segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Caminho da Beleza 28 - Ascensão do Senhor

O Caminho da Beleza 28
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Ascensão do Senhor                  01.06.2014
At 1,1-11                   Ef 1, 17-23               Mt 28, 16-20



ESCUTAR

“João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias” (At 1,5).

“Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus” (Ef 1,20).

“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo ”(Mt 28, 20).



MEDITAR

“Importa pouco que vocês estejam ainda incertos do caminho que o Senhor vos chama a seguir; só importa isto: ter a certeza de que ele nos chama a realizar grandes coisas na vida, se nós depositamos totalmente a nossa confiança nele” (Carlo Maria Martini).

“Quando se formar em nós o desejo de seguir Jesus não nos espantemos se Ele não no-lo permitir, temporariamente ou sempre [...] Seguindo-O conforme o nosso desejo não conseguiríamos talvez senão o nosso bem ou o de um número restrito de pessoas. Com efeito, o Seu olhar alcança mais do que o nosso; Ele deseja, não apenas o nosso bem, mas também o de todos” (Charles de Foucauld).



ORAR

Com a Ascensão começa o tempo da Igreja. A novidade é que o Pai permanece conosco, pois não abandona a sua morada terrestre assumida com a encarnação do seu Filho. A mesmice do movimento está rompida. Não é mais chegada, permanência e partida, mas vinda e presença continuada de diversas formas. A palavra chave, a partir de agora, é IDE e PARTI. Não celebramos mais a partida do Mestre, mas a dos seus discípulos. O “poder” dado a Jesus é transferido para os que devem assegurar sua Presença no mundo. Somos convocados a fazer discípulos em todas as nações e não adestrá-las com e pela uniformidade das nossas catequeses que desprezam a diversidade das culturas. É mais do que necessário extirpar a visão equivocada em que fomos criados e ao invés de dizer, “Deus está conosco”, proclamar, “Deus está convosco!”. É uma cena de investidura: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos”, ou seja, tornai verdadeira a presença de Jesus no mundo por meio do amor fraterno e comunitário. Nada nos resta dizer, mas apenas partir e agir para que a Boa Nova comece sua aventura no mundo. Somos filhos e herdeiros de muitas partidas: a de Abraão, a do Êxodo, de Maria até Isabel, a da fuga do Egito. Somos parceiros numa Igreja caminhante em que devemos ser sinais da presença de Deus no mundo e suscitar pelo testemunho silencioso o desejo de outros para o encontro com o Cristo. Não se trata de multiplicar as viagens, mas dar intensidade e visibilidade evangélica à própria existência. O grande risco, como tem acontecido, é ficarmos olhando para o céu e, pasmados, não mergulharmos para dentro de nós mesmos e encontrarmos o élan que nos faz partir imediatamente. É preciso partir, ir ao encontro dos outros na sua diversidade e pluralidade para descobrir num ponto qualquer do mundo, não um lugar “especial” para transformá-lo em peregrinação, mas o lugar, as pessoas e os rostos nos quais o Ressuscitado está presente na terra. Desde que ascendeu, Jesus tornou-se o Ausente da história e somos convidados e desafiados a decifrar, apaixonadamente, os seus traços, que nada tem de espetaculoso e pirotécnico, pois “doravante nossa vida está escondida em Deus com o Cristo” (Col 3, 4). Podemos, pelo tédio, desistir de caminhar. Podemos ainda cortar o caminho, queimar as etapas porque ele nos parece longo e nos deixa impacientes. Devemos gravar em nossas travessias que “a esperança não engana, porque o amor de Deus se infunde em nosso coração pelo dom o Espírito Santo” (Rm 5, 5). Seguir os traços de Jesus, mergulhar no seu mistério é, pouco a pouco, reconhecê-Lo na Palavra anunciada, na fração do pão e na prática do amor fraterno para que tenhamos a inabalável certeza de que Ele nos amou até o fim, até o extremo limite de Si mesmo.



