terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família de Jesus, Maria e José


Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol dentro do qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.

(Carlos Drummond de Andrade)


Sagrada Família de Jesus, Maria e José              30.12.2018
Eclo 3, 3-7.14-17               Cl 3, 12-21               Lc 2, 41-52


ESCUTAR

Quem honra o seu pai alcança o perdão dos pecados (Eclo 3, 4).

Amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição (Cl 3, 14).

Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas (Lc 2, 47).


MEDITAR

Nasci no plano do eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas.
Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal do bem.
Vim para amar e ser desamado.
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos.
Não vim para construir minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.
Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim...
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.

(Murilo Mendes, 1901-1975, Brasil)


ORAR

Nós falamos muito frequentemente da evasão de Jesus ao Templo e de maneira incorreta. Porque esse título sugere a ideia de uma fuga, insinua que Jesus, durante três dias, teria se subtraído voluntariamente à autoridade de seus pais. Entretanto, nós raciocinamos aqui segundo os nossos hábitos ocidentais que fazem da família uma célula fechada e da maioridade civil uma coisa tardia. Em Israel, ao contrário, a idade de doze anos é a da maioridade religiosa e civil, em que rapazes e meninas tornam-se responsáveis por seus atos e ditos. O Evangelho deste domingo não narra, portanto, nem evasão e nem fuga, mas simplesmente o primeiro gesto e a primeira palavra de Jesus. Qual é esse primeiro gesto, senão o de habitar no Templo de Jerusalém, na casa de Deus, para ensinar e dialogar com os doutores da Lei? Jesus o atestará durante a semana santa, mas desta vez em face a uma oposição crescente. Qual é esta primeira palavra, senão para manifestar a Maria e José, tentados a fechar seu Segredo sob o nome que lhe deram: “meu filho” (v. 48), qual é o seu verdadeiro Pai e qual o destino lhe foi entregue: “estar na casa – ou nas coisas – de meu Pai” (v. 49)? Essa maneira única de chamar a Deus seu próprio Pai, Jesus a retomará em sua última oração na Cruz: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (23, 46). Desde então, seu primeiro gesto corresponde a seu último gesto, sua primeira palavra remete à sua última palavra; Jesus mostra que toda a sua vida pública está colocada sob o nome de um Pai do qual deve revelar a face de ternura situada sob a livre necessidade de fazer a sua vontade, marcada pela presença íntima Daquele que habita “nele”, como ele mesmo habita “em seu Pai” (Jo 14, 10). Do começo até o fim do caminho que ele traça entre nós e de nós em direção ao Pai “maior”, Jesus é o filho bem amado. Ele é somente e plenamente Filho.

(Michel Corbin, 1936-, França)


CONTEMPLAR

Infância nua, 2015, Nikki Boon, Marlborough, Nova Zelândia.





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