quinta-feira, 25 de abril de 2013

O Caminho da Beleza 23 - V Domingo da Páscoa



O Caminho da Beleza 23
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


V Domingo da Páscoa                          28.04.2013
At 14, 21-27                        Ap 21, 1-5                Jo 13, 31-35


ESCUTAR

“Chegando ali, reuniram a comunidade. Contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos” (At 14, 27).

“Eis que faço nova todas as coisas” (Ap 21, 5).

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13, 35).


MEDITAR

“Se ousássemos escolher em cada dia prolongar nas nossas vidas o olhar, os passos e os gestos do Cristo, nossas existências ancorariam progressivamente na alegria do mundo” (Yvon Poitras).

“Acho a vida bela e me sinto livre. Os céus se estendem dentro de mim, assim como acima de mim. Acredito em Deus e nos homens, e ouso dizer isso sem falso pudor. Uma coisa é certa: deve-se contribuir para aumentar a reserva de amor sobre esta terra. Cada migalha de ódio que se acrescenta ao ódio exorbitante que já existe torna este mundo inóspito e inabitável” (Etty Hillesum).


ORAR

         Os textos desta liturgia falam do amor fraterno que é o centro da vida da comunidade do Cristo. Este amor fraterno é um protesto da ternura do Senhor, pois o Senhor se faz presente por uma ternura acolhedora que, nos iluminando, faz nascer uma maior liberdade de ação frente às doutrinas e às normas caducas que nada têm a ver com a vida teologal – a vida de fé, esperança e amor – do povo de Deus. Desde os tempos de Jesus, os doutores da Lei não tinham autoridade, só tinham poder e com ele impunham a doutrina oficial. Temos que ter a lucidez de que nenhuma outra peculiaridade das igrejas poderá convencer o mundo da verdade e da necessidade da pessoa do Cristo e dos seus ensinamentos: o amor fraterno é o sinal indispensável do seguimento do Cristo. O eremita Ernesto Cardenal escreveu: Estas bodas de amor serão as núpcias eternas de toda a Igreja com Cristo e de cada ser particular com Cristo, porque em cada ser está reunida toda a Igreja; como o corpo de Cristo está todo completo em cada hóstia e nos corpos de todos os homens e todas as mulheres”. É o amor fraterno que nos sustenta em todas as adversidades da travessia. E por este mesmo amor podemos converter a violência do mundo, como pregava João Crisóstomo: “Não teriam convertido o mundo se não tivessem amado tanto”. A nova aliança selada por Jesus com sua vida, morte e ressurreição contempla uma única clausula e um único compromisso decisivo: o amar com um dinamismo expansivo de um amor universal cujas ondas e vibrações nos empurram cada vez mais para longe. Uma prática amorosa que não olha o mérito das pessoas; que se traduz em serviço; que valoriza a liberdade e aniquila qualquer discriminação. Um amor desarmado que se revela mais forte do que o ódio e um amor cuja visibilidade poderá ser reconhecida por qualquer pessoa que busque vibrar na mesma sintonia amorosa. Um amor alternativo às trevas e que nos revela que a utopia é possível: se Deus é Pai, os homens poderão se produzir como irmãos. É este amor que derrotará o egoísmo e o ódio, forças de destruição, e este amor está à disposição de todo aquele que pretenda, desde agora, viver “neste novo céu e nesta nova terra”. Isto permanece verdadeiro até hoje e para sempre: só vivendo o amor fraterno é que uma comunidade pode anunciar o Evangelho ao mundo. O nosso coração foi feito para viver na alegria e na ternura de conhecer e amar a Deus no outro. Quando e onde houver amor haverá uma vida divina pulsando e a sua atração será irresistível. O evangelista João afirma que o Cristo disse: “Já não vos chamo servos...mas amigos” (Jo 15, 15) e o nosso mano Pedro Sol nos alerta: “O Cristo nos ensina a ter, desde agora, saudades dos amigos que ainda vamos conhecer e que nos trazem uma doce inquietude ao coração, como uma nostalgia do futuro”. Quem quiser e puder entender, que entenda!

