segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Caminho da Beleza 39 - Assunção de Nossa Senhora

O Caminho da Beleza 39
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Assunção de Nossa Senhora             17.08.2014
Ap 11, 19; 12, 1.3-6.10                1 Cor 15, 20-27                  Lc 1, 39-56


ESCUTAR

“Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap 12, 1).

“O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Cor 15, 26).

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1, 42).


MEDITAR

“Maria de Nazaré abandonando-se totalmente à vontade do Senhor, não foi de nenhuma maneira uma mulher passivamente submissa ou de uma religiosidade alienante, mas a mulher que não temia proclamar que Deus é aquele que eleva os humildes e oprimidos e derruba dos seus tronos os poderosos do mundo (Lc 1, 51-53)” (Groupe des Dombes).

“Exortam-se os teólogos e pregadores a evitar todos os excessos, bem assim como uma demasiada estreiteza mental ao considerar a especial dignidade da mãe de Deus [...] Lembrem-se de que a verdadeira devoção dos fiéis não pode ser confundida com um sentimento estéril e passageiro, nem com uma pura credulidade. Deve proceder da fé, que nos leva a reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos faz amá-la como mãe, procurando imitar-lhe as virtudes” (Lumen Gentium 67).


ORAR

Estamos caminhando para a ressurreição e não para a morte. O dom da vida eterna restitui à existência a sua dimensão de plenitude resgatando-a da sua precariedade e limitação. O céu não é uma chantagem para adestrarmos meninos e meninas bem comportados, mas uma possibilidade inaudita e um apelo à liberdade. Não devemos temer a morte, mas uma vida restrita e perdida com coisas irrisórias, sufocada por preocupações mesquinhas, sem ímpeto, sem élan, sem a descoberta de novas possibilidades. Hoje festejamos a festa do corpo, de um corpo destinado à imortalidade. Caem por terra os dualismos maniqueístas do corpo e alma, pois a corporeidade do homem – soma, psique e pneuma – corpo, alma e espírito, participam da glória. Hoje reafirmamos que o sentido do corpo nessa experiência do céu na terra é a oração. E orar significa desatar-se. Temos nossos corpos transformados pela Palavra do Senhor e transparentes de Deus. Devemos ser como Davi que dançava à frente da Arca da Aliança e não múmias que não rezam com o corpo e não permitem que os rostos se convertam em risos diante do Senhor. A Criação é fruto da dança maravilhosa do Senhor. João Batista dançou no ventre de Isabel quando se aproximou da presença do mistério escondido no ventre de Maria. A Arca da Aliança não aparece mais colocada no marco solene do templo, mas a caminho e em forma de uma mulher de carne e osso que leva um filho em seu ventre. Entre Maria e Isabel existe uma cumplicidade das entranhas e seus corpos, com os de seus filhos, são visibilidades e visões da transcendência. Deus tem pressa para encontrar o homem, encurta caminho e se faz transportar por uma peregrina da fé, desconhecida, pobre, humilde que, no seu silêncio, compreendeu que Deus tem pressa para entrar em sua casa. Maria se converte na imagem perfeita da humanidade divinizada. Meditemos as palavras do poeta: “Dançava para o escriba e o fariseu, mas não quiseram nem dançar e nem seguir-me. Dançava para os pescadores, para Thiago e André e me seguiram e entraram na dança. Dançava no dia de sábado e curei um paralítico e os justos disseram que era uma vergonha. Sepultaram o meu corpo acreditando que tudo acabara, mas eu sou a dança e dirijo sempre o baile. Guiarei a dança de todos vós em qualquer parte que vos encontreis. Quiseram eliminar-me, mas saltei mais acima porque sou a vida que não pode morrer e viverei em vós e vós vivereis em mim, porque eu sou, diz Deus, o Senhor da Dança” (Sidney Carter).


CONTEMPLAR

A Visitação, Arcabas (Jean-Marie Pirot), 2002, óleo sobre tela, 106 cm x 87 cm, Políptico da Infância do Cristo, Malines, Bélgica.







segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O Caminho da Beleza 38 - XIX Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 38
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XIX Domingo do Tempo Comum                10.08.2014
1 Rs 19, 9.11-13                 Rm 9, 1-5                Mt 14, 22-33



ESCUTAR

“O Senhor não estava no vento… no terremoto… no fogo. E depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leva brisa”(1 Rs 19, 11-12).

“Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua” (Rm 9, 2).

“Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (Mt 14, 28).



MEDITAR

“Deus é urgente sem pressa” (Guimarães Rosa).

“Não é no voo das ideias, mas unicamente na ação que está a liberdade. Decida-se e saia para a tempestade de viver” (Dietrich Bonhoeffer).



