segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Caminho da Beleza 47 - Nossa Senhora Aparecida

O Caminho da Beleza 47
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Nossa Senhora Aparecida                  12.10.2014
Est 5, 1b-2; 7, 2b-3                   Ap 12, 1-5                Jo 2, 1-11


ESCUTAR

“Concede-me a vida, eis o meu pedido, e a vida do meu povo, eis o meu desejo!” (Est 7, 3).

“Apareceu no céu um grande sinal” (Ap 12, 1).

“Eles não têm mais vinho” (Jo 2, 3).


MEDITAR

“A mesa em comum com o hóspede é o espaço em que o alimento é compartilhado, e o comer se torna ‘convívio’, ocasião de comunhão vital: é à mesa, à mesa compartilhada, que o ser humano tem a oportunidade, todas as vezes renovada, de se libertar do seu ser ‘devorador’ – do alimento e do outro – e de se tornar mais uma vez, a cada dia, uma pessoa de comunhão” (Enzo Bianchi).

“Soou a hora da história do mundo em que o amor do irmão homem, como problema e como realidade, une os cristãos e os não-cristãos. Eis porque também chegou a hora em que é necessário ver que o amor cristão, naquilo que tem de mais íntimo, ultrapassa o cristianismo: ultrapassa, derramando-se na extensão total do mundo. Mais do que isto, é necessário compreender que este movimento de superação constitui a essência do cristianismo” (Hans Urs von Balthasar).


ORAR

   O tema das Bodas é marcante em toda a nossa tradição judaico-cristã. Ele realça a dimensão amorosa e terna da Aliança do Senhor com a abundância proclamada pelo profeta Joel: “Acontecerá naquele dia que as serras estarão suando vinho novo, os morros escorrendo leite (Jl 4, 18). O evangelista revela que todo rito legalista é estéril. A água só se converte em vinho depois de retirada das talhas, pois antes era apenas uma água que lavava o exterior das pessoas que cumpriam a norma rígida da Lei. Jesus nos faz saber que não podemos jamais nos fechar num ritualismo legalista que endurece os corações e entristece os espíritos. Agora a água, transformada em vinho, é oferecida aos borbotões para todos na festa nupcial. Este vinho representa o cumprimento da promessa de abundância: “Vinde comer meus manjares e beber o vinho que misturei” (Pr 9, 4-5) e “Vinde a mim vós que me amais, e saciai-vos de meus frutos; recordar-me é mais doce do que o mel, possuir-me é melhor que os favos” (Eclo 24, 20-21). O vinho é a alegria do homem reconciliado consigo mesmo, com seu próximo e com seu Deus. A festa de Caná é o momento de um novo parto tanto para Jesus como para Maria que auxilia o rito de passagem de seu Filho que sai do silêncio para o início da vida pública. Confiante que o Filho, embriagado pelo Espírito, estava cumprindo a vontade do Pai, Maria ordena sem hesitar: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Como escreve a psicanalista Françoise Dolto: “Talvez, tenha sido nesse momento, nas bodas de Caná, que Maria se tornou a Mãe de Deus!”. A água convertida em vinho é, simbolicamente, o novo parto em que a Mãe – água e sangue – gera o Filho para o mundo e para a vida em abundância – pão e vinho – sendo Ele mesmo a Vinha da qual somos os ramos. A essência deste milagre está na revelação de que Jesus tem compaixão pela necessidade dos outros e que o amor fraterno é sempre estar pronto a responder a estas necessidades, sejam quais forem. Com Maria se antecipa o milagre da fé pascal e se antecipa para nós, seus filhos e filhas, a mesma fé para que ninguém duvide de que Jesus seja capaz de renascer e expandir a alegria das Bodas do Cordeiro para toda a humanidade convidada, agora e sempre, para o Seu banquete nupcial. O gesto de entrega de Jesus será glorificado na Cruz como uma exaltação embriagada de amor e de amar que foi iniciada em Caná.


CONTEMPLAR

Bodas em Caná, 2014, Katie Hoffman, óleo sobre tela, 18” x 18”, Denver, Colorado, Estados Unidos.







segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 46 - XXVII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 46
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXVII Domingo do Tempo Comum                       05.10.2014
Is 5, 1-7                    Fl 4, 6-9                   Mt 21, 33-43


ESCUTAR

“Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu” (Is 5, 1-7).

