segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Caminho da Beleza 34 - XV Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 34
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XV Domingo do Tempo Comum                  14.07.2013
Dt 30, 10-14                       Cl 1, 15-20               Lc 10, 25-37


ESCUTAR

“Esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possas cumprir” (Dt 30, 14).

“Deus quis habitar Nele com toda a sua plenitude e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz” (Cl 1, 19-20).

“Vai e faze a mesma coisa!” (Lc 10, 37).


MEDITAR

“Sem Cristo não conheceríamos Deus, não poderíamos invocá-lo nem vir a ele. Sem Cristo também não conheceríamos o irmão nem poderíamos encontrá-lo. O caminho está bloqueado pelo próprio eu. Cristo desobstruiu o caminho que leva a Deus e ao irmão” (Dietrich Bonhoeffer).

“Isso é a experiência religiosa: o estupor de encontrar alguém que está nos esperando. A partir desse momento, para mim, Deus é o que está um passo à frente. Você o está buscando, mas ele o busca primeiro. Queremos encontrá-lo, mas ele nos encontra primeiro” (Papa Francisco).


ORAR

Cristo é o revelador do rosto escondido, inacessível do Senhor e do seu desígnio de amor para a humanidade. Este desígnio permanece fechado para duas categorias de pessoas: os doutos que se limitam a um conhecimento intelectual e os justos praticantes que demonstram sua incapacidade de reconhecer o próximo ao se deparar com ele. O doutor da Lei é um pedante: pretende discutir, justificar seu próprio saber diante de Jesus, definir o conceito exato de próximo e determinar com precisão os limites do amor. Jesus não entra nesta armadilha ardilosa e nem se deixa enredar num debate interminável, apenas aponta ao interlocutor que lhe falta traduzir o saber em fazer, pois dois verbos faltam em seu vocabulário: ir e fazer. Na parábola tanto o sacerdote como o levita viram o homem caído e seguiram “adiante pelo outro lado”. Os dois especialistas da religião pretendiam atingir a Deus e, por esta razão, passaram ao largo do outro, que necessitava de auxílio, pois para eles era um obstáculo que os impediria de chegar mais rápido a Deus. O sacerdote, para realizar o seu programa religioso, não admite correr o risco de se atrasar caso fosse atender às necessidades do homem espancado e quase morto. Seu itinerário espiritual não tolera atrasos, desvios, distrações e imprevistos. Seus deveres legais são mais importantes que o coração, a humanidade e a ternura. Não podemos nos enredar na cilada da grande ilusão: a de que podemos chegar a Deus passando ao largo, por cima do próximo, e de que podemos encontrar a Deus sem ter necessidade de encontrar o irmão. Não podemos nos ocupar das coisas de Deus sem nos darmos conta de que o que interessa a Ele são as necessidades dos homens e mulheres, seus filhos e filhas. Jesus é incisivo ao revelar que não existe nenhum “outro lado” do caminho que possa conduzir a Deus. O sacerdote e o levita chegaram sem obstáculos até o final da estrada, mas faltaram ao encontro. O samaritano não deu mais do que dois passos, mas na direção exata e encontrou Deus.  Amar o próximo é amar o Deus que existe nele e o papa Bento XVI nos exorta: “Amor a Deus e amor ao próximo se fundem entre si: no mais humilde e pequenino encontramos o próprio Jesus e em Jesus encontramos Deus” (Deus Caritas Est, 5). Com todos os riscos possíveis devemos sempre nos indagar: “O que acontecerá a este homem se eu não parar para ajudá-lo?”. As estradas da vida são malditas não somente porque escondem bandidos, corruptos, mentirosos e hipócritas. As estradas da nossa vida serão malditas quando revelarem a ausência de amor que é o nome da indiferença. Que não sejamos nem como o sacerdote e nem como o levita, mas sobretudo que não sejamos os assaltantes que aviltam a dignidade humana em nome do seu poder civil e religioso e cujas vidas são um constante escarro na face de Deus.


CONTEMPLAR

O Bom Samaritano, Cláudio Pastro, in: Parábolas, São Paulo, Paulinas, Brasil, 2002.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Caminho da Beleza 33 - XIV Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 33
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XIV Domingo do Tempo Comum              07.07.2013
Is 66, 10-14                        Gl 6, 14-18                          Lc 10, 1-12


ESCUTAR

“Sereis amamentados, carregados ao colo e acariciados sobre os joelhos. Como uma mãe que acaricia o filho, assim eu vos consolarei; e sereis consolados em Jerusalém” (Is 66, 12-13).

