terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Caminho da Beleza 12 - V Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 12
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



V Domingo do Tempo Comum                     09.02.2014
Is 58, 7-10               1 Cor 2, 1-5             Mt 5, 13-16



ESCUTAR

“Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o e não desprezes a tua carne. Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá” (Is 58, 7-8).

“Eu estive junto de vós com fraqueza e receio, e muito tremor” (1 Cor 2, 3).

“Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).



MEDITAR

“A prática do amor e da compaixão nada tem que ver com implicações religiosas ou com o que quer que seja de sagrado. É uma questão de sobrevivência. A compaixão é o fator essencial” (Dalai Lama).

“Um ser espiritual irradia o amor em que vive e não busca doutrinar, convencer. Não é nada mais que um outro. Faz o que tem de fazer. É ele mesmo quase sem se dar conta [...] Pode-se falar dele, de seu comportamento, mas o que emana de sua pessoa é inexplicável, pertence ao que há de mais vivo, de mais estimulante. Ele é surpreendente, até mesmo ‘chocante’, mas esse choque é revelador de uma outra coisa que não pode ser explicada – ele está com Deus” (Françoise Dolto).



ORAR

Somos chamados a praticar boas obras e nos abstermos de atitudes ameaçadoras e da maledicência. Nossa oração só alcançará Deus quando o amor fraterno alcançar o próximo. Deus nos diz, “Estou aqui”, unicamente ao que responde, “Eis-me aqui”, quando alguém bate em sua porta. Basta de andarmos como cegos de um lado para o outro e irmos longe para acender uma luz e deixarmos os mais próximos às escuras. A Luz se oferece aos outros com modéstia e delicadeza e o Cristo sobre a cruz se manifesta na sua fraqueza para que aprendamos a falar da Cruz do Cristo em tom humilde e palavras sinceras. O evangelista revela que para sermos luz do mundo não devemos ter a pretensão de brilhar. Devemos esquecer a ilusão de dar a luz aos outros e desterrar a obscuridade e o caos que nos rodeiam com um pouco da loucura de Deus. O homo sapiens produziu e continua a produzir catástrofes em todos os níveis. É a hora de nos convertemos em homo demens e caminharmos no caminho do risco, do excesso e da provocação. O papa Francisco nos assegura: “No governo, a prudência é uma virtude, mas a audácia também é”. E o Papa exorta a sermos uma igreja que tropeça porque caminha em frente do que uma igreja que se acomoda e se resguarda de tudo e de todos. Pés parados não topam com nenhuma pedra. O mundo de hoje não necessita da beatice de olhos mortiços e pescoços pendurados, nem de intelectuais refinados, nem de doutores que prescrevem receitas, nem de lideranças vanguardistas. O mundo de hoje precisa de loucos, de artistas e de poetas. De homens e mulheres entusiasmados, cheios de Deus, capazes de realizar gestos insólitos e surpreendentes na sua fantasia; provocadores em sua liberdade para quem as bem-aventuranças são uma desconcertante sinfonia em que tudo será um milagre porque tudo será virado pelo avesso. Neste mundo de pactos medíocres, em que grassa uma subcultura política, social e religiosa, devemos fazer eco ao grito do escritor russo Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo!”. Sigamos os passos de São Francisco que se autonomeava o louco e o idiota de Deus e dessa maneira levava alegria a todos: de homo demens converteu-se em homo ludens. Na iconografia católica, o Menino Jesus no colo de Maria segura em suas mãos frágeis uma bola e esta bola é o mundo com o qual brinca o Menino. O nosso cristianismo está enfermo da sisudez e do escrúpulo; aprisionado a uma religiosidade supersticiosa pendurada em fetiches que materializam a nossa debilidade espiritual e a nossa fé infantilizada. Sem alegria, somos como “cegos conduzindo outros cegos” e cairemos todos num buraco (Mt 15, 14). Sem o sal que nos queima, perderemos o sabor e a chama amorosa da ternura que nos deve consumir, pois “todos vão ser salgados com o fogo” (Mc 9, 49). Se não nos tornarmos crianças lúdicas, se não nos convertermos em loucos, poetas, artistas e se não tivermos em nós o sal e o fogo, jamais conheceremos o gozo que invade todo o anúncio de Cristo. Está mais do que na hora de nos deixarmos seduzir pela loucura, pela alegria e pela ternura de Deus para que salgados pelo fogo do seu amor e da sua misericórdia não apodreçamos justapostos e isolados nas nossas falsas seguranças. Não podemos continuar cristãos decorativos, pois Deus não nos seduz quando nos é imposto nos nossos cérebros, mas quando possui, porque precisa, os nossos loucos corações.