“E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus” (Fl 4, 7).

“Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber os seus frutos” (Mt 21, 34).


MEDITAR

“O verdadeiro problema da Igreja é continuar com uma resignação e um tédio cada vez maior pelos caminhos habituais de uma mediocridade espiritual” (Karl Rahner).

“Senhor, faze que eu tenha fome e sede de justiça. Faze que eu não seja apegado às pequenas coisas que me tranquilizam, a um status quo pelo qual me sinto protegido... Que eu não perca nunca a esperança; que eu saiba contestar, em nome desta esperança em Ti e no homem, todo imobilismo, toda conservação que nega a ação incessante do teu Espírito!” (Ettore Masina).


ORAR

Somos chamados a sermos juízes do amante traído pela vinha amada. O amado cuidou com toda dedicação da sua vinha, mas ela produziu uvas selvagens. O amante esperava frutos bons para que os outros pudessem deles usufruir; o seu amor e dedicação deveriam ser devolvidos em favor dos outros. A canção de amor se converte numa denúncia áspera e cheia de questionamento: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?”. Somos nós a vinha do Senhor que produzimos uvas selvagens da injustiça, do desamor e da mentira. Apesar de tudo, o Senhor continua tentando nos atrair com canções de amor. A lição do profeta cabe como uma luva para as igrejas que reclamam privilégios, outorgam a si direitos, celebram triunfos passados, mas não produzem frutos de amor. Jesus não pede nada de excepcional, apenas sugere, por meio do Espírito, o possível que devemos produzir e o impossível que devemos esperar do Pai. A Igreja de Jesus foi construída sobre uma pedra desprezada e, até hoje, ela se sustenta sobre a pedra rejeitada e sobre tantas pessoas desprezadas. Paulo nos evoca a produzir frutos verdadeiros, respeitáveis, justos, puros, amáveis, honrados e dignos de louvor. São frutos que podem ser encontrados em outras vinhas que sempre são vinhas do Senhor ainda que não tenham a placa oficial pendurada na porta de entrada. A parábola nos exorta a que não criemos falsas ilusões ao reivindicar um direito de propriedade sobre a salvação e a verdade. Jesus não diz que a vinha será entregue às igrejas ou a uma nova instituição, mas “a um povo que produzirá frutos”. O Reino de Deus está no povo que produz frutos de justiça, de compaixão e que defende os sem direito e os sem voz. “Povo de Deus é o que pratica a justiça em qualquer situação, tempo ou lugar” (Lumen Gentium 9). A maior tragédia que pode suceder ao cristianismo é calar a voz dos profetas, que os sacerdotes se intitulem donos da vinha do Senhor e que o Cristo seja posto de lado por sufocarmos o seu Espírito. Não podemos jamais esquecer que se a Igreja não responder às esperanças que pôs nela o Senhor, Ele abrirá novos caminhos de salvação em povos que produzem frutos.


CONTEMPLAR


A Vinha Encarnada, 1888, Vincent van Gogh (1853-1890), óleo sobre tela, 75 cm x 93 cm, Museu Pushkin, Moscou, Rússia.




terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 45 - XXVI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 45
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXVI Domingo do Tempo Comum             28.09.2014
Ez 18, 25-28                      Fl 2, 1-5                   Mt 21, 28-32


ESCUTAR

“Ouvi, vós da casa de Israel: é a minha conduta que não é correta ou, antes, é a vossa conduta que não é correta” (Ez 18, 25).

“Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro” (Fl 2, 3-4).

“Em verdade vos digo que os cobradores e as prostitutas vos precedem no reino de Deus” (Mt 21, 31).


MEDITAR

“Se eu fosse um demônio, para tentar a um grupo religioso sério, pedir-lhe-ia que criasse muitas leis e regras e que logo organizassem sua vida. Os membros desse grupo poderiam pensar que a observância destas leis é o caminho para servir a Deus, mas gradualmente Deus se retiraria. Logo após isto, em nome da busca da verdade, eles propagariam essas leis mediante palavras e ideias... tudo isso em nome de Deus. Pouco a pouco, eles mesmos tomariam o lugar de Deus” (Shigeto Oshida).

“Muitas pessoas esperam ser muito mais santas e perfeitas estando às voltas com grandes coisas e grandes palavras. Buscam e desejam muitas coisas, querendo também as possuir; não obstante olharem tanto para si e para isso e aquilo, e pensarem estar se empenhando atrás do recolhimento interior, não podem acolher uma palavra. Estejais verdadeiramente certos de que essas pessoas estão longe de Deus e fora dessa união” (Mestre Eckhart).


