segunda-feira, 16 de junho de 2014

O Caminho da Beleza 31 - XII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 31
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XII Domingo do Tempo Comum                 22.06.2014
Jr 20, 10-13                       Rm 5, 12-15                                   Mt 10, 26-33


ESCUTAR

“Mas o Senhor está ao meu lado como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos. Por não terem tido êxito, eles se cobrirão de vergonha. Eterna infâmia, que nunca se apaga!” (Jr 20, 11).

“O dom gratuito concedido por meio de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos” (Rm 5, 15).

“Não tenhais medo!” (Mt 10, 31).



MEDITAR

“Nós deveríamos a cada instante ter o Senhor diante dos olhos. Nós deveríamos executar cada ação sob os olhos plenos do amor e da benevolência de Deus. A experiência de Deus é libertadora, ela dá força e cura. Ela me libera do medo e do pavor face ao Inimigo” (Anselm Grün).

"O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo" (Guimarães Rosa).



ORAR

“Não temais!” é a invocação deste domingo ainda que estejamos expostos a todos os riscos e vivamos num estado permanente de conflitos e contradições. Jeremias testemunha que o Senhor lhe confia uma palavra ardente, que corta a carne e arranca as falsas seguranças. O profeta incomoda a tranquilidade alheia e por mais que o Senhor esteja ao seu lado como forte guerreiro, Ele não intervém para livrá-lo dos golpes. Os discípulos do Cristo estão sempre sob a proteção paterna de Deus, mas apesar disto, estão expostos a todas as provas e tentações sem nenhuma imunidade divina. O Cristo na Cruz se faz voluntariamente impotente e conserva somente o poder do amor e do perdão. Deus não intervém e muito menos de fora, pois o risco do amor é a debilidade e o desprezo. Quando o amor recorre à força para se fazer valer ou recorre à lei para tutelar os seus direitos desmente-se a si mesmo. A única razão do amor é o amor. O evangelho nos faz saber que o Pai está comprometido em tudo o que nos acontece e está dentro de nós encarando conosco os golpes que recebemos. A fé cristã não tem uma função de impermeabilizar. A fé cristã se expõe e nesta exposição nos faz saber e sentir a presença providencial do Senhor. No calvário, existe somente a Cruz e nela se encontram e cruzam o pecado do homem e o dom de Deus que oferece o seu Filho único. O amor, ainda que derrotado, continua dando tudo e sempre. Jesus quer libertar as pessoas do medo e da angústia que se apodera delas quando em nosso coração cresce a desconfiança, a insegurança e a falta de liberdade interior. O amor é sempre um gesto que liberta. Jesus procurou, antes de mais nada, despertar a confiança no coração das pessoas. Seu maior desejo era que elas vivessem em paz, sem medos e angústias, pois onde cresce o medo perde-se de vista Deus, afoga-se a bondade das pessoas, a vida se apaga e a alegria desaparece. Meditemos em nossos corações as palavras de Paulo: “Quem nos afastará do amor de Cristo: tribulação, angústia, perseguição, nudez, perigo, espada? Em todas essas circunstâncias, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8, 35-37). Uma comunidade cristã deve ser o lugar em que, vivendo a verdade, libertamo-nos dos fantasmas, que são os nossos medos, para respirar a paz e viver a fraternidade entranhada que nos torna possível, hic et nunc, escutar o apelo de Jesus: “Não tenhais medo!”.



CONTEMPLAR
O Grande São Miguel, Raffaello Sanzio, 1518, óleo transferido da madeira para tela, 268 cm x 160 cm, Museu do Louvre, Paris, França.







terça-feira, 10 de junho de 2014

O Caminho da Beleza 30 - Santíssima Trindade

O Caminho da Beleza 30
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Santíssima Trindade                15.06.2014
Ex 34, 4-6-6.8-9               2 Cor 13, 11-13                   Jo 3, 16-18


ESCUTAR

“Moisés gritou: ‘Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel’” (Ex 34, 6).

“Irmãos, alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2 Cor 13, 11).

“Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).



MEDITAR

“A Trindade e a Cruz são os dois polos do cristianismo, as duas verdades essenciais: uma, a alegria perfeita e a outra a perfeita infelicidade. O conhecimento de uma e de outra e da sua misteriosa unidade é indispensável” (Simone Weil)

 “Quem não consegue mais ouvir o irmão, em breve também não conseguirá mais ouvir a Deus. Estará sempre falando, também, perante Deus. Aqui começa a morte da vida espiritual, e no fim restará só o palavreado piedoso, a condescendência clericalesca que sufoca com palavras piedosas” (Dietrich Bonhoeffer).



