quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Caminho da Beleza 07 - Santa Maria, Mãe de Deus

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Santa Maria, Mãe de Deus                

Nm 6, 22-27                       Gl 4, 4-7                   Lc 2, 16-21

 

ESCUTAR

“O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6, 26).

“Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4, 4)

“Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2, 19).

 

MEDITAR

O corpo humano é um corpo que se faz, um corpo que se transforma, um corpo que se espiritualiza, um corpo que se imortaliza e um corpo que respira Deus e que O revela.

(Maurice Zundel)

 

ORAR

    O ano civil se abre com a festa da Mãe de Deus. Maria, com seu consentimento ilimitado, revela uma fecundidade aberta ao Infinito e a resposta de Deus é uma maternidade cuja expansão é imprevisível. Cada afirmação dada ao Senhor é sempre restituída com o imprevisível do seu dom. Hoje comemoramos a jornada mundial da Paz e devemos estar lúcidos de que a paz só poderá ser construída quando os homens disserem um Sim, uns aos outros, como uma acolhida recíproca de cada um como irmão. O Evangelho chama de bem-aventurados os construtores da paz, uma paz que nunca será construída pelos poderosos da terra, que lucram com as guerras e que se imobilizam reciprocamente por meio dos arsenais nucleares e dos mísseis que desfilam diante das crianças nas festas da Pátria. Desfilam para adestrá-las a sentirem orgulho do poder bélico, sem saber que são poucos os que lucram com a fábrica de mortes que se sucede de geração em geração. Que se vingue a profecia de D. Hélder Câmara: “que se acabe, mas que se acabe mesmo, a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é a paz!”. O campo de guerra dos cristãos é um campo aberto cujas armas são o perdão, a tolerância, a compreensão, o respeito e a confiança. É necessário ensinar as crianças, para além dos seus video games, que há sempre um irmão para amar e não um inimigo a ser eliminado. Agindo desta forma, seremos merecedores do bendizer de Deus sobre nós para que sejamos transformados pela sua Palavra. Pedir a bênção de Deus é nos oferecermos, incondicionalmente, a Ele para que exerça em nós a Sua ação transformadora e nos vire do avesso. A bênção maior é o dom do Seu Filho por meio do qual volta para nós o Seu rosto e faz brilhar sobre nós a Sua face. Tudo é expressão de humildade: os pastores eram pessoas pouco recomendadas e o seu trabalho os impedia de frequentar as sinagogas e respeitar o sábado; tudo se passa em Belém, a casa do pão, e o Menino está deitado numa manjedoura que se torna uma bela imagem para Aquele que vem para ser alimento da humanidade. A Igreja de Jesus não deve procurar a companhia dos grandes, mas compadecer-se na amizade dos que são, falsamente, chamados de pobre gente. Meditemos as palavras do Cardeal Gianfranco Ravasi: “A Igreja, como Maria, deve viver a sua santidade e a sua fidelidade na existência ordinária dos homens sem procurar se distinguir ou se fazer notar e separar-se deles. A Igreja deve viver no meio deles nas circunstâncias ordinárias da vida”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Virgem amamentando, ou Galactotrophousa, Girgis Al-Musawwir, último quarto do século XVIII, têmpera sobre madeira, 32,4 x 26 cm, Arcebispado Grego-Católico de Alep, Síria.




 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família de Jesus, Maria e José

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Sagrada Família de Jesus, Maria e José             

Eclo 3, 3-7.14-17               Cl 3, 12-21               Mt 2, 13-15.19-23

 

ESCUTAR

“Quem honra o seu pai alcança o perdão dos pecados... quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros” (Eclo 3, 4).

“Vós sois amados por Deus, pois sois os seus santos eleitos” (Cl 3, 12).

“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2, 14).

 

MEDITAR

Ele armou sua tenda entre nós e nos revelou que o amor não conhece limites nem definições restritivas; ele leva aquele que ama ao ponto de desistir da própria vida pelo bem dos outros. Ele vai acima e além da linha do dever. É claro, isto é extravagante e absurdo, mas o Reino de Deus é para as aventuras da fé. Não é uma recompensa para a mediocridade.

