domingo, 2 de junho de 2013

O Caminho da Beleza 29 - X Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 29
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


X Domingo do Tempo Comum                     09.06.2013
1 Rs 17, 17-24                     Gl 1, 11-19               Lc 7, 11-17


ESCUTAR

“Eis aqui o teu filho vivo” (1 Rs 17, 23).

“Asseguro-vos, irmãos, que o evangelho pregado por mim não é conforme critérios humanos. Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo” (Gl 1, 11).

“Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe disse: ‘Não chores!’. Aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então, Jesus disse: ‘Jovem, eu te ordeno, levanta-te!’. O que estava morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe” (Lc 7, 13-15).

MEDITAR

“O amor oculta a morte [porque] o amor é Deus e morrer significa que eu sou um átomo deste amor, que volta ao geral e eterno manancial” (Léon Tolstoi, Guerra e Paz).

“O conhecimento do amor é o fundamento sobre o qual nós estabelecemos a nossa vida: nada mais pode nos atingir porque o amor pode tudo transformar, transfigurar, mesmo a morte e o sofrimento” (Pierre Claverie, bispo de Oran, Argélia, assassinado em 1996).

ORAR

Jesus não considera normal a morte, pelo contrário, reconhece a sua negatividade. Em certas ocasiões se sente intimamente comovido, como diante do sepulcro de Lázaro; outra vez perturbado e triste, no jardim do Getsêmani, diante da iminência da própria morte. A morte para Jesus não é aceitável porque contradiz o desígnio de Deus e foi introduzida no mundo pelo diabo: “Deus criou o homem para a imortalidade e o fez à imagem de seu próprio ser; mas a morte entrou no mundo pela inveja do diabo e os de seu partido passarão por ela” (Sb 2, 23-24). O sinal decisivo de que Deus visita o seu povo é o de que o seu Enviado se apresenta como portador da vida e uma vida eterna que começa a cada novo dia. O cristão não pode preparar um funeral dos vivos e nem deve mortificar a vida. O Deus revelado por Cristo é um Deus amante da vida e aquele que O encontra só pode se tornar o anunciador de uma alegre mensagem de mais vida. Para Jesus, a morte física é apenas mais um episódio – um sonho – pois Ele é a vida indivisa e não uma síntese de vida e morte. E a sua compaixão O faz transgredir: viola a lei e os costumes judaicos ao interromper o funeral e, mais ainda, torna-se impuro ao tocar o suposto cadáver. Jesus testemunhava que o imaginário profético – “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e se anuncia aos pobres a boa nova” (Is 35, 5; 26, 19; 61, 1) – tornava-se realidade na História e que a ressurreição dos mortos no final dos tempos havia se transformado numa ressurreição, aqui e agora, dentro do tempo. Jesus não necessita, como Elias, nem de uma oração especial de súplica e nem de um ritual externo de transmissão de vida. Basta, para Ele, a comoção interior expressa num gesto de compaixão. A compaixão pode nos exigir uma atitude de transgressão, pois o amor é maior do que tudo e nos leva a confrontar todas as limitações, as imposições e, muitas vezes, a dizer um não a elas. Amar é também saber dizer não. O apóstolo é, antes de tudo, um ser que vive em plenitude, não uma múmia, nem um comentador de códigos e muito menos um organizador de funerais. A Igreja de Jesus, antes de ser a luz do mundo, tem o dever de ser vida além das instituições e estruturas necessárias para seu funcionamento interno. Como diz o papa Francisco: “A Igreja de Jesus não é uma ONG!(...) Não podemos criar cristãos satélites cuja prática está ditada pelo senso comum e pela prudência mundana e não pelo seguimento de Jesus” (Homilia de 20.04. 2013). A grande inversão, que canta também Maria no seu Magnificat, não se cumpre sociologicamente, como tantas vezes desejamos no nosso imediatismo político: a serva humilde não se converte numa rainha dominante. Mais do que nunca, o poder de Deus é o poder do amor e de amar, um poder que transforma “as espadas em arados e as lanças em podadeiras” (Is 2, 4) para a construção da Paz e da Justiça.