“Pois nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor; o que conta é a criação nova” (Gl 6, 15).

“O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir” (Lc 10, 1).


MEDITAR

Vocatus atque non vocatus, Deus aderit [Chamado ou não chamado, Deus estará presente] (Frase na porta de entrada da casa de Carl Jung).

Há espaço para tudo numa única vida. Para acreditar em Deus e para um fim miserável... é uma questão de se viver a vida de minuto a minuto, acolhendo, além disso, o sofrimento (Etty Hillesum, Diários 1941-42).


ORAR

Não há vocação sem missão, pois a vocação está em razão da missão: aquele que é chamado é sempre enviado. A missão diz respeito a todos e não somente a alguns especialistas: toda a comunidade eclesial é missionária e todos os batizados são responsáveis pelo anúncio da Boa Nova. Neste anúncio existe uma palavra de alegria e de paz e no outro extremo está a Cruz de Cristo. Os que sofrem recebem as consolações maternais de Deus. A participação no mistério pascal evita que o cristão ceda ao triunfalismo ou ao desânimo diante dos fracassos. A fecundidade da Palavra não se verifica nem pelo êxito nem pelo fracasso, mas por germinar e crescer no terreno árido do Calvário. Em sua primeira homilia como papa, criticando as benesses e o carreirismo na Igreja, Francisco nos adverte: “Quando caminhamos sem a Cruz, quando edificamos sem a Cruz e quando confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos Bispos, Padres, Cardeais, Papas, mas não discípulos do Senhor” (14.03.2013). A fonte da missão está na oração e não num projeto humano, pois a missão é graça e dom e nenhum apóstolo é forjado em laboratórios especializados. O vínculo pessoal com o Cristo é vital, pois sem a oração a missão se converte em profissão. O teólogo Urs von Balthasar escrevia: “Uma coisa é certa: ninguém pode se entregar ao amor de Deus por decepção de um amor humano. Não se pode, por não se amar ninguém e nem a nada, acreditar que se ama a Deus”. A missão está sob o signo da fraqueza, da mansidão e de uma entrega sem reservas e sem pretensões. A única força do cristão é uma palavra que pode ser recusada, burlada e hostilizada e se ela não estiver penetrada pelo amor de Cristo, a missão se transforma em conquista. A missão é marcada pela pobreza e pela gentileza: “Não deixeis de saudar ninguém pelo caminho”. O apóstolo sabe que o evangelho não passa por meio das reverências sociais, sorrisos formais e discursos de circunstâncias. É preciso sacudir o pó dos aplausos, dos entusiasmos emotivos, das adesões de conveniência para que surja a essência do Evangelho. Se a missão não assume este estilo de pobreza se transforma em empresa, propaganda e espetáculo. Nestes tempos ardilosos de sucesso e eficácia, não devemos nos preocupar com o êxito da nossa missão, pois Jesus nos preveniu que o sucesso não está incluído nela: “Sereis expulsos da sinagoga. Chegará um tempo quando quem vos matar pensará oferecer um culto a Deus” (Jo 16, 2).


CONTEMPLAR

Os frutos, Patrice Delaby, 2012, óleo sobre tela, Pas-de-Calais, França.



segunda-feira, 24 de junho de 2013

O Caminho da Beleza 32 - Festa de São Pedro e São Paulo


O Caminho da Beleza 32
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



Festa de São Pedro e São Paulo                   30.06.2013
At 12, 1-11                2 Tm 4, 6-8.17-18                        Mt 16, 13-19

ESCUTAR

“O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: ‘Levanta-te depressa!’ As correntes caíram-lhe das mãos.”(At 12, 7).

“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça” (2 Tm 4, 7).

“Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16, 18).

MEDITAR

“Cada um de nós pode comunicar uma luz infinita, cada um de nós é chamado a ser uma fonte de luz, cada um de nós pode iluminar o dia, trazer a vida e ser uma manifestação da Presença infinita” (Maurice Zundel).

