Como
se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).
III Domingo da Quaresma
Ex 3, 1-8.13-15 1 Cor 10, 1-6.10.12 Lc
13, 1-9
ESCUTAR
“Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-los das mãos dos egípcios e fazê-los sair daquele país para uma terra boa e espaçosa, uma terra onde corre leite e mel” (Ex 3, 7-8).
“Não murmureis, como alguns deles murmuraram e, por isso, foram mortos pelo anjo exterminador. Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” (1 Cor 10, 10.12).
“Certo homem tinha uma figueira
plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou” (Lc 13, 6).
MEDITAR
O Reino une. A Igreja divide
quando não coincide com o Reino.
(D. Pedro Casaldaliga)
ORAR
O Senhor se
revela, sobretudo, nas ações realizadas em favor do seu povo e estas ações
exigem, de nossa parte, uma resposta precisa. Não basta maravilhar-se apenas, é
necessário corresponder a elas no dia a dia. Muitas vezes o orgulho habita as
nossas práticas e deturpa o sentido real da vida cristã. Os sacramentos não são
a garantia contra a tentação, o risco da concessão e o perigo da infidelidade.
Eles não são o ponto definitivo da chegada, mas acompanham o largo caminho que
devemos percorrer, passo a passo, na imperiosa busca de coerência e de verdade.
Os que acreditam são itinerantes, peregrinos e permanecem firmes “como se
vissem o Invisível” (Hb 11, 27). Nesta travessia, a existência cristã estará
sempre ameaçada pela arrogância: “Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado
para não cair”. Devemos estar alertas para não seguirmos as trilhas de uma
espiritualidade irresponsável, uma vez que, a esperança não dispensa a
vigilância e a confiança não exclui os olhos abertos. O Senhor vê a aflição do
seu povo e está presente no mundo se não estivermos ausentes; está perto dos
homens se nos fizermos próximos. Quando o Senhor se revela não é para
satisfazer a curiosidade nem para facilitar informações gratuitas, mas para que
assumamos o que deve ser feito. Moisés se aproxima curioso: “Vou aproximar-me
desta visão extraordinária para ver por que a sarça não se consome” e a sua
curiosidade se converte em missão: recebe do Senhor a ordem de libertar o seu
povo da escravidão. O Evangelho revela que nenhuma árvore plantada pelo Senhor
é puro adorno. As figueiras e as vinhas para os israelitas eram o sinal de que
um dia possuiriam a Terra Prometida e os fazia recordar o paraíso perdido. A
vinha do Senhor é o povo eleito e contém algo de misterioso: ela só vale pelos
frutos que produz e oferece. O Filho pede ao Pai um pouco de paciência para que
o tempo do amor, que ainda será dedicado à figueira sem frutos, possa garantir
a ela uma nova possibilidade. A figueira pode se tornar uma intrusa na vinha do
Senhor caso não frutifique assim como a Sinagoga não criava comunidades de
amor, mas relações mercantilizadas em que o dinheiro era o grande e o único
ídolo. O Senhor é tão clemente que se compadece, quando nós, rompendo o
orgulho, confessamos a nossa impossibilidade de dar frutos. Podemos ser
atacados pelo fungo das boas intenções e pelo caruncho da acomodação que nos
aprisionam num espiritualismo de fuga que confunde a vida espiritual –
conduzida pela liberdade do Espírito – com uma vida interior presa dentro de si e para si. O Senhor pode até
esperar que descubramos e abracemos a Cruz do Filho que é a única árvore que
não trai as nossas esperanças. É a compaixão do Pai que nos permite o
arrependimento e o recomeçar de cada novo dia, pois nenhuma instituição
religiosa poderá colocar limites à misericórdia de Deus. Meditemos as palavras
do dominicano Bruckberger: “O demônio é um puritano de finos tratos. Estou
certo que o anticristo será semelhante a ele neste ponto: a sua corte será
virtuosa no sentido mais vulgar e corrente do vocábulo; as esposas tricotarão
para as suas obras de caridade e seus maridos beberão leite e não terão
amantes, pois as verdadeiras cumplicidades com o demônio não estão no plano
destes pecados ordinários”. Quem puder entender que entenda!
(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo
Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
A Sarça Ardente,
1990, Shraga Weil (1918-2009), serigrafia n. 244/400, 107 cm x 76 cm, Israel.
Gostei muito dessa passagem da figueira plantada na vinha. A explicação foi importante!
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