segunda-feira, 21 de abril de 2014

O Caminho da Beleza 23 - II Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 23
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



II Domingo da Páscoa              27.04.2014
At 2, 42-47              1 Pd 1, 3-9               Jo 20, 19-31


ESCUTAR

“Os que haviam se convertido eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42).

“Graças à fé e pelo poder de Deus, vós fostes guardados para a salvação que deve manifestar-se nos últimos tempos” (1 Pd 1, 5).

“Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20, 29).


MEDITAR

“Jesus concebia a fé como disposição do coração, confiança, atitude abrangente da existência. A fé de Jesus é a orientação de quem uniu a liberdade ao único necessário, desligando-a dos múltiplos ídolos do poder. É a fé como paz do coração, e também como luta contra a injustiça” (Vito Mancuso).

“Quanto a mim, confesso que acho natural entregar-me por inteiro ao afeto de meus amigos, especialmente quando estou cansado dos escândalos do mundo. Neles me repouso sem preocupação alguma. Pois sinto que Deus está lá, que é n'Ele que me lanço com toda a segurança e em toda segurança me repouso... Quando sinto que um homem, abrasado de amor cristão, tornou-se meu amigo fiel, o que lhe confio de meus projetos e de meus pensamentos não é a um homem que confio, mas Àquele em quem ele permanece e pelo qual é o que é" (Santo Agostinho).


ORAR

A primeira comunidade cristã entrelaça as suas raízes num terreno de comum humanidade com todos os outros: “eram estimados por todo o povo!”. No entanto, era distinta, pois colocavam tudo em comum e repartiam de acordo com a necessidade de cada um. O cristianismo nos ensina que irmão não é somente quem partilha a mesma fé, mas o que, gratuitamente, participa dos nossos bens. Na primeira comunidade não existia discriminação econômica e a prática da partilha e da solidariedade substituía uma lógica patronal e privativista. Mas existiram sombras nesta comunidade. Ananias e Safira venderam a sua propriedade, guardaram para si parte do dinheiro e o resto depuseram aos pés dos apóstolos. Foram réus porque mentiram ao Espírito Santo e caíram mortos aos pés de Pedro: “Não mentiste aos homens, mas a Deus”. O evangelista apresenta uma comunidade em crise de medo. Tomé é o gêmeo de Jesus porque é o único discípulo disposto a dar a sua vida por Ele. A diferença entre Tomé e Pedro é que o gêmeo compreendeu que Jesus não pede que se morra por Ele, mas com Ele. Não somos chamados, como heróis, a dar a vida por Jesus, mas dar a vida pelos outros como foi o seu testemunho de amor. A leitura equivocada dos evangelhos converteu Tomé em um incrédulo. Jesus não lhe aponta um dedo ameaçador, porque um dedo ameaçador não salva ninguém e nem é um argumento convincente. A grande dificuldade de acreditar não vem da invisibilidade do Ressuscitado, mas da visibilidade dos cristãos que se mostram pouco acolhedores e misericordiosos. Tomé não nega a ressurreição de Jesus, mas revela uma atitude quase desesperada de crer nela e faz a mais elevada profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.  Apesar disto tudo, Jesus não o propõe como modelo de fé. Para Jesus, o verdadeiro fundamento da fé não são as visões e aparições nem as experiências extraordinárias, mas o simples serviço prestado por amor. A comunidade cristã deve ser fiel ao anúncio e ao testemunho do Evangelho; fiel ao amor fraterno expresso no serviço aos mais necessitados e fiel à partilha eucarística, seu coração e élan vitais. Meditemos um provérbio indiano: “Quando batemos palmas conhecemos o som de duas mãos juntas. Mas qual é o som de uma única mão?”.


