segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Caminho da Beleza 11 - IV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 11
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



IV Domingo do Tempo Comum                   01.02.2015
Dt 18, 15-20                       1 Cor 7, 32-35                    Mc 1, 21-28


ESCUTAR

“O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar” (Dt 18, 15).

Digo isso para o vosso próprio bem e não para vos armar um laço. O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações (1 Cor 7,35).

Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da lei (Mc 1, 22).


MEDITAR

Quando Deus chama um profeta, ordena que vá e morra! (Dietrich Bonhoeffer).
O Senhor, que viveu humildemente, nos ensina que nada é mágico na vida, que o triunfalismo não é cristão. A atitude justa do cristão é a de perseverar no caminho do Senhor, até o fim, todos os dias. Não digo recomeçar de novo todos os dias: não, perseguir o caminho. Um caminho de dificuldades e de tantas alegrias. O caminho do Senhor (Francisco, servo de Deus e bispo de Roma).

ORAR

O profeta é um homem de palavra dado por Deus para o bem do seu povo. O profeta é o portador de uma palavra que não é sua, mas não é um mero repetidor. O profeta sempre provoca crises, jamais é inócuo e é condenado à fidelidade: “O profeta que tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que não lhe mandei ou se falar em nome de outros deuses, esse profeta deverá morrer”. O profeta tem olhos abertos e não é oportunista; é livre e não conformista ou servil; é inteligente e não superficial; é apaixonado e não indiferente e, sobretudo, é humilde e nunca presunçoso. O profeta é alguém que se esqueceu de si mesmo para deixar falar o amor provocado pela humildade. O profeta atesta a autenticidade da própria vocação quando se descobre numa posição incomoda. Quando ganha oposições, cruzes, recusas mais do que privilégios. Quando não busca fáceis consensos, mas uma custosa fidelidade à mensagem. O profeta tem a lucidez de que se pode falar de Deus ao falar de outras coisas, mas não se pode falar de outras coisas quando se fala de Deus. Jesus é o profeta, por excelência, porque seu primeiro olhar não se preocupa com o pecado, mas com o sofrimento dos homens e mulheres. Existe um profeta, enviado pelo Espírito Santo, no meio de nós. Seu nome é Francisco!


CONTEMPLAR

João o Batista (detalhe), 1985, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1926 -), acetato de vinil, areia de silício, carvão, ouro 23 q., Saint-Hugues-de-Chartreuse, Grenoble, França.





segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Caminho da Beleza 10 - III Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 10
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



III Domingo do Tempo Comum                               25.01.2015
Jn 3, 1- 5.10                       1 Cor 7, 29-31                    Mc 1, 14-20


ESCUTAR

Vendo Deus suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhes, e não o fez (Jn 3, 10).

Pois a figura deste mundo passa (1 Cor 7, 31).

“O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo” (Mc 1, 15).


MEDITAÇÃO

Amar significa entregar-se sem garantia, dar-se completamente na esperança de que nosso amor produzirá amor na pessoa amada. Amar é um ato de fé, e quem tiver mesquinha fé terá também mesquinho amor (Erich From).

Jesus não age movido por bons sentimentos. Não tenta agradar ou passar uma boa imagem de si mesmo. Jesus vai ao essencial: ele compreende o que está em jogo além das aparências, buscando a verdade do ser para solicitar um autêntico encontro com ele. O que ele visa é a realidade do homem (Daniel Duigou).


 ORAR

O Senhor sempre nos apresenta o momento de decisão para uma conversão radical de nossas vidas. Tudo depende de nós e não podemos continuar como se nada tivesse acontecido. E o que acontece não deve ser confundido com o glamoroso, o chamativo e o espetacular. O tempo de Deus se inseriu no tempo dos homens não para absorvê-lo, mas para dilatá-lo. O tempo de Deus sempre oferece ao tempo do homem uma possibilidade e uma dimensão diversa. Somos chamados a participar com um desprendimento interior para não conferir um valor absoluto às coisas que passam. Devemos estar prontos a responder à inexorável caducidade do tempo com a liberdade de, alimentados pela esperança, viver além dos horizontes. O “mais além” não significa evasão, mas a superação cotidiana, pois o Reino de Deus entrou neste mundo para transformá-lo em “outro mundo”. Devemos estar seguros e testemunhar que o Senhor está próximo de nós com o seu desígnio de amor e que a nossa resposta de fé e vida reafirma a sua promessa e, por esta razão, “esperamos um novo céu e uma nova terra onde habitará a justiça” (2 Pd 3, 13).