CONTEMPLAR

Foto do local onde foi assassinada com seis tiros, em 2005, aos 73 anos de idade, a irmã Dorothy Mae Stang, Anapu, Pará, Brasil.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Caminho da Beleza 28 - IX Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 28
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


IX Domingo do Tempo Comum                   02.06.2013
1 Rs 8, 41-43                      Gl 1, 1-2.6-10                     Lc 7, 1-10


ESCUTAR

“Senhor, escuta então do céu onde moras e atende a todos os pedidos desse estrangeiro, para que todos os povos conheçam o teu nome e o respeitem” (1 Rs 8, 43).

“Se eu ainda estivesse preocupado em agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1, 10).

“Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé” (Lc 7, 9).



MEDITAR

“Abbá Euloge, um dia, não conseguia esconder sua tristeza. – Por que estás triste, Abbá, perguntou-lhe um outro ancião. – Porque eu começo a duvidar da inteligência dos irmãos a respeito das grandes realidades de Deus. Já é a terceira vez que lhes mostrando uma peça de linho sobre a qual desenhei um pequeno ponto vermelho, ao perguntar-lhes o que viam, todos me responderam: ‘um pequeno ponto vermelho’ e jamais nenhum deles me respondeu que via uma peça de linho” (Apophtegma dos Padres do Deserto).

“Há milhares de anos o homem compreendeu que nada é mais terrível do que cultivar a idolatria, porque o ídolo não passa de um pedaço de madeira. Ou bem o sagrado está presente sempre, ou não existe. É ridículo pensar que o sagrado existe no topo da montanha e não no vale, no domingo ou no shabbath mas não no resto da semana” (Peter Brook).


ORAR

Salomão inaugura um enorme templo e, imediatamente, se dá conta de que naquela construção majestosa e imponente, o Senhor se encontra restrito e intimidado: “Mas, é possível que Deus habite na terra? Se não cabes no céu e no mais alto do céu, quanto menos neste templo que construí!” (1 Rs 8, 27). O infinito de Deus não pode ser aprisionado num espaço finito como uma construção de pedra ainda que estupenda. Deus se faz presente no lugar em que os homens e as mulheres se encontram, sejam de religiões e culturas diversas, estrangeiros ou não. A Igreja de Jesus deve realizar uma comunhão com todos. O Papa Francisco nos adverte sobre as comunidades religiosas fechadas: “A sua vida comunitária para defender a verdade, porque elas acreditam que defendem a verdade, é sempre a calúnia e o fofocar... Realmente, são comunidades fofoqueiras, que falam contra, destroem o outro e olham para dentro, sempre para dentro, cobertas por um muro. Comunidades que não sabem nada de carícias, mas sabem do dever e se fecham numa observância aparente” (Homilia da Casa de Santa Marta, 28.04.2013). O papa reafirma o primado da misericórdia contra o farisaísmo daqueles que se satisfazem em “bater nos outros e condenar os outros”. Não temos o direito de transferir ao templo do Senhor as fronteiras que nos dividem, as discriminações que fazemos e as exclusões que decretamos aos que não são como nós. Na Igreja de Jesus, ninguém deve se sentir estranho e nem privilegiado; não pode existir um “complexo de não-pertença” e nem a postura presunçosa de querer distribuir “carteirinhas de autenticidade cristã”, como se fossemos depositários de uma marca – inexistente – que comprova a “legitimidade” do produto. O Senhor vincula o Seu Nome no templo em que se mesclam as diversidades para a alegria de se orar juntos. O Senhor não acolhe as pessoas segundo as nossas preferências redutoras e seletivas, mas acolhe de acordo com a liberdade infinita do seu amor universal. É preciso aprender a orar com os outros, isto é, com todos. O evangelista reitera a importância dada por Jesus e o seu assombro com a fé de um pagão: “Jesus ficou admirado”. Normalmente nos evangelhos são os ouvintes que ficam admirados com as palavras de Jesus. Aqui é Jesus quem se admira e fica quase aturdido. Lucas sublinha a Sua admiração diante da fé extraordinária e verdadeira do centurião por ser um estrangeiro. Uma fé que sequer tinha necessidade da presença do Cristo em sua casa, pois este homem confiava no poder de Sua palavra mesmo à distância. O evangelho de hoje, mais do que se referir ao milagre da cura de um pobre homem, apresenta o milagre sensacional da fé de um pagão. Paulo prega que o Evangelho não deve servir para agradar aos homens e nem ser manipulado para agradar a quem o anuncia, pois este evangelho não seria o de Jesus. O papa Francisco exorta: “Só uma comunidade livre, com a liberdade de Deus e do Espírito Santo, é capaz de ir em frente e se difundir. Como são as nossas comunidades? São abertas ao Espírito Santo que nos leva sempre à frente para difundir a Palavra de Deus, ou são comunidades fechadas, com todos os mandamentos precisos, que carregam sobre os ombros dos fiéis tantos mandamentos, como o Senhor havia dito aos fariseus?” (Homilia da Casa de Santa Marta, 28.04.2013).


