segunda-feira, 25 de março de 2013

O Caminho da Beleza 19 - Páscoa da Ressurreição


O Caminho da Beleza 19
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Páscoa da Ressurreição                      31.03.2013
At 10, 34.37-43                 Cl 3, 1-4                   Jo 20, 1-9


ESCUTAR


“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder” (At 10, 37).


“Irmãos, se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Cl 3, 1-2).

“De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20, 9).


MEDITAR

“Por isso, Ele denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que quer aparecer, as atitudes que buscam aplauso e aprovação. O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou ao ‘público’, mas ao seu Senhor, na simplicidade e na generosidade” (Bento XVI, Homilia da Quarta Feira de Cinzas, 13.02.2013).

“Não há saídas milagrosas. Não há respostas claras. Não há caminhos feitos. Não haverá nunca deste lado da morte, uma definitiva paz. Viver é arriscar-se, abrir caminhos às escuras” (D. Pedro Casaldaliga).


ORAR

Este domingo da Ressurreição é um convite para rompermos os limites dos nossos grupos, cenáculos, movimentos, para que nos misturemos às pessoas comuns, unamos nossas vozes com os anônimos e com os desafinados. É sabermos viver como um mortal comum, mas na liberdade do Ressuscitado. Hoje, basta de polêmicas e excomunhão; de intolerâncias e discriminações; de rasuras e miopias. Hoje, aconteceu algo novo e devemos disponibilizar esta novidade para todos. Deixemos, por um instante apenas, de sermos estorvos, obstáculos e impedimentos. Removamos a pesada pedra do nosso coração e deixemos o sol entrar na caverna obscura em que tramamos nossas dissimulações cotidianas. Hoje, devemos anunciar e não doutrinar; devemos testemunhar e não inventar moralismos que impedem o contágio da alegria e da luz. Hoje, devemos ser capazes de firmar um compromisso de fraternidade e de paz. Neste domingo, é preciso não trapacear com a fé, não blefar com a esperança e, muito menos, enganar e mentir sobre o amor. O Ressuscitado oferece a todos as possibilidades de uma vida verdadeira ao aniquilar as mentiras em que chafurdamos nossa existência: proclamamos religião e pensamos em dinheiro; dizemos igreja e digladiamos com unhas e dentes por carreiras bem sucedidas; anunciamos serviço e buscamos privilégios; arrotamos moralidades e somos doutores em escapatórias e evasões sutis. Hoje, é preciso resgatar o pudor perdido e deixarmos de sequestrar o coração por interesses espúrios e sem escrúpulos. Hoje, o Cristo ressuscitou nu, transfigurado em amor e luz: “Pedro viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte”. Hoje, somos chamados a nos colocar em movimento, a ser companheiros de aventura para criar novos mundos, para gerar novos homens e mulheres e não continuarmos a ser os guardiões imóveis e estéreis de túmulos vazios; de arquivos cheios de pó, de códigos bolorentos e de pilhas de papéis mofados. Não podemos buscar o Ressuscitado onde Ele não está: nas batalhas, nas guerras, nas corrupções, nos ritos sonolentos ou estridentes, nas litanias vazias e nas liturgias mumificadas. O Cristo não está entre os mortos ainda que caminhem, se ajoelhem e deem esmolas poucas do muito que lhes sobra. Neste domingo, ao menos uma vez ao ano, devemos abrir nossos ouvidos para escutar o falar da vida, da paz, do perdão mais forte do que a vingança, do amor que derrota a indiferença e da luz que coloca em crise as tramas das trevas. Hoje, o poeta é enfático: “Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração”(Drummond). Hoje, o desvario das mulheres só existe para os que desejam que o Cristo permaneça no sepulcro para legitimar a resignação de viver encerrados em seus medos. Hoje, agora e sempre, devemos gravar como um grito em nossos corpos a estupefação desafiadora: “Por que procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou”(Lc 24, 5).

