segunda-feira, 2 de março de 2015

O Caminho da Beleza 16 - III Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 16
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



III Domingo da Quaresma                 08.03.2015
Ex 20, 1-17              1 Cor 1, 22-25                    Jo 2, 13-25

ESCUTAR

Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses além de mim (Ex 20, 2).

Nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos (1 Cor 1, 23).

Não façais da casa do meu Pai uma casa de comércio (Jo 2, 16).


MEDITAR

Um prisioneiro de guerra num campo de concentração japonês escreveu: /Ninguém me conseguia dizer onde podia estar a minha alma; /Procurei Deus, mas Deus escapou-me;/Localizei o meu irmão e encontrei todos os três:/A minha alma, o meu Deus e toda a humanidade (Timothy Radcliffe).

Queres honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando nu; não o honres aqui com vestes de seda e abandones fora no frio e na nudez o aflito... Deus não precisa de cálices de ouro, mas de almas de ouro... (São João Crisóstomo).


ORAR

            Somente a Palavra de Deus nos purifica das imagens que Dele criamos no decorrer da História. Não basta crer, devemos saber em que e o que se crê. Os fanatismos, as intolerâncias, as mais estranhas superstições e a instrumentalização das religiões nascem da incapacidade de se permitir que Sua Palavra questione estes deuses convertidos em ídolos e fetiches. Em nome destes deuses, que nos convêm, cometemos os atos mais espúrios e as maiores atrocidades. Hoje, os deuses estão nas estruturas espetaculares, nas propagandas e nos aparelhos burocráticos; nas ideologias sem limites e nas especulações doutrinárias. Paulo rompe com o deus poderoso em milagres dos hebreus e o deus da razão dos gregos e ousa proclamar um Cristo que é escândalo e loucura. O Deus de Jesus Cristo não se presta aos comércios. Ele é um Deus gratuito e não se compram seus favores. O seu lugar de encontro é o coração do ser humano, pois Ele não se encontra na sacralidade das relações religiosas, mas na laicidade das relações humanas.


CONTEMPLAR


Papa Francisco com os funcionários no refeitório do Vaticano, foto de Gianluca Barile, 25 de julho de 2014.



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O Caminho da Beleza 15 - II Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 15
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



II Domingo da Quaresma                   01.03.2015
Gn 22, 1-2.9-13.15-18                 Rm 8, 31-34                       Mc 9, 2-10


ESCUTAR

“Depois, Abraão, estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho” (Gn 22, 10).

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8, 32).

“Este é o meu Filho Amado. Escutai o que ele diz” (Mc 9, 7).


MEDITAR

Ainda que a aridez que vem de Deus despoje todos os tipos de gozos, tanto do céu como da terra, ela nos une todavia mais a Deus, qualquer que seja a pena e solidão (São João da Cruz).

Quando as coisas estão difíceis, é sinal de que Deus nos leva a sério (J. L. Lebret).


ORAR

A agonia de Abrão, de Isaac, do Cristo e de todos os homens e mulheres é a experiência primeira e mais comum da dinâmica da fé. É também a experiência da noite. Alimentamos o justo desejo de saltar por cima das trevas para que a luz nos penetre. Foi assim a noite de Abraão quando lhe foi pedido o sacrifício do próprio filho e para os discípulos quando ouviram Jesus falar sobre o caminho da Cruz. Nesta atônita entrega só nos resta a certeza da promessa de que “se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Toda noite traz em seu âmago raios de luz. Vivemos um processo acelerado de desumanização que é, desgraçadamente, privilégio dos homens e não de Deus. Nosso Deus tranquiliza inquietando e sempre existirá o início e nunca uma conclusão. Deus nos pede o impossível para que descubramos a nossa força interior. Os deuses que nos são apresentados, para agregar valor espiritual e religioso, são um arremedo do Pai de Jesus Cristo. O evangelista Marcos nos antecipa a visão pascal que dura o instante de um corisco, mas o eco da voz do Senhor permanece para sempre: “Este é o meu Filho Amado. Escutai o que ele diz”. O caminho dos que resistem só pode ser iluminado pela Palavra: “Tua palavra é lâmpada para meus passos, luz em meu caminho” (Sl 119, 105). A lâmpada não ilumina a noite, mas permite caminhar e avançar. Meditemos as derradeiras palavras de Bonhoeffer instantes antes de ser assassinado: “Este é o final, para mim é o começo da vida”.