CONTEMPLAR


Tomé, Wayne Forte, 1987, óleo e acrílico sobre tela, 50" x 50", Coast Hills Community Church, Aliso Viejo, Califórnia, Estados Unidos, ver http://wayneforte.com/picture/thomas.




segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Caminho da Beleza 22 - Páscoa da Ressurreição

O Caminho da Beleza 22
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Páscoa da Ressurreição                 20.04.2014
At 10, 34a.37-43              Cl 3, 1-4                 Jo 20, 1-9                             


ESCUTAR

“E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e mortos” (At 10, 42).

“Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória” (Cl 3, 3-4).

“Ele viu e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20, 8-9).


MEDITAR

“Toda história da salvação poderia ser descrita como um drama de amor, como um imenso Cântico dos cânticos. Porém é menos a noiva que procura o noivo que o Deus fiel que procura seu povo adúltero, que procura a humanidade que se desviou dele; ele a procura para ‘lhe falar ao coração’ e reconduzi-la ao seu primeiro amor. Na Páscoa, as bodas são consumadas e no Ressuscitado é a humanidade inteira e o cosmos que se encontram secretamente recriados e transfigurados: o corpo do Ressuscitado é vida pura e não esta mistura de vida e de morte, esta ‘vida morte’ que chamamos de vida” (Atenágoras de Constantinopla).

“Se olharmos nossa vida nesta luz, se nós pensarmos que somos chamados pelo Amor a ser o Templo de Deus, o Santuário do Espírito e o Corpo de Jesus, teremos, frente a nós mesmos, uma atitude de respeito que fará de nós o altar, o tabernáculo onde Deus se revela, onde Deus manifesta Sua vida, transfigurando a nossa para que a nossa comunique a Sua” (Maurice Zundel).


ORAR

            Em Atos, o discurso de Pedro é pronunciado na casa de Cornélio, centurião romano e pagão. O evangelho começara a ultrapassar as fronteiras de Israel e Pedro, contrariando a sua educação e as suas certezas, decide batizar um pagão. A última frase de Pedro é vital nesta sua nova compreensão da realidade espiritual do Evangelho: “Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”. Se, no início, a salvação fora anunciada a Israel, doravante basta crer em Jesus, o Cristo, para receber o perdão dos pecados, ou seja, entrar na Aliança com Deus. A liturgia da Igreja, neste domingo de Páscoa, nos faz ouvir um texto tardio após a Ressurreição do Cristo, para nos fazer compreender, de uma vez por todas, a razão da vinda do Cristo entre nós: “Eu nasci, para isso vim ao mundo, para testemunhar a verdade. Quem está a favor da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37). Todos podem ouvir e compreender esta Voz. A ressurreição de Jesus não é como o ressurgimento de Lázaro no mesmo corpo conhecido pelas suas irmãs e vizinhos e para um resto de vida que teria o seu término. Lázaro, ao ser trazido de volta à vida, saiu todo atado nas faixas mortuárias. Seu corpo estava ainda prisioneiro dos grilhões do mundo, pois não era ainda um corpo ressuscitado. Ninguém viu o Senhor ressuscitando. O que Madalena, Pedro e João viram foram os sinais e as aparições do Ressuscitado. Não foram os olhos do corpo que O viram, mas os olhos dos seus corações iluminados pelo amor e pela fé. Maria Madalena assistirá a primeira aurora desta nova humanidade que as trevas não puderam impedir. João sabe que as faixas de linho no chão são a prova de que Jesus está, doravante, livre da morte, pois estas faixas que O imobilizaram simbolizavam, a passividade da morte. Seu corpo ressuscitado não conhece e nem experimenta mais nenhum entrave ou limite. Diante destas faixas abandonadas e inúteis, João “viu e acreditou”. A última frase do evangelho de hoje é espantosa: “De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. Foi preciso esperar a ressurreição para que os discípulos compreendessem o mistério do Cristo, suas palavras e suas atitudes. É a ressurreição do Cristo que ilumina todas as Escrituras e as torna luminosas. A nossa fé deverá ser alimentada sem nenhuma prova material, além do testemunho das comunidades cristãs que a sustentaram sempre. O desafio é encontrar a força, como Pedro e João, de ler em nossas vidas e na vida do mundo todos os sinais cotidianos da Ressurreição. O Papa Bento XVI nos exorta: “Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de ‘redenção’ que dá um sentido novo à sua vida” (Spe Salvi 26). O Espírito nos foi dado para que a cada “primeiro dia da semana” renovemos a gostosura de amar e ser amado e, fulminados pela Esperança, possamos correr, com todos nossos irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai, ao reencontro misterioso do Ressuscitado.