ORAR

A Trindade revela o dinamismo vital que faz a comunidade eclesial viver. A comunidade deve ser o lugar de visibilidade em que não temos medo da verdade seja qual for e onde cada um reconhece o direito de expressar livremente o seu pensamento e o de fazê-lo com coragem. Uma comunidade em que as murmurações e as dissimulações correm soltas pelos becos e bares elas só poderão ser superadas por uma reciprocidade respeitosa e lúcida. A comunidade cristã não se basta a si mesma, mas deve buscar a comunhão: “Tende os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5). A comunidade sem comunhão é uma esquálida referência e uma casca vazia de conteúdo. A comunidade eclesial não é uma simples justaposição de pessoas que temem acolher-se, reciprocamente, na verdade: “Alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia e vivei em paz”. A comunidade não é uma uniformidade niveladora, quase sempre pela rasura, mas a comunhão de pessoas plurais e diversas. O primado da comunidade não é a disciplina, mas o amor. A dinâmica vital da comunidade é a fraternidade que se converte no sinal do amor do Pai, revelado pelo Filho e infundido em nossos corações no Espírito. Ela testemunha e proclama o nome de Deus como revelado a Moisés: “Misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”. Se a comunidade cristã não reflete o amor trinitário desaparece o sinal específico do amor e ela se reduz a um espelho que não reflete nenhuma imagem. Quando afirmamos o primado do amor na comunidade valorizamos a centralidade da pessoa e o valor supremo é a valorização das diferenças. O amor é dinâmico: se expande e circula. Somos tentados a forjar um Deus à nossa imagem e conceituá-lo como o contrário do homem e, por esta razão, nos contentamos com a acomodação de encerrar Deus num puro ato de contemplação e numa suposta e feliz autossuficiência. A Boa Nova da revelação da Trindade é que existem diferenças entre si e, portanto, a vida divina não se define como um eterno retorno narcisista sobre si, pelo êxtase. Cada pessoa só existe em relação às outras pessoas e é esta relação que as constitui como diferentes. É uma dança amorosa que jamais termina, pois nela a comunhão brota da interdependência e da intercomunicação. Meditemos as palavras de Emmanuel Mounier: “Eu preciso do olhar dos meus amigos para saber quem eu sou”.



CONTEMPLAR


Abrão e os três anjos, Marc Chagall, 1966, óleo sobre tela, 190 cm x 292 cm, Musée National Message Biblique Marc Chagall, Nice, França.




segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Caminho da Beleza 29 - Pentecostes

O Caminho da Beleza 29
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Pentecostes                       08.06.2014
At 2, 1-11                  1 Cor 12, 3-7.13-13                       Jo 20, 19-23



ESCUTAR

“Todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua” (At 2, 6).

“A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 7).

“E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20, 22).



MEDITAR

“Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a Terra, deveis embriagar-vos sem tréguas. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de ternura, à vossa escolha. Mas embriagai-vos. E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a Deus, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio e Deus vos responderão: ‘São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de ternura, à vossa escolha’” (Baudelaire).

“É isto, o espírito. Esta capacidade de não submeter sua existência, mas de assumi-la no amor para fazer dela uma oferenda luminosa e universal” (Maurice Zundel).