CONTEMPLAR


O Chamado de São Mateus (detalhe do rosto do Cristo), Michelangelo Merisi, Caravaggio, 1599-1600, óleo sobre tela,  322 x 340 cm,  Igreja de São Luís dos Franceses, Roma, Itália.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Caminho da Beleza 27 - Santíssima Trindade


O Caminho da Beleza 27
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Santíssima Trindade                26.05.2013
Pv 8, 22-31             Rm 5, 1-5                Jo 16, 12-15


ESCUTAR

“Assim fala a sabedoria de Deus: O Senhor me possuiu como primícias de seus caminhos, antes de suas obras mais antigas; desde a eternidade fui constituída, desde o princípio, antes das origens da terra” (Pv 8, 22-23).

“Irmãos, justificados pela fé, estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo” (Rm 5, 1).

“Tenho ainda muita coisa a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”(Jo 16, 12-13).


MEDITAR

“Alguns de nós acreditam que Deus é Todo-Poderoso e que pode fazer tudo, e que Deus é Todo-Sabedoria e sabe como fazer tudo. Mas que Deus é Todo-Amoroso e quer amar tudo, aqui nós nos contemos. E essa ignorância atrapalha a maioria dos amantes de Deus, como eu vejo (...) Deus quer ser pensado como nosso Amante” (Julian de Norwich).

“O amor é o único ímpeto que é suficientemente avassalador para nos forçar a deixar o confortável abrigo da nossa individualidade bem protegida, a pôr de lado a concha inexpugnável da auto-suficiência e rastejar nus para a zona do perigo, lá para a frente, para o cadinho em que a individualidade se purifica para aparecer a personalidade” (Mark Patrick Hederman, OSB)