ORAR

O profeta nos faz saber da nossa responsabilidade individual e cada um de nós é responsável pelo momento presente, dono do seu próprio destino e artífice do seu futuro. Se somos o que somos devemos a nós mesmos. Se não somos o que queríamos ter sido não é justo descarregar as culpas nos DNAs familiares. É muito cômodo responsabilizar a sociedade, as estruturas, o ambiente familiar e o sistema. Atualmente as pessoas não se arrependem nem do bem e nem do mal que fazem e continuam sem se perguntar sobre os conteúdos da vida e da direção que caminham. O Evangelho nos mostra dois filhos arrependidos. O primeiro se arrependeu da afirmativa (“...mas não foi”); o segundo, se arrependeu da negativa (“...mas depois se arrependeu e foi”). A Igreja de hoje deve temer mais os consensos superficiais, as aprovações entusiastas, as declarações que nada custam e as aclamações hipócritas. Muita gente diz sempre Sim em qualquer circunstância e em todas as partes. Toda obediência ostensiva é suspeita, pois pode ser um recurso sutil para se esquivar das tarefas mais ingratas. Os aplausos dificilmente abrem para um compromisso concreto e silencioso. Nós, cristãos do século XXI, não inventamos absolutamente nada. Continuamos a viver numa sociedade e em igrejas onde cada um busca o próprio interesse e o próprio êxito; pisando uns sobre os outros para ascender em status e poder. A mensagem da parábola é clara: diante de Deus, o importante não é falar, mas fazer. O decisivo não é prometer ou confessar, mas cumprir a Sua vontade. A tradição rabínica repete: “Os justos dizem pouco e fazem muito; os ímpios dizem muito e não fazem nada”. Os escribas falam constantemente da Lei e o nome de Deus está sempre em seus lábios. Os sacerdotes do Templo louvam a Deus sem descanso e suas bocas estão cheias de salmos. Ninguém duvidaria de que estivessem fazendo a vontade do Pai. Mas as coisas não são sempre como parecem. Os cobradores de impostos e as prostitutas não falam a ninguém de Deus e Jesus tem compaixão para com eles. O Credo que pronunciamos repetitivamente é inócuo se vivemos sem compaixão. Nossos pedidos de paz e justiça são estéreis se nada fazemos para construir uma vida mais digna para todos. Nós, cristãos, construímos magníficos sistemas de pensamento para recolher a doutrina cristã com profundidade. No entanto, a verdadeira vontade do Pai é vingada pelos que traduzem em atos de compaixão o Evangelho de Jesus.


CONTEMPLAR

O Bom Samaritano, 1885, Ferdinand Hodler (1853-1918), óleo sobre tela, Museu de Arte Moderna de Zürich, Suíça.






segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 44 - XXV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 44
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXV Domingo do Tempo Comum               21.09.2014
Is 55, 6-9                 Fl 1, 20-24.27                    Mt 20, 1-16


ESCUTAR

“Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor” (Is 55, 5-9).

“Só uma coisa importa: vivei à altura do evangelho de Cristo” (Fl 1, 27).

“Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence?” (Mt 20, 15).


MEDITAR

“Deus meu, foi te buscando
Que alguém te encontrou,
Eu, ao contrário, te encontrei fugindo de ti.
Foi mediante a busca que alguém te achou,
Eu descobri que eras Tu quem outorga a busca.
Tu mesmo eras o caminho que permite chegar até Ti.
Tu eras o princípio e serás o final.
Tu eras tudo e isso me basta.
Tudo mais é loucura”.
(Abdolah Ansari)

“Rabi Baruch procura um meio de explicar que Deus é um companheiro de exílio, um solitário abandonado, um estranho não reconhecido entre os homens. Um dia, seu neto brincava de esconde-esconde com outro pequeno garoto. Ele se esconde, mas o outro desiste de procurar e se vai. A criança vai até seu avô em lágrimas. Então, com os olhos também cheios de lágrimas, Rabi Baruch se lamenta: ‘Deus diz a mesma coisa: Eu me escondo, mas ninguém vem me procurar’” (Martin Buber).


