segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Caminho da Beleza 51 - Dedicação da Basílica de Latrão

O Caminho da Beleza 51
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Dedicação da Basílica de Latrão                09.11.2014
Ez 47, 1-2.8-9.12              1 Cor 3, 9-11.16-17                       Jo 2, 13-22


ESCUTAR

“Suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem do santuário” (Ez 47, 12).

“Vós sois lavoura de Deus, construção de Deus” (1 Cor 3, 9).

“Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2, 16).


MEDITAR

“Por que... nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despeja a tantas famílias, se expulsa os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza? Porque neste sistema se retirou o homem, a pessoa humana, do centro, substituindo-o por outra coisa. Porque se rende um culto idolátrico ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença” (Francisco, servo dos servos de Deus).

“Uma má religião torna-nos insensíveis, incapazes de vida corporal. O culto do verdadeiro Deus faz-nos corporalmente vivos, apalpando, saboreando, cheirando, vendo e ouvindo. A realização plena de nosso ser, dom de Deus, significa aspirar à vitalidade em todos os nossos sentidos” (Timothy Radcliffe).


ORAR

A Basílica de Latrão, catedral da Igreja de Roma, é considerada a mãe de todas as igrejas. O palácio de Latrão, propriedade da família imperial, tornou-se, no século IV, a habitação particular do Papa. Constantino doou ao papa Melquiades (310-314) o palácio onde se encontrava a “Casa de Fausta”, a residência da mulher do Imperador na qual o Papa celebrou um Concílio. Foi a sede oficial do bispo de Roma do século IV ao XIV e por isso representa o ideal institucional da Igreja Romana que, saída da fase de perseguição e de martírio, fez sua entrada triunfal na sociedade imperial romana. Durante séculos, ela foi o emblema da liturgia pontifical que moldou o estilo de celebração de todas as igrejas do Ocidente. O evangelho mostra Jesus enxotando os mercadores do Templo porque enganam os mais simples para acumular dinheiro e bens. Uma Igreja oficializada por um imperador, na Casa de Fausta, só poderia ter no seu DNA o germe e a voracidade de tudo o que é fausto e ostensivo. A Mensagem do Sínodo da Palavra, porém, não deixa dúvidas: “O cristão tem, pois, a missão de anunciar esta Palavra divina de esperança, compartindo-a com os pobres e os que sofrem, mediante o testemunho de sua fé no Reino de verdade e vida, de santidade e graça, de justiça, de amor e paz, mediante a aproximação amorosa que não julga nem condena, mas que sustenta, ilumina, conforta e perdoa, seguindo as palavras de Cristo: ‘Venham a mim, todos os que estão cansados e agoniados e eu lhes darei descanso” (Mt 11, 28). Jesus nos revela que o novo templo é o seu Corpo Ressuscitado, pois, com sua morte e ressurreição, destruiu todo o limite local e geográfico para a sua presença espiritual. Paulo clama em Atenas: “Deus não habita em templos feitos pelas mãos dos homens” (At 17, 24). Devemos estar atentos ao calor que conferimos aos templos, aos ritos e aos objetos sacros. Não podemos idolatrá-los e nem lhes conferir um valor mágico, pois o cristianismo é uma prática que brota do nosso encontro pessoal com Jesus, com a nossa consciência e com o Espírito que nos ilumina e conduz. Nossos templos não podem se tornar fetiches e nem marcos idolátricos para os cultos burocráticos em que os altos funcionários eclesiásticos oferecem os lugares de honra para os mais ricos e poderosos da sociedade. Nossos pastores parecem desdenhar do veredicto de Jesus: “Eu vos asseguro: um rico dificilmente entrará no reino de Deus. Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino de Deus” (Mt 19, 24). O Papa João Paulo II reiterava na sua primeira Encíclica: “A missão da Igreja é a mesma de Cristo” (RH 7, 12, 18) e nesta Igreja de Jesus “suas mãos tocam repetidamente corpos enfermos ou infectados, suas palavras proclamam a justiça, infundem valor aos infelizes e concedem perdão aos pecadores” (Mensagem final do Sínodo da Palavra). É chegado o momento em que a Casa de Fausta deve ser abandonada como o símbolo de uma época histórica em que Igreja e Império celebraram um casamento espúrio e perverso. É chegada a hora em que a Igreja de Jesus deve estar próxima dos mais necessitados, praticando-se como uma Igreja pobre entre os pobres. Tendo, com Ele, o “mesmo sentir e pensar” e oferecendo o testemunho da sua identidade com Cristo Jesus que “despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se igual ao ser humano e aparecendo como qualquer homem, humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz! (Fl 2, 7-8). É chegado o momento, e já quase passou, de cumprir o que proclamou o Papa João XXIII na abertura do Vaticano II: “Está na hora de abrir as janelas para limpar a poeira de Constantino grudada na cadeira de Pedro”.


