segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Caminho da Beleza 36 - XVII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 36
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XVII Domingo do Tempo Comum              28.07.2013
Gn 18, 20-32                     Cl 2, 12-14               Lc 11, 1-13


ESCUTAR

“Estou sendo atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gn 18, 27).

“Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos” (Cl 2, 12).

“Portanto, eu vos digo, pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. Pois quem pede recebe; quem procura encontra; e, para quem bate, se abrirá” (Lc 11, 9-10).


MEDITAR

 “Não era o ar movido pela voz que chegava aos ouvidos do profeta, mas Deus que falava em seu íntimo” (São Jerônimo, comentando a sabedoria do profeta Isaías).

A oração é o secreto absoluto. É totalmente oposta à publicidade. Quem ora já não conhece a si mesmo, mas somente a Deus a quem invoca (Dietrich Bonhoeffer).


ORAR

Duas cenas ficam gravadas na memória: a estupenda negociação entre Abraão e Deus e o colóquio noturno entre o indivíduo inoportuno e o amigo despertado de sobressalto à meia noite. Uma oração de intercessão e a outra de petição e ambas sob o signo da insistência, da coragem, da confiança e, inclusive, do enfrentamento. Ambas são escutadas. Até então, as culpas de um ou de poucos eram pagas por toda a coletividade e agora Abraão se bate com humildade, mas com decisão, para que a inocência de uma minoria seja motivo de perdão para todos os outros pecadores. Abraão descobre que no Senhor encontra-se uma justiça disposta a dar espaço ao perdão e que, em Deus, a vontade de salvar prevalece sobre a de castigar. No Evangelho, a oração é um apelo não ao juiz da terra, mas a um Deus que é Pai. Cristo autoriza a nos dirigirmos a Deus como Pai, esta palavra-chave que abre de par em par todas as portas, inclusive as mais inacessíveis e legitima as aspirações as mais impossíveis. Não se trata de colocar na balança o peso dos justos, mas a nossa condição de filhos e filhas. Podemos pedir ousadamente e, ao mesmo tempo, neste pedido nos comprometemos. No Pai Nosso escutamos o que Deus espera de nós, ou seja, exatamente as mesmas coisas que pedimos a Ele. O Pai nos escuta, mas não nos tempos e nos modos fixados por nós. Podemos estar seguros que “o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem” e o Espírito Santo é o princípio da liberdade e da imprevisibilidade. O Pai nos escuta, certamente, mas do seu modo que é a generosidade infinita de um pai e não do nosso modo que é sempre redutivo e restritivo. Nós cristãos, devemos preferir sempre um Deus que nos surpreenda a um Deus que nos satisfaça e contente, pois devemos confiar mais em suas respostas do que em nossas perguntas, mais nos seus dons do que em nossos pedidos. A oração ensinada por Jesus deve nos conduzir a um silêncio de escuta do nosso ser que vibra em sintonia com a humildade da entrega – “Seja feita a tua vontade”, e com a permanente insistência – “Mas livrai-nos do Mal”.


CONTEMPLAR

Be (ser), Barbara Kruger, 1985, foto-litografia offset e serigrafia em folha de papel, 52.0 x 52.0 cm, Newark, New Jersey, Estados Unidos.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Caminho da Beleza 35 - XVI Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 35
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

XVI Domingo do Tempo Comum                21.07.2013
Gn 18, 1-10             Cl 1, 24-28              Lc 10, 38-42


ESCUTAR

Voltarei, sem falta, no ano que vem, por este tempo, e Sara, tua mulher, já terá um filho” (Gn 18, 10).


“Alegro-me de tudo o que já sofri por vós e procuro completar na minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja” (Cl 1, 24).

“Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 41).


MEDITAR

“Muitos homens religiosos, à força de observâncias e renúncias, se tornam duros de coração. Porque se tratam de observâncias e renúncias que apontam justamente ao coração. E em lugar de fazê-lo bondoso, o endurecem, o secam e o fazem indiferente ao que passa na vida” (José M. Castillo).