ORAR


Neste domingo da Trindade é preciso nos deixar envolver, como numa dança, no ritmo de um dinamismo do dom. A reciprocidade entre o Pai e o Filho gera o Espírito de Liberdade e de Amor. Aquele que, em Deus, chamamos de Pai, é fruto de sua entrega ao que chamamos de Filho; o Pai existe como entrega e o Filho existe como recepção, agradecimento e restituição de si ao Pai. Por sua vez, esta restituição não encerra ambos em si mesmos, mas os abre à consumação do dom, a qual se realiza, de um modo absoluto, no Espírito comum que deles emana. Este amor trinitário é derramado sobre nós de uma maneira ilimitada e nesta dinâmica amorosa somos atingidos pela sabedoria de Deus que nos revela que tudo foi criado para a alegria e o encantamento dos filhos dos homens. A sabedoria de Deus, que está junto de nós, penetra em tudo como “um reflexo da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem de sua bondade” (Sb 7, 26). Deus no mundo e o mundo em Deus, pois o mundo é a morada da Trindade. A comunidade eclesial recebe o Espírito de Sabedoria para viver em comunhão de amor e pelo amor. Como nos afirma o teólogo Francisco Catão: “A experiência do Espírito é uma experiência viva, é vida, pois dela alimentamos nossa vida em Deus e nela é que vivemos nossa vida em Deus, de adesão à Palavra e de docilidade ao Pai, no Espírito. Essa vida não é apenas nossa, mas participada por todos aqueles que dizem sim a Deus no fundo do coração. Tem, portanto, o que poderíamos denominar uma dimensão comunitária que lhe é inerente. Não há experiência no Espírito independente da comunidade. É esse, precisamente, o mistério da Igreja”. A existência cristã deve ser uma existência humana vivida na verdade, pois só assim poderá se abrir inteiramente aos desígnios do Pai; seguir os caminhos do Filho que partilhou da nossa condição humana e ser conduzida pelo Espírito que está em todos e, mais do que nunca, age por meio de todos. Deus não é uma fortaleza fechada que devemos conquistar com nossas máquinas espirituais de guerra – ascetismo, meditação, introspecção – mas é uma casa cheia de portas abertas pelas quais somos convidados a entrar. O mistério da comunhão na Trindade é um mistério nupcial. A total entrega na dança e fusão dos corpos faz nascer, num único e mesmo espírito, o transbordamento da ternura. E no silêncio desta plenitude amorosa, o Pai revelado no Filho, escuta o Espírito derramado em nossos corações “interceder em nosso favor com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26), como o êxtase dos noivos ao se entregarem, em mútuo e gratuito dom, para a realização plena de suas núpcias. Meditemos as palavras de S. Tomás de Aquino: “Ora, é por proceder do Pai e do Filho que o Espírito Santo tem um nome próprio. Logo, DOM é o nome próprio do Espírito Santo (...) Dom é uma doação sem retorno, isto é, que não se dá com a intenção de retribuição. Dom implica assim doação gratuita. E o amor é a razão da doação gratuita. Damos gratuitamente uma coisa a alguém porque lhe queremos o bem. O primeiro que lhe damos é, portanto, o amor pelo qual lhe queremos o bem. Por isso, é claro que o amor tem a razão de dom primeiro, pelo qual são doados todos os dons gratuitos”(Summa Theologica I, q. 38, art. 2). Somente pelo dom gratuito de nós mesmos é que a vida ordinária pode se transformar, em momentos únicos e intransferíveis, no mistério extraordinário de ser e de existir.

CONTEMPLAR

A Santa Trindade, Nicoletto Semitecolo, c. 1370, têmpera sobre painel, 35 x 40 cm, Catedral de Pádua, Itália.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Caminho da Beleza 26 - Solenidade de Pentecostes



O Caminho da Beleza 26
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Solenidade de Pentecostes                19.05.2013
At 2, 1-11                  1 Cor 12, 3-7.12-13                       Jo 20, 19-23


ESCUTAR

“Todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” (At 2, 11).

“Há diversidades de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 4-7).

“A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20, 21).


MEDITAR

Do sim a Deus faz parte um não com a mesma determinação. O sim de vocês a Deus exige um não a toda injustiça, a toda maldade, a toda mentira, a toda opressão e constrangimento dos fracos e pobres, a toda descrença e a toda blasfêmia em relação ao sagrado (Dietrich Bonhoeffer, Prédica de Confirmação, 1938).

“As pessoas necessitam saber o que são elas mesmas. Há em cada um de nós um certo tom, uma certa palavra e nosso dever é fazer disto nosso próprio poema, nosso próprio canto, uma sinfonia. Se faltamos a esse dever, teremos vivido em vão” (Eugen Drewermann).