“O Abbá Poemem dizia: há duas coisas que um monge deveria destestar acima de tudo, porque, o fazendo, ele pode se tornar livre neste mundo. Um irmão perguntou: ‘Quais são essas coisas?’. O Ancião respondeu: ‘A vida fácil e a glória vã’.” (Apophtegma dos Padres do Deserto).

ORAR

Nesta festa de Pedro e Paulo somos chamados a perseverar apesar das calúnias, deslealdades e covardias. A comunidade nascente esteve ameaçada tanto pela covarde negação de Pedro que era Simão, quanto pela odiosa perseguição de Saulo que se tornaria Paulo. O evangelho atualiza o profeta Isaías ao comparar Pedro com Eliachim, o mordomo do palácio de Davi: “Eu lhe porei no ombro a chave do palácio de Davi: o que ele abrir ninguém fechará, o que ele fechar ninguém abrirá” (Is 22, 22). Pedro recebe a ordem de amar mais do que todos e com um amor incondicional e de serviço aos hóspedes do seu Senhor. Os que conduzem a Igreja devem seguir a Jesus e não O precederem, pois somente Ele nos mostra o caminho e nos diz: “Segue-me!”. A profissão de fé de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” constitui a proclamação que a Igreja recebeu e que deve transmitir. A Boa nova do Cristo é uma maravilha nascida não de uma ilusão, mas do dom divino da Revelação: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. Pedro é proclamado por Jesus como pedra da Igreja e o símbolo da pedra pertence à esfera da estabilidade e da solidez. A rocha no Antigo Testamento expressa a segurança de Deus e um refúgio inexpugnável: “Deus meu, rocha minha em que me refugio” (Sl 18, 3). A vida dedicada ao agir cristão é o sinal do verdadeiro apóstolo. É uma consagração que transforma homens e mulheres em fermento, luz e um instante de eternidade no interior da resistência do tempo e da finitude. Esta consagração profunda e existencial conhece o sacrifício e a dor, mas produz sempre uma beatitude e uma alegria porque “a tristeza entrou no mundo com Satanás” (Bernanos). Pedro e Paulo viveram esta experiência de dor e de alegria e são, desde então, o testemunho vivo da alegria e da fé. A comunidade eclesial deve confiar no primado da promessa do Senhor de que o poder do inferno nunca poderá vencer, pois o amor de Deus irrompe sem cessar nas igrejas unidas pelo amor fraterno, conduzidas pelo Espírito e a sua paternidade se revela no pastoreio do seu povo por meio do coração dos seus pastores escolhidos para velar pelo seu rebanho. O papa Francisco nos alerta contra a vaidade que nos faz pensar que somos “o prêmio Nobel da santidade” e nos lembra de que fomos tirados do final do rebanho. Esta memória devemos trazê-la alicerçada nas nossas vidas porque “quando um cristão não tem memória – é duro isso, mas é a verdade – não é cristão: é idólatra. Porque está na frente de um Deus que não tem caminho, não sabe fazer caminhos e o nosso Deus nos acompanha, se mescla conosco, caminha conosco, nos salva, faz história conosco”(Homilia de Francisco na Casa Santa Marta, 13.05.2013). Sejamos pedros e paulos – mordomos, pastores e apóstolos – com todas as nossas fragilidades humanas que são sustentadas pela misericórdia do Senhor, pois “a escola da fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho salpicado de sofrimento e de amor, de provas e de uma fidelidade que deve se renovar todos os dias” (Papa Bento XVI, Audiência de 24.05.2006).

CONTEMPLAR

A Conversão de São Paulo, anônimo, French Master, c. 1200, miniatura em pergaminho, imagem bíblica com miniaturas do noroeste da França, manuscrito “Den Haag, KB, 76 F 5”, Museum Meermanno and Koninklijke Bibliotheek, Haia, Holanda.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O Caminho da Beleza 31 - XII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 31
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


 XII Domingo do Tempo Comum                             23.06.2013
Zc 12, 10-11; 13, 1             Gl 3, 26-29             Lc 9, 18-24


ESCUTAR

“Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de oração; eles olharão para mim”(Zc 12, 10).

“O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Jesus Cristo” (Gl 3, 28).

“Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9, 24).