“Mesmo nos momentos mais trágicos, o cristão não tem outro direito senão o de criar alegria. Dele é exigida permanentemente a arte de transfigurar as horas mortas, as ações medíocres, a monotonia cotidiana. Seu dever é resgatar toda a sua participação na náusea do mundo” (Emmanuel Mounier).

ORAR


A hospitalidade é um dos sinais de fidelidade ao mandamento do amor sem fronteiras. Aquele-que-chega é sempre uma presença misteriosa e pode mudar, radicalmente, a nossa vida. A hospitalidade verdadeira é sempre acompanhada com frutos de fecundidade, basta escutarmos o que o hóspede tem a nos dizer. A hospitalidade cristã tem sua expressão mais no mistério eucarístico: os que recebem o pão divino descobrem que, na realidade, são recebidos pela Trindade amorosa que neles faz a sua morada. A hospitalidade rompe o anonimato e o isolamento, pois nela somos e existimos para alguém e para uma comunidade. A palavra de Jesus é dada gratuitamente desde que estejamos disponíveis para escutá-la e cumpri-la. Escutar a palavra de Jesus é acolher a mensagem de envio para o serviço ao outro. O evangelista mostra Jesus soberano na sua liberdade ao abolir a exclusão sócio-religiosa e ser recebido na casa de duas mulheres. Marta fica atribulada em hospedar o Mestre que sempre chegava sem aviso prévio e acompanhado de muita gente. Maria, no entanto, transgride duplamente: primeiro, deixa de lado o papel tradicional da mulher ao não ajudar a sua irmã na acolhida aos hóspedes; segundo, senta-se aos pés de Jesus, como os discípulos sentavam-se, nos banquetes, aos pés de seus mestres. O erro de Marta é um erro de perspectiva. O de não entender que a chegada do Cristo significa, principalmente, a grande ocasião que não se pode perder e, consequentemente, a necessidade de sacrificar o importante pelo urgente. Devemos sempre nos perguntar quem está no centro da casa: o Senhor ou Marta. Ao nos dedicarmos às coisas do Senhor, esquecemos da acolhida profunda e silenciosa da sua palavra, como fez Marta, que viu a si mesma. Mestre Eckhart escrevia: “Quanto menos alguém procurar a si mesmo no ser amado tanto mais o prazer de se unir a ele”. O afã cotidiano deste mundo pode abafar a escuta e nos fazer sucumbir nas preocupações diárias. E Jesus alerta: “A cada dia basta a sua preocupação”. A hospitalidade nos conduz às aragens do sagrado, pois “graças à hospitalidade alguns, sem o saber, acolheram anjos” (Hb 13, 2). A hospitalidade nos liberta do narcisismo, de olharmos somente para nós, pois quanto mais temos necessidade de espelhos tanto mais Deus passa a vida a quebrá-los.


CONTEMPLAR

Santa Trindade (A Hospitalidade de Abraão), anônimo, ícone de meados do século XVI, escola de Novgorod, Rússia.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Caminho da Beleza 34 - XV Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 34
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XV Domingo do Tempo Comum                  14.07.2013
Dt 30, 10-14                       Cl 1, 15-20               Lc 10, 25-37


ESCUTAR

“Esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possas cumprir” (Dt 30, 14).

“Deus quis habitar Nele com toda a sua plenitude e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz” (Cl 1, 19-20).

“Vai e faze a mesma coisa!” (Lc 10, 37).


MEDITAR

“Sem Cristo não conheceríamos Deus, não poderíamos invocá-lo nem vir a ele. Sem Cristo também não conheceríamos o irmão nem poderíamos encontrá-lo. O caminho está bloqueado pelo próprio eu. Cristo desobstruiu o caminho que leva a Deus e ao irmão” (Dietrich Bonhoeffer).