CONTEMPLAR

Anastasis, Arcabas (Jean-Marie Pirot), 2003, óleo sobre tela, ouro fino 23 quilates, 1,62 m x 1,35 m, Saint-Pierre-de-Chartreuse, França.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Caminho da Beleza 18 - Domingo de Ramos


O Caminho da Beleza 18
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Domingo de Ramos                   24.03.2013
Is 50, 4-7                 Fl 2, 6-11                 Lc 23, 1-49


ESCUTAR

“Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas” (Is 50, 6).

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2, 6).


“E Jesus deu um forte grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Dizendo isso, expirou” (Lc 23, 46).


MEDITAR

“Amanhã, quando você estiver prostrado no chão da capela, faça só uma oração ao Espírito Santo. Peça a Ele que desperte em você o anticlericalismo dos santos” (De Lubac para Abbé Pierre).

“Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato do casamento importa mais que o amor, o funeral mais do que o morto, a roupa mais do que o corpo e a missa mais do que Deus” (Eduardo Galeano).


ORAR

As leituras deste domingo que antecedem o relato da paixão aniquilam todo tom triunfalista da entrada de Jesus em Jerusalém. Elas nos falam de humilhação, de rebaixamento e de despojamento. O Servo de Deus não é apresentado como um mestre da sabedoria, mas Aquele que mantém a sua fidelidade à Palavra que escuta e transmite para os outros. Por esta fidelidade é perseguido, insultado, ultrajado e assassinado. O Senhor forja o seu profeta dando-lhe uma língua afiada e abrindo o seu ouvido. O profeta, essencialmente, é um homem da escuta e o que, no meio dos sofrimentos mais atrozes, experimenta a ajuda do Senhor que se revela mais forte do que a dor. É esta experiência da dor que o capacita a levar uma palavra de consolo aos seus irmãos e irmãs. Neste domingo de Ramos, comungar o Corpo de Cristo significa comungar um corpo traído, ferido, escarnecido e torturado. Comungar este Corpo significa aceitar e receber tudo o que este Ele padeceu, mas também comungar um Corpo ressuscitado que nos manifesta que o amor consegue a vitória sobre a traição, a violência e as humilhações. Para uma verdadeira comunidade cristã significará sempre assimilar a Sua força de amor e a Sua capacidade de perdão. Neste domingo de Ramos, é-nos revelado que Jesus se dá e Judas trai; no entanto, o mais vital é que o dom chega antes da traição. Aquele que trai está sempre atrasado, pois o dom o antecedeu. Trair e entregar são sinônimos: “Satanás entrou em Judas, apelidado Iscariotes, um dos doze. Ele foi combinar com os sumos sacerdotes e os guardas um modo de entregá-lo. Eles se alegraram e se comprometeram a dar-lhe dinheiro. Ele aceitou e andava procurando uma ocasião para entregá-lo, longe da multidão” (Lc 22, 3- 6). A perversidade dos homens jamais conseguirá ter a primazia sobre a misericórdia de Deus. Judas chegou, sem atraso, uma única vez: quando foi se enforcar. O seu fim foi provocado pela sua pressa. Os cristãos devem ter a lucidez de que a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo torna a fuga impossível, pois cria um vínculo de compromisso de se fazer presente em qualquer lugar onde alguém sofre. Não temos o direito de usurpar este Corpo e Sangue ao comungarmos para cumprir meros preceitos e em seguida ficarmos ausentes desta Presença. Condenamo-nos, como Judas, se apenas sentarmos à mesa e comungarmos, pretensiosamente, uma ausência ao recusarmos a dinâmica do amor que nos conduz ao enfrentamento da obscuridade. A Eucaristia além de estar com Ele é deixar-se conduzir por Ele; não é ter, mas dar-se. A presença real nunca será relaxante e tranquilizadora, mas uma presença que nos leva a perder a nossa vida e a comungar com o sofrimento do mundo.


