segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 50 - Celebração de Finados

O Caminho da Beleza 50
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Celebração de Finados                        02.11.2014
Jó 19, 1.23-27                    Rm 5, 5-11              Jo 6, 37-40


ESCUTAR

“Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó, e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne verei a Deus” (Jó 19, 25-26).

“A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

“E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia” (Jo 6, 39).


MEDITAR

“As pessoas não morrem: tornam a ficar encantadas”(João Guimarães Rosa).

“Eu sempre acreditei que o instante da morte é a norma e o fim da vida. Eu penso que para os que vivem como se faz necessário este é o instante em que, por uma fração infinitesimal de tempo, a verdade nua e crua, pura, certa e eterna entra na alma” (Simone Weil).


ORAR

A morte fica sempre como uma obscura passagem, uma luta, uma agonia e um mistério. A morte não é o estuário trágico, mas o ingresso na comunhão plena com Deus já experimentada no fragmento da existência terrestre, neste instante emprestado a que chamamos vida. Novembro é tempo de primavera para nós, do grão caído na terra que é fecundo, floresce e renasce. Os celtas elegeram este período do ano para celebrar a memória dos mortos, uma memória que as igrejas cristianizaram para torná-la uma das festas mais vividas ainda que a cultura dominante reprima a morte e a finitude. A morte não é mais a realidade última para os homens e sim a Ressurreição para a Vida Eterna. O cristão prepara a sua ancestralidade a cada dia ainda que sua vida sofra as contradições das quedas. Jesus nunca rejeita ninguém, ao contrário, abraça-nos com seu grande amor e nos concede a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, conduzindo-nos, definitivamente, à vida eterna. Paulo nos garante: “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus da morte habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus Cristo da morte dará vida a vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11). A comunhão com Cristo na fé e na eucaristia nos resgata da morte, do nada e nos insere na existência de Deus: “Quem comer minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). É preciso purificar a morte cristã de toda “pornografia mortuária” (Karl Rahner) que procura, com uma retórica consumista e mágica, cancelar e apagar esta dramática realidade humana. Dignidade, doação, sinceridade e realismo são virtudes humanas, mas o cristão deve também conhecer a confiança, a esperança e a alegria pascal. A oração pelos mortos é um ato de autêntica intercessão, de amor e de caridade pelos que vivem em Deus. É um ato de solidariedade que nunca pode ser interrompido, mas deve ser vivido como uma communio sanctorum, uma comunhão dos santos que foram perdoados por Deus.


CONTEMPLAR

Ressurreição, 1973, Jean-Marie Pirot (Arcabas) (1926-), técnica mista, acetato de polivinil, areia de silício, pigmentos, ouro fino não queimado, 22 ql., Igreja de Saint-Hugues-de-Chartreuse, Isère, França.






segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 49
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXX Domingo do Tempo Comum              26.10.2014
Ex 22, 20-26                      1 Ts 1, 5-10                         Mt 22, 34-40


ESCUTAR

“Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito” (Ex 22, 20).

“E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1 Ts 1, 6).

“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” (Mt 22, 36).


MEDITAR

“Quando o mundo, ao contemplar a Igreja de Cristo, exclamar como nos primórdios da cristandade: ‘Vejam o quanto se amam!’, os cristãos olharão única e fixamente para aquele ao qual pertencem e, desconhecedores do bem que fazem, pedirão perdão por seus pecados” (Dietrich Bonhoeffer).

“A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo – Deus comigo. O amor ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo” (Hélio Pellegrino).