“Isso é a experiência religiosa: o estupor de encontrar alguém que está nos esperando. A partir desse momento, para mim, Deus é o que está um passo à frente. Você o está buscando, mas ele o busca primeiro. Queremos encontrá-lo, mas ele nos encontra primeiro” (Papa Francisco).


ORAR

Cristo é o revelador do rosto escondido, inacessível do Senhor e do seu desígnio de amor para a humanidade. Este desígnio permanece fechado para duas categorias de pessoas: os doutos que se limitam a um conhecimento intelectual e os justos praticantes que demonstram sua incapacidade de reconhecer o próximo ao se deparar com ele. O doutor da Lei é um pedante: pretende discutir, justificar seu próprio saber diante de Jesus, definir o conceito exato de próximo e determinar com precisão os limites do amor. Jesus não entra nesta armadilha ardilosa e nem se deixa enredar num debate interminável, apenas aponta ao interlocutor que lhe falta traduzir o saber em fazer, pois dois verbos faltam em seu vocabulário: ir e fazer. Na parábola tanto o sacerdote como o levita viram o homem caído e seguiram “adiante pelo outro lado”. Os dois especialistas da religião pretendiam atingir a Deus e, por esta razão, passaram ao largo do outro, que necessitava de auxílio, pois para eles era um obstáculo que os impediria de chegar mais rápido a Deus. O sacerdote, para realizar o seu programa religioso, não admite correr o risco de se atrasar caso fosse atender às necessidades do homem espancado e quase morto. Seu itinerário espiritual não tolera atrasos, desvios, distrações e imprevistos. Seus deveres legais são mais importantes que o coração, a humanidade e a ternura. Não podemos nos enredar na cilada da grande ilusão: a de que podemos chegar a Deus passando ao largo, por cima do próximo, e de que podemos encontrar a Deus sem ter necessidade de encontrar o irmão. Não podemos nos ocupar das coisas de Deus sem nos darmos conta de que o que interessa a Ele são as necessidades dos homens e mulheres, seus filhos e filhas. Jesus é incisivo ao revelar que não existe nenhum “outro lado” do caminho que possa conduzir a Deus. O sacerdote e o levita chegaram sem obstáculos até o final da estrada, mas faltaram ao encontro. O samaritano não deu mais do que dois passos, mas na direção exata e encontrou Deus.  Amar o próximo é amar o Deus que existe nele e o papa Bento XVI nos exorta: “Amor a Deus e amor ao próximo se fundem entre si: no mais humilde e pequenino encontramos o próprio Jesus e em Jesus encontramos Deus” (Deus Caritas Est, 5). Com todos os riscos possíveis devemos sempre nos indagar: “O que acontecerá a este homem se eu não parar para ajudá-lo?”. As estradas da vida são malditas não somente porque escondem bandidos, corruptos, mentirosos e hipócritas. As estradas da nossa vida serão malditas quando revelarem a ausência de amor que é o nome da indiferença. Que não sejamos nem como o sacerdote e nem como o levita, mas sobretudo que não sejamos os assaltantes que aviltam a dignidade humana em nome do seu poder civil e religioso e cujas vidas são um constante escarro na face de Deus.


CONTEMPLAR

O Bom Samaritano, Cláudio Pastro, in: Parábolas, São Paulo, Paulinas, Brasil, 2002.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Caminho da Beleza 33 - XIV Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 33
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XIV Domingo do Tempo Comum              07.07.2013
Is 66, 10-14                        Gl 6, 14-18                          Lc 10, 1-12


ESCUTAR

“Sereis amamentados, carregados ao colo e acariciados sobre os joelhos. Como uma mãe que acaricia o filho, assim eu vos consolarei; e sereis consolados em Jerusalém” (Is 66, 12-13).

“Pois nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor; o que conta é a criação nova” (Gl 6, 15).

“O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir” (Lc 10, 1).


MEDITAR

Vocatus atque non vocatus, Deus aderit [Chamado ou não chamado, Deus estará presente] (Frase na porta de entrada da casa de Carl Jung).