MEDITAR

“Não é o heroísmo que será enaltecido, mas a oferenda obscura e aparentemente inútil de uma vida que não é senão o amor, sinal do amor de Deus em meio ao inferno que os homens, às vezes, sabem organizar” (Jean-Marie Lustiger, Cardeal Arcebispo de Paris, 1981-2005).

“Peço a Deus que te esteja sempre presente. A todo instante. E que te ensine a gozares do Amor. Isto é de te deixares amar. Porque não sabemos como nos abrir às ternuras divinas.... e só Ele nos pode ensinar isso” (Madre Belém).


ORAR

Quando o evangelista Lucas apresenta Jesus “rezando num lugar retirado” é para que saibamos que a oração sempre prepara e antecede algo decisivo nas nossas vidas. Ao ouvir a resposta de Pedro de que Ele era o Cristo de Deus, Jesus anuncia a própria paixão iminente, a sua morte e ressurreição. Tudo isto constituirá um motivo de escândalo e por esta mesma razão Jesus “proíbe severamente que contassem isso a alguém”. O sentido do caminho não é triunfal uma vez que passa pela proscrição dos três poderes constituídos e aliados entre si: o civil-econômico, o religioso e o teológico-cultural. Devemos aceitar, como cristãos, este Seu estilo de perdedor para que possamos afirmar quem é o Messias, pois como diz Paulo “a loucura de Deus é mais sábia que os homens, a fraqueza de Deus é mais forte que os homens” (1 Cor 1, 25). Somente se compreendermos que a Sua vida é uma vida dada pelos demais é que provaremos ter descoberto o segredo de Sua vinda no meio de nós. Para nós, cristãos, não basta definirmos corretamente quem é Jesus e muito menos aceitar a sua travessia pouco triunfal. É necessário ter a lucidez sobre as condições do seguimento a Jesus. “Quem quiser me seguir” significa que estamos todos no mesmo caminho e que não é uma decisão fácil, pois é necessária uma eleição existencial precisa, corajosa, lúcida e livre. O caminho de Jesus não é acompanhado de um cortejo imponente, mas implica na renúncia de si mesmo. A partir de então, o único sinal autêntico de reconhecimento do discípulo é o da Cruz. O seguidor do Cristo deve aprender a perder, pois a alternativa entre “salvar” e “perder” a sua vida é a alternativa entre a vontade de “levar vantagem” em seus interesses individuais e a disponibilidade de fazer da vida um dom, para gastá-la, como o Cristo, em favor dos outros. O cristão não é o herói do excepcional, do gesto heroico, porque o verdadeiro heroísmo é o servir aos outros por meio de uma fidelidade sofrida, silenciosa e cotidiana. Paulo nos faz saber que no povo de Deus são abolidas as diferenças religiosas, culturais e sociais. A condição de filhos elimina qualquer discriminação porque confere a todos um mesmo valor e uma idêntica dignidade. Para o Senhor, vale somente a pessoa que crê, que ama e que é capaz de levar a cruz com amor e entrega aos outros, pois este é o sinal do Filho e dos seus filhos e filhas que constituem as pedras vivas da sua Igreja.


CONTEMPLAR

A Crucifixão Branca, Marc Chagall, 1938, óleo sobre tela, 154 x 139 cm, Instituto de Arte, Chicago, Estados-Unidos.

domingo, 2 de junho de 2013

O Caminho da Beleza 30 - XI Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 30
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XI Domingo do Tempo Comum                   16.06.2013
2 Sm 12, 7-10.13               Gl 2, 16.19-21                    Lc 7, 36-8, 3


ESCUTAR

“Davi disse a Natã: ‘Pequei contra o Senhor’. Natã respondeu-lhe: ‘De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!’” (2 Sm 12, 13).

“Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou”(Gl 2, 20).

“Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor” (Lc 7, 47).

MEDITAR

“Não é a religiosidade o que faz a verdade ou a mentira de uma vida humana e sim a autenticidade dessa mesma vida” (Dom Pedro Casaldáliga).

