Entristecidos mas sempre alegres, pobres mas enriquecendo a
muitos, nada tendo mas possuindo tudo (2 Cor 6, 10).
V Domingo do Tempo Comum
Is 58, 7-10 1
Cor 2, 1-5 Mt 5, 13-16
ESCUTAR
“Reparte o pão com o
faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu,
cobre-o e não desprezes a tua carne. Então, brilhará tua luz como a aurora e
tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a
glória do Senhor te seguirá” (Is 58, 7-8).
“Eu estive junto de vós com
fraqueza e receio, e muito tremor” (1 Cor 2, 3).
“Assim também brilhe a vossa
luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai
que está nos céus” (Mt 5, 16).
MEDITAR
Um irmão não possuía absolutamente nada além de um
Evangelho. Vendeu-o e gastou o dinheiro com alimentos para os famintos,
acrescentando este dito memorável: “O que vendi foi o próprio livro que me diz: Vende o que tem e dá aos pobres".
(Evágrio Pôntico)
Um ser espiritual irradia o
amor em que vive e não busca doutrinar, convencer. Não é nada mais que um
outro. Faz o que tem de fazer. É ele mesmo quase sem se dar conta [...] Pode-se
falar dele, de seu comportamento, mas o que emana de sua pessoa é inexplicável,
pertence ao que há de mais vivo, de mais estimulante. Ele é surpreendente, até
mesmo ‘chocante’, mas esse choque é revelador de uma outra coisa que não pode
ser explicada – ele está com Deus.
(Françoise Dolto)
ORAR
Somos chamados
a praticar boas obras e nos abstermos de atitudes ameaçadoras e da
maledicência. Nossa oração só alcançará Deus quando o amor fraterno alcançar o
próximo. Deus nos diz, “Estou aqui”, unicamente ao que responde, “Eis-me aqui”,
quando alguém bate em sua porta. Basta de andarmos como cegos de um lado para o
outro e irmos longe para acender uma luz e deixarmos os mais próximos às
escuras. A Luz se oferece aos outros com modéstia e delicadeza e o Cristo sobre
a cruz se manifesta na sua fraqueza para que aprendamos a falar da Cruz do
Cristo em tom humilde e palavras sinceras. O evangelista revela que para sermos
luz do mundo não devemos ter a pretensão de brilhar. Devemos esquecer a ilusão
de dar a luz aos outros e desterrar a obscuridade e o caos que nos rodeiam com
um pouco da loucura de Deus. O homo
sapiens produziu e continua a produzir catástrofes em todos os níveis. É a
hora de nos convertemos em homo demens
e caminharmos no caminho do risco, do excesso e da provocação. O papa Francisco
nos assegura: “No governo, a prudência é uma virtude, mas a audácia também é”.
E o Papa exorta a sermos uma igreja que tropeça porque caminha em frente do que
uma igreja que se acomoda e se resguarda de tudo e de todos. Pés parados não
topam com nenhuma pedra. O mundo de hoje não necessita da beatice de olhos
mortiços e pescoços pendurados, nem de intelectuais refinados, nem de doutores
que prescrevem receitas, nem de lideranças vanguardistas. O mundo de hoje
precisa de loucos, de artistas e de poetas. De homens e mulheres entusiasmados,
cheios de Deus, capazes de realizar gestos insólitos e surpreendentes na sua
fantasia; provocadores em sua liberdade para quem as bem-aventuranças são uma
desconcertante sinfonia em que tudo será um milagre porque tudo será virado
pelo avesso. Neste mundo de pactos medíocres, em que grassa uma subcultura
política, social e religiosa, devemos fazer eco ao grito do escritor russo
Dostoievski: “A beleza salvará o mundo!”. Sigamos os passos de São Francisco
que se autonomeava o louco e o idiota de Deus e dessa maneira levava alegria a
todos: de homo demens converteu-se em
homo ludens. Na iconografia católica,
o Menino Jesus no colo de Maria segura em suas mãos frágeis uma bola e esta
bola é o mundo com o qual brinca o Menino. O nosso cristianismo está enfermo da
sisudez e do escrúpulo; aprisionado a uma religiosidade supersticiosa pendurada
em fetiches que materializam a nossa debilidade espiritual e a nossa fé
infantilizada. Sem alegria, somos como “cegos conduzindo outros cegos” e cairemos
todos num buraco (Mt 15, 14). Sem o sal que nos queima, perderemos o sabor e a
chama amorosa da ternura que nos deve consumir, pois “todos vão ser salgados
com o fogo” (Mc 9, 49). Se não nos tornarmos crianças lúdicas, se não nos
convertermos em loucos, poetas, artistas e se não tivermos em nós o sal e o
fogo, jamais conheceremos o gozo que invade todo o anúncio de Cristo. Está mais
do que na hora de nos deixarmos seduzir pela loucura, pela alegria e pela
ternura de Deus para que salgados pelo fogo do seu amor e da sua misericórdia
não apodreçamos justapostos e isolados nas nossas falsas seguranças. Não
podemos continuar cristãos decorativos, pois Deus não nos seduz quando nos é
imposto nos nossos cérebros, mas quando possui, porque precisa, dos nossos
loucos corações.
(Manos da Terna Solidão/Pe.
Paulo Botas, mts e Pe. Eduardo Spiller, mts)
CONTEMPLAR
Menino Jesus com globo na mão, década de 1950, Alfredo Volpi (1896-1988), têmpera sobre tela, 60 x 50 cm, Brasil.