Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a
muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).
II Domingo da Quaresma
Gn 12,
1-4 2 Tm 1, 8-10 Mt 17, 1-9
ESCUTAR
“Sai da tua
terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou
mostrar. Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome,
de modo que ele se torne uma benção. Abençoarei os que te abençoarem e
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão abençoadas todas as famílias
da terra!” (Gn 2, 1-3).
“Esta graça
foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não
só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio
do Evangelho” (2 Tm, 10).
“Jesus tomou
consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão e os levou a um lugar à parte, sobre uma
alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol
e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (Mt 17, 1-2).
MEDITAR
Todos nós
seríamos transformados se tivéssemos a coragem de ser o que somos.
(Marguerite
Yourcenar)
A Palavra de
Deus convida cada pessoa a viver totalmente. Com suas forças de ser. Com seus
limites. E sem se sentir culpada de ser uma criatura inacabada e sacudida pelos
seus desvios e suas contradições. Finalmente, a única indagação de Deus será
talvez: ‘Você se tornou você mesma?
(Yvan
Portras)
ORAR
O evangelista
nos revela a identidade de Jesus: o filho Amado. O Cristo é a tenda, presença
perfeita e definitiva do Pai. No final da cena, ao centro, se ergue tão somente
a figura de Jesus. O Filho é a tenda da Shekinah,
a Divina Presença. A Transfiguração é o desvelamento do destino e do mistério
de Jesus e também do nosso destino e mistério. Para todos se abre um horizonte
de luz: “Amados, já somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que
seremos. Sabemos que, quando ele aparecer seremos semelhantes a ele e o veremos
como ele é” (1 Jo 3, 2). O Transfigurado passa pela obscuridade da história e
da morte. Jesus presente no nosso cotidiano transfigura os seres e as coisas
mais humildes. Os discípulos estão assustados e caem com o rosto em terra.
Depois, no Jardim do Horto, cairão no sono e serão incapazes de uma hora de
vigília. Nossa oração em silêncio, com Jesus, pode transfigurar a vida pela
acolhida dos outros numa nova maneira de vê-los. Devemos aniquilar as doenças
do olhar que são as doenças de uma oração equivocada, centrada em nós mesmos. É
preciso colocar nossos olhos e nossos olhares no coração e nele encontrar a
fonte da vida. O dia seis de agosto, em que normalmente se celebra a Festa da
Transfiguração, nos remete a uma fatal sincronicidade. Neste dia, em 1945, os
habitantes de Hiroshima e Nagasaki viram uma grande luz no horizonte. A bomba
atômica fazia sua trágica aparição no horizonte da humanidade como uma luz de
devastação e de morte. A humanidade acabara de assistir a transfiguração da luz
que liberta e dá a vida numa luz cega e trágica que desfigurava e aniquilava os
que também foram criados à imagem e semelhança de Deus. A transfiguração de
Jesus nos lembra a beleza à qual a humanidade e o universo são destinados.
Hiroshima e Nagasaki testemunham o embrutecimento e o horror de que os homens
são capazes ao desfigurar os corpos que são santuários de Deus (1 Cor 6, 9) e
devastar a criação de Deus. Para os cristãos, celebrar a Transfiguração é um
apelo à responsabilidade, uma exortação à compaixão e à expansão do coração
diante dos que sofrem. A Transfiguração é o desvelamento do SIM do Cristo ao caminho da solidariedade radical com os oprimidos
e vítimas da História.
CONTEMPLAR
Transfiguração, 2005, Sieger Köder (1925-2015), óleo sobre tela, Alemanha.
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