Há espaço para tudo numa única vida. Para acreditar em Deus e para um fim miserável... é uma questão de se viver a vida de minuto a minuto, acolhendo, além disso, o sofrimento (Etty Hillesum, Diários 1941-42).


ORAR

Não há vocação sem missão, pois a vocação está em razão da missão: aquele que é chamado é sempre enviado. A missão diz respeito a todos e não somente a alguns especialistas: toda a comunidade eclesial é missionária e todos os batizados são responsáveis pelo anúncio da Boa Nova. Neste anúncio existe uma palavra de alegria e de paz e no outro extremo está a Cruz de Cristo. Os que sofrem recebem as consolações maternais de Deus. A participação no mistério pascal evita que o cristão ceda ao triunfalismo ou ao desânimo diante dos fracassos. A fecundidade da Palavra não se verifica nem pelo êxito nem pelo fracasso, mas por germinar e crescer no terreno árido do Calvário. Em sua primeira homilia como papa, criticando as benesses e o carreirismo na Igreja, Francisco nos adverte: “Quando caminhamos sem a Cruz, quando edificamos sem a Cruz e quando confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos Bispos, Padres, Cardeais, Papas, mas não discípulos do Senhor” (14.03.2013). A fonte da missão está na oração e não num projeto humano, pois a missão é graça e dom e nenhum apóstolo é forjado em laboratórios especializados. O vínculo pessoal com o Cristo é vital, pois sem a oração a missão se converte em profissão. O teólogo Urs von Balthasar escrevia: “Uma coisa é certa: ninguém pode se entregar ao amor de Deus por decepção de um amor humano. Não se pode, por não se amar ninguém e nem a nada, acreditar que se ama a Deus”. A missão está sob o signo da fraqueza, da mansidão e de uma entrega sem reservas e sem pretensões. A única força do cristão é uma palavra que pode ser recusada, burlada e hostilizada e se ela não estiver penetrada pelo amor de Cristo, a missão se transforma em conquista. A missão é marcada pela pobreza e pela gentileza: “Não deixeis de saudar ninguém pelo caminho”. O apóstolo sabe que o evangelho não passa por meio das reverências sociais, sorrisos formais e discursos de circunstâncias. É preciso sacudir o pó dos aplausos, dos entusiasmos emotivos, das adesões de conveniência para que surja a essência do Evangelho. Se a missão não assume este estilo de pobreza se transforma em empresa, propaganda e espetáculo. Nestes tempos ardilosos de sucesso e eficácia, não devemos nos preocupar com o êxito da nossa missão, pois Jesus nos preveniu que o sucesso não está incluído nela: “Sereis expulsos da sinagoga. Chegará um tempo quando quem vos matar pensará oferecer um culto a Deus” (Jo 16, 2).


CONTEMPLAR

Os frutos, Patrice Delaby, 2012, óleo sobre tela, Pas-de-Calais, França.



segunda-feira, 24 de junho de 2013

O Caminho da Beleza 32 - Festa de São Pedro e São Paulo


O Caminho da Beleza 32
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Festa de São Pedro e São Paulo                   30.06.2013
At 12, 1-11                2 Tm 4, 6-8.17-18                        Mt 16, 13-19

ESCUTAR

“O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: ‘Levanta-te depressa!’ As correntes caíram-lhe das mãos.”(At 12, 7).

“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça” (2 Tm 4, 7).

“Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16, 18).

MEDITAR

“Cada um de nós pode comunicar uma luz infinita, cada um de nós é chamado a ser uma fonte de luz, cada um de nós pode iluminar o dia, trazer a vida e ser uma manifestação da Presença infinita” (Maurice Zundel).

“O Abbá Poemem dizia: há duas coisas que um monge deveria destestar acima de tudo, porque, o fazendo, ele pode se tornar livre neste mundo. Um irmão perguntou: ‘Quais são essas coisas?’. O Ancião respondeu: ‘A vida fácil e a glória vã’.” (Apophtegma dos Padres do Deserto).