“De onde vem que, embora afirmem conhecer a Deus, tantos cristãos vivem como se nunca o tivessem descoberto e permanecem sem misericórdia? Eles se dizem do Deus de Jesus Cristo e, no entanto, conservam um coração empedernido” (Roger Schütz, de Taizé)

ORAR

Neste domingo, contemplamos a desmedida arrogância do poder e do dinheiro que une um rei e um fariseu. Davi, o rei de Israel, cego de amor por Betsaida, arquiteta a morte de Urias, seu esposo, e o manda colocar na primeira linha da batalha, deixando-o só para que seja ferido e morra. Ao saber do sucesso do seu plano assassino, comenta num cinismo sem precedentes: “Guerra é assim mesmo: um dia cai um e outro dia cai outro” (2 Sm 11, 25). Ao ser acusado por Natã, “Esse homem és tu!”, a palavra de Deus penetra no palácio real da infâmia, rompe o muro do silêncio, lança uma luz sem piedade sobre o acúmulo da imundície real: Davi era adúltero e assassino e, apesar de rei, aparece aos olhos de Deus simplesmente como um homem miserável. Diante desta situação de confronto e da sentença de Deus, Davi descobre que a salvação está em não fugir, mas na renúncia de qualquer justificativa e no ato de se acusar humildemente diante do seu Deus: “Pequei contra o Senhor!”. A palavra de Deus implacável na denúncia do pecado se converte em palavra que anuncia o perdão. O evangelho narra o abastado fariseu Simão, homem piedoso, que convida Jesus para partilhar da sua mesa, cumprindo o costume da época de se convidar um mestre para jantar. De repente, não mais que de repente, uma certa mulher, conhecida na cidade como pecadora, irrompe na ceia, banha os pés de Jesus com suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos soltos e os cobre de beijos. Na cultura da época uma mulher de cabelos soltos era sinal de promiscuidade, no entanto, Jesus não a rejeita, como obrigava a lei, e nem lhe opõe a menor resistência. Simão, em seu pensamento arrogante, acusa Jesus do pecado de omissão por aceitar a transgressão de uma mulher que o evangelho nem designa o nome. Jesus transgride o costume religioso, pronuncia o perdão sem a necessária restituição de um sacrifício a Deus no templo, pois para Ele o amor é a consequência e o sinal do perdão. O fariseu da parábola não se deu conta de que o verdadeiro pecado é a ausência de amor e que o perdão é a experiência da plenitude deste mesmo amor. O fariseu conhece os pecados da mulher intrusa aos seus olhos e costumes, mas desconhece que a virtude do perdão pode preencher o vazio do amor dele. Toda a atitude farisaica, centrada na sua auto-suficiência, recusa que Alguém teria pago, com suas mãos atravessadas pelos pregos, as nossas dívidas. Ilude-se de que se pode saldar a conta com pagamentos em moedas falsas: o poder, a discriminação, a intolerância e a proscrição. Jesus ensina que abrir mão do exercício abusivo do poder pode nos custar bem menos do que abrir mão do acúmulo de posses e de dinheiro, ainda que esta seja a condição da alegria e da liberdade para se ter um tesouro no céu (Lc 18, 18ss). Mais do que nunca, não devemos hesitar em viver da força da fraternidade e da misericórdia que nos dá o Espírito de Jesus. Este mesmo Espírito que O fez olhar para seus discípulos, assim como olha para nós, e conclamar: “Levantai-vos, não temais!” (Mt 16, 7).

CONTEMPLAR

Parede da Encarnação do Verbo (detalhe da unção dos pés do Senhor), Marko Ivan Rupnik, s.j., 1996-1999, mosaico na Capela Redemptoris Mater, Palácio Apostólico, Vaticano.

O Caminho da Beleza 29 - X Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 29
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


X Domingo do Tempo Comum                     09.06.2013
1 Rs 17, 17-24                     Gl 1, 11-19               Lc 7, 11-17


ESCUTAR

“Eis aqui o teu filho vivo” (1 Rs 17, 23).

“Asseguro-vos, irmãos, que o evangelho pregado por mim não é conforme critérios humanos. Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo” (Gl 1, 11).

“Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe disse: ‘Não chores!’. Aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então, Jesus disse: ‘Jovem, eu te ordeno, levanta-te!’. O que estava morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe” (Lc 7, 13-15).

MEDITAR

“O amor oculta a morte [porque] o amor é Deus e morrer significa que eu sou um átomo deste amor, que volta ao geral e eterno manancial” (Léon Tolstoi, Guerra e Paz).