CONTEMPLAR

Ascensão, Eric Gill, 1918, xilogravura, 140 x 89cm, Tate Gallery, Reino Unido.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Caminho da Beleza 27 - VI Domingo da Páscoa


O Caminho da Beleza 27
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



VI Domingo da Páscoa             25.05.2014
At 8, 5-8.14-17                  1 Pd 3, 15-18                      Jo 14, 15-21



ESCUTAR

“Era grande a alegria naquela cidade” (At 8, 8).

“Amados, santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir” (1 Pd 3, 15).

“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14, 21).



MEDITAR

“O beato João Evangelista, enquanto passeava em Éfeso os últimos anos da sua existência, era levado com dificuldade à igreja no braço dos seus discípulos e não podia falar muito, nem dizer em cada homilia outra coisa além disso: ‘Filhinhos, amai-vos uns aos outros’. Até que um dia os irmãos e os discípulos que estavam presentes, aborrecidos de tanto escutar sempre as mesmas palavras, perguntaram-lhe: ‘Mestre, por que dizes sempre isso?’. E ele respondeu com uma sentença digna de João: ‘Porque é o mandamento do Senhor e, se só isso fosse observado, bastaria’” (São Jerônimo).

“Aquilo que se fez passar por cristianismo nesses dezenove séculos é apenas um início, acúmulo de fraquezas e de erros, e não um cristianismo maduro originado do espírito de Jesus” (Albert Schweitzer).



ORAR

Jesus não nos deixa o legado de uma doutrina, um manual de instruções e muito menos um código de conduta. Jesus nos deixa um desejo, um único desejo: que nos amemos! A Igreja é a Igreja de Cristo não por ser o lugar da obediência, da disciplina, da organização perfeita, mas por ser uma comunidade de amor. Não temos nenhum cerificado de autenticidade cristã, apenas uma condição: “Se me amais...”. Somente àquele que ama será dado o Espírito defensor, o Espírito da verdade que continuará em nós a presença do Cristo: “Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós”. Não necessitamos de excursões a vários santuários para encontrar vestígios do divino, pois o divino está dentro de nós, somos templos de Deus (1 Cor 3, 16). A verdadeira desgraça é que estamos dispostos, custe o que custar, a irmos aos lugares mais distantes para ver o Senhor e temos medo de ir ao lugar mais próximo: o centro de nós mesmos, o nosso coração. A Igreja do Cristo é uma igreja do amor fraterno, da terna tolerância que é o nome da generosidade. É uma Igreja da coerência em que estaremos sempre prontos a dar razão da nossa esperança a quem nos pedir. O Espírito Santo assume uma dupla função. No interior da comunidade, mantém viva e interpreta a mensagem do Cristo: “O Valedor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 26); e sustenta os fiéis no seu confronto com o mundo, ajudando-os a decifrar o sinal dos tempos e o sentido da História. É vital abrir as portas da comunidade e dos corações à ação do Espírito dado pelo Cristo Pascal. O Pai, o Cristo, o Espírito e nós somos vinculados por um amálgama de amor, pois no Evangelho domina a categoria do encontro, da aliança e da comunhão e, mais do que nunca, a liberdade, a paz, a justiça e a reconciliação não podem ser privatizadas. Não devemos ter medo de anunciar as exigências concretas da verdade evangélica, pois só ela pode romper a comodidade de uma tradição religiosa multissecular e a ilusão de que nós, católicos apostólicos romanos, pertencemos à religião mais poderosa do mundo. A verdade de Deus humaniza a todos senão não é a verdade de Deus. E a verdade de Deus é buscar, em primeiro lugar, o seu Reino e a sua justiça (Mt 6, 33). O Papa Bento XVI nos exortava: “A fonte do Espírito é Jesus. Quanto mais penetramos em Jesus, tanto mais realmente penetramos no Espírito e este penetra em nós”.



CONTEMPLAR

Carisma, Yvonne Bell, pintura sobre seda, Northamptonshire, Reino Unido.








segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Caminho da Beleza 26 - V Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 26
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



V D0mingo da Páscoa              18.05.2014
At 6, 1-7                   1 Pd 2, 4-9               Jo 14, 1-12



ESCUTAR

 “Naqueles dias, o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário” (At 6, 1).

“Amados, aproximai-vos do Senhor, pedra vida, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus”(1 Pd 2, 4).

“Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 1).



MEDITAR

“Toda a nossa fé é a crença de que Deus nos ama; quero dizer que não há mais nada. Qualquer outra coisa em que dizemos acreditar é apenas uma forma de dizer que Deus nos ama. Toda proposição, todo artigo de fé será expressão de fé apenas se for uma forma de dizer que Deus nos ama” (Herbert McCabe).

“Todo deus que não se apresente como resposta à questão do sentido da vida, inerente às preocupações fundamentais da pessoa ou de um determinado grupo humano, é um ídolo, uma ilusão ou um subterfúgio. Um deus ausente da vida torna os humanos vítimas de devaneios mais ou menos infantis, escravos do sagrado e de ideologias inverificáveis” (Francisco Catão).



ORAR

A leitura do livro de Atos rompe a visão idílica das primeiras comunidades cristãs. Elas sofreram com a pequenez e a miopia dos que privilegiavam e protegiam por serem da mesma procedência étnica. Os que deviam se ocupar das necessidades materiais também precisam do dom do Espírito para romper com o seu interesse pessoal e as discriminações que dele decorrem. É o Espírito que nos impede de nos convertemos em prisioneiros das tarefas burocráticas e administrativas. É o Espírito que noz faz saber que o serviço prático não é uma limitação nem o apostolado um privilégio exclusivo, pois cada um de nós constrói a comunidade eclesial a partir da sua originalidade e experiência vital. Somos, como Cristo, pedras angulares, pedras de tropeço e rocha que faz cair quando a nossa liberdade enfrenta as manobras do poder; quando a nossa pobreza não está disponível para projetos de grandeza passageira; quando a nossa palavra profética estorva os projetos sagazes e sedutores. Somos rochas que fazem cair quando não aceitamos as regras do êxito, da hipocrisia, do carreirismo. Somos pedras vivas quando deixamos de ser inertes, decorativos e facilmente manipulados. Devemos ter a lucidez de que o Cristo é maior do que as igrejas e o Evangelho maior que os nossos sermões. Para as primeiras comunidades, o cristianismo não era uma religião, mas uma nova forma de viver. O Cristo é o Caminho e a Vida mediados pela Verdade. Uma Igreja verdadeira é uma Igreja que se parece com Jesus. Uma Igreja que arrisca a perder prestígio e segurança por defender, como Jesus, a causa dos últimos. Para Jesus, a esfera divina não é uma realidade exterior ao homem, mas interior: existe uma fusão entre o Pai e os homens que estende ao infinito a sua capacidade de amar. Jesus é o Caminho de um amor generoso que pode nos amedrontar por ser custoso. É este amor generoso que nos conduzirá a crer no esforço para a transformação do mundo e a não dissipar, num longínquo céu, os tesouros destinados para a terra. Mais do que nunca devemos afirmar que “Deus contemplou a sua obra e viu que tudo era belo” (Gn 1, 31).



CONTEMPLAR


O Sagrado Coração de Jesus, Salvador Dalí, 1962, óleo sobre tela, 86.5 cm x 61 cm, coleção privada.




segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Caminho da Beleza 25 - IV Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 25
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



IV Domingo da Páscoa             11.05.2014
At 2, 14.36-41                    1 Pd 2, 20-25                     Jo 10, 1-10



ESCUTAR

“E vós recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós e vossos filhos, e para todos aqueles que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si” (At 2, 39-40).

“Caríssimos, se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isso vos torna agradáveis diante de Deus” (1 Pd 2, 20).

“Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome a as conduz para fora” (Jo 10, 2).



MEDITAR

“Não me lembro de um só instante da minha vida em que tenha duvidado de Deus. Duvidei e duvido da possibilidade do pensamento humano conhecer e nomear adequadamente a sua existência, duvidei e duvido das pretensões das religiões de encerrá-lo nas suas doutrinas, duvidei e duvido de muitas outras coisas, mas de Deus e da possibilidade de participar no seu mistério de vida infinita que Jesus-Yeshua chamava ‘reino’ nunca duvidei e espero que nunca duvide até o último dos meus dias” (Vito Mancuso).