        
CONTEMPLAR
Ele tomou o pão, deu graças e o partiu...(Lc 24), Salvador Dalí, 1967, aquarela e técnica mista, 35 x 48 cm, Coleção Bíblia Sacra, Canto V/101, Milão, Itália.



segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Caminho da Beleza 22 - IV Domingo da Páscoa


O Caminho da Beleza 22
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

IV Domingo de Páscoa                         21.04.2013
At 13, 14.43-52                  Ap 7, 9.14-17                      Jo 10, 27-30


ESCUTAR

“Então, com muita coragem, Paulo e Barnabé declararam: ‘Era preciso anunciar a palavra de Deus primeiro a vós. Mas como a rejeitais e vos considerais indignos da vida eterna, sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos’ (...) Os pagãos  ficaram muito contentes quando ouviram isso e glorificavam a palavra do Senhor”(At 13, 46.48).

“Porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos” (Ap 7, 17).

“As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10, 27).


MEDITAR

“Jesus lutou por valores, valores humanos. Quando Jesus fala do que Deus quer para o ser humano, nunca fala de práticas religiosas. A passagem tão conhecida de Mateus que diz: ‘tive fome, tive sede, estive doente’ é um testemunho disto” (Juan Antonio Estrada).

Deus só se comunica plenamente e suavemente a um coração despojado de tudo” (São João da Cruz).


ORAR

A figura do Pastor marca a liturgia de hoje e dois verbos dão o seu sentido profundo. Da parte do pastor: “conhecer” e da parte das ovelhas: “escutar e seguir”. Jesus afirma conhecer cada um de nós, aos seus olhos e coração, não como um ser genérico, nem como uma minúscula parte de um todo, mas como um absoluto único e intransferível. Escutar a voz não é apenas ouvir a Palavra, é também conquistar uma relação íntima e estreita com a pessoa amada. A voz exprime uma chamada, um convite com um timbre pessoal, inconfundível, capaz de provocar uma ressonância interior que nunca se repete em quem a percebe. Escutar a voz implica uma ligação de pertença recíproca numa atmosfera de liberdade e espontaneidade. A imagem do Pastor é unida a do Cordeiro uma vez que Ele jamais se distancia do rebanho, faz o mesmo caminho, enfrenta os mesmos riscos e partilha suas vidas em todos os momentos. Ele faz-se caminho sempre. O povo de Deus não é poupado de nenhuma prova ou desafio. Não é privilegiado, mas amado. Só pode desfrutar da tenda aquele que sabe, por experiência, o que é o deserto. Nossas igrejas devem ter a lucidez de que os pastores que não vivem o seu ministério como uma relação pessoal cotidiana, como aquele que serve (Lc 22, 27), podem acabar se reduzindo a meros funcionários. A relação autêntica se alimenta de uma presença, mas também de uma escuta, de uma partilha do amor e da total dedicação até o dom de sua vida. O papa Bento XVI nos exortava: “A mística do sacramento da eucaristia tem um caráter social, porque a união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-Lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou se tornarão seus” (Sacramentum Caritatis 89). A missão profética da Igreja de Jesus é a de ser uma Igreja pobre com os pobres e não continuar a ser uma pobre Igreja rica que socorre os pobres. Meditemos as palavras do Papa Paulo VI ao encerrar o Concílio Vaticano II em sete de dezembro de 1965: “No rosto de todos os seres humanos, especialmente quando marcado pelas lágrimas e pela dor, brilha a face de Cristo (cf. Mt 25, 40)”.


