segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Caminho da Beleza 02 - II Domingo do Advento

O Caminho da Beleza 02
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



II Domingo do Advento                       07.12.2014
Is 40, 1-5.9-11                    2 Pd 3, 8-14                                    Mc 1, 1-8


ESCUTAR

Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que sua servidão acabou e a expiação de suas culpas foi cumprida; ela recebeu das mãos do Senhor o dobro por todos os seus pecados (Is 40, 2).

O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça (2 Pd 3, 13).

Esta é a voz daquele que grita no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitais as suas veredas” (Mc 1, 3).


MEDITAR

Tomar consciência dos nossos medos nos permite superá-los e nos abrir a um mundo de possibilidades. Ao cessar de duvidar de nós mesmos encontramos ao mesmo tempo a coragem de assumir nossos erros (François Gervais).

Pelo amor de Deus, eu vos suplico: não tenhais medo de Deus, pois Ele não vos deseja nenhum mal. Ao contrário, amai-O com todas as vossas forças, porque Ele vos ama infinitamente (Padre Pio).


ORAR

João, o Batista não é certamente um tipo fascinante para angariar simpatias e alcançar popularidade. No deserto, a palavra provoca o silêncio e não os aplausos. João, para proclamar o único necessário, despoja-se de todas as vaidades e usa a linguagem da simplicidade e não a do espalhafatoso. João não precisa falar de si mesmo, pois sua austeridade de vida e a seriedade de sua existência o tornam digno de confiança. João fala no deserto porque o deserto é a sua grande e incrível possibilidade: no deserto se realiza o encontro decisivo e pelo deserto passa o caminho do Senhor. João semeia a interrogação e as inquietudes, acende um desejo, suscita uma espera e solicita uma busca. Não tem a pretensão de entregar o Cristo, pois não O possui. É Judas quem O entregará. João dirá simplesmente que é o “amigo do Esposo” (Jo 3, 29). Temos que fazer alguma coisa para não perder o encontro. Os vales, abismos de insignificância, deverão ser preenchidos; montes e colinas de presunção devem ser rebaixados; terrenos acidentados deverão ser aplainados. Tudo isto nos prepara para o encontro e para que possamos antecipar os “novos céus e uma nova terra onde habita a justiça”. O Senhor, diz Pedro, está “usando de paciência para convosco, pois não deseja que ninguém se perca”. Para nós, sempre apressados, a paciência tem limites. No entanto, a paciência de Deus não os conhece e se esgota unicamente no exato instante em que aceitamos ser perdoados. O apelo de João para o batismo de conversão é o apelo para rejeitar uma vida de aparência, a fim de se colocar em busca do que é essencial e verdadeiro; de ousar pensar aquilo que jamais ousamos pensar. Somos muito mais ricos do que pensamos ser. Nossa alma é infinitamente mais bela do que imaginamos e nossa vida é plena de possibilidades. No meio do deserto, numa sede insaciável de Deus, João nos chama a sermos artesãos de nossas existências e nos oferece a sensatez do provérbio: “Beba abundantemente da água que brota do teu poço” (Pr 5, 15). E assim, convertidos à verdadeira essência que nos habita e consome, preparamos o caminho no deserto para o Menino que será um mistério entre os que O conhecerão, pois “Nele existia uma vontade mais profunda de estar à disposição dos homens com toda a sua humanidade divina” (Urs von Balthasar). Jesus vem para testemunhar que diante do que é humano temos somente duas atitudes: servir-me dele para dominá-lo ou servindo-o, despertá-lo para a sua mais ampla humanidade, que é divina.


CONTEMPLAR

Madona e Criança e o Jovem São João Batista, c. 1490-95, Sandro Boticelli (1445-1510), têmpera sobre tela, 134 cm x 92 cm, Palácio Pitti, Florença, Itália.





segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento

O Caminho da Beleza 01
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


I Domingo do Advento                                     30.11.2014
Is 63, 16b-17.19b;64, 2b-7                    1 Cor 1, 3-9             Mc 13, 33-37

ESCUTAR

Ah! se rompesses os céus e descesses! (Is 63, 19b).

Nele fostes enriquecidos em tudo, em toda palavra e em todo conhecimento, à medida que o testemunho sobre Cristo se confirmou entre vós (1 Cor 1, 5-6).

Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: Vigiai! (Mc 13, 36-37).


MEDITAR

Aquele que ensina o bem aos outros sem o praticar é como um cego que segura uma lanterna (Provérbio Argelino).