Um ser humano não deve ser para um outro um objetivo, mas um meio. Meio de aceder a um degrau superior de vida. Meio de se desprender desta terra bem penosa e de suas criaturas. Um com o outro e um para o outro devem chegar a se libertar um do outro para continuar a viver juntos numa liberdade superior” (Etty Hillesum).



ORAR

O final da carta de Pedro nos introduz o tema central desta liturgia: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas”. Jesus se apresenta como a porta do redil. Uma porta de exclusão para os ladrões e salteadores, ao mesmo tempo, uma porta de inclusão e acesso para os verdadeiros pastores que dão a vida pelas ovelhas. É uma relação vital e não jurídica, doutrinal ou ritual. Tantas vezes, os pastores com suas investiduras legais e títulos de legitimidade jurídica se comportam como ladrões e bandidos e se tornam impotentes para criarem vínculos de confiança, intimidade e partilha. O verdadeiro pastor faz sair as ovelhas e as liberta dos sistemas fechados de dogmas, ritos e ideologia. A vida só está segura no movimento por Cristo, com Cristo e em Cristo que nos oferece uma vida em abundância (Jo 10, 10) e não uma vida restrita às falsas seguranças do poder e do dinheiro. As ovelhas “não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. Os poderosos são obedecidos, mas não escutados, pois a sua voz tem a obstinação de dominar e não de amar. Não podemos prender Jesus no redil das nossas estreitas vidas como uma coisa que possuímos. Devemos é transformar nossas vidas numa porta sempre aberta para que entrem e saiam, renovados, os que o Senhor colocou em nossas travessias. O amor cristão não prende e nem cerceia, mas nos coloca na dinâmica de uma vida em liberdade. Para o cristão, “dar a vida” não significa entregar-se à morte, mas se arriscar e se expor diante de um perigo que ameaça um outro. Temos uma relação muito empobrecida com o Cristo: não cremos que Ele cuida de nós e que podemos recorrer a Ele quando nos sentimos cansados e sem esperança. Temos vivido em estruturas nas quais Jesus Cristo é confessado de maneira doutrinal, mas distante da comunidade; em que nossos pastores apascentam mais a si mesmos do que as suas ovelhas. Como diz o profeta a estes falsos pastores: “Comeis sua gordura e vos vestis com sua lã; matais as mais gordas. Não fortaleceis as fracas, nem curais as enfermas, nem vendais as feridas; não recolheis as desgarradas, nem procurais as perdidas e maltratais brutalmente as fortes” (Ez 34, 3-4). Neste tempo pascal, como em todos os outros tempos, devemos procurar o Ressuscitado no amor e não na letra morta; na verdade e não nas aparências; na ação criativa e não na passividade e na inércia; no silêncio interior e não na agitação superficial. Temos que nos perguntar se a palavra que escutamos em nossas Igrejas provém da Galileia e nasce do Espírito do Ressuscitado para que não substituamos a voz inconfundível do Cristo pelo amontoado de pregações, de escritos teológicos, de exposição de catequistas que só nos causam ruídos e surdez para a voz límpida do Cristo que nos chama pelo nome, nos acolhe e nos perdoa em sua misericórdia.



CONTEMPLAR

O bom pastor encontra sua ovelha, Patrice Delaby, 201o, óleo sobre tela, Pas-de-Calais, patricedelaby.artblog.fr, França.






segunda-feira, 28 de abril de 2014

O Caminho da Beleza 24 - III Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 24
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



III Domingo da Páscoa                        04.05.2014
At 2, 14.22-23                    1 Pd 1, 17-21                       Lc 24, 13-35



ESCUTAR

“Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz” (At 2, 23).

“Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais não por meio de coisas perecíveis, como prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito” (1 Pd 1, 18-19).

“Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32).



MEDITAR

“Devemos acolher com hospitalidade o Cristo presente no forasteiro para que no dia do julgamento Ele não nos ignore como estrangeiros, mas nos receba como irmãos em seu Reino” (São Gregório Magno).