CONTEMPLAR

A Caminho para a Páscoa, Qu Qianmei, 2008, óleo sobre tela, Pequim, China.





             
           





segunda-feira, 7 de abril de 2014

O Caminho da Beleza 21 - Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

O Caminho da Beleza 21
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Domingo de Ramos da Paixão do Senhor             13.04.2014
Is 50, 4-7          Fl 2, 6-11           Mt 26, 14-27, 66    


ESCUTAR

“O Senhor Deus deu-me língua adestrada para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo” (Is 50, 4).

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6-8).

“Senhor, nós nos lembramos de que quando este impostor ainda estava vivo, disse: ‘Depois de três dias eu ressuscitarei!’ Portanto, manda guardar o sepulcro até o terceiro dia para não acontecer que os discípulos venham roubar o corpo e digam ao povo: ‘Ele ressuscitou dos mortos!’ pois essa última impostura seria pior do que a primeira” (Mt 27, 63-64).


MEDITAR

“O Logos, que em si não podia morrer, assumiu um corpo que podia morrer, para oferecê-lo por todos. Após o pecado teríamos de alcançar de novo a graça, não de dentro, mas em união com o corpo. A redenção não é uma simples eliminação do pecado, mas acontece mediante uma superabundância de vida, mediante o sangue e o sacrifício deste Deus encarnado” (Atanásio de Alexandria).

“O engajamento de Deus pelo homem é tão definitivo que toda objeção contra a ordem do mundo e a Providência está reduzida ao silêncio. O Novo Testamento é um livro em que a alegria é capaz de abranger, novamente, mesmo o sofrimento mais extremo: o abandono de Deus por Deus” (Hans Urs Von Balthasar).


ORAR

            A existência de Jesus encontra a sua razão de ser no Sim prévio aos desígnios do Pai. Toda a sua vida e o seu empenho repousam sobre um pacto permanente entre Ele e o Pai. No entanto, ao chegar a hora esperada se produz a entrada nas trevas: a fonte paternal se cala; o Pai sempre presente se retira; sua luz se extingue e o Filho que carrega o pecado do mundo se vê abandonado. Paradoxalmente, somente alguém tão inseparavelmente próximo do Pai, como o Filho, expressão de uma presença e união indestrutíveis, pode experimentar tal abandono. Desde a ressurreição de Lázaro, os inimigos de Jesus decidiram a sua morte e Ele, que até então se esquivara do entusiasmo das massas, vai aceitar, deliberadamente, ser acolhido como um rei, um messias e um grande profeta. Ele quer se deixar reconhecer como tal, pois a sua hora soou: Ele é o Senhor e não há mais nada a perder. A mula era outrora a montaria dos chefes de Israel antes de Davi. Era a montaria do povo miúdo. Posteriormente, foi suplantada pelo cavalo que era a montaria dos ricos e o sinal do chefe militar. Jesus é um rei pacífico cujo reino não tem nenhuma pretensão de dominação. A multidão aclama Jesus, como o salmo 118 cantado na festa das Tendas que tem um significado messiânico: “Bendito em nome do Senhor aquele que vem! Nós vos abençoamos desde a casa do Senhor. O Senhor é Deus, ele nos ilumina. Ordenai uma procissão com ramos até os ângulos do altar. Tu és meu Deus, eu te dou graças, Deus meu, eu te exalto. Dai graças ao Senhor porque é bom, porque é eterna sua misericórdia” (Sl 118, 24-29). Os hosanas pedem e desejam que o Messias arme a sua tenda no meio do seu povo e o seu entusiasmo vinha dos que foram testemunhas da ressurreição de Lázaro. A multidão aclama aquele que venceu a morte. Na sua hora, Jesus é abandonado por seus discípulos que dormem. O único vínculo com o Pai, que persiste, está centrado no cálice: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice. Mas não se faça a minha vontade e sim a tua” (Lc 22, 42). Este não-sim é todo o vínculo restante com o Pai. Um vínculo que, ao final, vivenciará somente na Cruz como abandono de Deus. Jesus deu um sentido à sua morte ao dizer que não havia maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos e se esta frase é verdadeira, então é imperativo que Ele morra. Três dias mais tarde esta mesma frase iluminará os peregrinos do caminho de Emaús: “Como sois insensatos e lentos para crer em tudo o que disseram os profetas! Não tinha o Messias de sofrer isso para entrar em sua glória?” (Lc 24, 25-26). E entrar na glória é revelar o amor de Deus. Neste domingo de Ramos, devemos ter a lucidez, como comunidade eclesial, que o pecado é essencialmente o medo do futuro e uma tentativa desesperada para impedir o seu advento. E o Cristo nos evoca, com a sua entrega de amor, que a libertação do pecado consiste em sermos fulminados pela coragem da esperança: “No mundo passareis tribulações; mas tende ânimo, pois eu venci o mundo” (Jo 16, 33).