CONTEMPLAR
A ovelha perdida, Jan Goris, óleo sobre tela, s. d., Bruxelas, Bélgica.

domingo, 7 de abril de 2013

O Caminho da Beleza 21 - III Domingo da Páscoa


O Caminho da Beleza 21
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

III Domingo da Páscoa                                    14.04.2013
At 5, 27-32.40-41                         Ap 5, 11-14              Jo 21, 1-19


ESCUTAR

“Então mandaram açoitar os apóstolos e proibiram que eles falassem em nome de Jesus, e depois os soltaram. Os apóstolos saíram do conselho, muito contentes por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do nome de Jesus” (At 5, 40-41).

“O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor” (Ap 5, 12).

“Moços, tendes alguma coisa para comer?” (Jo 21, 5).


MEDITAR

“A relação com Deus torna possível o impossível” (Soeur Emmanuelle).

“O segredo para ser sempre jovem, e permanecê-lo ainda que os anos passem marcando o corpo, o segredo da eterna juventude da alma, é o de se ter uma causa a qual consagrar a sua vida” (D. Hélder Câmara).


ORAR


Neste domingo, diferente do episódio com Tomé que se desenvolveu no interior de uma casa, com as portas fechadas, estamos ao ar livre: encontramos a comunidade eclesial em atitude de missão. Na paisagem familiar do lago Tiberíades, a barca e os pescadores parecem repetir o contexto da primeira chamada três anos antes. Desta vez, no entanto, Jesus não é simplesmente o Mestre, mas o Senhor e a fé pascal nos permite reconhecê-Lo. As ocupações mais ordinárias podem ser veículos para a difusão da mensagem evangélica e o estar junto dos discípulos indica que a missão é sempre comunitária e não um gesto isolado e autônomo. E a luz do Ressuscitado vence a noite e toda a auto-suficiência que conduz ao fracasso e à infelicidade. Faltam os peixes porque falta a união com Ele. Não podemos nos esquecer da advertência do Cristo: “Sem mim não podeis fazer nada” (Jo 15, 5). Jesus lhes revela à luz do novo dia o fracasso do seu trabalho noturno: “Moços, tendes alguma coisa para comer?”. A pesca abundante se converte no fruto da generosidade divina e não do trabalho dos homens. É João quem diz a Pedro: “É o Senhor!” e, mais uma vez, é o amor quem vê melhor e chega primeiro. Pedro demora a compreender e na sua impetuosidade se atira nu nas águas decidido a ser o primeiro a encontrar o Senhor. A sua nudez significa que ele ainda não vestira a veste do discípulo para fazer o que Jesus fez: cingir-se com a toalha e lavar os pés dos outros. Jesus, apesar de ter acendido as brasas e colocado peixes e pão para assar, revela, ao pedir que os discípulos trouxessem mais peixes, que Ele necessita do agir da comunidade. Não tem sentido e nem razão de ser comer com Ele se não nos entregarmos em favor dos outros. A indagação do Ressuscitado a Pedro sobre o seu amor para com Ele desvela que a qualidade do amor é proporcional à responsabilidade do serviço. O evangelista, ao mostrar a unidade profunda entre o ministério e o amor, entre Pedro e João, revela que sem amor o ministério pode se tornar agressivo e ditatorial. João, o discípulo amado, continuará, até o fim dos tempos, íntegro na sua lealdade e velando para que a Igreja de Jesus, apascentada por Pedro, não esmoreça, por omissão ou covardia, no seu amor incondicional aos outros. Peçamos ao Cristo com as palavras emprestadas do poeta Maiakóvski: “Ressuscita-me ainda que mais não seja porque sou poeta e ansiava o futuro. Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano, ressuscita-me por isso. Ressuscita-me quero acabar de viver o que me cabe, minha vida, para que não mais existam amores servis. Ressuscita-me para que ninguém mais tenha que sacrificar-se por uma casa, um buraco. Ressuscita-me para que a partir de hoje a família se transforme e o pai seja pelo menos o universo e a mãe seja no mínimo a terra”.