ORAR

Tentemos deixar fluir ao menos uma vez na vida o sopro do Espírito no meio e dentro de nós. Deixemos que sejam varridos das cabeças todos os símbolos do poder: coroas, solideus, mitras com todas as máscaras e disfarces que ornam as liturgias do poder. Permitamos que o sopro arranque as páginas dos nossos códigos, que leve para o mais longe as sandices dos nossos discursos políticos, sociais e religiosos e assistamos o fogo se ocupar de queimá-los para que nunca mais pretendam dosificar a sua força. Com certeza, será um ganho para todos nós. Ele não sopra para garantir a ordem, para avalizar decisões que prejudiquem o Bem Comum e nem desempenha a função de juiz em nossos jogos com as regras determinadas por nós e para o nosso sucesso. Façamos, ao menos uma vez, com plena confiança no Espírito da Liberdade, a prova de acolher este mesmo Espírito como elemento perturbador, verdadeira inspiração, desmonte das regras fixadas de antemão e portador de coisas jamais vistas, ouvidas e experimentadas antes. Tenhamos a coragem de sermos habitados pelo vento e pelo fogo. É o Espírito de verdade que vem a nós e nos produz como homens e mulheres que não temem as travessias plurais da vida. O Ressuscitado abre o futuro, abre a porta e abre a esperança do possível. Pentecostes é a festa de todos os possíveis. O Espírito acende em nós uma paixão e uma nova criação nasce de um colossal incêndio que nos deixa enamorados e nos surpreende com as palavras apaixonadas que por falso pudor nunca nos permitimos, publicamente, dizer. O Espírito – vento e fogo – rompe os limites das alcovas e das salas e brinca, se diverte e ri da nossa sisudez e pretensa seriedade. Vento e fogo são incontroláveis, imprevisíveis e a nova aliança que trazem nos faz orbitar fora de nós e encontrar os outros conhecidos e desconhecidos num abraço amoroso e livre. Os discípulos foram considerados embriagados, pois novamente despertavam entusiasmados para anunciar, em todas as línguas, as maravilhas do Senhor. Toda a tentativa de administrar a ação do Espírito e falar em seu nome será um contra senso. O Espírito de Jesus se encontra na oração, na solidariedade, no perdão, na palavra comprometida e na misericórdia que superam todas as fórmulas e as frases de conveniência, os conselhos moralizantes e as respostas pré-fabricadas. Jesus nos fala de um pecado contra o Espírito que nunca terá perdão. É a blasfêmia de conceder ao Espírito apenas um sussurro e uma sutil e vigiada fissura ao invés de janelas e portas abertas dos corações. O pecado irreparável é a pretensão de falar da coragem cristã e oferecer ao Espírito um pouco menos da metade de todo o resto que concedemos ao medo e a angústia. O pecado sem perdão é falar de Pentecostes sem nunca nos permitir experimentar e viver até as últimas consequências a sua embriaguez.



CONTEMPLAR


Pentecostes, autor não identificado, s. d., referência: http://www.cruzblanca.org/hermanoleon/sem/c/pasq/pentecostes/pentecostes02.jpg.



segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Caminho da Beleza 28 - Ascensão do Senhor

O Caminho da Beleza 28
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Ascensão do Senhor                  01.06.2014
At 1,1-11                   Ef 1, 17-23               Mt 28, 16-20



ESCUTAR

“João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias” (At 1,5).

“Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus” (Ef 1,20).

“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo ”(Mt 28, 20).



MEDITAR

“Importa pouco que vocês estejam ainda incertos do caminho que o Senhor vos chama a seguir; só importa isto: ter a certeza de que ele nos chama a realizar grandes coisas na vida, se nós depositamos totalmente a nossa confiança nele” (Carlo Maria Martini).

“Quando se formar em nós o desejo de seguir Jesus não nos espantemos se Ele não no-lo permitir, temporariamente ou sempre [...] Seguindo-O conforme o nosso desejo não conseguiríamos talvez senão o nosso bem ou o de um número restrito de pessoas. Com efeito, o Seu olhar alcança mais do que o nosso; Ele deseja, não apenas o nosso bem, mas também o de todos” (Charles de Foucauld).