ORAR

     “Ide para a minha vinha”, diz o Senhor e tudo se joga num instante, numa ocasião que não se pode deixar passar. Se não abrirmos os olhos, nos colocarmos de pé e não respondermos ao chamado, faltaremos ao encontro decisivo da nossa vida. Este é o momento favorável e o dia da salvação (2 Cor 6, 2) e não haverá outros mais favoráveis. Não podemos pedir “um tempo” para considerar a oferta, para avaliar o convite e responder numa próxima vez. O Senhor nos quer encontrar hoje, pois qualquer hora é hora para Ele desde que seja a hora do nosso Sim. Os caminhos do Senhor e seus pensamentos podem não coincidir, rigorosamente, com os nossos. Ao encontrarmos o Senhor a entrega há de ser inteira e despojada. Para encontrá-Lo, devemos, primeiro, renunciar aos nossos pensamentos sobre Ele. A deformação da imagem de Deus é o perigo que correm as pessoas religiosas. Quanto mais o Senhor se revela tanto mais se faz misterioso e sempre sua revelação nos desconcerta e nos escandaliza. O chamado à vinha é graça e o prêmio é dom, pois a alegria do Senhor é dar sem medida. Deus nos fala da gratuidade e nós respondemos a Ele, falando da “justiça” com suas clausulas, códigos e regras. A generosidade de Deus sempre cria problemas e, muitas vezes, se torna um obstáculo para a fé e um perigo para a moral daqueles que rechaçam os que consideram indignos e pecadores. A parábola não se dirige aos pecadores, mas aos bons e justos que devem se questionar sobre suas reações diante dos comportamentos surpreendentes e escandalosos de Deus. Não é fácil acreditar nesta bondade insondável de Deus que nos fala Jesus. Podemos nos escandalizar que Deus seja bom para com todos, mereçam ou não; sejam crentes ou agnósticos; invoquem seu nome ou vivam de costas para Ele. Deus é assim e o melhor que podemos e devemos fazer é deixar que Ele seja o que é, sem apequená-Lo com nossas ideias, esquemas e frustrações.


CONTEMPLAR

À Meia-Noite, 2005, Michael Triegel (1968-), técnica mista sobre MDF, 80 cm x 126,5 cm, coleção particular, Fundação São Mateus, Berlim, Alemanha.





segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 43 - Exaltação da Santa Cruz

O Caminho da Beleza 43
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Exaltação da Santa Cruz                     14.09.2014
Nm 21, 4-9              Fl 2, 6-11                 Jo 3, 13-17


ESCUTAR

“Por que nos fizestes sair do Egito para morrermos no deserto? Não há pão, falta água e já estamos com nojo desse alimento miserável” (Nm 21, 5).

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação” (Fl 2, 6).

“Deus não enviou o Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 17).


MEDITAR

O Deus meu e de todos,
Que tenho feito até hoje no mundo,
Senão te invocar para que surjas,
Senão me desesperar porque sou pó?
Dilata minha visão,
Dilata poderosamente minha alma,
Faze-me referir todas as coisas ao teu centro,
Faze-me apreciar formas vis e desprezíveis,
Faze-me amar o que não amo.
(Murilo Mendes)

Esse é justamente o tema maravilhoso da Bíblia que assusta a tantos: que o único sinal visível de Deus no mundo seja a cruz. Cristo não é arrebatado gloriosamente da terra para o céu, seu destino é a cruz. E precisamente lá onde está a cruz está próxima a ressurreição. Onde todos ficam desconsertados diante de Deus, onde todos se desesperam com Deus, é exatamente lá que Deus está bem perto e Cristo está vivamente presente (Dietrich Bonhoeffer).