Procurar Deus é se deixar constantemente questionar por Ele. Não se deve procurar Deus como se procura qualquer coisa que se pode comprar (Anselm Grün).


ORAR

Este novo ano litúrgico começa com o primeiro domingo do Advento. A liturgia da Igreja nos oferece dois acontecimentos. O primeiro, o Cristo que “desce” no meio dos homens perdidos em seus caminhos pela dureza dos seus corações. Realiza-se, então, o velho sonho do profeta: “Ah! se rompesses os céus e descesses!”. Deus não esconde mais o seu rosto. O segundo acontecimento é constituído pela vinda do Cristo para o Juízo Final. Duas vindas e manifestações de Jesus: na carne e na glória. As duas vindas e os dois acontecimentos nos interessam aqui e agora: o Cristo veio, mas é acolhido hoje; o Cristo deve vir, mas há de ser, hoje, esperado. É necessário despertarmos do torpor, da preguiça e do aborrecimento. Só podemos ser fiéis a um Deus em movimento, que toma a iniciativa e intervém em nossas vicissitudes, se assumirmos uma postura dinâmica de tomada de consciência e de responsabilidade. Este rosto surpreendente de Deus nos convida a frequentar caminhos de justiça. Ele nada vem exigir, mas dar. Acolher não significa preparar um espetáculo colossal em sua honra, mas nos apresentarmos com a nossa pobreza que é, essencialmente, a disponibilidade para receber. Quanto à segunda vinda, temos a curiosidade de saber “quando” ou, pelo menos, sermos agraciados com um sinal: “Dize-nos, por que sinal se saberá que tudo isso se vai realizar?” (Mc 13, 4). A indagação assume, então, a dimensão da esperança. Este Deus que pode chegar à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer, não pode ser anunciado por um sinal de alarme. Este Deus deve ser esperado com as portas abertas, de par em par; com os olhos liberados da fadiga e com o coração curado da dureza. Hoje, uma terceira vinda se faz presente: a dos cristãos marcados pela novidade, pois a manifestação de um cristianismo irrelevante, banalmente repetitivo, politicamente queixoso dos males do mundo, não interessa a ninguém. Somos chamados a ser cristãos que surpreendem e que despertam os sonhos e desejos dos que dormem na passividade. Este é o momento, aqui e agora, para sairmos fora, na noite, e anunciarmos um cristianismo embalado numa canção de amor e fraternidade que “faça acordar os homens e adormecer as crianças”.


CONTEMPLAR

Madona e Criança, Marianne Stokes (1855-1927), pintora austríaca, data, dimensões e locação desconhecidas.





segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Caminho da Beleza 53 - Jesus Cristo Rei do Universo

O Caminho da Beleza 53
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Jesus Cristo Rei do Universo                        23.11.2014
Ez 34, 11-12. 15-17           1 Cor 15, 20-26.28                       Mt 25, 31-46


ESCUTAR

“Vou procurar a ovelha perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a da perna quebrada, fortalecer a doente e vigiar a ovelha gorda e forte” (Ez 34, 16).

“É preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Cor 15, 25-26).

“Em verdade eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25, 40).


MEDITAR

“O Cristo vai aonde não temos coragem de ir. No momento em que o procuramos no templo, ele se acha no estábulo; quando o buscamos entre os padres, ele está entre os pecadores; no instante em que o solicitamos em liberda­de, está detido; quando o procuramos ornado de glória, ele está coberto de sangue sobre a cruz” (Cartas na prisão de um cristão anônimo).

“Dificilmente se pode gozar da experiência do amor a Deus se se desconhece o amor humano. Dificilmente se pode per­severar no amor humano se não se descobre nele uma alma divina, por assim dizê-lo. O verdadeiro amor é algo mais do que uma projeção voluntarista ou um mero sentimentalismo... Deus não habita só nos montes do nada; também tem sua morada nos “vales frondosos” dos seres humanos. É o mesmo amor humano em que reside a Di­vindade. Um amor divino que não se encarne no amor ao pró­ximo, para citar a frase evangélica, é pura mentira (1 Jo 4, 20)” (Raimon Panikkar).