“O conhecimento do amor é o fundamento sobre o qual nós estabelecemos a nossa vida: nada mais pode nos atingir porque o amor pode tudo transformar, transfigurar, mesmo a morte e o sofrimento” (Pierre Claverie, bispo de Oran, Argélia, assassinado em 1996).

ORAR

Jesus não considera normal a morte, pelo contrário, reconhece a sua negatividade. Em certas ocasiões se sente intimamente comovido, como diante do sepulcro de Lázaro; outra vez perturbado e triste, no jardim do Getsêmani, diante da iminência da própria morte. A morte para Jesus não é aceitável porque contradiz o desígnio de Deus e foi introduzida no mundo pelo diabo: “Deus criou o homem para a imortalidade e o fez à imagem de seu próprio ser; mas a morte entrou no mundo pela inveja do diabo e os de seu partido passarão por ela” (Sb 2, 23-24). O sinal decisivo de que Deus visita o seu povo é o de que o seu Enviado se apresenta como portador da vida e uma vida eterna que começa a cada novo dia. O cristão não pode preparar um funeral dos vivos e nem deve mortificar a vida. O Deus revelado por Cristo é um Deus amante da vida e aquele que O encontra só pode se tornar o anunciador de uma alegre mensagem de mais vida. Para Jesus, a morte física é apenas mais um episódio – um sonho – pois Ele é a vida indivisa e não uma síntese de vida e morte. E a sua compaixão O faz transgredir: viola a lei e os costumes judaicos ao interromper o funeral e, mais ainda, torna-se impuro ao tocar o suposto cadáver. Jesus testemunhava que o imaginário profético – “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e se anuncia aos pobres a boa nova” (Is 35, 5; 26, 19; 61, 1) – tornava-se realidade na História e que a ressurreição dos mortos no final dos tempos havia se transformado numa ressurreição, aqui e agora, dentro do tempo. Jesus não necessita, como Elias, nem de uma oração especial de súplica e nem de um ritual externo de transmissão de vida. Basta, para Ele, a comoção interior expressa num gesto de compaixão. A compaixão pode nos exigir uma atitude de transgressão, pois o amor é maior do que tudo e nos leva a confrontar todas as limitações, as imposições e, muitas vezes, a dizer um não a elas. Amar é também saber dizer não. O apóstolo é, antes de tudo, um ser que vive em plenitude, não uma múmia, nem um comentador de códigos e muito menos um organizador de funerais. A Igreja de Jesus, antes de ser a luz do mundo, tem o dever de ser vida além das instituições e estruturas necessárias para seu funcionamento interno. Como diz o papa Francisco: “A Igreja de Jesus não é uma ONG!(...) Não podemos criar cristãos satélites cuja prática está ditada pelo senso comum e pela prudência mundana e não pelo seguimento de Jesus” (Homilia de 20.04. 2013). A grande inversão, que canta também Maria no seu Magnificat, não se cumpre sociologicamente, como tantas vezes desejamos no nosso imediatismo político: a serva humilde não se converte numa rainha dominante. Mais do que nunca, o poder de Deus é o poder do amor e de amar, um poder que transforma “as espadas em arados e as lanças em podadeiras” (Is 2, 4) para a construção da Paz e da Justiça.

CONTEMPLAR

Foto do local onde foi assassinada com seis tiros, em 2005, aos 73 anos de idade, a irmã Dorothy Mae Stang, Anapu, Pará, Brasil.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Caminho da Beleza 28 - IX Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 28
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


IX Domingo do Tempo Comum                   02.06.2013
1 Rs 8, 41-43                      Gl 1, 1-2.6-10                     Lc 7, 1-10


ESCUTAR

“Senhor, escuta então do céu onde moras e atende a todos os pedidos desse estrangeiro, para que todos os povos conheçam o teu nome e o respeitem” (1 Rs 8, 43).

“Se eu ainda estivesse preocupado em agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1, 10).

“Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé” (Lc 7, 9).



MEDITAR

“Abbá Euloge, um dia, não conseguia esconder sua tristeza. – Por que estás triste, Abbá, perguntou-lhe um outro ancião. – Porque eu começo a duvidar da inteligência dos irmãos a respeito das grandes realidades de Deus. Já é a terceira vez que lhes mostrando uma peça de linho sobre a qual desenhei um pequeno ponto vermelho, ao perguntar-lhes o que viam, todos me responderam: ‘um pequeno ponto vermelho’ e jamais nenhum deles me respondeu que via uma peça de linho” (Apophtegma dos Padres do Deserto).