CONTEMPLAR

A entrada de Cristo em Jerusalém, Jean-Hippolyte Flandrin, c. 1842, afresco, Igreja de Saint-Germain-des-Prés, Paris, França.







segunda-feira, 31 de março de 2014

O Caminho da Beleza 20 - V Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 20
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).





V Domingo da Quaresma                     06.04.2014                                                                                  

Ez 37, 12-14              Rm 8, 8-11              Jo 11, 1-45      



ESCUTAR

“Porei em vós o meu espírito, para que vivais, e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço – oráculo do Senhor” (Ez 37, 14).

“E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8, 11).

“Então Jesus disse: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês isso?” (Jo 11, 25-26).



MEDITAR

“Tudo o que é votado à morte vem terminar na minha vida; tudo o que se torna outono encalha na praia da minha primavera; tudo o que se desfaz em podridão vem nutrir as minhas flores” (Hans Urs von Balthasar).

“Deus somente sabe o túmulo dos tempos e Ele aí bate. Ele fala e o que já está sepultado se levanta, sai da sombra e avança para Ele, pois a morte se retirou diante do Deus da Páscoa” (Patrice de la Tour du Pin).



ORAR

        Lázaro representa toda a humanidade sepultada e atada aos nós da morte que Jesus, por terna compaixão, salvará ao se entregar livremente por amor. Ressuscitar é desatar os nós que nos prendem à realidade cruel de uma sociedade civil e religiosa sustentada pela ganância e pela competição; de uma sociedade que incentiva a promiscuidade do amor; de uma política que tolera e incentiva a corrupção; de igrejas que abandonam o seu papel profético e fazem todas as concessões para esposarem os privilégios do poder. Jesus não é um dos ressuscitados. Jesus é a Ressurreição! A travessia cristã é uma contradição permanente: temos a certeza da morte, mas vivemos esta certeza na imprevisibilidade do quando e do como. Para um cristão, em espírito e verdade, morrer é aprender a se lançar no abismo das entranhas do Amor onde começou a Vida. Na sua mística do viver, a Igreja de Jesus confronta os poderes políticos e religiosos e os coloca em xeque sobre a dimensão espiritual de suas vidas. A fidelidade de Deus é mais forte do que a morte. Ele soprará seu Espírito para fazer viver o seu povo e abrirá os túmulos da desesperança. A escolha é nossa: podemos nos fechar sobre nós mesmos num movimento auto-destruidor e suicida ou acolher o transbordamento da ressurreição dada por Deus que é vida em plenitude. Vivemos tempos sombrios em que “nossos olhos se ressecaram, nossa esperança se extinguiu” (Ez 37, 11). Jesus testemunha que para Ele o mais importante é vencer a morte do que afastar a doença. Amar, para o Cristo, não é arrancar do leito, mas dos Infernos, pois o que prepara para nós, lázaros da existência, não é um remédio para nossas enfermidades, mas a glória da Ressurreição (cf. Pedro Chrysólogo, Sermão 63). Meditemos esta frase desconcertante de Jesus: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais”. E Aquele que chorou a morte do amigo nos fez saber para todo o sempre de que era necessária esta morte, daquele que amava, para que a nossa fé sepultada com Lázaro ressuscitasse com Ele para a glória bendita de Deus. Somos chamados à liberdade do Espírito, basta ouvirmos no mais íntimo de nós e arriscar na travessia o apelo de Jesus que ecoará até o fim dos tempos: “Desatai-o e deixai-o caminhar!”.