CONTEMPLAR


Madona e o Menino Jesus segurando o globo (detalhe), Fra Angelico, 1433-35, Igreja e Convento de São Marco, Florença, Itália (Fonte: Nicolo Orsi Battaglini/Art Resource, New York, Estados Unidos).




segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O Caminho da Beleza 11 - Festa da Apresentação do Senhor

O Caminho da Beleza 11
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Festa da Apresentação do Senhor              02.02.2104
Ml 3, 1-4                  Hb 2, 14-18             Lc 2, 22-32



ESCUTAR

“Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros; e estará a postos, como para fazer derreter e purificar a prata: assim ele purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata, e eles poderão assim fazer oferendas justas ao Senhor” (Ml 3, 1-3).

 Pois, tendo ele próprio sofrido ao ser tentado, é capaz de socorrer os que agora sofrem a tentação” (Hb 2, 18).

“Foram também oferecer o sacrifício – um par de rolas ou dois pombinhos – , como está ordenado na lei do Senhor” (Lc 2 24).



MEDITAR

“Não há uma moral cristã. Há uma mística cristã. A imensa maioria dos cristãos não se apercebe disso [...] No Cristo, não há lei. No Cristo começa um regime novo, o regime da graça, que é o regime da liberdade, que é o regime do amor” (Maurice Zundel).

“Com Jesus, a justificação do desejo se transforma em amor. A ternura infinita do coração de Deus – falo evidentemente com palavras humanas – explodiu em nós. Seu filho, Jesus, assim nos mostrou e inicia quem o queira no desejo libertado pelo amor” (Françoise Dolto).



ORAR

Maria e José cumprem a Lei de Moisés: a que pariu deve ser purificada aos quarenta dias do nascimento do varão e o primogênito deve ser consagrado a Deus. Como não tinham dinheiro para comprar um cordeiro, foi colocado no altar a oferenda mínima prescrita aos mais pobres, dois pombos. A luz que Simeão vê não desce do alto e nem do monte Sinai, mas jorra intensamente do próprio Menino. É o prenúncio da Luz da Páscoa que não apaga da memória as trevas da Paixão, mas que as ilumina ao revelar que a loucura de Deus é mais sábia que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte que os homens”(1 Cor 1, 25). Na Cruz, Deus se desvela, infinitamente, mais forte que todos os seus inimigos. Bernardo de Claraval pregava: “O que é mais violento que o Amor e, no entanto, o que existe de menos violento? Qual é esta força tão violenta para alcançar a vitória e tão vencida para suportar a violência?” (Sermão 64 sobre o Cântico dos Cânticos). A comunidade eclesial deve estar segura de que tudo acontece por Ele, com Ele e Nele, pois “como Ele próprio sofreu a prova, pode ajudar os que são provados”. Esta é a festa da Luz que brota dos mais pequenos e simples, dos que vivem à margem da vida e que nós desviamos o olhar para não encontrá-los. Nosso coração continua nas sombras porque está fechado em si mesmo e sem saber que a luz do Cristo é de outra ordem. Ela vem da abertura absoluta do coração e de sua disponibilidade absoluta para servir. O papa Francisco dizia: “A paz não se vende e nem se compra. Ela é um dom de Deus. Um cristão, mesmo nas provas mais dolorosas, jamais perde a paz e a presença de Jesus” (Missa em Santa Marta, 04.04.2013). Na Igreja de Jesus, quando não vivemos para os outros, somos atormentados pelas falsas imagens que fazemos de Jesus Cristo para nos poupar dos encontros vitais com os diferentes de nós. Fechados sobre nós mesmos, encastelados nas instituições criadas por nós e para nós esvaziamos a força vital do Espírito e perdemos o dom de Deus. A eucaristia é o sacramento do dom para os outros e com os outros, pois não somos cristãos para salvar-nos a nós mesmos, caso assim fosse a Eucaristia seria uma atroz imitação e uma pérfida dissimulação. Hoje é a festa da Luz que brota no mais íntimo dos menores e dos bem-aventurados do Reino, pois Jesus disse: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a Mim que o fizestes” (Mt 25, 40). Meditemos as palavras do Papa Francisco: “O Senhor que viveu humildemente nos ensina que nem tudo é mágica em nossa vida e que o triunfalismo não é cristão. A justa atitude do cristão é perseverar no caminho do Senhor, até o fim, todos os dias. Eu não digo recomeçar de novo todos os dias: não, perseguir o caminho, um caminho com dificuldades, mas com tantas alegrias. O caminho do Senhor” (Santa Marta, 12.04.2013).



