segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O Caminho da Beleza 40 - XXI Domingo do Tempo Comum


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


XXI Domingo do Tempo Comum                25.08.2019
Is 66, 18-21            Hb 12, 5-7.11-13                Lc 13, 22-30


ESCUTAR

“Eu, que conheço suas obras e seus pensamentos, virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão minha glória” (Is 66, 18).

“Firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés” (Hb 12, 12-13).

“Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita” (Lc 13, 24).


MEDITAR

A vida nova da qual Jesus pregou a existência é uma vida que não é dominada nem pelo medo da Lei, nem pelo medo da morte. Jesus, propriamente no Getsemani, torna-se o evento mesmo da porta que permite a vida passar além da angústia da morte e da Lei a tal ponto de se pensar que a morte mesma... possa se tornar a ocasião de uma transformação afirmativa da vida: “se o grão de trigo, caído na terra, não morre, ficará só; se morre, produz muito fruto” (Jo 12, 24).

(Massimo Recalcati, 1959-, Itália)


ORAR

            Mas, então, é possível, é concebível colocar a Jesus esta questão, de qualquer um no texto, esta questão que mais ou menos nos dizemos: Senhor, serão poucos os que se salvam? Esta questão não é a de um louvador, não é a de um crente. No fundo, é ela mesma uma questão, uma questão aberta? Questão de um doutrinador que solicita uma resposta definitiva e peremptória, capaz de fechar toda a discussão, toda a procura. A salvação? Um decreto bem firme fixa a conta, limitada, dos eleitos. Questão fechada... que aprisiona aquele que a exprime. Ele não está mais aberto: ele se estima salvo por direito. Ele não está disponível, disposto à salvação. A salvação: este Encontro para além de um Porta estreita. Dessa salvação: esse religioso não tem necessidade. Ele está bloqueado por sua autossuficiência. E sua oração, quando diz Senhor, abre-nos (Lc 13, 25) chega muito tarde. Pode-se orar diante de uma porta fechada. A oração é agora dizer: Senhor, disponha-nos ao Encontro. É dizer insaciavelmente: Senhor, abre-nos. Faça a mim, a nós, aos crentes abertos à Tua Palavra, a Teu Sopro, a Teu Desejo. Orar. Pedir a Abertura em nós. Senhor, abra meus lábios (Sl 50, 14). Mas para orar assim é preciso ver a Porta. Escutar o que ela me diz... Se vejo Jesus. Se vejo: de onde ele vem e onde ele vai. Se decido um dia segui-lo. Então: eis que ele mesmo se abre em mim, me dispondo nele, por ele e com ele ao Encontro. O tempo da existência humana é o tempo dado para a abertura: para amar. Aquele que ama passou da morte à vida (1 Jo 3, 14). A abertura é o acontecimento mesmo da salvação manifestada em Jesus Cristo. Se Jesus é a Porta (Jo 10, 9), o Espírito não é a Abertura? Jesus o entrega a nós: a fim de que ele nos abra totalmente à sua verdade e à sua alegria inteiras. O Espírito nos ensina esta única lição vinda Daquele que nos ama: a Porta se abre. A Porta conduz qualquer um para o interior, que nos espera. A Porta, ela diz: Entre. Faça o esforço de entrar. Dê-me a alegria de vos salvar. Quiçá me aconteça às vezes de rezar diante desta Porta que se abre e me convida a entrar em sua oração: Pai, quero que aqueles que me confiastes estejam também comigo (Jo 17, 24). A abertura, é nascer: do alto (Jo 3, 3), é viver: de Deus.

(Christophe Lebreton, 1950-1996, França, monge martirizado do Mosteiro de Thibirine, Argélia)


CONTEMPLAR

Passeio solitário, 1958, Fan Ho (1931-2016), Hong Kong.




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