CONTEMPLAR


A Conversão de Saulo, 1800, William Blake (1757-1827), lápis, caneta, nanquim e aquarela sobre papel, 42,3 cm x 37,1 cm, Henry E. Huntington Library and Art Gallery, San Marino, Califórnia, Estados Unidos.




segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Caminho da Beleza 09 - II Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 09
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


II Domingo do Tempo Comum                     18.01.2015
I Sm 3,3-10.19                   1 Cor 6, 13-15.17-20                    Jo 1, 35-42


ESCUTAR

“Fala, que teu servo escuta” (1 Sm 3, 10).

“Glorificai a Deus com o vosso corpo” (1 Cor 6, 20).

“Rabi, onde moras?” Jesus respondeu: “Vinde ver” (Jo 1, 38-39).


MEDITAR

Meu Deus, eu rezo melhor para Ti respirando. Rezo melhor para Ti andando do que falando (Thomas Merton).

É uma decisão custosa escolher a vida, mas isso é definitivamente o que os seguidores de Jesus devem fazer. Escolher a vida, agarrar a vida, entrar na vida e clamar pela vida. Isto requer uma nova visão, nascer do Espírito, escapar dos debates sobre superioridade religiosa ou da forma ou lugar mais adequado de se rezar. Esta decisão nos abre a novas dimensões assustadoras do que significa ser humano (John Shelby Spong).


ORAR

O Senhor não tem uma voz reconhecível, e como Samuel, podemos confundi-la com outras vozes que nos chamam. O Senhor não fala a língua dos textos sagrados das religiões e muito menos se abriga nas rubricas de um missal. O Senhor fala o dialeto do povo e, por mais que queiramos, permanece sempre inesperado. Sua voz é discreta e contida: “Naquele tempo era rara a palavra do Senhor e as visões não eram abundantes” (1 Sm 3, 1). Seus convites são sussurros, uma pergunta que nos perturba intimamente e mínimos acontecimentos que provocam uma estranha ressonância no coração. O Senhor nos incita a não faltar ao encontro e a responder: “Estou aqui!”. Jesus recusa a satisfazer as petições infantis de segurança e proteção. Jesus propõe uma travessia a ser construída e não um molde em que todos são quase idênticos. O Senhor sempre nos oferece um encontro situado e datado na ternura do Seu coração: “era por volta das quatro da tarde” diz o evangelista. Nada pode substituir este encontro pessoal: nem o conhecimento doutoral de Deus; nem a prática das virtudes; nem a obediência restrita às normas e leis do “bom cristão”. Jesus nos propõe não uma doutrina segura, uma lista interminável de coisas para acreditar e saber de cor, mas uma descoberta que se dá sempre numa experiência perturbadora: “Vinde ver!”.


CONTEMPLAR

Midrash IX (detalhe), 2004, Yara Martins (1946-), óleo sobre tela, 80 cm x 80 cm, Curitiba, Brasil. Midrash é a leitura-busca amorosa do Senhor, do sentido de sua Palavra, para atualizá-la e colocá-la em prática.






quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O Caminho da Beleza 08 - Batismo do Senhor

O Caminho da Beleza 08
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Batismo do Senhor                   
Is 42, 1-4.6-7                      At 10, 34-38                       Mc 1, 7-11


ESCUTAR

Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minh’alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações (Is 42, 1)

De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença (At 10, 34-35).

Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem querer (Mc 1, 11).


MEDITAR

Quando dispomos da missão de Deus, como se fosse nossa, consumimos inutilmente a graça, ignoramos o amor que existe na vontade divina e nos atiramos no abismo do nosso próprio eu. Quanto mais esta autonomia adota uma atitude piedosa, tanto mais se distancia do Espírito Santo (Hans Urs von Balthasar).