CONTEMPLAR


A Circuncisão no Estábulo, Rembrandt van Rijn, 1654, gravura sobre papel, 15.9 x 22.9 cm, The National Gallery of Art, Washington, D. C., Widener Collection, Estados Unidos.




segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Caminho da Beleza 10 - III Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 10
Leituras para a travessia da vida

“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



III Domingo do Tempo Comum                   26.01.2014
Is 8, 23- 9, 3                       1 Cor 1, 10-13.17               Mt 4, 12-23



ESCUTAR

 “No tempo passado, o Senhor humilhou a terra de Zabulon e a terra de Neftali; mas recentemente cobriu de glória o caminho do mar, do além-Jordão e da Galileia das nações” (Is 8, 23).

“Irmãos, eu vos exorto, pelo nome do Senhor nosso, Jesus Cristo, a que sejais todos concordes uns com o os outros e não admitais divisões entre vós” (1 Cor 1, 10).

“Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4, 19).



MEDITAR

“Não existe absolutamente um mal sequer do qual não nasça um bem” (Voltaire).

“A amizade não tem sentido a não ser quando está pronta a se provar por um sacrifício” (Sully Prudhomme).



ORAR

Mesmo que não saibamos no mapa geográfico onde se encontra a terra de Zabulon, de Neftali, o rio Jordão, Madian e o lago da Galileia, o mais importante é saber onde nós nos encontramos. O essencial é olhar na direção precisa para captar a ocasião de luz, de alegria e de libertação que nos é oferecida. Sete séculos antes de Cristo, duas tribos de Israel – Zabulon e Neftali – foram deportadas para Assíria. Esta região ficou conhecida como “Galileia dos pagãos”. Jesus é oriundo desta região, meio judia e meio pagã e o profeta nos lembra que seu povo “habitava nas sombras da morte”. Esta Galileia era uma terra sob o poder do imperialismo romano e este poder faz parte da escuridão e da sombra da morte. Jesus é a luz que irrompe desta escuridão para anunciar o Reino de Deus. O Evangelho revela que Jesus não quer agir sozinho e busca simples pescadores para serem seus companheiros. Jesus vai para Cafarnaum, um pequeno povoado agrícola e pesqueiro. Jesus não vai para as cidades maiores nem para o centro do poder político, econômico, social, cultural e religioso. Jesus e seus discípulos nunca se tornaram uma casta separada e diferenciada do povo. Jesus testemunhava que o anúncio do Reino acontece quando o encontro fraterno supera todas as diferenças e divisões. Paulo enfrenta o exibicionismo dos que andavam pelas cidades: “Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar a boa nova da salvação, sem me valer dos recursos da oratória, para não privar a cruz de Cristo da sua força própria”. Temos que enfrentar todas as formas de uma religião do entretenimento que oferece o sucesso pessoal, sem sofrimento, risco e afasta para longe o kerigma que deve ser anunciado: Cristo morto e ressuscitado. Não podemos anular a Cruz do Cristo que une todos os homens e mulheres. Aniquilar as divisões é a tarefa mais desafiadora e vital dos cristãos. Seguir o Cristo Morto e Ressuscitado é seguir um caminho que pode nos levar à Cruz como expressão máxima da nossa doação pela unidade no amor. Se nesta travessia reinarem a divisão e a discórdia, a Cruz do Cristo perderá a sua força e a tornaremos, por nosso amor e indiferença, absolutamente inválida e seremos, para todo o sempre, réus do Corpo e do Sangue do Cristo.



CONTEMPLAR


A pesca miraculosa de peixes, Raffaello Sanzio, 1515, têmpera sobre papel montado sobre tela, 360 x 400 cm, Victoria e Albert Museum, Londres, Reino Unido.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Caminho da Beleza 09 - II Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 09
Leituras para a travessia da vida

“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



II Domingo do Tempo Comum                     19.01.2014
Is 49, 3.5-6             1 Cor 1, 1-3              Jo 1, 29-34


ESCUTAR

“Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49, 6).