ORAR

Com a Ascensão começa o tempo da Igreja. A novidade é que o Pai permanece conosco, pois não abandona a sua morada terrestre assumida com a encarnação do seu Filho. A mesmice do movimento está rompida. Não é mais chegada, permanência e partida, mas vinda e presença continuada de diversas formas. A palavra chave, a partir de agora, é IDE e PARTI. Não celebramos mais a partida do Mestre, mas a dos seus discípulos. O “poder” dado a Jesus é transferido para os que devem assegurar sua Presença no mundo. Somos convocados a fazer discípulos em todas as nações e não adestrá-las com e pela uniformidade das nossas catequeses que desprezam a diversidade das culturas. É mais do que necessário extirpar a visão equivocada em que fomos criados e ao invés de dizer, “Deus está conosco”, proclamar, “Deus está convosco!”. É uma cena de investidura: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos”, ou seja, tornai verdadeira a presença de Jesus no mundo por meio do amor fraterno e comunitário. Nada nos resta dizer, mas apenas partir e agir para que a Boa Nova comece sua aventura no mundo. Somos filhos e herdeiros de muitas partidas: a de Abraão, a do Êxodo, de Maria até Isabel, a da fuga do Egito. Somos parceiros numa Igreja caminhante em que devemos ser sinais da presença de Deus no mundo e suscitar pelo testemunho silencioso o desejo de outros para o encontro com o Cristo. Não se trata de multiplicar as viagens, mas dar intensidade e visibilidade evangélica à própria existência. O grande risco, como tem acontecido, é ficarmos olhando para o céu e, pasmados, não mergulharmos para dentro de nós mesmos e encontrarmos o élan que nos faz partir imediatamente. É preciso partir, ir ao encontro dos outros na sua diversidade e pluralidade para descobrir num ponto qualquer do mundo, não um lugar “especial” para transformá-lo em peregrinação, mas o lugar, as pessoas e os rostos nos quais o Ressuscitado está presente na terra. Desde que ascendeu, Jesus tornou-se o Ausente da história e somos convidados e desafiados a decifrar, apaixonadamente, os seus traços, que nada tem de espetaculoso e pirotécnico, pois “doravante nossa vida está escondida em Deus com o Cristo” (Col 3, 4). Podemos, pelo tédio, desistir de caminhar. Podemos ainda cortar o caminho, queimar as etapas porque ele nos parece longo e nos deixa impacientes. Devemos gravar em nossas travessias que “a esperança não engana, porque o amor de Deus se infunde em nosso coração pelo dom o Espírito Santo” (Rm 5, 5). Seguir os traços de Jesus, mergulhar no seu mistério é, pouco a pouco, reconhecê-Lo na Palavra anunciada, na fração do pão e na prática do amor fraterno para que tenhamos a inabalável certeza de que Ele nos amou até o fim, até o extremo limite de Si mesmo.



CONTEMPLAR

Ascensão, Eric Gill, 1918, xilogravura, 140 x 89cm, Tate Gallery, Reino Unido.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Caminho da Beleza 27 - VI Domingo da Páscoa


O Caminho da Beleza 27
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



VI Domingo da Páscoa             25.05.2014
At 8, 5-8.14-17                  1 Pd 3, 15-18                      Jo 14, 15-21



ESCUTAR

“Era grande a alegria naquela cidade” (At 8, 8).

“Amados, santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir” (1 Pd 3, 15).

“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14, 21).



MEDITAR

“O beato João Evangelista, enquanto passeava em Éfeso os últimos anos da sua existência, era levado com dificuldade à igreja no braço dos seus discípulos e não podia falar muito, nem dizer em cada homilia outra coisa além disso: ‘Filhinhos, amai-vos uns aos outros’. Até que um dia os irmãos e os discípulos que estavam presentes, aborrecidos de tanto escutar sempre as mesmas palavras, perguntaram-lhe: ‘Mestre, por que dizes sempre isso?’. E ele respondeu com uma sentença digna de João: ‘Porque é o mandamento do Senhor e, se só isso fosse observado, bastaria’” (São Jerônimo).

“Aquilo que se fez passar por cristianismo nesses dezenove séculos é apenas um início, acúmulo de fraquezas e de erros, e não um cristianismo maduro originado do espírito de Jesus” (Albert Schweitzer).



ORAR

Jesus não nos deixa o legado de uma doutrina, um manual de instruções e muito menos um código de conduta. Jesus nos deixa um desejo, um único desejo: que nos amemos! A Igreja é a Igreja de Cristo não por ser o lugar da obediência, da disciplina, da organização perfeita, mas por ser uma comunidade de amor. Não temos nenhum cerificado de autenticidade cristã, apenas uma condição: “Se me amais...”. Somente àquele que ama será dado o Espírito defensor, o Espírito da verdade que continuará em nós a presença do Cristo: “Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós”. Não necessitamos de excursões a vários santuários para encontrar vestígios do divino, pois o divino está dentro de nós, somos templos de Deus (1 Cor 3, 16). A verdadeira desgraça é que estamos dispostos, custe o que custar, a irmos aos lugares mais distantes para ver o Senhor e temos medo de ir ao lugar mais próximo: o centro de nós mesmos, o nosso coração. A Igreja do Cristo é uma igreja do amor fraterno, da terna tolerância que é o nome da generosidade. É uma Igreja da coerência em que estaremos sempre prontos a dar razão da nossa esperança a quem nos pedir. O Espírito Santo assume uma dupla função. No interior da comunidade, mantém viva e interpreta a mensagem do Cristo: “O Valedor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 26); e sustenta os fiéis no seu confronto com o mundo, ajudando-os a decifrar o sinal dos tempos e o sentido da História. É vital abrir as portas da comunidade e dos corações à ação do Espírito dado pelo Cristo Pascal. O Pai, o Cristo, o Espírito e nós somos vinculados por um amálgama de amor, pois no Evangelho domina a categoria do encontro, da aliança e da comunhão e, mais do que nunca, a liberdade, a paz, a justiça e a reconciliação não podem ser privatizadas. Não devemos ter medo de anunciar as exigências concretas da verdade evangélica, pois só ela pode romper a comodidade de uma tradição religiosa multissecular e a ilusão de que nós, católicos apostólicos romanos, pertencemos à religião mais poderosa do mundo. A verdade de Deus humaniza a todos senão não é a verdade de Deus. E a verdade de Deus é buscar, em primeiro lugar, o seu Reino e a sua justiça (Mt 6, 33). O Papa Bento XVI nos exortava: “A fonte do Espírito é Jesus. Quanto mais penetramos em Jesus, tanto mais realmente penetramos no Espírito e este penetra em nós”.