ORAR

Neste domingo se encerra o ano litúrgico de 2014 e a Igreja nos faz refletir sobre o julgamento derradeiro. O título de Rei aflora nas extremidades da vida de Jesus. No seu nascimento, quando os magos perguntam: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido” (Mt 2, 2); e na sua Paixão quando, antes de lavar as mãos, Pilatos indaga: “És tu o rei dos judeus”(Mt 27, 11). Jesus tolera este título apenas nestes dois momentos. Ao longo de sua vida pública, Ele o recusa explicitamente. Ao invés da analogia do Rei, Ele prefere a do Pastor. O risco do pastor ao defender as suas ovelhas com a própria vida exprime melhor a sua relação com os que foram entregues a Ele pelo Pai. Existe uma oposição entre o Pastor e o Rei. O pastor dá a sua vida pelo rebanho e o rei é defendido pelos seus súditos até a morte; o pastor chama cada ovelha pelo seu nome e os súditos do rei são anônimos; a voz basta para o pastor reunir, em torno dele, as suas ovelhas e o rei deve usar da coerção para manter a coesão do seu reino. Santo Agostinho é enfático: “O Cristo não é Rei enquanto exigiria tributos e conduzisse exércitos para vencer os inimigos pela guerra. Não! Mas Ele é Rei – segundo a etimologia possível da palavra latina Rex, derivada do verbo ‘regere’: ‘conduzir’ – enquanto Ele conduz para o Reino aqueles que creem, esperam e amam”. O evangelho desvela que o julgamento não é para amanhã, mas ele acontece a todo instante. E seremos julgados pelo que não fizemos por causa da cegueira do coração: “Senhor, quando foi que te vimos....”. Nossos olhos estão doentes e são incapazes de descobrir em todas as pessoas a imagem única do Cristo porque estão emparedados, voltados para dentro de nós, para a pessoinha que pensamos ser. O evangelho revela que cada pessoa humana é um ícone vivo na qual podemos reconhecer o Cristo Ressuscitado, pois Ele quer se apresentar ao mundo como Alguém a quem alimentamos, damos de beber, acolhemos, vestimos, visitamos na prisão, nos hospícios e nos hospitais. Ele, como um mendigo, bate à nossa porta e nos pede sempre, com a mão estendida, alguma coisa, pois no seu esvaziamento Ele quer ser nosso devedor. Somos nós que seremos entregues ao Pai porque fomos constituídos Reino de Deus desde o momento em que nos foi revelado que este reino estava dentro de nós (Lc 17, 21). É preciso ruminar o salmo: “É teu rosto, Senhor, que eu procuro” (Sl 26, 8). Não podemos procurar o rosto do Senhor fechando os olhos e nos abstraindo do mundo. Quando o Espírito abre os olhos do coração nós vemos o Pai no rosto de Jesus e Jesus no rosto de cada um de nossos irmãos e irmãs, pois todo aquele que vê, pelo coração, o rosto de seu irmão vê o rosto de Deus. Nos que são considerados insignificantes, supérfluos e descartáveis habita o Reino de Deus e são eles a realeza que será entregue ao Pai pelo Cristo Jesus depois de “destruir toda autoridade e poder”. A eles caberão as palavras de ternura e reconhecimento: “Vinde, benditos de meu Pai!”, pois nada pediram que nos custasse, somente pão, teto, algumas palavras de consolo e pequenos gestos de compaixão.


CONTEMPLAR

Compaixão do Pai (detalhe), início do séc XVII, grupo da terra cota, h: 89 cm , Museu Nacional da Renascença, Écouen, Paris, França.  



    
           




segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 52
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXXIII Domingo do Tempo Comum                     16.11.2014
Pr 31, 10-13.19-20.30-31           1 Ts 5, 1-6                Mt 25, 14-30


ESCUTAR

“Uma mulher forte quem a encontrará? Ela vale muito mais do que as joias” (Pr 31, 10).

“Vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá com o ladrão, de noite” (1 Ts 5, 2).

“Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mt 25, 29).


MEDITAR

“Aceite que Jesus ressuscitado entre em sua vida, acolha-o como amigo, com confiança: ele é a vida! [...] Se te parece difícil segui-lo, não tenha medo, tenha confiança nele, sinta-se seguro com ele, ele está próximo de você, ele está contigo e te dará a paz que você procura e a força para viver como ele quer” (Francisco, servo dos servos de Deus).

“Nada é grave senão perder o amor. Descobrir uma intimidade com Deus... Contem­plá-lo também no rosto do homem... Devolver fisionomia humana ao homem desfigu­rado... Eis uma única e mesma luta: a do amor. Sem o amor, para que a fé? Para que chegar a queimar nossos corpos nas chamas? Nas nossas lutas... nada é grave a não ser perder o amor” (Roger Schutz).


