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quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

O Caminho da Beleza 08 - Batismo do Senhor

Como se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).


Batismo do Senhor                    

Is 42, 1-4.6-7                     At 10, 34-38                       Lc 3, 15-16.21-22

 

ESCUTAR

“Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minha alma” (Is 42, 1).

“Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34).

Enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba (Lc 3, 21-22).

 

MEDITAR

Um homem que caminha, um pássaro que voa, uma folha que tomba: tudo anuncia o começo de uma dança. No coração do átomo e no ballet dos astros, o ritmo e a harmonia são semeados por nossos Criador e Pai. Escutar a música, olhar a dança são verdadeiras orações.

(D. Helder Câmara)

 

ORAR

Jesus não se enquadra nos esquemas e nos escaninhos que os homens predispuseram para Ele. Jesus desmente a própria imagem apresentada pelo Batista: um Messias cheio de ira e que colocaria ordem “na casa”. O estilo de Jesus não casa com os gostos e as previsões dos que O esperavam. O seu modo diferente de ser é o de Servo (Is 42, 1ss): que não faz publicidade, não enche as praças com uma voz potente e sonora cheia de retóricas e ameaças. Ele é solidário com os perdedores, com os fracos; com os capazes de dar confiança e sustentar a esperança. Ele se coloca ao lado dos pobres e daqueles que não contam para a sociedade da opulência e do consumo. O batismo prefigura a morte e a ressurreição de Jesus. A imersão no rio simboliza a ação de morrer e o seu emergir a vida nova que surge e é selada pelo abrir do céu e a voz do seu Pai que declara o seu bem querer. O céu aberto para sempre traz o novo dia e nos faz saber que o muro entre Deus e os homens foi destruído: Deus não é mais o Inacessível. Jesus tem preferência por todos e “andava por toda a parte fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio, porque Deus estava com ele”. Jesus manifesta o seu poder ao se ocupar dos fracos e se revelar como manso e humilde de coração. O nosso batismo deve ultrapassar os registros dos arquivos paroquiais numa prática cristã que honre os compromissos que outros assumiram por nós. Não basta delegar à certidão paroquial a prova de que somos batizados. É necessário que o batismo seja assumido por nós para que não se sepulte como um ato convencional e social. Caso contrário, seremos demissionários do nome de cristãos que nos deram. Antes, quando crianças, não podíamos ler o Evangelho. Agora, podemos e devemos, pois temos o direito de saber o que somos e qual a prática de vida que nos qualifica como cristãos. Batismo e manifestação de Jesus de Nazaré coincidem. O que agrada o Senhor não são os ritos carentes de amor, mas uma vida “em espírito e em verdade” no Espírito de Jesus. O cardeal Ratzinger escrevia: “O batismo é o arco-íris de Deus sobre nossa vida, a promessa do seu grande Sim, a porta da esperança e o caminhar numa união viva e pessoal com Jesus Cristo pelos seus caminhos. Olhando para Ele sabemos que Deus é maior que o nosso coração” (Homilia do Batismo, 07.01.1990). Paulo nos exorta: “Não matem o Espírito de Deus” (1 Ts 5, 19) e uma igreja com o Espírito apagado ou esvaziada do Espírito de Jesus não pode viver e nem comunicar sua verdadeira novidade e, muito menos, saborear e proclamar a Boa Nova.

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR

O Batismo do Cristo, s.d., Daniel Bonnell, óleo sobre tela, 92” x 46”, Igreja Missionária Baptista do Monte Calvário, Carolina do Sul, Estados Unidos.





quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

O Caminho da Beleza 07 - Epifania do Senhor

Como se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).


Epifania do Senhor                   

Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3a.5-6                    Mt 2, 1-12

 

ESCUTAR

 “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 6).

“O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém” (Mt 2, 3).

 

MEDITAR

A Igreja Católica exorta seus filhos ao diálogo e à colaboração com os seguidores das outras religiões, para que deem o testemunho da fé e da vida cristã, reconhecendo, servindo e promovendo os bens espirituais e morais assim como os valores socioculturais presentes nelas.