CONTEMPLAR

Entrada em Jerusalém, Ermone Zabel Martaian, 2002, ícone, óleo sobre vidro, Budapeste, Hungria.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O Caminho da Beleza 17 - V Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 17
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


V Domingo da Quaresma                   17.03.2013
Is 43, 16-21             Fl 3, 8-14                 Jo 8, 1-11


ESCUTAR

“Eis que farei coisas novas e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?” (Is 43, 19).

“Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” (Fl 3, 13).

“Então Jesus lhe disse: Eu também não te condeno. Podes ir e, de agora em diante, não peques mais” (Jo 8,11).


MEDITAR

“Como Cristo morreu por todos (Rm 8, 32) todos são chamados a participar da mesma vida divina” (Gaudium et Spes 22/1389).

“Digo não a um estilo de vida marcado pelas “manias”, pelas “disputas”, pelas “astúcias” em detrimento do zelo evangélico e da qualidade de vida da comunidade” (Abbé Pierre, 1939).


ORAR

As leituras de hoje têm um tema em comum: Deus como produtor da novidade. O Senhor é aquele que sempre faz uma coisa nova. E a novidade nunca pode ser separada do risco. Não se dão explicações velhas para os novos desafios: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos” e nem existe uma única e segura resposta que seja válida para todos os casos. Para cada desafio existem várias respostas e elas sempre deverão ser dadas por plenitude e nunca por carência. A resposta dada apressadamente e por carência se converterá em fracasso, aumentará a desilusão e a angústia e poderá se transformar num caminho sem volta. O Senhor mostra que o caminho se descobre caminhando; sua revelação só chega quando nos colocamos em movimento nele e não antes. Paulo reafirma esta dinâmica: “esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” e a novidade é sustentada pela esperança e não por uma entorpecida e restrita acomodação. É inútil parar para termos a certeza de que estávamos caminhando assim como é inútil afirmar certezas para garantir que acreditamos. O Senhor nos faz saber que a fé não se possui, mas que somos possuídos e alcançados por Alguém. O evangelho revela esta novidade por meio da contraposição entre as exigências implacáveis da Lei e a estratégia de misericórdia traçada por Jesus. Os acusadores negam à mulher a possibilidade de um novo começar e querem, com pedras, não só sepultar o passado desta pecadora, mas ela própria. Cristo, com seu perdão, liquida definitivamente o passado e entrega à mulher um futuro imaculado a ser construído por ela mesma. O castigo dos algozes se tornou estéril, pois a não condenação pelo Cristo reinventa a vida. As frias exigências se gravam sobre a pedra, mas a misericórdia não está escrita sobre nenhuma matéria dura. A nova lei – a do amor – se traça no terreno maleável do coração, sobre a tenra e terna carne da terra. Resta apenas matar a nossa curiosidade de saber o que escrevia Jesus, com o dedo, no chão do Templo. Jesus escrevia a condenação aos escribas e fariseus e continua até hoje escrevendo em silêncio aos moralistas de plantão que se evadem e se esquivam da barbárie do mundo degenerado que construíram: “As meretrizes vos precedem no Reino do meu Pai (Mt 21, 31).

CONTEMPLAR

A mulher apanhada em adultério, William Blake, c. 1805, pena e aquarela em grafite sobre papel, 35,6 x 36,8 cm, Museum of Fine Arts, Boston, Estados Unidos.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O Caminho da Beleza 16 - IV Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 16
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

Domingo da Quaresma                  10.03.2013
Js 5, 9a.10-12                    2 Cor 5, 17-21                    Lc 5, 1-3.11-32


ESCUTAR

“No dia seguinte à Páscoa, comeram dos produtos da terra, pães sem fermento e grãos tostados nesse mesmo dia. O maná cessou de cair no dia seguinte, quando comeram dos produtos da terra” (Js 5, 11-12).

“Irmãos, se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo” (2 Cor 5, 17).

“Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15, 32).


MEDITAR

“Onde dizes lei, eu digo Deus; onde dizes paz, justiça e amor, eu digo Deus! Onde dizes Deus, eu digo liberdade, justiça e amor” (D. Pedro Casaldáliga).

“O Cristo encarnado e humilhado pela morte mais infame, a morte de Cruz, é proposto aos cristãos como modelo de vida. Com efeito, estes devem ter ‘os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus’ (Fl 2, 5): sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade” (Bento XVI).


ORAR

A conversão não é um fenômeno excepcional, clamoroso, mas um dever fundamental e habitual para o cristão que deve vivê-la no cotidiano. Converter-se é ter a lucidez de que a lógica de Deus é diferente da nossa; que nossos sentimentos não vibram no mesmo acorde que os Seus e nem os nossos passos estão sincronizados com os passos do Senhor. A conversão não é um pequeno ajuste, nem um retoque de fachada, nem uma minúscula mudança que não perturba demasiado, mas uma transformação radical. A conversão é uma recusa do passado cujas misérias ficam apagadas por Deus e uma abertura ao futuro sob a insígnia da novidade e da liberdade. A parábola do pai pródigo revela a conversão como a possibilidade de perder-se e uma simpatia com os capazes de movimento e risco. Estes sempre entrarão em confronto com o orgulho paralisante dos que não tomam nenhuma iniciativa; dos que tudo esperam e exigem porque estão agrilhoados em seus pretensos direitos; dos que se consideram irrepreensíveis e por esta razão são, constitutivamente, incapazes de se converter e de realizar o menor gesto e esforço para isto. Na parábola, o irmão mais jovem é “abusado” e o mais velho um insuportável “possuidor de direitos”; nunca cometeu faltas graves, mas vive sem amor e sua farisaica justiça o amargou. É aquele que necessita de segurança e jamais trocará o certo pelo duvidoso, permanecerá imóvel até o fim da sua vida e morrerá como um triste burocrata das suas próprias “virtudes”. É aquele que sempre se afirma pela negação do outro na espera de um necrológio derradeiro que possa lhe prestar, finalmente, a “justa homenagem”. A linguagem do irmão mais velho e do pai não é a mesma. O primeiro fala de novilhos, cabras, bois, do “justo” e do “injusto”. Repete a retórica da lei, do castigo e da intransigência. O pai fala d0 filho encontrado, ressuscitado, que voltou a viver. Fala a língua do amor, do perdão, da ternura e da gratuidade. O pai ofereceu a festa ao filho que voltara, só não pôde oferecer a acolhida do irmão mais velho, pois o coração dele não estava dilatado de perdão e de bondade. Nós devemos sempre colocar à disposição de todos um coração em festa para que a nossa casa se torne, de verdade, acolhedora. Para que os que amamos não tenham medo de arriscar a liberdade de viver, de trocar o certo pelo duvidoso, pois sabem que sempre haverá dois braços que os apertarão contra o peito, numa fusão de corações, e lábios que dirão palavras de amor e os cobrirão com beijos de ternura. Está escrito que “haverá no céu mais festa por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se” (Lc 15, 7). Compreendamos, de uma vez por todas, que o Senhor ama com maior compaixão a ovelha esgarrada que retorna aos seus braços porque é ela que acaba encontrando um novo caminho para todo o rebanho.

CONTEMPLAR

O Pai que perdoa, Frank Wesley, 1998, pintura em bloco de madeira impressa em papel de seda, Índia.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O Caminho da Beleza 15 - III Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 15
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


III Domingo da Quaresma                 03.03.2013
Ex 3, 1-8.13-15                  1 Cor 10, 1-6.10.12                       Lc 13, 1-9


ESCUTAR

“Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-los das mãos dos egípcios e fazê-los sair daquele país para uma terra boa e espaçosa, uma terra onde corre leite e mel” (Ex 3, 7-8).