(Manos da Terna Solidão)

 

ORAR

    Jesus viveu uma vida familiar durante trinta anos em Nazaré. Não são anos obscuros, mas vibrantes nos seus gestos, palavras e costumes porque são a irradiação do eterno, sacramentos do divino e sinal resplandecente do Deus Conosco. Jesus foi educado numa família comum, revelou o rosto do Pai no marco modesto de sua casa, o santuário em que permaneceu mais tempo. A casa de Nazaré não é, simplesmente, a sala de espera antes da sua partida para o testemunho público e o anúncio da Boa Nova. A família de Nazaré é o lugar do encontro com os homens e mulheres do seu tempo, da sua mensagem universal de amor, da sua palavra silenciosa e da transfiguração do humano. A sua casa de Nazaré foi o seu primeiro lugar de oração. Jesus nunca deixou para os seus as migalhas da sua atenção ainda que soubesse que o profeta nunca é bem recebido em sua casa e ainda que muitos dos seus parentes O considerassem como louco. Jesus não lhes foi indiferente, nem se irritou e nem se deixou dominar pela impaciência. Testemunhava que não poderia haver amor se não houvesse uma acolhida incondicional. A festa da Sagrada Família é a festa da liturgia do cotidiano feita de hospitalidade recíproca, pequenos gestos, palavras simples, carícias distribuídas sobre as pequenas feridas do outro, ternura manifestada sem falsos pudores e gratidão pela presença samaritana dos que estão perto de nós. Devemos ser uma comunidade familiar, uma Igreja doméstica profundamente unida porque nos alicerçamos sobre a adesão comum e incondicional aos desígnios de Deus.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Fuga para o Egito, imagem sem referência.




sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O Caminho da Beleza 05 - Natal do Senhor

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo                     

Is 52, 7-10               Hb 1, 1-6                  Jo 1, 1-18

 

ESCUTAR

Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação (Is 9, 7).

Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo (Hb 1, 1-2)

E a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14).

 

MEDITAR

O sagrado no Cristo não é qualquer coisa que existe sob os ferrolhos ou que é colocada atrás das grades ou ainda sob véus impenetráveis. O sagrado em Jesus é o homem, é o próprio homem. São as nossas mãos, o trabalho de nossas mãos; são os nossos olhos e a luz que os preenche; são os nossos corações e esta maravilhosa capacidade de amar. Isto tudo é o que constitui o sagrado que perpetua a Encarnação e que não cessa de tornar presente o Cristo entre nós.

(Maurice Zundel)

 

ORAR

     Natal significa que “um Menino nos nasceu” e este é o sinal para a Humanidade. Nada de grandioso ou espetacular, pois Deus para nos encontrar escolhe o caminho da modéstia e da pequenez. O Natal significa que o sorriso divino pousou sobre as nossas misérias, devolveu a esperança e nos abriu todas as possibilidades futuras. Este rosto do Menino não é mais o de um Deus distante, carrasco; nem o de um Deus desiludido e traído. Este rosto terno e carinhoso revela a única condição para conquistarmos a vida eterna: deixarmo-nos amar. O Natal não é apenas uma data inventada, mas o início da Boa Nova que nos faz saber que apenas um escapou do censo ordenado por Cesar Augusto e que, portanto, não foi incluído como um dado estatístico. Não comemoramos uma data que colocou tudo em ordem, mas um início de um tempo em que a justiça de Deus se manifesta em toda a sua plenitude. A solidão acabou porque os homens e mulheres têm a mão que os guia, que os salva e os consola. O evangelista revela que o Verbo não somente entra no mundo, mas se torna um membro da humanidade e declara que a presença de Deus (Shekinah), até então na tenda da Aliança, está agora plenamente realizada na tenda de carne do Emmanuel. A divindade não se sobressai como um árbitro destacado e eterno do contexto terrestre, mas está implicada na complexidade da realidade humana. O evento decisivo da nossa existência e o artigo de fé fundamental do cristianismo é a encarnação do Verbo. No Natal, é desvelado que o Cristo é a Palavra que exige escuta; é a Vida que exige adesão do coração; é a Luz que exige a luta contra a cegueira para que possamos todos juntos, peregrinos, construir a cada nova geração um mundo de justiça e paz. No entanto, alguns natais são anunciados sem nenhum engajamento de fé. Um natal folclórico, mercantilizado, ruidoso e de um ritualismo consumista; um natal emotivo, marcado pelo infantilismo e que, apesar dos sentimentos, sabe calcular os impulsos de generosidade; um feriado natalino para ser aproveitado em viagens esnobes, que nos levem o mais distante possível de todos. Finalmente, um natal dos que foram um dia batizados e que, ao menos uma vez por ano, vestem o disfarce de cristãos para poder passar pelo umbral das igrejas mais próximas que lhes ofereça um horário de celebração mais cômodo para não atrapalhar a ceia natalina e a troca de presentes. Outros natais são possíveis de ser acrescentados à lista uma vez que são apenas pretextos para qualquer coisa. Que neste dia de Natal sejamos capazes de colocar nas nossas vidas um pouco menos de qualquer coisa, como os restos de nossas ceias. Que sejamos capazes de conseguir um pouco menos de alienada religiosidade e um pouco mais de fé comprometida com Aquele cujo nome é “Conselheiro Admirável, Deus Guerreiro, Pai dos Tempos Futuros e Príncipe da Paz” (Is 9, 5).

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Mistério da Encarnação, 1954, Louis Rivier (1885-1963), tríptico da Encarnação (painel central), 250 x 150cm, Lausanne, Suíça.