A alegria durável nasce das bodas do amor de Deus e do amor do próximo no coração de nossa pessoa, no coração de nossos vínculos e de nossos serviços. Viver as beatitudes é reativar a Presença que nos habita, é marchar e divinizar nossa existência e a dos nossos irmãos e irmãs segundo o sonho de Deus (Yvan Portras).


ORAR

O profeta Isaías fala do eleito do Senhor que não é mais o povo de Israel. A aliança com Israel esteve selada há muito tempo, mas Israel a rompeu e agora um eleito virá para concluir esta Aliança de um modo novo e definitivo. “Eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações”. Jesus vingará esta luz prometida para o mundo na humildade e no silêncio de um homem concreto que “não clama nem levanta a voz”, e nem atua com violência porque “não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega”. Ele não esmorecerá enquanto não estabelecer a justiça da Aliança do Senhor em toda a terra. Ele trará a verdade à tona, abrindo os olhos dos cegos e livrando da prisão os que vivem nas trevas. O evangelista afirma que o batismo de todos os cristãos e cristãs é o mesmo de Jesus, o Cristo, e, portanto, é o Espírito de Jesus que nos anima, conduz e fortalece. Jesus, o Filho Amado, mergulha nesta história da salvação integrando todos os seus antigos sinais: a travessia da arca de Noé pelas águas do dilúvio, “símbolo do batismo que agora nos salva, o qual não consiste em lavar a sujeira do corpo, mas em comprometer-se diante do Senhor com uma consciência limpa” (1 Pd 3, 21); a travessia do Mar Vermelho “onde todos foram batizados na nuvem e no mar, vinculando-se a Moisés”(1 Cor 10, 1-2) e, finalmente, o batismo por João Batista, expressão do amor trinitário, no qual o Pai, pelo Espírito, declara o seu Filho, Bem amado. Pedro, após o batismo do centurião romano Cornélio, exorta-nos a compreender que o Senhor não faz distinção entre as pessoas, mas aceita quem pratica a justiça qualquer que seja a nação a que pertença. Os Evangelhos revelam esta dimensão universal de Jesus: a salvação é para todos os povos e para todos os tempos. E a nós cabe vingarmos este desígnio de justiça e amor. Como batizados pelo Espírito, precisamos nos abrir à liberdade do amor e acreditarmos na declaração do Pai, que também é feita a nós: somos seus filhos e filhas, amados e amadas, e em nós repousa, terna e eternamente, o seu bem querer. O cardeal Lustiger, de Paris, exortava: “Aquele que vem do Alto penetra no mais profundo do abismo. Aquele que é o amor assume o lugar do amado. Aquele que é o perdão assume o lugar do pecador. Aquele que se entrega e se dá assume o lugar daquele que é incapaz de se entregar e se dar. Aquele que é luz assume o lugar do cego. Aquele que é a Palavra, sem dizer nada, assume o lugar dos mudos que nós somos para que do céu se faça ouvir a Voz. E sobre Ele o Espírito se espalhou. Sobre ele o perdão dos pecados se realizou, pois o perdão dos pecados é a efusão do Espírito. E para nós, a graça é conhecer esta libertação e esta alegria e, no mistério do Cristo, receber o mesmo batismo e o mesmo perdão”. Resta-nos testemunhar ao mundo que o Pai julga tudo e todos em função da prática da justiça e do amor. E é o seu Filho Amado, nosso irmão, que realiza este julgamento no Espírito de Liberdade e de Ternura. Como apregoa São Gregório de Nazianzeno: “Sede como luzes no mundo, isto é, como uma força vivificante para os outros homens. Permanecendo como luzes perfeitas diante da grande luz, sereis inundados com maior pureza e fulgor pela Trindade”.


CONTEMPLAR

O Batismo do Cristo, s.d., Daniel Bonnell, óleo sobre tela, 92” x 46”, Igreja Missionária Baptista do Monte Calvário, Carolina do Sul, Estados Unidos.





segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O Caminho da Beleza 07 - Epifania do Senhor

O Caminho da Beleza 07
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Epifania do Senhor                   04.01.2015            
Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3a.5-6                    Mt 2, 1-12


ESCUTAR

Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor (Is 60, 1).

Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho (Ef 3, 6).

Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho (Mt 2, 12).


MEDITAR

É por meio da prática daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas, e seguindo os ditames da sua consciência, que os membros das outras religiões respondem afirmativamente ao convite de Deus e recebem a salvação em Jesus Cristo, mesmo se não o reconhecem como o seu Salvador (cf AG 3, 9, 11) (Diálogo e Anúncio, Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso).

O que se espera do missionário (...) não é que pregue sobre a Igreja e a torne atraente por uma exaltação humana de seu poder, de seu prestígio, de sua prudência, de sua ciência, de todas as suas riquezas, enfim. A Igreja deve desaparecer diante de Jesus para quem aponta, como João Batista (Bernardo Catão).


ORAR

Os textos deste domingo revelam que o poder de Deus é o da inclusão sem discriminação: “Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho”. Os magos, desconhecidos e pagãos, representam todos os não-judeus que pela graça de Deus têm o mesmo direito à herança de Israel. Herodes exerce um poder de exclusão. Os magos procuram o rei dos judeus e suscitam, por esta busca, um conflito mortal e impiedoso com o rei Herodes que se apresentava como o rei do povo consagrado a Deus e o rei herdeiro de Davi. Herodes é um usurpador, assassino e mentiroso, e o seu poder real é mantido pelo massacre e pelo derramamento de sangue dos seus opositores. O reino de Herodes representa todos os reinos deste mundo mantidos pelos assassinatos, pela barbárie e pela dissimulação: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”. O reino do Cristo não significa que o Menino, um dia, sucederá a Herodes, como ele temia, e nós, muitas vezes desejamos. Jesus, o Cristo, não vem limitar para nós a compreensão de Deus, mas alargá-la ao infinito. O combate que O conduz à morte na Cruz é um maravilhoso combate pela liberdade humana: “O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado” (Mc 2, 27). O sinal de uma igreja autêntica é o testemunho de que a única maneira de ser cristão, no Espírito de Jesus, é não ter fronteiras. O encontro com a manifestação de Deus nas outras religiões é um convite para iluminar a nossa ignorância, corrigir os nossos defeitos e descobrir as novas riquezas da Epifania de Deus que a estreiteza das burocracias religiosas não permite vislumbrar. É hora da acolhida e da expansão e precisamos romper, definitivamente, as certezas defendidas por cada tradição religiosa de que a sua religião está no centro do mundo e que as outras gravitam em sua periferia. Jesus revela que nos espíritos medíocres, e por isto mesmo autoritários, a pretensa universalidade só se efetiva com a exclusão dos diferentes de nós. O diálogo supõe um mistério de unidade: uma única família humana, um desígnio divino de salvação e a presença ativa do Espírito Santo na vida religiosa da humanidade. Jesus, o Cristo, testemunha que o Pai que se revela a nós, no Espírito, não é e não será jamais alvo de nossa tentativa de posse e, muito menos, um meio de salvação exclusivo, pois o seu amor e salvação são destinados a todos. Não podemos nos tornar os Herodes de nossos irmãos e nos apresentarmos diante de Deus com as nossas mãos sujas do sangue de inocentes. Neste domingo, conduzidos pelo Espírito de Jesus, sejamos como os magos que viram a estrela; uma estrela que brilhou nos seus corações e que os conduziu ao encontro inefável com o Coração Divino que os esperava. Um coração que sempre nos fará trilhar caminhos de liberdade e de amor e nos afastará dos caminhos enganosos dos poderosos que se mantêm pelo medo, pelo terror e pela barbárie: “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho”.


CONTEMPLAR

A Noite Estrelada, 1889, Vincent van Gogh (1853-1890), óleo sobre tela, 73 cm x 92 cm, Museu de Arte Moderna, Nova York, Estados Unidos.





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família

O Caminho da Beleza 06
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


 Sagrada Família            
Gn 15, 1-6; 21, 1-3                        Hb 11,8.11-12.17-19                     Lc 2, 22-40

ESCUTAR

Sara concebeu e deu a Abraão um filho na velhice, no tempo em que Deus lhe havia predito (Gn 15, 2).