ORAR

Na vida chega o momento em que depois de ter ouvido falar tanto sobre Deus nós devemos estar atentos à sua manifestação. O profeta Elias, fogoso e guerreiro, que degolou 450 profetas dos ídolos e os exibiu como troféu de guerra (1 Rs 18, 40), deve descobrir e aprender o verdadeiro rosto de Deus. Elias vê desaparecer, apesar do terremoto, do vento impetuoso e do fogo, o seu velho e terrível deus. O silêncio lhe entregará o verdadeiro Deus, porque Deus está no rumor de um silêncio sutil. Deus é silêncio e presença serena. Jesus traz a paz apesar das tempestades que devemos enfrentar. Não é sempre fácil acreditar, sobretudo quando somos sacudidos pelas ondas, pelos ventos contrários que são os símbolos usados pelo evangelista para exprimir a insegurança, o medo e a incerteza. Nestas condições, não é fácil uma adesão a Jesus, pois a sua figura desvanece no meio da crise. Não será Jesus uma bela ilusão, mas sem consistência alguma na realidade: um fantasma como O viam seus discípulos no meio do lago? Nestes momentos, podemos ouvir dentro de nós a voz calada de Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”. Pedro, o primeiro Papa, protagoniza um episódio singular. Pretendeu caminhar sobre as águas e lhe faltou chão debaixo dos pés. Uma experiência vexatória para um pescador profissional. Pedro falou sob o peso do medo, o peso de si mesmo, da ambição de querer se sobressair e se distinguir dos outros. Em qualquer momento podemos afundar quando nos fixamos somente na força do vento e esquecemos a presença do Cristo que, com a mão estendida, sustenta a nossa fé. É nas crises que aprendemos, de verdade, a crer em Deus e no Cristo. Jesus revela que é a oração que nos torna livres do peso dos próprios medos que nos afogam em nossas preocupações obsessivas conosco mesmo. A oração nos dá a elasticidade e a espontaneidade dos movimentos, pois nos coloca perto do Pai e de nossos irmãos e irmãs imersos no Espírito da Liberdade e sustentados pelo Cristo, Senhor do Universo.



CONTEMPLAR

Andando sobre a água, Anne Cameron Cutri, 2010, detalhe do painel 2, óleo sobre tela, Waterford, Pensilvania, Estados Unidos.

















































Obra completa:




segunda-feira, 28 de julho de 2014

O Caminho da Beleza 37 - XVIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 37
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XVIII Domingo do Tempo Comum                        03.08.2014
Is 55, 1-3                 Rm 8, 35.37-39                Mt 14, 13-21



ESCUTAR

“Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite sem nenhuma paga” (Is 55, 1).

“Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!”(Rm 8, 35.37).

“Todos comeram e ficaram satisfeitos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda dozes cestos cheios” (Mt 14, 20).



MEDITAR

“Essencialmente, o que caracteriza a partilha é o dom, que pressupõe um ato livre. A partilha não é calculada: há uma gratuidade total no gesto. Não só o autor do gesto o faz livremente como também o beneficiário permanece livre, livre em relação ao benfeitor” (Daniel Duigou).

“Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que tira prazer de estar próximo. Só isto; quase; e todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é” (Guimarães Rosa).



ORAR

O Senhor assegura o que é essencial para a vida e oferece seus dons sob o signo da gratuidade: “Vinde comprar sem dinheiro e tomar vinho e leite sem nenhuma paga”. O Senhor é gratuito, mas não supérfluo. Somos nós que o consideramos supérfluo, uma coisa a mais em nossa existência e que muito nos custa. Um Deus gratuito é sempre embaraçoso e até insuportável. Preferimos regatear, negociar com promessas, velas, tostões que comercializam as graças gratuitas do Pai. O Senhor nos indaga sempre o que queremos receber e não o que podemos dar. O único preço a pagar é o nosso desejo. Para Deus o dinheiro não interessa para nada, pois é ele que não nos permite viver na esperança. Dois eram os problemas mais angustiantes para os que viviam na Galileia: a fome e as dívidas que faziam que perdessem as suas terras. Jesus sofria por isso e quando ensinou seus discípulos a rezar incluiu o pedido do pão de cada dia e o perdão das dívidas. Para Jesus, o mundo novo nasceria do partilhar, mesmo que fosse pouco, e do perdão mútuo das dívidas. Jesus apela aos seus discípulos a serem responsáveis e não demissionários. Jesus antes de multiplicar os pães quer multiplicar os corações para que sintam a compaixão que Ele sente. A ternura do Cristo é um estímulo para vencer a aridez das relações numa sociedade cada vez mais mesquinha e egoísta. O cuidado com o outro e a delicadeza são profundamente cristãos. Milagre é se deixar comprometer com a situação do outro, comover-se com a dor alheia, sentir-se interpelado por suas necessidades e ser sensível com sua situação desesperadora. Jesus não se limita a pregar, pois para Ele a multidão não é um componente que mede a sua popularidade ou triunfo. Jesus assume a sua responsabilidade diante de todos e nos ensina que cada um de nós é responsável e encarregado da fome do outro: fome de pão, de amor, de amizade, de escuta e de justiça. O cristão é alguém que tem a ver com tudo o que afeta a todos. Para o cristão, nunca é chegada a hora de despedir, de mandar embora o mais próximo de nós, pois é sempre a hora de acolher, de prestar atenção e de se colocar à disposição. Terminada a pregação é chegado o momento da acolhida com as mãos estendidas. O cristão nunca tem as mãos fechadas porque sabe que ele jamais será alguém que despede. Para o cristão nunca existirá a hora da separação e da divisão, pois nada deve ou pode separá-lo do amor do próximo que é o próprio Cristo.



