quarta-feira, 4 de março de 2026

O Caminho da Beleza 18 - III Domingo da Quaresma

Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).


III Domingo da Quaresma                

Ex 17, 3-7                 Rm 5, 1-2.5-8                    Jo 4, 5-42

 

ESCUTAR

“Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?” (Ex 17, 3).

A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5, 5).

“Dá-me de beber” (Jo 4, 7).

 

MEDITAR

O que farás, Deus, se eu morrer?

Eu sou teu cântaro (e se eu quebrar?)

Eu sou teu poço (e se eu estagnar?)

Sou teu hábito e teu ofício.

Sem mim perdes o teu sentido.

 

Sem mim não terás casa, onde

palavras, íntimas e quentes, te abriguem,

Cairá de teus pés cansados

a sandália macia que eu sou.

 

Teu grande manto te cairá.

Teu olhar, que minha face acolhe,

quente como um travesseiro,

virá de longe me procurar

e ao pôr do sol se aninhará entre

estranhas pedras.

 

O que farás, Deus? Tenho medo.

(Rainer Marie Rilke)

 

 

ORAR

     Nas Escrituras Sagradas, os poços e as fontes são lugares de reencontro e aliança entre os homens e Deus. Em todas as tradições religiosas, as águas são fonte de vida, meios de purificação e o seu aspecto inesgotável responde pela metáfora da abundância. No casamento, o êxtase é comparado ao beber da própria água: “Bebe a água de tua cisterna, bebe abundantemente de teu poço. Seja bendita a tua fonte, exulta com a esposa de tua juventude: cerva querida, gazela formosa, que suas carícias sempre te embriaguem, e constantemente te arrebate seu amor” (Pr 5, 15.18-19). O testemunho de Jesus nas suas andanças é ir ao encontro dos outros com a liberdade que brotava dentro dele como um rio de água viva. Jesus encontra a samaritana que cumpre a obrigação de buscar a água estagnada do poço. Jesus não condena a samaritana e faz com que descubra a alegria acima do prazer, o valor pessoal acima da beleza física e a dignidade acima da capacidade de seduzir. Mas como vivenciar o encontro pessoal com Jesus se nos contentamos com as informações pasteurizadas das redes sociais e não somos mais pessoas originais, mas empreendedores de nós mesmos? Se a nossa espiritualidade está abarrotada com as fáceis palavras dos livros de autoajuda e chamamos de meditação os mantras dos slogans religiosos que consumimos a torto e a direito? Somos a geração que foge dos encontros pessoais e mergulhamos no fast food religioso das palavras de efeito. O encontro com a samaritana desvela o longo processo ao qual devemos nos configurar e pelo qual passa o caminho da fé. A samaritana carrega uma angústia e quanto maior esta angústia maior é a sensação do vazio. Jesus quer aniquilar este vazio e se identifica com ela: está cansado e com sede. O diálogo de Jesus não é para vencer uma disputa, pois Deus não está na derrota do outro. Nesta derrota faz morada apenas o narcisismo de quem se toma com referência última de todas as coisas. Meditemos as palavras de Abbé Pierre: “a fraternidade não é outra coisa do que um deslumbramento partilhado”.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

Cristo e a Mulher da Samaria, 1828, George Richmond (1809-1896), têmpera e ouro sobre mogno, 410 x 498 mm, Tate Gallery, Reino Unido.