Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a
muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).
III Domingo da Páscoa
At 2, 14.22-23 1
Pd 1, 17-21 Lc 24,
13-35
ESCUTAR
“Deus, em seu desígnio e
previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o
matastes, pregando-o numa cruz” (At 2, 23).
Sabeis que fostes
resgatados da vida fútil herdada de vossos pais não por meio de coisas
perecíveis, como prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de
um cordeiro sem mancha nem defeito (1 Pd 1, 18-19).
“Não estava ardendo o nosso
coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc
24,32).
MEDITAR
Devemos acolher com
hospitalidade o Cristo presente no forasteiro para que no dia do julgamento Ele
não nos ignore como estrangeiros, mas nos receba como irmãos em seu Reino.
(São Gregório Magno)
Pouco tempo depois vieram as
famílias da vizinhança chorar conosco; famílias expulsas, na neve, em pleno
inverno: eram as férias de Natal. A casa estava cheia de jovens. Eu havia
procurado todo o dia e não encontrei nenhum lugar para alojar uma família. Então,
à tarde, eu retirei o Santíssimo Sacramento da pequena peça aquecida que servia
de capela e o coloquei no celeiro onde não havia fogo. E lá, onde havia fogo,
coloquei as camas das crianças e dos pais. Os rapazes e as moças me disseram: “Padre,
isto não é conveniente! Onde rezarás a missa amanhã?”. E eu respondi: “Eu creio
com toda a força da minha fé que o Amor infinito tornou-se homem, tornou-se pão
e lá na hóstia consagrada, com uma fé inteligente, sei que não é na hóstia que
Jesus tem frio esta noite. Ele tem frio nas mãos e nos pés destas pequenas
crianças, e se amo, são estes que sofrem que devo colocar onde há fogo”.
(Abbé Pierre)
ORAR
Quando o
Ressuscitado nos deseja a paz não quer dizer que devemos estar tranquilos, mas que
devemos abrir os olhos para fazer novas todas as coisas (Ap 21, 5) e não correr
o risco de voltar atrás. A palavra profética faz uma reviravolta em nossos
corações e nos obriga a uma mudança radical no modo de valorizar os nossos
atos. Nós nos assemelhamos aos discípulos de Emaús: estamos muito bem
informados das últimas notícias e o Cristo parece estar desinformado e com a
necessidade de ser atualizado. Temos uma dificuldade, e nem fazemos nenhum
esforço, para compreender e interpretar o significado das coisas que acontecem.
Jesus, antes de ser reconhecido ao partir o pão, revela as Escrituras e
revela-se a si mesmo. A Páscoa não é um relato de uma grande ilusão nem uma
estória a ser contada e recontada. A fé não recobre as lacunas da nossa
intuição ou da nossa experiência e muitas vezes nos perdemos na proliferação
dos nossos conceitos. Os discípulos tinham uma abundante informação sobre
Jesus: suas lembranças históricas e o relato das mulheres e, no entanto, foram
incapazes de reconhecer o Vivente ao seu lado caminhando com eles. Os
discípulos haviam perdido a fé e a esperança.
Mortos, marchavam com um Vivo; mortos, marchavam com a Vida ainda que
seus corações não houvessem ainda retornado à vida. Para eles, Jesus estava
morto e ponto final: “Pena que tenha terminado assim”. Quando Jesus os
reencontra haviam perdido o caminho. Apesar de que tudo houvesse sido dito
sobre o sofrimento, a morte e a ressurreição, eles haviam perdido a memória
sobre tudo que acontecera. Não lhes ardia mais o coração, pois perderam a
intimidade com Jesus vivo. E quando perdemos esta intimidade tudo se torna
inútil. Estavam sem esperança, sem meta e nem objetivo, porque Jesus havia
desaparecido de suas vidas. Jesus sempre nos alcança, não só quando O buscamos,
mas, sobretudo, quando fugimos da vida em comunhão e nos isolamos dos outros.
Neste reencontro, Jesus nos envia novamente cheios de vida, para contagiar com
a paz cada casa, aliviar o sofrimento e anunciar que Deus está próximo e se
preocupa conosco. O Ressuscitado torna
possível esta passagem da não-fé à fé no decorrer de uma refeição
partilhada. São três as conversões no
caminho de Emaús: a da tristeza em alegria; a da obscuridade à luz e a
conversão à vida comunitária: “Voltaram para Jerusalém, onde encontraram os
onze reunidos com os outros”. O Ressuscitado se revela na hospitalidade e a
partilha do pão torna o Vivente presente e permite a fé nascer. Meditemos as
palavras de Agostinho de Hipona: “Acolha o estrangeiro, se queres reconhecer o
Salvador. Isto que a dúvida fez perder, a hospitalidade resgatou. O Senhor
manifestou a sua presença na partilha do pão”.
(Manos da Terna Solidão/Pe.
Paulo Botas e Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
Os discípulos de Emaús, 1998, Jean-Marie Pirot,
Arcabas (1926-2018), tríptico, 4,0 x 2,5 m, Igreja de Cognin, França.
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