CONTEMPLAR

Carisma, Yvonne Bell, pintura sobre seda, Northamptonshire, Reino Unido.








segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Caminho da Beleza 26 - V Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 26
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



V D0mingo da Páscoa              18.05.2014
At 6, 1-7                   1 Pd 2, 4-9               Jo 14, 1-12



ESCUTAR

 “Naqueles dias, o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário” (At 6, 1).

“Amados, aproximai-vos do Senhor, pedra vida, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus”(1 Pd 2, 4).

“Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 1).



MEDITAR

“Toda a nossa fé é a crença de que Deus nos ama; quero dizer que não há mais nada. Qualquer outra coisa em que dizemos acreditar é apenas uma forma de dizer que Deus nos ama. Toda proposição, todo artigo de fé será expressão de fé apenas se for uma forma de dizer que Deus nos ama” (Herbert McCabe).

“Todo deus que não se apresente como resposta à questão do sentido da vida, inerente às preocupações fundamentais da pessoa ou de um determinado grupo humano, é um ídolo, uma ilusão ou um subterfúgio. Um deus ausente da vida torna os humanos vítimas de devaneios mais ou menos infantis, escravos do sagrado e de ideologias inverificáveis” (Francisco Catão).



ORAR

A leitura do livro de Atos rompe a visão idílica das primeiras comunidades cristãs. Elas sofreram com a pequenez e a miopia dos que privilegiavam e protegiam por serem da mesma procedência étnica. Os que deviam se ocupar das necessidades materiais também precisam do dom do Espírito para romper com o seu interesse pessoal e as discriminações que dele decorrem. É o Espírito que nos impede de nos convertemos em prisioneiros das tarefas burocráticas e administrativas. É o Espírito que noz faz saber que o serviço prático não é uma limitação nem o apostolado um privilégio exclusivo, pois cada um de nós constrói a comunidade eclesial a partir da sua originalidade e experiência vital. Somos, como Cristo, pedras angulares, pedras de tropeço e rocha que faz cair quando a nossa liberdade enfrenta as manobras do poder; quando a nossa pobreza não está disponível para projetos de grandeza passageira; quando a nossa palavra profética estorva os projetos sagazes e sedutores. Somos rochas que fazem cair quando não aceitamos as regras do êxito, da hipocrisia, do carreirismo. Somos pedras vivas quando deixamos de ser inertes, decorativos e facilmente manipulados. Devemos ter a lucidez de que o Cristo é maior do que as igrejas e o Evangelho maior que os nossos sermões. Para as primeiras comunidades, o cristianismo não era uma religião, mas uma nova forma de viver. O Cristo é o Caminho e a Vida mediados pela Verdade. Uma Igreja verdadeira é uma Igreja que se parece com Jesus. Uma Igreja que arrisca a perder prestígio e segurança por defender, como Jesus, a causa dos últimos. Para Jesus, a esfera divina não é uma realidade exterior ao homem, mas interior: existe uma fusão entre o Pai e os homens que estende ao infinito a sua capacidade de amar. Jesus é o Caminho de um amor generoso que pode nos amedrontar por ser custoso. É este amor generoso que nos conduzirá a crer no esforço para a transformação do mundo e a não dissipar, num longínquo céu, os tesouros destinados para a terra. Mais do que nunca devemos afirmar que “Deus contemplou a sua obra e viu que tudo era belo” (Gn 1, 31).