“Pouco tempo depois vieram as famílias da vizinhança chorar conosco; famílias expulsas, na neve, em pleno inverno: eram as férias de Natal. A casa estava cheia de jovens. Eu havia procurado todo o dia e não encontrei nenhum lugar para alojar uma família. Então, à tarde, eu retirei o Santíssimo Sacramento da pequena peça aquecida que servia de capela e o coloquei no celeiro onde não havia fogo. E lá, onde havia fogo, coloquei as camas das crianças e dos pais. Os rapazes e as moças me disseram: ‘Padre, isto não é conveniente! Onde rezarás a missa amanhã?’. E eu respondi: ‘Eu creio com toda a força da minha fé que o Amor infinito tornou-se homem, tornou-se pão e lá na hóstia consagrada, com uma fé inteligente, sei que não é na hóstia que Jesus tem frio esta noite. Ele tem frio nas mãos e nos pés destas pequenas crianças, e se amo, são estes que sofrem que devo colocar onde há fogo’” (Abbé Pierre).



ORAR

Quando o Ressuscitado nos deseja a paz não quer dizer que devemos estar tranquilos, mas que devemos abrir os olhos para fazer novas todas as coisas (Ap 21, 5) e não correr o risco de voltar atrás. A palavra profética faz uma reviravolta em nossos corações e nos obriga a uma mudança radical no modo de valorizar os nossos atos. Nós nos assemelhamos aos discípulos de Emaús: estamos muito bem informados das últimas notícias e o Cristo parece estar desinformado e com a necessidade de ser atualizado. Temos uma dificuldade, e nem fazemos nenhum esforço, para compreender e interpretar o significado das coisas que acontecem. Jesus, antes de ser reconhecido ao partir o pão, revela as Escrituras e revela-se a si mesmo. A páscoa não é um relato de uma grande ilusão nem uma estória a ser contada e recontada. A fé não recobre as lacunas da nossa intuição ou da nossa experiência e muitas vezes nos perdemos na proliferação dos nossos conceitos. Os discípulos tinham uma abundante informação sobre Jesus: suas lembranças históricas e o relato das mulheres e, no entanto, foram incapazes de reconhecer o Vivente ao seu lado caminhando com eles. Os discípulos haviam perdido a fé e a esperança.  Mortos, marchavam com um Vivo; mortos, marchavam com a Vida ainda que seus corações não houvessem ainda retornado à vida. Para eles Jesus estava morto e ponto final: “Pena que tenha terminado assim”. Quando Jesus os reencontra haviam perdido o caminho. Apesar de que tudo houvesse sido dito sobre o sofrimento, a morte e a ressurreição, eles haviam perdido a memória sobre tudo que acontecera. Não lhes ardia mais o coração, pois perderam a intimidade com Jesus vivo. E quando perdemos esta intimidade tudo se torna inútil. Estavam sem esperança, sem meta e nem objetivo, porque Jesus havia desaparecido de suas vidas. Jesus sempre nos alcança, não só quando O buscamos, mas, sobretudo, quando fugimos da vida em comunhão e nos isolamos dos outros. Neste reencontro, Jesus nos envia novamente cheios de vida, para contagiar com a paz cada casa, aliviar o sofrimento e anunciar que Deus está próximo e se preocupa conosco.  O Ressuscitado torna possível esta passagem da não-fé à fé no decorrer de uma refeição partilhada.  São três as conversões no caminho de Emaús: a da tristeza em alegria; a da obscuridade à luz e a conversão à vida comunitária: “Voltaram para Jerusalém, onde encontraram os onze reunidos com os outros”. O Ressuscitado se revela na hospitalidade e a partilha do pão torna o Vivente presente e permite a fé nascer. Meditemos as palavras de Agostinho de Hipona: “Acolha o estrangeiro, se queres reconhecer o Salvador. Isto que a dúvida fez perder, a hospitalidade resgatou. O Senhor manifestou a sua presença na partilha do pão”.



CONTEMPLAR

Os discípulos de Emaús, hoje, Yara Martins Oliveira, 2002, acrílico sobre tela, 30 cm x 140 cm, Curitiba, Brasil.






segunda-feira, 21 de abril de 2014

O Caminho da Beleza 23 - II Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 23
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



II Domingo da Páscoa              27.04.2014
At 2, 42-47              1 Pd 1, 3-9               Jo 20, 19-31


ESCUTAR

“Os que haviam se convertido eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42).

