weber (1946-), Pensilvânia, Estados Unidos.




quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O Caminho da Beleza 43 - XXIV Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

XXIV Domingo do Tempo Comum

Is 50, 5-9a              Tg 2, 14-18              Mc 8, 27-35



ESCUTAR


“O Senhor abriu-me os ouvidos: não lhe resisti nem voltei atrás” (Is 50, 5).

 

“Assim também a fé, se não se traduz em obras, por si só está morta” (Tg 2, 17).

 

“Vai para longe de mim, satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens” (Mc 8, 33).

 

MEDITAR

Os homens fortes, sábios e bons (nenhuma dessas qualidades vêm uma sem a outra) preocupam-se menos com o sucesso de seus empreendimentos do que com a dignidade da causa que eles servem e com a pureza de suas intenções (São João XIII).

 

O Senhor revela e chama; mas muitas vezes nós nem desejamos ver e nem responder, porque preferimos nossos caminhos pessoais. Arrisca-se então de não se ouvir mais a voz de Deus.

 

(São Pio de Pietrelcina)

 

Morrer para uma religião é mais simples do que vivê-la plenamente.

(Jorge Luis Borges)

 

ORAR

Pedro nega o Servo do Senhor e a profecia de que o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei. Jesus encara Pedro abertamente e compromete os discípulos tomando-os como testemunhas: “Vai para longe mim, Satanás!”. Pedro não aceita participar de uma causa perdida e nem assumir uma mentalidade de fracassado. E ao recusar a lógica da paixão se coloca longe do Senhor. A glória, a importância e o prestígio numa dimensão terrena são precisamente o oposto de tomar a cruz e negar-se a si mesmo. Não se pactua com Satanás e a sua derrota se dá no terreno do Calvário. O Servo do Senhor não se rebelou e nem desviou o rosto dos bofetões e cusparadas. Jesus testemunha que em todas as nossas obras é necessária a negação de si mesmo, a recusa de toda vontade de poder, de êxito e de publicidade. A fé é vida, páscoa, alegria e um abrir-se ao Deus infinito: “Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai do céu é perfeito” (Mt 5, 48). A fé que não se pretenda estéril deve ser orientada para a prática do amor e da solidariedade. Tiago nos previne que as “belas palavras” são vento e hipocrisia se não trazem lenitivo ao sofrimento dos nossos irmãos. Cada vez que Jesus evoca a sua Paixão é incisivo: “Quem se empenha em salvar a vida, a perderá; quem perder a vida por mim, a encontrará” (Mt 16, 25). Os atos são a respiração da fé, pois a fé não é uma bagagem, mas um caminho pelo qual, graças à atenção dada aos nossos irmãos, descobrimos o próprio Deus. Meditemos as palavras de Roger Garaudy: “Vós, os detentores da grande esperança que Constantino nos roubou, gente de Igreja, devolvei-O a nós. A sua vida e sua morte também nos pertencem, pertencem a todos aqueles para os quais têm sentido. A nós que aprendemos dele que o homem é criado criador”. Nestes tempos de diálogo inter-religioso, o Cristo não deve e nem pode ser um obstáculo ou um muro que nos separa, mas o símbolo da união, da fraternidade e do amor. Devemos aceitar, no seu seguimento, sermos pequenos grãos de trigo que, ao cair na terra, morrem para não ficar sós, mas para produzir muitos frutos (Jo 12, 24). Satanás anda no meio de nós, oferecendo-nos alternativas para que não tenhamos que entregar nossas vidas até o fim, para que desistamos do caminho um dia escolhido. Satanás nos oferece vantagens, seduz-nos com as honrarias dos homens, facilita-nos o ganho fácil e a ostentação do sucesso. O Cristo nos oferece o lenho da Cruz, a abominação, a dor e, finalmente, o Reino dos Céus.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

A Crucifixão de São Pedro, 1600-1601, Michelangelo Merisi, Caravaggio (1571-1610), óleo sobre tela, 230 x 175 cm, Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo, Roma, Itália. 