CONTEMPLAR

Expulsão dos Mercadores do Templo, 1824, Alexander Ivanov (1806-1858), esboço, Rússia.






segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 50 - Celebração de Finados

O Caminho da Beleza 50
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Celebração de Finados                        02.11.2014
Jó 19, 1.23-27                    Rm 5, 5-11              Jo 6, 37-40


ESCUTAR

“Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó, e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne verei a Deus” (Jó 19, 25-26).

“A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

“E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia” (Jo 6, 39).


MEDITAR

“As pessoas não morrem: tornam a ficar encantadas”(João Guimarães Rosa).

“Eu sempre acreditei que o instante da morte é a norma e o fim da vida. Eu penso que para os que vivem como se faz necessário este é o instante em que, por uma fração infinitesimal de tempo, a verdade nua e crua, pura, certa e eterna entra na alma” (Simone Weil).


ORAR

A morte fica sempre como uma obscura passagem, uma luta, uma agonia e um mistério. A morte não é o estuário trágico, mas o ingresso na comunhão plena com Deus já experimentada no fragmento da existência terrestre, neste instante emprestado a que chamamos vida. Novembro é tempo de primavera para nós, do grão caído na terra que é fecundo, floresce e renasce. Os celtas elegeram este período do ano para celebrar a memória dos mortos, uma memória que as igrejas cristianizaram para torná-la uma das festas mais vividas ainda que a cultura dominante reprima a morte e a finitude. A morte não é mais a realidade última para os homens e sim a Ressurreição para a Vida Eterna. O cristão prepara a sua ancestralidade a cada dia ainda que sua vida sofra as contradições das quedas. Jesus nunca rejeita ninguém, ao contrário, abraça-nos com seu grande amor e nos concede a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, conduzindo-nos, definitivamente, à vida eterna. Paulo nos garante: “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus da morte habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus Cristo da morte dará vida a vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11). A comunhão com Cristo na fé e na eucaristia nos resgata da morte, do nada e nos insere na existência de Deus: “Quem comer minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). É preciso purificar a morte cristã de toda “pornografia mortuária” (Karl Rahner) que procura, com uma retórica consumista e mágica, cancelar e apagar esta dramática realidade humana. Dignidade, doação, sinceridade e realismo são virtudes humanas, mas o cristão deve também conhecer a confiança, a esperança e a alegria pascal. A oração pelos mortos é um ato de autêntica intercessão, de amor e de caridade pelos que vivem em Deus. É um ato de solidariedade que nunca pode ser interrompido, mas deve ser vivido como uma communio sanctorum, uma comunhão dos santos que foram perdoados por Deus.


CONTEMPLAR

Ressurreição, 1973, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1926-), técnica mista, acetato de polivinil, areia de silício, pigmentos, ouro fino não queimado, 22 ql., Igreja de Saint-Hugues-de-Chartreuse, Isère, França.






segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 49
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXX Domingo do Tempo Comum              26.10.2014
Ex 22, 20-26                      1 Ts 1, 5-10                         Mt 22, 34-40


ESCUTAR

“Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito” (Ex 22, 20).

“E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1 Ts 1, 6).

“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” (Mt 22, 36).


MEDITAR

“Quando o mundo, ao contemplar a Igreja de Cristo, exclamar como nos primórdios da cristandade: ‘Vejam o quanto se amam!’, os cristãos olharão única e fixamente para aquele ao qual pertencem e, desconhecedores do bem que fazem, pedirão perdão por seus pecados” (Dietrich Bonhoeffer).

“A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo – Deus comigo. O amor ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo” (Hélio Pellegrino).