(Nostra Aetate, 2)

Temos de renunciar ao cristianismo, se nos obrigarem a renunciar a essas dialéticas esquartejadoras dos sentimentos cristãos, reduzindo-as à escala das sentimentalidades cômodas. Temos que romper a puerilidade de um cristianismo que produz homens delicados e frágeis que nunca avançam para uma fé comprometida, pois "vivem tremendo e murados em suas defesas"

(Emmanuel Mounier)

 

ORAR

Hoje é a festa da luz porque a manifestação do Senhor, a sua epifania, é inseparável da luz. Quando o Senhor se manifesta, existem os que ao responder se colocam em caminho e buscam. Há outros, porém, que se escondem e dissimulam as suas vidas e os seus encontros. Os magos foram tomados de uma imensa alegria enquanto Herodes ficou perturbado assim como a Jerusalém do poder e do saber. Os sumos sacerdotes e os escribas foram convocados para uma reunião de emergência e nela manifestam o seu incômodo e desconfiança. É significativo que a aparição da “bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4) suscite perturbação nos que detêm o poder civil e religioso. A presença de Deus que se manifesta na fraqueza surge como um perigo e uma ameaça para a ordem estabelecida e para as posições consolidadas. O Cristo constitui uma ameaça para o nosso reino privado ao colocar em xeque nossos equilíbrios cansados e nossas falsas seguranças. O Papa Francisco afirma: “Preferem uma vida enjaulada em seus preceitos, em seus compromissos, em seus planos revolucionários ou em sua espiritualidade desencarnada” (Homilia 20.12.2013). O cristão lúcido sabe que é melhor a perturbação do que a indiferença; é melhor o compromisso do que a neutralidade; é melhor a recusa do que a ambiguidade. O cristão sabe que é necessário um coração para assombrar-se e alargar-se. O profeta desvela a expansão da luz e a sua alegria contagiosa. O evangelista, por sua vez, dá a conhecer o medo dos sábios cuja busca finda em suas bibliotecas palacianas, no meio dos pergaminhos cobertos de pó nos quais procuram sentenças definitivas. O caminho, com as suas imprevisibilidades e surpresas, não é o seu assunto. O coração dos magos é o coração dos que buscam, apaixonadamente, abrigar o mistério. O coração dos detentores do poder é árido, mesquinho e intolerante. Os magos nos revelam que entre o relâmpago do surgimento da estrela e o seu acompanhamento até o último trecho do caminho seremos assomados por dúvidas, cansaços, perdas e desilusões, mas, sobretudo, por esperanças. A estrela surge como uma chispa de fogo, acende o desejo e só volta a brilhar intensa e permanentemente no final quando o encontro se realiza. A busca não é nunca uma marcha triunfal: implica numerosas partidas e recomeços e não devemos dela esperar manifestações espetaculares. O que conta é a perseverança: a capacidade de não desertar, de não ceder ao desalento, de não se desviar para cômodos refúgios e nem se contentar com conquistas provisórias; a obstinação para caminhar quando tudo parece inútil, absurdo e impossível. E o que mais conta ainda é o discernimento de que para adorar a Deus é preciso nos deter diante do mistério do mundo e saber olhá-lo com amor. Quem olha a vida amorosamente começará a vislumbrar as vibrações de Deus antes mesmo de ser envolvido por elas. 

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

CONTEMPLAR 

Viagem perigosa, 2018, Jacob Ehrbahn (1970-), Dinamarca, Siena International Awards Photo.





sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família, Jesus, Maria e José

Como se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).


Sagrada Família, Jesus, Maria e José                   

Eclo 3, 3-7.14-17               Cl 3, 12-21               Lc 2, 41-52

 

 

ESCUTAR

 

Quem respeita o seu pai, terá vida longa, e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe (Eclo 3, 7).

 

Vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro (Cl 3, 12-13).

 

Voltaram para Jerusalém à sua procura. Três dias depois, o encontraram no templo... “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos angustiados à tua procura”. Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”. Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera (Lc 2, 46.48-49).

 

 

MEDITAR

 

Sim, tu me deste muito. Mas eu te peço muito mais. Não venho a ti só por um gole d’água. Quero a fonte. Não venho para que me levem apenas até a porta. Quero ir até a sala do Senhor. Não venho apenas para receber o dom do amor. Desejo o próprio Amante.

