Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a
muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).
III Domingo da Quaresma
Ex 17, 3-7 Rm
5, 1-2.5-8 Jo 4, 5-42
ESCUTAR
“Por que nos fizeste sair do
Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?”
(Ex 17, 3).
A esperança não decepciona,
porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm
5, 5).
“Dá-me de beber” (Jo 4, 7).
MEDITAR
O que farás, Deus, se eu
morrer?
Eu sou teu cântaro (e se eu
quebrar?)
Eu sou teu poço (e se eu
estagnar?)
Sou teu hábito e teu ofício.
Sem mim perdes o teu
sentido.
Sem mim não terás casa, onde
palavras, íntimas e quentes,
te abriguem,
Cairá de teus pés cansados
a sandália macia que eu sou.
Teu grande manto te cairá.
Teu olhar, que minha face
acolhe,
quente como um travesseiro,
virá de longe me procurar
e ao pôr do sol se aninhará
entre
estranhas pedras.
O que farás, Deus? Tenho
medo.
(Rainer Marie Rilke)
ORAR
Nas Escrituras
Sagradas, os poços e as fontes são lugares de reencontro e aliança entre os
homens e Deus. Em todas as tradições religiosas, as águas são fonte de vida,
meios de purificação e o seu aspecto inesgotável responde pela metáfora da
abundância. No casamento, o êxtase é comparado ao beber da própria água: “Bebe
a água de tua cisterna, bebe abundantemente de teu poço. Seja bendita a tua
fonte, exulta com a esposa de tua juventude: cerva querida, gazela formosa, que
suas carícias sempre te embriaguem, e constantemente te arrebate seu amor” (Pr
5, 15.18-19). O testemunho de Jesus nas suas andanças é ir ao encontro dos
outros com a liberdade que brotava dentro dele como um rio de água viva. Jesus
encontra a samaritana que cumpre a obrigação de buscar a água estagnada do
poço. Jesus não condena a samaritana e faz com que descubra a alegria acima do
prazer, o valor pessoal acima da beleza física e a dignidade acima da
capacidade de seduzir. Mas como vivenciar o encontro pessoal com Jesus se nos
contentamos com as informações pasteurizadas das redes sociais e não somos mais
pessoas originais, mas empreendedores de nós mesmos? Se a nossa espiritualidade
está abarrotada com as fáceis palavras dos livros de autoajuda e chamamos de
meditação os mantras dos slogans
religiosos que consumimos a torto e a direito? Somos a geração que foge dos
encontros pessoais e mergulhamos no fast
food religioso das palavras de efeito. O encontro com a samaritana desvela
o longo processo ao qual devemos nos configurar e pelo qual passa o caminho da
fé. A samaritana carrega uma angústia e quanto maior esta angústia maior é a
sensação do vazio. Jesus quer aniquilar este vazio e se identifica com ela:
está cansado e com sede. O diálogo de Jesus não é para vencer uma disputa, pois
Deus não está na derrota do outro. Nesta derrota faz morada apenas o narcisismo
de quem se toma com referência última de todas as coisas. Meditemos as palavras
de Abbé Pierre: “a fraternidade não é outra coisa do que um deslumbramento
partilhado”.
(Manos da Terna Solidão/Pe.
Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
Cristo e a
Mulher da Samaria, 1828, George Richmond (1809-1896), têmpera e ouro sobre mogno, 410 x
498 mm, Tate Gallery, Reino Unido.
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