ORAR

Jesus tinha um método estranho para fazer as operações: quando tinha que multiplicar, dividia (como fez com os pães); para obter maior resultado propunha o abandonar, cortar, perder. O judaísmo tinha 613 preceitos dos quais 365 começavam com “não” e 248 com um imperativo “deves”. Jesus não se perde neste emaranhado selvagem de prescrições e casuísmos. Ao ser provocado pelo doutor da Lei, resume tudo em dois mandamentos que têm um só fundamento: o Amor. Temos um certo descaso pelo que é essencial até porque preferimos a complexidade, as complicações e a quantidade de preceitos, pois nos ajudam a nos evadir do necessário. Temos medo deste recorte feito por Jesus que nos permite descobrir dois rostos: o do irmão e o do Pai. Jesus está impaciente porque deseja que sejamos capazes de ver alguma coisa e descobrir alguém. Jesus revela que todas as práticas, observâncias e tributos religiosos sem o mandamento principal do amor estão privados de sentido e valor. O mandamento do amor é o primeiro, não porque está no topo da lista, mas porque está no centro, no coração, pois é no coração que todos devem se referenciar e se medir. O amor é a medida da fé. Temos a pretensão de separar o amor de Deus do amor ao próximo. Reduzimos o nosso agir à frequência dos sacramentos e esquecemos de que ele deve ser calcado na luta pela justiça e contra a discriminação e a intolerância de todos os tipos. Jesus arranca os códigos morais religiosos de nossas mãos e nos obriga a descobrir um rosto, vários rostos. O essencial não está escrito nas páginas de um livro, pois o essencial sempre tem um rosto. Jesus nos faz saber que não existe nenhum espaço sagrado em que possamos nos encontrar somente com Deus e ficar de costas para os outros. Um amor a Deus que esquece seus filhos e filhas é uma grande mentira.


CONTEMPLAR

O coração pleno do amor, 2010, Patrice Delaby (1953-), óleo sobre tela, Pas-de-Calais, França.




           
           




segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 48 - XXIX Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 48
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXIX Domingo do Tempo Comum             19.10.2014
Is 45, 1.4-6              1 Ts 1, 1-5                Mt 22, 15-21


ESCUTAR

“Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há Deus” (Is 45, 5).

“Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações” (1 Ts 1, 2).

“Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a Cesar?” (Mt 22, 17).


MEDITAR

“A Igreja não existe para si mesma, não é o ponto de chegada, mas deve apontar para além de si, para o alto, acima de nós. A Igreja é verdadeiramente o que deve ser, na medida em que deixa transparecer o Outro – com o ‘O’ grande – do qual provém e para o qual conduz. A Igreja é o lugar onde Deus ‘chega’ a nós e donde nós ‘partimos’ para Ele” (Bento XVI).

“Ao se aproximar da sua morte e da sua ressurreição, Jesus se despojou de muitas coisas. Não fez mais nenhum milagre, não estava mais no centro da multidão, uma figura cercada por apoiadores e admiradores. Ele se privou dos seus discípulos que o renegaram e fugiram. Finalmente, ele se despojou das suas vestes e subiu nu na cruz. Tudo isso abriu o caminho para o dom inimaginável da Ressurreição” (Timothy Radcliffe).


ORAR

O Senhor confere o título de cristo – ungido – a Ciro, rei da Pérsia que nem sequer O conhecia. Um não–crente, sem etiquetas religiosas é chamado para realizar as obras de Deus. Os judeus haviam buscado a segurança ao estreitar alianças, ao pactuar com os poderosos da vez e esquecer que a segurança somente está assegurada pela fidelidade ao Senhor. Os pactos não impediram a ruína, ao contrário, causaram-na. Durante o exílio da Babilônia, a esperança enfraqueceu, mas graças ao edito de Ciro, em 598 AC, os judeus puderam voltar à sua terra. O edito de Ciro é mais convincente do que o de Constantino, recém-convertido, que aprisionou a Igreja ao poder temporal, tornando-a um império religioso. Jesus escapa da armadilha de seus interlocutores, deixando-os numa situação embaraçosa, pois não delimita de uma maneira inequívoca o território espiritual e o temporal. Cristo não dá uma resposta/receita válida para todo o sempre, mas reafirma a riqueza de uma luz que existe no nosso interior: a consciência. O seguimento de Jesus não nos fornece um passaporte eterno e milagroso que resolve, automaticamente, para sempre, todos os conflitos. Paulo nos exorta a acreditar que a maturidade da fé vem do enfrentamento dos desafios, sem nada escamotear, apenas contando com a abundante força do Espírito. No nosso agir, devemos assumir nossa posição com a atuação da fé, o esforço do amor e a firmeza da esperança em Cristo. Jesus pede uma moeda, pois vivia como itinerante, sem trabalho e sem morada fixa. Ele não tinha sequer uma moeda e sua túnica não tinha bolsos. Jesus não afirma que uma metade da vida, a material e a econômica, pertence à esfera de Cesar e a outra metade, a espiritual e religiosa, à esfera de Deus. Sua mensagem é clara: se entrarmos no Reino não podemos consentir que nenhum Cesar imponha sacrifícios ao que somente a Deus pertence: os famintos do mundo, os proscritos da sociedade, os vitimados por guerras. Jesus é enfático na sua escolha e o seu Evangelho já a fez por nós: que nenhum Cesar conte conosco, pois nunca nenhum Cesar contará com Ele.