ORAR

Um talento equivale a 26 quilos de ouro. São talentos dados e não dotes naturais como aprendemos durante anos. O talento é algo específico que Cristo nos deixou ao “ir-se”: os talentos são os seus dons. Nesta parábola, trata-se do homem novo, da palavra de Deus, da fés, da esperança e do amor. Trata-se do Espírito de Deus colocado em nossos corações. E o que temos feito com isto? Temos semeado a Palavra, tocado alguém com a nossa fé, colocado alguém em pé com a nossa esperança? Quanto de amor e amizade temos dado e quais atos de coragem temos realizado conduzidos pela força do Espírito? Não existem lugares fechados para a presença cristã. O espetáculo mais deprimente é aquele oferecido por igrejas que escondem seu talento, mascaram a fé e sepultam a Palavra ao reduzi-la a uma palavra humana para realizar projetos mesquinhos. Igrejas que sufocam a visibilidade da Palavra debaixo de um montão de palavreados sem que ela possa se converter em vida, em gritos de justiça e que a inflacionam até transformá-la em celebração triunfalista. Não há deformação mais vil do que a de uma igreja que se asila para contemplar, satisfeita, os talentos recebidos e defendê-los com unhas e dentes.  Guardar não é o mesmo que semear e o Senhor pretende colher onde deveríamos ter semeado, ou seja, por todas as partes. A relação com Deus não pode ser servil e nem ser reduzida a uma miserável contabilidade de tanto/quanto. A mensagem de Jesus é clara: não ao conservadorismo, a uma vida estéril sem nenhuma resposta viva ao Senhor. Não à obsessão pela segurança, mas sim ao esforço arriscado para transformar o mundo. É muito tentador viver sempre evitando problemas, buscando tranquilidade e não nos comprometermos com nada que nos possa complicar a vida: não há melhor maneira de viver uma vida estéril, pequena e sem horizontes. Corremos o risco de enaltecer a nossa fé infantil, apagar a vitalidade do Evangelho, aniquilar o desígnio de Deus e a mensagem de amor aos que sofrem. O teólogo Karl Barth escreve: “A fé em Cristo é o risco de todos os riscos, é para todos o mesmo salto no vazio, mas é também a alegria e a promessa, o amor e a vida. A fé é conversão, a radical orientação do homem que está desnudo diante de Deus que para adquirir a pérola preciosa se torna pobre e que, por amor, está pronto para perder a sua alma”.


CONTEMPLAR


Os trinta dinheiros (detalhe), 2003, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1926-), óleo sobre tela, ouro fino 23 ql., 0,81 m x 0,65 m, Saint-Pierre de Chartreuse, França.




segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Caminho da Beleza 51 - Dedicação da Basílica de Latrão

O Caminho da Beleza 51
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Dedicação da Basílica de Latrão                09.11.2014
Ez 47, 1-2.8-9.12              1 Cor 3, 9-11.16-17                       Jo 2, 13-22


ESCUTAR

“Suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem do santuário” (Ez 47, 12).

“Vós sois lavoura de Deus, construção de Deus” (1 Cor 3, 9).

“Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2, 16).


MEDITAR

“Por que... nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despeja a tantas famílias, se expulsa os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza? Porque neste sistema se retirou o homem, a pessoa humana, do centro, substituindo-o por outra coisa. Porque se rende um culto idolátrico ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença” (Francisco, servo dos servos de Deus).

“Uma má religião torna-nos insensíveis, incapazes de vida corporal. O culto do verdadeiro Deus faz-nos corporalmente vivos, apalpando, saboreando, cheirando, vendo e ouvindo. A realização plena de nosso ser, dom de Deus, significa aspirar à vitalidade em todos os nossos sentidos” (Timothy Radcliffe).