ORAR

No mito africano-egípcio da origem da Vida, a serpente Atum será apresentada como o primeiro Deus que emergindo das águas primordiais cuspia outros deuses e toda a criação. Para os egípcios, no meio dos quais Moisés foi criado, a serpente representava a conservação da vida, a vida salvaguardada e reencontrada. A serpente colocada num lenho e levantada por Moisés era feita de uma liga trinitária de estanho, cobre e zinco e brilhava intensamente refletindo a luz do sol. É uma serpente dos ares e de luz e, segundo os mitos primevos africanos, carrega o vento e fogo e, por isso, neutraliza a doença e a morte. No Evangelho de João, a imagem reaparece com outra densidade simbólica: a de um Jesus Serpente que cura e regenera e que sintetiza toda a humanidade levantada e libertada. Levantado na Cruz, expira sobre o mundo todo o seu sopro de vida e o seu corpo é como o bronze brilhante – símbolo solar que reflete a luz divina do alto. De Jesus, levantado e ungido pelo sol, procede a vida e sua luz coloca às claras a bondade e a maldade do proceder de cada um de nós. O Filho da Luz irradia uma verdade que desarma todas as víboras da conspiração e da hipocrisia que nos espreitam. O Homem Levantado, este Jesus Serpente, é destinado a ser visto como presença salvadora do Pai e ponto de convergência do encontro divino/humano, de onde flui a Vida em abundância. No prólogo de João, a luz brilhava no meio das trevas e chegava até o mundo iluminando todo homem (Jo 1, 9). Antes, podíamos aceitar ou não a luz; agora podemos ou não praticar o amor, pois o Corpo Crucificado de Jesus ainda continua sofrendo nos corpos fustigados dos nossos irmãos e irmãs. O Cristo espera de nós que sejamos capazes de sujar de vida os olhos claros de morte que nos rodeiam e espreitam para que, ao expirarmos nosso sopro de vida, consumemos as obras de amor e justiça que conseguimos.


CONTEMPLAR


Pietá, El Greco, c. 1592, óleo sobre tela, 120 cm x 145 cm, Starvos Niarchos Collection, Paris, França.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Caminho da Beleza 42 - XXIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 42
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXIII Domingo do Tempo Comum                        07.09.2014
Ez 33, 7-9                Rm 13, 8-10                       Mt 18, 15-20


ESCUTAR

“Quanto a ti, filho do homem, eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel. Logo que ouvires alguma palavra da minha boca, tu os deve advertir em meu nome” (Ez 33, 7).

“Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a lei” (Rm 13, 8).

“Pois, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (Mt 18, 20).


MEDITAR

“Para o voo ser inteiro é preciso ter duas asas: a verdade e a sua transparência” (Guilherme Zamoner).

“Nossa experiência de Deus é como o ato de nadar num eterno oceano de amor ou interagir com a presença despercebida do ar: inspiramos amor e expiramos amor. Essa experiência é onipresente, onisciente e onipotente. Jamais se esgota, sempre se expande. Quando procuro descrever essa realidade, as palavras me falham, então simplesmente digo o nome Deus” (John Shelby Spong).


ORAR

“Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo”. As dívidas mais importantes e vitais que temos são dívidas de amor. Sempre estaremos em débito, porque ao pagar as dívidas do presente as do futuro surgirão. O cristão sempre ficará, por amor, a dever alguma coisa para alguém. O amor é um crédito que os outros exibem diante de nós sempre e em todas as partes. Quando servimos os pobres não fazemos mais do que pagar nossas dívidas de amor. O profeta nos apela a sermos sempre sentinelas do amor. Não vigias da disciplina e da intolerância e nem vigias que não dormem para acusar os inimigos, mas se tornam sonolentos quando se trata de defender a prática do amor. O cristão age em comunidade sob o signo da corresponsabilidade. Cada um é sentinela do seu irmão para resgatar a prepotência assassina de Caim: “Sou eu o guarda do meu irmão? Quem não ama é assassino e as vozes do sangue dos não-amados clamarão aos céus”(Gn 4, 10). Ser sentinela não significa comportar-se como espião ou polícia do outro, pois antes de criticar o próximo é necessário demonstrar nosso cuidado, nossa atenção, e fazê-lo acreditar que é amado, apesar de tudo. O amor, a paciência, a misericórdia e o respeito são a luz indispensável para a correção fraterna dos nossos irmãos. Mais do que discipliná-lo é preciso chamá-lo a deixar-se amar. A correção fraterna exige o abandono de qualquer superioridade, pois todos partilhamos da mesma fragilidade e miséria. Nunca dizer: “Olha o que você fez!”, mas “Veja o que somos capazes de fazer”. E para aquele que se auto-exclui da comunidade devemos ainda mais amor. Na Igreja de Jesus não podemos estar por inércia nem por costume ou medo. Devemos estar reunidos em seu nome e alimentando-nos do seu Evangelho. Reunir-se em nome de Jesus é criar um espaço para viver a existência em torno Dele e do Seu horizonte. Um espaço definido não pelos limites das doutrinas, dos costumes e práticas, mas pelos horizontes de amor. O cristão não conhece limites, mas horizontes. Devemos ser uma luz no meio de uma Igreja debilitada pela rotina e paralisada pelos medos. A renovação da Igreja começa sempre no coração de dois ou três crentes que se unem em nome de Jesus: a presença de Deus está onde existe a presença fraterna. Meditemos em nosso coração o livro dos Provérbios: “O homem cercado de muitos amigos tem neles sua desgraça, mas existe um amigo mais unido que um irmão” (Pr 18, 24).