CONTEMPLAR


Jesus e o imposto da moeda, c. 1620-30, Giovanni Serodine (c.1594-1630), óleo sobre tela, 146 cm x 227 cm, Galeria do Museu Nacional da Escócia, Edimburgo, Escócia.






segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 47 - Nossa Senhora Aparecida

O Caminho da Beleza 47
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Nossa Senhora Aparecida                  12.10.2014
Est 5, 1b-2; 7, 2b-3                   Ap 12, 1-5                Jo 2, 1-11


ESCUTAR

“Concede-me a vida, eis o meu pedido, e a vida do meu povo, eis o meu desejo!” (Est 7, 3).

“Apareceu no céu um grande sinal” (Ap 12, 1).

“Eles não têm mais vinho” (Jo 2, 3).


MEDITAR

“A mesa em comum com o hóspede é o espaço em que o alimento é compartilhado, e o comer se torna ‘convívio’, ocasião de comunhão vital: é à mesa, à mesa compartilhada, que o ser humano tem a oportunidade, todas as vezes renovada, de se libertar do seu ser ‘devorador’ – do alimento e do outro – e de se tornar mais uma vez, a cada dia, uma pessoa de comunhão” (Enzo Bianchi).

“Soou a hora da história do mundo em que o amor do irmão homem, como problema e como realidade, une os cristãos e os não-cristãos. Eis porque também chegou a hora em que é necessário ver que o amor cristão, naquilo que tem de mais íntimo, ultrapassa o cristianismo: ultrapassa, derramando-se na extensão total do mundo. Mais do que isto, é necessário compreender que este movimento de superação constitui a essência do cristianismo” (Hans Urs von Balthasar).


ORAR

   O tema das Bodas é marcante em toda a nossa tradição judaico-cristã. Ele realça a dimensão amorosa e terna da Aliança do Senhor com a abundância proclamada pelo profeta Joel: “Acontecerá naquele dia que as serras estarão suando vinho novo, os morros escorrendo leite (Jl 4, 18). O evangelista revela que todo rito legalista é estéril. A água só se converte em vinho depois de retirada das talhas, pois antes era apenas uma água que lavava o exterior das pessoas que cumpriam a norma rígida da Lei. Jesus nos faz saber que não podemos jamais nos fechar num ritualismo legalista que endurece os corações e entristece os espíritos. Agora a água, transformada em vinho, é oferecida aos borbotões para todos na festa nupcial. Este vinho representa o cumprimento da promessa de abundância: “Vinde comer meus manjares e beber o vinho que misturei” (Pr 9, 4-5) e “Vinde a mim vós que me amais, e saciai-vos de meus frutos; recordar-me é mais doce do que o mel, possuir-me é melhor que os favos” (Eclo 24, 20-21). O vinho é a alegria do homem reconciliado consigo mesmo, com seu próximo e com seu Deus. A festa de Caná é o momento de um novo parto tanto para Jesus como para Maria que auxilia o rito de passagem de seu Filho que sai do silêncio para o início da vida pública. Confiante que o Filho, embriagado pelo Espírito, estava cumprindo a vontade do Pai, Maria ordena sem hesitar: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Como escreve a psicanalista Françoise Dolto: “Talvez, tenha sido nesse momento, nas bodas de Caná, que Maria se tornou a Mãe de Deus!”. A água convertida em vinho é, simbolicamente, o novo parto em que a Mãe – água e sangue – gera o Filho para o mundo e para a vida em abundância – pão e vinho – sendo Ele mesmo a Vinha da qual somos os ramos. A essência deste milagre está na revelação de que Jesus tem compaixão pela necessidade dos outros e que o amor fraterno é sempre estar pronto a responder a estas necessidades, sejam quais forem. Com Maria se antecipa o milagre da fé pascal e se antecipa para nós, seus filhos e filhas, a mesma fé para que ninguém duvide de que Jesus seja capaz de renascer e expandir a alegria das Bodas do Cordeiro para toda a humanidade convidada, agora e sempre, para o Seu banquete nupcial. O gesto de entrega de Jesus será glorificado na Cruz como uma exaltação embriagada de amor e de amar que foi iniciada em Caná.