ORAR

Pentecostes é o anti-Babel, pois o desígnio se realiza graças à intervenção do Pai que faz descer sobre os apóstolos o seu Espírito e determina a criação de uma humanidade nova por meio da unificação de todos os povos por meio do dom das línguas. Quando se trata de fazer conhecer as maravilhas de Deus, não existe uma língua definida como única e sagrada. São utilizadas as línguas maternas, pois Deus, quando quer dar a conhecer suas “grandes obras” e conversar com eles, adota a língua de cada um. E a língua de cada um se torna sagrada porque é o instrumento do anúncio do desígnio de Deus e de resposta por parte dos homens. O Espírito enviado não se limita a refrescar a memória, mas a atualizar a palavra revelada num aprofundamento da compreensão existencial e vital. Sem Jesus não é possível compreender o Pai e sem o Espírito não é possível compreender Jesus que é o Seu intérprete, o exegeta único e insubstituível. O Pai é inacessível sem Jesus e o Filho inacessível sem o Espírito. O Espírito torna presente a Palavra no seio da comunidade fraterna como tornou presente o Verbo no seio de Maria. Em nome da mãe inaugura-se a Vida assim como em nome do Espírito inaugura-se a Igreja de Jesus. Maria, fecundada pelo Espírito com o sopro das palavras anunciadas, e a Igreja fecundada pelo mesmo Espírito com o sopro de línguas de fogo, sementes do Verbo em expansão. Viver no Espírito de Jesus é saber que Nele não existem sombras – a aridez, a esclerose, a rotina, a inércia – que nos espreitam. O Espírito de Jesus é Luz que ilumina a todos ainda que possamos conhecer as sombras impostas pelos limites dos homens e de suas instituições de poder. O Espírito de Jesus não admite nenhuma resignação porque traz sempre uma promessa de renovação: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5). A comunidade não se constrói unicamente pelo caminho institucional, mas, sobretudo, pela infinita variedade de dons que o Espírito distribui para a construção do Bem Comum, pois “todos nós bebemos de um único Espírito”. Meditemos as palavras do filósofo ecumênico russo Nicolas Berdyaev: “A maior verdade moral e religiosa para a qual o homem deve se direcionar é a de que não podemos ser salvos individualmente. Minha salvação pressupõe a salvação dos outros também, a salvação do meu próximo, ela pressupõe a salvação universal, a salvação do mundo inteiro, a transfiguração do mundo”.


CONTEMPLAR

(...) Todos ficaram então plenos do Espírito Santo (Atos dos Apóstolos, 2), Salvador Dalí, 1967, aquarela e técnica mista, 35 x 48 cm, Coleção Bíblia Sacra, Canto V/102, Milão, Itália.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O Caminho da Beleza 25 - Ascensão do Senhor


O Caminho da Beleza 25
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Ascensão do Senhor                  12.05.2013
At , 1-11                    Ef 1, 17-23               Lc 24, 46-53


ESCUTAR

“Mas recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judeia e na Samaria e até os confins da terra” (At 1, 8).

“Que ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá!” (Ef 1, 18).

“Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam sempre no templo, bendizendo a Deus” (Lc 24, 51-52).


MEDITAR

“É preciso ter contato com o mundo real, o mundo atual, esforçar-se por definir seu lugar nele; não se deve viver apenas com os valores eternos, isto poderia degenerar num tipo de política de avestruz. Viver totalmente, externa como internamente, nada sacrificar da realidade exterior em prol da vida interior, e vice-versa, eis uma tarefa excitante” (Etty Hillesum, Diários 1941-43).

“A espiritualidade não pode ser aprendida por uma fuga do mundo, fugindo-se das coisas ou se tornando solitário e afastando-se do mundo. Pelo contrário, nós devemos aprender uma solidão interior onde e com quem estivermos. Nós devemos aprender a penetrar nas coisas e achar Deus lá” (Mestre Eckhart).