CONTEMPLAR


O Sacrifício de Isaac, 1966, Marc Chagall (1887-1985), óleo sobre tela, 230 cm x 235 cm, Museu Nacional da Mensagem Bíblica Marc Chagall, Nice, França.




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O Caminho da Beleza 14 - I Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 14
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



I Domingo da Quaresma                     22.02.2015
Gn 9, 8-15                           1 Pd 3, 18-22                      Mc 1, 12-15


ESCUTAR

“Estabeleço convosco a minha aliança: nunca mais nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio para devastar a terra” (Gn 9, 11).

O batismo não serve para limpar o corpo da imundície, mas é um pedido a Deus para obter uma boa consciência, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo (1 Pd 3, 21).

Naquele tempo, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias e aí foi tentado por satanás (Mc 1, 13).


MEDITAR

Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre... Deus come escondido e o diabo sai por toda parte lambendo o prato... (Guimarães Rosa).

A vida é luta e a solidariedade com a vida é luta e se faz na luta. Não me cansarei de repetir que o que mais une os homens uns aos outros são as nossas discórdias. E o que mais une cada um consigo mesmo, o que faz a unidade íntima de nossa vida, são nossas discórdias íntimas, as contradições interiores de nossas discórdias. Só nos colocamos em paz conosco mesmo, como Dom Quixote, para morrer (Miguel de Unamuno).


ORAR

O cristão é solicitado, continuamente, pela palavra de Deus a uma mudança radical de mentalidade e de atitudes. Esta mudança, conversão, abarca a pessoa em sua totalidade e determina sempre um momento de decisão e um revirar, pelo avesso, a vida. É no deserto que este embate pessoal acontece. No deserto, os beduínos se lavam com areia que se torna assim um elemento de purificação. Longe da forma refrescante da água que lava nossos corpos, a areia nos submete a um enérgico tratamento à base do esmeril. No deserto, Deus se serve das areias para arear a nossa superficialidade e atingir a mais implacável sinceridade conosco mesmo. A areia do deserto é cruel, não oferece alternativa a não ser um estilo de austeridade. Esta austeridade nos impõe limitações que não queremos, pois desejamos todas as coisas inúteis que nos correspondem. O deserto é o lugar da intimidade, do encontro e do diálogo com Deus interrompido no jardim do Éden. O deserto é, também, o lugar do confronto, da tentação e da luta, pois, além de encontrarmos Deus, encontramos o Inimigo. Não existe vida cristã sem luta, empenho e esforço. A conversão não é um processo indolor, mas exige desprendimento, lacerações e privações. O caminho cristão não é uma tranquila excursão em território religioso, mas uma aventura arriscada no meio da Vida, que é Deus. Ainda que sejamos tentados por satanás e tenhamos que viver entre animais selvagens, sabendo, acima de tudo, que os anjos nos servirão.


CONTEMPLAR


A Vitória de São Miguel sobre o demônio, século XVIII(?), escultura em bronze, porta de entrada da Igreja de São Miguel, Hamburgo, Alemanha.



domingo, 8 de fevereiro de 2015

O Caminho da Beleza 13 - VI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 13
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



VI Domingo do Tempo Comum                   15.02.2015
2 Rs 5, 9-14                        1 Cor 10, 31-11,1                Mc 1, 40-45


ESCUTAR

“Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito?” (2 Rs 5, 13).

Fazei como eu, que procuro agradar a todos em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim de serem salvos (1 Cor 10, 33).

Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse. “Eu quero: fica curado!” (Mc 1, 41).


MEDITAR

Jesus circulou tocando as pessoas. Ele tocou os corpos dos doentes. Ele tocou os leprosos. Ele tocou até os mortos... Gandhi recusou deixar que os da casta mais baixa no hinduísmo fossem chamados de “intocáveis”... A compaixão nos dá um coração de carne. Isto significa que nós desejamos alcançar e tocar as pessoas que os outros rejeitam (Timothy Radcliffe).

Se há um mendigo à porta da Igreja, pedindo esmola, a missa foi mal rezada (Dom Irineu Danelon, sdb).