CONTEMPLAR

Bodas em Caná, 2014, Katie Hoffman, óleo sobre tela, 18” x 18”, Denver, Colorado, Estados Unidos.







segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 46 - XXVII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 46
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXVII Domingo do Tempo Comum                       05.10.2014
Is 5, 1-7                    Fl 4, 6-9                   Mt 21, 33-43


ESCUTAR

“Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu” (Is 5, 1-7).

“E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus” (Fl 4, 7).

“Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber os seus frutos” (Mt 21, 34).


MEDITAR

“O verdadeiro problema da Igreja é continuar com uma resignação e um tédio cada vez maior pelos caminhos habituais de uma mediocridade espiritual” (Karl Rahner).

“Senhor, faze que eu tenha fome e sede de justiça. Faze que eu não seja apegado às pequenas coisas que me tranquilizam, a um status quo pelo qual me sinto protegido... Que eu não perca nunca a esperança; que eu saiba contestar, em nome desta esperança em Ti e no homem, todo imobilismo, toda conservação que nega a ação incessante do teu Espírito!” (Ettore Masina).


ORAR

Somos chamados a sermos juízes do amante traído pela vinha amada. O amado cuidou com toda dedicação da sua vinha, mas ela produziu uvas selvagens. O amante esperava frutos bons para que os outros pudessem deles usufruir; o seu amor e dedicação deveriam ser devolvidos em favor dos outros. A canção de amor se converte numa denúncia áspera e cheia de questionamento: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?”. Somos nós a vinha do Senhor que produzimos uvas selvagens da injustiça, do desamor e da mentira. Apesar de tudo, o Senhor continua tentando nos atrair com canções de amor. A lição do profeta cabe como uma luva para as igrejas que reclamam privilégios, outorgam a si direitos, celebram triunfos passados, mas não produzem frutos de amor. Jesus não pede nada de excepcional, apenas sugere, por meio do Espírito, o possível que devemos produzir e o impossível que devemos esperar do Pai. A Igreja de Jesus foi construída sobre uma pedra desprezada e, até hoje, ela se sustenta sobre a pedra rejeitada e sobre tantas pessoas desprezadas. Paulo nos evoca a produzir frutos verdadeiros, respeitáveis, justos, puros, amáveis, honrados e dignos de louvor. São frutos que podem ser encontrados em outras vinhas que sempre são vinhas do Senhor ainda que não tenham a placa oficial pendurada na porta de entrada. A parábola nos exorta a que não criemos falsas ilusões ao reivindicar um direito de propriedade sobre a salvação e a verdade. Jesus não diz que a vinha será entregue às igrejas ou a uma nova instituição, mas “a um povo que produzirá frutos”. O Reino de Deus está no povo que produz frutos de justiça, de compaixão e que defende os sem direito e os sem voz. “Povo de Deus é o que pratica a justiça em qualquer situação, tempo ou lugar” (Lumen Gentium 9). A maior tragédia que pode suceder ao cristianismo é calar a voz dos profetas, que os sacerdotes se intitulem donos da vinha do Senhor e que o Cristo seja posto de lado por sufocarmos o seu Espírito. Não podemos jamais esquecer que se a Igreja não responder às esperanças que pôs nela o Senhor, Ele abrirá novos caminhos de salvação em povos que produzem frutos.