 

(Rabindranath Tagore)

 

Deus diz: “Eu sou a bondade soberana de todas as coisas. Eu sou o que faz você amar. Eu sou o que faz você durar e desejar. Eu sou isto – o cumprimento sem fim de todos os desejos”.

 

(Julian de Norwich)

 

 

ORAR

 

Na tradição do Antigo Testamento, a família era constituída para procriação e repousava sobre uma estrutura patriarcal de parentesco cujo principal cuidado era a perpetuação de uma linhagem. A família de Jesus é uma reviravolta nesta tradição. Maria, como rezava a tradição, havia sido “prometida a um homem chamado José, da família de Davi” (Lc 1, 27), mas o Arcanjo Gabriel lhe anuncia algo absolutamente revolucionário: a nova família será constituída a partir de afinidades eletivas e escolhas amorosas. José, em sonho, ouviu a palavra do anjo e a respondeu acolhendo a jovem e a criança que ela carregava no ventre, ainda que não fosse o autor desta gravidez e nem o genitor deste filho. José confia e se coloca disponível: "José não tenhas medo de acolher Maria como tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo”. Uma mulher plena do Espírito de Deus não pode e nunca poderá ser submissa. Maria, em vigília, ouve a palavra do anjo e, apesar de temerosa e perturbada confia e se coloca à disposição do desígnio de Deus. Ouvir a palavra, responder com um sim incondicional e estar absolutamente disponível são os novos pilares desta nova estrutura familiar na qual o amor recíproco e o crer sustentam a comunidade cristã e cada família nas suas plurais formas de existir. José e Maria ensinam – ele em estado de sono e ela em estado vigília – que devemos estar sempre, consciente ou inconscientemente, disponíveis para escutar e acolher a palavra de Deus. Não podemos nos confundir: existe um abismo entre sermos pais e genitores. Um homem e uma mulher precisam de alguns segundos para se tornar genitores e são estes que veem seus filhos como propriedade particular, preocupados em fazer crescer o patrimônio familiar e em continuar o sobrenome da família. Na família de Deus, gerada a partir de Maria, José e Jesus, ser pai, mãe e filho é uma aventura de outra natureza. É uma escolha amorosa, uma afinidade eletiva e um compromisso de entrega para educar e conduzir os seus filhos e filhas para opções de liberdade que poderão gerar mais vida e mais desejos. Para a mentalidade retrógada dos que se reduziram à família nuclear burguesa tudo escandaliza nesta Santa Família. A família de Deus se concretiza de uma forma extraordinária aos padrões convencionais sacralizados: José, um homem sem mulher; Maria, uma virgem sem esposo e Jesus, uma criança sem pai. Deus revela, para todo o sempre, que o mais importante é a adoção pelo coração, o centro da vida. A revelação perturbadora é a de que só existem pais adotivos que superam a sua condição de genitores biológicos quando há a atitude radical da disponibilidade de dar a sua vida pelos que amam. Esta, segundo Jesus, é a maior prova de amor. Cada filho é portador de um mistério. Existe nele uma vocação pessoal, única, que nunca se repete e que jamais poderá ser sacrificada aos nossos projetos egoístas, às nossas ambições utilitaristas. Cada componente da família representa uma realidade consagrada que deve ser respeitada e valorizada. Nenhuma postura arbitrária contrária à dignidade e à liberdade deve profanar essa sacralidade que é própria da pessoa. A Sagrada Família nos ensina que devemos viver e preparar os nossos filhos para a imprevisibilidade de Deus. Somente o exercício da oração e do silêncio poderá trazer, como trouxe aos pais de Jesus, a inteligência da carne, do coração e do espírito. E, neste silêncio, poderemos descobrir, como afirma Paulo, que “somos cidadãos do céu” (Fl 3, 20). A família de Deus é cósmica e nela se cumpre a Sua promessa: “Eis que farei novas todas as coisas e renovarei o universo!” (Ap 21, 5).