ORAR

Nesta festa de Pedro e Paulo somos chamados a perseverar apesar das calúnias, deslealdades e covardias. A comunidade nascente esteve ameaçada tanto pela covarde negação de Pedro que era Simão, quanto pela odiosa perseguição de Saulo que se tornaria Paulo. O evangelho atualiza o profeta Isaías ao comparar Pedro com Eliachim, o mordomo do palácio de Davi: “Eu lhe porei no ombro a chave do palácio de Davi: o que ele abrir ninguém fechará, o que ele fechar ninguém abrirá” (Is 22, 22). Pedro recebe a ordem de amar mais do que todos e com um amor incondicional e de serviço aos hóspedes do seu Senhor. Os que conduzem a Igreja devem seguir a Jesus e não O precederem, pois somente Ele nos mostra o caminho e nos diz: “Segue-me!”. A profissão de fé de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” constitui a proclamação que a Igreja recebeu e que deve transmitir. A Boa nova do Cristo é uma maravilha nascida não de uma ilusão, mas do dom divino da Revelação: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. Pedro é proclamado por Jesus como pedra da Igreja e o símbolo da pedra pertence à esfera da estabilidade e da solidez. A rocha no Antigo Testamento expressa a segurança de Deus e um refúgio inexpugnável: “Deus meu, rocha minha em que me refugio” (Sl 18, 3). A vida dedicada ao agir cristão é o sinal do verdadeiro apóstolo. É uma consagração que transforma homens e mulheres em fermento, luz e um instante de eternidade no interior da resistência do tempo e da finitude. Esta consagração profunda e existencial conhece o sacrifício e a dor, mas produz sempre uma beatitude e uma alegria porque “a tristeza entrou no mundo com Satanás” (Bernanos). Pedro e Paulo viveram esta experiência de dor e de alegria e são, desde então, o testemunho vivo da alegria e da fé. A comunidade eclesial deve confiar no primado da promessa do Senhor de que o poder do inferno nunca poderá vencer, pois o amor de Deus irrompe sem cessar nas igrejas unidas pelo amor fraterno, conduzidas pelo Espírito e a sua paternidade se revela no pastoreio do seu povo por meio do coração dos seus pastores escolhidos para velar pelo seu rebanho. O papa Francisco nos alerta contra a vaidade que nos faz pensar que somos “o prêmio Nobel da santidade” e nos lembra de que fomos tirados do final do rebanho. Esta memória devemos trazê-la alicerçada nas nossas vidas porque “quando um cristão não tem memória – é duro isso, mas é a verdade – não é cristão: é idólatra. Porque está na frente de um Deus que não tem caminho, não sabe fazer caminhos e o nosso Deus nos acompanha, se mescla conosco, caminha conosco, nos salva, faz história conosco”(Homilia de Francisco na Casa Santa Marta, 13.05.2013). Sejamos pedros e paulos – mordomos, pastores e apóstolos – com todas as nossas fragilidades humanas que são sustentadas pela misericórdia do Senhor, pois “a escola da fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho salpicado de sofrimento e de amor, de provas e de uma fidelidade que deve se renovar todos os dias” (Papa Bento XVI, Audiência de 24.05.2006).

CONTEMPLAR

A Conversão de São Paulo, anônimo, French Master, c. 1200, miniatura em pergaminho, imagem bíblica com miniaturas do noroeste da França, manuscrito “Den Haag, KB, 76 F 5”, Museum Meermanno and Koninklijke Bibliotheek, Haia, Holanda.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O Caminho da Beleza 31 - XII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 31
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


 XII Domingo do Tempo Comum                             23.06.2013
Zc 12, 10-11; 13, 1             Gl 3, 26-29             Lc 9, 18-24


ESCUTAR

“Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de oração; eles olharão para mim”(Zc 12, 10).