CONTEMPLAR

Sem título, 1900, desenho de Käte Kollwitz, Museu Käte Kollwitz, Berlim, Alemanha.












segunda-feira, 24 de março de 2014

O Caminho da Beleza 19 - IV Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 19
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



IV Domingo da Quaresma               30.03.2014
1 Sm 16, 1.6-7.10-13               Ef 5, 8-14                 Jo 9, 1-41      



ESCUTAR

“Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1 Sm 16, 7).

“O que esta gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. Mas tudo que é condenável torna-se manifesto pela luz; e tudo o que é manifesto é luz” (Ef 5, 12-13).

“Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos. Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isso e lhe disseram: ‘Porventura também nós somos cegos?’. Respondeu-lhes Jesus: ‘Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas, como dizeis ‘nós vemos’, o vosso pecado permanece’”(Jo 9, 39-41).



MEDITAR

“Ele veio a este mundo para o julgamento, para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos. Os que se reconhecem nas trevas do erro, recebam a luz eterna que os libertará da obscuridade de suas faltas. E os arrogantes que pretendem possuir em si mesmos a luz da justiça, fossem mergulhados com razão, nas suas próprias trevas: inchados com seu orgulho e seguros de sua justiça, não procurarem médico para os curar. Teriam acesso ao Pai por Jesus que se declarou a porta, mas insolentes se orgulharam de seus méritos e permaneceram na sua cegueira”(Prefácio da Liturgia Moçarábica).

“É o amor das riquezas que causa a cegueira, a loucura dos homens e a sua perversidade” (Théognis de Mégare).

“O pior cego é o que quer ver” (João Guimarães Rosa).