 

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 

CONTEMPLAR

 

A Virgem corrigindo o Menino Jesus diante de três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o pintor, 1926, Max Ernst (1891-1976), óleo sobre tela, 196 cm x 132 cm, Museu Ludwig, Colônia, Alemanha.




quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

O Caminho da Beleza 05 - Santo Estêvão, Diácono e Protomártir

Como se visse o Invisível, mantinha-se firme (Hb 11, 27).


Santo Estêvão, Diácono e Protomártir

At 6, 8-10; 7, 54-59                     Mt 10, 17-22

 

 

ESCUTAR

 

Enquanto o apedrejavam, Estêvão clamou, dizendo: “Senhor Jesus, acolhe o meu espírito” (At 7, 59).

 

“Cuidado com os homens, porque eles vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas suas sinagogas” (Mt 10, 17).

 

 

MEDITAR

 

Quando Deus chama um homem para ser profeta, ordena-lhe que vá e morra! 

 

(Dietrich Bonhöeffer)

 

 

ORAR

 

Neste dia seguinte do nascimento de Emannuel, a liturgia da Igreja nos coloca diante da única certeza que temos: a de que o verdadeiro seguimento do Cristo nos conduzirá inevitavelmente ao martírio, pois o “o discípulo não está acima do mestre nem o servo é maior que o seu Senhor” (Mt 10, 24). Estevão denunciava no Templo e diante do Sumo sacerdote: “Duros de cabeça, incircuncisos de coração e ouvidos, resistindo sempre ao Espírito! Sois como vossos pais. A qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Mataram os que profetizavam a vinda do Justo, esse mesmo que agora traístes e assassinastes! Vós, que recebestes a lei por ministério de anjos, e não a observastes” (At 7, 51). O contraponto desfila ante os nossos olhos. Estevão, pleno do Espírito Santo, tem a visão do céu aberto e o seu corpo nu, “templo do Espírito Santo”, é apedrejado com as pedras caídas no entorno do Templo. As vestes de Estevão são deixadas aos pés de Saulo, raízes de ódio e intolerância, que com seus olhos, voltados para o chão, rastreiam os discípulos do Ressuscitado. Devemos responder ao questionamento sob quais poderes colocaremos nossas vidas. Sob o poder do amor, que nos leva a reconhecer no outro amado um ser divino? Ou sob o poder do medo que nos faz erigir o outro em Deus? Esta escolha decidirá sobre o céu ou o inferno em que vamos mergulhar as nossas existências e travessias. Todo elo de amor possui a força de libertar, confirmar, expandir, tanto nós quanto os outros. Ao contrário, todo grilhão de medo, humilha, diminui e reduz à servidão os que se aproximam de nós. O amor enriquece, o medo devasta. O primeiro desmoronamento das nossas certezas é aquele da religião oficial. Os discípulos de Jesus se extasiavam diante do Templo: “Mestre, olha que pedras e que construções!” (Mc 13, 1) assim como nós nos deslumbramos diante dos nossos monumentos, da organização institucional e do tesouro cultural acumulado pelas igrejas no decorrer dos séculos. Bastaria, no entanto, um pouco de atenção para descobrir a fragilidade e a caduquice de toda esta petrificação da vida religiosa. Por mais poderosas que possam ser as escarpas e as muralhas erguidas pelo medo, pela mentira e pela hipocrisia, será impossível fazer escoar nelas a fé, pois o Deus de Jesus Cristo não arquiteta o seu poder pelo aviltamento dos outros. O Evangelho de hoje nos garante outra certeza: quando estivermos numa situação-limite e totalmente atônitos, o Espírito de Deus falará sempre através do nosso ser mais íntimo, pois somos os seus indestrutíveis templos espirituais. A identidade entre Jesus e Estevão se perpetua no momento extremo da entrega: “Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito” (Lc 23, 46) e “Senhor Jesus, acolhe o meu espírito”. Restar-nos-á a justiça das palavras de Jesus: “Vês esses grandes edifícios? Pois desmoronarão, sem que fique pedra sobre pedra” (Mc 13, 2).

 

(Manos da Terna Solidão/Pe. Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)

 

 

CONTEMPLAR

 

O corpo ensanguentado de Dom Oscar Romero jaz no solo da capela assistido por monjas do hospital, 24 de março de 1980, autor da foto não identificado, San Salvador, El Salvador.