CONTEMPLAR

Pol-e Khomri, Steve McCurry, 1992, foto, Afaganistão, Phaidon Press Limited, 2001.






segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Caminho da Beleza 36 - XVII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 36
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XVII Domingo do Tempo Comum              27.07.2014
1 Rs 3, 5.7-12                     Rm 8, 28-30                      Mt 13, 44-52


ESCUTAR

“O Senhor apareceu a Salomão em sonho, durante a noite, e lhe disse: “Pede o que desejas e eu te darei” (1 Rs 3, 5).

“Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8, 28).

“O Reino de Deus é como um tesouro escondido no campo” (Mt 13, 44).


MEDITAR

“É do fundo da minha miséria que toco Deus” (Simone Weil).

“Qual é o critério que permite saber que você está com cristãos profundos e de coração? É quando eles choram no momento em que você procura partilhar pela sua dimensão interior esta alegria que é o divino” (Palavras do Alcorão).


ORAR

O Senhor mostra a sua delicadeza ao aparecer a Salomão em sonhos. Quando dormimos não nos envergonhamos de nada e por esta razão Salomão poderia ter pedido riquezas, êxitos, honras, amores múltiplos, muitos anos de vida e o extermínio dos inimigos. Salomão, porém, se reconhece frágil como um adolescente e pede um coração compreensivo. Não pede súditos dóceis e submissos e o Senhor acaba por lhe conceder um coração sábio e inteligente. Jesus nos previne que antes de sermos “doutores” em generalidades é necessário nos fazermos discípulos para aprendermos os segredos do Reino. O cristão é um homem de uma descoberta que traz alegria; da lucidez do valor que é Cristo que nos liberta de tudo o que nos satisfaz muito facilmente e que o discipulado do Cristo não é o da renuncia, mas o da escolha por Alguém que é o rosto amado de Deus. Não somos pessoas que perdemos qualquer coisa, mas que encontramos algo que vale mais do que uma vida. A experiência cristã há de ser gozosa e não mortificante. Há um tesouro escondido no campo do nosso coração e se nos tornarmos preguiçosos nos contentaremos em procurar fora dele e nos saciarmos de espinhos e sarças. Para reconhecer a presença do Cristo no mais íntimo de nós é necessário despojar a nossa inteligência da cólera e do ressentimento. Jesus semeia em nós uma pergunta: será que não haverá na vida um segredo que ainda não descobrimos? Este segredo é a alegria do encontro que nos assombra com a ternura de Deus. Não podemos ficar encerrados numa prática religiosa repetitiva e enfadonha que nos cega o coração e a mente e não nos permite encontrar nenhum tesouro. É imprescindível vivermos abertos às surpresas de Deus. Deus nos livre dos desafortunados, dos frustrados e insatisfeitos que se comprazem em fazer os outros pagarem caro a esterilidade da vida que não conseguiram. Deus nos livre dos que fingem tudo vender, como se tivessem encontrado o tesouro, mas continuam com seus corações vazios de amor. Deus nos livre dos que encontraram peixes bons na puxada da rede, deles se apropriaram e insistiram em convencer os outros da não-podridão dos que restaram. Finalmente, como reza São João da Cruz: “Deus nos livre de nós mesmos!”.


CONTEMPLAR

Jesus na margem de Tiberíades, século 12, mosaico da Catedral de Monreale, Sicilia, Itália.







segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Caminho da Beleza 35 - XVI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 35
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XVI Domingo do Tempo Comum                20.07.2014
Sb 12, 13.16-19                  Rm 8, 26-27                       Mt 13, 24-43



ESCUTAR

“A tua força é princípio da tua justiça e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente” (Sb 12, 16).