ORAR

A unção de Davi se passa em Belém, o lugar onde mil anos mais tarde nascerá Jesus, um lugar insignificante entre os clãs de Judá. Davi, pastor, era o mais jovem dos filhos de Jessé. Foi o escolhido pelo Senhor, mesmo não sendo o primogênito conforme a lei. Toda eleição divina é sempre desconcertante, pois a sua dileção recai sobre os humildes e os pequenos. O Evangelho narra o episódio da cura do cego na maior festa judaica, a festa das Tendas, impregnada de uma espera impaciente e fervorosa do Messias. Os filhos das trevas não abrem nenhuma exceção, mas fazem todas as concessões uma vez que se consideram seus próprios salvadores. No entanto, o Cristo exige exceções para que possamos amar os outros. Jesus abre uma exceção na regra intransigente do sábado para curar o cego. Não concede uma polegada aos defensores aguerridos da Lei e testemunha que só os que decidem praticar o amor abrem e fazem exceções. O Evangelho de Jesus encontra o tom da verdade nos humilhados, nos machucados e nos que são considerados um nada por aqueles que só sabem calcular seus “custos e benefícios” e investem as suas vidas para “agregar valor” aos sistemas políticos e religiosos da exclusão. Curar um cego é um ato de Deus e esta crença está na raiz do mundo judeu que a sabia de cor! No livro do Êxodo, quando Moisés se inquieta com a missão que Deus lhe confiava, disse: “Perdão, meu Senhor. Eu não tenho facilidade de falar, nem antes nem agora que falastes ao teu servo; tenho boca e língua travados. O Senhor replicou: ‘Quem dá a boca ao homem? Quem o torna mudo ou surdo? Quem faz o que vê ou o cego? Não sou eu, o Senhor?” (Ex 4, 10-11). O evangelista é incisivo: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos”. A cura da cegueira coincide com o nascimento da fé: “Eu creio, Senhor”, afirma o que agora vê. O que era cego sai, pouco a pouco, da sua noite enquanto os fariseus chafurdam nas trevas da inveja, da mentira, da contradição e fazem de Jesus, apesar das evidências, um possuído que não respeita o sábado e dissipa o mal pelo mal. Paulo reconhece esta cisão e exclama: “Somos o aroma de Cristo oferecido a Deus para os que se salvam e para os que se perdem. Para estes, cheiro de morte que mata; para aqueles, fragrância de vida que vivifica” (2 C0r 2, 15). A declaração pública de Jesus: “Eu sou a Luz do Mundo” (Jo 8, 12) é uma declaração afrontosa aos filhos das trevas espalhados em todas as instituições políticas, sociais e religiosas que só se preocupam com o poder para serem servidos e dele se servir. Jesus veio para remover a cegueira dos homens e, sobretudo, a pior cegueira, a soberba, que é a do cego que quer ver. Os corações interesseiros são e serão sempre movidos pelo veneno da ingratidão e, revestidos da hipocrisia das belas almas, “participam nas obras estéreis das trevas”. Somos nós que nos julgamos diante da Palavra da Verdade: uns se enclausuram na revolta e na mentira e outros se abrem cada vez mais à vida, à verdade e à liberdade de amar. A Igreja de Jesus deve ser humilde para reconhecer, muitas vezes, a sua cegueira no meio do Povo de Deus que se sente perdido com tanta pompa e com tanta circunstância. Que o Santo Espírito nos alinhe entre os cegos, os surdos e os paralíticos, pois é a única condição para que sejamos renovados pela Páscoa do Senhor e, admiravelmente, recriados para a vida eterna.



CONTEMPLAR

Ele curou os olhos do homem cego, Walter Rane, 1949, óleo sobre tela, 34” x 20”, Coleção da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Salt Lake City, Utah, Estados Unidos.





terça-feira, 18 de março de 2014

O Caminho da Beleza 18 - III Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 18
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



III Domingo da Quaresma            23.03.2014                                                                                                      
Ex 17, 3-7              Rm 5, 1-2.5-8              Jo 4, 5-42      



ESCUTAR

“Então o povo começou a disputar com Moisés, dizendo: ‘Dá-nos água para beber!’. Moisés respondeu-lhes: ‘Porque disputais comigo? Por que tentais o Senhor’. Mas o povo, sedento de água, murmurava contra Moisés e dizia: ‘Por que nos fizestes sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado’” (Ex 17, 2-3).

“E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5, 5-8).

“Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna... Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade” (Jo 4, 14.23).



MEDITAR

“Nosso Senhor vem à fonte como um caçador; pediu água para poder dá-la. Pediu de beber como qualquer um que está sedento, para ter ocasião de aplacar a sede. Fez um pedido para a samaritana para poder ensinar-lhe e ela, por sua vez, lhes fez um pedido. Ainda que rico, não se envergonhou de mendigar como um indigente para ensinar a indigente a pedir. E, dominando o pudor, não temeu falar a uma mulher sozinha para ensiná-la que quem se mantém na verdade não pode ser perturbado. Pede água, porque promete água viva. Pede, mas depois parou de pedir, porque a mulher deixou o seu cântaro. Os pretextos haviam cessado, porque a verdade que se devia esperar estava já presente” (Efrém, Diatessaron 12, 16).

“Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz...
Tenho que ter as mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus...
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Do que eu pensava encontrar
(Gilberto Gil)



ORAR

Esta é a primeira cena de intimidade de Jesus com uma mulher; a outra é com Maria Madalena no jardim da Ressurreição. Jesus está só com estas mulheres e para elas revela o seu ser mais profundo. O evangelho acentua a insistência de Jesus sobre o dom, pois com o Deus de Amor tudo é entrega e compaixão. A samaritana simplesmente acolhe o dom e o perdão. Jesus ao falar da fonte transbordante quer dizer que a água que jorra dos corações, doravante, saciará a todos. A samaritana, ao declarar que encontrou o Messias, revela ao mundo que o Messias esperado é aquele que é capaz, sem nenhuma discriminação, do dom e do perdão. Jesus escolhe este momento de fragilidade para declarar o seu verdadeiro título e revelar a sua missão. Do presépio à cruz, passando por um pedaço de pão ázimo, Jesus desconcerta sempre e o ponto culminante disto é quando reconhece sua proclamação como rei, quando interrogado no cárcere: “És tu o rei dos judeus” e Jesus declara: “Tu o dizes” (Mt 27, 11). Jesus desvela para esta mulher a chave do mistério da existência: “Se tu conhecesses o dom de Deus”. Ele é o depositário do segredo que os homens não conhecem. Ele, fatigado, sedento, que solicita um pouco de água para se refrescar, é o mesmo que oferece a água viva. O detalhe sutil sobre as bodas e o esposo pode nos passar desapercebido. Jesus pede que a samaritana chame o seu marido, pois um homem não podia prolongar uma conversa com uma mulher fora da presença do seu esposo. O evangelista acentua o significado profundo desta ausência do marido. Jesus, em Caná, assumiu o papel do esposo ao proporcionar aos convidados o vinho que faltara; João, o Batista, lhe confere o título de esposo e se auto-intitula “o amigo do Esposo”. Os tempos messiânicos são os tempos da renovação da Aliança esponsal de Deus com o seu povo. Jesus, na sua liberdade ousada, propõe uma Nova Aliança e a oferece a todos, sem discriminação: aos pecadores, aos excluídos da Sinagoga, aos proscritos da sociedade, aos não-judeus e aos samaritanos. A Samaria, que fora desligada da Aliança, vai, neste momento, realizá-la graças a esta mulher que anunciará a toda cidade que encontrara o “Salvador do Mundo”. É pela Samaria que se iniciará a evangelização fora da Palestina e será um sucesso (cf. At 8, 5). O evangelista encerra o seu relato evocando o título que os primeiros samaritanos convertidos dão a Jesus: Salvador do Mundo. Mais uma vez são os proscritos que nos revelam e anunciam a universalidade da salvação. A Igreja de Jesus deve saber que somente o transbordamento do amor – o servir a todos sem discriminação – rompe o círculo de uma comunidade limítrofe, medíocre e isolada que bebe de qualquer coisa para iludir a sua sede. Paulo nos reitera que “a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Nesta quaresma, somos chamados a manter viva a nossa esperança e a nossa sede de viver para proclamar como o poeta: “Cheio de Deus não temo o que virá, pois venha o que vier nunca será maior do que a minha alma” (Fernando Pessoa).



CONTEMPLAR


Cristo e a Mulher da Samaria, George Richmond, 1828, têmpera e ouro sobre mogno, 410 x 498 mm, Tate Gallery, Reino Unido.




segunda-feira, 10 de março de 2014

O Caminho da Beleza 17 - II Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 17
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



II Domingo da Quaresma                   16.03.2014
Gn 12, 1-4            2 Tm 1, 8-10          Mt 17, 1-9

                  
                                                                                                                                                 ESCUTAR

“Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma benção. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!” (Gn 2, 1-3).

“Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2 Tm, 10).

“Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (Mt 17, 1-2).


MEDITAR

“Todos nós seríamos transformados se tivéssemos a coragem de ser o que somos” (Marguerite Yourcenar).

“Quando o grande Antonio estava à beira da morte, ouviu um irmão que falava dele: ‘Ele foi tão grande como Moisés’. Então Antonio abriu um olho e disse: ‘Como você está longe da verdade, irmão. No além Deus não me perguntará: ‘Por que você não foi como Moisés?’, mas ‘Por que você não foi Antonio?’” (Apoftegma [Sentença] dos Padres do Deserto).


ORAR

       Após a prova do deserto, o episódio da Transfiguração é a iluminação que desperta a esperança. O relato faz brilhar, por antecipação, a glória de Deus na paixão do Cristo. A nuvem luminosa que cobre a todos é a mesma que criou o mundo no primeiro dia do Gênesis e a que envolveu Maria na Anunciação. É o mesmo Espírito que consagra o pão e o vinho em Corpo e Sangue de Cristo para a vida do mundo. A Transfiguração é uma resposta à indignação de Pedro uns dias antes ao ouvir de Jesus o anúncio de sua Paixão: “Deus te livre, Senhor! Tal coisa não te acontecerá” (Mt 16, 22). Jesus recebe no monte Tabor a sustentação psicológica e espiritual mais significativa no decorrer do seu ministério. Jesus tem a garantia de que o doloroso caminho que vai percorrer O conduzirá à glória. A Transfiguração é a antítese do Calvário. Nela, Jesus, glorificado, está entre as duas mais ilustres personagens da história de Israel: Moisés que recebera a revelação de Deus e as tábuas da lei na sarça ardente; e Elias que a recebera na brisa leve e ligeira que o fazia vivenciar o Deus da Ternura. Apesar desta visão gloriosa, o chefe dos apóstolos e seus companheiros terão que pregar o Cristo Crucificado entre dois ladrões. Nesta antítese se edifica a solidez de uma fé na qual repousa toda a fé da Igreja de Jesus. Os apóstolos testemunharam a ressurreição da filha de Jairo e a transfiguração de Jesus para que proclamassem a ligação íntima entre Ressurreição e Transfiguração. Apesar de tudo, toda vocação autêntica é uma missão a serviço dos outros, anunciada e testemunhada em nossas vidas pela exclamação do salmista: “A terra está plena do seu amor e transborda em toda a terra a sua graça” (Sl 119, 64). O Papa Bento XVI nos exortava: “Somente quem se faz livre para Deus e suas exigências, abre-se ao outro que chama à porta do seu coração” (Sermão de Cinzas, 2008). A Transfiguração de Jesus antecipa a certeza da sua Ressurreição dentre os mortos, como será com cada um de nós pela graça e pelo amor de Deus ao se cumprir a profecia de Daniel: “Continuei olhando, e na visão noturna notei vir nas nuvens do céu uma figura humana, que se aproximou do ancião e foi apresentada diante dele. Deram-lhe poder real e domínio: todos os povos, nações e línguas o respeitarão. Seu domínio é eterno e não passa, seu reino não terá fim” (Dn 7, 13-14). Neste mundo e nestas igrejas comprometidas com uma moral do espetáculo, que estimula o ardor religioso individual sem nenhum compromisso comunitário, um Jesus Morto é absolutamente comum e sem atrativos de sedução. Para nós, além do Jesus da História, devemos estar intimamente ligados ao Cristo da Fé e Neste o que conta não é o fenômeno da luz, mas a humanidade de Jesus que durante a sua travessia testemunhou e praticou para todos e com todos, sem exceção ou discriminação, suas entranhas de misericórdia.


CONTEMPLAR

Transfiguração, Lewis Bowman, 2008, óleo sobre tela, espátula, 18” x 24”, original sem moldura, Texas, Estados Unidos.