“Não murmureis, como alguns deles murmuraram e, por isso, foram mortos pelo anjo exterminador. Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” (1 Cor 10, 10.12).
“Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou” (Lc 13, 6).

MEDITAR

“O Reino une. A Igreja divide quando não coincide com o Reino” (D. Pedro Casaldaliga).

“Deus, que se fez Cordeiro, diz-nos que o mundo é salvo pelo Crucifixo e não pelos que crucificam. O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens” (Bento XVI).


ORAR

O Senhor se revela, sobretudo, nas ações realizadas em favor do seu povo e estas ações exigem, de nossa parte, uma resposta precisa. Não basta maravilhar-se apenas, é necessário corresponder a elas no dia a dia. Muitas vezes o orgulho habita as nossas práticas e deturpa o sentido real da vida cristã. Os sacramentos não são a garantia contra a tentação, o risco da concessão e o perigo da infidelidade. Eles não são o ponto definitivo da chegada, mas acompanham a largo caminho que devemos percorrer, passo a passo, na imperiosa busca de coerência e de verdade. Os que acreditam são itinerantes, peregrinos e permanecem firmes “como se vissem o Invisível” (Hb 11, 27). Nesta travessia, a existência cristã estará sempre ameaçada pela arrogância: “Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair”. Devemos estar alertas para não seguirmos as trilhas de uma espiritualidade irresponsável, uma vez que, a esperança não dispensa a vigilância e a confiança não exclui os olhos abertos. O Senhor vê a aflição do seu povo e está presente no mundo se não estivermos ausentes; está perto dos homens se nos fizermos próximos. Quando o Senhor se revela não é para satisfazer a curiosidade nem para facilitar informações gratuitas, mas para que assumamos o que deve ser feito. Moisés se aproxima curioso: “Vou aproximar-me desta visão extraordinária para ver por que a sarça não se consome” e a sua curiosidade se converte em missão: recebe do Senhor a ordem de libertar o seu povo da escravidão. O evangelho revela que nenhuma árvore plantada pelo Senhor é puro adorno. As figueiras e as vinhas para os israelitas eram o sinal de que um dia possuiriam a Terra Prometida e os fazia recordar o paraíso perdido. A vinha do Senhor é o povo eleito e contém algo de misterioso: ela só vale pelos frutos que produz e oferece. O Filho pede ao Pai um pouco de paciência para que o tempo do amor, que ainda será dedicado à figueira sem frutos, possa garantir a ela uma nova possibilidade. A figueira pode se tornar uma intrusa na vinha do Senhor caso não frutifique assim como a Sinagoga não criava comunidades de amor, mas relações mercantilizadas em que o dinheiro era o grande e o único ídolo. O Senhor é tão clemente que se compadece, quando nós, rompendo o orgulho, confessamos a nossa impossibilidade de dar frutos. Podemos ser atacados pelo fungo das boas intenções e pelo caruncho da acomodação que nos aprisionam num espiritualismo de fuga que confunde a vida espiritual – conduzida pela liberdade do Espírito – com uma vida interior presa dentro de si e para si. O Senhor pode até esperar que descubramos e abracemos a Cruz do Filho que é a única árvore que não trai as nossas esperanças. É a compaixão do Pai que nos permite o arrependimento e o recomeçar de cada novo dia, pois nenhuma instituição religiosa poderá colocar limites à misericórdia de Deus. Meditemos as palavras do dominicano Bruckberger: “O demônio é um puritano de finos tratos. Estou certo que o anticristo será semelhante a ele neste ponto: a sua corte será virtuosa no sentido mais vulgar e corrente do vocábulo; as esposas tricotarão para as suas obras de caridade e seus maridos beberão leite e não terão amantes, pois as verdadeiras cumplicidades com o demônio não estão no plano destes pecados ordinários”. Quem puder entender que entenda!