ORAR

Jesus tinha um método estranho para fazer as operações: quando tinha que multiplicar, dividia (como fez com os pães); para obter maior resultado propunha o abandonar, cortar, perder. O judaísmo tinha 613 preceitos dos quais 365 começavam com “não” e 248 com um imperativo “deves”. Jesus não se perde neste emaranhado selvagem de prescrições e casuísmos. Ao ser provocado pelo doutor da Lei, resume tudo em dois mandamentos que têm um só fundamento: o Amor. Temos um certo descaso pelo que é essencial até porque preferimos a complexidade, as complicações e a quantidade de preceitos, pois nos ajudam a nos evadir do necessário. Temos medo deste recorte feito por Jesus que nos permite descobrir dois rostos: o do irmão e o do Pai. Jesus está impaciente porque deseja que sejamos capazes de ver alguma coisa e descobrir alguém. Jesus revela que todas as práticas, observâncias e tributos religiosos sem o mandamento principal do amor estão privados de sentido e valor. O mandamento do amor é o primeiro, não porque está no topo da lista, mas porque está no centro, no coração, pois é no coração que todos devem se referenciar e se medir. O amor é a medida da fé. Temos a pretensão de separar o amor de Deus do amor ao próximo. Reduzimos o nosso agir à frequência dos sacramentos e esquecemos de que ele deve ser calcado na luta pela justiça e contra a discriminação e a intolerância de todos os tipos. Jesus arranca os códigos morais religiosos de nossas mãos e nos obriga a descobrir um rosto, vários rostos. O essencial não está escrito nas páginas de um livro, pois o essencial sempre tem um rosto. Jesus nos faz saber que não existe nenhum espaço sagrado em que possamos nos encontrar somente com Deus e ficar de costas para os outros. Um amor a Deus que esquece seus filhos e filhas é uma grande mentira.


CONTEMPLAR

O coração pleno do amor, 2010, Patrice Delaby (1953-), óleo sobre tela, Pas-de-Calais, França.




           
           




segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 48 - XXIX Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 48
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXIX Domingo do Tempo Comum             19.10.2014
Is 45, 1.4-6              1 Ts 1, 1-5                Mt 22, 15-21


ESCUTAR

“Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há Deus” (Is 45, 5).

“Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações” (1 Ts 1, 2).

“Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a Cesar?” (Mt 22, 17).


MEDITAR

“A Igreja não existe para si mesma, não é o ponto de chegada, mas deve apontar para além de si, para o alto, acima de nós. A Igreja é verdadeiramente o que deve ser, na medida em que deixa transparecer o Outro – com o ‘O’ grande – do qual provém e para o qual conduz. A Igreja é o lugar onde Deus ‘chega’ a nós e donde nós ‘partimos’ para Ele” (Bento XVI).

“Ao se aproximar da sua morte e da sua ressurreição, Jesus se despojou de muitas coisas. Não fez mais nenhum milagre, não estava mais no centro da multidão, uma figura cercada por apoiadores e admiradores. Ele se privou dos seus discípulos que o renegaram e fugiram. Finalmente, ele se despojou das suas vestes e subiu nu na cruz. Tudo isso abriu o caminho para o dom inimaginável da Ressurreição” (Timothy Radcliffe).


ORAR

O Senhor confere o título de cristo – ungido – a Ciro, rei da Pérsia que nem sequer O conhecia. Um não–crente, sem etiquetas religiosas é chamado para realizar as obras de Deus. Os judeus haviam buscado a segurança ao estreitar alianças, ao pactuar com os poderosos da vez e esquecer que a segurança somente está assegurada pela fidelidade ao Senhor. Os pactos não impediram a ruína, ao contrário, causaram-na. Durante o exílio da Babilônia, a esperança enfraqueceu, mas graças ao edito de Ciro, em 598 AC, os judeus puderam voltar à sua terra. O edito de Ciro é mais convincente do que o de Constantino, recém-convertido, que aprisionou a Igreja ao poder temporal, tornando-a um império religioso. Jesus escapa da armadilha de seus interlocutores, deixando-os numa situação embaraçosa, pois não delimita de uma maneira inequívoca o território espiritual e o temporal. Cristo não dá uma resposta/receita válida para todo o sempre, mas reafirma a riqueza de uma luz que existe no nosso interior: a consciência. O seguimento de Jesus não nos fornece um passaporte eterno e milagroso que resolve, automaticamente, para sempre, todos os conflitos. Paulo nos exorta a acreditar que a maturidade da fé vem do enfrentamento dos desafios, sem nada escamotear, apenas contando com a abundante força do Espírito. No nosso agir, devemos assumir nossa posição com a atuação da fé, o esforço do amor e a firmeza da esperança em Cristo. Jesus pede uma moeda, pois vivia como itinerante, sem trabalho e sem morada fixa. Ele não tinha sequer uma moeda e sua túnica não tinha bolsos. Jesus não afirma que uma metade da vida, a material e a econômica, pertence à esfera de Cesar e a outra metade, a espiritual e religiosa, à esfera de Deus. Sua mensagem é clara: se entrarmos no Reino não podemos consentir que nenhum Cesar imponha sacrifícios ao que somente a Deus pertence: os famintos do mundo, os proscritos da sociedade, os vitimados por guerras. Jesus é enfático na sua escolha e o seu Evangelho já a fez por nós: que nenhum Cesar conte conosco, pois nunca nenhum Cesar contará com Ele.