ORAR

Paulo é enfático! Não diz para olharmos para ele, mas seguir o seu exemplo e assumir como única referência o Cristo. Jesus, no Evangelho, não vacila em infringir a regra, romper o cordão sanitário, superar os mecanismos de exclusão e sair fora do círculo de proteção. Jesus tem piedade, mas também está enojado porque os homens tentam resolver os problemas dos leprosos pela exclusão. Jesus suprime as fronteiras, destrói os muros seculares da separação, passa por cima dos preconceitos e não aceita as discriminações religiosas. Para Jesus, existe somente o homem e a mulher sem adjetivos e a porta, para Ele, só serve para sair ao encontro daqueles que estão fora, ainda que seja um só. Somos nós, cristãos, que nos preocupamos mais com a lista dos que estão presentes sem jamais nomearmos os ausentes da nossa comunidade eclesial para os quais o Cristo veio prioritariamente: “Se algum de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás da extraviada até encontrá-la?” (Lc 15, 4). A celebração litúrgica deve ser interrompida quando fazemos exclusões e discriminações. Nunca estaremos preparados como exigem nossos pastores, salvo o orgulho de poucos, para merecermos os dons gratuitos de Deus. O leproso, mantido à distância é readmitido com todas as honras no centro da comunidade. Se não fizermos o mesmo, quando celebrarmos uma festa em honra do Cristo, mais uma vez O condenaremos a morrer “fora da cidade”.


CONTEMPLAR


São Francisco abraçando um leproso, 2014, Julie Lonneman, gravura, Cincinatti, Ohio, Estados Unidos, http://julielonneman.blogspot.com.br.



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Caminho da Beleza 12 - V Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 12
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



V Domingo do Tempo Comum                     08.02.2015
Jó 7, 1-4.6-7                       1 Cor 9, 16-19.22-23                    Mc 1, 29-39


ESCUTAR

“Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança” (Jó 7, 6).

Com todos, eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. Por causa do evangelho eu faço tudo, para ter parte nele (1 Cor 9, 22-23).

De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto (Mc 1, 35).


MEDITAR

A fé é um fio de cabelo seguro com os dentes, no abismo! (Madre Belém).

Coragem! Quis servir-me de ti para o advento do meu reino. Não desanimes. Não afrouxes. Não te esquives. Mergulha na aventura desconhecida da minha noite. Então te salvarei de ti mesmo, e te ensinarei a imensidão do amor fraternal (J. L. Lebret).



ORAR

Tantas vezes, como Jó, temos a coragem de nos fazer uma pergunta escandalosa: Viver é uma vida? Podemos chamar de vida se depois devemos morrer? “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver felicidade”. O livro de Jó é a oração de uma vida por um fio. O termo tikva, em hebraico, significa fio, mas também esperança. A vida cessa quando se rompe o fio, mas também quando desaparece a esperança. Tantas vezes nos esgarçamos até o limite, desejamos que tudo termine logo e ansiamos pelo descanso definitivo. Jó, como nós, é convidado a descobrir um Deus gratuito e não utilizável para rasas justificativas e ponderações. Jesus revela que seu seguidor não é um burocrata, nem um empregado, mas alguém que se coloca na linha de frente com a mais absoluta gratuidade: “Dai de graça o que de graça recebestes” (Mt 10, 8). Algumas vezes, o Cristo diz não quando todos O buscam. Foge, toma distância e ora. Quando se assenta é para estar presente, de outra maneira e em outro lugar. Jesus afirma que a comunhão se produz saindo fora da popularidade falsa, dos ritos da banalidade e das regras do conformismo. O homem de oração é o que se deixa encontrar e a solidão é sempre uma possibilidade oferecida a todos.


CONTEMPLAR

Jó n. 2, 2003, Oldrich Kulhánek (1940-2013), litografia, República Checa, in
http://oldrichkulhanek.cz/index.php?section=galerie&lang=cz.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Caminho da Beleza 11 - IV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 11
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



IV Domingo do Tempo Comum                   01.02.2015
Dt 18, 15-20                       1 Cor 7, 32-35                    Mc 1, 21-28


ESCUTAR

“O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar” (Dt 18, 15).

Digo isso para o vosso próprio bem e não para vos armar um laço. O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações (1 Cor 7,35).

Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da lei (Mc 1, 22).