CONTEMPLAR

A Ressurreição, Matthias Grünewald, 1515, painel à direita do Retábulo de Isenheim, óleo sobre madeira, 269 cm x 307 cm, Museu de Uterlinden, Colmar, França.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Caminho da Beleza 20 - II Domingo da Páscoa


O Caminho da Beleza 20
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


II Domingo de Páscoa                          07.04.2013
At 5, 12-16               Ap 1, 9-13                Jo 20, 19-31


ESCUTAR

“Chegavam a transportar para as praças os doentes em camas e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra tocasse alguns deles” (At 5, 15).


 “Não tenhas medo. Eu sou o primeiro e o último, aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre” (Ap 19, 17-18).

“Bem aventurados os que creram sem terem visto” (Jo 20, 29).


MEDITAR

“Quando pensamos em salvação, pensamos sempre no além, em algo depois da morte. Mas, a salvação começa no aqui e agora da história. E a salvação no aqui e agora se traduz em viver a vida de uma forma que vale a pena” (Juan Antonio Estrada).

“Ele é Tudo: quando julga, é Lei; quando ensina, Verbo; quando salva, Graça; quando engendra, Pai; quando é engendrado, Filho; quando sofre, Cordeiro; quando é sepultado, Homem; quando ressuscita, Deus. Tal é Jesus Cristo! A Ele a glória nos séculos. Amém!” (Méliton de Sardes).


ORAR

A aparição do Cristo no livro do Apocalipse não é para a morte, mas para a vida: Ele é o Vivente, a fonte da vida. Ele não está confinado ao passado, mas é o Cristo hoje e sempre: “Estive morto, mas agora estou vivo para sempre e tenho as chaves da morte”. O Ressuscitado caminha com a Igreja também no meio das trevas e das tempestades as mais violentas. A Igreja antes de ser um lugar de culto, da doutrina, da moral e da própria religião é, essencialmente, o lugar da fé no Cristo ressuscitado. O evangelista revela mais um elemento vital para a comunidade eclesial: o crescimento na fé. Não só Tomé, mas também os outros discípulos têm dificuldade para crer. O evangelista concentra em Tomé esta resistência à fé, porque ela não é fruto de uma fácil exaltação, mas representa uma vitória que o próprio Ressuscitado deve conseguir sobre a dúvida que paralisou seus amigos e discípulos. Toda comunidade eclesial, de todos os lugares e tempos, chega progressivamente, em meio a dúvidas, perplexidades, proscrições, ao grito de fé de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. As igrejas estão encarregadas de uma pedagogia de fé como uma mera planificação com esquemas obrigatórios, com tempos previstos de “amadurecimento” rigidamente pré-fixados. A fé é obra do Espírito no coração de cada homem e não o produto de uma cadeia de montagem. Devemos considerar os ritmos, as exigências e os itinerários de cada um. Crescer na fé não significa adestramentos, mas a dinâmica original e pessoal que nos conduzirá a meta única de confessar: “Meu Senhor e meu Deus!”. A comunidade eclesial deve, prioritariamente, acolher os que buscam, questionam, lutam, se debatem nas incertezas e perseguem, aos tropeções, um raio de luz. É uma busca dolorosa que pode ser mais autêntica que a posse de uma certeza que provoca a acomodação e a esclerose. Na comunidade eclesial, há espaço para os que chegam primeiro, mas, sobretudo, para os retardatários como Tomé. A comunidade eclesial deve manter suas portas escancaradas para todos e nunca mais fechadas para preservar os que se consideram “perfeitos na fé”. A advertência nos é, cotidianamente, lançada: “Crês que Deus existe? Muito bem! Também os demônios creem e tremem de medo” (Tg 2, 19). Meditemos as palavras de Etty Hillesum morta em novembro de 1943 em Auschwitz: “Uma coisa, porém, torna-se mais evidente para mim: que Tu não podes nos ajudar, mas que somos nós que devemos Te ajudar, e desse modo ajudamos a nós mesmos. A única coisa que podemos salvar nestes tempos, e também a única que realmente importa, é um pequeno pedaço de Ti em nós mesmos, meu Deus. E talvez possamos contribuir para desenterrar-Te dos corações de outros homens. Cabe a nós Te ajudar, defender até o fim a Tua casa em nós”.