CONTEMPLAR


Jesus e o imposto da moeda, c. 1620-30, Giovanni Serodine (c.1594-1630), óleo sobre tela, 146 cm x 227 cm, Galeria do Museu Nacional da Escócia, Edimburgo, Escócia.






segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 47 - Nossa Senhora Aparecida

O Caminho da Beleza 47
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Nossa Senhora Aparecida                  12.10.2014
Est 5, 1b-2; 7, 2b-3                   Ap 12, 1-5                Jo 2, 1-11


ESCUTAR

“Concede-me a vida, eis o meu pedido, e a vida do meu povo, eis o meu desejo!” (Est 7, 3).

“Apareceu no céu um grande sinal” (Ap 12, 1).

“Eles não têm mais vinho” (Jo 2, 3).


MEDITAR

“A mesa em comum com o hóspede é o espaço em que o alimento é compartilhado, e o comer se torna ‘convívio’, ocasião de comunhão vital: é à mesa, à mesa compartilhada, que o ser humano tem a oportunidade, todas as vezes renovada, de se libertar do seu ser ‘devorador’ – do alimento e do outro – e de se tornar mais uma vez, a cada dia, uma pessoa de comunhão” (Enzo Bianchi).

“Soou a hora da história do mundo em que o amor do irmão homem, como problema e como realidade, une os cristãos e os não-cristãos. Eis porque também chegou a hora em que é necessário ver que o amor cristão, naquilo que tem de mais íntimo, ultrapassa o cristianismo: ultrapassa, derramando-se na extensão total do mundo. Mais do que isto, é necessário compreender que este movimento de superação constitui a essência do cristianismo” (Hans Urs von Balthasar).


ORAR

   O tema das Bodas é marcante em toda a nossa tradição judaico-cristã. Ele realça a dimensão amorosa e terna da Aliança do Senhor com a abundância proclamada pelo profeta Joel: “Acontecerá naquele dia que as serras estarão suando vinho novo, os morros escorrendo leite (Jl 4, 18). O evangelista revela que todo rito legalista é estéril. A água só se converte em vinho depois de retirada das talhas, pois antes era apenas uma água que lavava o exterior das pessoas que cumpriam a norma rígida da Lei. Jesus nos faz saber que não podemos jamais nos fechar num ritualismo legalista que endurece os corações e entristece os espíritos. Agora a água, transformada em vinho, é oferecida aos borbotões para todos na festa nupcial. Este vinho representa o cumprimento da promessa de abundância: “Vinde comer meus manjares e beber o vinho que misturei” (Pr 9, 4-5) e “Vinde a mim vós que me amais, e saciai-vos de meus frutos; recordar-me é mais doce do que o mel, possuir-me é melhor que os favos” (Eclo 24, 20-21). O vinho é a alegria do homem reconciliado consigo mesmo, com seu próximo e com seu Deus. A festa de Caná é o momento de um novo parto tanto para Jesus como para Maria que auxilia o rito de passagem de seu Filho que sai do silêncio para o início da vida pública. Confiante que o Filho, embriagado pelo Espírito, estava cumprindo a vontade do Pai, Maria ordena sem hesitar: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Como escreve a psicanalista Françoise Dolto: “Talvez, tenha sido nesse momento, nas bodas de Caná, que Maria se tornou a Mãe de Deus!”. A água convertida em vinho é, simbolicamente, o novo parto em que a Mãe – água e sangue – gera o Filho para o mundo e para a vida em abundância – pão e vinho – sendo Ele mesmo a Vinha da qual somos os ramos. A essência deste milagre está na revelação de que Jesus tem compaixão pela necessidade dos outros e que o amor fraterno é sempre estar pronto a responder a estas necessidades, sejam quais forem. Com Maria se antecipa o milagre da fé pascal e se antecipa para nós, seus filhos e filhas, a mesma fé para que ninguém duvide de que Jesus seja capaz de renascer e expandir a alegria das Bodas do Cordeiro para toda a humanidade convidada, agora e sempre, para o Seu banquete nupcial. O gesto de entrega de Jesus será glorificado na Cruz como uma exaltação embriagada de amor e de amar que foi iniciada em Caná.