Foi pela fé que Abraão obedeceu a ordem de partir para uma terra que devia receber como herança, e partiu, sem saber para onde ia (Hb 11, 8).

O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele (Lc 2, 40).


MEDITAR

Deus diz: “Eu sou a bondade soberana de todas as coisas. Eu sou o que faz você amar. Eu sou o que faz você durar e desejar. Eu sou isto – o cumprimento sem fim de todos os desejos” (Julian de Norwich).

Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos (Francisco, Bispo de Roma).


ORAR

Neste domingo, a liturgia nos faz contemplar Abraão e Maria e a sua resposta de fé alicerçada numa esperança absoluta. Abraão tinha noventa e nove anos e o Senhor lhe promete um filho com Sara que, ao ouvir a promessa do Senhor, diz: “Eu já estou seca, será que irei sentir prazer, com um marido tão velho?” (Gn 18, 12). O Senhor anuncia a Maria, a favorecida, um filho ainda que ela não convivesse com o seu noivo José. Abraão responde “Eis-me aqui” e antecipa a resposta da Virgem: “Eis aqui a serva do Senhor, que sua palavra se cumpra em mim”. As descendências prometidas ultrapassam a carne, pois o Senhor desafia: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será tua descendência”. E Deus não trapaceia! Para Deus, não existe uma vida leiga, pois toda a vida é totalmente e eternamente consagrada. E esta vida consagrada ao amor conduz todos os homens e mulheres que a escolhem a uma santidade mais radical e mais essencial: a de não trapacear! Os que trapaceiam com a vida e com Deus se afastam da justiça e da verdade e neste cego afastamento testemunham que trapacear é necessariamente trair e matar. É no silêncio que esta família de Deus se expande e que o Espírito do Senhor a conduz. É nos braços acolhedores de Simeão, movido pelo Espírito, que a fragilidade do Menino se confia à humanidade e se cumpre a última profecia: “Agora, Senhor, segundo a tua promessa, deixas teu servo ir em paz, porque meus olhos viram a tua salvação, que preparastes diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo”. Deus se faz dom para que possamos nos doar uns aos outros, especialmente aos que ainda não conhecem o Cristo, e só assim O encontramos. Caso contrário, ainda que sejamos batizados, não conheceremos Aquele que é puro Dom e nos esconderemos em aconchegos imaturos armados pela mediocridade das nossas instituições religiosas. No silêncio é que Maria quer ser acolhida por nós, pois é por ela que Jesus nos é dado e que o Espírito nos habita. No silêncio, José acolhe o Mistério e se coloca peregrino para que o dom de Deus não se esvaia e o Menino seja a Luz das Nações. No silêncio, Simeão soube esperar e ultrapassar os limites do seu próprio eu que poderia se opor à passagem da Luz, que tudo transforma em visibilidade e transparência. No silêncio, tudo o que somos, temos e fazemos, recebemos do Espírito que nos ensina a vigiar, como José e Maria, contemplando a face do Menino que nos foi confiado. É nesta contemplação silenciosa que Ele abrirá nossos corações para que, olhando os outros, não a nós mesmos nem a nossa igreja, saibamos “ver a salvação”. Aprendamos da sabedoria africana que “a palavra digna de veneração é o silêncio”, pois aquele que não sabe guardar o silêncio, não sabe falar. Os Padres da Igreja chamam os que não sabem guardar e zelar pelo silêncio de “Stabulum sine janua” – estábulos sem porta. A Sagrada Família nos ensina o recíproco zelo para que não se esmoreça o cumprimento do destino pleno de Deus. Temos que ir às últimas consequências, pois o amor é o vínculo da perfeição e o nosso primeiro próximo é esta Vida Divina colocada em nossas mãos para que, como manjedouras de Deus, desde agora e para sempre, tornemo-nos uma autêntica maternidade divina. Esta é a razão porque Jesus nos deixou uma pequena frase perturbadora, mas irresistível: “Vede minha mãe e meus irmãos. Pois, quem cumpre a vontade de meu Pai do céu, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3, 34-35).