“O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Jesus Cristo” (Gl 3, 28).

“Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9, 24).

MEDITAR

“Não é o heroísmo que será enaltecido, mas a oferenda obscura e aparentemente inútil de uma vida que não é senão o amor, sinal do amor de Deus em meio ao inferno que os homens, às vezes, sabem organizar” (Jean-Marie Lustiger, Cardeal Arcebispo de Paris, 1981-2005).

“Peço a Deus que te esteja sempre presente. A todo instante. E que te ensine a gozares do Amor. Isto é de te deixares amar. Porque não sabemos como nos abrir às ternuras divinas.... e só Ele nos pode ensinar isso” (Madre Belém).


ORAR

Quando o evangelista Lucas apresenta Jesus “rezando num lugar retirado” é para que saibamos que a oração sempre prepara e antecede algo decisivo nas nossas vidas. Ao ouvir a resposta de Pedro de que Ele era o Cristo de Deus, Jesus anuncia a própria paixão iminente, a sua morte e ressurreição. Tudo isto constituirá um motivo de escândalo e por esta mesma razão Jesus “proíbe severamente que contassem isso a alguém”. O sentido do caminho não é triunfal uma vez que passa pela proscrição dos três poderes constituídos e aliados entre si: o civil-econômico, o religioso e o teológico-cultural. Devemos aceitar, como cristãos, este Seu estilo de perdedor para que possamos afirmar quem é o Messias, pois como diz Paulo “a loucura de Deus é mais sábia que os homens, a fraqueza de Deus é mais forte que os homens” (1 Cor 1, 25). Somente se compreendermos que a Sua vida é uma vida dada pelos demais é que provaremos ter descoberto o segredo de Sua vinda no meio de nós. Para nós, cristãos, não basta definirmos corretamente quem é Jesus e muito menos aceitar a sua travessia pouco triunfal. É necessário ter a lucidez sobre as condições do seguimento a Jesus. “Quem quiser me seguir” significa que estamos todos no mesmo caminho e que não é uma decisão fácil, pois é necessária uma eleição existencial precisa, corajosa, lúcida e livre. O caminho de Jesus não é acompanhado de um cortejo imponente, mas implica na renúncia de si mesmo. A partir de então, o único sinal autêntico de reconhecimento do discípulo é o da Cruz. O seguidor do Cristo deve aprender a perder, pois a alternativa entre “salvar” e “perder” a sua vida é a alternativa entre a vontade de “levar vantagem” em seus interesses individuais e a disponibilidade de fazer da vida um dom, para gastá-la, como o Cristo, em favor dos outros. O cristão não é o herói do excepcional, do gesto heroico, porque o verdadeiro heroísmo é o servir aos outros por meio de uma fidelidade sofrida, silenciosa e cotidiana. Paulo nos faz saber que no povo de Deus são abolidas as diferenças religiosas, culturais e sociais. A condição de filhos elimina qualquer discriminação porque confere a todos um mesmo valor e uma idêntica dignidade. Para o Senhor, vale somente a pessoa que crê, que ama e que é capaz de levar a cruz com amor e entrega aos outros, pois este é o sinal do Filho e dos seus filhos e filhas que constituem as pedras vivas da sua Igreja.


CONTEMPLAR

A Crucifixão Branca, Marc Chagall, 1938, óleo sobre tela, 154 x 139 cm, Instituto de Arte, Chicago, Estados-Unidos.

domingo, 2 de junho de 2013

O Caminho da Beleza 30 - XI Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 30
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XI Domingo do Tempo Comum                   16.06.2013
2 Sm 12, 7-10.13               Gl 2, 16.19-21                    Lc 7, 36-8, 3


ESCUTAR

“Davi disse a Natã: ‘Pequei contra o Senhor’. Natã respondeu-lhe: ‘De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!’” (2 Sm 12, 13).

“Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou”(Gl 2, 20).

“Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor” (Lc 7, 47).