CONTEMPLAR

Bodas em Caná, 2014, Katie Hoffman, óleo sobre tela, 18” x 18”, Denver, Colorado, Estados Unidos.







segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 46 - XXVII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 46
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXVII Domingo do Tempo Comum                       05.10.2014
Is 5, 1-7                    Fl 4, 6-9                   Mt 21, 33-43


ESCUTAR

“Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu” (Is 5, 1-7).

“E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus” (Fl 4, 7).

“Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber os seus frutos” (Mt 21, 34).


MEDITAR

“O verdadeiro problema da Igreja é continuar com uma resignação e um tédio cada vez maior pelos caminhos habituais de uma mediocridade espiritual” (Karl Rahner).

“Senhor, faze que eu tenha fome e sede de justiça. Faze que eu não seja apegado às pequenas coisas que me tranquilizam, a um status quo pelo qual me sinto protegido... Que eu não perca nunca a esperança; que eu saiba contestar, em nome desta esperança em Ti e no homem, todo imobilismo, toda conservação que nega a ação incessante do teu Espírito!” (Ettore Masina).


ORAR

Somos chamados a sermos juízes do amante traído pela vinha amada. O amado cuidou com toda dedicação da sua vinha, mas ela produziu uvas selvagens. O amante esperava frutos bons para que os outros pudessem deles usufruir; o seu amor e dedicação deveriam ser devolvidos em favor dos outros. A canção de amor se converte numa denúncia áspera e cheia de questionamento: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?”. Somos nós a vinha do Senhor que produzimos uvas selvagens da injustiça, do desamor e da mentira. Apesar de tudo, o Senhor continua tentando nos atrair com canções de amor. A lição do profeta cabe como uma luva para as igrejas que reclamam privilégios, outorgam a si direitos, celebram triunfos passados, mas não produzem frutos de amor. Jesus não pede nada de excepcional, apenas sugere, por meio do Espírito, o possível que devemos produzir e o impossível que devemos esperar do Pai. A Igreja de Jesus foi construída sobre uma pedra desprezada e, até hoje, ela se sustenta sobre a pedra rejeitada e sobre tantas pessoas desprezadas. Paulo nos evoca a produzir frutos verdadeiros, respeitáveis, justos, puros, amáveis, honrados e dignos de louvor. São frutos que podem ser encontrados em outras vinhas que sempre são vinhas do Senhor ainda que não tenham a placa oficial pendurada na porta de entrada. A parábola nos exorta a que não criemos falsas ilusões ao reivindicar um direito de propriedade sobre a salvação e a verdade. Jesus não diz que a vinha será entregue às igrejas ou a uma nova instituição, mas “a um povo que produzirá frutos”. O Reino de Deus está no povo que produz frutos de justiça, de compaixão e que defende os sem direito e os sem voz. “Povo de Deus é o que pratica a justiça em qualquer situação, tempo ou lugar” (Lumen Gentium 9). A maior tragédia que pode suceder ao cristianismo é calar a voz dos profetas, que os sacerdotes se intitulem donos da vinha do Senhor e que o Cristo seja posto de lado por sufocarmos o seu Espírito. Não podemos jamais esquecer que se a Igreja não responder às esperanças que pôs nela o Senhor, Ele abrirá novos caminhos de salvação em povos que produzem frutos.