MEDITAR

Quando Deus chama um profeta, ordena que vá e morra! (Dietrich Bonhoeffer).
O Senhor, que viveu humildemente, nos ensina que nada é mágico na vida, que o triunfalismo não é cristão. A atitude justa do cristão é a de perseverar no caminho do Senhor, até o fim, todos os dias. Não digo recomeçar de novo todos os dias: não, perseguir o caminho. Um caminho de dificuldades e de tantas alegrias. O caminho do Senhor (Francisco, servo de Deus e bispo de Roma).

ORAR

O profeta é um homem de palavra dado por Deus para o bem do seu povo. O profeta é o portador de uma palavra que não é sua, mas não é um mero repetidor. O profeta sempre provoca crises, jamais é inócuo e é condenado à fidelidade: “O profeta que tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que não lhe mandei ou se falar em nome de outros deuses, esse profeta deverá morrer”. O profeta tem olhos abertos e não é oportunista; é livre e não conformista ou servil; é inteligente e não superficial; é apaixonado e não indiferente e, sobretudo, é humilde e nunca presunçoso. O profeta é alguém que se esqueceu de si mesmo para deixar falar o amor provocado pela humildade. O profeta atesta a autenticidade da própria vocação quando se descobre numa posição incomoda. Quando ganha oposições, cruzes, recusas mais do que privilégios. Quando não busca fáceis consensos, mas uma custosa fidelidade à mensagem. O profeta tem a lucidez de que se pode falar de Deus ao falar de outras coisas, mas não se pode falar de outras coisas quando se fala de Deus. Jesus é o profeta, por excelência, porque seu primeiro olhar não se preocupa com o pecado, mas com o sofrimento dos homens e mulheres. Existe um profeta, enviado pelo Espírito Santo, no meio de nós. Seu nome é Francisco!


CONTEMPLAR

João o Batista (detalhe), 1985, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1926 -), acetato de vinil, areia de silício, carvão, ouro 23 q., Saint-Hugues-de-Chartreuse, Grenoble, França.





segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Caminho da Beleza 10 - III Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 10
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



III Domingo do Tempo Comum                               25.01.2015
Jn 3, 1- 5.10                       1 Cor 7, 29-31                    Mc 1, 14-20


ESCUTAR

Vendo Deus suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhes, e não o fez (Jn 3, 10).

Pois a figura deste mundo passa (1 Cor 7, 31).

“O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo” (Mc 1, 15).


MEDITAÇÃO

Amar significa entregar-se sem garantia, dar-se completamente na esperança de que nosso amor produzirá amor na pessoa amada. Amar é um ato de fé, e quem tiver mesquinha fé terá também mesquinho amor (Erich From).

Jesus não age movido por bons sentimentos. Não tenta agradar ou passar uma boa imagem de si mesmo. Jesus vai ao essencial: ele compreende o que está em jogo além das aparências, buscando a verdade do ser para solicitar um autêntico encontro com ele. O que ele visa é a realidade do homem (Daniel Duigou).


 ORAR

O Senhor sempre nos apresenta o momento de decisão para uma conversão radical de nossas vidas. Tudo depende de nós e não podemos continuar como se nada tivesse acontecido. E o que acontece não deve ser confundido com o glamoroso, o chamativo e o espetacular. O tempo de Deus se inseriu no tempo dos homens não para absorvê-lo, mas para dilatá-lo. O tempo de Deus sempre oferece ao tempo do homem uma possibilidade e uma dimensão diversa. Somos chamados a participar com um desprendimento interior para não conferir um valor absoluto às coisas que passam. Devemos estar prontos a responder à inexorável caducidade do tempo com a liberdade de, alimentados pela esperança, viver além dos horizontes. O “mais além” não significa evasão, mas a superação cotidiana, pois o Reino de Deus entrou neste mundo para transformá-lo em “outro mundo”. Devemos estar seguros e testemunhar que o Senhor está próximo de nós com o seu desígnio de amor e que a nossa resposta de fé e vida reafirma a sua promessa e, por esta razão, “esperamos um novo céu e uma nova terra onde habitará a justiça” (2 Pd 3, 13).


CONTEMPLAR


A Conversão de Saulo, 1800, William Blake (1757-1827), lápis, caneta, nanquim e aquarela sobre papel, 42,3 cm x 37,1 cm, Henry E. Huntington Library and Art Gallery, San Marino, Califórnia, Estados Unidos.