CONTEMPLAR

Ressurreição, Marc Chagall, 1937, do tríptico “Resistência, Ressurreição, Liberação” (1937-1952), óleo sobre tela, 168 cm x 108 cm, Museu Nacional Marc Chagall, Nice, França.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Caminho da Beleza 19 - Páscoa da Ressurreição


O Caminho da Beleza 19
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Páscoa da Ressurreição                      31.03.2013
At 10, 34.37-43                 Cl 3, 1-4                   Jo 20, 1-9


ESCUTAR


“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder” (At 10, 37).


“Irmãos, se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Cl 3, 1-2).

“De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20, 9).


MEDITAR

“Por isso, Ele denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que quer aparecer, as atitudes que buscam aplauso e aprovação. O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou ao ‘público’, mas ao seu Senhor, na simplicidade e na generosidade” (Bento XVI, Homilia da Quarta Feira de Cinzas, 13.02.2013).

“Não há saídas milagrosas. Não há respostas claras. Não há caminhos feitos. Não haverá nunca deste lado da morte, uma definitiva paz. Viver é arriscar-se, abrir caminhos às escuras” (D. Pedro Casaldaliga).


ORAR

Este domingo da Ressurreição é um convite para rompermos os limites dos nossos grupos, cenáculos, movimentos, para que nos misturemos às pessoas comuns, unamos nossas vozes com os anônimos e com os desafinados. É sabermos viver como um mortal comum, mas na liberdade do Ressuscitado. Hoje, basta de polêmicas e excomunhão; de intolerâncias e discriminações; de rasuras e miopias. Hoje, aconteceu algo novo e devemos disponibilizar esta novidade para todos. Deixemos, por um instante apenas, de sermos estorvos, obstáculos e impedimentos. Removamos a pesada pedra do nosso coração e deixemos o sol entrar na caverna obscura em que tramamos nossas dissimulações cotidianas. Hoje, devemos anunciar e não doutrinar; devemos testemunhar e não inventar moralismos que impedem o contágio da alegria e da luz. Hoje, devemos ser capazes de firmar um compromisso de fraternidade e de paz. Neste domingo, é preciso não trapacear com a fé, não blefar com a esperança e, muito menos, enganar e mentir sobre o amor. O Ressuscitado oferece a todos as possibilidades de uma vida verdadeira ao aniquilar as mentiras em que chafurdamos nossa existência: proclamamos religião e pensamos em dinheiro; dizemos igreja e digladiamos com unhas e dentes por carreiras bem sucedidas; anunciamos serviço e buscamos privilégios; arrotamos moralidades e somos doutores em escapatórias e evasões sutis. Hoje, é preciso resgatar o pudor perdido e deixarmos de sequestrar o coração por interesses espúrios e sem escrúpulos. Hoje, o Cristo ressuscitou nu, transfigurado em amor e luz: “Pedro viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte”. Hoje, somos chamados a nos colocar em movimento, a ser companheiros de aventura para criar novos mundos, para gerar novos homens e mulheres e não continuarmos a ser os guardiões imóveis e estéreis de túmulos vazios; de arquivos cheios de pó, de códigos bolorentos e de pilhas de papéis mofados. Não podemos buscar o Ressuscitado onde Ele não está: nas batalhas, nas guerras, nas corrupções, nos ritos sonolentos ou estridentes, nas litanias vazias e nas liturgias mumificadas. O Cristo não está entre os mortos ainda que caminhem, se ajoelhem e deem esmolas poucas do muito que lhes sobra. Neste domingo, ao menos uma vez ao ano, devemos abrir nossos ouvidos para escutar o falar da vida, da paz, do perdão mais forte do que a vingança, do amor que derrota a indiferença e da luz que coloca em crise as tramas das trevas. Hoje, o poeta é enfático: “Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração”(Drummond). Hoje, o desvario das mulheres só existe para os que desejam que o Cristo permaneça no sepulcro para legitimar a resignação de viver encerrados em seus medos. Hoje, agora e sempre, devemos gravar como um grito em nossos corpos a estupefação desafiadora: “Por que procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou”(Lc 24, 5).