“Graças à fé e pelo poder de Deus, vós fostes guardados para a salvação que deve manifestar-se nos últimos tempos” (1 Pd 1, 5).

“Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20, 29).


MEDITAR

“Jesus concebia a fé como disposição do coração, confiança, atitude abrangente da existência. A fé de Jesus é a orientação de quem uniu a liberdade ao único necessário, desligando-a dos múltiplos ídolos do poder. É a fé como paz do coração, e também como luta contra a injustiça” (Vito Mancuso).

“Quanto a mim, confesso que acho natural entregar-me por inteiro ao afeto de meus amigos, especialmente quando estou cansado dos escândalos do mundo. Neles me repouso sem preocupação alguma. Pois sinto que Deus está lá, que é n'Ele que me lanço com toda a segurança e em toda segurança me repouso... Quando sinto que um homem, abrasado de amor cristão, tornou-se meu amigo fiel, o que lhe confio de meus projetos e de meus pensamentos não é a um homem que confio, mas Àquele em quem ele permanece e pelo qual é o que é" (Santo Agostinho).


ORAR

A primeira comunidade cristã entrelaça as suas raízes num terreno de comum humanidade com todos os outros: “eram estimados por todo o povo!”. No entanto, era distinta, pois colocavam tudo em comum e repartiam de acordo com a necessidade de cada um. O cristianismo nos ensina que irmão não é somente quem partilha a mesma fé, mas o que, gratuitamente, participa dos nossos bens. Na primeira comunidade não existia discriminação econômica e a prática da partilha e da solidariedade substituía uma lógica patronal e privativista. Mas existiram sombras nesta comunidade. Ananias e Safira venderam a sua propriedade, guardaram para si parte do dinheiro e o resto depuseram aos pés dos apóstolos. Foram réus porque mentiram ao Espírito Santo e caíram mortos aos pés de Pedro: “Não mentiste aos homens, mas a Deus”. O evangelista apresenta uma comunidade em crise de medo. Tomé é o gêmeo de Jesus porque é o único discípulo disposto a dar a sua vida por Ele. A diferença entre Tomé e Pedro é que o gêmeo compreendeu que Jesus não pede que se morra por Ele, mas com Ele. Não somos chamados, como heróis, a dar a vida por Jesus, mas dar a vida pelos outros como foi o seu testemunho de amor. A leitura equivocada dos evangelhos converteu Tomé em um incrédulo. Jesus não lhe aponta um dedo ameaçador, porque um dedo ameaçador não salva ninguém e nem é um argumento convincente. A grande dificuldade de acreditar não vem da invisibilidade do Ressuscitado, mas da visibilidade dos cristãos que se mostram pouco acolhedores e misericordiosos. Tomé não nega a ressurreição de Jesus, mas revela uma atitude quase desesperada de crer nela e faz a mais elevada profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.  Apesar disto tudo, Jesus não o propõe como modelo de fé. Para Jesus, o verdadeiro fundamento da fé não são as visões e aparições nem as experiências extraordinárias, mas o simples serviço prestado por amor. A comunidade cristã deve ser fiel ao anúncio e ao testemunho do Evangelho; fiel ao amor fraterno expresso no serviço aos mais necessitados e fiel à partilha eucarística, seu coração e élan vitais. Meditemos um provérbio indiano: “Quando batemos palmas conhecemos o som de duas mãos juntas. Mas qual é o som de uma única mão?”.


CONTEMPLAR


Tomé, Wayne Forte, 1987, óleo e acrílico sobre tela, 50" x 50", Coast Hills Community Church, Aliso Viejo, Califórnia, Estados Unidos, ver http://wayneforte.com/picture/thomas.




segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Caminho da Beleza 22 - Páscoa da Ressurreição

O Caminho da Beleza 22
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Páscoa da Ressurreição                 20.04.2014
At 10, 34a.37-43              Cl 3, 1-4                 Jo 20, 1-9                             


ESCUTAR

“E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e mortos” (At 10, 42).

“Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória” (Cl 3, 3-4).

“Ele viu e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20, 8-9).