ORAR

A Basílica de Latrão, catedral da Igreja de Roma, é considerada a mãe de todas as igrejas. O palácio de Latrão, propriedade da família imperial, tornou-se, no século IV, a habitação particular do Papa. Constantino doou ao papa Melquiades (310-314) o palácio onde se encontrava a “Casa de Fausta”, a residência da mulher do Imperador na qual o Papa celebrou um Concílio. Foi a sede oficial do bispo de Roma do século IV ao XIV e por isso representa o ideal institucional da Igreja Romana que, saída da fase de perseguição e de martírio, fez sua entrada triunfal na sociedade imperial romana. Durante séculos, ela foi o emblema da liturgia pontifical que moldou o estilo de celebração de todas as igrejas do Ocidente. O evangelho mostra Jesus enxotando os mercadores do Templo porque enganam os mais simples para acumular dinheiro e bens. Uma Igreja oficializada por um imperador, na Casa de Fausta, só poderia ter no seu DNA o germe e a voracidade de tudo o que é fausto e ostensivo. A Mensagem do Sínodo da Palavra, porém, não deixa dúvidas: “O cristão tem, pois, a missão de anunciar esta Palavra divina de esperança, compartindo-a com os pobres e os que sofrem, mediante o testemunho de sua fé no Reino de verdade e vida, de santidade e graça, de justiça, de amor e paz, mediante a aproximação amorosa que não julga nem condena, mas que sustenta, ilumina, conforta e perdoa, seguindo as palavras de Cristo: ‘Venham a mim, todos os que estão cansados e agoniados e eu lhes darei descanso” (Mt 11, 28). Jesus nos revela que o novo templo é o seu Corpo Ressuscitado, pois, com sua morte e ressurreição, destruiu todo o limite local e geográfico para a sua presença espiritual. Paulo clama em Atenas: “Deus não habita em templos feitos pelas mãos dos homens” (At 17, 24). Devemos estar atentos ao calor que conferimos aos templos, aos ritos e aos objetos sacros. Não podemos idolatrá-los e nem lhes conferir um valor mágico, pois o cristianismo é uma prática que brota do nosso encontro pessoal com Jesus, com a nossa consciência e com o Espírito que nos ilumina e conduz. Nossos templos não podem se tornar fetiches e nem marcos idolátricos para os cultos burocráticos em que os altos funcionários eclesiásticos oferecem os lugares de honra para os mais ricos e poderosos da sociedade. Nossos pastores parecem desdenhar do veredicto de Jesus: “Eu vos asseguro: um rico dificilmente entrará no reino de Deus. Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino de Deus” (Mt 19, 24). O Papa João Paulo II reiterava na sua primeira Encíclica: “A missão da Igreja é a mesma de Cristo” (RH 7, 12, 18) e nesta Igreja de Jesus “suas mãos tocam repetidamente corpos enfermos ou infectados, suas palavras proclamam a justiça, infundem valor aos infelizes e concedem perdão aos pecadores” (Mensagem final do Sínodo da Palavra). É chegado o momento em que a Casa de Fausta deve ser abandonada como o símbolo de uma época histórica em que Igreja e Império celebraram um casamento espúrio e perverso. É chegada a hora em que a Igreja de Jesus deve estar próxima dos mais necessitados, praticando-se como uma Igreja pobre entre os pobres. Tendo, com Ele, o “mesmo sentir e pensar” e oferecendo o testemunho da sua identidade com Cristo Jesus que “despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se igual ao ser humano e aparecendo como qualquer homem, humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz! (Fl 2, 7-8). É chegado o momento, e já quase passou, de cumprir o que proclamou o Papa João XXIII na abertura do Vaticano II: “Está na hora de abrir as janelas para limpar a poeira de Constantino grudada na cadeira de Pedro”.


CONTEMPLAR

Expulsão dos Mercadores do Templo, 1824, Alexander Ivanov (1806-1858), esboço, Rússia.






segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 50 - Celebração de Finados

O Caminho da Beleza 50
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Celebração de Finados                        02.11.2014
Jó 19, 1.23-27                    Rm 5, 5-11              Jo 6, 37-40


ESCUTAR

“Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó, e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne verei a Deus” (Jó 19, 25-26).

“A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

“E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia” (Jo 6, 39).


MEDITAR

“As pessoas não morrem: tornam a ficar encantadas”(João Guimarães Rosa).

“Eu sempre acreditei que o instante da morte é a norma e o fim da vida. Eu penso que para os que vivem como se faz necessário este é o instante em que, por uma fração infinitesimal de tempo, a verdade nua e crua, pura, certa e eterna entra na alma” (Simone Weil).