“O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).

“Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?” (Mt 13, 27).



MEDITAR

“É impossível entrar no existir sem levar junto nossa própria sombra. Muitas vezes, na experiência humana, aqueles que não conseguem lidar com sua sombra no final fazem com que aquela mesma sombra se torne sua realidade de posse. Nossa sombra pode consumir nosso existir e, quando isso acontece, tornamo-nos pessoas possuídas, dependentes” (John S. Spong).

 “Sempre que se começa a ter amor a alguém, assim no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois”(Guimarães Rosa).



ORAR

O Senhor nos ensina a ser dinâmicos nos tempos de semeadura, tempos de esperançosa paciência. Somos intempestivos e queimamos etapas e nos tornamos impacientes. Plantamos a semente e já esperamos, com uma rede na mão, que ela brote, que a árvore cresça para pendurarmos nela a rede e descansar. O Senhor julga com mansidão, sua política é a misericórdia, sua diplomacia é a compaixão. Ele detém o poder e o utiliza para perdoar a todos. O Senhor, apesar de nossas tolices, sempre nos oferece a possibilidade do arrependimento. Tendemos a buscar Deus no espetacular e no prodigioso, mas o Reino de Deus é sempre um minúsculo e insignificante início: Deus vem a terra como uma semente, um fermento ou um pequeno rebento. Não devemos nos exaltar, nem sermos insolentes, nem cedermos à inquietude e nos deixarmos devorar pela ansiedade. Devemos fluir na vida e não a sufocar, pois em todos os momentos em que estivermos eles não serão mais do que um ponto de partida. Jesus é semeador e semente ao mesmo tempo e Ele mesmo se converterá em grão caído na terra para morrer: “Se o grão caído na terra não morrer, ficará só; se morrer, dará muitos frutos” (Jo 12, 24). Sua força irresistível, mas escondida, é a força da vida: para fazer viver, é necessário desaparecer; para fazer fermentar temos que nos perder no meio da massa de pão. Jesus revela que a eficácia é garantida pela pequenez e não pelas estatísticas enganadoras. O grão de mostarda, por ser a menor semente, transformar-se-á em grande árvore. Ele é importante não pela grandeza da árvore que virá a ser, mas porque faz viver os pássaros do céu que nela encontram pouso e acolhida para a sua diversidade. Nada temos a temer, pois é o Espírito de Deus no nosso mais íntimo que intercede por nós em pleno gozo de amor: com gemidos inefáveis. Ele sempre sabe o melhor para nós e sonha com maravilhosas coisas para todos. Nunca é demais lembrar que podemos tornar Deus uma fraude não pelo que fazemos por Ele, mas, sobretudo, pelo que não permitimos que Ele faça por nós.



CONTEMPLAR


Beijo de Judas e prisão, Arcabas (Jean-Marie Pirot), 2003, óleo sobre tela, ouro fino 23 quilates, 0,81 m x o,65 m, Saint-Pierre-de-Chartreuse, França.



segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Caminho da Beleza 34 - XV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 34
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XV Domingo do Tempo Comum                  13.07.2014
Is 55, 10-11             Rm 8, 18-23                       Mt 13, 1-23


ESCUTAR

“Assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes realizará tudo o que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la” (Is 55, 11).

“Com efeito, sabemos que toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto” (Rm 8, 22).

“Felizes sois vós porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem” (Mt 13, 16).


MEDITAR

“Um grão amontoado apodrece, espalhado frutifica” (São Domingos de Gusmão).

“O preço do sofrimento depende da resposta que lhe dá o homem: suportado e aturado, não chega a produzir senão medíocres e deformados; assumido, é um meio poderoso de elevação, um apelo a um mais-ser. Nossa vida profunda só se mantém por um vaivém contínuo do rebaixamento ao afrontamento” (Emmanuel Mounier).