ORAR

Com a ascensão de Jesus começa o tempo da Igreja, um tempo de testemunho público e corajoso que, progressivamente, alcançará todos os homens. A ascensão é a linha divisória entre a história de Jesus e a da comunidade pós-pascal. A comunidade eclesial pode iniciar o seu próprio caminho histórico sem nostalgias e sem fugas apocalípticas graças à força do Espírito prometido pelo Senhor. O banquete eucarístico, convivência íntima, é o lugar por excelência em que os amigos podem estar em comunhão com o Cristo. A Igreja surge como uma comunidade de oração para depois ser apostólica, quando a sua prática passa a ser animada pelo Espírito. A comunidade eclesial tem necessidade do sopro vital que lhe será dado pelo Espírito do Senhor, pois sem Ele não existe vida, nem força de expansão e nem capacidade de testemunho para a Igreja. Jesus se “separa” dos amigos com o sinal da benção e esta é a última imagem que fica: a do Cristo glorioso que abençoa. Os apóstolos saúdam a partida do Senhor não com prantos, mas com alegria ainda que devam afrontar um mundo hostil para levar a paz, o amor e o perdão. Não celebramos uma despedida, mas uma nova maneira de estar presente no mundo, pois a presença definitiva do Ressuscitado entre nós e na história da humanidade está assegurada pelo seu Espírito que conduz a comunidade eclesial até o fim dos tempos, por meio da concretização do amor fraterno, símbolo emblemático dos cristãos e dos homens e mulheres de boa vontade. Somos herdeiros de sua missão e neste seguimento devemos reinventá-la a cada novo momento histórico, como pedia o Papa João XXIII, lendo e compreendendo os “sinais dos tempos”. A celebração da eucaristia anuncia e realiza a proibição de toda estatização da Igreja e de todo o clericalismo na política. A Igreja peregrina não funda a cidade terrena, mas a habita apontando para o futuro. Devemos nos guiar pela prática de Jesus: a sua maneira de acolher os pecadores, de elevar os humildes, desnudar os orgulhosos e arrogantes. Devemos lembrar que a conversão proposta por Ele é a mudança radical nas nossas relações com Deus, com o próximo e, sobretudo, com o dinheiro. A novidade dos seus ensinamentos e do seu testemunho lhe valeu, como valerá para nós, a hostilidade dos governantes e do poder religioso e esta hostilidade foi a causa da sua condenação e assassinato. O evangelista enfatiza que são “fatos que nos aconteceram” (Lc 1, 1) e não qualquer mistificação maravilhosa inventada e difundida ao bel prazer de qualquer um. Meditemos as palavras de Bento XVI: “Nós devemos estar seguros de que, por mais pesadas e turbulentas as provas que nos esperam, não seremos jamais abandonados a nós mesmos. As mãos do Senhor não nos largarão, pois estas são mãos que nos criaram e que, todo o dia, nos acompanham no itinerário de nossas vidas”.


CONTEMPLAR

Ascensão, George Grie, arte digital, Toronto, Canadá.


domingo, 28 de abril de 2013

O Caminho da Beleza 24 - VI Domingo da Páscoa


O Caminho da Beleza 24
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


VI Domingo da Páscoa             05.05.2013
At 15, 1-2.22-19                 Ap 21, 10-14.22-23                      Jo 14, 23-29


ESCUTAR

“Ficamos sabendo que alguns dos nossos causaram perturbações com palavras que transtornaram vosso espírito. Eles não foram enviados por nós. Então decidimos, de comum acordo, escolher alguns representantes e mandá-los até vós, junto com nossos queridos irmãos Barnabé e Paulo, homens que arriscaram suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (At 15, 24-26).

“Não vi o templo na cidade, pois o seu templo é o próprio Senhor, o Deus todo-poderoso, e o Cordeiro. A cidade não precisa de sol, nem de lua que a iluminem, pois a glória de Deus é a sua luz e a sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21, 22-23).

“Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo, 14, 27).


MEDITAR

“A fé não se negocia. Esta tentação sempre existe na história do povo de Deus: cortar um pedaço da fé ainda que não seja muito. (...) De fato, quando começamos a fragmentar a fé, a negociar a fé, a vendê-la a quem oferece o maior lance, começamos o caminho da apostasia, da não fidelidade ao Senhor” (Papa Francisco).

“Nós devemos afrontar o medo. Se nós paramos e voltamos atrás, estamos perdidos. Devemos discernir o momento em que contamos somente com nossas próprias forças. Se esquecemos a confiança em Jesus estamos perdidos, assim como se esquecermos a misteriosa atração que nos levou a escolher um engajamento, uma pessoa, uma amizade. A vida se vive na confiança. O medo e a confiança não caminham juntos” (Cardeal Martini).


ORAR

No interior da comunidade eclesial nem todos aceitam a novidade, pois estão presos à nostalgia das “coisas de antes” já superadas. Paulo e Barnabé foram contestados pelos que gostariam de impor aos neoconversos do paganismo a circuncisão, uma norma da lei antiga. Paulo adverte que nesta exigência está em perigo a própria essência da novidade cristã. Não temos o direito de criar dificuldades aos que se aproximam de nós. E a igreja-mãe de Jerusalém é enfática: “Decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo”. A desgraça do fundamentalismo de todos os tempos é a pretensão de impor cargas opressoras inúteis e de acrescentar ao jugo libertador de Cristo, um jugo suplementar e opressor feito de bagatelas. São estes os nostálgicos enfermos das “coisas de antes” e seu pecado original é a incapacidade de se abrirem às iniciativas renovadoras do Espírito. Estão sempre atrasados em relação aos acontecimentos e, consequentemente, às ações de Deus na história. Cristo pede uma conversão total da mentalidade e nos ordena “deixar!”, “perder” e “libertar”. Lucas nos faz saber que o novo santuário é o corpo ressuscitado de Cristo, sem nenhuma mediação do Templo do Antigo Testamento que fazia a intermediação entre Deus e o seu povo. O Cristo ressuscitado, o Vivente, é, ao mesmo tempo, o ponto de conjunção da humanidade com Deus e o ponto de união da humanidade inteira. As igrejas, pelo seu triunfalismo, não podem vender como “esplendor celeste” as luzes do êxito e do prestígio humano que cegam. O itinerário histórico da Igreja não progride de uma maneira linear. O cardeal Ravasi, do Conselho Pontifício para a Cultura, resume as virtudes da Igreja nestas leituras de hoje: “A dinâmica que impede a Igreja de ser nostálgica; a fidelidade que a impede de se desviar; a paciência que retém a precipitação; a profecia que faz compreender os sinais dos tempos; a tolerância e o diálogo que impedem a enfermidade do fundamentalismo e a esperança que a faz superar dúvidas e incertezas. Mas, sobretudo, deve prevalecer a fé no Espírito, guia último e vivo da Igreja”. Devemos acrescentar ainda a humildade como a capacidade de desaparecer para a visibilidade do Outro. Uma coisa não cabe, em nenhum momento, no rosto da Igreja de Jesus: os sinais de intolerância que desfiguram a face do Ressuscitado e cobrem de vergonha o seu Corpo Místico por todos os séculos, amém.


CONTEMPLAR

“Vós conheceis o Espírito de verdade, pois ele está em vós” (Jo 14, 17), Macha Chmakoff, Valence, França.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O Caminho da Beleza 23 - V Domingo da Páscoa



O Caminho da Beleza 23
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


V Domingo da Páscoa                          28.04.2013
At 14, 21-27                        Ap 21, 1-5                Jo 13, 31-35


ESCUTAR

“Chegando ali, reuniram a comunidade. Contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos” (At 14, 27).

“Eis que faço nova todas as coisas” (Ap 21, 5).