CONTEMPLAR

Anastasis, Arcabas (Jean-Marie Pirot), 2003, óleo sobre tela, ouro fino 23 quilates, 1,62 m x 1,35 m, Saint-Pierre-de-Chartreuse, França.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Caminho da Beleza 18 - Domingo de Ramos


O Caminho da Beleza 18
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Domingo de Ramos                   24.03.2013
Is 50, 4-7                 Fl 2, 6-11                 Lc 23, 1-49


ESCUTAR

“Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas” (Is 50, 6).

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2, 6).


“E Jesus deu um forte grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Dizendo isso, expirou” (Lc 23, 46).


MEDITAR

“Amanhã, quando você estiver prostrado no chão da capela, faça só uma oração ao Espírito Santo. Peça a Ele que desperte em você o anticlericalismo dos santos” (De Lubac para Abbé Pierre).

“Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato do casamento importa mais que o amor, o funeral mais do que o morto, a roupa mais do que o corpo e a missa mais do que Deus” (Eduardo Galeano).


ORAR

As leituras deste domingo que antecedem o relato da paixão aniquilam todo tom triunfalista da entrada de Jesus em Jerusalém. Elas nos falam de humilhação, de rebaixamento e de despojamento. O Servo de Deus não é apresentado como um mestre da sabedoria, mas Aquele que mantém a sua fidelidade à Palavra que escuta e transmite para os outros. Por esta fidelidade é perseguido, insultado, ultrajado e assassinado. O Senhor forja o seu profeta dando-lhe uma língua afiada e abrindo o seu ouvido. O profeta, essencialmente, é um homem da escuta e o que, no meio dos sofrimentos mais atrozes, experimenta a ajuda do Senhor que se revela mais forte do que a dor. É esta experiência da dor que o capacita a levar uma palavra de consolo aos seus irmãos e irmãs. Neste domingo de Ramos, comungar o Corpo de Cristo significa comungar um corpo traído, ferido, escarnecido e torturado. Comungar este Corpo significa aceitar e receber tudo o que este Ele padeceu, mas também comungar um Corpo ressuscitado que nos manifesta que o amor consegue a vitória sobre a traição, a violência e as humilhações. Para uma verdadeira comunidade cristã significará sempre assimilar a Sua força de amor e a Sua capacidade de perdão. Neste domingo de Ramos, é-nos revelado que Jesus se dá e Judas trai; no entanto, o mais vital é que o dom chega antes da traição. Aquele que trai está sempre atrasado, pois o dom o antecedeu. Trair e entregar são sinônimos: “Satanás entrou em Judas, apelidado Iscariotes, um dos doze. Ele foi combinar com os sumos sacerdotes e os guardas um modo de entregá-lo. Eles se alegraram e se comprometeram a dar-lhe dinheiro. Ele aceitou e andava procurando uma ocasião para entregá-lo, longe da multidão” (Lc 22, 3- 6). A perversidade dos homens jamais conseguirá ter a primazia sobre a misericórdia de Deus. Judas chegou, sem atraso, uma única vez: quando foi se enforcar. O seu fim foi provocado pela sua pressa. Os cristãos devem ter a lucidez de que a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo torna a fuga impossível, pois cria um vínculo de compromisso de se fazer presente em qualquer lugar onde alguém sofre. Não temos o direito de usurpar este Corpo e Sangue ao comungarmos para cumprir meros preceitos e em seguida ficarmos ausentes desta Presença. Condenamo-nos, como Judas, se apenas sentarmos à mesa e comungarmos, pretensiosamente, uma ausência ao recusarmos a dinâmica do amor que nos conduz ao enfrentamento da obscuridade. A Eucaristia além de estar com Ele é deixar-se conduzir por Ele; não é ter, mas dar-se. A presença real nunca será relaxante e tranquilizadora, mas uma presença que nos leva a perder a nossa vida e a comungar com o sofrimento do mundo.