CONTEMPLAR


A Vinha Encarnada, 1888, Vincent van Gogh (1853-1890), óleo sobre tela, 75 cm x 93 cm, Museu Pushkin, Moscou, Rússia.




terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 45 - XXVI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 45
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXVI Domingo do Tempo Comum             28.09.2014
Ez 18, 25-28                      Fl 2, 1-5                   Mt 21, 28-32


ESCUTAR

“Ouvi, vós da casa de Israel: é a minha conduta que não é correta ou, antes, é a vossa conduta que não é correta” (Ez 18, 25).

“Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro” (Fl 2, 3-4).

“Em verdade vos digo que os cobradores e as prostitutas vos precedem no reino de Deus” (Mt 21, 31).


MEDITAR

“Se eu fosse um demônio, para tentar a um grupo religioso sério, pedir-lhe-ia que criasse muitas leis e regras e que logo organizassem sua vida. Os membros desse grupo poderiam pensar que a observância destas leis é o caminho para servir a Deus, mas gradualmente Deus se retiraria. Logo após isto, em nome da busca da verdade, eles propagariam essas leis mediante palavras e ideias... tudo isso em nome de Deus. Pouco a pouco, eles mesmos tomariam o lugar de Deus” (Shigeto Oshida).

“Muitas pessoas esperam ser muito mais santas e perfeitas estando às voltas com grandes coisas e grandes palavras. Buscam e desejam muitas coisas, querendo também as possuir; não obstante olharem tanto para si e para isso e aquilo, e pensarem estar se empenhando atrás do recolhimento interior, não podem acolher uma palavra. Estejais verdadeiramente certos de que essas pessoas estão longe de Deus e fora dessa união” (Mestre Eckhart).


ORAR

O profeta nos faz saber da nossa responsabilidade individual e cada um de nós é responsável pelo momento presente, dono do seu próprio destino e artífice do seu futuro. Se somos o que somos devemos a nós mesmos. Se não somos o que queríamos ter sido não é justo descarregar as culpas nos DNAs familiares. É muito cômodo responsabilizar a sociedade, as estruturas, o ambiente familiar e o sistema. Atualmente as pessoas não se arrependem nem do bem e nem do mal que fazem e continuam sem se perguntar sobre os conteúdos da vida e da direção que caminham. O Evangelho nos mostra dois filhos arrependidos. O primeiro se arrependeu da afirmativa (“...mas não foi”); o segundo, se arrependeu da negativa (“...mas depois se arrependeu e foi”). A Igreja de hoje deve temer mais os consensos superficiais, as aprovações entusiastas, as declarações que nada custam e as aclamações hipócritas. Muita gente diz sempre Sim em qualquer circunstância e em todas as partes. Toda obediência ostensiva é suspeita, pois pode ser um recurso sutil para se esquivar das tarefas mais ingratas. Os aplausos dificilmente abrem para um compromisso concreto e silencioso. Nós, cristãos do século XXI, não inventamos absolutamente nada. Continuamos a viver numa sociedade e em igrejas onde cada um busca o próprio interesse e o próprio êxito; pisando uns sobre os outros para ascender em status e poder. A mensagem da parábola é clara: diante de Deus, o importante não é falar, mas fazer. O decisivo não é prometer ou confessar, mas cumprir a Sua vontade. A tradição rabínica repete: “Os justos dizem pouco e fazem muito; os ímpios dizem muito e não fazem nada”. Os escribas falam constantemente da Lei e o nome de Deus está sempre em seus lábios. Os sacerdotes do Templo louvam a Deus sem descanso e suas bocas estão cheias de salmos. Ninguém duvidaria de que estivessem fazendo a vontade do Pai. Mas as coisas não são sempre como parecem. Os cobradores de impostos e as prostitutas não falam a ninguém de Deus e Jesus tem compaixão para com eles. O Credo que pronunciamos repetitivamente é inócuo se vivemos sem compaixão. Nossos pedidos de paz e justiça são estéreis se nada fazemos para construir uma vida mais digna para todos. Nós, cristãos, construímos magníficos sistemas de pensamento para recolher a doutrina cristã com profundidade. No entanto, a verdadeira vontade do Pai é vingada pelos que traduzem em atos de compaixão o Evangelho de Jesus.