CONTEMPLAR

Acolhida (detalhe), Eduardo Spiller, 1983, foto, Curitiba, Brasil.






segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O Caminho da Beleza 41 - XXII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 41
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXII Domingo do Tempo Comum              31.08.2014
Jr 20, 7-9                Rm 12, 1-2              Mt 16, 21-27


ESCUTAR

“Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir” (Jr 20, 7).

“Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar” (Rm 12, 2).

“De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?” (Mt 16, 26).


MEDITAR

“Um coração puro é um coração vazio, um coração que não tem medo de perder sua própria personalidade. O homem não pode permanecer na ponta dos pés e se cansa de vestir máscaras. O coração puro não tem técnicas, não pode ser classificado. É a vida que nos ensina, e o coração puro se deixa esvaziar pela vida. O perder liberta” (Raimon Panikkar).

“Deus não me dá sossego. É meu aguilhão. Morde meu calcanhar como serpente, faz-se verbo, carne, caco de vidro, pedra contra a qual sangra minha cabeça. Eu não tenho descanso neste amor. Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa. Quero de novo o ventre de minha mãe, sua mão espalmada contra o umbigo estufado, me escondendo de Deus” (Adélia Prado).


ORAR

O profeta Jeremias coloca a descoberto suas feridas. Não suspira, grita; não se resigna e não inventa bons sentimentos. Protesta violentamente e desafoga a sua raiva. Reza no limite da blasfêmia sem se sentir culpado por sua debilidade, mas acusa Deus de prepotência: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome Dele”. Jeremias não diz que foi fascinado, mas seduzido por Deus e está desiludido, amargurado e desesperado porque a admiração inicial acabara: “Quando recebia tuas palavras, eu as devorava, tua palavra era meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16). O profeta se deu conta que a Palavra de Deus o confrontou com a surdez alheia. Poderia ter sido menos coerente, menos apaixonado, ter-se limitado a uma mera e ordinária administração. Poderia ter pregado as suas palavras e não as do Senhor e assim agradado a seus ouvintes sem se tornar “fonte de vergonha e chacota o dia inteiro”. Jeremias está em crise por viver, até as últimas consequências, as exigências implacáveis da sua vocação profética. Está em crise por excesso de fidelidade. Tenta se libertar do Senhor, mas se dá conta de que era impossível, pois Deus havia tomado posse de sua pessoa como um fogo de uma paixão incontrolável e irremediável. Jesus também apresenta um projeto de vida indigesto para os que querem segui-Lo: renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e perder a vida como Ele mesmo quando decidiu ir para Jerusalém sabendo que iria sofrer muito. Pedro expressa o seu desacordo e pensa como todos ao desejar uma situação de vida tranquilizadora, perspectivas triunfalistas e amplas concessões à ambição pessoal e de poder. De repente, não mais que de repente, baixa da sua condição de bem-aventurado para Satanás. A pedra que deveria ser de coesão e unidade se torna pedra de tropeço. A comunidade eclesial sempre corre o perigo se seguir a Cristo, falar Dele, mas continuar pensando em si mesma. Jeremias e Pedro nos garantem que seguir os desígnios do Senhor nunca será um destino confortável. Quem segue Jesus tem, muitas vezes, a sensação de estar perdendo a vida por uma utopia que nunca será realizada; de que está perdendo os melhores anos e gastando as energias por uma causa inglória. Devemos gravar em nossos corações a disponibilidade total para servir o Senhor em nossos irmãos e irmãs ainda que tenhamos que dizer, após termos feito tudo o que nos mandaram: “somos servos inúteis, cumprimos nosso dever” (Lc 17, 10).


CONTEMPLAR

Pietà (detalhe), William Adolphe Bouguereau, 1876, óleo sobre tela, 230 cm x 148 cm, Dallas Museum of Art, Dallas, Texas, Estados Unidos.