“Para vós graça e paz da parte de Deus, nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 1, 2).

“Eu vi o Espírito descer, como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele” (Jo 1, 32).


MEDITAR

“Eu quero falar de Deus não nos limites, mas no centro, não nas fraquezas, mas sim na força, portanto não na morte e no pecado, mas na vida e no bom do ser humano” (Dietrich Bonhoeffer, prisão de Tegel, 1944).

“Deus não presta atenção nem precisa de vigílias, jejum, oração e todas as formas de mortificação em contraste com o repouso. Deus não precisa nada mais do que nós oferecermos a ele um coração tranquilo” (Mestre Eckhart).


ORAR

As leituras de hoje nos falam do acesso ao desconhecido. O Cristo anunciado pelo profeta transcende a dimensão de servo: “Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra”. A palavra de Deus diz sempre mais do que quem a diz. Temos que passar do conhecido de ontem ao desconhecido de hoje. Não podemos nos reduzir às homenagens aos profetas do passado, mas tornar atuais as suas profecias ao ler os sinais dos tempos. Aceitar a palavra de Deus significa romper a crosta dos nossos hábitos e costumes e ir mais além do nosso horizonte doméstico. Somos fiéis à Palavra de Deus na medida em que valorizamos o seu alcance profético e não a prendemos com grilhões e nem a mumificamos com o bálsamo das nossas experiências passadas. Devemos nos deixar provocar pelo que ainda não conhecemos e irmos até o limite do que nunca terminaremos de explorar. O batismo de Jesus, por uma figura marginal em um lugar marginal, cumpre toda a justiça ao revelar que o Senhor escolhera Jesus, o Filho Amado, para realizar um reino justo e libertador, diante da oposição dos que estão apenas preocupados em manter tudo como está. O evangelista proclama: “Eu não o conhecia” e nos faz conhecê-Lo como Desconhecido. O Cristo permanece desconhecido, pois revestido do Espírito de Liberdade, não se deixa aprisionar pela miopia das igrejas e nem se reduzir a conceitos que servem mais para dividir o Povo de Deus do que uni-lo num só corpo e num só Espírito. A comunidade eclesial deve alimentar o gosto pelo desconhecido e por tudo que ainda devemos e poderemos descobrir. É necessário nos converter do Jesus conhecido das nossas devoções, das práticas costumeiras e consumido pelas nossas estruturas, para um Cristo Desconhecido que somente se encontra quando rompemos a prisão confortável das nossas certezas e falsas seguranças, das nossas idolatrias fossilizadas que nos trazem a tranquilidade enganosa dos pântanos e nos sepultam na paz dissimulada dos cemitérios. Meditemos as palavras do papa Bento XVI: “Se, em definitivo, o meu bem estar, e a minha incolumidade é mais importante do que a verdade e a justiça, então vigora o domínio do mais forte; então reinam a violência e a mentira. Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes são elementos fundamentais de humanidade e o seu abandono destruiria o mesmo homem” (Spe Salvi 39).


CONTEMPLAR


Cordeiro de Deus, Alessandra Caprara e Helen McLean, 2000, mosaico, Igreja da Transfiguração, Orleans, Massachusetts, Estados Unidos.



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O Caminho da Beleza 08 - Batismo do Senhor

O Caminho da Beleza 08
Leituras para a travessia da vida

“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Batismo do Senhor                    12.01.2014
Is 42, 1-4.6-7                      At 10, 34-38                       Mt 3, 13-17


ESCUTAR

 “Assim fala o Senhor: ‘Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minha alma; pus o meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações’” (Is 42, 1).

“De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34-35).

“Mas João protestou, dizendo: Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim” (Mt 2, 14).


MEDITAR

“A vida não é um sonho, um plano do homem; ela é um consentimento. Deus nos guia pelos fatos: cabe a nós dizer sim ou não” (Abbé Pierre).

“Eu tenho o sentimento de me banhar em Deus como uma gota no oceano, como uma estrela na obscuridade da noite, como um pássaro no sol do verão, como um peixe na água. Mais ainda: eu me sinto em Deus como uma criança no seio de sua mãe; seu ser que me envolve com amor marca os limites da minha própria liberdade” (Carlo Carretto).