“Há milhares de anos o homem compreendeu que nada é mais terrível do que cultivar a idolatria, porque o ídolo não passa de um pedaço de madeira. Ou bem o sagrado está presente sempre, ou não existe. É ridículo pensar que o sagrado existe no topo da montanha e não no vale, no domingo ou no shabbath mas não no resto da semana” (Peter Brook).


ORAR

Salomão inaugura um enorme templo e, imediatamente, se dá conta de que naquela construção majestosa e imponente, o Senhor se encontra restrito e intimidado: “Mas, é possível que Deus habite na terra? Se não cabes no céu e no mais alto do céu, quanto menos neste templo que construí!” (1 Rs 8, 27). O infinito de Deus não pode ser aprisionado num espaço finito como uma construção de pedra ainda que estupenda. Deus se faz presente no lugar em que os homens e as mulheres se encontram, sejam de religiões e culturas diversas, estrangeiros ou não. A Igreja de Jesus deve realizar uma comunhão com todos. O Papa Francisco nos adverte sobre as comunidades religiosas fechadas: “A sua vida comunitária para defender a verdade, porque elas acreditam que defendem a verdade, é sempre a calúnia e o fofocar... Realmente, são comunidades fofoqueiras, que falam contra, destroem o outro e olham para dentro, sempre para dentro, cobertas por um muro. Comunidades que não sabem nada de carícias, mas sabem do dever e se fecham numa observância aparente” (Homilia da Casa de Santa Marta, 28.04.2013). O papa reafirma o primado da misericórdia contra o farisaísmo daqueles que se satisfazem em “bater nos outros e condenar os outros”. Não temos o direito de transferir ao templo do Senhor as fronteiras que nos dividem, as discriminações que fazemos e as exclusões que decretamos aos que não são como nós. Na Igreja de Jesus, ninguém deve se sentir estranho e nem privilegiado; não pode existir um “complexo de não-pertença” e nem a postura presunçosa de querer distribuir “carteirinhas de autenticidade cristã”, como se fossemos depositários de uma marca – inexistente – que comprova a “legitimidade” do produto. O Senhor vincula o Seu Nome no templo em que se mesclam as diversidades para a alegria de se orar juntos. O Senhor não acolhe as pessoas segundo as nossas preferências redutoras e seletivas, mas acolhe de acordo com a liberdade infinita do seu amor universal. É preciso aprender a orar com os outros, isto é, com todos. O evangelista reitera a importância dada por Jesus e o seu assombro com a fé de um pagão: “Jesus ficou admirado”. Normalmente nos evangelhos são os ouvintes que ficam admirados com as palavras de Jesus. Aqui é Jesus quem se admira e fica quase aturdido. Lucas sublinha a Sua admiração diante da fé extraordinária e verdadeira do centurião por ser um estrangeiro. Uma fé que sequer tinha necessidade da presença do Cristo em sua casa, pois este homem confiava no poder de Sua palavra mesmo à distância. O evangelho de hoje, mais do que se referir ao milagre da cura de um pobre homem, apresenta o milagre sensacional da fé de um pagão. Paulo prega que o Evangelho não deve servir para agradar aos homens e nem ser manipulado para agradar a quem o anuncia, pois este evangelho não seria o de Jesus. O papa Francisco exorta: “Só uma comunidade livre, com a liberdade de Deus e do Espírito Santo, é capaz de ir em frente e se difundir. Como são as nossas comunidades? São abertas ao Espírito Santo que nos leva sempre à frente para difundir a Palavra de Deus, ou são comunidades fechadas, com todos os mandamentos precisos, que carregam sobre os ombros dos fiéis tantos mandamentos, como o Senhor havia dito aos fariseus?” (Homilia da Casa de Santa Marta, 28.04.2013).


CONTEMPLAR


O Chamado de São Mateus (detalhe do rosto do Cristo), Michelangelo Merisi, Caravaggio, 1599-1600, óleo sobre tela,  322 x 340 cm,  Igreja de São Luís dos Franceses, Roma, Itália.