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13, 35).


MEDITAR

“Se ousássemos escolher em cada dia prolongar nas nossas vidas o olhar, os passos e os gestos do Cristo, nossas existências ancorariam progressivamente na alegria do mundo” (Yvon Poitras).

“Acho a vida bela e me sinto livre. Os céus se estendem dentro de mim, assim como acima de mim. Acredito em Deus e nos homens, e ouso dizer isso sem falso pudor. Uma coisa é certa: deve-se contribuir para aumentar a reserva de amor sobre esta terra. Cada migalha de ódio que se acrescenta ao ódio exorbitante que já existe torna este mundo inóspito e inabitável” (Etty Hillesum).


ORAR

         Os textos desta liturgia falam do amor fraterno que é o centro da vida da comunidade do Cristo. Este amor fraterno é um protesto da ternura do Senhor, pois o Senhor se faz presente por uma ternura acolhedora que, nos iluminando, faz nascer uma maior liberdade de ação frente às doutrinas e às normas caducas que nada têm a ver com a vida teologal – a vida de fé, esperança e amor – do povo de Deus. Desde os tempos de Jesus, os doutores da Lei não tinham autoridade, só tinham poder e com ele impunham a doutrina oficial. Temos que ter a lucidez de que nenhuma outra peculiaridade das igrejas poderá convencer o mundo da verdade e da necessidade da pessoa do Cristo e dos seus ensinamentos: o amor fraterno é o sinal indispensável do seguimento do Cristo. O eremita Ernesto Cardenal escreveu: Estas bodas de amor serão as núpcias eternas de toda a Igreja com Cristo e de cada ser particular com Cristo, porque em cada ser está reunida toda a Igreja; como o corpo de Cristo está todo completo em cada hóstia e nos corpos de todos os homens e todas as mulheres”. É o amor fraterno que nos sustenta em todas as adversidades da travessia. E por este mesmo amor podemos converter a violência do mundo, como pregava João Crisóstomo: “Não teriam convertido o mundo se não tivessem amado tanto”. A nova aliança selada por Jesus com sua vida, morte e ressurreição contempla uma única clausula e um único compromisso decisivo: o amar com um dinamismo expansivo de um amor universal cujas ondas e vibrações nos empurram cada vez mais para longe. Uma prática amorosa que não olha o mérito das pessoas; que se traduz em serviço; que valoriza a liberdade e aniquila qualquer discriminação. Um amor desarmado que se revela mais forte do que o ódio e um amor cuja visibilidade poderá ser reconhecida por qualquer pessoa que busque vibrar na mesma sintonia amorosa. Um amor alternativo às trevas e que nos revela que a utopia é possível: se Deus é Pai, os homens poderão se produzir como irmãos. É este amor que derrotará o egoísmo e o ódio, forças de destruição, e este amor está à disposição de todo aquele que pretenda, desde agora, viver “neste novo céu e nesta nova terra”. Isto permanece verdadeiro até hoje e para sempre: só vivendo o amor fraterno é que uma comunidade pode anunciar o Evangelho ao mundo. O nosso coração foi feito para viver na alegria e na ternura de conhecer e amar a Deus no outro. Quando e onde houver amor haverá uma vida divina pulsando e a sua atração será irresistível. O evangelista João afirma que o Cristo disse: “Já não vos chamo servos...mas amigos” (Jo 15, 15) e o nosso mano Pedro Sol nos alerta: “O Cristo nos ensina a ter, desde agora, saudades dos amigos que ainda vamos conhecer e que nos trazem uma doce inquietude ao coração, como uma nostalgia do futuro”. Quem quiser e puder entender, que entenda!

        
CONTEMPLAR
Ele tomou o pão, deu graças e o partiu...(Lc 24), Salvador Dalí, 1967, aquarela e técnica mista, 35 x 48 cm, Coleção Bíblia Sacra, Canto V/101, Milão, Itália.