ORAR

No batismo do Senhor há nova epifania, uma nova proposta de luz, um novo convite para abrir os olhos. As manifestações do Senhor continuam. O batismo de Jesus se emoldura no quadro do relato do profeta e o Espírito acompanha e sustenta o Servo na sua empreitada. Jesus tem como missão manifestar o desígnio de Deus de que a justiça e o amor vão além das fronteiras de Israel. Esta empreitada não se realiza com as armas da força, do poder, das ameaças, dos medos e dos castigos, mas com a humildade, doçura, mansidão e compreensão. O Servo anuncia o perdão e a misericórdia e por isto não tem necessidade de gritar e nem de clamar. Cristo proclama que veio salvar o que estava perdido e por isto e para isto pousa sobre Ele a palavra solene do Pai: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”. O teólogo dominicano Schillebeeckx afirma: “A luz de Deus parece que só pode queimar na terra como azeite de nossas vidas. Sobretudo com o azeite da justiça e do amor”. Ser discípulo não significa desempenhar o papel de mestres que querem doutrinar os outros, mas apresentar-se como simples alunos na espera impaciente de ser ensinados por Deus, por sua Palavra, pela história e pelos outros homens e mulheres. Se quisermos encontrar um cristão, precisamos entrar na casa de outras pessoas diferentes de nós.


CONTEMPLAR


Nós somos batizados em Jesus Cristo, somos batizados em sua morte, Georges Rouault, 1945, prancha 30 da série Miserere, gravura em metal, 552 x 424 mm, Fundação Georges Rouault, Paris, França.



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Caminho da Beleza 07 - Epifania do Senhor

O Caminho da Beleza 07
Leituras para a travessia da vida


“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Epifania do Senhor                   05.01.2014
Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3- 3.5-6                  Mt 2, 1-12


ESCUTAR

 “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados a mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 6).

“O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém” (Mt 2, 3).


MEDITAR

“A Igreja Católica exorta seus filhos ao diálogo e à colaboração com os seguidores das outras religiões, para que dêem o testemunho da fé e da vida cristã, reconhecendo, servindo e promovendo os bens espirituais e morais assim como os valores socioculturais presentes nelas” (Nostra aetate, 2).

“Temos de renunciar ao cristianismo, se nos obrigarem a renunciar a essas dialéticas esquartejantes dos sentimentos cristãos, reduzindo-as à escala das sentimentalidades cômodas. Temos que romper a puerilidade de um cristianismo que produz homens delicados e frágeis que nunca avançam para uma fé comprometida, pois ‘vivem tremendo e murados em suas defesas’” (Emmanuel Mounier).


ORAR

Hoje é a festa da luz porque a manifestação do Senhor, a sua epifania, é inseparável da luz. Quando o Senhor se manifesta, existem os que ao responder se colocam em caminho e buscam. Há outros, porém, que se escondem e dissimulam as suas vidas e os seus encontros. Os magos foram tomados de uma imensa alegria enquanto Herodes ficou perturbado assim como a Jerusalém do poder e do saber. Os sumos sacerdotes e os escribas foram convocados para uma reunião de emergência e nela manifestam a sua inquietude e desconfiança. É significativo que a aparição da “bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4) suscite perturbação nos que detêm o poder civil e religioso. A presença de Deus que se manifesta na fraqueza surge como um perigo e uma ameaça para a ordem estabelecida e para as posições consolidadas. O Cristo constitui uma ameaça para o nosso reino privado ao colocar em xeque nossos equilíbrios cansados e nossas falsas seguranças. O Papa Francisco afirma: “Preferem uma vida enjaulada em seus preceitos, em seus compromissos, em seus planos revolucionários ou em sua espiritualidade desencarnada” (Homilia 20.12.2013). O cristão lúcido sabe que é melhor a perturbação do que a indiferença; é melhor a hostilidade do que a neutralidade; é melhor a recusa do que a ambiguidade. O cristão sabe que é necessário um coração para assombrar-se e alargar-se. O profeta desvela a expansão da luz e a sua alegria contagiosa. O evangelista, por sua vez, dá a conhecer o medo dos sábios cuja busca finda em suas bibliotecas palacianas, no meio dos pergaminhos cobertos de pó nos quais procuram sentenças definitivas. O caminho, com as suas imprevisibilidades e surpresas, não é o seu assunto. O coração dos magos é o coração dos que buscam, apaixonadamente, abrigar o mistério. O coração dos detentores do poder é árido, mesquinho e intolerante. Os magos nos revelam que entre o relâmpago do surgimento da estrela e o seu acompanhamento até o último trecho do caminho seremos assomados por dúvidas, cansaços, perdas e desilusões, mas, sobretudo, por esperanças. A estrela surge como uma chispa de fogo, acende o desejo e só volta a brilhar intensa e permanentemente no final quando o encontro se realiza. A busca não é nunca uma marcha triunfal: implica numerosas partidas e recomeços e não devemos dela esperar manifestações espetaculares. O que conta é a perseverança: a capacidade de não desertar, de não ceder ao desalento, de não se desviar para cômodos refúgios e nem se contentar com conquistas provisórias; a obstinação para caminhar quando tudo parece inútil, absurdo e impossível. E o que mais conta ainda é o discernimento de que para adorar a Deus é preciso nos deter diante do mistério do mundo e saber olhá-lo com amor. Quem olha a vida amorosamente começará a vislumbrar as vibrações de Deus antes mesmo de ser envolvido por elas.