 

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

O Caminho da Beleza 42 - XXIII Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

XXIII Domingo do Tempo Comum            

Is 35, 4-7                 Tg 2, 1-5                  Mc 7, 31-17

 

 

ESCUTAR

 

Dizei às pessoas deprimidas: “criai ânimo, não tenhais medo!” (Is 35, 4).

 

Meus irmãos, a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas (Tg 2, 1).

 

“Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar” (Mc 7, 37).

 

 

MEDITAR

 

O amor de Deus nos rodeia por todas as partes. Seu amor é a água que bebemos e o ar que respiramos e a luz que vemos... Nos movemos dentro do seu amor como o peixe na água. E estamos tão perto Dele, tão embebidos em seu amor e em seus dons (nós próprios somos um dom dele) que não nos damos conta disso.

 

(Ernesto Cardenal)

 

A sangria da Amazônia já chega ao extremo e a criação de Deus geme no estertor da morte.

 

(Bispos dos Regionais Norte I e II da CNBB)

 

 

ORAR

 

Deus plantou um jardim e nós o transformamos numa terra queimada, um solo árido. Secaram as flores, desapareceu o verde e o ar é irrespirável. Além da tragédia ecológica, os homens e mulheres estão enfermos, feridos e debilitados na sua esperança. O papa Francisco exorta: “Apesar disso, Deus, que deseja atuar conosco e contar com a nossa cooperação, é capaz também de tirar algo de bom dos males que praticamos” (Laudato Si’ 80). Deus coloca, novamente, mãos à obra e anuncia pelo profeta que “se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos (...) assim como brotarão água no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago e a região sedenta em fontes de água”. Jesus nos cura da surdez para que não nos refugiemos em isolamentos e nos deixemos alcançar pelo grito do pobre, do oprimido e do desesperado: “Eu ouvi o clamor do meu povo” (Ex 3, 7ss). A surdez como pecado é não ouvir nossos outros irmãos e irmãs porque nossos ouvidos estão tapados pelos ídolos do poder e da riqueza. Só sabemos ouvir a nós mesmos. Para que brote a fonte de água no deserto do mundo de hoje, é necessário que a comunidade eclesial rompa a crosta de desumanidade e faça circular, em profundidade, uma mensagem de vida, de paz e de misericórdia. Tiago adverte que uma Igreja calcada nas cerimonias das honras mundanas obscurece a glória de Deus. Somos chamados a virar este mundo virado, um mundo que perverteu os símbolos da vida: bajulamos os que ostentam riquezas e educamos nossos filhos para que sejam como eles, sem nos dar conta de que as Escrituras afirmam: “Quem ama o dinheiro nunca se fartará de dinheiro” (Ecl 5, 9) Mas o papa Francisco, avesso a esse mundo que se perde, afirma que “Deus não tem medo das coisas novas! É por isso que está sempre a nos surpreender, a abrir nossos corações e a nos guiar por caminhos inesperados”.

 

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 

CONTEMPLAR

 

As folhas de bananeira produzem guarda-chuvas perfeitos, Sebastião Salgado (1941-), Amazonas, Contact Press Images, 2014, in http://www.washingtonpost.com/wp-srv/special/world/yanomami/.




quinta-feira, 29 de agosto de 2024

O Caminho da Beleza 41 - XXII Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

XXII Domingo Tempo Comum                    

Dt 4, 1-2.6-8          Tg 1,17-18.21-22.27         Mc 7, 1-8.14-15.21-23

 

 

ESCUTAR

“Nada acrescenteis, nada tireis à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo” (Dt 4, 2).

Sede praticantes da palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos (Tg 1,22).

“O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior” (Mc 7,15).

 

MEDITAR

A simples administração eclesiástica é insuficiente para realizar a missão da Igreja: é hora de as comunidades cristãs viverem uma “conversão pastoral”, marcada pelo testemunho.