CONTEMPLAR

O Bom Samaritano, 1885, Ferdinand Hodler (1853-1918), óleo sobre tela, Museu de Arte Moderna de Zürich, Suíça.






segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 44 - XXV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 44
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXV Domingo do Tempo Comum               21.09.2014
Is 55, 6-9                 Fl 1, 20-24.27                    Mt 20, 1-16


ESCUTAR

“Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor” (Is 55, 5-9).

“Só uma coisa importa: vivei à altura do evangelho de Cristo” (Fl 1, 27).

“Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence?” (Mt 20, 15).


MEDITAR

“Deus meu, foi te buscando
Que alguém te encontrou,
Eu, ao contrário, te encontrei fugindo de ti.
Foi mediante a busca que alguém te achou,
Eu descobri que eras Tu quem outorga a busca.
Tu mesmo eras o caminho que permite chegar até Ti.
Tu eras o princípio e serás o final.
Tu eras tudo e isso me basta.
Tudo mais é loucura”.
(Abdolah Ansari)

“Rabi Baruch procura um meio de explicar que Deus é um companheiro de exílio, um solitário abandonado, um estranho não reconhecido entre os homens. Um dia, seu neto brincava de esconde-esconde com outro pequeno garoto. Ele se esconde, mas o outro desiste de procurar e se vai. A criança vai até seu avô em lágrimas. Então, com os olhos também cheios de lágrimas, Rabi Baruch se lamenta: ‘Deus diz a mesma coisa: Eu me escondo, mas ninguém vem me procurar’” (Martin Buber).


ORAR

     “Ide para a minha vinha”, diz o Senhor e tudo se joga num instante, numa ocasião que não se pode deixar passar. Se não abrirmos os olhos, nos colocarmos de pé e não respondermos ao chamado, faltaremos ao encontro decisivo da nossa vida. Este é o momento favorável e o dia da salvação (2 Cor 6, 2) e não haverá outros mais favoráveis. Não podemos pedir “um tempo” para considerar a oferta, para avaliar o convite e responder numa próxima vez. O Senhor nos quer encontrar hoje, pois qualquer hora é hora para Ele desde que seja a hora do nosso Sim. Os caminhos do Senhor e seus pensamentos podem não coincidir, rigorosamente, com os nossos. Ao encontrarmos o Senhor a entrega há de ser inteira e despojada. Para encontrá-Lo, devemos, primeiro, renunciar aos nossos pensamentos sobre Ele. A deformação da imagem de Deus é o perigo que correm as pessoas religiosas. Quanto mais o Senhor se revela tanto mais se faz misterioso e sempre sua revelação nos desconcerta e nos escandaliza. O chamado à vinha é graça e o prêmio é dom, pois a alegria do Senhor é dar sem medida. Deus nos fala da gratuidade e nós respondemos a Ele, falando da “justiça” com suas clausulas, códigos e regras. A generosidade de Deus sempre cria problemas e, muitas vezes, se torna um obstáculo para a fé e um perigo para a moral daqueles que rechaçam os que consideram indignos e pecadores. A parábola não se dirige aos pecadores, mas aos bons e justos que devem se questionar sobre suas reações diante dos comportamentos surpreendentes e escandalosos de Deus. Não é fácil acreditar nesta bondade insondável de Deus que nos fala Jesus. Podemos nos escandalizar que Deus seja bom para com todos, mereçam ou não; sejam crentes ou agnósticos; invoquem seu nome ou vivam de costas para Ele. Deus é assim e o melhor que podemos e devemos fazer é deixar que Ele seja o que é, sem apequená-Lo com nossas ideias, esquemas e frustrações.


CONTEMPLAR

À Meia-Noite, 2005, Michael Triegel (1968-), técnica mista sobre MDF, 80 cm x 126,5 cm, coleção particular, Fundação São Mateus, Berlim, Alemanha.