ORAR

A morte fica sempre como uma obscura passagem, uma luta, uma agonia e um mistério. A morte não é o estuário trágico, mas o ingresso na comunhão plena com Deus já experimentada no fragmento da existência terrestre, neste instante emprestado a que chamamos vida. Novembro é tempo de primavera para nós, do grão caído na terra que é fecundo, floresce e renasce. Os celtas elegeram este período do ano para celebrar a memória dos mortos, uma memória que as igrejas cristianizaram para torná-la uma das festas mais vividas ainda que a cultura dominante reprima a morte e a finitude. A morte não é mais a realidade última para os homens e sim a Ressurreição para a Vida Eterna. O cristão prepara a sua ancestralidade a cada dia ainda que sua vida sofra as contradições das quedas. Jesus nunca rejeita ninguém, ao contrário, abraça-nos com seu grande amor e nos concede a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, conduzindo-nos, definitivamente, à vida eterna. Paulo nos garante: “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus da morte habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus Cristo da morte dará vida a vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11). A comunhão com Cristo na fé e na eucaristia nos resgata da morte, do nada e nos insere na existência de Deus: “Quem comer minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). É preciso purificar a morte cristã de toda “pornografia mortuária” (Karl Rahner) que procura, com uma retórica consumista e mágica, cancelar e apagar esta dramática realidade humana. Dignidade, doação, sinceridade e realismo são virtudes humanas, mas o cristão deve também conhecer a confiança, a esperança e a alegria pascal. A oração pelos mortos é um ato de autêntica intercessão, de amor e de caridade pelos que vivem em Deus. É um ato de solidariedade que nunca pode ser interrompido, mas deve ser vivido como uma communio sanctorum, uma comunhão dos santos que foram perdoados por Deus.


CONTEMPLAR

Ressurreição, 1973, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1926-), técnica mista, acetato de polivinil, areia de silício, pigmentos, ouro fino não queimado, 22 ql., Igreja de Saint-Hugues-de-Chartreuse, Isère, França.






segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 49
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXX Domingo do Tempo Comum              26.10.2014
Ex 22, 20-26                      1 Ts 1, 5-10                         Mt 22, 34-40


ESCUTAR

“Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito” (Ex 22, 20).

“E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1 Ts 1, 6).

“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” (Mt 22, 36).


MEDITAR

“Quando o mundo, ao contemplar a Igreja de Cristo, exclamar como nos primórdios da cristandade: ‘Vejam o quanto se amam!’, os cristãos olharão única e fixamente para aquele ao qual pertencem e, desconhecedores do bem que fazem, pedirão perdão por seus pecados” (Dietrich Bonhoeffer).

“A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo – Deus comigo. O amor ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo” (Hélio Pellegrino).


ORAR

Jesus tinha um método estranho para fazer as operações: quando tinha que multiplicar, dividia (como fez com os pães); para obter maior resultado propunha o abandonar, cortar, perder. O judaísmo tinha 613 preceitos dos quais 365 começavam com “não” e 248 com um imperativo “deves”. Jesus não se perde neste emaranhado selvagem de prescrições e casuísmos. Ao ser provocado pelo doutor da Lei, resume tudo em dois mandamentos que têm um só fundamento: o Amor. Temos um certo descaso pelo que é essencial até porque preferimos a complexidade, as complicações e a quantidade de preceitos, pois nos ajudam a nos evadir do necessário. Temos medo deste recorte feito por Jesus que nos permite descobrir dois rostos: o do irmão e o do Pai. Jesus está impaciente porque deseja que sejamos capazes de ver alguma coisa e descobrir alguém. Jesus revela que todas as práticas, observâncias e tributos religiosos sem o mandamento principal do amor estão privados de sentido e valor. O mandamento do amor é o primeiro, não porque está no topo da lista, mas porque está no centro, no coração, pois é no coração que todos devem se referenciar e se medir. O amor é a medida da fé. Temos a pretensão de separar o amor de Deus do amor ao próximo. Reduzimos o nosso agir à frequência dos sacramentos e esquecemos de que ele deve ser calcado na luta pela justiça e contra a discriminação e a intolerância de todos os tipos. Jesus arranca os códigos morais religiosos de nossas mãos e nos obriga a descobrir um rosto, vários rostos. O essencial não está escrito nas páginas de um livro, pois o essencial sempre tem um rosto. Jesus nos faz saber que não existe nenhum espaço sagrado em que possamos nos encontrar somente com Deus e ficar de costas para os outros. Um amor a Deus que esquece seus filhos e filhas é uma grande mentira.


CONTEMPLAR

O coração pleno do amor, 2010, Patrice Delaby (1953-), óleo sobre tela, Pas-de-Calais, França.