CONTEMPLAR


O Sagrado Coração de Jesus, Salvador Dalí, 1962, óleo sobre tela, 86.5 cm x 61 cm, coleção privada.




segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Caminho da Beleza 25 - IV Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 25
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



IV Domingo da Páscoa             11.05.2014
At 2, 14.36-41                    1 Pd 2, 20-25                     Jo 10, 1-10



ESCUTAR

“E vós recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós e vossos filhos, e para todos aqueles que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si” (At 2, 39-40).

“Caríssimos, se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isso vos torna agradáveis diante de Deus” (1 Pd 2, 20).

“Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome a as conduz para fora” (Jo 10, 2).



MEDITAR

“Não me lembro de um só instante da minha vida em que tenha duvidado de Deus. Duvidei e duvido da possibilidade do pensamento humano conhecer e nomear adequadamente a sua existência, duvidei e duvido das pretensões das religiões de encerrá-lo nas suas doutrinas, duvidei e duvido de muitas outras coisas, mas de Deus e da possibilidade de participar no seu mistério de vida infinita que Jesus-Yeshua chamava ‘reino’ nunca duvidei e espero que nunca duvide até o último dos meus dias” (Vito Mancuso).

Um ser humano não deve ser para um outro um objetivo, mas um meio. Meio de aceder a um degrau superior de vida. Meio de se desprender desta terra bem penosa e de suas criaturas. Um com o outro e um para o outro devem chegar a se libertar um do outro para continuar a viver juntos numa liberdade superior” (Etty Hillesum).



ORAR

O final da carta de Pedro nos introduz o tema central desta liturgia: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas”. Jesus se apresenta como a porta do redil. Uma porta de exclusão para os ladrões e salteadores, ao mesmo tempo, uma porta de inclusão e acesso para os verdadeiros pastores que dão a vida pelas ovelhas. É uma relação vital e não jurídica, doutrinal ou ritual. Tantas vezes, os pastores com suas investiduras legais e títulos de legitimidade jurídica se comportam como ladrões e bandidos e se tornam impotentes para criarem vínculos de confiança, intimidade e partilha. O verdadeiro pastor faz sair as ovelhas e as liberta dos sistemas fechados de dogmas, ritos e ideologia. A vida só está segura no movimento por Cristo, com Cristo e em Cristo que nos oferece uma vida em abundância (Jo 10, 10) e não uma vida restrita às falsas seguranças do poder e do dinheiro. As ovelhas “não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. Os poderosos são obedecidos, mas não escutados, pois a sua voz tem a obstinação de dominar e não de amar. Não podemos prender Jesus no redil das nossas estreitas vidas como uma coisa que possuímos. Devemos é transformar nossas vidas numa porta sempre aberta para que entrem e saiam, renovados, os que o Senhor colocou em nossas travessias. O amor cristão não prende e nem cerceia, mas nos coloca na dinâmica de uma vida em liberdade. Para o cristão, “dar a vida” não significa entregar-se à morte, mas se arriscar e se expor diante de um perigo que ameaça um outro. Temos uma relação muito empobrecida com o Cristo: não cremos que Ele cuida de nós e que podemos recorrer a Ele quando nos sentimos cansados e sem esperança. Temos vivido em estruturas nas quais Jesus Cristo é confessado de maneira doutrinal, mas distante da comunidade; em que nossos pastores apascentam mais a si mesmos do que as suas ovelhas. Como diz o profeta a estes falsos pastores: “Comeis sua gordura e vos vestis com sua lã; matais as mais gordas. Não fortaleceis as fracas, nem curais as enfermas, nem vendais as feridas; não recolheis as desgarradas, nem procurais as perdidas e maltratais brutalmente as fortes” (Ez 34, 3-4). Neste tempo pascal, como em todos os outros tempos, devemos procurar o Ressuscitado no amor e não na letra morta; na verdade e não nas aparências; na ação criativa e não na passividade e na inércia; no silêncio interior e não na agitação superficial. Temos que nos perguntar se a palavra que escutamos em nossas Igrejas provém da Galileia e nasce do Espírito do Ressuscitado para que não substituamos a voz inconfundível do Cristo pelo amontoado de pregações, de escritos teológicos, de exposição de catequistas que só nos causam ruídos e surdez para a voz límpida do Cristo que nos chama pelo nome, nos acolhe e nos perdoa em sua misericórdia.



CONTEMPLAR

O bom pastor encontra sua ovelha, Patrice Delaby, 201o, óleo sobre tela, Pas-de-Calais, patricedelaby.artblog.fr, França.