MEDITAR

“Não é a religiosidade o que faz a verdade ou a mentira de uma vida humana e sim a autenticidade dessa mesma vida” (Dom Pedro Casaldáliga).

“De onde vem que, embora afirmem conhecer a Deus, tantos cristãos vivem como se nunca o tivessem descoberto e permanecem sem misericórdia? Eles se dizem do Deus de Jesus Cristo e, no entanto, conservam um coração empedernido” (Roger Schütz, de Taizé)

ORAR

Neste domingo, contemplamos a desmedida arrogância do poder e do dinheiro que une um rei e um fariseu. Davi, o rei de Israel, cego de amor por Betsaida, arquiteta a morte de Urias, seu esposo, e o manda colocar na primeira linha da batalha, deixando-o só para que seja ferido e morra. Ao saber do sucesso do seu plano assassino, comenta num cinismo sem precedentes: “Guerra é assim mesmo: um dia cai um e outro dia cai outro” (2 Sm 11, 25). Ao ser acusado por Natã, “Esse homem és tu!”, a palavra de Deus penetra no palácio real da infâmia, rompe o muro do silêncio, lança uma luz sem piedade sobre o acúmulo da imundície real: Davi era adúltero e assassino e, apesar de rei, aparece aos olhos de Deus simplesmente como um homem miserável. Diante desta situação de confronto e da sentença de Deus, Davi descobre que a salvação está em não fugir, mas na renúncia de qualquer justificativa e no ato de se acusar humildemente diante do seu Deus: “Pequei contra o Senhor!”. A palavra de Deus implacável na denúncia do pecado se converte em palavra que anuncia o perdão. O evangelho narra o abastado fariseu Simão, homem piedoso, que convida Jesus para partilhar da sua mesa, cumprindo o costume da época de se convidar um mestre para jantar. De repente, não mais que de repente, uma certa mulher, conhecida na cidade como pecadora, irrompe na ceia, banha os pés de Jesus com suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos soltos e os cobre de beijos. Na cultura da época uma mulher de cabelos soltos era sinal de promiscuidade, no entanto, Jesus não a rejeita, como obrigava a lei, e nem lhe opõe a menor resistência. Simão, em seu pensamento arrogante, acusa Jesus do pecado de omissão por aceitar a transgressão de uma mulher que o evangelho nem designa o nome. Jesus transgride o costume religioso, pronuncia o perdão sem a necessária restituição de um sacrifício a Deus no templo, pois para Ele o amor é a consequência e o sinal do perdão. O fariseu da parábola não se deu conta de que o verdadeiro pecado é a ausência de amor e que o perdão é a experiência da plenitude deste mesmo amor. O fariseu conhece os pecados da mulher intrusa aos seus olhos e costumes, mas desconhece que a virtude do perdão pode preencher o vazio do amor dele. Toda a atitude farisaica, centrada na sua auto-suficiência, recusa que Alguém teria pago, com suas mãos atravessadas pelos pregos, as nossas dívidas. Ilude-se de que se pode saldar a conta com pagamentos em moedas falsas: o poder, a discriminação, a intolerância e a proscrição. Jesus ensina que abrir mão do exercício abusivo do poder pode nos custar bem menos do que abrir mão do acúmulo de posses e de dinheiro, ainda que esta seja a condição da alegria e da liberdade para se ter um tesouro no céu (Lc 18, 18ss). Mais do que nunca, não devemos hesitar em viver da força da fraternidade e da misericórdia que nos dá o Espírito de Jesus. Este mesmo Espírito que O fez olhar para seus discípulos, assim como olha para nós, e conclamar: “Levantai-vos, não temais!” (Mt 16, 7).

CONTEMPLAR

Parede da Encarnação do Verbo (detalhe da unção dos pés do Senhor), Marko Ivan Rupnik, s.j., 1996-1999, mosaico na Capela Redemptoris Mater, Palácio Apostólico, Vaticano.