(Francisco Catão)

 

ORAR

O agir cristão deve considerar as três conexões existentes no interior do Evangelho. A primeira é que não se permite uma escuta descompromissada. A Palavra dá um sentido novo à vida e determina uma mudança radical na aceitação da nossa existência. A Palavra confinada ao âmbito do sagrado; cristalizada numa prática religiosa episódica e que não atinge o espaço “profano” do viver, é uma Palavra morta. Uma Palavra que não determina um compromisso concreto é uma Palavra que nos condena. Devemos escutar e cumprir. A segunda é com a humanidade: “A religião pura e sem mancha diante do Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações”. Não basta nos sentirmos em dia com Deus mediante a prática cultual e religiosa. É urgente prolongar o serviço do templo numa liturgia da solidariedade, da fraternidade, da justiça e da misericórdia que se celebra ao longo do caminho. Testemunho que encontrei Deus se tenho a coragem de encontrar o irmão. Se rompermos esta íntima relação, a fé padecerá da deformação do intimismo, do espiritualismo desencarnado e do legalismo intolerante. A terceira dá-se entre o coração e a prática exterior. O Senhor não se contenta com a fachada porque faz a diagnose do coração. Jesus se refere ao coração como a fonte das ações. É no coração que amadurecemos as convicções profundas, as decisões fundamentais e as orientações da existência. O externo deve ser a expressão do que cresceu no íntimo do coração e não máscara, camuflagem e aparência. Deus está próximo quando a sua Palavra anima as ações, impulsiona-nos a encontrar o próximo e está semeada no coração. Quando simplesmente se dá escuta, culto e forma ao exterior, com certeza, o Senhor está em outra parte.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Madre Teresa de Calcutá, novembro de 1960, imagem: Keystone, Getty Images, Veja, veja.abril.com.br, 24/01/2014.





quinta-feira, 22 de agosto de 2024

O Caminho da Beleza 40 - XXI Domingo do Tempo Comum

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

XXI Domingo do Tempo Comum                

Js 24, 1-2.15-18                 Ef 5, 21-32              Jo 6, 60-69

 

 

ESCUTAR

“Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir” (Js 24, 15).

“Irmãos, vós que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros” (Ef 5, 21).

“Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6, 60).

 

MEDITAR

Há homens que lutam um dia e são bons; há outros que lutam um ano e são melhores; há os que lutam muitos anos e são muito melhores; mas há os que lutam toda a vida e estes são os imprescindíveis.

(Bertold Brecht)

Os pecadores conhecem a Deus, os justos continuam a procurá-Lo.

(Hans Urs von Balthasar)

 

ORAR

O desafio colocado para nós é o da escolha precisa a quem pretendemos servir. E o exercício cotidiano e necessário da liberdade nos conduz à decisão existencial mais profunda entre servir ao Senhor ou aos ídolos do poder, da aparência e do dinheiro. A Palavra de Jesus sempre provoca uma crise em cadeia. As multidões se afastam Dele, bruscamente, por verem interrompidos, sem piedade, os seus sonhos de grandeza. Os discípulos murmuram depois de O terem escutado e consideram sua Palavra inaceitável. Neles se difunde a desilusão, o temor e o desejo da deserção. Jesus não está preocupado com a quantidade nem com uma adesão superficial. Jesus sempre nos indaga: “Vós também vos quereis ir embora?” A sua palavra não espera aplausos nem negociações, pois o compromisso deve ser sem condições. O passo decisivo em sua direção chega por meio de uma palavra desafiadora e não por raciocínios convenientes. Somente uma linguagem firme e excessivamente dura pode forçar nossas resistências e derrubar os muros dos nossos medos. A palavra de Deus alcança sua finalidade, não quando está de acordo com os nossos desejos, mas quando descobrimos que Deus não pensa como nós. Paulo nos exorta a amar a Igreja apesar de tudo. A igreja é santa, mas feita de pecadores e não podemos confundir a Igreja dos nossos sonhos com a Igreja fundada por Cristo e sobre Cristo. A Igreja revela, mas também esconde Deus; manifesta-O, mas em certos momentos O obscurece; apresenta-O, mas às vezes O afasta. Não devemos nos esquecer que os sonhadores de uma pureza idealista da Igreja são inimigos do Reino (A. Maillot).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Pedro negando Jesus, Mark Christian Dachille, guache, Seatlle, Estados Unidos, 2012.





quarta-feira, 14 de agosto de 2024

O Caminho da Beleza 39 - Assunção de Nossa Senhora

A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

Assunção de Nossa Senhora  

Ap 11, 19; 12, 1.3-6.10                1 Cor 15, 20-27                  Lc 1, 39-56

 

 

ESCUTAR

“Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap 12, 1).