CONTEMPLAR


O Retorno dos Magos, Giovanni da Modena, c. 1412, afresco, Basílica de São Petronio, Bolonha, Itália.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família


O Caminho da Beleza 06
Leituras para a travessia da vida

 
“O conceito de sabedoria é aquele que reúne harmonicamente diversos aspectos: conhecimento, amor, contemplação do belo e, também, ao mesmo tempo, uma ‘comunhão com a verdade’ e uma ‘verdade que cria comunhão’, ‘uma beleza que atrai e apaixona’” (Francisco).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

 

Sagrada Família de Jesus, Maria e José             29.12.2013
Eclo 3, 3-7.14-17              Cl 3, 12-21               Mt 2, 13-15.19-23

 

ESCUTAR

 
“Quem honra o seu pai alcança o perdão dos pecados... quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros” (Eclo 3, 4).

 
“Vós sois amados por Deus, pois sois os seus santos eleitos” (Cl 3, 12).

 
“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2, 14).

 


MEDITAR

 
“Ele armou sua tenda entre nós e nos revelou que o amor não conhece limites nem definições restritivas; ele leva aquele que ama ao ponto de desistir da própria vida pelo bem dos outros. Ele vai acima e além da linha do dever. É claro, isto é extravagante e absurdo, mas o Reino de Deus é para as aventuras da fé. Não é uma recompensa para a mediocridade” (Manos da Terna Solidão).

 
“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos (Francisco, Evangelii Gaudium).

 

 

ORAR

 

Jesus viveu uma vida familiar durante trinta anos em Nazaré. Não são anos obscuros, mas vibrantes nos seus gestos, palavras e costumes porque são a irradiação do eterno, sacramentos do divino e sinal resplandecente do Deus-Conosco. Jesus foi educado numa família comum, revelou o rosto do Pai no marco modesto de sua casa, o santuário em que permaneceu mais tempo. A casa de Nazaré não é, simplesmente, a sala de espera antes da sua partida para o testemunho público e o anúncio da Boa Nova. A família de Nazaré é o lugar do encontro com os homens e mulheres do seu tempo, da sua mensagem universal de amor, da sua palavra silenciosa e da transfiguração do humano. A sua casa de Nazaré foi o seu primeiro lugar de oração. Jesus nunca deixou para os seus as migalhas da sua atenção ainda que soubesse que o profeta nunca é bem recebido em sua casa e ainda que muitos dos seus parentes O considerassem como louco. Jesus não lhes foi indiferente, nem se irritou e nem se deixou dominar pela impaciência. Testemunhava que não poderia haver amor se não houvesse uma acolhida incondicional. A festa da Sagrada Família é a festa da liturgia do cotidiano feita de hospitalidade recíproca, pequenos gestos, palavras simples, carícias distribuídas sobre as pequenas feridas do outro, ternura manifestada sem falsos pudores e gratidão pela presença samaritana dos que estão perto de nós. Devemos ser uma comunidade familiar, uma Igreja doméstica profundamente unida porque nos alicerçamos sobre a adesão comum e incondicional aos desígnios de Deus.

 

 
CONTEMPLAR

 
Numa aldeia na fronteira com o Sudão, Sebastião Salgado, 1985, foto, Chade, África.