CONTEMPLAR

A Sarça Ardente, Shraga Weil, 1990, serigrafia n. 244/400, 107 cm x 76 cm, Israel.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Caminho da Beleza 14 - II Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 14
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


II Domingo da Quaresma                   24.02.2013
Gn 15, 5-12.17-18             Fl 3, 17- 4,1             Lc 9, 28b-36


ESCUTAR

“E, conduzindo-o para fora, disse-lhe: Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! E acrescentou: Assim será tua descendência” (Gn 15, 5).

“Há muitos por aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre, a glória deles está no que é vergonhoso. Apreciam só as coisas terrenas! Nós, ao contrário, somos cidadãos do céu” (Fl 3, 18-19).

“Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para orar. Enquanto orava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou branca e brilhante” (Lc 9, 28-29).


MEDITAR

“Devemos saber enfrentar o medo. Se paramos ou voltamos atrás estamos perdidos. Devemos discernir o momento em que contamos somente com as nossas próprias forças. Se esquecermos a confiança em Jesus estamos perdidos, assim como, se esquecermos a misteriosa atração que nos conduz a escolher um engajamento, uma pessoa, uma amizade ou quem motivou uma promessa. A vida se joga na confiança e o medo e a confiança não caminham juntos” (Cardeal Martini).

“As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam” (Madre Teresa de Calcutá).

ORAR

Os textos deste domingo descrevem a trajetória essencial da história da salvação. Tudo se inicia com a aliança feita com Abrão e esta aliança será renovada e radicalmente transformada por Jesus, o Filho escolhido do Pai. Os apóstolos poderão ver, por um instante, a glória de Jesus, o Salvador esperado que “transformará o nosso corpo humilhado, tornando-0 semelhante ao seu corpo glorioso”. Os textos são uma revelação, um tirar o véu do que é o desígnio salvífico de Deus: a revelação de um Deus fiel; a revelação da divindade de Jesus e de seu mistério pascal; a revelação do mistério do homem, peregrino na terra, mas, ao mesmo tempo, cidadão do céu. A aliança com Abrão se faz com um ritual truculento do Oriente Médio, o de passar pelos animais cortados pelo meio, pelos pássaros pequenos, para advertir que a mesma sorte trágica terá quem transgredir as cláusulas do pacto. O Senhor se compromete neste pacto, pois é o único a passar no meio dos animais e das aves estendidas para acentuar a absoluta gratuidade da Sua iniciativa. O Senhor promete um filho aos anciãos Abrão e Sara, mas, por enquanto, devem se contentar com um símbolo: uma quantidade infinita de estrelas. O Senhor promete ainda uma terra aos seus descendentes, mas, por enquanto, Abrão continuará sendo nômade, estrangeiro na terra em que pisa. A prova para Abrão é ter nas mãos, não a realidade, mas uma palavra que a garante. A fé, quando autêntica, deve atravessar, precisamente, o terreno áspero da prova. O evangelho da Transfiguração revela que ninguém pode inventar para si mesmo um caminho privado que evite o caminho do Calvário. Jesus transfigurado será dentre em pouco o Cristo desfigurado da Paixão para ser, novamente, o Jesus transfigurado da Ressurreição. Uma Igreja que não aceita esta travessia – da transfiguração à desfiguração – para encontrar o Cristo Ressuscitado, será apenas uma Igreja deslumbrada com seu próprio estômago. Uma Igreja que fabrica e vende ilusões de que podemos participar do triunfo do Ressuscitado e que considera ultrapassada a realidade da Cruz. Uma Igreja centrada no legalismo como solução de facilidade e segurança mais do que nas ásperas exigências do Cristo de amar e de perdoar. Neste dia devemos perguntar no mais íntimo de nós: “Qual é o nosso Deus? A quem amamos e servimos?”, pois dependendo da resposta saberemos onde está o nosso tesouro, pois aí estará o nosso coração (Lc 12, 34).