“O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Cor 15, 26).

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1, 42).

 

MEDITAR

Maria de Nazaré abandonando-se totalmente à vontade do Senhor, não foi de nenhuma maneira uma mulher passivamente submissa ou de uma religiosidade alienante, mas a mulher que não temia proclamar que Deus é aquele que eleva os humildes e oprimidos e derruba dos seus tronos os poderosos do mundo (Lc 1, 51-53).

(Groupe des Dombes)

 

ORAR

O destino de Maria não pode ser dissociado daquele que a tradição cristã reconheceu aos mártires e aos santos tantas vezes designados como “outros Cristos” e não é por acaso que o dogma da Assunção tenha sido promulgado na festa de Todos os Santos. A Assunção, que Deus antecipou para a mãe do seu Filho, é a realização de uma salvação que não está reservada só a Maria, mas que o Senhor deseja comunicar a todos os seus filhos e filhas: “Eu penso que o que sofremos durante a nossa vida não pode ser comparado, de modo nenhum, com a glória que nos será revelada no futuro” (Rm 8, 18). No encontro de Maria e Isabel, o Senhor não se utiliza somente de palavras, mas da linguagem do corpo, pois o filho de Isabel “pulou no seu ventre”. A saudação do Espírito Santo, pelos lábios de Isabel, é o sinal do amor e da inauguração de uma vida nova – de paz e justiça – anunciada pelo nascimento dos dois meninos. Na antiga tradição, é o filho que confere dignidade a uma mulher e Maria, bendita entre as mulheres, é a mais abençoada porque encontra sua fonte e seu fim no fruto do seu ventre. O Magnificat de Maria é o anúncio de que as promessas de Deus podem ser esperadas e que já começaram a ser cumpridas, pois por este cântico ela ensina a maneira concreta de se viver o Evangelho: ser perseverantes no Espírito e solidários, na travessia, com todos os homens e mulheres. A Assunção de Maria é e será também a nossa assunção: o florescimento do dom da vida que recebemos de Deus. Neste florescimento o corpo se transforma, se interioriza e, translúcido, se converte, para sempre, no sacramento de uma presença divina. Paulo nos afirma: “O Cristo transformará o nosso corpo fraco e mortal e fará com que fique igual ao seu próprio corpo glorioso, usando para isso o mesmo poder que ele tem para dominar todas as coisas” (Fl 3, 20-21). O tempo que nos é dado é um tempo de gestação e precisamos discernir o tempo da graça que nos é dado viver. Maria é bendita porque, despojada e pobre, escutou inteiramente a Palavra que a chamava ao amor ainda que “a tristeza, como uma espada afiada” fosse cortar o seu coração. A Assunção de Maria é fruto do consentimento à sedução irreversível do Senhor, como ela aprendera a ouvir: “Tu me seduzistes, Senhor, e eu me deixei seduzir (Jr 7,12). No entanto, na nossa liberdade podemos resistir Àquele que nos deseja e, então, a nossa vida e nosso élan ficam sepultados sob um montão de escombros – poder, dinheiro, ganância e hipocrisia – que são ruínas de morte e recusa. Deixemo-nos, como Maria, sermos desejados por Deus e, assim como ela, no mais íntimo de nós, entoemos o canto nupcial: “Filhas de Jerusalém, anunciai ao meu Amado que estou morrendo de amor” (Ct 5, 8).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Encontro de Maria e de Elizabeth (Isabel), 1986, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1944-), acetato de polivinil, óleo sobre tela de linho, 65 x 54 cm, França.