CONTEMPLAR


A Vinha Encarnada, 1888, Vincent van Gogh (1853-1890), óleo sobre tela, 75 cm x 93 cm, Museu Pushkin, Moscou, Rússia.




terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 45 - XXVI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 45
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXVI Domingo do Tempo Comum             28.09.2014
Ez 18, 25-28                      Fl 2, 1-5                   Mt 21, 28-32


ESCUTAR

“Ouvi, vós da casa de Israel: é a minha conduta que não é correta ou, antes, é a vossa conduta que não é correta” (Ez 18, 25).

“Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro” (Fl 2, 3-4).

“Em verdade vos digo que os cobradores e as prostitutas vos precedem no reino de Deus” (Mt 21, 31).


MEDITAR

“Se eu fosse um demônio, para tentar a um grupo religioso sério, pedir-lhe-ia que criasse muitas leis e regras e que logo organizassem sua vida. Os membros desse grupo poderiam pensar que a observância destas leis é o caminho para servir a Deus, mas gradualmente Deus se retiraria. Logo após isto, em nome da busca da verdade, eles propagariam essas leis mediante palavras e ideias... tudo isso em nome de Deus. Pouco a pouco, eles mesmos tomariam o lugar de Deus” (Shigeto Oshida).

“Muitas pessoas esperam ser muito mais santas e perfeitas estando às voltas com grandes coisas e grandes palavras. Buscam e desejam muitas coisas, querendo também as possuir; não obstante olharem tanto para si e para isso e aquilo, e pensarem estar se empenhando atrás do recolhimento interior, não podem acolher uma palavra. Estejais verdadeiramente certos de que essas pessoas estão longe de Deus e fora dessa união” (Mestre Eckhart).


ORAR

O profeta nos faz saber da nossa responsabilidade individual e cada um de nós é responsável pelo momento presente, dono do seu próprio destino e artífice do seu futuro. Se somos o que somos devemos a nós mesmos. Se não somos o que queríamos ter sido não é justo descarregar as culpas nos DNAs familiares. É muito cômodo responsabilizar a sociedade, as estruturas, o ambiente familiar e o sistema. Atualmente as pessoas não se arrependem nem do bem e nem do mal que fazem e continuam sem se perguntar sobre os conteúdos da vida e da direção que caminham. O Evangelho nos mostra dois filhos arrependidos. O primeiro se arrependeu da afirmativa (“...mas não foi”); o segundo, se arrependeu da negativa (“...mas depois se arrependeu e foi”). A Igreja de hoje deve temer mais os consensos superficiais, as aprovações entusiastas, as declarações que nada custam e as aclamações hipócritas. Muita gente diz sempre Sim em qualquer circunstância e em todas as partes. Toda obediência ostensiva é suspeita, pois pode ser um recurso sutil para se esquivar das tarefas mais ingratas. Os aplausos dificilmente abrem para um compromisso concreto e silencioso. Nós, cristãos do século XXI, não inventamos absolutamente nada. Continuamos a viver numa sociedade e em igrejas onde cada um busca o próprio interesse e o próprio êxito; pisando uns sobre os outros para ascender em status e poder. A mensagem da parábola é clara: diante de Deus, o importante não é falar, mas fazer. O decisivo não é prometer ou confessar, mas cumprir a Sua vontade. A tradição rabínica repete: “Os justos dizem pouco e fazem muito; os ímpios dizem muito e não fazem nada”. Os escribas falam constantemente da Lei e o nome de Deus está sempre em seus lábios. Os sacerdotes do Templo louvam a Deus sem descanso e suas bocas estão cheias de salmos. Ninguém duvidaria de que estivessem fazendo a vontade do Pai. Mas as coisas não são sempre como parecem. Os cobradores de impostos e as prostitutas não falam a ninguém de Deus e Jesus tem compaixão para com eles. O Credo que pronunciamos repetitivamente é inócuo se vivemos sem compaixão. Nossos pedidos de paz e justiça são estéreis se nada fazemos para construir uma vida mais digna para todos. Nós, cristãos, construímos magníficos sistemas de pensamento para recolher a doutrina cristã com profundidade. No entanto, a verdadeira vontade do Pai é vingada pelos que traduzem em atos de compaixão o Evangelho de Jesus.


CONTEMPLAR

O Bom Samaritano, 1885, Ferdinand Hodler (1853-1918), óleo sobre tela, Museu de Arte Moderna de Zürich, Suíça.