MEDITAR

“Toda história da salvação poderia ser descrita como um drama de amor, como um imenso Cântico dos cânticos. Porém é menos a noiva que procura o noivo que o Deus fiel que procura seu povo adúltero, que procura a humanidade que se desviou dele; ele a procura para ‘lhe falar ao coração’ e reconduzi-la ao seu primeiro amor. Na Páscoa, as bodas são consumadas e no Ressuscitado é a humanidade inteira e o cosmos que se encontram secretamente recriados e transfigurados: o corpo do Ressuscitado é vida pura e não esta mistura de vida e de morte, esta ‘vida morte’ que chamamos de vida” (Atenágoras de Constantinopla).

“Se olharmos nossa vida nesta luz, se nós pensarmos que somos chamados pelo Amor a ser o Templo de Deus, o Santuário do Espírito e o Corpo de Jesus, teremos, frente a nós mesmos, uma atitude de respeito que fará de nós o altar, o tabernáculo onde Deus se revela, onde Deus manifesta Sua vida, transfigurando a nossa para que a nossa comunique a Sua” (Maurice Zundel).


ORAR

            Em Atos, o discurso de Pedro é pronunciado na casa de Cornélio, centurião romano e pagão. O evangelho começara a ultrapassar as fronteiras de Israel e Pedro, contrariando a sua educação e as suas certezas, decide batizar um pagão. A última frase de Pedro é vital nesta sua nova compreensão da realidade espiritual do Evangelho: “Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”. Se, no início, a salvação fora anunciada a Israel, doravante basta crer em Jesus, o Cristo, para receber o perdão dos pecados, ou seja, entrar na Aliança com Deus. A liturgia da Igreja, neste domingo de Páscoa, nos faz ouvir um texto tardio após a Ressurreição do Cristo, para nos fazer compreender, de uma vez por todas, a razão da vinda do Cristo entre nós: “Eu nasci, para isso vim ao mundo, para testemunhar a verdade. Quem está a favor da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37). Todos podem ouvir e compreender esta Voz. A ressurreição de Jesus não é como o ressurgimento de Lázaro no mesmo corpo conhecido pelas suas irmãs e vizinhos e para um resto de vida que teria o seu término. Lázaro, ao ser trazido de volta à vida, saiu todo atado nas faixas mortuárias. Seu corpo estava ainda prisioneiro dos grilhões do mundo, pois não era ainda um corpo ressuscitado. Ninguém viu o Senhor ressuscitando. O que Madalena, Pedro e João viram foram os sinais e as aparições do Ressuscitado. Não foram os olhos do corpo que O viram, mas os olhos dos seus corações iluminados pelo amor e pela fé. Maria Madalena assistirá a primeira aurora desta nova humanidade que as trevas não puderam impedir. João sabe que as faixas de linho no chão são a prova de que Jesus está, doravante, livre da morte, pois estas faixas que O imobilizaram simbolizavam, a passividade da morte. Seu corpo ressuscitado não conhece e nem experimenta mais nenhum entrave ou limite. Diante destas faixas abandonadas e inúteis, João “viu e acreditou”. A última frase do evangelho de hoje é espantosa: “De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. Foi preciso esperar a ressurreição para que os discípulos compreendessem o mistério do Cristo, suas palavras e suas atitudes. É a ressurreição do Cristo que ilumina todas as Escrituras e as torna luminosas. A nossa fé deverá ser alimentada sem nenhuma prova material, além do testemunho das comunidades cristãs que a sustentaram sempre. O desafio é encontrar a força, como Pedro e João, de ler em nossas vidas e na vida do mundo todos os sinais cotidianos da Ressurreição. O Papa Bento XVI nos exorta: “Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de ‘redenção’ que dá um sentido novo à sua vida” (Spe Salvi 26). O Espírito nos foi dado para que a cada “primeiro dia da semana” renovemos a gostosura de amar e ser amado e, fulminados pela Esperança, possamos correr, com todos nossos irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai, ao reencontro misterioso do Ressuscitado.


CONTEMPLAR

A Caminho para a Páscoa, Qu Qianmei, 2008, óleo sobre tela, Pequim, China.