CONTEMPLAR

Entrada em Jerusalém, Ermone Zabel Martaian, 2002, ícone, óleo sobre vidro, Budapeste, Hungria.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O Caminho da Beleza 17 - V Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 17
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


V Domingo da Quaresma                   17.03.2013
Is 43, 16-21             Fl 3, 8-14                 Jo 8, 1-11


ESCUTAR

“Eis que farei coisas novas e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?” (Is 43, 19).

“Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” (Fl 3, 13).

“Então Jesus lhe disse: Eu também não te condeno. Podes ir e, de agora em diante, não peques mais” (Jo 8,11).


MEDITAR

“Como Cristo morreu por todos (Rm 8, 32) todos são chamados a participar da mesma vida divina” (Gaudium et Spes 22/1389).

“Digo não a um estilo de vida marcado pelas “manias”, pelas “disputas”, pelas “astúcias” em detrimento do zelo evangélico e da qualidade de vida da comunidade” (Abbé Pierre, 1939).


ORAR

As leituras de hoje têm um tema em comum: Deus como produtor da novidade. O Senhor é aquele que sempre faz uma coisa nova. E a novidade nunca pode ser separada do risco. Não se dão explicações velhas para os novos desafios: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos” e nem existe uma única e segura resposta que seja válida para todos os casos. Para cada desafio existem várias respostas e elas sempre deverão ser dadas por plenitude e nunca por carência. A resposta dada apressadamente e por carência se converterá em fracasso, aumentará a desilusão e a angústia e poderá se transformar num caminho sem volta. O Senhor mostra que o caminho se descobre caminhando; sua revelação só chega quando nos colocamos em movimento nele e não antes. Paulo reafirma esta dinâmica: “esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” e a novidade é sustentada pela esperança e não por uma entorpecida e restrita acomodação. É inútil parar para termos a certeza de que estávamos caminhando assim como é inútil afirmar certezas para garantir que acreditamos. O Senhor nos faz saber que a fé não se possui, mas que somos possuídos e alcançados por Alguém. O evangelho revela esta novidade por meio da contraposição entre as exigências implacáveis da Lei e a estratégia de misericórdia traçada por Jesus. Os acusadores negam à mulher a possibilidade de um novo começar e querem, com pedras, não só sepultar o passado desta pecadora, mas ela própria. Cristo, com seu perdão, liquida definitivamente o passado e entrega à mulher um futuro imaculado a ser construído por ela mesma. O castigo dos algozes se tornou estéril, pois a não condenação pelo Cristo reinventa a vida. As frias exigências se gravam sobre a pedra, mas a misericórdia não está escrita sobre nenhuma matéria dura. A nova lei – a do amor – se traça no terreno maleável do coração, sobre a tenra e terna carne da terra. Resta apenas matar a nossa curiosidade de saber o que escrevia Jesus, com o dedo, no chão do Templo. Jesus escrevia a condenação aos escribas e fariseus e continua até hoje escrevendo em silêncio aos moralistas de plantão que se evadem e se esquivam da barbárie do mundo degenerado que construíram: “As meretrizes vos precedem no Reino do meu Pai (Mt 21, 31).

CONTEMPLAR

A mulher apanhada em adultério, William Blake, c. 1805, pena e aquarela em grafite sobre papel, 35,6 x 36,8 cm, Museum of Fine Arts, Boston, Estados Unidos.