CONTEMPLAR
Noite estrelada sobre o Ródano, Vincent Van Gogh, 1888, óleo sobre tela, 72,5 cm x 92cm, Museu d’Orsay, Paris, França.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Caminho da Beleza 13 - I Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 13
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


I Domingo da Quaresma                     17.02.2013
Dt 26, 4-10              Rm 10, 8-13                       Lc 4, 1-13

ESCUTAR

“Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito com um punhado de gente e ali viveu como estrangeiro” (Dt 26, 5).

“Essa é a palavra da fé que pregamos. Se, pois, com tua boca confessares que Jesus é Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rm 10, 8-9).

“Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do rio Jordão e, no Espírito, era conduzido pelo deserto. Ali foi posto à prova pelo diabo, durante quarenta dias” (Lc 4, 1-2).


MEDITAR

“Ser cristão é se reconhecer salvo por Jesus, vivendo uma aventura de amizade pessoal com ele, acolhendo o amor com que nos ama, a ponto de dar sua vida por nós, e nos empenhando pessoalmente em amá-lo, vivendo entre nós no amor uns dos outros, o mesmo amor com que Jesus no ama” (Francisco Catão).

“O amor fraterno é um viaduto ligando com um só arco Deus e os homens. Este arco não se pode dividir. Como um ir e vir, ele é um e o mesmo” (Madeleine Debrêl).

ORAR

As leituras desta liturgia oferecem as três bases necessárias para a quaresma: a ação de graças, a confissão de fé e a purificação por meio da Palavra. O sacerdote oferece o cesto com as primícias: uma pequena parte da colheita. Para o Senhor não importa a quantidade, mas o significado, pois a colheita dos campos, antes de ser fruto do trabalho do homem, é dom e bênção de Deus. Ao confessarmos que Jesus é o Senhor que morreu e ressuscitou, devemos fazê-lo com a boca e com o coração numa profunda adesão pessoal. O evangelista apresenta o relato das tentações a Jesus. Elas não são propriamente de ordem moral, mas propostas claras das maneiras falsas de se compreender e viver a missão: as tentações de um atalho, de um triunfo fácil e da popularidade pelos gestos espetaculares. Jesus rechaça todas as propostas do Divisor, citando as palavras da Escritura e ratificando a sua determinação de cumprir, unicamente, o desígnio do Pai. O tempo da quaresma deve ser um tempo propício para avaliarmos e constatarmos se as nossas vidas correspondem aos desígnios do Senhor. É o tempo de purificarmos, por meio da Palavra de Deus, as superstições, os desvairos, as ostentações com as quais vestimos a nossa pretensa prática cristã. É o tempo para rechaçar os comprometimentos que traem a mensagem evangélica. É o tempo para recusar uma religiosidade construída à nossa medida e nos convertemos aos caminhos propostos por Jesus. Isto será possível se tivermos a coragem de nos confrontarmos com a Palavra de Deus. Na quaresma, devemos ser capazes de um pouco de deserto, de um pouco de silêncio e de um mínimo de coragem para irmos às raízes mais profundas da fé e do amor. A conversão a que somos convidados não é outra coisa que dar as costas aos nossos medíocres projetos, às nossas míopes aspirações e voltarmos, de peito aberto e corpo inteiro, ao desígnio original do Senhor: amar! A penitência é a nostalgia da nossa autêntica grandeza. A quaresma nos chama a abandonarmos a preguiça e o tédio, pois “o preguiçoso é como um pedaço de papel higiênico usado; é um nojento que é desprezado por todos. É como esterco num monte de lixo; quem encosta as mãos nele, trata logo de lavá-las” (Eclo 22, 2, Bíblia Sagrada, Nova tradução na linguagem de hoje, São Paulo, Paulinas, 2005).

CONTEMPLAR

A Terceira Tentação, William Blake, c. 1803-5, aquarela, lápis e pena sobre papel, 41,5 x 39,3 cm, Victoria and Albert Museum, Londres, Grã-Bretanha.