CONTEMPLAR

A Fuga no Egito, s.d., Arcabas (Jean-Marie Pirot) (1926-), óleo sobre tela, 81 cm x 100 cm, França.





segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Caminho da Beleza 05 - Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

O Caminho da Beleza 05
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo                      25.12.2014
Is 52, 7-10               Hb 1, 1-6                  Jo 1, 1-18


ESCUTAR

Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação (Is 9, 7).

Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo (Hb 1, 1-2)

E a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14).


MEDITAR

O homem é uma criatura que recebeu a ordem de se tornar Deus (São Basílio).

O sagrado no Cristo não é qualquer coisa que existe sob os ferrolhos ou que é colocada atrás das grades ou ainda sob véus impenetráveis. O sagrado em Jesus é o homem, é o próprio homem. São as nossas mãos, o trabalho de nossas mãos; são os nossos olhos e a luz que os preenche; são os nossos corações e esta maravilhosa capacidade de amar. Isto tudo é o que constitui o sagrado que perpetua a Encarnação e que não cessa de tornar presente o Cristo entre nós (Maurice Zundel).


ORAR

Natal significa que “um Menino nos nasceu” e este é o sinal para a Humanidade. Nada de grandioso ou espetacular, pois Deus para nos encontrar escolhe o caminho da modéstia e da pequenez. O Natal significa que o sorriso divino pousou sobre as nossas misérias, devolveu a esperança e nos abriu todas as possibilidades futuras. Este rosto do Menino não é mais o de um Deus distante, carrasco; nem o de um Deus desiludido e traído. Este rosto terno e carinhoso revela a única condição para conquistarmos a vida eterna: deixarmo-nos amar. O natal não é apenas uma data inventada, mas o início da Boa Nova que nos faz saber que um escapou do censo ordenado por Cesar Augusto e que, portanto, não foi incluído como um dado estatístico. Não comemoramos uma data que colocou tudo em ordem, mas um início de um tempo em que a justiça de Deus se manifesta em toda a sua plenitude. A solidão acabou porque os homens e mulheres têm a mão que os guia, que os salva e os consola. O evangelista revela que o Verbo não somente entra no mundo, mas se torna um membro da humanidade e declara que a presença de Deus (Shekinah), até então na tenda da Aliança, está agora plenamente realizada na tenda de carne do Emmanuel. A divindade não se sobressai como um árbitro destacado e eterno do contexto terrestre, mas está implicada na complexidade da realidade humana. O evento decisivo da nossa existência e o artigo de fé fundamental do cristianismo é a encarnação do Verbo. No Natal, é desvelado que o Cristo é a Palavra que exige escuta; é a Vida que exige adesão do coração; é a Luz que exige a luta contra a cegueira para que possamos todos juntos, peregrinos, construir a cada nova geração um mundo de justiça e paz. No entanto, alguns natais são anunciados sem nenhum engajamento de fé. Um natal folclórico, mercantilizado, ruidoso e de um ritualismo consumista; um natal emotivo, marcado pelo infantilismo e que, apesar dos sentimentos, sabe calcular os impulsos de generosidade; um feriado natalino para ser aproveitado em viagens esnobes, que nos levem o mais distante possível de todos. Finalmente, um natal dos que foram um dia batizados e que, ao menos uma vez por ano, vestem o disfarce de cristãos para poder passar pelo umbral das igrejas mais próximas que lhes ofereça um horário de celebração mais cômodo para não atrapalhar a ceia natalina e a troca de presentes. Outros natais são possíveis de ser acrescentados à lista uma vez que são apenas pretextos para qualquer coisa. Que neste dia de Natal sejamos capazes de colocar nas nossas vidas um pouco menos de qualquer coisa, como os restos de nossas ceias. Que sejamos capazes de conseguir um pouco menos de alienada religiosidade e um pouco mais de fé comprometida com Aquele cujo nome é “Conselheiro Admirável, Deus Guerreiro, Pai dos Tempos Futuros e Príncipe da Paz” (Is 9, 5).


CONTEMPLAR

A Natividade, 1950, Marc Chagall (1887-1995), guache, aquarela, nanquim e lápis de cera lavável sobre papel crayon, 38,1 cm x 55,9 cm, Galeria Ferrero, Genebra, Suíça.