ORAR

O homem da Palavra deve ser um homem de esperança, pois só se pode semear na esperança. Somos chamados a semear e não a ceifar. E a semear com abundância, generosidade, sem cálculos mesquinhos e sem exclusões prejudiciais. Devemos nos acostumar às pedras e a nos movermos por entre os espinhos. Como semeadores não temos o direito de selecionar os terrenos e declarar, de antemão, quais são os merecedores da semente porque nos oferecem perspectivas alentadoras. É preciso semear com alegria e não com uma desconfiança estampada num rosto sombrio. Nunca saberemos qual o terreno fértil, quais as circunstâncias favoráveis e o tempo justo. Todos nós que formamos a comunidade eclesial somos terrenos predispostos para acolher a semente da Palavra. Somos um pouco de tudo: caminho, pedra, espinho e terreno fértil. A Palavra de Deus, escutada centenas e milhares de vezes, pode não penetrar, não ser interiorizada, nada remover em profundidade e nem mudar o nosso rosto. Ela permanecerá inutilizada e intacta pelas recusas que Dela fazemos. Deus espera uma resposta que não pode ser evasiva e nem dada segundo as nossas preferências. Somente Deus sabe avaliar o terreno dos corações prontos para a semeadura ou empedrados pela arrogância e auto-suficiência. Não só Deus espera, mas também a criação “está aguardando a plena manifestação dos filhos de Deus”. Até agora e, muitas vezes, fomos descuidados, indiferentes e a Criação tem pago as consequências, pois desfiguramos, pela ganância, a obra maravilhosa saída das mãos de Deus e transformamos a bênção original numa maldição perpetrada pelos nossos desejos espúrios. A Palavra de Deus é uma força vital e nós temos a liberdade de acolhê-la ou não.


CONTEMPLAR


O Semeador, Bertram Poole, 2014, acrílico sobre tela, 14” x 11”, Carmel, Califórnia, Estados Unidos.




segunda-feira, 30 de junho de 2014

O Caminho da Beleza 33 - XIV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 33
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XIV Domingo do Tempo Comum                06.07.2014
Zc 9, 9-10                Rm 8, 9.11-13                    Mt 11, 25-30


ESCUTAR

“Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria de jumenta” (Zc 9, 9).

“Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (Rm 8, 9).

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25).


MEDITAR

Eu não quero Senhor nem ouro nem prata... Eu não procuro Senhor nem prazeres, nem a alegria deste mundo... Eu não peço honras... Dai-me teu Espírito Santo, para que ele ilumine meu coração, fortifique-me e me console em minha angústia e em minha miséria (Martinho Lutero).

“O homem jovem conhece a carne, o homem amadurecido conhece o coração” (Provérbio Massango, Gabão).


ORAR

O Senhor vem montado num jumento e não é um rei guerreiro como o esperado. São os reis que fazem ostentação de poder e se impõem pelas armas. Jesus é manso, pacífico, humilde, mas quando desce do jumento é um deus nos acuda: é invadido por um furor sagrado e desencadeia um alvoroço no átrio do Templo. Ele é um sinal de contradição. Algumas vezes fala de sua missão como espada, fogo, jugo, sal que queima e suas palavras ao invés de carícias, parecem pedradas. Outras vezes usa palavras tão meigas que parecem açucaradas. Aquele que usa o chicote também se apresenta como manso e humilde. Jesus testemunha que a doçura não é uma caraterística de pessoas passivas. Os plenos de ternura são dotados de uma robusta espinha dorsal e mantêm a sua capacidade de indignar-se diante de situações intoleráveis. O manso e humilde não é um resignado, um impotente, incapaz de afrontar os desafios árduos que dele exigem uma posição inequívoca. Se não estivermos prontos a gritar e a nos queimar por dentro de ternura ou indignação, nunca poderemos falar de mansidão e doçura. Não existe doçura sem força e somente o não-violento é forte. Os verdadeiros senhores do mundo são os consumidos pela ternura e os que recebem, como dom, a plenitude da vida. Os cansados e fatigados convidados por Jesus são os sobrecarregados com o peso de leis interpretadas por uma visão rigorista; são desprezados pelos moralistas religiosos e guardiões da intolerância que deformam a imagem de Deus ao desfigurar os homens e mulheres submetidos ao seu jugo. Jesus nos apela a sermos despenseiros da misericórdia e da generosidade que desbloqueiam as consciências e as libertam. A ternura é a única conquista da qual é lícito gabar-se e o único motivo de orgulho compatível com a humildade. A oração de Jesus é, antes de mais nada, um cântico dos pequenos e pobres que revela os segredos do seu coração. A oração é vida segundo o Espírito e por ela a religião de preceito e da obrigação é substituída pela fé no amor de Deus. Meditemos as palavras de São Bernardo de Claraval no seu sermão sobre o Cântico dos cânticos: “A esposa diz que seu amado é um simples ramalhete de mirra e por seu amor ela está pronta a considerar leve todo o sofrimento. Para mim que amo é um punhado de flores, pois a força do amor vence as dores mais atrozes” (Sermão sobre o Cântico 46, 1).


CONTEMPLAR

Cristo escarnecido por um soldado, Carl Bloch, 1880, óleo sobre tela, Copenhagen, Dinamarca.